quinta-feira, 29 de maio de 2008

A mitologia de Príapo

Nosso ponto de partida serão as histórias de Príapo, correntes na Grécia e em Roma, aproximadamente a partir de 200 a.C. até o quarto século da era atual. As histórias, em si, são poucas e muito dispersas, mas contêm temas e alusões que remetem a todas as direções da complexa rede da mitologia clássica. Seguir-lhes os fios resultará numa textura rica de lendas e narrações adicionais. Vamos reencontrar as mesmas elaborações mais adiante, ao observarmos como a inflação se apresenta no material clínico e nos fenômenos culturais.
Pausânias acreditava que Príapo era filho de Dioniso e Afrodite, embora Adônis, Hermes e Pã também tenham sido mencionados como possíveis pais, e Quione também como mãe
. Por ciúmes, ou por sentir-se ultrajada pela promiscuidade de Afrodite, Hera fez Príapo nascer com genitais enormes. Uma barriga grande e outros exageros também às vezes lhe são acrescentados. A mãe o abandonou e ele foi criado por pastores.
Em duas Histórias Príapo é associado ao asno. Na primeira Robert Graves cita o relato de Ovídio, em que Príapo tenta violar Héstia enquanto estava bêbado "numa festa de camponeses assistida pelos deuses, quando todos caem no sono, após beberem demais; mas o zurrar alto de um asno acorda Héstia, que grita ao ver Príapo prestes a montar sobre ela, o que o faz sair correndo, num terror cômico".
A segunda história é contada por Higino, numa citação de Edward Trip. Príapo envolveu-se numa discussão com um asno dotado de voz humana por Dioniso. Eis o que Trip escreve:
"0 que se tem são apenas sugestões da história completa, mas podese imaginar que Príapo e o asno, animal notório por suas proezas sexuais, estavam contando vantagens sobre o tamanho dos relativos apêndices físicos dos quais muito se orgulhavam. A gabação levou a uma disputa em que o deus levou a pior. Enfurecido pela derrota, Príapo espancou o asno com um bastão até matá-lo. Dioniso imortalizou o animal colocando-o no céu como uma das duas estrelas conhecidas como Os Asnos".
Kerényi nos diz que Príapo parece, por fim, conseguir alguma ajuda de Hera, e esta o torna instrutor de dança de Ares.
Sua imagem era usualmente posta em jardins e pomares, onde "ele propicia a fecundidade dos campos e rebanhos, a criação de abelhas, o cultivo das vinhas e a pesca"
. Segundo Funk e Wagnall, "a ele são oferecidas as primícias da colheita de frutos nas fazendas". Graves ainda acrescenta que "ele é fruticultor, e carrega uma faca de poda", e é conhecido como "o podador da pereira", árvore consagrada a Hera.
O grande pênis de Príapo providencianos naturalmente o ponto focal para a elaboração psicológica dessas histórias. O seu tamanho também significa que devemos considerar as implicações do exagero fálico. Mas nas histórias há vários outros temas implícitos, cada um deles desenvolvendose como uma metáfora, e eles provarão ser da maior importância quando, mais adiante, traduzirmos os mitos em linguagem psicológica.
Poderíamos começar com o significado dos pais de Príapo. Seria uma grande digressão desenvolver amplamente o tema de Dioniso como pai. Mas a conexão com o êxtase, o instinto, a dança, a vinha, a natureza e Pã (enquanto opostos àqueles aspectos da masculinidade representados por Apolo: razão, deliberação, força de vontade, disciplina, e assim por diante) falam por si mesmos. Príapo nasce do êxtase físico instintivo e, do lado materno, da sexualidade, pois, como nos diz Graves, o único dever divino de Afrodite era fazer amor.

Se considerarmos que, além de Dioniso, Adônis e Hermes às vezes eram tidos como pais de Príapo, veremos nisso mais uma coisa: ele tende a ser o produto de uma masculinidade bela e adolescente, até aparentemente afeminada, como se os genitais enormes compensassem pela masculinidade nascente de seu pai, com a qual Afrodite ficou fascinada. A função de Hera, então, ao "deformar" Príapo, seria uma tentativa de restituir algum tipo de equilíbrio aos afetos de Afrodite exatamente como os atos de Hera freqüentemente acabam por conter manobras compensatórias sob a superfície dos revides gerados pelo ciúme.
Levando-se em conta a linhagem de Príapo, compreendemos porque é Héstia, entre todas as deusas, quem ele tenta violentar. Ela é a deusa que se oculta em modéstia e preside sobre o lar (a lareira) e a domesticidade. E, em certo sentido, é essa segurança da domesticidade que foi negada a Príapo, ao ser abandonado na infância por sua mãe. Ela, a sedutora por excelência, não deve ter achado fácil desincumbir-se das funções maternas, exatamente como acontece com muitas mulheres nos dias de hoje; e é de se esperar que, como qualquer um que passe pela experiência de abandono, Príapo sentisse ódio pela perda. E, além disso, como filho dos aspectos de Afrodite e de Dioniso, Príapo representa a união de duas forças notoriamente desagregadoras da estabilidade doméstica ao exigirem a integração nesse ambiente.
Mas por que ele é traído na violentação (que se poderia tomar como uma tentativa de ser reconhecido, aceito) justamente pelo asno, animal que lhe é tradicionalmente associado?
Creio que um número extenso de associações apresentadas por Graves explicam isso, pois elas levam ao tema da castração que, enquanto um oposto do priápico e concretização da cisão do fálico, está implícita em todo o nosso estudo. Graves nos diz que o asno selvagem é o espírito do vento do deserto, o siroco, conhecido como a respiração do Asno Selvagem, o Tifão, que traz consigo sonhos maus, impulsos assassinos e estupros. Ele diz mais adiante que o deus Set, cuja respiração se dizia ser Tifão (o siroco) havia massacrado Osíris
. E o esquartejamento de Osíris resultou, como se sabe, na perda permanente de seu pênis, o único dos catorze fragmentos em que foi despedaçado que a deusa Ísis não conseguiu recuperar.
Esta não é a única ligação mítica de Príapo com a castração; outra, como se pode perceber, é a sua designação como "o podador da pereira". Citando Graves novamente, as imagens fálicas consagradas a Príapo eram colunas de madeira, ou seja, árvores: "A pereira era consagrada a Hera, a deusa principal do Peloponeso e que por isso era chamada Ápia"
, e a imagem mais antiga de Hera, enquanto deusa da Morte no Héreo de Micenas, era feita da madeira dessa árvore".
Graves também informa que apis é um substantivo derivado de apios, adjetivo homérico que comumente significa "distante", mas que, quando aplicado ao Peloponeso (cf. Ésquilo, Os suplicantes, 262), significa "de, ou relativo à pereira"
. Entretanto, apis é também o termo latino para abelha, e para a mente latina o Peloponeso, o lugar de Hera, vinha inevitavelmente associado às abelhas, das quais, conseqüentemente, Hera tornou-se a rainha.
Havia ritos a Cibele, e que eram amplamente praticados na Roma dos primeiros séculos da era cristã. Os romanos consideravam-na a esposa de Saturno que castrara Urano, e seus rituais originavam-se na destruição, por Afrodite Urânia, do rei sagrado, "que copulou com ela no alto de uma montanha, como a abelha rainha destrói o zangão: arrancando seus órgãos sexuais. Daí... o culto a Cibele, a Afrodite Frígia do monte Ida (e equivalente ao hermafrodita Agdistis) sob a forma de uma abelha rainha, e a autocastração orgiástica de seus sacerdotes em memória de seu amante, Atis".
Vê-se por aí que a castração nunca se encontra distante de Príapo, e a sua faca de podar assume uma potencialidade de uso que não devemos perder de vista. Mais ainda: o tema da autocastração ligado a Átis, como resultado do amor enlouquecido por uma mãe-amante hermafrodita tem implicações que merecem aprofundamento devido à sua conexão com algumas formas contemporâneas de homossexualismo masculino e seu fascínio pela imagética fálica (é interessante notar que o sangue do ferimento de Átis transformouse em violetas que nasceram pela primeira vez sob o pinheiro onde ele se feriu
, pois de há muito tempo essa cor tem uma associação com formas e modas homossexuais).
Vamos agora juntar material relativo ao tema da árvore para completar a série de associação mitológica. Isso já foi mencionado no contexto das imagens de madeira de Príapo e da pereira que ele poda. Tendo já estabelecido uma associação com a Grande Mãe Cibele, podemos usar o trecho abaixo, de Jung, para a síntese e elaboração dessa parte do nosso material:
"Outro símbolo materno igualmente comum é o bosque da vida... ou a árvore da vida. Primeiramente a árvore da vida pode ter sido uma árvore genealógica produtora de frutos, conseqüentemente, uma espécie de mãe tribal. Inúmeros mitos dizem que seres humanos nasceram de árvores, e muitos relatam como o herói havia sido aprisionado no tronco de uma árvore materna, como Osíris morto dentro de um cedro, Adônis dentro do mirto etc. Numerosas divindades femininas eram adoradas sob a forma de árvores, vindo daí o culto de árvores e bosques sagrados. Assim, quando Átis castra-se sob um pinheiro, ele o faz porque a árvore tem um significado materno. A Juno de Téspia era representada por um galho, a de Samos por um prancha, a de Argos por um pilar, a Diana de Cária por um bloco de madeira bruta, a Atena de Lindos era uma coluna polida. Tertuliano chamava a Ceres de Paros de `rudis palus et informe lignum sine efiigie' (um tronco informe e rude de madeira, sem rosto). Ateneo informa que a Latona de Delos era' ...um pedaço informe de madeira'. Tertuliano também descreve uma Palas ática como `crucis stipes' (estaca de uma cruz). Uma viga nua de pau, como o próprio termo indica, é fálica".
Jung prossegue, observando que o termo grego phallos poderia designar "um mastro, um lingam cerimonial esculpido em tronco de figueira"; que as estátuas romanas de Príapo eram de figueira, e que phallos e phalanx falange têm a mesma raiz etimológica. As falanges levam tanto ao tema da castração quanto ao da autonomia fálica, pois quando a mãe-amante de Atis implorou a Zeus que fizesse seu filho viver novamente, tudo o que ele pôde fazer foi dar vida à menor falange do dedo mínimo do deus, que continuou a mover-se por si mesma.
Jung estende a raiz phal a phalós, que ele informa significar "luminoso, brilhante", e observa que a raiz indoeuropéia é bhale, "fazer volume, inchar". "Quem", pergunta Jung, "não pensaria no Fausto `isto tem luz, brilha e cresce em minha mão!'?"

O tour-de-force interpretativo de Jung amplia o contexto que envolve o duplo sentido de Fausto, citado por Jung em outro trecho:
"Mefistófeles: Parabéns, antes que você se separe de mim! Você conhece o demônio, é fácil convir. Tome, pegue esta chave aqui.

