sábado, 28 de junho de 2008

Baphomet

A imagem mais enigmática dos mistérios iniciáticos, Baphomet, condensa em si símbolos cuja interpretação suscita as mais diversas e disparatadas teorias. Dependendo da intenção do escritor, Baphomet receberá a roupagem que interessa para a análise ou para a crença esposada por seu observador.
Como o intuito deste blog é o Neopaganismo, a Bruxaria e a Wica, eu não citarei as inúmeras explicações esotéricas, geralmente mais ligadas à alquimia e ao hermetismo.
Dentro dessa visão, Baphomet é o símbolo do Andrógino, o Filho do Deus e da Deusa, o Mediador, nosso lado divino e humano, nosso lado sagrado e sacerdotal, nossa tendência tanto carnal quanto espiritual.
A tocha está na região do chacra da coroa, simbolizando nossa ligação com o Astral, bem como nosso foco espiritual a partir da matéria. O bruxo sabe que para caminhar em qualquer direção espiritual é preciso ter um corpo, bem como a manifestação da realidade divina nesse mundo. Sem o corpo, não há onde a luz se manifestar, não há base para o farol, não há caminho a ser desvendado, não há trabalho a ser realizado, não há sabedoria a ser conquistada.
Os chifres simbolizam nossa origem a partir do Deus e da Deusa, a Polaridade Sagrada. Eles são os símbolos de nossa nobreza, força e vitalidade. Em associação com a tocha, relembram o mistério da Trindade (do Deus e da Deusa) que em nós está nos Três Níveis de existência (corpo, alma, espírito), bem como a nossa obrigação em afugentar a Ignorância com a Sabedoria.
A cabeça contém diversas simbologias, como a síntese ou a conversão da tocha com os chifres na cabeça de um bode que contém na testa um pentagrama. Aqui está simbolizado o sacerdote, o mago e o bruxo (e suas contrapartes femininas) sendo o mediador e o receptáculo da Sabedoria, da Magia e da Arte, servindo aos Deuses Antigos para o bem da Humanidade.
O corpo contém outras conjunções simbólicas, além de servir de base para a cabeça (lembrando a importância de termos a mente ligada às coisas materiais), o corpo serve como Pilar Central de duas asas (relembrando que a Humanidade foi gerada pelos Deuses Antigos), servindo o mesmo de base para um símbolo, curiosamente colocado no colo de partes posteriores caprinas, cuidadosamente cobertas por um manto que não obstantemente não cobrem as patas de Baphomet (lembrando a união da Humanidade com os Deuses).
Dividindo em partes, temos duas asas (que alguns erradamente enfocam sua cor escura) que indicam nosso lado mental/intelectual, que sempre visa sonhos/desejos por algo além da simples existência banal.
Em seguida temos o torax, com seios e escamas (curiosamente alguns dizem ter cor verde, embora o desenho não tenha cores); sendo os seios a indicação que devemos cuidar (nutrir) de nossa espécie e as escamas a indicação de que nós somos interligados com outras espécies.
Passando aos braços, o direito apontando para cima (direito=intelecto=vontade=solver), o esquerdo apontando para baixo (esquerdo=intuição=sujeição=coagula) pode ser entendido tanto como uma fórmula pictórica da máxima 'assim como acima é abaixo' como o fluxo das energias (direito=Deus=luz/esquerdo=Deusa=sombra) necessárias para a existência desse mundo, para a Magia, para a Bruxaria e para os rituais.
No colo de Baphomet existe um exagero simbólico, uma repetição da simbologia dele dentro do tórax, uma redundância para lembrar que toda Magia e Caminho devem existir dentro do Peregrino, do contrário é loucura e ilusão forjada por homens, para alienar e dominar a Humanidade. O símbolo é comumente associado ao cetro de Hermes/Mercúrio, mas isso é uma simplificação; estes Deuses carregam esse cetro porque são Mediadores, aqui simbolizado por Baphomet, mas apenas são portadores da Sabedoria, não seus donos. O símbolo parece sair como uma extensão do falo, uma simbologia incômoda aos bruxos e wiccanos puritanos, lembrando a sexualidade sagrada (o que inclui a virilidade, a fertilidade e a gravidez). O arco pode ser mais um reforço de que a Arte é uma ligação entre o Firmamento e o Mundo.
Com tantos símbolos explícitos, Eliphas Levi teve o cuidado de cobrir as partes posteriores de Baphomet com um manto, mas deixando as patas caprinas de fora, em uma posição sentada similar à de Buda, acima de um bloco ou trono, sobre um globo. O manto é o sigilo necessário para lidar com os mistérios, devemos ter cuidado pois tais coisas não podem ser indiscriminadamente desveladas à pessoas comuns. A posição de lótus reitera a posição de Baphomet como um Iluminado, um Mediador, senão uma representação da Humanidade que reina no mundo, mas que deve, como bom regente, observar as leis.
Por fim, sobram as duas luas, uma branca e outra negra, corretamente associadas aos devidos lados de Baphomet e às energias que formam esse mundo. Uma redundância para o bruxo, pois nós sabemos que é necessário procurar o equilíbrio entre a luz e a sombra, é necessário haver uma colaboração entre o Deus e a Deusa, entre o intelecto e a intuição, entre a geração e a decadência, entre a vida e a morte para a continuidade da existência.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

