sábado, 29 de novembro de 2008

A raiz dos problemas sociais

'A crença religiosa pode causar danos à sociedade, contribuindo através de taxas mais altas de homicídio, abortos, promiscuidade sexual e suicídio. Crer em e adorar a Deus não é apenas dispensável para uma sociedade saudável mas pode realmente contribuir para os problemas sociais.' The Times (27 de Setembro de 2005)
O cientista social Gregory Paul descobriu que os problemas sociais como homicídio, mortalidade precoce, prevalescimento de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, gravidez adolescente e aborto são 300 vezes maiores nos países cuja moral e valores são ordenados por modelos religiosos do que em nações seculares onde os motivos são baseados no senso comum.
Isto demonstra que, a despeito do clamor de encontrar soluções para o crime e desvio social em nossa sociedade, os políticos nunca conseguirão resolver esses problemas enquanto eles estiverem pressionados pela moralidade religiosa que eles invariavelmente estão vinculados. De fato, a conclusão assombrosa da pesquisa é que os próprios políticos são quem estão causando os problemas sociais ao aderir aos desejos dos ativistas religiosos.
O que esta pesquisa verdadeiramente significa é que o pico da disfunção e sofrimento que é amplamente noticiada na imprensa todos os dias nunca será resolvido até ter uma separação formal entre Igreja e Estado. Então, quando os políticos estiverem mais livres para tomar decisões baseadas no senso comum, as pessoas poderão se beneficiar com uma vida melhorada e mais feliz baseada em ideais humanos.
Entretanto, não é a religião em si mesma que é responsável pelo dano às sociedades ocidentais. A única religião que tem tido controle sobre sua sociedade nos últimos 2 mil anos é o Cristianismo. A pesquisa mostra que todas as religiões organizadas irão afetar seus seguidores por contágio, mas a única claramente responsável por fazê-lo através da Europa e o Mundo Novo [Américas] é o Cristianismo.
Não é uma crença espiritual que causa o mal, mas as exigências irracionais e quase impossíveis que as igrejas ortodoxas fazem em suas congregações. São os perversos e supersticiosos medos que a religião ortodoxa injetam nas mentes das pessoas em uma idade impressionável. A culpa, a intolerância e o constrangimento em proibir outras formas de crenças espirituais coexistir em termos iguais ensinam as pessoas como odiar os outros que são diferentes. Ter uma espiritualidade é parte da condição humana. Isto não é um ataque à opção de crença. Mas uma crítica à religião ortodoxa. A religião ortodoxa é um parasita nocivo ainda pendurado no estômago macio da democracia, sugando a vida porque os sacerdotes que a conduz são repreensíveis ou incapazes.
Fonte:
SAFF

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Onde se encontram os demônios

Alguns dos textos deste blog abordaram sobre onde estão ou se encontram os Deuses, mas para o tema geral torna-se mais interessante desenvolver sobre onde estão ou se encontram os demônios.
Para os antigos gregos, os demônios (daemons) são entidades mais ligadas a este mundo a ponto de serem quase humanas. Por alguns mitos e lendas antigas, é bem provável que eles foram Deuses dos povos que habitaram a Grécia antes da dominação helênica. Este tipo de supressão foi comum em diversos povos antigos, não foi novidade alguma isto ter acontecido com as crenças originais européias com a chegada do Cristianismo.
Pode parecer curioso e contraditório, mas a teologia cristã não existiria sem a concepção de pecado, Inferno, Apocalipse, Juizo Final, Diabo e demônios que cumprem com suas devidas funções tal como é preconizado na escatologia. Na concepção doutrinária cristã, a realidade é dividida, separada, em dois grupos opostos e adversários, dentro de uma dicotomia extremamente maniqueísta. Mas o mais interessante desta concepção é a forma como ela é utilizada ora para sustentar as posições doutrinárias de um grupo, ora para criticar as posições doutrinárias de outros grupos.
Desde seu surgimento, grupos de cristãos viviam em contendas com outros grupos que se arrogavam as mesmas pretensões e somente com a instituição de um grupo dominante é que foi determinada o que se entendia por ortodoxia, relegando o restante como heresia ou apostasia. Mas isso não evitou o primeiro cisma no Cristianismo, o que facilitou e possibilitou a ocorrência do segundo cisma e o aparecimento do Protestantismo.
Quando o Protestantismo conquistou o mesmo prestígio das demais vertentes do Cristianismo, tornou-se um hábito de um acusar o outro de ser controlada pelo Diabo e de praticar cultos satanistas. Por outro lado, em sua apologia, cada um usava de ocorrências pontuais - como os de possessão - para mostrar que o lado deles era o mais certo argumentando que o Diabo e os demônios procuram combater a verdadeira, santa e pura Igreja de Cristo.
Interessantemente o único consenso entre as diversas denominações cristãs - bem como nas religiões institucionalizadas - é que as práticas de magia, de adivinhação, de vidência, de mediunidade e de bruxaria são, efetivamente, características do culto satânico. Não obstantemente, dentro do Cristianismo existem práticas que são uma forma de magia como o uso de bençãos, velas, medalhas, óleos, trechos da bíblia; existem êxtases, revelações e profecias que são formas de adivinhação, vidência e mediunidade.
A Bruxaria torna-se um caso mais sensível, pois ela é vista tanto como uma heresia quanto uma apostasia. Ao acusar as bruxas de terem certas crenças e práticas que são discriminadas preconceituosamente como um culto satânico, o discurso não tem como objetivo as efetivas características das bruxas nem as crenças e práticas da Bruxaria, mas apenas usá-las como um recurso simbólico para embasar e justificar os argumentos usados na exposição da doutrina peculiar do grupo ao qual o crítico pertence, tendo por objetivo a purgação e a purificação deste grupo destas práticas vistas como impróprias ao "verdadeiro" Cristianismo.
A demonização não é apenas um recurso argumentício providencial usado apenas no discurso religioso, mas também está presente no discurso ideológico, político, econômico, social e científico, muito embora usem de outras pressuposições e palavras. Apenas no discurso artístico a demonização assume um caráter ambíguo que varia entre o sarcasmo/ironia e a contestação/militância, mas ainda cumpre com a função de servir como um meio de transmitir uma mensagem.
Para o Neopaganismo, a Bruxaria e a Wica a mensagem é a de que tanto os Deuses quanto os demônios estão dentro de nós, faz parte de nossa essência. As religiões majoritárias nos tem feito projetar ou rejeitar essa essência e isso apenas nos tem deixado enfermos. Portanto, é tempo de tentar a alternativa de reconhecer, aceitar e assimilar essa essência, para nos tornarmos humanos mais sadios.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Bruxaria e linguagem