Fausto: Uma coisinha dessas? E para quê?
Mefístófeles: Primeiro pegue; não é nada para se desmerecer.
Fausto: Isto tem luz, brilha, cresce na minha mão!
Mefistófeles: Do seu valor pleno, logo você terá compreensão. Esta chave fareja a origem de todas as outras, suas irmãs. Siga-lhe a pista e ela o levará às Mães!"
Para Jung aqui está implícito que o fálico leva ao "território das mães... de não poucas conexões com o ventre e o útero, a matriz, que com freqüência simbolizam o aspecto criativo do inconsciente".
Nesta última observação Jung faz o mesmo que nossa comparação mitológica, mas usando metáforas diferentes, ou seja, demonstrou que uma relação adequada com phallos parece levar a uma conjunctio, isto é, ao encontro criativo entre phallos e a matrix, entre masculino e feminino.
Separar-se de phallos, efetivamente a castração, resultaria em esterilidade e num fascínio pelo falo, na obstinação pelo seu resgate. Mas a busca infla naturalmente a importância do objeto procurado, e caso o buscador não tenha percepção psicológica, e confunda o símbolo concreto com o objetivo, sua busca vai transformar-se na procura incessante e infrutífera que leva tantos homens à análise.

Autor: James Wyly
Fonte: Revista Rubedo

terça-feira, 27 de maio de 2008

Jezebel, a rainha difamada

Por mais de 2 mil anos, Jezebel foi reputada como a menina má da bíblia, a mulher mais iníqua que existiu. Reabilitar a reputação manchada de Jezebel é uma tarefa árdua pois ela é uma mulher difícil de se gostar. Ela não é uma figura heróica como Débora, uma irmã devotada como Míriam ou uma esposa preciosa como Rute. Jezebel não pode sequer ser comparada com as outras ‘meninas más’ da bíblia como Dalila e a esposa de Potifar.
Existe muito mais nesse complexo personagem do que a interpretação comum permite. Encaixando as peças do mundo onde Jezebel viveu, surge uma imagem mais ampla dessa mulher fascinante. Não é uma estória bonita e muitos ainda ficarão perturbados com o mito de Jezebel.
A estória de Jezebel é recontada em trechos do Livro dos Reis, atribuído a um autor ou grupo de autores coletivamente chamados de Deuteronomistas. Um dos principais propósitos dos Deuteronomistas é explicar o destino de Israel por causa de sua apostasia. Quando os Israelitas chegaram na Terra Prometida, o ‘povo escolhido de Deus’ insistia em se desviar. Eles pecavam contra Yahveh de diversas maneiras, a pior delas era adorar divindades estrangeiras. Quando Jezebel entra em cena, ela providencia uma oportunidade perfeita para os Deuteronomistas ensinarem uma lição moral sobre os efeitos danosos da idolatria, pois ela foi uma estrangeira idólatra que parecia ter poder sobre o marido. Do ponto de vista dos Deuteronomistas, Jezebel encarna tudo que deve ser eliminado de Israel para que a pureza do culto de Yahveh não seja mais contaminado.
O antagonismo vem primariamente da religião de Jezebel. Jezebel, como filha do rei Etbaal, deve ter servido como sacerdotisa de Baal e Astarte. Quando Jezebel chegou em Israel, ela trouxe seus Deuses e Deusas. Ela deve ter afetado seu marido, o rei Acab, que construiu um santuário de Baal na Samaria. Jezebel não aceitou Yahveh, mas conduziu o rei a tolerar Baal. Este foi o motivo pelo qual ela foi difamada pelos Deuteronomistas, cujo objetivo era varrer o politeísmo. Ela representou uma visão feminina oposta à exaltada em personagens como Rute. Jezebel permanece determinada em suas crenças. O casamento de Jezebel com Acab foi uma aliança política, mas embora pareça ser um assunto de política externa, era intolerável aos Deuteronomistas por causa da idolatria de Jezebel.
A bíblia não conta o que a jovem Jezebel pensava sobre casar com Acab e mudar-se para Israel. Os sentimentos dela não são interessantes dos Deuteronomistas nem eles estavam interessados nos propósitos didáticos da História. Não sabemos sequer se Etbaal consultou sua filha, se ela deixou a Fenícia com apreensão ou entusiasmo, ou o que ela esperava de seu papel como rainha. Como todas as outras mulheres aristocráticas de seu tempo, Jezebel foi provavelmente um instrumento, embalado para o maior comprador.
Os costumes de Israel era bem diferentes da terra natal de Jezebel. Ao invés da abundante garoa litorânea, ela encontraria uma nação árida e deserta. Além do mais, a Torah mostra os Israelitas como um povo etnocêntrico e xenófobo. Nas narrativas bíblicas, estrangeiros não erma bem-vindos e preconceito contra casamentos interraciais eram vistos desde que Abraão procurou uma mulher de seu povo para casar com seu filho Isaque. Em contraste com os Deuses e Deusas familiares a quem Jezebel estava acostumada a adorar, Israel era a terra de uma religião estatal de um solitário deus masculino. Talvez Jezebel acreditava, otimista, que ela poderia encorajar a tolerância religiosa e dar legitimidade à adoração de Baal que existia em Israel. Talvez Jezebel se via como uma embaixadora que poderia unir os dois povos e trazer pluralismo cultural, paz regional e prosperidade econômica.
De acordo com os Deuteronomistas, o desejo de Jezebel não era conquistar a igualdade étnica ou religiosa. Ela parecia estar obcecada a eliminar os fiéis servos de Deus de Israel. Ao contrário de muitas viúvas e concubinas mudas da bíblia que nos mostram a submissão feminina no antigo Israel, Jezebel tinha uma língua. Enquanto sua rudeza verbal mostra que ela mais ousada, esperta e independente do que muitas mulheres de seu tempo, suas palavras devastadoras também demonstram sua pecaminosidade. Jezebel transformou o precioso instrumento da linguagem em um maligno objeto para blasfemar contra Deus e desafiar o profeta. Elias ficou tão apavorado com as ameaças de Jezebel que ele fugiu para o monte Sinai, a despeito do que ele testemunhou no monte Carmelo.
Não há qualquer evidência na bíblia que Jezebel era infiel ao seu marido. Na verdade, ela foi mostrada como esposa leal e auxiliadora, embora sua assistência foi deplorada pelos Deuteronomistas. Enquanto os estoriadores bíblicos querem dar uma imagem final de Jezebel como uma adúltera ousada, uma interpretação mais simpática de seu comportamento tem mais credibilidade. Quando tudo que uma pessoa deixa na vida é a forma como ela encara a morte, sua ação final mostra seu caráter. Jezebel deixou este mundo como uma rainha. Como filha, esposa, mãe, sogra e avó de reis, Jezebel entendia a política da corte bem o suficiente para perceber que o rei Jeú tinha mais a ganhar matando-a do que mantendo-a viva.
Os Deuteronomistas usaram todo tipo de argumento para criar um caso contra ela. Alguém deveria levar a censura dos autores contra a apostasia de Israel e Jezebel foi escolhida para esse trabalho. Cada palavra bíblica a condena: Jezebel era uma mulher eloqüente em um tempo em que as mulheres tinha status menor e poucos direitos; era uma estrangeira em uma terra xenófoba; uma idólatra em um local com uma religião baseada em Yahveh e sustentada pelo Estado; uma homicida e intrometida nos assuntos políticos em uma nação intensamente patriarcal; uma traidora em um reino onde nenhum soberano está acima da lei e uma leviana em um território onde os Dez Mandamentos originaram.
Sim, há muito a admirar esta antiga rainha. Em uma análise amigável, Jezebel emerge como uma pessoa ardente e determinada, com uma intensidade apenas comparável a de Elias. Ela foi sincera com sua religião e costumes nativos. Ela foi muito fiel a seu marido. Em seu reinado, ela exercia brutalmente o poder que tinha e, no fim, tendo vivido sua vida em seus próprios termos, Jezebel encara a morte certa com dignidade.
Autor: Janet Howe Gaines
Fonte: Phoenicia
Nota: por falar em 'livros sagrados' e mulheres, a bíblia também tem um problema. Quando um personagem feminino age de acordo com as espectativas da elite sacerdotal, ela é elogiada e santificada, como a prostituta Rahab. Quando ela não é submissa, é difamada e demonificada, como a rainha Jezebel.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Djinn – o ‘daemon’ árabe

Quando se fala em um tipo étnico, acabamos por generalizar vários povos dentro de uma categoria étnica. Por exemplo, Europeus para os diversos povos da Europa, Africanos para os diversos povos da África, Árabes para os diversos povos da Península Arábica.
Quando se fala na herança cultural e religiosa destes tipos étnicos, a análise ou explicação das raízes míticas destes povos ficam complexas e dificeis de esclarecer.
Os descendentes dos Europeus estão redescobrindo suas raízes Pagãs enquanto os descendentes dos Árabes ainda estão na Idade Média da Teocracia. Ainda assim as raízes míticas dos Árabes conseguiu sobreviver à reforma do profeta Mohamed – um tipo de Zoroaster do povo Árabe – nas lendas de Simbad e Alladin. Entretanto, o livro “As Mil e Uma Noites” está para a antiga religião Árabe como o livro “Teogonia” está para a antiga religião Grega.
Antes do profeta Mohamed existia entre os Árabes alguma forma de religião antiga que pode ser considerada, a grosso modo, de ‘religião pagã’ pelo fato que esta religião foi banida e proibida pela reforma do Islã. Mas qual, efetivamente, seria a ‘antiga religião Árabe’ que existia antes do profeta e sobreviveu de forma fragmentada na religião do Islã? Pelo que se indica no Alcorão [Surata 15,26-27], a ‘antiga religião Árabe’ era politeísta [veja o tópico sobre as ‘raízes míticas do Islamismo’] e evocava entes elementares chamados de djinn [gênio, em português], da mesma forma como existiu entre Gregos e Europeus.
Entidades elementares, ligadas metafísicamente à Natureza estão presentes em todas as religiões. Os Judeus praticamente deram aos Cristãos a idéia dos anjos; os Gregos tem os daemons, de onde os Cristãos desenvolveram a idéia de demônio; os Europeus tem a idéia das fadas, gnomos, duendes, elfos.
O povo Árabe [como também o povo Judeu] foi formado por diversos povos, todos politeístas e animistas, começando pelos Sumérios, pelos Babilônicos, pelos Assírios e pelos Cananeus. Mais específicamente, a reforma do Islão assimilou a religião dos clans árabes diretamente ligados ao profeta, como os clãns Hachemita e o clã Coraishita, bem como assimilou a religião do povo Nabateu, do povo Sabeu e do povo Arameu. A tendência ao monoteísmo se deve às influências do Zoroastrismo, Judaísmo e Cristianismo. Os djinn são um resquício dessa herança ancestral que nós, (neo)Pagãos, esperamos que os muçulmanos e seus ‘primos’ monoteístas redescubram para que cesse toda forma de fanatismo, fundamentalismo e intolerância.