A Serpente

A Serpente é um símbolo relativo à terra ou ao telúrio, sendo em algumas regiões tida como um deus da sabedoria que se conhece facilmente ou se percebe por ação clara do espírito seu simbolismo telúrico inquestionável.
Na Grécia, a serpente está também relacionada como símbolo da sabedoria e de todo modo com a medicina, analogia de facto com Asclépio, deus da medicina e na imagem do caduceu, com duas serpentes entrelacadas em torno de um bastão, com asas na parte superior.
O caduceu está associado à justa medida moral, igualdade de forças, ao caminho iniciático e ao acto de ascender ao poder espiritual primordial. A serpente da direita convoca como Od, representando a vida em liberdade e sem restrições. A da esquerda é chamada Ob, representando a luz contra-balanceada.
O bordão de Esculápio (símbolo coerente da medicina), é relacionado com a astrologia e a cura dos enfermos através da medicina. A serpente entrelacada no bordão realiza o simbolismo da medicação, a serpente que cuja mudança de pele significa o renascimento, fertilidade e abundância e o bastão a autoridade de Asclépio.
Vários mitos existentem envolvendo serpentes, são claros e estão presentes nas diversas religiões, espiritualidades e crenças sem meios ligados a uma doutrina. Por exemplo, como no caso de Asclépio ou o seu correspondente romano, Esculápio, no budismo há um mito que conta como Buda foi envolvido por sete espirais durante sete dias pelo rei da serpente, contra uma tempestade para não interromper o estado meditativo de Buda. No Egito, outro exemplo, os deuses Rá e Áton, que seriam o mesmo deus, porém Áton foi agregado com os animais da terra, severamente a serpente está incluída. Héracles quando ainda um bebê, manuseou duas serpentes ameacadoras em seu berço. A grande divindade pode em uma das mãos manusear uma serpente, arrastando sua função de desempenho como a fonte da sabedoria além do seu papel de senhor dos animais com um leopardo em cada um dos braços. Porém, quanto ao facto de Héracles, passou despercebido para os gregos que aquilo seria simplesmente o prenúncio ameaçador da sabedoria.
Nos mitos gregos as serpentes são constantes e arcaicas, como ainda pelo mito de Herácles, quando este luta contra Hidra, a serpente mais velha do oráculo de Delfos, e, segundo seria ela antes o centro, quem transmitia as profecias no oráculo de Delfos depois vencida por Apollo, tomando e tornando o dono do oráculo.
No gnosticismo, a serpente é incorporada sob a imagem de Sophia (do grego sabedoria), e particulamente dentro das seitas mais ortodoxas conhecidas como Ofídeas (homens serpentes).
A Jormungard, a serpente de Midgard, na mitologia nórdica, esta abraça o mundo no vórtice profundo do oceano.
Dan, um vodun da riqueza, próprio do povo na religião Fon, encontrado nos mitos de Daomé, África Central, descreve-o como uma serpente que anda de rastos e se esconde na terra, depois sobe ao céu na forma de um arco-íris.
A alusão mais antiga que inclui em si conhecida ao mito do dilúvio que é recorrente em várias culturas, a Epopéia de Gilgamesh, conta a estória de um rei sumério da cidade-estado de Uruk. Bem, Gilgamesh foi um rei governante depois do dilúvio histórico. Bastante percebido com Héracles grego, ou o Hércules romano, Gilgamesh era praticamente um semi-deus, ou perto disso. O mito de Gilgamesh é movido à sua busca enfurecida pela imortalidade, que lhe foi negada em seu nascimento, um gracejo dos deuses. No mito, ele mergulha nas águas para recuperar a planta da vida, entretanto quando decidido a repousar do cansaço uma serpente aparece e come a planta, a serpente por sua vez torna-se imortal e Gilgamesh é destinado a morrer. A serpente é significativamente um símbolo universal da transformação o acto de regenera-se, dar vida nova, imediatamente, transporta para imortalidade.
No Tanakh a nachash ou serpente falante no Jardim do Éden que induzia ao conhecimento proibido, não é identificada com Satan em Gênesis, tampouco, no Livro de Gênesis há apontamentos que indiquem que a serpente era uma divindade na sua faculdade legal e no seu próprio privilégio. Apenas a serpente é a revelação da desobediência e do desafio a Deus. Por essa razão ficou sempre associada a uma figuração das forças malévolas[1]. O motivo pode ser (talvez) compreendido ao facto que, no processo narrativo bíblico este efeito de personificar a serpente tenha origem em fatos transferidos, feitos a chegar através de várias gerações até Moisés, autor deste acontecimento pitoresco em Gênesis. Não obstante tenha sido amaldiçoada pelo seus actos praticados no Jardim do Éden, ainda este não foi o fim da serpente que ficou e continuo sendo venerada na religião popular de Judá, tolerada pela religião oficial até o tempo do rei Ezequias[2]. Já no Novo Testamento, o nexo com o Diabo já é mais reforçado. A serpente é um símbolo da podridão, do inferno, ligada ao demônio e ao mal. Essa visão da serpente é restrita, encontrada no Catolicismo e no Protestantismo, não em outras vertentes cristãs.
Além de um símbolo da regeneração e imortalidade, a serpente quando formada em um anel com a cauda e com a boca, é um claro símbolo da unidade em tudo e todos, o Ouroboros.
Os seguidores de Hermes e Asclépio eram envolvidos por serpentes. As serpentes no caduceu de Hermes, provavelmente não eram gêmeas, mas adversárias[3]. As asas fazem sentir como asas mensageiras e seriam uma alusão clara de Hermes, o mensageiro dos Deuses, o deus da disciplina, mestre na ciência do direito, das relações e interesses internacionais, da arte de bem falar, do conjunto de regras relativas à eloquência, dos viajantes, protetor dos comerciantes e em outros juízos da mitologia, dos ladrões.

Com os avanços no estudo da alquimia na antiguidade clássica, Hermes ou Mercúrio, foi considerado autêntico protetor da alquimia e outras indagações ocultas em geral, ou herméticas. A química e a medicina juntas, associaram o bastão de Hermes com os discípulos de Asclépio, que era envolvido por uma serpente, apenas. Porém, o bastão de Hermes seria ligado as organizações comerciais e o de Asclépio, com associações profissionais.
A serpente tem como significado, aquela que adoece e cura, de ações mortíferas e farmacêuticas. O culto de adoração à serpente e dragões podem ser a origem do Luciferianismo. Apenas e só para lembrar que as serpentes antigamente eram a representação antiga dos dragões[4]. Na Babilônia, o Egito, a Pérsia, na América os Incas, e outros povos que possuíam ritos ao Dragão e ao Sol, ou seja, templos edificados a estes mesmo existiam pelo mundo todo[5].
Lúcifer e a figura da serpente são intrínsecos[6], são próprios e essências e estão no interior de uma mesma coisa. É a busca mais antiga do homem pela sabedoria, assim como através dela podemos alcançar a divindade para sermos eternos. A simbologia da serpente representa a chave que nos permite sermos deuses, a consciência isolada que nos permite alcancar a nossa verdadeira vontade, como por exemplo, o arquétipo do egípcio Seth -consciência de si isolada. O ponto fundamental que faz da serpente ser tão especial e misteriosa, seja o facto dos criadores e das criaturas: os primeiros desenvolvem seu mundo por vontade de si mesmos, os outros preferem conservar a mentalidade de que estão sujeitos como propriedade dos primeiros, "escravos". Assim carrega/arrasta a serpente a sabedoria, em outras considerações semelhantes, o desamor pelas coisas materiais à ascenção, à luz, a sabedoria divina[7].
Autor: Ângelo V.

Nota: Existem algumas visões curiosas, míticas e filosóficas, de que a humanidade teria sido engendrada por Deuses ofídios, mas que depois foram substituídos (derrotados) por outros Deuses, codificado nos mitos das Guerras dos Deuses, frequentes em várias culturas.
[1] Essa visão da Serpente=forças malévolas apareceu dentro da cosmovisão dos rabinos pós-exílio babilônico.
[2] Como se pode perceber no culto a Asherah.
[3] O termo 'adversárias' não está bem empregado e induz a um maniqueísmo hipócrita.
[4] Eu gostaria de saber de onde o autor tirou essa conclusão.
[5] Representações de serpentes devem ser compreendidas dentro da mitologia desses povos.
[6] Lúcifer é um personagem que sem dúvida tem sido muito útil, tanto para os Cristãos quanto para Ocultistas ingênuos.
[7] Essa é uma doutrina Gnóstica.