Considerar a Bruxaria como uma linguagem nos leva a algumas considerações bastante provocantes.
Ao entender Bruxaria como linguagem, nós podemos considerá-la como a identidade de um povo. Enquanto linguagem, a Bruxaria possui então um conjunto coerente de signos e símbolos, que são combinados para formar um sistema de significados e significantes, que são ordenados segundo uma estrutura de ortografia e gramática, que devem ser aprendidos e preservados para manterem suas características intrínsecas. Enquanto linguagem, a Bruxaria se define, define o mundo e define a relação entre ela e esse mundo.
As fontes que existem para se ter uma vaga noção de como é esta linguagem vem do folclore (o que inclui o que é pejorativamente chamado de crendice e superstição), de textos ocultistas (o que inclui os grimoires), de textos eclesiásticos (o que inclui as versões protestantes), de textos legais (o que inclui os processos) e de textos acadêmicos.
Signos e símbolos
Existem diversos ideogramas pictóricos – sejam enquanto códigos de alfabetos, como o thebano, seja enquanto desenhos, como o pantáculo – cujo uso constitui, configura e empresta um caráter sobrenatural aos mesmos.
Existem também certos sinais comportamentais – seja enquanto uma marca, como o estigma, seja enquanto vestuário, como o chapéu – cuja presença evidencia, caracteriza e destaca um indivíduo como pertencente a este povo.
Significado e significante
Idéias aparentemente simples ganham outros contornos e desafiam os limites e fronteiras daquilo que supostamente deveriam significar. A natureza deixa de constituir somente a fauna e a flora para incluir o reino mineral. Suas fronteiras são estendidas abarcando com isto os planetas, revogando os limites entre o que é considerado “preternatural”, “natural” e “sobrenatural” para incluir um reino astral e os diversos espíritos e entidades que fazem parte deste mundo, desta natureza, desta realidade.
Um signo ou símbolo deixa de ser um mero pictograma funcional representativo para se tornar efetivamente aquele objeto tornando evidente que, através do uso correto de uma seqüência de signos e símbolos, seja em um texto, seja em um cântico, seja em um desenho, se pode apossar, conter, direcionar, impelir esses objetos e energias presentes e em ação na natureza para justificar, construir, executar e provocar os próprios fenômenos da Bruxaria.
Ortografia e gramática
As relações estruturais nas quais significado e significante são auto-explicativos e auto-referentes são as que definem a Bruxaria como uma linguagem inteligível, não apenas no âmbito de quem a pratica, mas igualmente aos seus destinatários co-participantes deste contexto, uma vez que todos fazem parte do conjunto compreendido por natureza, mundo, realidade.
Nestas condições, a escolha do tipo de feitiço nunca é aleatório, os elementos contidos na receita atendem a estas regras bem específicas. O conjunto de signos e símbolos, dentro destas regras, seguem um padrão rigoroso para sustentar e capacitar o significante e o significado das capacidades que se estimam deles a fim de produzir o fenômeno esperado da Bruxaria.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Governo britânico é instado a pedir perdão

LONDRES - O ministro da Justiça britânico, Jack Straw, foi instado nesta sexta-feira a pedir perdão póstumo aos homens e mulheres que foram executados na Grã-Bretanha sob a acusação de praticar bruxaria.
Um grupo de ativistas pediu a Straw que reconheça os "erros históricos da Justiça britânica" e peça perdão publicamente. Uma cópia do requerimento também foi enviada ao secretário da Justiça escocês, Kenny MacAskill.
Mais de 400 pessoas foram executadas na Inglaterra, e cerca de duas mil na Escócia, antes da promulgação da Lei de Bruxaria de 1735, que acabou com os julgamentos do gênero.
O pedido por um perdão oficial ocorre meses após o governo da Suíça se desculpar oficialmente pela morte de Anna Goeldi, decapitada em 1782 e considerada a última pessoa a ser executada por bruxaria na Europa.
O requerimento surgiu de uma família proprietária de uma loja de fantasias, que pediu ao historiador John Callow para investigar as histórias das vítimas britânicas.
Callow, editor do livro Witchcraft and Magic in Sixteenth and Seventeenth Century Europe ('Bruxaria e Magia na Europa dos séculos XVI e XVII', em tradução livre), afirmou que está na hora de reconhecer que os julgamentos por bruxaria foram as 'mais perigosas e trágicas' fabricações da história.

Fonte : JB Online

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Um mundo assombrado

"Embora o oceano guarde muitos segredos, eu sabia que não há a mais mínima base oceanográfica ou geofísica para deduzir a existência da Atlântida e Lemúria. Por isso sabe a ciência até este momento, não existiram jamais. A estas alturas, o disse a contra gosto."[Sagan, Carl. O Mundo Assombrado por Demônios. internet: pg. 11-12]
O que se pode aprender ao percebermos a ciência como parte do contexto histórico é que mesmo ela é produto de uma concepção, de um padrão, de uma norma, de uma visão de mundo. Até pouco tempo atrás se achava que Tróia era uma lenda, uma cidade que nunca existiu de fato, até que arqueólogos acharam seus vestígios. Diante de vários eventos que mostram que a concepção em voga pode estar equivocada, os pesquisadores por acaso questionam os seus médotos ou revisam seus preconceitos a respeito de um tema? Após ler o livro "História da Bruxaria" de Jeffrey Russel eu tendo a sentir uma ponta de complacência com o saber acadêmico.
Antes eu devo, como acadêmico, listar as formas de pesquisa: a) por documentos b) por experiência em laboratório e c) por trabalho de campo. Quando o tema é Bruxaria, o trabalho se restringe ao levantamento de documentos e algumas experiências em laboratório, mas raríssimos trabalhos de campo.