sábado, 24 de maio de 2008

Raízes míticas do Islamismo

Notícias pelo mundo de violência contra imigrantes não é surpresa para este pagão. A xenofobia é apenas uma das formas de histeria social contra o 'diferente', o 'estranho', que sempre acaba se tornando 'bode espiatório' quando existe uma crise na sociedade constituída.
Políticos, como são oportunistas, costumam 'defender' uma ou outra bandeira levantada pela opinião pública para conquistar ou manter o poder, mas as políticas de um país costumam ser traçadas por diversas negociações.
A mesma fobia pode ser vista entre as religiões monotéistas. Evangélicos acusando Católicos de terem 'origens pagãs', Católicos acusando Mórmons de terem 'origens pagãs', Judeus acusando Adventistas de terem 'origens pagãs' e Muçulmanos acusando Cristãos de terem 'origens pagãs'. Apenas (neo)Pagãos ostentam orgulhosos sua 'origem pagã', mesmo que acabem sendo atacados por todos os demais por serem um 'culto a Satan'.
Para variar um pouco, eu irei comentar as possíveis raízes míticas do Islamismo, incluindo até as refutações dadas por Muçulmanos.
Para iniciar, nada melhor que uma citação, baseada no fato de que o Islamismo é, como uma religião monoteísta, uma religião literária, baseada no Alcorão, Surata 53, 11-20:
O coração (do Mensageiro) não mentiu, acerca do que viu.
Disputareis, acaso, sobre o que ele viu?
Realmente o viu, numa Segunda descida,
Junto ao limite da árvore de lótus.
Junto à qual está o jardim da morada (eterna).
Quando aquela coisa envolvente cobriu a árvore de lótus,
Não desviou o olhar, nem transgrediu.
Em verdade, presenciou os maiores sinais do seu Senhor.
Considerai Al-Lát e Al-Uzza.
E a outra, a terceira (deusa), Manat.
Estas 'mulheres' são referidas ora como sendo 'as filhas de Allah', ora como uma metáfora para o tempo em que o povo árabe 'estava perdido na idolatria'. Alguns muçulmanos intelectuais dizem que não se pode falar da 'origem pagã' de Allah porque é um termo igual a 'Deus' na bíblia, mas se esquecem que há vários nomes e conceitos para 'Deus' na bíblia, como El, Elohim, Adonai, Yahveh (em português ficou simplesmente como 'Deus' ou "Senhor'), o que não explica e não refuta as raízes míticas.
O que custa (e muito) aos Muçulmanos é ver o óbvio de que se falava de Deusas, não de uma metáfora, não de mulheres, não de 'filhas'. Seus 'primos' também não tem muito como escapar, pois igualmente tanto no Cristianismo como no Judaísmo há a raiz mítica da Deusa. Os muçulmanos fazem a peregrinação a Meca para rodear cerimonialmente a Kaaba sete vezes, em sentido anti-horário para prestarem reverência à Pedra Negra, um meteorito curiosamente encravado em uma moldura que se parece muito com uma yoni.
Evidentemente, o Deus adorado pelo Judaísmo, Cristianismo e Islamismo não são os mesmos de suas raízes míticas, mas elas existem e conectam estas três religiões com a mesma herança cultural que os (neo)Pagãos tentam resgatar. Um dado curioso é que todos sempre distorcem fatos históricos e arqueológicos para sustentar suas posições, sejam críticas ou teológicas. Ora, se as evidências das 'origens pagãs' de cada uma dessas religiões levantados pelos críticos são praticamente as mesmas, então não cabe a qualquer de seus seguidores criticar seus 'primos' ou aos (neo)Pagãos.

Sabbat: origens pagãs

Teorias a respeito da origem do sabbat como uma instituição de origem pagã:

1ª) Teoria Planetária.

A origem do sábado está intimamente relacionado com a origem da semana. No século XIX acreditava-se comumente que o uso do sétimo dia da semana surgiu da antiga veneração dos sete planetas.
A astrologia da antiga Babilônia incluía o sol e a lua, e cinco dos corpos celestes conhecidos hoje como planetas ‑ Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Os dias da semana foram então denominados de acordo com os planetas ou os deuses relacionados aos planetas.

2ª) Teoria Pan-Babilônica

Esta teoria provavelmente foi apresentada pela primeira vez por Friedrich Delitzsch, o famoso assíriologista alemão, num discurso apresentado no dia 13 de janeiro de 1902, na presença do imperador alemão Wilhelm II. Delitzsch afirmou: "Pode haver, portanto, pouca sombra de dúvida, em última analise, de que somos devedores a esta antiga nação (Babilônia) entre as margens do Eufrates a do Tigre, pela plenitude das bênçãos que emanam do nosso dia de sábado ou descanso dominical. Descobertas arqueológicas, no final do século passado, trouxeram a luz grande numero de tabletes cuneiformes babilônicos; sendo que em vários deles aparecia a palavra "shabatum" (ou "shapattu"). A palavra era usada para designar o 15º dia do mês, ou o tempo da lua cheia no mês lunar babilônico. Em um tablete ele é descrito como o "um nuch libbi', que foi interpretado como significando 'um dia de apaziguamento do coração', ou um dia de pacificação de Deus".
Outros tabletes indicavam que o 7º, o 14º, (o 19º), o 21º e o 28º dias dos meses de Elul a Marcheshwan eram maus dias ou dias de má sorte. Nesses dias o rei era proibido de comer carne assada sobre brasas ou qualquer alimento tocado pelo fogo. Ele era também proibido de andar em sua carruagem, de trocar suas vestes, ou de discutir assuntos do estado.
Nesses dias os sacerdotes não deveriam consultar os oráculos, os médicos não deveriam tratar dos doentes. Nesses dias, de acordo com outra serie de tabletes de argila babilônicos, sacrifícios especiais eram oferecidos aos deuses.


3ª) Teoria da Festividade Lunar

Outra teoria, intimamente relacionada a PanBabilônica, que o sábado hebreu a uma reminiscência da antiga festividade lunar, que pode ou não ter se derivado de Babilônia, aparenta ter apoio na Bíblia. Esta exaltada idéia do sábado foi um dos resultados do Exílio. A origem da observância permanece em discussão, mas parece razoável supor, em vista da justaposição da lua nova com o sábado, que se originou da festa da lua cheia.
Podemos supor, além disso, que, quando Israel dedicou-se à agricultura e abandonou a adoração de Deusa-Lua, que fazia parte de sua religião quando como nômades vagueavam à noite pelo deserto, a conveniência fez com que a ocorrência desses dias sagrados fosse regularizada separando-os das fases da lua e o sábado a cada sete dias foi o resultado – a festa da lua nova sendo retida independente dele.
Foi para prover-lhe uma razão que P (o ‘Código Sacerdotal’ pós exílico dos liberais) falou que Deus descansou no sétimo dia e o santificou.

4ª) Teoria Cananita

Outra teoria em relação com a origem pagã do sábado, é defendida ao afirmar: “Certamente as condições de uma vida nômade no deserto da Arábia, seu lar original, onde a pecuária era a fonte primária da subsistência humana, não permitiriam às clãs ou tribos hebréias cessar mesmo por pouco tempo as constantes e diárias atividades pastorais e observar um sábado semana, um dia de abstenção de todas as atividades.
Toda a evidência disponível indica inconfundivelmente que o sábado só poderia ter-se originado em um ambiente agrícola. Na realidade os hebreus familiarizaram-se com o sábado somente após terem-se estabelecido na Palestina e haverem-se instalado na terra ao lado de seus predecessores cananeus, os quais em certa medida eles desalojaram, de quem emprestaram as técnicas do cultivo do solo e com elas as várias instituições da civilização agrícola, das quais o sábado era uma.
Essa posição é esclarecida através das seguintes palavras: “Na verdade, o sábado teve sua origem num calendário singular e primitivo, distintivamente de caráter agrícola, corrente entre os vários povos semitas ocidentais até aproximadamente o ano 1.000 AC. Este calendário era baseado nas diversas estações do plantio, cultivo, amadurecimento e o costume da sega anual. Era uma das instituições da cultura cananita que os recém chegados hebreus absorveram.
Ele estava em uso entre os semitas orientais dos tempos antigos, e foi indubitavelmente desse calendário que o ‘sabattu’ babilônico derivou. Conseqüentemente, em vez do sábado hebreu ser um desenvolvimento do ‘sabattu’ babilônico, ambas as instituições, o ‘sabattu’ babilônico e o sábado hebreu, surgiram de uma mesma fonte (o calendário agrícola dos cananeus)."
E o dicionário conclui afirmando: “Como uma instituição religiosa cananita, ele era de caráter completamente negativo, um mau dia, um dia de total abstinência das atividades, mas não mais do que isto. Foi Israel que, embora retesse essa maneira primitiva de celebração, gradativamente transformou‑o num dia de alegria de espírito e de positiva a alegre adoração da Divindade."
Nota: não se pode se esquecer que os Judeus receberam uma enorme influência do Zoroastrismo Persa, de quem foi copiado a crença monoteísta. A priori, o passado dos Hebreus e dos Israelitas indica que eles adoravam uma Deusa lunar. A raiz mítica da festividade do sabbat e do esbat, tanto de Bruxos quanto de Judeus, vem dos mitos ligados à Inanna, Ishtar, Asherat e Astarte.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Inanna, a face erótica da Deusa

O Continente Humano é marcado pelo Planalto Dos Mitos, composto por vários picos, montanhas e morros, alguns tão antigos quanto o tempo, outros mais recentes mas tão altos quando um prédio de 5 andares.
De tempos em tempos, alguns dos moradores do litoral se aventuram em busca de respostas a perguntas que existem desde que apareceu no Continente Humano. De tempos em tempos, os que empreendem esta viagem voltam loucos e tornam a vida louca. De tempos em tempos, outros vão em busca de uma cura para tal loucura e ao longo da épocas, mais morros surgem, montanhas são formadas, novos picos são descobertos.
O escritor exilado, cansado da superficialidade e da futilidade do seu povo, resolve continuar em sua busca solitária, para compreender a vida, o mundo, a magia e a existência. Passou pelos desertos dos adoradores do Deus ciumento, cada um dizendo ser o único; passou pelos cerrados dos adoradores da Deusa ameba, tentando negar sua vizinhança com o deserto; passou pelos que brincam na borda de precipícios, deslumbrados com a própria sombra que projetam e, mesmo que com dor, passou pelos que conheciam os Caminhos do Bosque Sagrado. Ele não estava satisfeito com os sacerdotes, com as instituições, com os sistemas. Então ele foi corajosamente em busca da Fonte.
O problema, diriam os mais sábios, é que não há uma Fonte. Cada parte do Planalto do Mito leva a um conjunto de montanhas e picos, Fontes nascem de cada montanha e pico. Isso é tão óbvio, mas conforme a caminhada e a altitude vão crescendo, o cansaço e a falta de ar ou mata ou enlouquece o Peregrino.
O escritor exilado andou por alguns caminhos, conheceu algumas montanhas, alcançou alguns picos, escrevia seus textos para olhos cegos. O seu povo estava muito ocupado seguindo flautistas. Eles nunca iriam reconhecer a face negra da Deusa, nem a face severa. Considerando que muitos sequer dão ao Deus a mesma importância que a Deusa, dificilmente nesse tipo de puritanismo assexuado disfarçado de 'sagrado feminino' seria reconhecido a face erótica da Deusa. Mas Ela está lá, Inanna, poderosa e eterna, de quem veio Ishtar, Lilith, Astarte, Afrodite, Sheila Na Gig. Uma face que dificilmente poderá encontrar lugar entre meninas que são forçadas a serem misândricas e entre meninos que são forçados a serem efeminados.
Inanna, como a face erótica da Deusa, quer e espera ser coberta por um Deus vigoroso, ser invadida e preenchida por um Deus viril, ser satisfeita e plena por um Deus macho.
O motivo pelo qual o monoteísmo baniu o prazer e a alegria do sexo foi para tornar a humanidade frustrada e violenta. Isso só poderia ser conseguido se tirassem do Deus que crêem todas as características que fazem um Deus ser Deus, que é sua identidade de gênero, bem como seus desejos e falhas. Triste é tentar criar uma nova forma de anti-Deus que não o Embusteiro, nascido e criado da sombra do Deus esterilizado e divorciado, com esse enfoque obcessivo na Deusa ameba.
Que tipo de 'sagrado feminino' é esse onde os homens e o Deus não podem ser machos? Que tipo de 'sagrado feminino' é esse onde as mulheres e a Deusa não pode ser feminina? Ser macho significa dar valor à comunidade, à família, à fêmea. Ser fêmea significa dar valor à sensualidade, ao erotismo, ao sexo. Não há 'sagrado feminino' onde não há espaço para o sagrado masculino. Não há a Deusa geratriz onde o Deus é castrado.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Anna, a última bruxa