Sobre os Deuses

Uma reflexão aos neopagãos, pelo menos aos que pensam, convém ser uma exploração da Tea/ologia, como nós conceituamos e vemos os nossos Deuses e Deusas. Embora a base de nossa crença sejam os mitos antigos, devemos lembrar que estes não são 'verdades absolutas' nem estão em 'livros sagrados'. Como diferenciarmos aquilo que percebemos daquilo que os Deuses e Deusas realmente são, distinguir entre aparência/embalagem e conteúdo/essência é uma questão importante, no que eu me sirvo do texto abaixo como ponto de partida.
II – Que Deus é inalterável, nunca gerado, eterno, incorpóreo, e não existe no espaço
Que seja assim o discípulo. Que os ensinamentos sejam do seguinte tipo. As essências dos Deuses nunca vieram à existência (porquanto o que existe sempre nunca pode começar a existir; e existe para sempre aquilo que possui força primordial e que, pela sua própria natureza, nada sofre): nem consistem em corpos; e mesmo nos corpos, os poderes são incorpóreos. Nem estão contidos no espaço, pois que essa é uma propriedade dos corpos. Nem estão separados da primeira causa nem uns dos outros, do mesmo modo que os pensamentos não estão separados da mente nem os actos de conhecimento estão separados da alma.
Para nós (neopagãos) os Deuses e Deusas são imanentes e transcendentes, ou seja, o universo, a natureza e o mundo são parte da manifestação e da presença dos Deuses e Deusas, mas também estão além da dimensão material. Eles e Elas possuem corpos (embora não tenham o mesmo conteúdo que o humano), senão não poderiam se manifestar na natureza, nos mitos e nos cultos. Eles e Elas sofrem igualmente da velhice e da morte (e reencarnação) senão não poderiam nos guiar pela vida. Cada qual tem sua própria identidade e personalidade, comportando-se muitas vezes de formas contraditórias, mas sempre mantendo os Altos Ideais em vista.
V – Sobre a Causa Primeira
A seguir, vem o conhecimento da causa primeira e das subsequentes ordens dos Deuses, depois a natureza do mundo, a essência do intelecto e da alma, depois a providência, o destino, e a fortuna, depois ver a virtude e o vício e as várias formas de constituição social, boas e más, que são formadas a partir deles, e a partir de que possível fonte veio o mal ao mundo. Cada um destes assuntos precisa de muitas longas discussões; mas não há mal em falar um pouco deles, de modo a que um discípulo não seja completamente ignorante a respeito dos mesmos. É próprio da causa primeira ser una – uma vez que a unidade precede a multiplicidade – e ultrapassar todas as coisas em poder e em bondade. Consequentemente, todas as coisas têm de tomar parte dela. Porquanto devido ao Seu poder, nada se Lhe pode opor, e devido à sua bondade não se porá a si própria à parte. Se a causa primeira fosse alma, todas as coisas possuiriam alma. Se a causa primeira fosse mente, todas as coisas possuiriam mente. Se fosse ser, todas coisas participariam do ser. E vendo esta qualidade em todas as coisas, alguns homens pensaram que fosse o ser. Ora se as coisas tão somente fossem, sem serem boas, este argumento seria verdadeiro, mas se as coisas que são, o são por causa da bondade, e participam do bem, a primeira coisa tem de precisar de ser para além do ser e de ser bom. É uma forte evidência disto que as almas nobres desprezam o ser em nome do bem, quando enfrentam a morte pelos seus países ou pelos seus amigos, ou em nome da virtude. Depois deste inexprimível poder, vêm as ordens dos Deuses.
Para nós (neopagãos) a Causa Primeira pode ser tanto a comunidade formada pelo conjunto dos Deuses e Deusas (Panteísmo) como a Bruma do Tempo de onde os Deuses e Deusas foram se formando (Monismo). Em termos morais e éticos, nós consideramos tanto a virtude quanto o vício conceitos humanos, variáveis conforme a época, a cultura e a sociedade. Eu particularmente creio que a maldade é causada pela ignorância.
XV – Porque é que cultuamos os Deuses quando eles de nada precisam
Isto responde à pergunta a respeito dos sacrifícios e outros ritos dedicados aos Deuses. O Divino em si próprio não tem necessidades e o culto é feito para nosso próprio benefício. A Providência dos Deuses chega a toda a parte e precisa só de alguma congruência para que seja recebida. Toda a congruência vem pela representação e pela semelhança, motivo pelo qual os templos são feitos em representação do céu, o altar, em representação da terra, as imagens, em representação da vida (é por isso que são feitas como os seres viventes), as orações, em representação do pensamento, as letras místicas, em representação das inefáveis forças celestiais, as ervas e as rochas, em representação da matéria, e os animais do sacrifício em representação da vida irracional em nós. De tudo isto, os Deuses não ganham nada – que ganho poderia haver para um Deus? Somos nós que ganhamos alguma comunhão com Eles.
Para nós (neopagãos) o culto não é uma mera cerimônia para propiciar ou agradecer aos Deuses e Deusas, cada rito evoca o ciclo da existência que é a essência dos Deuses e Deusas. Os Deuses e Deusas vivem em simbiose com os humanos, para Eles e Elas a vida é o culto divino sem o que não há Providência nem a Compreensão do Destino e isto é um dos maiores mistérios a ser desvendado por ambos.
Autor: Caio Salústio Crispo
Nota final: A maior dificuldade ao conceituar e ver quem são os Deuses e Deusas está em nossa percepção, que é finita e imprecisa, nós tendemos a ver a aparência/embalagem e não procuramos ver o conteúdo/essência. As únicas evidências são os mitos, as lendas e as sagas que mostram diversos a(u)tores, portanto divindades distintas, cultos distintos.
Por mais que as raízes e os simbolos míticos sejam parecidos ou se entrelacem nas culturas de diversos povos, Yahveh, Cristo e Allah não são o mesmo Deus e há tempos perderam suas características originais.
Hoje em dia se confunde muito o Logos com a Causa Primeira, o Neoplatonismo com o Monismo, o Panenteísmo com o Henoteísmo. A confusão aumenta mais quando se misturam conceitos morais a valores humanos. Como o conceito de que o/a Deus/a é justo/a, que o/a Deus/a é luz, que o/a Deus/a é santo/a, que o/a Deus/a é amoroso/a, quando nem sempre Ele/Ela o é.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A ponte entre o Firmamento e o Mundo

Os povos antigos faziam seus templos no alto dos montes, dentro de uma floresta sagrada, ao redor de uma árvore consagrada ao Deus ou Deusa a quem o templo era dedicado. A ligação entre os Deuses e a Natureza era perceptível pelos fenômenos naturais e, por extensão, à Flora e à Fauna atribuídos aos Deuses. Cada Deus e Deusa era patrono/a de uma árvore sagrada e era simbolizado/a por um animal totem, através de uma intrincada simbologia mítica.
Entre os Sumérios era comum ver os Deuses sendo representados com fenômenos naturais e celestiais, ao lado de uma árvore ou de animal. O desenvolvimento dessa Arte Sagrada passou a representar exclusivamente formas mais estilizadas da árvore e do animal sagrados.
Os Egípcios adotaram essa simbologia, representando seus Deuses e Deusas em estilo zoomórfico. Mesmo os Deuses e Deusas que mantiveram formas mais humanas ainda eram representados com fenômenos naturais ou celestiais ou com características da Flora e da Fauna, como Nuit sendo representada como um céu estrelado, Isis sendo representada como um pássaro e Osíris sendo representado como um tronco.
Os Caldeus assimilaram a arte estilizada dos Sumérios e misturaram com a arte estilizada dos Egípcios. O Templo dos Deuses foi estilizado na forma de duas árvores, cujos topos se entrelaçavam, simbolizando o Firmamento e os ramos entrelaçados simbolizando as diversas dimensões da Realidade Divina, até o mundo material. Estas imagens eram ladeadas ora por animais sagrados, ora por entidades zoomórficas e, no centro, era colocado mais um tronco que servia de ligação entre o Firmamento e o Mundo.
Como o Templo dos Deuses era a representação das árvores sagradas, com um lado representando o Deus e o outro representando a Deusa patronos do templo, o tronco no meio era a representação do Deus Rei Sagrado Sacrificado, o filho dos Deuses Antigos, que se oferecia para o sacrifício para que, com sua morte, pudesse cumprir sua função de ser a ponte entre os mundos, senão a própria Axis Mundi, através da qual os mortos poderiam sair do Submundo e retornar ao Firmamento.
Osiris era filho de Deuses Ancestrais, era Deus dos Mortos e era representado tanto por um tronco como com um pilar. Assim também foram Prometeu, Mithra, Dioniso e Cristo. A cruz de ank, a chave da vida eterna controlada por Osiris, é o criptograma do Templo de Deus e do Pilar Central; a cruz gamada é o criptograma da transposição entre mndos; a cruz de tau é o criptograma da ligação ente o Firmamento e o Mundo.
Em todos os mistérios iniciáticos do Deus Rei Sagrado sacrificado existe essa identificação, ligação ou assimilação com o tronco central, o pilar do equilíbrio, a ponte da ressurreição. Por isso, esses Deuses se tornam os Juizes da Humanidade, aqueles que são responsáveis pela guarda das Leis Divinas, quando não agem como restauradores ou autores de uma nova aliança para combater as distorções contra as Leis Divinas.
Com o crescimento das cidades e a construção de templos em pedra, as árvores e o tronco assumiram totalmente a forma de pilares e a simbologia foi levada para dentro das cerimônias, onde a mulher se tornou o Templo dos Deuses e o homem se tornou o Pilar Central, para que no Hiero Gamos fosse reencenada a criação do mundo e a continuidade da vida. A existência do mundo dependia da união entre um sacerdote e uma sacerdotisa nesses ritos de sexualidade sagrada, onde o resultado da consumação sagrada (a descendência) cumpria o papel de Redentor da Humanidade.
A simbologia cerimonial do Templo dos Deuses e do Pilar Central continuaram a serem desenvolvidas até perderem totalmente sua características mundanas relacionadas à Flora e à Fauna, assumindo um caráter puramente criptográfico entre os Israelitas, uma vez que imagens de entidades espirituais eram proibidas pela religião estatal institucionalizada. Os sacrifícios dos animais totens que simbolizavam os Deuses Reis Sagrados Sacrificados foram substituídos por sacrifícios propiciatórios a Yahveh, que perdeu sua identidade mítica em troca de outra como Deus da lei e da Justiça sobre a Humanidade mais exarcebada. Mesmo assim, essa simbologia resistiu enigmáticamente na forma de adornos, como os querubins sobre a Arca da Aliança, os pilares na frente do templo de Salomão e a Árvore da Vida na Qbalah. Mais tarde, na doutrina escatológica e soterológica da Igreja Cristã, ambas as identidades se condensariam e se mesclariam em Cristo, tanto que este é representado ora suspenso em um tronco, ora em uma cruz Grega, ora em uma cruz Romana.
Toda essa herança cultural foi transmitida primeiro aos Gregos e depois aos Romanos, se espalhando por todo o Império Romano, se misturando e mesclando com crenças locais. Com a ascenção ao poder da Igreja Cristã, essas práticas e crenças forma banidas e perseguidas, sumindo dos grandes centros urbanos, mas sobrevivendo nas vilas e cidades mais ligadas ao campo, no que mais tarde daria ao que a Igreja Cristã chamaria de Bruxaria e culto ao Diabo, no que resultou na grande histeria da Caça às Bruxas.
Nos locais onde secretamente ainda eram preservadas essas práticas e crenças antigas, outros grupos igualmente proibidos e perseguidos encontraram abrigo, proteção e uma fonte de conhecimento ancestral que mais tarde daria origem ao Renascimento do Ocultismo por pessoas mais acadêmicas e aristocráticas, no que resultou nas Missas Negras, nos manuais de Magia Negra e no suposto ‘satanismo literário’.
No fim do século XIX aqueles que cultuavam as antigas crenças assumiram o título de Culto das Bruxas, passando a se organizar e a tomar medidas para proteger o culto aos Deuses Antigos contra a infiltração acadêmica e aristocrática. Apenas na metade no século XX as leis contra a Bruxaria foram revogadas, tornando possível a divulgação ao público de obras relativas a esse Culto das Bruxas, contendo essa mistura de crenças antigas, crenças locais, misticismo ocidental e oriental.
O uso da Árvore da Vida na Bruxaria e na Wica, em sua raiz mítica Caldéia, tem uma função cerimonial que é o Grande Rito; tem uma função tealógica que é a Polaridade Sagrada e tem uma função magico-espiritual que são os Três Níveis (corpo, alma e espírito). As colunas direita e esquerda, Jaquim e Boaz, Força e Beleza, são os pilares, os troncos, as árvores sagradas dos Deuses Antigos. A coluna central, Baphomet, Virtude, é o Mediador, a Kundalini, a Yggdrasil, o Hiero Gamos. Esses mitos e mistérios iniciáticos estão presentes na Runa das Bruxas, na arrumação do altar em par de pares de instrumentos, na marcação do círculo e dos quadrantes, no desenho de sigilos e pentáculos, nas palavras das evocações e invocações.
Através dessa simbologia mítica, a celebração dos sabats e dos esbats se tornam a reencenação da criação do mundo, removem os véus que separam as dimensões e os bruxos tornam seus corpos a ponte entre o Firmamento e o Mundo.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Arte Sacra