"Somos conscientes de que cientistas venerados se equivocaram."[idem. pg. 35]
Entretanto deve-se entender que isso não significa que os cientistas estão sempre equivocados. A ciência tem feito um grande favor à humanidade ajudando-a a superar a opressão do Cristianismo.
Curiosamente, tem aparecido um revisionismo histórico que faz estranhas concessões quanto à história do Cristianismo, mas não visando a melhoria da compreensão histórica e sim os poderosos interesses de instituições cuja existência depende da manutenção desse mito.
O padrão atual em voga se coroa com uma infalibilidade que beira o histriônico. Nesse padrão existe um preconceito muito comum de atribuir à religião (a saber, a Cristã, que usualmente é a referência para os conceitos de Deus, Diabo, sobrenatural, etc) a pecha de ter lançado a humanidade em um mundo assombrado por demônios. Os monges da razão convenientemente esquecem que cientistas na época em que a ciência estava em seu berço acreditavam na existência factual dos demônios, do Diabo e daqueles que supostamente, pelo padrão de pensamento da época, eram seus agentes: os hereges e...as bruxas.
Tem sido muito proveitosa a leitura do livro de Stuart Clark: "Pensando com Demônios", uma análise semântica dos textos produzidos entre os séc. XV e XVIII, no que incluem textos de cientistas - como Francis Bacon - que usam de conceitos e palavras incompatíveis com o que atualmente se concebe como sendo o padrão científico.
A concepção em voga sobre a crença e prática de Bruxaria continua sendo a mesma da Renascença e do Iluminismo, a mesma época quando a Caça às Bruxas e a histeria esteve em seu auge. Nesta época, a concepção de mundo provinha da categorização de forma arbitrária dos fenômenos em natural/sobrenatural, possível/impossível, real/ilusório. Os pesquisadores e cientistas, ao escrever sobre a Bruxaria, tomavam as acusações imputadas às bruxas para então descrever tais acusações dentro deste padrão e, por extensão, discriminar a causa alegada dentro deste mesmo padrão. Certamente se os pesquisadores e cientistas da época tivessem feito um trabalho de campo teriam se deparado, não somente com a existência das bruxas, mas com as crenças e práticas da Bruxaria, ligadas ao folclore e às crenças religiosas originais da Europa.
Teóricos do séc. XXI, ao escreverem sobre o tema Bruxaria, Neopaganismo e Wica deveriam observar não apenas os dados de autores como lhes convém, mas observar o que o próprio Carl Sagan lembra:

"Na ciência não há perguntas proibidas, não há temas muito sensíveis ou delicados para ser explorados, não há verdades sagradas."[idem. pg. 34]

Bruxaria e história

“Bruxaria” não era uma simples questão de nomeação, mas o produto de diferenciações muitas vezes complexas. Os que escreveram a seu respeito foram especialmente confundidos por seu caráter inversivo e este ato de reconhecimento os comprometia com as convenções de pensamento e expressão.
Mas cedo ou mais tarde os teóricos da Bruxaria se defrontaram com um conjunto de problemas – os motivos para que o Diabo e seus agentes serem muito mais ativos em sua própria época do que em qualquer outra.
Isto não significava que a especulação sempre tenha sido muito profunda. Na verdade, os autores sobre Bruxaria eram levados a considerar a significação mais profunda da magia e da bruxaria como aspectos definidores de sua época e decisivos para seu significado.
Os próprios historiadores modernos praticamente ignoraram a questão do porque as perseguições à Bruxaria surgiram entre os séc. XV e XVIII e não em alguma outra época. A maneira como os contemporâneos explicavam o que também viam como um quebra-cabeças histórico pode ter algum interesse intrínseco. Em particular, estavam preocupados com um de seus temas centrais – a leitura escatológica dos asssuntos corentes. A simples evidência de sucessos de Bruxaria reforçava a divisão binária da história do mundo agostiniano como uma luta dramática entre forças morais antitéticas, da qual o resultado é garantido pela vitória de um grupo sobre o outro. A evidência de sua aceleração deu precisão à idéia de que o desenlace estava próximo, transformou em assunto mais exato a situação da época corrente no fim da história e ajudou grandemente na identificação do Anticristo. Os escritores sobre bruxaria dependiam de uma teologia da história e ao mesmo tempo contribuíam para sua elaboração. O resultado foi uma interpretação da bruxaria radicalmente diferente de tudo que poderia ter surgido.
O debate sobre a relatividade no saber histórico não adquiriu a estatura do debate na ciência, principalmente porque a maioria dos historiadores em geral admitiram a questão. O positivismo ingênuo daqueles para quem o passado poderia ser fielmente retratado em narrativa já havia sido abandonado como mistificador. E a tentativa de garantir o direito de dizer a verdade histórica dando uma explicação direta dos “fatos” havia se mostrado não passar de uma afirmação de autoridade. Quanto ao mais sofisticado “positivismo lógico” dos que tentavam reduzir toda investigação empírica aos mesmos cânones metodológicos também foi desacreditado. Os argumentos alternativos são desdobramentos das visões da autonomia que fizeram da interpretação o pré-requisito da compreensão. Os historiadores foram impelidos nessa direção pelo desenvolvimento da linguagem comum, pela atenção à significação e pelas realizações de antropólogos sociais e culturais. O efeito dessas influências tem sido o de desenganchar a história de suas amarras tradicionalmente realistas, removendo gradualmente o sentido de que o pensamento histórico é responsável por qualquer outra coisa que não ele próprio. Isto tem conseqüências libertadoras para o modo como vemos o próprio passado da disciplina. Agora os historiadores deveriam ser capazes de admitir que a história é simplesmente uma forma de introspecção para os que constróem o passado de certas maneiras.
O modo como uma sociedade entende seu passado raramente é uma questão indiferente e freqüentemente é um elemento importante de sua auto-imagem; é sempre um dos modos em que a sociedade se revela e revela as suposições e crenças sobre seu próprio caráter e destino. O que é real ou mítico numa visão do passado é função apenas das regras adotadas pelos historiadores responsáveis por ela.
Clark, Stuart. Pensando com Demônios. Edusp: 2006, pg. 407-413.