Entre a miséria, as pestes e a inquisitória repressão religiosa, Anna, com suas faces róseas e sua primorosa boca que Renoir pintaria somente dois séculos depois, florescia em sua mocidade despertando a cobiça dos homens e, dentre eles, o sacerdote da Igreja do gélido povoado de Wasterkingen da Suíça.
E foi num dia após o culto religioso que ela fora convidada a permanecer na Igreja com o pretexto de auxiliar na limpeza do sacro altar. Altar este, cenário da barbárie que lhe foi feita, onde pega por traz teve sua boca amordaçada quando sentiu o fungar quente e mal cheiroso em sua nuca, e em sua pele macia de pêssego, os dentes afiados e o roçar da barba mal feita do Monsenhor, enquanto suas saias eram levantadas e rasgadas desvendando suas alvas e sedosas pernas fortes de camponesa esculpidas do trabalho nos Alpes. Sentiu em suas ancas as unhas sujas serem cravadas na carne. E entre suas volumosas nádegas tenras a introdução brutal que a fez quase desfalecer em transe e dor. Quando virada de frente, pode ver o homem com o olhar satânico, o animal que tanto fedia com o suor escorrendo na testa, ávido por devorá-la, morder-lhe até sangrar os seios; que pela pouca idade ainda não haviam acabado de crescer. E ele debruçou sobre seu delicado corpo mais de uma centena de quilos gordurosos fazendo-a perder o fôlego deflorando seu sexo até então imaculado. E sobre a luxuosa mesa gelada de mármore carrara do altar, junto ao ouro dos castiçais e do Santo Graal, às hóstias e sob aquele teto de pinturas celestiais e estátuas de Santos martirizados, ela aguardou submissa, até o estrebuchar saciado da besta.
Fugiu como uma louca! aos prantos, escorrendo pelas pernas, toda descabelada, de carne e roupa rasgada! Não ia contar a ninguém sua vergonha, mas o sacerdote temendo sua denúncia gritou na porta da igreja: "Bruxa! Peguem a bruxa!" Foi pega pelos moradores que confirmaram seu estado de bruxa. A família interferiu, denunciou o Monsenhor, mas também foi arrolada na farsa. Levados a Zurique e encarcerados no presídio de Wellenberg, foi a julgamento pela Igreja que para comprovar de suas práticas satânicas despiram-na frente aos jurados mostrando as marcas em seu corpo. As marcas de quem havia se deitado com o demônio!
Em 15 de setembro de 1701, o cantão de Zurique, no norte da Suíça, executou pela última vez uma pessoa por bruxaria, Anna Rutschmann. Depois de um julgamento por bruxaria, foram executados oito pessoas, um homem e sete mulheres, a ultima, Anna Rutschmann. A causa desta execução em 1701 foi uma denúncia de bruxaria, apresentada por 32 moradores do povoado. Os acusados foram levados a Zurique, entregues à Igreja e encarcerados no presídio de Wellenberg, onde foram torturados até que se declararam culpados. Consta que Anna foi a ultima bruxa, mas a Igreja continuou queimando hereges por quase 100 anos após o fato. Pode parecer arcaico, mas a caça as bruxas continuou com a conivência da Igreja com a escravidão dos negros, da conivência do Papa Pio XII com os nazistas anti-semitas, com o preconceito contra os separados, divorciados, homossexuais e etc.
Autor: Madeu St'Ore

domingo, 18 de maio de 2008

Lilith Revelada

Ato I
Todo prazer, todo furor, esqueças do luzidio amor, não quero que tu sejas do amor, quero que tu sejas da depravação, minha filha, em meu mais negro coração.
Mulher, filha, vossa mãe Lilith lhe ordena que saibas valorizar cada lábio teu como a porta cósmica da universal realeza das coisas das cinco estrelas que regem o sangue das veias dos mundos.
Mulher, filha, eu, Vossa Mãe, Lilith, [abençôo] tua vulva, honre-me exercendo domínio sobre os homens.
Mulher, filha minha, esmagues a arrogância viril, mostres que tu é mais do que aquela que fica por baixo; fique por cima, faça dos homens um altar para que eu possa jantar.
Libera-te, mulher, eu ordeno que tu portes a Feminil Coroa do abismo da Liberdade!
Libera-te, mulher, eu ordeno que tu sentes no Feminil Trono do abismo das Potencialidades!
Libera-te, mulher, eu ordeno que tu governes no Feminil Império do abismo da Humanidade!
LIBERA-TE, MULHER, EU, LILITH, TE ORDENO!!!
LIBERA-TE, MULHER, EU, LILITH VOSSA MÃE, TE ORDENO!!!
LIBERA-TE, MULHER, EU, MAMÃE LILITH, TE ORDENO!!!
LIBERA-TE, MULHER, EU, LILITH LIVRE, TE ORDENO!!!
Ato IIAprendas, mulher, que o teu corpo possui todas as abismais chaves do verdadeiro Prazer, que tu mesma podes acessar em honra ao meu Ser;

Aprendas que tua boca é mais fervente do que as espadas dos Arcanjos e Arquidemônios;
Aprendas que teus seios são mais duradouros do que as colunas Jakin e Boaz do Templo Universal de todas as Relações e Revelações;
Aprendas que tuas nádegas são mais eternas do que as Montanhas Cósmicas do Infinito em infinita expansibilidade;
Aprendas que tuas coxas são mais macias do que o Tecido Universal a ligar todas as Esferas;
Aprendas que tua vulva é o Centro Universal das Raízes do Feminil Poder da Grande Fêmea que Eu Sou!
Lilith te diz, mulher, que os santos tiveram irmãs vossas nos braços, [os] Homens são assim, mesmo [os] santos, mesmo [os] Iluminados, ou [os] profanos e [os] depravados!
Lilith te diz, mulher, que todo homem é [um] pedaço [da] folha de uma Árvore chamada Paixão Cega das coisas, domine-os com vosso cheiro, com o cheiro de cada movimento vosso de Feminil Caminhar!
Lilith te diz, mulher, [o] Escorpião grita para a vitória da Serpente, a Serpente vibra diante do correr da Loba, a Loba uiva diante do poder da Aranha, a Aranha tece teias de mais poder para a Cadela, a Grande Cadela, Eu,Vossa Mãe,
sou Lilith, Lilith Cadela, Cadela Alta, Cadela Esperta, Cadela Sábia!
Lilith te diz, mulher, sejas uma cadela, cadela autoritária, cadela mandona, cadela matrona, cadela imperial, em minha honra,dê-se à todos os homens, dominando-os com os vossos caninos carinhos que os posicionam como cachorrinhos! Lilith te diz, mulher, vergonha não tenhas, cadela sejas, cadela sejas muito, cadela sejas demais, [ser cadela] te glorificará!
LIBERA-TE, MULHER, EU, LILITH, TE ORDENO!!!
LIBERA-TE, MULHER, EU, LILITH VOSSA MÃE, TE ORDENO!!!
LIBERA-TE, MULHER, EU, MAMÃE LILITH, TE ORDENO!!!
LIBERA-TE, MULHER, EU, LILITH LIVRE, TE ORDENO!!!
Ato IIIVá, mulher, dominação e força na exatidão, regente das forças do calor dos corpos viris que tu podes incendiar e domar, como [os] corpos de escravos enteusorados em baús de ouro que tu poderás guardar, entre o brilho do sêmen de cada um deles e o sangue que escorrerá de ti!
Vá, mulher, bebas o sêmen e o sangue deles, beba como imperatriz das Rondas Noturnas, das madrugadas nascentes de alto sangue, tornes teu corpo todo sangue!
Vá, mulher, bebas todo [o] sangue que cai [na] Terra, bebas todo sangue que sai da Terra, bebas todo sangue que escorre pela Terra, mordas cada um dos teus homens, retire-lhes sangue [e semen] e diga ORMAH GAURA HAMEN aos meus pés, ajoelhada diante da primeira igreja que tu encontrar em ruínas!
Vá, mulher, [sacralize o] teu corpo, masturbe-se até o Grande Êxtase Secreto que Eu te revelei, una-se a cada homem como Senhora maior deles, e assim tu estarás limpa e pronta para adentrar em meu templo, cheio de homens nus sevindo de solo para que neles pisemos, meu templo, templo de Lilith, Lilith Vossa Mãe, Lilith Vossa Maravilhosa Mãe, Lilith Vossa Mui Maravilhosa Mãe!
Vá, mulher, [eu] sou a Impura que te torna pura, regando os Jardins das Negras Esferas!
Vá, mulher, [eu] sou a Santa Puta que te torna respeitável senhora, imprimindo nos sóis negros a marca dos meus pés!
Vá, mulher, [eu] sou a Prostituta Sagrada [Original] que te torna decente mulher que não se curva diante do viril poder!
Vá, mulher, [eu] sou a [Deusa] Cadela que te torna leoa imperial em um mundo de verdades, acima do Um!
LIBERA-TE, MULHER, EU, LILITH, TE ORDENO!!!
LIBERA-TE, MULHER, EU, LILITH, VOSSA MÃE, TE ORDENO!!!
LIBERA-TE, MULHER, EU, MAMÃE LILITH, TE ORDENO!!!
LIBERA-TE, MULHER, EU, LILITH LIVRE, TE ORDENO!!!
Ato IV
Comemore, relembre, eu me revelando, Eu, Lilith, para todos vós, meus Filhos.
Integrem, entreguem, suor ao meu altar, sêmen ao meu pilar, os odores do sexo ao meu templo dentro de cada beijo.
Respondam, realizem, dou-lhes a Marca Marrom e a Beleza Rubra que contracenam convosco no Berço Do Prazer.
Explodam, exultem, Lilith canta para vós, Lilith canta para seus Filhos, Lilith Cantora, Lilith Lírica, Lilith Orquestra.
Enfiem, retirem, cinco é a Hora da Verdade, eu canto assim, eu canto para vós, eu canto em todas as [Camas].
Ato VCorram, louvem, abram seus cruzados braços no sexual enlace, contem comigo para amarrar-lhes nas linhas de Poder do Crescer Universal.
Empreguem, esperem, [eu] dou minha hora mais cinco vezes ao vento úmido do Leste, minhas pernas tremem pelas vossa pernas a tremerem quando [eu] chego.
Contenham, balancem, agitem seus quadris assim, no ritmo da flor que de mim amortece toda dor, Lilith aqui lhes é [a] Mãe Retirante de toda Dor.
Plantem, matem, os quadris remexendo no ritmar imbatível da Música Selvagem minha, esqueçam da noite, esqueçam do dia.
Enfiando, acumulando, fecundem meu ventre, fecundem meus lábios, fecundem minha vulva, fecundem meu útero, [Viver] é fecundar-me, [Viver] é adorar-me.
Ato VI
Levitem, sufoquem, a boca deve ficar cheia, cheia de toda aspereza, cheia de toda delicadeza, que a mim vos faz Mãe.
Machuquem, provoquem, a contínua [dança] é segura, [eu] sou a Senhora dos Resultados da Revelação Sexual, filhos meus, ouçam Vossa Mãe, palmas para o leito, palmas para a [dança].
Melindrem, meditem, seus poderes são [o] meu poder, maternalmente meu ardor é queimar o ardor de lhes ter, como Alimento, como Rebentos.
Sarem, rasguem, [o] gênio do prazer se chama o Esperado Encontro Falado comigo, [eu] estou sentada no leito, [eu] estou vendo cada ato.
Soluçem, solucionem, minhas fórmulas não são fantasias, minhas rotas desafiam as leis da natural esbórnia de celestes seres [assexuais].
Ato VII
Insistam, existam, cada prato do Prazer oferecido ao lento gozar da [dança] maior que se possa realizar, é o plantio do doce atuar meu em moradas que, entre minhas obras, abrem minhas [carnes].
Selecionem, impressionem, meus Filhos, Lilith Vossa Mãe cora diante dos enfraquecidos, [eu] quero [os] fortalecidos [adorando] e me oferecendo o espaço da minha estada mais prolongada nas Esferas de Caminhos que me são negados.
Prendam, soltem, sorriam diante do espelho do quarto nu à frente, [o] quarto do meu Caminho que semblante algum pode submeter, [o] quarto do meu Cadinho de Sangue bem guardado.
Permitam, pernoitem, escuridões minhas para todos vós, Filhos que nascem de cada [cerimômia].
Priorizem, privilegiem, [eu] sou a Vossa Cadela Mãe, a Lilith que late, a Lilith que ouve, [eu] estou de quatro, [eu] estou nua, [eu] estou [tomando], [eu] estou [recebendo].
Ato VIII[O] Grande Sexo é a povoação dos meus sonhos em vossos sonhos de amor e de prazer, [eu] sou da concupiscência e meu Ser Redentor é Ser Mulher, perfeita, em digna perfeição, ao lado da Serpente e do Dragão.
[Eu] sou da natureza da Serpente [que mancha] e sou da natureza do Dragão que purifica, [eu] sou Lilith, que na cova será revelada.
Me ame ou me odeie com intensidade, fome, força, paixão, mas nunca me esqueça. [Eu] sou a [Deusa] Verdadeira Original Fêmea.
[O] Grande Sexo une as gerações dos mundos, eu sou [a] Estrela Brilhando nos corpos dos mundos, meu singelo recado nasce dos fluidos elevados dos corpos nutrindo-se.
Cada desejo de prazer move o Kosmos, [que] é Prazer [e] Eu Sou o Prazer Encarnado entre a Mulher e o Homem no leito de cada [união].
[Eu] sou [o] Sexo e [o] Prazer, [o] Sexo das Esferas da Existencialidade, [o] Prazer das Grutas da Perpetuação, [eu] não posso do Kosmos ser removida.
[Eu] sou o sexo da fêmea com o macho, da fêmea com a fêmea, do macho com o macho, de todos os seres, eu sou [a] Senhora em seus sexuais órgãos.
[Eu] primo pelo puro prazer, rimo com o puro prazer, afinal de contas [eu] sou Lilith, Lilith do Verdadeiro Prazer, Lilith do Alto Prazer, [Lilith do Baixo Prazer], Lilith do Único Prazer.
[Eu] sou dos orgasmos, as sementes formadoras de sonhos e [os] sonhos sensuais pelo Kosmos e [eu] sou [a] Protetora dessas vidas sensuais que emergem dos leitos.
[Eu] sou dos pensamentos eróticos, as criaturas sensuais que moldam a união de todo ser com todo ser, [a] união que nenhum ser, mesmo os mais elevados, pode escapar.
[Eu] não sou a Virgem Maria, não sou a Madre Teresa, não sou uma mulher comum. Eu sou a Mulher. Não me julgues tu pela [despudorada] que [se] mostra na rua, [negado a sua decência]; não me julgues tu pela recatada, que [se] encobre [toda], negando a sua feminilidade.
[Eu sou ambas], eu sou a Mulher. Tu me recebes em vosso ser ao [desejar] e eu sou o [tesão] tomando teu corpo todo como meu e te movendo [para e] por mim, na busca da Grande Realização.
Revelo-me minha Mulher. Revelo-me meu Homem. [Revelo-me como tua mulher]. [Revelo-me como teu homem]. Lilith revela-se. Lilith quer revelar-se. Lilith quer revelar-te.