Uma das principais características do Monoteísmo é que a Arte Sacra cumpre mais uma função estética ou adornativa, cumprindo parcialmente sua função cerimonial, devocional ou sagrada, ao contrário de como era no Politeísmo.
A Arte Sacra típica do Catolicismo só foi possivel graças à assimilação da Arte Sacra típica do Paganismo, como os Protestantes notaram e denunciaram contra o que chamam de idolatria. Muito embora esta Arte Sacra tenha em sua forma devocional como motivo a representação simbólica dos santos, anjos ou Deus, esta não visava a adoração do objeto, mas a devoção aos valores espirituais que a simbologia que evocar em seus seguidores.
Para os Protestantes, não há diferença entre essa devoção simbólica dos valores espirituais e idolatria, baseado em uma interpretação literal fundamentalista de um trecho da bíblia. Curiosamente, os trechos onde Deus manda fabricar estátuas recebem uma interpretação metafórica.
Para os Judeus, a Arte Sacra tem por objetivo adornar a sinagoga, não são objetos de devoção, não são sagrados muito embora alguns cumpram uma função cerimonial.
A função adornativa e estética da Arte Sacra foram levadas ao extremo pelos Muçulmanos através do uso da caligrafia nas mesquitas. Representações do Profeta, assim como dos anjos, devem ser feitas sem mostrar seus rostos ou com suas faces cobertas com um véu.
A idéia de que a representação simbólica de entidades ou valores espirituais constituem uma heresia, blasfêmia, sacrilégio contra Deus veio da elite sacerdotal que controla as religiões Monoteístas. Na falta de imagens ou estátuas sagradas, torna-se mais fácil impingir e manter na população a idéia de que só há um único Deus e o resto é do Diabo. Por isso que o conceito de Deus é esse de uma entidade cósmica suprema, impessoal, assexuada, divorciada e tirana.
No Monoteísmo a Arte Sacra perdeu muito de sua capacidade criativa, mesmo a Arte em geral tornou-se pobre, restrita e figurativa. As pinturas clássicas que exploraram os mitos antigos apenas mostraram seu lado burlesco e bucólico. Outras formas de Arte tornaram-se meros veículos para o Nacionalismo, o Patriotismo e o Estado Teocrático.
A despeito de toda essa iconoclastia e obscurantismo no Monoteísmo, as imagens sagradas resistem na forma de texto, caligrafia, iluminuras e encadernação, mas cumprindo uma função estética, totalmente asséptica e estéril.
A Arte Sacra durante o predomínio do Politeísmo foi viva, brilhante, criativa, ousada, erótica e estética. Ela celebrou com escritos, pinturas e estátuas a plenitude e a felicidade de viver. O seu propósito era servir como meio, veículo, ferramenta para os antigos ofertar, orar e adorar seus Deuses, da mesma forma como os contemporâneos usam os textos sagrados nas religiões Monoteístas.
A Arte Sacra no Politeísmo era uma extensão, um lembrete dos mitos e mistérios, da humanidade, do mundo, da existência, da divindade, através de uma simbologia sutil perceptível apenas aos olhos treinados. Uma simbologia que tinha uma ligação íntima com a realidade e que só teria sentido dentro do conjunto ou contexto dos mitos do Deus representado, pois os antigos sabiam que as aparências enganam.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A Cristianização da Europa

Eu considero digno de pena o neopagão, o bruxo e o wiccano que defende a atitude do Politicamente Correto, postulando arbitrariamente que: “A Wicca não é confrontar ou combater o Cristianismo. Refutar essa crença ou esse legado histórico não é ‘nosso’ propósito, nem deveria ser o propósito de qualquer religião. Uma religião, qualquer religião versa sobre crença, não a negação da crença de outros”. Esse tipo de atitude é temerária, pois se supõe que ao ‘mostrar respeito’ aos Cristãos esses necessariamente vão nos dar respeito. Considerando que a cada dia aumentam os casos de fanatismo, fundamentalismo e intolerância, deixar de refletir ou responder aos discursos difamatórios e caluniadores é o mesmo que concordar com a violência causada devido ou por causa desses discursos. Eu sou um neopagão, não uma avestruz.
Eu encontrei um texto, com um argumento e algumas perguntas feitas por um cristão que devem ser respondidas por neopagãos, bruxos e wiccanos simplesmente porque se nos calarmos estaremos dando razão à perseguição, ao preconceito e à intolerância.
Argumento e perguntas:

Uma forma de apontar os defeitos da posição dos neopagãos está em mostrar que a Europa e áreas ao redor foram completamente convertida ao Cristianismo que não restou liturgia pagã alguma. As divindades do Paganismo Europeu não foram capazes de garantir a sobrevivência de seus credos. Eles perderam e perderam tão feio que os neopagãos tiveram que inventar suas próprias liturgias e teologias.
Alguém poderia perguntar: “Por que você adora divindades tão impotentes? Se eles não puderam proteger seus antigos adoradores com seus poderes, então como podem confiar neles para os proteger hoje? Por que foi que os pagãos ancestrais se tornaram cristãos, para começar? O que foi que eles acharam deficiente no Paganismo que os levou a rejeita-lo e a confiar em Cristo?”
Refutação e respostas:
O que os Cristãos esquecem é que o Deus Cristão tem origem no Deus Judaico, no Deus Israelita, cujo povo foi continuamente subjulgado por povos Pagãos Politeístas, como os Egípcios, os Assírios, os Persas, os Gregos e os Romanos. De certa forma, Deus não conseguiu manter o credo de seu ‘povo escolhido’, pois podemos ver na própria bíblia os Israelitas adorarem Deuses Pagãos. Em muitos aspectos, mesmo os Cristãos primitivos não tinham um consenso quanto o que seria a religião Cristã e era muito comum ver Cristãos adotarem o Gnosticismo, o Mitraismo e outras religiões existentes no Império Romano. O que hoje se chama de Cristianismo é o resultado mais de um processo humano do que divino.

A resposta da razão da conversão dos Pagãos está na própria história da Europa e do Cristianismo.
O fenômeno do Cristianismo como uma religião bem sucedida é o resultado de um processo histórico que durou vários séculos, agindo de diferentes formas conforme a região por onde o Cristianismo passou.
Historicamente, o que é chamado hoje em dia de Paganismo apenas teve início após o decreto do Imperador Teodósio (puramente por razões de Estado) tornando o Cristianismo a religião oficial do Império Romano, o que tornou as demais religiões proibidas exatamente por serem consideradas ‘cultos Pagãos’. Após o decreto, a Igreja Cristã passou a fazer parte do Estado o que ajudou e muito à Igreja Cristã na conversão dos Pagãos, com os meios dados pelo aparato estatal. Os Pagãos foram constrangidos a se converterem ou terem sua cidadania e seu patrimônio confiscados. Em locais onde os interesses políticos e econômicos impossibilitavam o uso da conversão forçada, usou-se o sincretismo religioso, ou seja, crenças locais foram misturadas ao culto oficial e Deuses locais foram transformados em santos cristãos, portanto, muito da liturgia e Deuses pagãos ainda sobrevive de forma sutil dentro do Cristianismo contemporâneo.
Os Pagãos eram, antes de tudo, pessoas práticas e pragmáticas. Para eles, o Deus Cristão era mais um Deus, igualmente merecedor de adoração e como a conversão ao Cristianismo era uma lei do Imperador ou muitas vezes era incentivada pelo rei local interessado nos subsídios que viriam de Roma, os Pagãos se convertiam, mas não de forma absoluta, eles se tornaram Cristãos nominacionais, mas mantiveram muitas de suas tradições e crenças dentro do sincretismo permitido pela Igreja Cristã. Portanto, nós, neopagãos, não estamos inventando nossas liturgias e teologias, apenas estamos recuperando aquilo que ficou escondido e enterrado por séculos de opressão religiosa, gostem os Cristãos ou não.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Asherah, a Consorte de Yahveh

Asherah, consorte e amada de Yahveh. Seus pilares ou postes sagrados uma vez estiveram ao lado do altar de Yahveh. Moisés e Aarão carregaram um destes 'postes' de Asherah como um bastão sagrado de poder. Uma vez, as crianças de Israel foram dramaticamente curadas simplesmente olhando para o bastão com serpentes suspensas nele. Este símbolo, as serpentes e o bastão, tornou-se o símbolo universal de médicos e curandeiros. Asherah era igualmente bem conhecida no Oriente Médio como a Deusa da Cura.
Então ela foi removida do Velho Testamento por volta do século 500 ou 400 AC. Suas sacerdotisas e sacerdotes, reconhecidos pelas bandagens que usavam, adoravam em montes como Sião, Monte das Oliveiras, Megido e incontáveis outros. Filhas de Sião, um termo encontrado diversas vezes no Velho Testamento, era talvez um termo para uma sacerdotisa de Asherah. Mais tarde significaria 'Cidade de Deus', ou Jerusalem. Quando a adoração oficial estatal começou a se tornar cada vez mais patriarcal e o governo se tornou hostil contra todas as formas de adoração a Asherah, um tempo de conflito e massacre que durou um século começou. Aqueles que ainda se mantinham em sua adoração pagaram o preço com suas vidas nas mãos do rei Josias e outros fanáticos. Mas Ela não pôde ser tirada dos corações e das almas de seu povo.[Esoteric Theological Seminary]
A bíblia dá a impressão que todos os antigos Judeus compartilhavam um sistema de crenças em comum, com apenas um grupo ocasional saindo fora do grupo. Mas a evidência mostra uma imagem diferente. Seria estranho se a religião hebraico-judaica, que floresceu por séculos em uma região de intensivos cultos a Deusas, permanecessem imunes a eles. Os arqueologistas descobriram colônias hebraicas aonde a Deusa Asherah e Astarte-Anath eram rotineiramente adoradas. E de fato, nós encontramos que, por 3 mil anos, os Hebreus adoraram divindades femininas que foram posteriormente erradicadas apenas pela extrema opressão do sacerdócio patriarcal.
E existe também o caso dos Querubins que ficam no topo da Arca da Aliança no Santo dos Santos. Fabricado para o rei Salomão e o rei Acab por artesãos Fenícios, uma placa de marfim mostra duas femeas aladas se encarando. E uma placa mostra os membros masculinos e femininos dos Querubim abraçados em uma posição explicitamente sexual que embaraçaram mais tarde os historiadores Judeus e mesmo os pagãos ficaram chocados quando viram pela primeira vez.
Esse culto da Deusa feminina, ainda que reprimido, permaneceu como uma parte da crença do povo Judeu. As Deusas responderam à necessidade de uma mãe, amante, rainha, intercessora e, mesmo hoje, enigmaticamente permanecem na invocação tradicional do Sabbath Hebraico.[Raphael Patai]
Nota: No dia 08/06/2008 o site da Globo noticiou sobre as descobertas arqueológicas sobre a existência desse culto a Asherah entre os Israelitas. Quem sabe mais descobertas poderão acabar com todo o fanatismo, o fundamentalismo e a intolerância das religiões monoteístas?

domingo, 8 de junho de 2008

Exu: Orisa e Mensageiro

Os primeiros europeus que tiveram contato na África com o culto do orixá Exu dos iorubás, venerado pelos fons como o vodun Legba ou Elegbara, atribuíram a essa divindade uma dupla identidade: a do deus fálico greco-romano Príapo e a do diabo dos judeus e cristãos. A primeira por causa dos altares, representações materiais e símbolos fálicos do orixá-vodun; a segunda em razão de suas atribuições específicas no panteão dos orixás e voduns e suas qualificações morais narradas pela mitologia, que o mostra como um orixá que contraria as regras mais gerais de conduta aceitas socialmente, conquanto não sejam conhecidos mitos de Exu que o identifiquem com o diabo. Atribuições e caráter que os recém-chegados cristãos não podiam conceber, enxergar sem o viés etnocêntrico e muito menos aceitar. Nas palavras de Pierre Verger, Exu "tem um caráter suscetível, violento, irascível, astucioso, grosseiro, vaidoso, indecente", de modo que "os primeiros missionários, espantados com tal conjunto, assimilaram-no ao Diabo e fizeram dele o símbolo de tudo o que é maldade, perversidade, abjeção e ódio, em oposição à bondade, pureza, elevação e amor de Deus".
Assim, os escritos de viajantes, missionários e outros observadores que estiveram em território fon ou iorubá entre os séculos xviii e xix, todos eles de cultura cristã, quando não cristãos de profissão, descreveram Exu sempre ressaltando aqueles aspectos que o mostravam, aos olhos ocidentais, como entidade destacadamente sexualizada e demoníaca. Um dos primeiros escritos que se referem a Legba, senão o primeiro, é devido a Pommegorge, do qual se publicou em 1789 um relato de viagem informando que "a um quarto de légua do forte os daomeanos há um deus Príapo, feito grosseiramente de terra, com seu principal atributo [o falo], que é enorme e exagerado em relação à proporção do resto do corpo". De 1847 temos o testemunho de John Duncan, que escreveu: "As partes baixas [a genitália] da estátua são grandes, desproporcionadas e expostas da maneira mais nojenta".