sábado, 15 de novembro de 2008

Gens e Ethnos

Eu fico com as entranhas embrulhadas quando eu vejo um neopagão (no que inclui os reconstrutivistas culturais) fazendo reinvindiçações de privilégios e direitos ao seu grupo, usando um nacionalismo e um patriotismo rasteiro que mal disfarça o estrabismo xenófobo e a estupidez racista.
Não é de agora que se fala que religião e política não devem ser misturados. Um neopagão que clama pelo "retorno pela pureza" de seu "povo", de sua "cultura" e de sua "religião" não deve ter conhecimento algum de antropologia, história ou cultura.
Alguns grupos falam, com orgulho iludido, sobre a "verdadeira identidade" dos europeus como vindo dos indo-europeus. Para começar, só em falar em grupos ou povos indo-europeus mostra que está se falando de uma mescla, de uma mistura, de uma miscigenação. A classificação como indo-europeu refere-se apenas a matérias linguísticas, e não necessariamente a etnias ou culturas. Os chamados indo-europeus se localizavam, desde o quarto milênio, ao norte do Mar Negro, entre os Cárpatos e o Cáucaso, sem jamais, todavia, terem formado uma unidade sólida, uma raça, um império organizado e nem mesmo uma civilização material comum.
Portanto, o que existe é uma enorme confusão ideológica sobre identidade, origem, gens e ethnos. Então a pergunta é por que se tem tanta necessidade nos dias de hoje de se descubrir estes fatores e, sobretudo, qual a relação entre estes, o neopaganismo, a política e o neonazismo?
A Europa, bem como os países colonizados por seus descendentes - especialmente as Américas - sofreu um grande trauma em sua identidade étnica, tanto com o domínio do Império Romano quanto com o domínio do Império Cristão. Mas isso faz parte de toda a história humana, mesmo os habitantes primitivos do continente europeu foram dominados por outros povos, que por sua vez foram formados de mesclas de diferentes povos. Não há, na atualidade, forma alguma de "restaurar" a pureza étnica de povo algum.
Podemos querer saber as nossas origens, resgatar a nossa herança cultural e trazê-la para os nossos dias, não querer levar a atualidade de volta a esse passado dourado idealizado. Nossa identidade, nos dias de hoje, é fruto da contribuição de diversos povos, diversas culturas, incluindo imigrantes, negros, árabes, asiáticos. Querer retomar uma "pureza" étnica é matar parte dessa cultura que também faz parte de nossa identidade, de nossa riqueza, de nosso País. Podemos ter orgulho de nossa gens - um termo que entrou na cultura européia pelos Romanos - mas não podemos nos esquecer o outro lado do conceito de gens "romana" - a família, que não era feita apenas de indivíduos ligados por laços sanguíneos, mas também de todos aqueles que o pater familians adotava. Um familiar romano, mesmo se escravo ou servo, usufruía quase dos mesmos direitos que os patrícios romanos, muitos recebia mais que a liberdade, recebiam a cidadania sob o nome da família do pater familians que os adotara. Esse costume ainda faz parte do folclore europeu, bem como do neopaganismo, mas não da política que foi o pesadelo europeu, o Nazismo, uma ideologia que infelizmente vem sendo reutilizada para objetivos espúrios.
Para os neopagãos e reconstrutivistas culturais que estão reembarcando sem perceber na ideologia do III Reich, fica uma pequena reflexão. A região de onde os Arianos vieram - um dos grupos étnicos responsáveis pela expansão da cultura indo-européia - é hoje mais conhecida como Tajiquistão, a mesma região de onde se originaram os Persas, a mesma região da Turquia, do Irã, do Paquistão, uma região de povos bem morenos, em nada parecidos com o ideal nórdico, caucasiano ou germânico.

A reconstrução do templo de Artemis em Efeso

Está em marcha um ambicioso plano de restauração do templo de Ártemis em Éfeso, também chamado Artemision, uma das sete maravilhas do mundo antigo.
Após décadas de vandalismo e de destruição motivada pelo fanatismo religioso, o sacro e magnificente edifício será agora reconstruído.
Dr. Atılay İleri, o fundador da Fundação de Cultura, Arte e Educação de Ártemis, encontrou-se com o Dr. Anton Bammer do instituto de arqueologia da Universidade de Viena, Áustria, há dez anos atrás enquanto o Dr Bammer estava chefiando uma série de escavações na área. Durante este período, especialistas procuraram pelas técnicas de como reconstruirem Artemis.
Foi nesse encontro que os dois começaram a reconstrução do magnífico templo de Artemis. Com o apoio dos cientistas austríacos, İleri teve arquitetos suíços preparando um plano para a reconstrução do templo.
İleri, que sonhou na reconstrução do templo por dez anos, disse: "Quando completado, o templo não será uma cópia ou imitação da Artemis original mas a própria Artemis. E suas irmãs do passado irão olhar para ela com orgulho e inveja".

O templo original de Ártemis tinha cento e vinte colunas. Trinta e seis delas estavam colocadas em círculos cúbicos. Se for completado, o novo templo será o terceiro da História dedicado a Ártemis. O seu tamanho será o do original. Na sua reedificação, usar-se-á um total de vinte e cinco mil metros cúbicos de mármore, o material original de Ártemis. Sessenta das cento e vinte colunas do novo templo terão placas de base.
Com o intuito de encontrar as melhores esculturas para adornar o templo restaurado, realizar-se-á um sorteio para formar um comitê de selecção escolhido de entre os representantes dos cento e noventa e seis países da ONU. Cada um dos representantes seleccionados escolherá dois escultores da Nação que representa. Os escultores selecionados irão então participar em palestras e cursos dirigidos pela Fundação de Cultura, Arte e Educação de Ártemis. Os escultores irão começar por trabalhar nas bases cúbicas das colunas, com esculturas que serão inspiradas em dois lemas atribuídos a Heráclito de Éfeso: "A guerra é o pai de tudo" e "Tudo flui, nada permanece".
Um júri internacional irá então escolher duas esculturas de entre todas as peças produzidas por artistas para colocação no templo. Uma das esculturas vencedoras será exposta num dos círculos cúbicos e a outra será exibida no pátio do templo.
A Fundação de Cultura, Arte e Educação de Ártemis surgiu em Selçuk, Turquia, no mês de Setembro de 2007. A sua missão é reconstruir o templo de Ártemis. O custo do projeto está calculado em torno dos cento e cinquenta milhões de dólares.
O templo original foi financiado pelo rei lídio Karun no século VII AC e dedicado a Ártemis, filha de Zeus e de Leda, irmã de Apolo, Deusa helénica da Floresta, das colinas, da virgindade e da fertilidade.
Fonte:
Voice Newspaper

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Paganismo cresce nas prisões britânicas