Autor: Ser Inominável.
Nota: partes do texto foram omitidas e as frases em [colchetes] são inserções minhas.

sábado, 17 de maio de 2008

As duas ex-esposas de Yahveh

Na soleira da porta, um gato fica como que guardando a entrada, enquanto do outro lado da rua os curiosos se apinham, querendo ver as "divorciadas" daquele que era chamado de Senhor dos Exércitos, tão temido por todos.
Conforme nos aproximamos da casa, o murmúrio da platéia aumenta, como se esperasse que um raio caisse sobre nossas cabeças. O problema, como eu tento explicar ao meu guia samaritano, é que nós viemos da Arcádia e temos que levar a reportagem. O gato se espreguiça e batemos na porta.
- Sim, quem é?
- Boa tarde. Nós somos da revista "Mulher Independente" que circula por toda a Babilônia e gostaríamos de entrevistar Aola e Aoliba.
- Por El! Como vocês ficaram sabendo?
Uma garota nos atende na porta, ironicamente vestindo as mesmas roupas que as canaanitas emancipadas usam.
- Os boatos correm rápido e vão longe.
- Sei. Concerteza foi uma de nossas cunhadas. Sentem-se. Muito prazer. Eu sou Aola e esta é Aoliba.
- Muito prazer. Conte-nos, como vocês conheceram Yahveh?
- Bom, como é de costume na nossa gente, fomos apresentadas a ele por parentes.
- E qual foi a primeira impressão?
- Ah...nós eramos...jovens...inocentes...eu tinha 12 anos e ela tinha 7...
- Nove! Se você tinha 12 eu tinha 9! Diz protestando Aoliba.
- Certo, certo...não vamos brigar. Mas você ficou mais entusiasmada com ele do que eu.
Aoliba dá uma risada abafada, nervosa e excitada. Revira os olhos como que procurando algo para não nos encarar.
- Eu sou mais jovem, mas mais...como eu posso dizer...
- Mais safada do que eu. Ri triunfalmente Aola.
- Eu não poss fazer nada se os meninos gostavam mais de mim! Diz Aoliba emburrada.
- Não vamos brigar! Enfim, nós eramos jovens e nos impressionamos com ele...
Aoliba desata a cara emburrada e enrubece ao nos dizer:
- Ah sim...a armadura...as armas...todo aquela comitiva de soldados...aquele cheiro de sangue e batalha...
Aola ri fragorosamente. Visivelmente mais à vontade, nos oferece vinho de palmeira.
- Servidos? Foi a única coisa boa que sobrou. O resto jogamos fora.
Aceitamos. O vinho desce macio. Excelente safra.
- Como foi o casamento?
- A cerimônia? Como é da nossa tradição. O problema foi depois...no que era para ser a nossa prima nocte...
- O que aconteceu?
Aoliba ri desaforadamente, nervosamente, mostarndo uma grande frustração.
- O que não aconteceu, vocês querem dizer...
- A espada dele era muito curta...
- A lança dele era curva...
- E então? O que vocês fizeram?
- O que ele fez...ou tentou fazer...é o mais correto...nos mandou sacrificar dois pombos e esfregar em nossos lençóis...
- Por que?
- Vocês conhecem a nossa tradição? Pois então...imagine aquele que é chamado de Senhor dos Exércitos, no dia seguinte, não ostentar a prova de nossa virgindade...ou pior...de sua virilidade?
- O que aconteceu a seguir?
- Evidente...nos recusamos...eu o empurrei do leito enquanto Aoliba saia correndo.
- Para onde vocês foram?
- Naquela altura dos acontecimentos? Com o medo de sermos apedrejadas? Nós fomos ao nosso tio, filisteu, a única pessoa que confiávamos e que poderia nos ajudar em uma emergência dessas.
- Isso deixou o marido de vocês em uma situação complicada.
- Nosso ex-marido, no dia seguinte chamou a assembléia e nos desprezou. Mentiu e disse que nós fugimos para nos prostituirmos com outros homens.
- Como suas famílias ficaram?
- Ah, a parte cananéia sofreu. A parte israelita protestou. A parte filistéia nos apoiou. No fim, Yahveh manteve sua honra, se é que ele sabe o que é isso e nós ganhamos nossa liberdade.
- Vocês não tem medo do que Yahveh pode fazer em represália enquanto vocês estão aqui na Samaria?
- O que ele poderia fazer, por El? As pessoas têm medo dele porque não sabem que ele não tem poder algum!
- Mas o seu povo o chama de Deus...
- Deus? Há! Aquilo não pode ser Deus. Aquilo não pode sequer ser considerado homem. Mas por respeito ao nosso povo, nós resolvemos deixar isso de lado e irmos viver, felizes, em liberdade.
- O que pretender fazer quando chegarem na Filistéia?
- Eu não sei. Mas...
- Eu sei. Eu vou procurar um homem de verdade, um Deus de verdade.
- Enfim concordamos, irmãzinha. Graças a nosso tio, conheçemos tantos homens...tantos Deuses...tantas espadas longas, tantas lanças rijas, tantos cetros poderosos...
Aola mordisca levemente os lábios e nos olha com languidez.
- Venha nos visitar, quando chegarmos lá...
- Uma última palavra para nossas leitoras?
- Só uma...sejam femininas, sejam independentes, sejam livres...sejam verdadeiramente mulheres.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

