segunda-feira, 31 de agosto de 2009

As festas de Dioniso

Na Idade Antiga, a cidade estado Atenas celebrava quatro festas a Dioniso:
1. As Dionisíacas Rurais, entre Dezembro e Janeiro. Eram festas de aldeia, da fecundidade. Este tipo de festa de aldeia volta muito no tempo, certamente, nos seus elementos mais antigos, até o período neolítico. O patrocínio de Dioniso pode ser mais ou menos antigo, segundo o que se pense da antigüidade de seu culto na Grécia e de suas ligações com o vinho.

O centro da festa, a faloforia, são, quase com certeza, mais antigas que o patrocínio de Dioniso. As faloforias chegaram à Grécia junto com o culto dionisíaco, provenientes do Egito, onde cerimônias parecidas eram realizadas em honra de Osiris.
Estas festas, em seus diversos aspectos de procissão fálica, cantos, etc, incluíam uma participação maciça e ativa da população, num ambiente de evasão. Abertas à domesticidade e, portanto, aos dependentes, eram festas alegres, numa atmosfera de liberdade e permissividade.
2. As Lenéias, entre Janeiro e Fevereiro. Estes festejos se desenvolviam no meio do inverno, no mês mais frio do calendário grego.
As fontes insistem acerca dos concursos dramáticos e para as épocas mais antigas trata-se de comédias. No primeiro dia, havia o coroamento do Deus, havia uma pompé e um sacrifício, os concursos de ditirambos e de dramas e um touro como prêmio.
Como nas dionisíacas rústicas e nas grandes dionisíacas, a procissão devia abrir as cerimônias. É possível que a pompé se transformasse em cômos com o acompanhamento do ditirambo. O fim das cerimônias devia tomar um tom de permissividade. A festa marcava uma certa conexão entre Dioniso e tendências mais místicas.
3. As Antestérias, nos dias 11 a 13 do mês de Anthestérion [Fevereiro e Março]. São as palavras ánthos, flor e o verbo anthein, florescer, que a explicariam, em referência ao renascimento do mundo vegetal que se produz no início da primavera.
O primeiro dia era chamado pithoigía, a partir do nome dos vasos em que a bebida estava fechada. Neste dia, os vasos eram abertos, depois de um longo período de fermentação. Era o dia em que o tabu era levantado, pois o processo estava concluído e não havia mais risco para a saúde em beber. As crianças eram coroadas de flores. A libação e a consagração do vinho faziam do produto um pharmakos e a bebedeira era acompanhada de cantos e danças. Este dia era ao mesmo tempo, com a abertura dos pithoi, a abertura do mundo dos mortos.
Sucedia-se no dia 12 o concurso de bebedeira. Em presença de juizes, os concorrentes deviam beber o mais depressa possível um dos vasos [choes] cheios de vinho, donde o nome do dia, o dia das choes. No decorrer deste 2º dia, o Deus "chegava" em Atenas num cortejo. A pompé se dirigia ao Limnaion [local onde se erguia o mais antigo templo do Deus], onde a rainha [basilinna], auxiliada por 14 damas veneráveis [gerairai], realizava as cerimônias. Depois disso, a esposa do arconte-rei se tornava a companheira de Dioniso, num rito de união sagrada. O cortejo se torna então nupcial e se dirigia ao Boukóleion e é lá que se produz o hiéros gamos entre a basilinna e o Deus. Num sentido muito geral podemos dizer que a união entre o Deus e a rainha tem um valor simbólico: é a toda a cidade de Atenas que o Deus transmite suas forças vitais, às mulheres como à terra, no movimento de renascimento da vegetação e da vida característico do início da primavera. É muito provável que o modelo primordial deste casamento seja a união de um Deus da natureza com uma Deusa-mãe.
O que marca o terceiro dia a festa é o seu caráter nefasto. As portas eram lambuzadas de resina, com o objetivo de evitar o contato com o mundo dos mortos; todo o dia era dedicado aos khéres, fantasmas do além. Faziam-se libações de agua para os mortos e se lhes oferecia a refeição dos vivos. Convidava-se os mortos a irem embora para acabar com o perigo.
4. As Grandes Dionisíacas [Dionisíacas Urbanas], entre Março e Abril. A procissão se desenrolava do templo próximo da Academia para onde previamente se transferia a estátua, até seu santuário, depois ao teatro.
A estátua do Deus era carregada ao seu témenos, celebrava-se um sacrifício de touro, com a participação das mulheres e crianças. A faloforia sobre uma charrete contava com a participação de imagens fálicas dos demos e das colônias e touros sacrificiais. Depois do banquete e do transporte da estátua, tudo estava pronto para o início dos concursos: ditirambos, tragédia e comédia.
Fonte: Dionisismo, poder e sociedade. Trabulsi, José Antonio, pg. 192-202.