O Paganismo está crescendo nos presídios na Inglaterra e Escócia com o número de praticantes mais do que dobrou nos quatro últimos anos.
O Paganismo foi reconhecido pelo Serviço Presidiário como religião a mais de oito anos atrás, mas desde 2003 os números tem crescido rapidamente de 133 para 328 em 2007.
Na prisão de Albany na ilha de Wight, o número de prisioneiros pagãos cresceu de 12 para 34 em oito meses, tornando o Paganismo a quinta religião mais praticada na prisão de categoria B.
Como hoje [a notícia foi publicada no dia 31/10/08-NB] é Halloween, prisioneiros pagãos podem optar por não trabalhar ou não comparecer a aulas - os condenados estão autorizados a selecionar duas datas de uma lista de festivais anuais quando são dispensados do trabalho - uma vez que o dia é um dos festivais-chave da religião.
No Paganismo o Halowwen é conhecido como Samhain – o ano novo céltico – e o Serviço Prisional advertiu que embora seja celebrado com cidra para marcar a colheita de maçã, nos presídios isto não pode ser permitido. Ao invés disso, diretores de presídios foram orientados que uma maçã no altar pode ser um substituto para a cidra.
Condenados praticantes de Paganismo estão autorizados ter um robe sem capuz, um galho flexível como vara, incenso e uma peça de joalheria entre suas posses pessoais.
O Serviço Prisional deixou claro que robes sem capuz podem ser usados apenas durante a adoração privada em uma cela de condenado ou quando um número de pagãos em uma prisão se reunem para adorar.
Prisioneiros pagãos também estão autorizados a ter cartas de tarô, mas a administração os têm proibido para usá-las para predizer a sorte dos outros presos. Nem o skyclad – adoração pagã despida - é permitida sob as regras do Serviço Prisional.
A orientação dada aos diretores também diz que pagãos podem usar vinho como parte de suas adorações. Aonde o vinho é usado, deve ser pedido através do departamento capelacional da prisão (não trazido pelo capelão pagão), estocado seguramente e apenas ser usado sob a supervisão do capelão pagão. A consumação individual será de apenas um gole, afirma a orientação.

Fonte: Times Online

O ocultismo e o pai da ciência

Francis Bacon viveu à época de Elizabete I. Nasceu em Londres, na propriedade York House, que ficava na esquina da rua Villiers com a rua Strand, em 22 de janeiro de 1561, filho mais novo de Sir Nicholas Bacon e Anna Cook, a segunda esposa de seu pai.
Entre 1608 e 1620 ele preparou pelo menos 12 rascunhos da sua mais célebre obra, o Instauratio Magna, também conhecido por Novum Organum, publicado em 1620, e escreveu vários outros trabalhos filosóficos menores.
Então, ao mesmo tempo que era objeto de atenção dos intelectuais na Europa, devido a suas obras, Bacon gozava grande proeminência na corte inglesa, por ser homem de confiança do rei, pelo trato agradável e bem humorado, e sua magnanimidade demonstrada em gastos com a promoção de festas para a sociedade além do fausto doméstico.

Em 1609 publicou De Sapientia Veterum Liber ("A Sabedoria dos Antigos"), no qual expunha o que considerava como significado prático oculto incorporado nos mitos antigos. Essa obra tornou-se, junto com os Essayes, seu livro mais popular ainda durante sua vida.
Além da escolástica aristotélica, três outros sistemas de pensamento prevaleciam na Inglaterra quando Bacon começa a escrever: o ocultismo, que vinham da Idade Média, e o humanismo estético, por influência da Itália.
O ocultismo ou esoterismo, busca de poderes mágicos sobre os processos da natureza e de relações de poderes cósmicos com a vida humana, como as esperanças dos alquimistas da descoberta de elixires e segredos da obtenção do ouro. Parece que nenhum filósofo do início da idade moderna escapou de ter alguma crença ou preocupação com a possibilidade de existirem tais forças ocultas e Bacon inclusive, pretendendo porém que tais forças fossem "naturais".

Cobra, Rubem Q. Francis Bacon. Brasília, 1999.
Nota: Curiosamente na hagiografia científica, Francis Bacon é chamado de filósofo, mas não de cientista. Ocultar ou negar o envolvimento dos primeiros pesquisadores da Academia com o ocultismo levou Paracelso ao mesmo ocaso.

sábado, 8 de novembro de 2008

Bruxaria e ciência

Entre os séc. XV e XVIII as perguntas que dominaram as discussões cultas sobre Bruxaria consideraram sua possibilidade como uma ocorrência genuína no mundo físico. Isto significava perguntar a que leis de causa e efeito estes eventos físicos obedeciam e quais infringiam.
Quase instintivamente a ciência moderna remete os feitos de bruxas a um reino de “sobrenatureza” inteiramente fora das leis naturais; a única maneira de captá-los naturalisticamente é por uma redescrição completa. Isto significa que tem sido invariavelmente considerado uma ciência “oculta” ou “pseudociência” e incompatível com os critérios e o progresso científicos. Conforme se tem dito, ela foi produto da superstição remanescente, da irracionalidade ou de perturbação coletiva. Mas a história da ciência mostra que o limite entre natureza e “sobrenatureza” é local a culturas, mudando de acordo com gostos e interesses. A que agora vigora genericamente entre as tribos do Ocidente é tão velha quanto a produção científica que a acompanha. Antes do Iluminismo e do advento da ciência “nova” as coisas eram diferentes, metafisicamente falando, e pensava-se que a natureza tinha outros limites. Na Europa moderna era opinião virtualmente unanime que as bruxas não meramente existiam na natureza, mas agiam de acordo com suas leis.
Essas questões preocupavam os especialistas em Bruxaria, que observavam o quanto era necessário trazer a experiência da filosofia natural para seu tema. Muitas disputas sobre assuntos de Bruxaria nas universidades da Europa foram tentativas de resolver problemas filosóficos naturais relacionados com a realidade e extensão da causação demoníaca.
Com efeito, magia demoníaca e magia naturalis eram análogos filosóficos naturais proporcionando explicações paralelas – às vezes concorrentes, às vezes aliadas – para o mesmo leque de fenômenos. A magia natural foi um dos entusiasmos mais duradouros dos filósofos naturais modernos. A teoria de bruxaria lida com um assunto particularmente perverso em que os problemas de distinguir entre o possível e o impossível, entre “sobrenatureza”, “preternatureza” e natureza comum tornam-se paradigmáticos.
No séc. XX isto tem sido integrado por descrições altamente influentes da “revolução científica” como única decisiva e modernizadora transformação conquistada por desbravadores heróicos que estenderam as fronteiras da verdade às expensas da magia. A suposição geral tem sido que as crenças em Bruxaria eram, de algum modo, prejudiciais ao bem-estar da ciência. Tem-se argumentado que, à medida que forem aumentando os conhecimentos sobre a natureza, era cada vez menos provável que a Bruxaria continuasse sendo aceita como coisa real.
A inspiração eclética para a mudança e sua parcial atribuição a tradições de conhecimento convencionalmente encaradas como não-científicas e mesmo não-racionais são amplamente reconhecidas. Uma sucessão de estudiosos trouxe os estudos “ocultos” para o centro do desenvolvimento científico moderno e mostrou como eles permaneceram sendo ingredientes vitais do pensamento desenvolvido até as últimas décadas do séc. XVII. Finalmente, os julgamentos excludentes que costumavam ser nivelados e antigos modos do pensamento e do ensino sobreviventes da filosofia natural têm sido completamente revistos. Torna-se possível, então, visualizar a filosofia natural do séc. XV e XVII no estado de incerteza e rivalidade interna, mas também de fecundidade teórica e inovação que caracterizam o desenvolvimento científico “revolucionário”. Esclarece em particular o fato de que os primeiros estudiosos modernos pareciam ter disputado não só sobre a configuração intelectual e institucional de disciplinas individuais, mas sobre as próprias linguagens de investigação – o que significava e no interesse de quem falar em termos do “sobrenatural”, do “preternatural” e do “natural”.
Esse tipo de revisão só é possível pela mudança de uma visão menos realista para uma mais relativista da história da ciência. Enquanto os historiadores da revolução científica estavam comprometidos filosoficamente com o modelo de conhecimento, eles só poderiam julgar declarações de delimitação de realidades passadas do mesmo modo como julgavam as presentes. Não é preciso dizer que sociólogos e filósofos da ciência têm proporcionado um suporte teórico considerável para a contextualização de verdades científicas. Eles nos familiarizaram com a idéia de que essas verdades, assim como outros artifícios culturais, são menos descobertos do que produzidos; que elas dependem das condições de conhecimento e prática que contingentemente obtêm em diferentes comunidades científicas de diferentes épocas e que não podem, consequentemente, ser defendidas em comparação umas com as outras segundo um padrão absoluto, à revelia de contextos. O fato persiste de que houve muitas maneiras diferentes de falar sobre a realidade natural no passado significa que elas não podem estar todas certas; ao passo que, por razões igualmente persistentes, os historiadores da ciência não tem base, exceto o realismo da linguagem científica de seu próprio tempo, para dizer que qualquer deles estava errado.
A referência cientifica ao mundo externo só é possível, como qualquer outro tipo de referência, dentro de linguagens, onde ela é bem sucedida ou fracassada segundo relações de diferença entre signos. O radical ceticismo, quando finalmente chegou, não foi uma vitória do conhecimento sobre a ignorância, mas um corolário de conhecer a natureza segundo regras diferentes.
Clark, Stuart. Pensando com Demônios. Edusp – 2006, pg. 208-218.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Mulheres e Bruxaria