As origens pré-biblicas de Yahveh

Yahveh era o Bezerro Dourado.
O pedido dos Israelitas para Aarão fabricar o Bezerro Dourado é uma pista do autor/narrador que preconizam os dois Bezerros Dourados erigidos em Dã e Betel pelo Rei Jeroboão. O narrador informa sua audiência que adorar os Bezerros Dourados é errado porque eles são Deuses egípcios.
O problema? Um fragmento de cerâmica foi encontrada na Samaria da Idade do Ferro com a inscrição "egeliah", "touro-bezerro Yah". Isso sugere para alguns acadêmicos que Jeroboão não adorou o Bezerro Dourado como um Deus egípcio, ele acreditava que o Bezerro era o próprio "Yahveh" ou "Yah"! Isto é confirmado em um discurso de Aarão após fazer o Bezerro Dourado. Ele declara que no dia seguinte seria o dia de celebração a Yahveh (traduzido nas bíblias como "o Senhor"). Então, Aarão está aparentemente identificado o Bezerro Dourado com Yahveh.
Yahveh é também chamado de El na bíblia, usulamente traduzido como "Deus". O interessante é que Deus no Sinai está ligado em linguagem metafórica a um "boi selvagem de chifres longos" protegendo seu povo.
Os arqueologistas determinaram que mineiros egípcios do sul do Sinai também tinham operários asiáticos. Estes asiáticos deixaram inscrições pedindo a "El" para protegê-los. El é escrito em sinais arcaicos Proto-Sinaicos como eleph + lamd, como dois simbolos pictóricos, a cabeça de um boi selvagem de chifres longos e um boi-bode na forma de um cajado de pastor.
Então, aqui no sul do Sinai, nos séculos 17 e 15 AC, nós temos El, sendo retradado em seu "verdadeiro nome" como um boi selvagem de chifres longos, protegendo os mineiros asiáticos.
Inscrições Proto-Sinaicas encontradas em uma esfinge dedicada para a Deusa-vaca egípcia Hator, revelam que estes asiáticos não tinham problema em assimilar ou associar seus Deuses com os Deuses egípcios. Nos hieroglifos, a esfinge é dedicada a Hator, enquanto que a inscrição Proto-Sinaica a dedica a Baalat, significado "Senhora", um título dado a Hator em Biblos, que foi parceira comercial do Egito desde os tempos dos Reinos Antigos e que tinha um templo a Hator.
Eu concluo então pela base das evidências arqueológicas que Aarão declarando o "dia de celebração do Bezerro Dourado" ser um dia para honrar Yahveh é recordar as associações asiáticas de seus Deuses com os Deuses egípcios.
Nenhuma inscrição foi encontrada no Sinai ou Arábia na Idade do Bronze mencionando Yahveh.
Então, El, que guiou Israel para fora do Egito como "um boi selvagem de chifres longos" é arqueológicamente atestado nas inscrições Proto-Sinaicas do século 17-15 AC. Pelo nível que o Sol era o Deus supremo dos egípcios e podia assumir formas bovinas de um Bezerro Dourado tanto quanto o do poderoso Touro Dourado de Horus, não é supreendente que os asiáticos poderiam identificar seu Deus bovino supremo, El, com o Deus sol bovino dos egípcios, o "Bezerro Dourado"!
Então, parece que a afirmação de Aarão, associando o dia da celebração do Bezerro de Ouro com um dia de celebração a Yahveh não foi um "erro", provavelmente é uma lembrança genuína das associações da Idade do Bronze na mente dos mineiros asiáticos.
O Bezerro Dourado era associado com o nascer e o pôr do sol nos mitos egípcios, tal como Yahveh-Eloim ou El era retratado nas narrativas do Êxodo. Ali conta que Yahveh "alvorece e brilha" do monte Sinai, Paran e Seir, locações associadas com o sul do Sinai e Arábia, onde estão os santuários de Hator em Serabit el Kadim e Har Timna. Eu argumentaria que os mineiros asiáticos teriam assimilado ao seu Deus, El, a mesma imagem solar egípcia do Bezerro de Ouro como sendo o sol alvorecendo no leste.
Mais tarde, Yahveh é metaforicamente descrito pelo profeta Malaquias como um "sol de justiça com cura em suas asas". Para os egípcios, o sol era representado com asas de falcão como "Horus de Bedhety," que destrói os inimigos seus e do Egito. Horus como o sol também decide quem é qualificado (apenas os justos podem acompanhá-lo) para guiar a barca do sol através do firmamento a cada dia.
No mito egípcio do sol alado, Horus de Bedhety, esmaga todos seus adversário. O faraó, que se liga a Horus, é chamado pelos seus príncipes vassalos cananeus como "meu Deus, meu Sol". Estes príncipes se ligavam como sendo o pó debaixo dos pés do faraó. Tal imagem parece ser aplicável a Yahveh como Malachi, o sol ascencionado (o Bezerro Dourado, Horus de Bedhety), derrotando os inimigos de Deus e eles são cinzas ou poeira sob os pés de Yahveh.
Nos mitos egípcios o sol em suas manifestações é o campeão dos justos e opressor do mal e dos injustos. Os justos de Malachi que são ligados a bezerros saltitantes lembram o bezerro saltitante, Ihy, filho de Hator, símbolo do justo faraó Amenhotep III, que deseja ser imortal como o sol que ascende do leste.
Pelo meu entendimento, as que crenças e ritos solares egípcios da Idade do Bronze e da Idade do Ferro foram preservados nas narrativas do Êxodo. Yahveh como o Bezerro Dourado lembra as noções egípcias do sol todo-poderoso e conquistador, vencendo seus inimigos na forma do faraó e de Horus de Bedhety.
Um Moisés irado é retratado golpeando o Bezerro Dourado em pedaços e espalhando na água, forçando os israelitas a beber! Eu suspeito que este tema vem das formas egípcias de adoração quanto ao Bezerro de Ouro como Deus-sol que está "dentro" do corpo líquido da Deusa-vaca celesial, chamada de Hator, Nut ou Meht-urt. Hator era chamada "a água pura", e ritos da água eram celebrados por Nut no nascimento do sol, o bezerro dela.
Alguns acadêmicos notaram que feitos e epítetos associados aos Deuses cananeus El e Baal Hadad parecem ter sido assimilados para Yahveh-Eloim. Yahveh, através do tempo, assimilou outros Deuses, os poderes desses Deuses tornaram-se os dele. Ele não é apenas um Deus da tempestade como Baal, ele é também um Deus sol como Re. Ele é também um Deus lunar como Sin ou Suen de Haran no norte da Mesopotâmia, o lar de Abraão.
Todos estes Deuses em mitos antigos tomaram a forma de bois, eles estão ligados aos bois. El é chamado de Boi El nos mitos ugaríticos do norte da Síria e seus filhos Baal e Anat tem a habilidade de assumir formas bovinas. Baal torna-se um boi que monta sua irmã, Anat, que assume a forma de uma vitela e ela fica grávida, parindo Baal como um bezerro. Nos mitos sírios, nuvens de tempestade eram chamadas de "bezerros de Adad". Quando Baal morre após montar a vitela por 70 vezes, sua irmã procura por ele "como uma vaca por seu bezerro". Por 70 anos as chuvas cessam por causa da morte de Baal, então El tem uma visão, a chuva retorna, ele exclama que Baal vive, a chuva é uma evidência de sua ressurreição dos mortos. Pelo nível que as chuvas estão associadas com nuvens de tempestade, chamadas de bezerros de Adad e o Baal morto reaparecendo como uma nuvem de tempestade com chuva, sugere que para os Sírios e os Arameus, que as nuvens de tempestade eram bezerros. Então a manifestação de Yahveh-Eloim no monte Sinai como uma nuvem de tempestade e pouco depois um Bezerro Dourado é feito, pode lembrar os mitos aramaicos sendo transposto ao Sinai e fundido com mitos egípcios do Bezerro Dourado solar.
Nota: eu retirei do texto original as referências e citações tiradas da bíblia porque a) citações bíblicas sempre são descontextualizadas; b) a bíblia não é uma referência confiável; c) este é um blog pagão e não faz sentido citar algo em que eu não acredito.
Textos tirados da internet supostamente contendo 'pesquisas' históricas ou arqueológicas são suspeitos e devem ser lidos com ceticismo.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Constantino, o amigo e predileto de Deus

Constantino o grande Constantino, o imperador romano, dando fim as perseguições, foi o primeiro estadista da Antigüidade a estabelecer um acordo de convivência com a Igreja Cristã. Em troca, foi contemplado com uma teoria de poder que legitimava sua autoridade sobre a cristandade inteira, estabelecendo-se desta maneira um modus vivendi entre o Estado e a Igreja que estendeu-se até os nossos dias.
A conversão do imperador
Para celebrar o 30º ano do reinado de Constantino o Grande, em 335, encarregou-se para o ato, em nome da Igreja, ninguém menos do que Eusébio, o bispo de Cesaréia. Os cristãos estavam em estado de graça perante o imperador. Depois de terem sido por três séculos perseguidos, eis que surgiu, em meio aos antigos opressores, um iluminado. Constantino convertido à nova religião, reconhecera-a em 313. Mal pôs o lacre no Édito de Milão, a pesada mão de Roma deixou de abater-se sobre os seguidores de Jesus. Dera-se um milagre. As igrejas se abriram, velhos templos pagãos foram reformados, e a vida clandestina e martirizada dos evangelistas e dos seguidores de Cristo cessou como que por encanto. A conversão da dinastia romana fora tão sincera que a imperatriz-mãe Helena, a Santa Helena, e suas filhas, pessoalmente, em histórica viagem à Terra Santa, cuidaram da restauração do Santo Sepulcro em Jerusalém. A ocasião do aniversário era tão magnífica que Eusébio decidiu-se apresentar na cerimônia uma teologia política para fixar qual o papel do imperador no universo do Cristianismo oficializado. “É um novo Moisés!”, assegurou Eusébio à corte presente.

Constantino, tal o patriarca judeu, salvara o monoteísmo das injurias do politeísmo. Assim, se o Reino do Céus é governado por um só Pai, o mundo terreno o é por César. Ele é o lugar-tenente de Deus de quem recebeu, pela intermediação de Cristo, a função de assegurar na terra “o plano de Deus para os homens”. Designando-o como “pastor, pacificador, mestre, médico das almas e pai”, Eusébio, em êxtase, chamou-o de “amigo e predileto de Deus".[educaterra]
A História não é um processo linear, todos os eventos históricos tiveram causas e elementos que contribuíram direta ou indiretamente. Assim, o reconhecimento do Cristianismo como uma das religiões oficiais do Império Romano por Constantino não foi um ato isolado nem um milagre sobrenatural, mas a consolidação de fatos. Na época de Constantino, o Império Romano estava em grave crise financeira e militar. Constantino, sabendo que não tinha legitimidade, buscou apoio na Igreja Cristã e na forte organização desta, que permeava a nobreza aristocrática e a burocracia estatal. Após sua vitória e reconhecimento como César, não foi dificil inventar um mito para explicar sua conveniente conversão. Obtendo a unidade necessária, várias reformas ocorreram, que deram depois a oportunidade para o Cristianismo se consolidar como a única e legítima religião oficial do Império Romano com o imperador Teodósio.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O Monopólio da Virtude