O desdem dos ecléticos

Muitas mensagens em foruns estão enlaçadas com raiva e amargor. Algumas pessoas pode pensar: "Lá vão os tradicionais mais uma vez, dizendo o quanto são tão melhores que os ecléticos ".
Triste dizer que nem todo mundo vê a idéia de se tornar um iniciado como uma dedicação ao serviço aos Deuses. Eles encaram como um clube elitista, encaram como uma validação e uma miríade de outras coisas. Tudo, menos o que devia ser.
Em minha juventude, eu pensava da mesma maneira. No meu pensamento, eu sabia que eu era isso, era algo que eu queria e eu estava decidido e determinado a entrar ali porque francamente eu deveria ser capaz se eu quisesse muito. Eu espero que, durante a caminhada, eu tenha crescido um pouco. E ao amadurecer, você percebe que nem todo mundo cresce na mesma velocidade, algumas pessoas sequer amadurecem.
Você está entrando em outra cultura. Você está entrando a casa de outra pessoa. Você entraria em uma outra cultura impondo o que acredita e o que pensa, quando na verdade você precisa se comportar como em um projeto de pesquisa sociológica que significa tanto para você? Aprendendo sobre eles, sobre o que crêem e como eles pensam? As pessoas não percebem que ainda existe honra e respeito no mundo, que existe sabedoria e coragem debaixo de seus narizes.
O que me mata é que as pessoas chegam em busca de conhecimento e mesmo assim são impacientes; elas buscam sabedoria, mas se comportam da maneira mais idiota; elas buscam compreensão, mesmo assim não é sobre o que lhes cerca, é tudo sobre eles mesmos.
Os ecléticos que eu conheço procuram por uma tradição. Mas não faz sentido para eles. E para muitas pessoas nunca fará.
O que parece choradeira e reclamação das massas batendo na sua porta porque, verdadeiramente, eles merecem seus segredos e informação porque deveriam ser franqueados de qualquer forma, não é assim para todo mundo.
Eu vejo tristeza. Eu vejo raiva. Eu vejo angústia. Não surpreende que é tão difícil encontrar tal caminho. Dos 30 emails que um Elder pode receber em um dia, talvez 3 são sinceros em sua busca. O 1º não está pronto para isso nesta vida, o 2º pode estar apenas colecionando títulos e o 3º irá esperar muito apenas para passar os outros 27 idiotas e o 2º que poderia ser considerado questionável.
Então para os buscadores, nem todo mundo pode ser um samurai. Não acontece da noite pro dia. Se acontecesse, então você realmente deveria questionar a fonte da qual você está aprendendo. Os mestres investem em seus alunos, ao contrário que estudantes investem em seus mestres, mesmo que o melhor e mais talentoso ansiando por aprender andasse pelo desconhecido. O mestre investe tempo e esforço e tem melhor conhecimento.
Eu não posso esperar que minha filha tome decisões em casa, porque ela nunca administrou uma. Mas eu posso lhe ensinar os fundamentos e as formas mais fáceis que eu conheço de como [tomar tais decisões]. Eu posso criar nela a idéia de honra e esperar que, quando ela se tornar adulta, essse senso de honra faça sentido. Eu não posso esperar que ela entenda o que [e´] honorável e decente e o porque pelo vir-a-ser.
Autora: Kathy. Fonte: fórum da Amber & Jet