Falar ou escrever por contrários deliberadamente justapostos era, com efeito, comportar-se contenciosamente, assim como a antítese retórica era o modelo lingüistico para os que agiam com base na oposição em si. Este é um lembrete da identidade entre dizer e fazer. Em particular, reforça a idéia de que as ações de bruxas e a linguagem usada para descreve-las tem a mesma forma.
O significado desta escolha reside nos estreitos laços entre descrições da mulher “do contra” no princípio da Europa moderna. Mais especificamente o “epigrama divertido” nos encoraja a passar da contrariedade em bruxas à contrariedade em mulheres, e nos centrar, por um momento, na muito debatida questão da relação de Bruxaria com sexo.
Uma abordagem centrada na estrutura das representações de Bruxaria deveria ter algo a dizer sobre o assunto. Afinal, estamos lidando com a razão porque as coisas significam o que significam. A insistente questão levantada pelo gênero das bruxas diz respeito à relação entre o que significava, no interior das culturas de perseguição às bruxas, acusar alguém de ser bruxa, e as condições mais amplas que parecem ter produzido pessoas “acusáveis”.
A resposta tem sido procurada não tanto em laços culturais específicos entre Bruxaria e comportamento feminino articulados no tempo, mas em transformações na situação social das mulheres que as marginalizavam e tornaram-nas suscetíveis a acusações de desvios.
Argumentos sugerem como grupos de mulheres se tornaram tão anômalos em relação às normas sociais contemporâneas (fortemente masculinas) que facilmente atraíam acusações. O que esses argumentos são menos bem sucedidos em mostrar – não podem mostrar isoladamente algumas considerações sobre o significado de Bruxaria nas culturas e questão – é porque as acusações deveriam se referir a Bruxaria e não a algum outro crime.
O problema é que não há vínculo conceitual que nos autorize a derivar a condição bruxa da anormal. O efeito é que trata a acusação como se fosse acidental. Também não ajuda a estipular que a acusação devia estar disponível como alternativa plausível na cultura. Isto não nos leva ao que queremos saber – por que a Bruxaria foi a forma particular de desvio associada com mulheres anormais.
Com essa base de argumentação as possibilidades são infinitas e o problema insolúvel, pois jamais se poderia mostrar ter sido um crime impróprio para acusar mulheres, uma vez que elas eram marginalizadas por um ou outro conjunto de circunstâncias.
A marginalização de mulheres torna-se um reflexo da rivalidade de gêneros. Qualquer crime servirá para expressar essa rivalidade contanto que sejam mulheres a serem acusadas e homens que façam a acusação. O fato de uma acusação ser especificamente de Bruxaria torna-se acidental; ela está sendo “usada” como simples “meio” de alcançar outra coisa, a saber, o “controle social das mulheres” ou, simplesmente, sua opressão.
O resultado é que as coisas que tornam esta acusação o que ela é, que nos permite identificá-la e interpretá-la, são as efetivamente desconsideradas ou reduzidas a ideologia. O fato desses atributos incluírem os traços indica que o crucial para a identificação e acusação era o que as comunidades esperavam de suas bruxas. Existe uma tendência da lógica caminhar em uma direção impraticável – das circunstancias sociais de mulheres anormais e marginalizadas para as acusações feitas contra elas, como se estas ultimas fossem como conseqüências das primeiras.
Nesta área os historiadores não tem desejado admitir que a Bruxaria tinha uma realidade para os que nela acreditavam. Eles deram preferencia a explicações que apelam para o “social” como algo anterior e subjacente à experiência e ao comportamento. Tem havido também um interesse fortemente funcionalista no que tange ao comportamento de sociedades quando lidam com “forças” e “rotulações” desviantes. Isto precede qualquer necessidade de olhar de perto o que um rótulo significa aos que o empregam num determinado cenário lingüístico. Por exemplo, se as bruxas devem ser vistas principalmente como bodes expiatórios para inquietações e fraquezas comunais, só importa então que “bruxa” era um dos rótulos a se aplicar a mulheres nas culturas e não o que alguém possa ter significado algo real, objetivo e socialmente expressivo ao aplicá-lo.
Se começarmos, não por perguntar por que as mulheres eram associadas à Bruxaria, mas por que os contemporâneos associavam a Bruxaria a mulheres. Isso pressupõe que a identificação e a acusação das bruxas era crucial para o que as próprias comunidades esperavam delas.
A Bruxaria era um artificio cultural – um crime que significava certas coisas e implicava certos tipos de comportamento nos suspeitos e acusados de praticá-la.
Muito freqüentemente se esquece que um grande numero de casos surgiu de acusações de feitiçaria perniciosa movidas pelas vitimas enfurecidas e assustadas contra quem genuinamente acreditavam que a havia causado. Como a feitiçaria perniciosa bem como a feitiçaria benéfica eram ambas praticadas, podemos estar diante de nada mais significativo que uma correlação entre o sexo da maioria dos praticantes. Mesmo sem isso, é assombrosa a evidencia de que as acusações se baseavam em percepções culturalmente fundadas da realidade do maleficium e de sua origem nos poderes de especialistas; só se pode recusar esta evidência recusando-se a idéia de que a realidade pode tomar formas radicalmente diferentes em diferentes cenários culturais.
A noção de Bruxaria para as autoridades acusadoras abarcavam a idéia de que características de gênero faziam das mulheres suas mais prováveis perpetradoras; uma acusação pressupunha uma visão negativa das mulheres. Era precisamente isto que tornava o crime inteligível como crime que se acreditava ser – um ataque à sociedade em conluio com um demônio que, devido à relativa pecabilidade e fraqueza das mulheres, usava-as como suas agentes. A noção de Bruxaria carregava consigo todo o leque de expectativas sobre comportamento que não só se casava com o que era normal, mas também com o que era exatamente o seu inverso.