Sem entrar em pormenores que certamente eram impróprios à formação pudica do missionário, há a vaga referência a Príapo, o deus fálico greco-romano, guardião dos jardins e pomares, que no sul da Itália imperial veio a ser identificado com o deus Lar dos romanos, guardião das casas e também das praças, ruas e encruzilhadas, protetor da família e patrono da sexualidade.
Nunca mais Exu se livraria da imputação dessa dupla pecha, atributos que foram no Brasil amplamente encobertos pelas características que lhe foram impostas pelas reinterpretações católicas na formação do modelo sincrético que gabaritou a religião dos orixás no Brasil.
As oferendas dos homens aos orixás devem ser transportadas até o mundo dos deuses. Exu tem este encargo, de transportador. Também é preciso saber se os orixás estão satisfeitos com a atenção a eles dispensada pelos seus descendentes, os seres humanos. Exu propicia essa comunicação, traz suas mensagens, é o mensageiro. É fundamental para a sobrevivência dos mortais receber as determinações e os conselhos que os orixás enviam do ayiê. Exu é o portador das orientações e ordens, é o porta-voz dos deuses e entre os deuses. Exu faz a ponte entre este mundo e mundo dos orixás, especialmente nas consultas oraculares. Como os orixás interferem em tudo o que ocorre neste mundo, incluindo o cotidiano dos viventes e os fenômenos da própria natureza, nada acontece sem o trabalho de intermediário do mensageiro e transportador Exu. Nada se faz sem ele, nenhuma mudança, nem mesmo uma repetição. Sua presença está consignada até mesmo no primeiro ato da Criação: sem Exu, nada é possível. O poder de Exu, portanto, é incomensurável.
Como mensageiro dos deuses, Exu tudo sabe, não há segredos para ele, tudo ele ouve e tudo ele transmite. E pode quase tudo, pois conhece todas as receitas, todas as fórmulas, todas as magias. Exu trabalha para todos, não faz distinção entre aqueles a quem deve prestar serviço por imposição de seu cargo, o que inclui todas as divindades, mais os antepassados e os humanos. Exu não pode ter preferência por este ou aquele. Mas talvez o que o distingue de todos os outros deuses é seu caráter de transformador: Exu é aquele que tem o poder de quebrar a tradição, pôr as regras em questão, romper a norma e promover a mudança. Não é pois de se estranhar que seja considerado perigoso e temido, posto que se trata daquele que é o próprio princípio do movimento, que tudo transforma, que não respeita limites e, assim, tudo o que contraria as normas sociais que regulam o cotidiano passa a ser atributo seu. Exu carrega qualificações morais e intelectuais próprias do responsável pela manutenção e funcionamento do status quo, inclusive representando o princípio da continuidade garantida pela sexualidade e reprodução humana, mas ao mesmo tempo ele é o inovador que fere as tradições, um ente portanto nada confiável, que se imagina, por conseguinte, ser dotado de caráter instável, duvidoso, interesseiro, turbulento e arrivista.
O preceito segundo o qual Exu sempre recebe oferenda antes das demais divindades serem propiciadas, e que nada mais representa que o pagamento adiantado que Exu deve ganhar para levar as oferendas aos outros deuses, acabou sendo bastante desvirtuado. Passou-se a acreditar que as oferendas e homenagens preliminares a Exu devem ser feitas para que ele simplesmente não tumultue ou atrapalhe as cerimônias realizadas a seguir. Grande parte dos devotos dos orixás pensam e agem como se Exu devesse assim ser evitado e afastado, momentaneamente distraído com as homenagens, neutralizado como o diabo com que agora é confundido. Faz-se a oferenda não para que Exu cumpra sua missão de levar aos orixás as oferendas e pedidos dos humanos e trazer de volta as respostas, mas simplesmente para que ele não impessa por meio de suas artimanhas, brincadeiras e ardis a realização de todo o culto. Exu é pago para não atrapalhar, transformou-se num impecilho, num estorvo, num embaraço.
A metamorfose de Exu em guia de quimbanda o aproximou bastante dos mortais, mas implicou a perda do status de divindade. Exu passou por um processo de humanização, que é o contrário do que usualmente acontece nas religiões de antepassados, em que os homens são divinizados depois da morte, tendo Exu seguido uma trajetória inversa àquela de orixás como Xangô, que um dia foi rei de carne e osso entre os humanos. A concepção de Exu como espírito desencarnado contribuiu para a banalização de sua figura de diabo.
No interior do segmento afro-brasileiro, podemos contudo observar nos dias de hoje um movimento que encaminha Exu numa espécie de retorno aos seus papéis e status africanos tradicionais. Em terreiros de candomblé que defendem ou reintroduzem concepções, mitologia e rituais buscados na tradição africana, tanto quanto possível, especialmente naqueles terreiros que têm lutado por abandonar o sincretismo católico, Exu é enfaticamente tratado como um orixá igual aos demais, buscando-se apagar as conotações de diabo, escravo e inimigo que lhe tem sido comumente atribuídas.
Em muitos terreiros de candomblé, concepções e práticas católicas que foram incorporadas à religião dos orixás em solo brasileiro vão sendo questionadas e deixadas de lado. Quando isso ocorre, Exu vai perdendo, dentro do mundo afro-brasileiro, a condição de diabo que a visão maniqueísta do catolicismo a respeito do bem e do mal a ele impingiu, uma vez que foi exatamente a cristianização dos orixás que transformou Oxalá em Jesus Cristo, Iemanjá em Nossa Senhora, outros orixás em santos católicos, e Exu no diabo. Nesse processo de dessincretização, que é um dos aspectos do processo de africanização por que passa certo segmento do candombl, Exu tem alguma chance de voltar a ser simplesmente o orixá mensageiro que detém o poder da transformação e do movimento, que vive na estrada, freqüenta as encruzilhadas e guarda a porta das casas, orixá controvertido e não domesticável, porém nem santo nem demônio.
Nota: Em diversos povos e culturas, entidades e divindades ocupam uma posição contrastante à sua função. Muito provavelmente, estas entidades ou divindades eram Deuses de um povo que foi dominado por outro e seu estado primordial é ressaltado pela nova ordem que usualmente os difama e calunia e os submete à hierarquia teológica dominante, como os djinn, os daemons e suas contrapartes européias.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Conceitos e contradições sobre o Neopaganismo