Uma característica bastante comum de se observar em certas pessoas é a tentativa de monopolizar a virtude. Normalmente são pessoas que sofrem do que Thomas Sowell chamou de “tirania da visão”, quando um ideal particular de justiça cósmica anula qualquer capacidade de reflexão honesta. Tal indivíduo não terá interesse algum em debater seriamente os meios adequados para seus objetivos, testando suas teses através da experiência e aplicando a lógica nelas. Tudo que importa são as finalidades nobres, e qualquer alternativa oferecida com meios distintos será tratada com intenso desdém, como se a própria finalidade em si do outro fosse pérfida.
Existem inúmeros exemplos para ilustrar esta tentativa que alguns fazem de se arrogar a propriedade única da boa intenção. Um ótimo caso inicial está nos ditos “pacifistas”. As pessoas que automaticamente confiscam para si o monopólio da “luta pela paz”, como se o restante fosse adepto da violência, não pretendem nunca debater a fundo os métodos. A estratégia é desqualificar os fins dos oponentes, não seus meios pregados. Assim, qualquer um que não adere ao modelo pacifista é ou um lacaio da indústria bélica ou um potencial guerreiro empedernido, sedento por sangue. Não importa que essas pessoas mostrem a lógica de que certos inimigos precisam ser combatidos com firmeza, ou que algumas guerras são úteis e necessárias para a própria manutenção da paz. Tampouco importa mostrar inúmeros casos empíricos onde a complacência com o inimigo foi o caminho da desgraça. Os “pacifistas” já encerraram a questão antes mesmo do debate começar. Somente eles querem de verdade a paz.
É a busca pela paz, não quais métodos de fato garantem-na, que exalta moralmente esses visionários. No fundo, essas pessoas buscam uma exaltação pessoal perante os outros, estão atrás da imagem de nobres almas. Não ligam para os resultados concretos do que defendem, posto que um mínimo de avaliação honesta, muitas vezes, mostraria que há um abismo entre o defendido e o obtido. Foi dessa maneira que, faltando menos de um ano para que a guerra mais catastrófica do mundo fosse iniciada por Hitler, o Primeiro Ministro inglês, Chamberlain, enalteceu o “desejo do povo alemão pela paz”. Vários intelectuais “pacifistas” condenavam os governos que investiam em armamento, antecipando a real ameaça nazista. O enfraquecimento militar do Ocidente foi, sem dúvida, um dos fatores que estimularam os agressores. Não obstante, a dura realidade nunca impediu que tais “pacifistas” se considerassem moralmente superiores. Os outros são apenas bárbaros belicosos, ainda que a própria sobrevivência desses “pacifistas” dependa dos “belicosos”. O padrão se repete atualmente na questão do Islã, onde os relativistas morais colocam-se acima dos demais em termos morais, atuando de forma complacente com um grupo de fanáticos que pretende, abertamente, destruir o Ocidente. Uma vez mais, esses “pacifistas” só irão sobreviver para repetir novas hipocrisias se os “belicosos” os defenderem do inimigo.
O campo militar é fértil nessa questão do monopólio da virtude, mas está longe de ser o único. Na economia os monopolistas de fins nobres abundam também. Peguemos como exemplo a questão da miséria. Os “defensores dos pobres” são aqueles que defendem o uso do aparato estatal no combate à miséria, sem entretanto aprofundar o debate a respeito do melhor método para reduzir a pobreza de fato. Se um liberal mostrar com vastos casos empíricos que a pobreza foi melhor combatida onde o Estado menos interveio nos assuntos econômicos, ele será ignorado na melhor das hipóteses, ou tachado de insensível na pior delas. Não são os meios o foco desses “defensores dos pobres”, e sim a finalidade em si, como se alguém normal realmente desejasse o aumento da miséria. Se um liberal tentar explicar que a melhor forma de atacar o problema da miséria é através do livre mercado, poderá ser rotulado até mesmo de “darwinista social”, como se quisesse, na verdade, entregar o pobre ao “deus dará”. A repetição de chavões vazios que objetivam apenas desqualificar a pessoa é indiretamente proporcional à capacidade de argumentação. Os monopolistas da virtude jamais focam nos argumentos. Para que eles sintam-se moralmente superiores, basta repetir muitas vezes e em coro que os outros não ligam para os pobres. Assim eles seguem adiante com o ar de superioridade alimentado mutuamente por cada um do grupo, ainda que os pobres sofram na pele as tristes conseqüências da falta de respeito com a realidade.
Temos vários outros casos para ilustrar o ponto central do artigo, mas creio ser desnecessário me alongar. Em todos esses casos, o padrão se repete, e humanos reais acabam sacrificados pela tirania da visão pois aqueles sacrificados não são os mesmos que exploram moralmente a nobre visão. As teorias dessas pessoas não são testadas seriamente, e o esforço delas está infinitamente mais direcionado na propaganda ou na demonização dos que carregam pontos de vista alternativos. Qualquer fim nobre tem um dono, na cabeça deles, e são os próprios. Quem ousa discordar ou questionar os meios desses nobres fins simplesmente não são virtuosos. Não podem ser! Caso contrário, os que aparentam nobreza ficarão nus, sem o manto da pseudo-virtude, e restará ao mundo a visão da essência deles: a hipocrisia.
Autor: Rodrigo Constantino.
Fonte: http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2006/09/o-monoplio-da-virtude.html
Nota: um que certamente me irrita é o movimento pelo 'direito dos animais' e a militância vegan.

Puritanismo Autoritário

Muitas vezes, por trás de uma pregação de puritanismo exacerbado, encontra-se um sentimento humano bastante mesquinho, considerado por vários filósofos como um enorme vício. Após alguns malabarismos, entretanto, os pregadores tentam transformar tal vício em aparente virtude. Os verdadeiros motivadores, se expostos à luz da razão, fariam com que os bois recebessem seus verdadeiros nomes. Não são nomes bonitos.
H. L. Mencken escreveu: “Existe somente um impulso honesto no fundo do Puritanismo, e este é o impulso de punir o homem com a capacidade superior para a felicidade – trazê-lo para baixo até o nível de ‘bom’ homem, i.e., do estúpido, covarde e cronicamente infeliz”. São palavras duras e diretas, provenientes do “Nietzche americano”, mas que sem dúvida forçam uma reflexão. Algumas pessoas não sabem ou não conseguem ser felizes de verdade, ou aproveitar determinados prazeres materiais, e um forte sentimento de inveja as domina. A inveja é um sentimento poderoso e destrutivo, onde a felicidade de sua vítima não é o foco, mas sim a infelicidade do vizinho. Se este quebrar a perna, o invejoso irá vibrar, como se pudesse andar melhor agora.
Assim, pessoas que sentem dificuldade de aproveitar a vida usufruindo dos prazeres do corpo, sem que isso seja sinônimo de futilidade, vazio ou niilismo até, partem para a agressão dos costumes dos demais, tratados como vícios terríveis, pecados mortais. Tentam incutir culpa naqueles seres felizes, como se tal felicidade fosse um pecado. Vários sucumbem a tentação de defender o uso de coerção – o Estado – para impedir que os demais possam usufruir livremente desses “vícios”. Desta forma, aquele que não consegue beber apenas socialmente prega a lei seca; aquele que não consegue fumar maconha esporadicamente defende sua criminalização; aquele que não suporta a tentação da prostituta pede que sua profissão seja banida por lei; aquele que não resiste aos jogos de azar, caindo na compulsão, pede intervenção estatal; etc. Isso não quer dizer que todos aqueles que defendem tais coisas são necessariamente invejosos, mas sim que todos os que usam o puritanismo para tal fim são.
Isso para não falar dos “puritanos” apenas nas aparências – os hipócritas – que precisam defender um estilo de vida o qual são incapazes de seguir na prática, mesmo com toda a imposição moral que se impõem. Hugo Mann, o personagem de Cabeça de Negro, romance de Paulo Francis, foi no cerne da questão: “Todo carola precisa pecar feio para se arrepender; quebra a monotonia da carolice; a rotina corrompe qualquer fé”. Os “pecadores” em questão adoram pregar um ideal de vida que entra em confronto com a natureza humana, para depois martirizarem-se com seus desvios de conduta. De fato, com tanta dicotomia criada artificialmente entre corpo e alma, como se para esta ser “salva” aquele tivesse que sofrer, fica praticamente impossível atingir a felicidade. Nosso corpo, afinal, faz parte do que somos, e não é apenas uma carcaça que transporta a alma.
Se para a minha felicidade um determinado estilo de vida parece inadequado, isso não quer dizer que meu vizinho tenha que seguir a mesma receita. Contanto que meus atos não tirem a liberdade do outro, devo ser livre para ser feliz à minha maneira. Os que pedem para o Estado proibir tudo aquilo que eles mesmos não conseguem evitar voluntariamente, ignoram este princípio, e deixam a inveja falar mais alto. O sentimento é algo como ‘já que eu não posso, ninguém mais deve poder’. Talvez ninguém melhor que o próprio Nietzsche tenha detectado as causas desse puritanismo aparente: “Há uma inconsciente inveja no vesgo olhar do vosso desprezo. Não sigo o vosso caminho, ó desprezadores da vida! Não sois, para mim, ponte que leve ao super-homem. Assim falou Zaratustra”. E está falado!
Autor: Rodrigo Constantino.
Fonte: Rodrigo Constantino
Nota: apelo à moral, à virtude e aos 'bons costumes' costumam ser constantes nos discursos das religiões monoteístas.