As idéias e crenças, expectativas e imaginações, confusões e preconceitos que se enfeixavam para construir as noções de Bruxaria não foram expressos apenas em textos. Também não foram meros reflexos das condições sociais das mulheres. Essas noções informavam as ações de todos os envolvidos num episódio de Bruxaria e eram modificados no processo de sua interpretação. Eram inapelavelmente “sociais” em sua expressão, assim como as dimensões “sociais” do episódio eram construídas e experimentadas em termos dos significados compartilhados ou contestados pelos participantes.
A associação de Bruxaria com mulheres foi construída em bases inteiramente não originais; foi construída sobre o que havia se tornado o mais banal dos clichês nos séc. XVI e XVII. Ela incorporava idéias aristotélicas tradicionais considerando as imperfeições inatas das mulheres como homens “deformados”, e ainda a mais profundamente arraigada hostilidade cristã às mulheres como originadoras do pecado. Ela se apoiava sobre a natureza das mulheres muito reiteradas por Saulo de Tarso, pelos padres e pelos filósofos e teólogos medievais.
Assim como a crença em Bruxaria dependia tão somente da misoginia convencional, as dúvidas sobre a realidade da Bruxaria não eram acompanhadas de qualquer coisa que pudesse ser chamada de uma idéia culta das mulheres. A opinião cética usual era que o pacto e o sabá eram, ou idéias próprias de “bruxas” ou, mas provavelmente, plantadas pelo Diabo como sonhos e fantasias em suas mentes. Por qualquer lado que se olhe, isto exigia uma versão da inconstância e credulidade femininas ainda mais enfática e abrangente. A Bruxaria como algo que poderia ser intencionado e realizado no reino do fato tinha que ser inteiramente suplantada, ou por ilusões mentais induzidas por condições “femininas” como a melancolia e a histeria, ou por artifícios mentais forjados por demônios intrigantes em mentes inteiramente receptivas – isto é, femininas. A feminilidade da bruxa constituía agora mais um motivo para duvidar da realidade de suas ações que o terreno para aceitar sua ativa colaboração com o Diabo. Mas ainda era a feminilidade vista em termos totalmente negativos. Um tema consensual de todas as partes do debate sobre Bruxaria era que, por sua fraca inteligência e a inconsistência de sua crença, as mulheres poderiam ser induzidas a aceitar qualquer coisa.
Há porem algumas aparências enganosas. O próprio fato de que a conexão fosse aceita exige uma interpretação dela em outro nível. Mais especificamente em áreas de escrita onde argumentos são apresentados como verdades evidentes por si próprias e eternas, cuja obviedade resulta de sua conformidade com alguns estados de coisas naturais. Pois uma verdade retratada como natural é, no entanto, moldada pelo pensamento e a expressão – é algo artificial. E o que é expresso casualmente e sem esforço aparente pode ser o produto de um trabalho intelectual e ideológico considerável.
Seja qual for sua influencia sobre sistemas representacionais como um todo, a relação de gênero é hierarquicamente pesada de tal forma que os homens são simbolicamente associados com um leque de itens e categorias positivos e as mulheres com suas contrapartes negativas. Em termos de analise, as associações não podem ser vistas como produtos do modo de classificação em si – sua “operação”, por assim dizer.
Por certo, os atributos emanam facilmente dessas relações e constituem efetivamente a linguagem em cujos termos as relações são reconhecidas e exploradas. Mas são atributos conferidos, refletindo, e não causando o funcionamento do próprio sistema de classificação.
A classificação polar de gênero não recebeu uma exposição em colunas nos primeiros séculos modernos. Mas é comum encontrar masculino/feminino entre os contrários que compunham o mundo. A este respeito, a noção neoplatônica de criação e de ordem mundial como uma união e cooperação de forças masculinas e femininas teve uma influencia importante. Boa parte do arcabouço pré-escolástico e escolástico de oposição de gêneros permaneceu intacto nas disciplinas individuais que formaram o conhecimento renascentista.
Esse fogo literário pode não ter tido muito a ver com as experiências vividas de homens e mulheres reais, sua própria artificialidade também tem algumas vantagens preciosas. De fato, representações de gênero afetavam a maneira como a semelhança e a diferença sexuais eram experimentadas, identificando as situações das quais nosso conhecimento dos mundos passados freqüentemente decorre. Mas precisamente porque os desvios retóricos exageram o que é persuasivo na linguagem comum pode ser um indicador vital dos pressupostos normativos de uma particular comunidade de fala. Os desvios mostram que o gênero era evidentemente um outro componente do dualismo com que os intelectuais masculinos contemporâneos estavam habituados. Portanto, por trás da aparente naturalidade com que se associavam Bruxaria a mulheres jaziam as exigências mais estritas de um esquema representacional coletivo.
Mas se todas as bruxas eram mulheres, todas as mulheres não eram bruxas. A representação de gêneros lembra novamente que a inversão não era estranha ao sistema de classificação mas apenas sua modificação. A complementaridade era o aspecto benigno da oposição; a inversão, o maligno. A Bruxaria tomou seu lugar ao lado das outras desordens como um exemplo evidente de desvio feminino – um desvio que só poderia tomar formas inversivas. Todos os desvios eram velhos motivos na história das mulheres, mas todos alcançaram grande destaque e disseminação na época dos julgamentos de bruxas. As bruxas alegadamente cometiam todas as transgressões que as mulheres podiam individualmente cometer, todas numa base coletiva e organizada. As bruxas eram mulheres porque o sistema representacional que as regia exigia, para sua coerência, uma correlação geral entre posições binárias; eram mulheres que invertiam os atributos polarizados atribuídos aos gêneros na cultura instruída do final do período medieval e início da era moderna; elas eram consideradas as mais extremadas e perigosas.
Clark, Stuart. Pensando com Demônios. Edusp: 2006, pg. 155-187.