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Dioniso x Cristo

Sim, o que é o dionisíaco? Este livro contém a resposta: - é um "conhecedor" que fala, um iniciado, discípulo de seu deus. Talvez eu discorresse agora com mais precaução e menos eloqüência sobre uma questão psicológica tão difícil como é a origem da tragédia entre os gregos. Questão fundamental é a relação do grego com a dor? Posto, pois, que tal fosse verdade - e Péricles (ou Tucídides) no-lo dá a entender na grande oração fúnebre, - de onde procederia o desejo contrário que surgiu, cronologicamente, antes: A ânsia do feio, a estrita e firme devoção dos antigos helenos ao pessimismo, ao mito trágico, à imagem de todo terrível, mau, enigmático, destruidor, sinistro no fundo da existência, - de onde procederia então a tragédia? Talvez do desejo, da força, da saúde superabundante, de plenitude? E que significação tem então, fisiologicamente, tal loucura, da qual nasceu tanto a arte trágica quanto a cômica, a loucura dionisíaca? O que? Não será talvez necessariamente a loucura o sintoma da degenerescência, da ruína, da cultura tardia? Há porventura - (uma pergunta para alienistas) neuróticos de saúde? da juventude do povo? - O que indica aquela síntese de deus e bode no sátiro? Por qual acontecimento pessoal, por que impulso teve o grego de representar-se o entusiasta dionisíaco e homem primitivo, como sátiro? E no que se refere à origem do coro trágico, existiam naqueles séculos, em que florescia o corpo grego e a alma grega se derramava plena de vida, exuberante, porventura entusiasmos endêmicos? Visões e alucinações que se comunicavam a congregações religiosas e comunidades culturais, inteiras? Como? Se os gregos, justamente na pujança da juventude, tivessem a vontade do trágico e fossem pessimistas? Se fosse precisamente a loucura, para empregar um conceito de Platão, que trouxe à Hélade as maiores bênçãos? E se, pelo contrário, se tornavam os gregos, precisamente na época de sua dissolução e fraqueza, cada vez mais otimista, mais superficiais, mais afeitos à representações, portanto mais ardorosos segundo a lógica e o racionalismo do mundo, isto é, também mais "alegres" e mais "científicos"? Como? Poderia, em desafio a todas as "idéias modernas" e preconceitos do gosto democrático, a vitória do otimismo, a sensatez preponderante, o utilitarismo prático e teórico, que é igual à democracia, da qual é contemporâneo, ser um sintoma de força que submerge, da velhice próxima, do cansaço psicológico? E não precisamente o pessimismo? Era Epicuro um otimista, quando paciente? Como se vê é uma quantidade de perguntas difíceis, com que se sobrecarregou este livro, juntemos-lhe a questão mais difícil! O que significa, sob o ponto de vista da vida, - a moral?
Já no prólogo a Richard Wagner é exaltada a arte - e não a moral - como a atividade propriamente metafísica do homem. No livro mesmo, reaparece múltiplas vezes a frase de que só é justificada a existência do mundo como fenômeno estético. De fato, o livro todo conhece somente um senso e contra-senso de artista por trás de todo e qualquer acontecimento - um "deus" se assim se deseja, mas decerto somente um deus-artista, completamente induvidável e imoral, que quer permanecer igual a seu próprio prazer e magnificência, tanto no edificar como no destruir, no bem como no mal, que se livra do sofrimento das contradições, criando mundos por escassez de abundância e superabundância. O mundo, em cada instante a conseguida salvação de Deus, como a sempre variável, a eternamente nova visão daquele que mais sofre, do mais contraditório, que só se sabe redimir na aparência. Esta metafísica do artista, toda ela, pode chamar-se um espírito que um dia defenderá, aconteça o que acontecer, contra a significação e interpretação morais da existência. Aqui se manifesta, quem sabe se pela primeira vez, um pessimismo "além do Bem e do Mal", aqui fala e se formula aquela "perversidade de caráter" contra a qual não se cansou Schopenhauer de lançar, de antemão, as suas piores maldições, - uma filosofia que se atreve a colocar a própria moral no mundo das aparências, de degradá-la. E não somente entre as "aparências" (no sentido do terminus technicus ideal) como também entre as "ilusões"; com aparência, imaginação, engano, interpretação, acomodação. Talvez se possa calcular da melhor maneira a profundidade desta inclinação imoral do cauteloso e hostil silêncio com que é tratado, no livro todo, o cristianismo - o cristianismo como a mais extravagante desfiguração do tema moral que até o momento tem ouvido a humanidade. Em verdade não há maior contradição para a interpretação e justificação puramente estéticas do mundo, como é ensinada neste livro, do que a doutrina cristã, que é e quer ser somente moral, e que, com suas medidas absolutas, como, por exemplo, com sua veracidade de Deus, exila a arte, toda a arte para o reino da mentira, isto é, nega, maldiz e condena.
Por trás de uma tal maneira de pensar e avaliar, que deve ser hostil à arte, enquanto é legítima, senti desde o princípio a hostilidade à vida, a grande e rancorosa repugnância contra a existência em si, pois toda a vida se fundamenta em aparência, arte, ilusão, ótica, necessidade de perspectiva e do erro. Foi o cristianismo desde o princípio, essencial e fundamentalmente, repugnância e tédio da vida na vida, que se revestiu, se ocultou, se fantasiou sob a crença numa existência "diferente" ou "melhor". O ódio ao mundo, a maldição às afeições, o medo da beleza e da sensualidade, um ALÉM inventado para melhor poder maldizer o AQUI, no fundo uma inclinação para o nada, o fim, o descanso, em direção ao "sabbath dos sabbaths" - tudo isto me parecia - assim como a inflexível vontade do cristianismo de só deixar valer os valores morais, como a mais perigosa e mais lúgubre de todas as formas de uma "vontade para o desaparecimento", pelo menos um sinal de profunda enfermidade, cansaço, esgotamento, empobrecimento da vida - pois diante da moral (principalmente da cristã, isto quer dizer, da moral incondicional) deve a vida continuamente ficar sem razão, em virtude de ser algo essencialmente imoral; deve, finalmente, a vida, esmagada sob o peso do desprezo e do eterno não, como indigna de ser desejada, ser sentida como algo sem valor. A própria moral - como? Não seria a moral uma "vontade para a negação da vida", um instinto secreto de destruição, um princípio de ruína, um começo do fim? E, portanto, o perigo dos perigos?... Contra a moral, pois, se volveu então, com este livrinho de valor duvidoso o meu instinto, como um instinto afirmativo da vida, inventando uma doutrina e uma valorização fundamentalmente contrárias, puramente artística, anticristãs. Como a devemos chamar? Como filólogo e homem das palavras a batizei, não sem alguma liberdade - pois quem saberia o verdadeiro nome do Anticristo? - com o nome de um deus grego - a chamei de dionisíaca.
Nietzsche, Frederic Origem da Tragédia, A. Fonte: ebooks brasil