terça-feira, 13 de maio de 2008

A violência como resultado da privação de prazer

Muitas pessoas vão supor que a sociedade ocidental experimentou uma revolução sexual e agora nós estamos liberados. A pornografia comercial (a péssima substituta para a coisa real) é livremente distribuída, sim; consolos vem em mais cores, sim; o declinio do cristianismo literal afetou a popularidade da palavra 'pecado', sim; mas estas alterações não tem qualquer relação com o que nós consideramos por liberdade sexual e afetiva. Liberdade não significa promiscuidade ilimitada, como os fundamentalistas gostam de insinuar, mas sim liberdade das maquinações que nos escravizam em nossa fascinação de amor-e-ódio mórbida sobre a sexualidade e a intimidade. Liberdade significa respeito pelo natural, concepção intuitiva da sexualidade e afeição, o que implica em tolerância a respeito de relacionamentos, intimidade física para pré-adolescentes, atividade sexual para adolescentes, pluralismo sexual e a erradicação da vergonha e da obcessão. Liberdade significa paz. A civilização ocidental ainda está obcecada pelo sexo e ainda vagueia nas implicações problemáticas da norma anti-afetividade.
Um neuropsicólogo afirma que a maior ameaça para a paz mundial vem das nações que possuem o ambiente mais proibitivo para suas crianças, nações que são mais repressoras contra a afeição sexual e a sexualidade feminina. Em sua análise antropológica ele encontrou que 65% das culturas que amamentaram seus bebês por 2,5 anos ou mais eram pacíficas. Em um comentário, ele disse que o bonobo é o primata mais pacífico e não-violento do planeta enquanto o homo-sapiens é o primata mais violento do planeta.
As pessoas estão constantemente em busca de novas formas de prazer, mas muito de nossas atividades 'prazeirosas' parecem ser meras substitutas do prazer natural pelo toque.
Este neuropsicólogo estudou a relação peculiar entre violência e prazer. Ele está convencido que a privação da sensação de prazer físico é a principal causa da violência.
Os resultados indicam claramente que as sociedades que dão a seus bebês uma grande quantidade de afeição física são caracterizadas por poucos roubos, baixa dor infantil física, baixa atividade religiosa e taxas infimas ou ausentes de homicídios, mutilações ou tortura de inimigos. Os resultados também indicaram que as sociedades que inflingem dor e desconforto em seus bebês tendem também a negligenciá-los.
De 49 sociedades estudadas, 13 culturas pareciam ser exceções para a teoria que a falta de prazer somatosensório torna as pessoas fisicamente violentas. Consequentemente, é significativo examinar os comportamentos sexuais das 13 culturas as quais a violência adulta não são previstas pelo prazer físico durante a infância.
Quando as 6 sociedades caracterizadas tanto pela alta afeição e alta violência são comparadas nos termos de seus comportamentos sexuais pré-maritais, é surpreendente encontrar que 5 delas manifestam repressão à sexualidade pré-marital, onde a virgindade é altamente estimada nessas culturas. Aparentemente os efeitos benéficos na afeição física infantil podem ser negados pela repressão ao prazer físico (sexo pré-marital) mais tarde.
As 7 sociedades caracterizadas tanto por baixa afeição física infantil e baixa violência física adulta são todas categorizadas pela permissividade ao comportamento sexual pré-marital. Portanto, os efeitos danosos da privação da afeição física infantil parecem ser compensados mais tarde pelas experiências de prazer sexual corporal durante a adolescência.
Resumindo, a violência pode ser causada pela privação de prazer somatosensório tanto na infância quanto na adolescência.
Não surpreendentemente, quando necessidades pessoais são combinadas com a privação de afeição física, o resultado é egoísmo e narcisismo. Da mesma forma, dança exibicionista e pornografia podem ser interpretadas como substitutas da expressão sexual normal. Muitas nações que são mais repressivas à sexualidade feminina tem ricas formas de arte pornográfica. As sociedades que enfatizam a monogamia enfatizam a glória militar e adoram Deuses agressivos.
Existem outras evidências que indicam a preferência por violência sexual acima do prazer sexual. Isto é refletido por nossa aceitação de filmes explícitos que envolvem violência e estupro e nossa rejeição à filmes explicitos que envolvem apenas o prazer sexual. Aparentemente, sexo com prazer é imoral e inaceitável, mas sexo com violência e dor é moral e aceitável.
Os animais que foram privados do toque na tenra idade desenvolvem uma diminuta percepção da dor e uma aversão por ser tocado por outros.
Se aceitarmos a teoria que a falta de prazer somatosensório suficiente é a principal causa da violência, nós podemos trabalhar promovendo o prazer e encorajando relacionamentos interpessoais afetivos para combater a agressão.
Nós deveríamos dar alta prioridade ao prazer corporal no contexto das relações humanas significativas. O prazer corporal é diferente de promiscuidade, o que reflete uma incapacidade básica em experimentar o prazer. Se um relacionamento sexual não é prazeiroso, o indivíduo procura por outro/a parceiro/a. A contínua falha em encontrar satisfação sexual leva a uma contínua busca por novos parceiros/as, que é o comportamento promíscuo. Prazer físico afetivo compartilhado, por outro lado, tende a estabilizar o relacionamento e elimina a busca. Entretanto, uma variedade de experiências sexuais parecem ser normais em culturas que permitem sua expressão e isto pode ser importante para otimizar o prazer e a afeição em relacionamentos sexuais.
Dados disponíveis claramente indicam que rígidos valores de monogamia, castidade e virgindade ajudam a produzir a violência física. A negação da sexualidade feminina deve ceder para a aceitação e o respeito e homens devem dividir com as mulheres a responsabilidade de dar afeição e carinho aos seus filhos.
Isto sugere que algo está basicamente errado com o conceito tradicional da monogamia universal. Quando visto em conecção com as referências cruzadas da privação física, violência e estado de guerra associados com a monogamia, fica claro a necessidade em criar um sistema mais pluralista de casamento.
Nós deveríamos reconhecer que a sexualidade em adolescentes não é apenas natural, mas desejável e aceitar a sexualidade pré-marital como uma moral positiva.
Os pais deveriam ajudar os adolescentes a realizarem sua própria maturidade sexual, permitindo a eles para usarem o lar para sua satisfação sexual. Tal honestidade poderia encorajar uma atitude mais madura nos relacionamentos sexuais e providencia um ambiente seguro privado, o que é muito melhor para o desenvolvimento deles do que o banco de trás de um carro ou outras locações indesejáveis fora do lar. Experiências sexuais precoces são frequentemente uma tentativa de provar a maturidade do indivíduo, sua masculinidade ou feminilidade, ao invés de um alegre compartilhamento de afeição e prazer.
O relacionamento recíproco entre prazer e violência é tal que um inibe o outro. Quando o prazer físico é alto, violência física é baixa, quando a violência física é alta, o prazer físico é baixo. Essa premissa básica da teoria da privação do prazer somatosensório nos provêm as ferramentas necessárias para construir um mundo de pessoas pacificas, afetivas e cooperativas.

Nota: o autor esqueceu que essa privação e repressão ao prazer é fundamental para a existência da Igreja Cristã. Em muitos países, o cristianismo literário ainda está na ativa em sua 'santa cruzada' contra tudo o que consideram uma afronta aos 'valores cristãos'. Enquanto a civilização ocidental estiver debaixo do domínio do Cristianismo, nós ainda viveremos em um mundo violento.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Compreendendo a Sombra

Para entender o que é a sombra nós temos duas perspectivas que, embora pareçam contraditórias, são formas que se complementam e existem em função da oposição uma em relação à outra.
Basicamente essas perspectivas são categorizadas em dois termos abrangentes, o chamado ‘Caminho da Mão Direita’ e o ‘Caminho da Mão Esquerda’.
Os termos se referem a uma dicotomia entre dois sistemas de crenças cujos significados tem variado conforme a época.Definições modernas do ‘Caminho da Mão Direita’ eleva a espiritualidade, a estrita observância de códigos morais e a adoração de divindades. O intento é o de conquistar uma proximidade ou integração com a divindade.Por seu lado, o ‘Caminho da Mão Esquerda’ valoram o progresso e a preservação do ego, glorificação de objetivos mais terrenos e temporais e poder pessoal do que metas espirituais.[wikipédia – traduzido]
Aquilo que divide os sistemas é, curiosamente, o motivo para que se tenham feitos tais sistemas, a saber, a visão e opinião sobre a condição deste mundo, da natureza, da humanidade, da existência.
Quando duas visões sobre um mesmo fenômeno entram em conflito, existe uma boa chance de que ambas as visões sejam produzidas por uma percepção distorcida do mesmo fenômeno.
A distorção é causada por uma reação psicológica e religiosa não à causa, mas ao efeito advindo da condição humana, da natureza e deste mundo e este efeito é o sofrimento. O sofrimento, dentre todos os elementos que constituem a nossa natureza, é o mais forte e mais evidente, mas não deveria ser o foco dos sistemas religiosos.
O sofrimento tem origem natural ou social, mas existe uma variação na reação psicológia ou religosa diante desse efeito e exatamente por ser tão crucial para nossa espécie, as variantes de reação formaram a base de muitas religiões. O problema todo começa quanto esquecemos que o sofrimento é um fenômeno natural e espontâneo e passamos a atribuir o sofrimento à causas sobrenaturais, seja como resultado da ação ou da reação de uma entidade. Em ambos os casos, ou passamos a tentar propiciar essa entidades com oferendas e cerimônias, ou passamos a observar certos padrões de conduta que supostamente agradem a essa entidade. Em ambos os casos, nós alteramos a nossa percepção natural e passamos a ter um outro tipo de comportamento diante do mundo, da natureza, da existência e essa alteração de comportamento nos fez dividir nossa própria natureza em duas partes: a material e a espiritual, a consciente e a subconsciente, a individual e a coletiva, etc.
Essa divisão produziu dois entes distintos, opostos e compelmentares, quando não antagônicos entre si: o ego e a sombra. O ego é uma simples casca útil para uma interação prática com o ambiente, com a sociedade, com a espiritualidade. Como o ego é algo que existe por um motivo prático e finito, este não causa muitos problemas. Mas a sombra, por existir em nível subconsciente, sua existência passa a ser mais duradoura, até um momento em que a sombra criada por nossa espécie se agregou e tomou consciência de sua existência - e a sombra é capaz de tudo para permanecer existindo.
Basicamente falando, a existência da sombra depende de como a alimentamos, através desses padrões de comportamento que visam, a priori, evitar esse sofrimento supostamente de origem sobrenatural. Quanto mais aumentarmos o abismo que criamos entre o espírito e a matéria, maior e mais forte será a sombra; quanto mais nos sentirmos culpados, maior será o nosso conflito existencial.
Em outras palavras, ambos os sistemas de crenças, tanto da Mão Direita quanto da Mão Esquerda, são vantajosos para a sombra se manter como uma egrégora eterna. O fundamentalismo religioso tem sido a maior fonte de alimentação da sombra e esta é esperta como nós para saber como direcionar, desviar ou barrar a energia que é empenhada nesses credos, a fim de atingir seus propósitos.
Para identificar como e onde a sombra se oculta nesses sistemas de crenças, eu listarei alguns pontos das doutrina, ressaltando as diferenças e comparando as semelhanças. Para fins práticos, o 'Caminho da Mão Direita' será chamada de 'destra' e o 'Caminho da Mão Esquerda' será chamada 'canhota'.

A sombra como o Criador (destra): a partir do momento em que os 'destros' acham que sofrem porque são punidos por ações (chamados de pecados) que desagradam a Deus, a própria condição carnal da existência humana induz em remorso e medo constantes. A sombra apenas tem que usar essa compulsão por padrões morais de virtude e ascetismo para que nós projetemos nessa ideía de Deus a perfeição e a santidade utópicas e impossiveis -humanamente- de serem atingidas. Nessa concepção ideológica de Deus, nossa mente consciente vê refletido pelo espelho do subconsciente -domínio da sombra- essa projeção daquilo que nós mesmos convencionamos como sendo 'santo', 'justo', 'puro' e 'bom'. Como ignoramos que o que é visto é uma mera aparência refletida de nosso próprios padrões e idéias, para os 'destros' faz sentido lógico ver neste Deus projetado como algo externo e além deste mundo, desta existência, desta humanidade e, portanto, superior e soberano a tudo.
A sombra como a Natureza (canhota): os 'canhotos' acham também que a Natureza é essencialmente má, uma vez que nesse mundo só há sofrimento, curiosamente concordando com os 'destros'. Mas ao invés de atribuir esse mundo como uma criação degenerada de um Deus do Bem, os 'canhotos' acreditam estarem adorando o verdadeiro Senhor do Mundo, essa 'força da natureza' essencialmente maligna, no que os 'destros' concordam. Entretanto, se para os 'destros' é plenamente lógico buscar ideais (humanos) de 'espiritualidade', 'virtude' e 'ascetismo', para os canhotos o lógico é buscar por ideais (igualmente humanos) de 'materialidade', 'liberalidade' e 'hedonismo'. A sombra tem apenas que usar esse antropocentrismo para ressaltar nos indivíduos suas pretensões de grandeza e seus sonhos de poder que apenas aumentam a casca do ego, deixando a sombra com mais conforto e segurança.
A sombra como o Salvador/Libertador (ambos): os 'destros' acham que a sombra é o Criador do mundo, o Messias e a autora das leis divinas pelas quais o Homem pode se salvar/ se libertar da morte do pecado; os 'canhotos' acham que a sombra é a Natureza, o Homem e a autora das leis naturais pelas quais o Homem pode se salvar/ se libertar da prisão das leis divinas.
A sombra como o Usurpador/ Tentador (ambos): os 'destros' acham que a sombra é o Diabo e a fonte do pecado, cuja única meta é destruir o Homem e usurpar o trono de Deus; os 'canhotos' acham que a sombra é o Falso Deus e a fonte da compulsão, cuja única meta é oprimir o Homem e subjugar o Espírito da Humanidade.
A sombra como a inspiração dos profetas/ dos filósofos (ambos): os 'destros' acham que a sombra inspirou os profetas para escreverem as 'palavras de Deus', o que torna o livro sagrado infalível, incontestável e inerrante; os 'canhotos' acham que a sombra inspirou os filósofos para refutarem as 'palavras de Deus', o que torna o raciocínio humano infalível, incontestável e inerrante.
A sombra como a divindade cósmica suprema (ambos): os 'destros' acham que a sombra é o único e verdadeiro Deus, todo o resto são demônios e as outras crenças são cultos ao Diabo; os 'canhotos' acham que a sombra é o Espírito Humano, de quem todos os Deuses são meros reflexos e as crenças são superstições.