Testemunhando um momento histórico

Eu me pergunto se personagens históricos e seus contemporâneos tiveram a percepção de estarem participando ou testemunhando um momento histórico.
Eu creio poder listar três momentos históricos que efetivamente modificaram o mundo: a libertação de Nelson Mandela, a queda do Muro de Berlim, o fim da União Soviética.
Hoje, eu e o mundo testemunhamos mais u momento histórico: a eleição de Barak Obama para Presidente dos EUA. A questão a se ver é se esse momento histórico vai vingar. Os americanos apostaram suas esperanças em Barak Obama, ao mundo resta torcer para que ele faça jus ao papel que lhe é conferido.
Os problemas e desafios não são poucos, pequenos ou simples. As decisões do novo Presidente irão afetar os destinos dos dias vindouros, do mundo inteiro.
No Brasil, anda não houve um momento histórico significativo o suficiente. Pontos culminantes como o fim da ditadura, a anistia, a campanha pelas diretas, a eleição de Lula para Presidente do Brasil foram eventos que se esgotaram em si mesmos, não produziram mudanças relevantes na estrutura do sistema. O brasileiro continua a viver em estado cataléptico, eventualmente tendo convulsões com as conseqüências de uma conjuntura social que ele mesmo construiu.
Se o futuro Presidente dos EUA, Barak Obama, permite a este brasileiro neopagão fazer alguns pedidos, pe peço que busque aproximar os EUA e o Ocidente dos países islâmicos e do Oriente; eu peço que apóie as resoluções da ONU nos conflitos entre países; eu peço para que referende o Protocolo de Kyoto; eu peço que busque um entendimento, reconhecimento e respeito no mundo inteiro aos Direitos Humanos; eu peço que encoraje o diálogo inter-religioso e crie autarquias suprainstitucionais para coibir a intolerância, o fanatismo e o fundamentalismo religiosos; eu peço que apóie e referende todas as iniciativas de combate à pedofilia e à exploração sexual.
Que os Deuses Antigos te concedam a disposição, a sabedoria, a capacidade, a competência e a força necessários para fazer a diferença e concretizar esse momento histórico.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A construção de uma imagem

Eu peguei um texto na internet e propositalmente retirarei as palavras que descrevem o assunto para usar como plataforma para uma análise pessoal sobre o recente revisionismo histórico quanto à Bruxaria, bruxas, Caça às Bruxas.
As autoridades civis e o próprio povo, antes indiferentes, demonstraram-se logo hostis à nova religião, porque [snip] recusavam o culto [snip] e a adoração às [snip] de Roma. [Snip] foram por isso acusados de deslealdade para com a pátria, de ateísmo, de ódio pelo gênero humano, de delitos ocultos, como incesto, infanticídio e canibalismo ritual; de serem causa das calamidades naturais, como a peste, as inundações, a carestia, etc.
A religião [snip] foi declarada: strana et illicita: estranha e elícita, exitialis: perniciosa, prava e immodica: malvada e desenfreada, nova et malefica: nova e maléfica, tenebrosa et lucifuga: obscura e inimiga da luz, detestabilis: detestável; depois foi posta fora da lei e perseguida, porque considerada como o mais perigoso inimigo do poder de Roma, que se baseava na [snip] religião nacional e no culto do [snip], instrumento e símbolo da força e unidade do Império.

Este texto não é diferente de muitos que circularam a Europa entre os séc. XV ao séc. XVIII, mas não fala do mesmo fenômeno que ocupou a atenção de filósofos, teólogos, historiadores e escritores da época. Este é um texto da época do Império Romano sobre os Cristãos. A única diferença, se podemos falar assim, é que o Cristianismo se tornou a religião oficial do Imperio Romano e, portanto, sua história (ou historicidade) foi reescrita conforme os interesses dominantes. Então cabe a pergunta: se o Cristianismo não tivesse sido 'adotado' por Roma, a existência ou perseguição aos Cristãos seriam descritos da mesma forma como hoje em dia descrevem a existência ou perseguição às Bruxas?
A impressão, quando se lê um livro acadêmico atual sobre a crença e prática da Bruxaria, é a mesma que se tem ao ler os argumentos dos acadêmicos do tempo dos Césares. Muito sutilmente misturam o fenômeno da Caça às Bruxas, especialmente à refutação aos dogmas da Igreja, como elemento para provar que a própria crença e prática da Bruxaria não existiram. Ou são fruto de uma interpretação ou supervaloração do folclore europeu. Ou são fruto de histeria, auto-hipnose, auto-indução...superstição.
O que se é preciso separar é aquilo que o sistema dominante acreditava (conceituava) ser Bruxaria daquilo que a Bruxaria efetivamente era e ainda é, em suas formas contemporâneas, assim como o Cristianismo existia de uma forma que não a definida pelo Império Romano. Se não existisse ou não fosse um sistema coerente aos que o seguiam, a própria razão das leis e das perseguições não teria qualquer sentido. Se não existisse ou não fosse coerente, não teriam pessoas interessadas em conhecer e seguir esse preceito religioso, a despeito dos perigos que corriam. Se não existisse ou não fosse coerente, teria desaparecido e não teria produzido suas diversas correntes contemporâneas.
Portanto, o atual revisionismo histórico não é nada mais que uma continuação da Inquisição da Igreja, agora nas mãos de acadêmicos que apenas estão reproduzindo os mesmos preconceitos de que foram vítimas. Uma tendência muito comum entre seres humanos quando se conquista o poder: perseguir e erradicar tudo que discorde ou ameace sua visão de mundo. A Igreja cometeu genocídio cultural, a Academia comete genocídio cultural. Quando nós poderemos, efetivamente, ter nossos direitos humanos reconhecidos e respeitados?