Este é um blog de Neopaganismo para Neopagãos, mas de forma alguma deve ser confundido com o Neopaganismo comercializado pela Wilka S/A em livros (que merecem estar na seção de auto-ajuda) e revistas (que estão mais preocupadas com a quantidade da tiragem do que com a qualidade do conteúdo).
Usando uma linguagem de expressão comum, o brasileiro pergunta: Que Diabos então é o Neopaganismo?
O problema para definir o que é Neopaganismo começa ao tentarmos definir o que é Paganismo e as teorias existentes têm falhas porque são transmitidas de forma superficial.
Teoria 1: Paganismo vem de paganus, dito ou referente ao campo e ao camponês. Isto colocaria muitos Neopagãos fora do escopo, uma vez que muitos moram em cidades e também excluiria o caipira, uma vez que este se declara católico (uma forma de Cristianismo).
Teoria 2: Paganismo é um conjunto de religiões ditas ou referentes ao sagrado centrado na terra. Isto colocaria muitos dos povos do Paganismo Clássico fora do escopo, uma vez que estas civilizações cresceram através da exploração dos recursos naturais e também excluiria alguns tipos de Neopagãos, uma vez que estão mais focados no reconstrutivismo cultural.
Teoria 3: Pagão é todo aquele que não é batizado e/ou não confessa a crença no Cristianismo. Isso colocaria alguns grupos Cristãos fora do escopo, uma vez que nem todas as denominações Cristãs adotam o batismo como sacramento. Sem falar que temos os Judeus, os Muçulmanos, os Budistas e Harekrishnas, que igualmente não professam o Cristianismo, mas são formas de Monoteísmo.
Teoria 4: Paganismo é uma religião que enfoca o contato e a harmonia com a natureza. Isto colocaria uma junção entre as contradições das teorias 1 e 2, mesmo porque o caipira tem uma preocupação de ordem prática e pragmática em seu ‘contato e harmonia com a natureza’, que é a colheita, sem o que não haveria subsistência, o que leva muitas vezes a ações que são opostas ao pensamento Neopagão.
Teoria 5: Paganismo é a religião que existia antes do Cristianismo. Isso é fonte de muita confusão, uma vez que o próprio Cristianismo tem muito de suas origens em crenças e filosofias teoricamene consideradas pagãs. Muitas destas crenças pertenciam a povos que não se consideravam ‘Pagãos’ nem tinham uma relação sagrada com a terra e estavam mais preocupados com a cidade, a tecnologia e o desenvolvimento. Mas essa teoria é boa para desmascarar a teoria 6.
Teoria 6: O Neopaganismo tem origem na religião dos Celtas. Isto é um absurdo em termos históricos e antropológicos, pois mesmo os Celtas foram apenas um dos muitos povos antigos que existiram antes do Cristianismo. Mesmo a definição do que seria a ‘religião dos Celtas’ cai em contradição, uma vez que se chama genericamente de ‘Celtas’ diversos povos que existiram na Europa, com sociedades, culturas e credos distintos, conforme a região ocupada. Isso certamente excluiria muitos Neopagãos que estão ligados à outras religiões, de outros povos, como os Romanos, os Etruscos, os Gregos, os Persas, os Assírios, os Fenícios, os Arianos, os Egípcios, os Sumérios.
Teoria 7: Paganismo é a religião que respeita a vida dos outros seres vivos. Isso deixaria fora do escopo muitos dos povos que teoricamente são considerados ‘Pagãos’, como no caso sensível dos povos pré-colombianos. Mesmo os povos do Paganismo Clássico ofereciam sacrifícios de animais e pessoas aos Deuses.
Teoria 8: Paganismo é a Religião Antiga da Deusa Mãe do Neolítico e o Neopaganismo é o resgate desse sagrado feminino e da religião matrifocal. Isso colocaria uma junção entre as contradições das teorias 5 e 6, mesmo porque tal afirmação é um absurdo em termos históricos e antropológicos. Muitos Neopagãos seriam excluídos desse escopo, principalmente os que seguem as formas de Paganismo Clássico que, a despeito de serem Politeístas, tinham um culto centrado em um Deus masculino e tinham uma sociedade patriarcal.
O que a Wilka S/A e o Mercado Editorial não dirão é que o Neopaganismo é um fenômeno recente, que veio junto com o ressurgimento do ocultismo do século XIX e com o aparecimento da Contracultura do século XX.
O Neopaganismo inclui o resgate do sagrado feminino, mas não se restringe a isso, pois isso levaria ao extremo oposto da ditadura do patriarcalismo, levaria ao matriarcalismo radical feminista andrófobo. O Neopaganismo inclui o Politeísmo e o Panteísmo, mas não o Henoteísmo e o Monismo. O Neopaganismo inclui um longo e árdua caminho em busca de nossas raízes e heranças, culturais e espirituais, pela superação dos vínculos e traumas causados pelo Cristianismo, sem pretender uma vingança, uma reparação ou um revisionismo histórico.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A relação entre daemons e humanos

Nós temos que conhecer os costumes de nossos antepassados no tempo do Paganismo, mas nós não podemos descobrir com certeza quais eram suas crenças quanto a Espíritos, a menos que saibamos, ao menos em geral, suas opiniões e práticas, sobre Deus e Divindades inferiores. Mas as grandes diferenças e divisões que existem entre os Pagãos sobre esse assunto nos deixa no escuro, bem como as opiniões que os descrevem. Entretanto, nós podemos concordar quanto a isso, tomando as numerosas diferenças para uma uniformidade, que pode ser afirmado que, em todas as eras, Pagãos acreditavam unanimemente que há um Deus Soberano, a Primeira Causa Universal de todas as coisas.
Aqui temos o lugar certo para distinguir as doutrinas dos Pagãos, seja quanto a Religião, seja quanto à Natureza. Na última, eles questionaram após a Primeira e Segunda Causa de todas as coisas, de seus movimentos e mudanças, sem qualquer referência à Religião. Mas quando prosseguiiram para a Religião, ali surge entre eles mais diferenças consideráveis.
As divindades estão divididas em quatro, em algums graus que descem de cima a baixo e que os três últimos graus são novamente divididos em vários outros, que são chamados de Deuses, Daemons e Heróis. Existem Deuses Superiores, Intermediários e Inferiores. Os Superiores ou Deuses Celestiais habitam o Firmamento, eles são imateriais e eternos por natureza; mas existem alguns que são visíveis nas estrelas, enquanto outors não podem ser vistos por olhos carnais, mas vistos por aqueles que Sabem. Os Deuses são então distinguidos em sexos, como a Humanidade, em Deuses e Deusas.
Vamos prosseguir dos Deuses aos Daemons, ou Espíritos de certa ordem. O Mundo é cheio de Espíritos, no ar onde eles habitam e na terra na qual eles conversam entre os humanos. Os Pagão acreditavam que estes Daemons sabiam o que é importante ao ser humano, seja para sua felicidade ou miséria e que eles são os mediadores entre os humanos e os Deuses. Os Daemnos eram importantes como mediadores e então eles eram também evocados como mediadores e condutores dos humanos e foram colocados conforme a opinião dos Pagãos, entre o Firmamento e o Mundo, no ar e consequentemente entre os Deuses e os humanos. Os Daemnos tem uma natureza que é o mana entre Deus e Homem que explica e decrala ao Homem que coisas pertencem aos Deuses, quais são seus mandamentos e como sacrifícios devem ser feitos bem como o que oferecer aos Deuses pois, como eles estão no meio, compreendem a natureza de ambos, como que ligando e unindo tudo junto.
As Divindades não mexem com o Homem, mas estes Espíritos são os condutores de toda a comunicação e conversa dos Deuses conosco, seja acordado ou dormindo. Os Daemons então, sendo por natureza mediadores entre os Deuses e o Homem, sendo também Espíritos e quase Deuses, não poderiam ser melhor chamados senão Espíritos de uma ordem intermediária, em relação à natureza deles; ou Deuses Intermediários, em referência à suas funções, em tão grande estima que estes Espíritos estão e que era o sentimento de nossos antepassados quanto a eles.
Os poderes, que põem e dominam as paixões naturais do Homem em movimento, que o governa, como também as Almas separadas do corpo, são chamadas de Deuses, Daemons ou Espíritos; que a Alma nasce com o corpo, não morre entretanto com ele e que ela carrega o nome de Gênio, quando estão separados um do outro. Isso significa que não poderia ser melhor expressado do que chamando estes de Almas, Espíritos Associados ou Espíritos peculiares a algo, uma vez que todo Homem tem um dentro de si.
Baltazar Bekker, The World Upsidedown. Cornell University.
Nota: o autor inclui em sua análise das práticas dos 'Pagãos' alguns conceitos mais ligados aos filósofos clássicos da Antiga Grécia. A chamada Primeira Causa Universal pertence à Escola Neoplatônica, identificando Deus como Logos, o que está presente nos conceitos do Monismo posterior. Curiosamente o conceito de Deus do Cristianismo como uma Entidade Cósmica provém do Neoplatonismo.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A tradição do mastro junino

Começaram as festas em homenagem a Santo Antônio, em Barbalha. Na tarde de ontem, ocorreu a procissão do pau da bandeira, que abriu as comemorações na cidade.
À entrada da cidade, o cartaz imenso anuncia. É lá onde ocorre "a maior festa de Santo Antônio do mundo", segundo os barbalhenses. Na tarde de ontem, a cidade que tem pouco mais de 53 mil habitantes se encheu de mais gente.

Todos queriam participar da abertura da Festa de Santo Antônio. Principalmente todas. A tradição foi novamente cumprida e se renovou. Desta vez, no lugar de aroeira, foi um tronco de angico de 25 metros que cerca de 40 homens carregaram por seis quilômetros até a praça principal de Barbalha. Pesava quase duas toneladas e meia. Era o início dos festejos ao santo padroeiro, que seguem até dia 13. Acompanhar a procissão do pau de Santo Antônio é atração da cidade. A queima de fogos, no meio da tarde, é aviso de que o tronco acabara de sair do sítio São Joaquim e ganhava a avenida Jules Rimet. A essa hora, os encontros já haviam começado. Multidão fora de casa. Pelas calçadas, as famílias se apinhavam para ver o pau passar. Nas ruas, ninguém se arriscava a disputar caminho com o monte de carregadores ao redor do tronco. Perigo de acidente.
São apenas poucos segundos com o pau de angico apoiado nos ombros dos carregadores. Passos curtos, poucos e ligeiros, a tora torna ao chão, num movimento rápido e bruto. É nesse intervalo em que os homens se abastecem com aguardente. "Ajuda, dá força a eles", garante João José de Oliveira, 49, que, há 16 anos, é responsável por distribuir a bebida "para quem quiser". Nunca sobra nada dos 200 litros que ele leva no carro da Cachaça do Sr. Vigário.
De cima do carro de som, é Silva Neto quem incentiva o pessoal. Ele é o locutor oficial da festa há, pelo menos, 20 anos: "Girou lá atrás, pessoal. Vamos colocar o pau no ombro". Os carregadores se abaixam e nem dá tempo contar direito. "Ê ô...". O pau sobe e caminha mais um pouco nas ruas pelos ombros dos homens. É o desafio a ser vencido em nome de Santo Antônio, lembra o locutor. Ninguém pode falhar. "É tradição", ele não deixa esquecer. Qualquer vacilo ou tropeço de um é motivo de pequena confusão de todos - muitas vezes, difícil de perceber se é brincadeira ou séria.
Do lado, o público que assiste à prova de resistência saúda o santo com vivas, como que dando força aos carregadores. No meio da gente, tem todo tipo. Como a bebida é liberada, não faltam os enxeridos que exageraram nas doses se achegando às moças sozinhas. Ir desacompanhada não é recomendável, alertam os freqüentadores. Outros grupos se formam nas ruas transversais e preferem celebrar a festa dançando forró nas esquinas. Os paredões de caixa de som se formam logo e o forró eletrônico se mistura aos gritos dos homens com o peso nos ombros. A tradição ali perdeu o sentido.
Autora: Daniela Nogueira
Fonte: O Povo

domingo, 1 de junho de 2008

Essa tal de Igualdade

Durante a Revolução Francesa, a Assembléia Constituinte da França aprovou em 2 de Outubro de 1789 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Isso mais tarde viria a fornecer as bases para a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclamada pela ONU em 10 de Dezembro de 1948.
Especificamente em Política, o conceito de Igualdade descreve a ausência de diferenças de direitos e deveres entre os membros de uma sociedade. Em sua concepção clássica, a idéia de sociedade igualitária começou a ser cunhada durante o Iluminismo, para idealizar uma realidade em que não houvesse distinção jurídica entre nobreza, burguesia, clero e escravos. Mais recentemente, o conceito foi ampliado para incluir também a igualdade de direitos entre gêneros, classes, etnias, orientações sexuais, etc.
Juridicamente, a igualdade é uma norma que impõe tratar todos da mesma maneira. Mas a partir desse conceito inicial, temos muitos desdobramentos e incertezas. A regra básica é que os iguais devem ser tratados da mesma forma (por exemplo o peso do voto de todos os eleitores deve ser igual). Mas como devemos tratar os desiguais, por exemplo, os ricos e os pobres. Se fala em igualdade formal quando todos são tratados da mesma maneira e em igualdade material quando os mais fracos recebem um tratamento especial no intuito de se aproximar aos mais fortes.
No contexto da pós-modernidade, a idéia de igualdade tem sido gradualmente abandonada e preterida pela idéia de diversidade.[wikipédia]
De especial interesse para o Direito é a distinção da igualdade perante a norma e na norma (tomando-se aqui em sentido restrito, como sinônimo de regra ou preceito). No primeiro caso, tem-se tratamento igual se o paradigma é respeitado, imparcialmente, pelo aplicador (quer dizer, a própria norma é o parâmetro de igualdade, efetivamente atuado). O segundo é mais problemático: será possível determinar se uma norma é, em si, igualitária?
A igualdade perante a norma poderia, em tese, ser atendida mediante qualquer das concepções, mas não a igualdade na norma, posto que ela é desnecessária e nos demais casos a aplicação do princípio reclamaria a intermediação de uma regra de distribuição. De modo que toda norma, enquanto condição sine qua non de realização do princípio, seria igualitária (sob um certo ponto de vista). Vale dizer, se a igualdade pode predicar-se ou não da norma, as definições não ajudariam a responder.
A igualdade não é um rótulo vazio nem um conceito exato, suportando diversas concretizações históricas segundo as pautas que, culturalmente, pareçam ser de materialização mais urgente e isto se faz por via de reforma legislativa.[Erik Frederico Gramstrup]
Ou seja, a igualdade é um preceito ético social, conforme os limites estipulados por este padrão social, visando coibir uma ação prejudicial, ao mesmo tempo em que busca uma reparação judicial a estes prejuízos. Um bom exemplo atual é a polêmica sobre leis que visam criminalizar a homofobia, bem como as reações esperadas daqueles que se vêem 'ameaçados' por esta futura norma social. Mas fora da ética social, podemos nos considerar, nos tratar ou nos vermos iguais? De que forma, em quais circunstâncias, em que condições?
Nós não somos iguais, isso é mais do que evidente. Não podemos nos tratar de forma igualitária, mas sim tolerar as diferenças, mas resguardando nossas opções e opiniões discordantes. Não podemos nos ver como iguais, mesmo gêmeos univitelinos tem particularidades que os tornam distintos entre si. Nós não temos origens iguais, cada um de nós tem orgulho de suas raízes culturais e nossa espécie é tão bem sucedida graças à essa divina diversidade. Nós temos crenças diferentes, filosofias diferentes, o mesmo livro ou filme será visto de diversas formas e isso não precisa se tornar fonte de paranóia, histeria ou obsessão. Nós temos visões diferentes desse mundo, temos visões diferentes sobre a divindade e nunca chegaremos a um consenso. Simplesmente porque a realidade do Universo é múltipla. Tentar tornar coisas distintas iguais é uma forma de uniformização, de mediocridade, de empobrecimento, de diminuição, de castração. Tentar tornar coisas distintas iguais, usando clichês filosóficos disprovidos de seu conteúdo e contexto, é a estratégia usada pelos déspotas esclarecidos, tiranos e ditadores, seculares e sacerdotais.
O que isso tem a ver com neopaganismo? Apenas a ideologia reinante que 'todos os Deuses são o Deus e todas as Deusas são a Deusa'. Nossos antepassados tiveram revelações diferentes, desenvolveram mitos diferentes, formas de religião diferentes, para Deuses e Deusas diferentes. O que isso tem a ver com a Wica? Felizmente nada, isso é problema dos consumidores da Wilka S/A.
Nós não somos iguais. Nosso Deuses e Deusas não são iguais. O resto é ditadura da hegemonia.