A hipocrisia cristã e a homofobia disfarçada

Recentemente um usuário do orkut foi condenado por racismo contra os índios. Mas curiosamente não apareceu nenhum que defendesse seu "direito da liberdade de expressão".
Certamente se fosse uma página, como de muitas outras, ligada ao fundamentalismo cristão que apregoasse o preconceito, a discriminação e a calúnia contra os homossexuais, teria a sorte de ser defendida pelos falsos paladinos.
O que se tenta ocultar do público nessa pretensa "defesa dos direitos" é que esta visão é religiosa e doutrinária, ofendendo e não reconhecendo aos homossexuais os mesmos direitos que dizem defender. O discurso contra a homossexualidade e os homossexuais dos cristãos fundamentalistas sequer pode ser entitulado de "opinião", mas sim de sentença arbitrária, baseada em uma doutrina religiosa arrogante e prepotente, que se arroga uma verdade sagrada e/ou divina. Nem se trata de "garantir os direitos de expressão/opinião/crença", mas de garantir e resguardar o totalitarismo arbitrário dessa visão religiosa e doutrinária, tentando censurar ou denegrir as opiniões contrárias que contestem ou desafiem esse totalitarismo.
Um bom texto coloca bem o caso:

A fé dos homofóbicos
Por André Petry
Copiado do blog Bodega
Dizem eles que a criminalização da homofobia levará à prisão em massa de pastores e padres, e viveremos todos sob o domínio gay. A história ensina que essa lei será aprovada, e a vida seguirá seu curso regular, sem nada de extraordinário.
Em 1946, quando os negros reivindicaram a inclusão de alguns direitos na Constituição, foi um salseiro. Foram acusados de antidemocráticos e racistas por congressistas e estudantes da UNE. Em 1988, a Constituição promoveu o racismo de contravenção a crime. Ninguém chiou. Na década de 50, quando se discutia o divórcio, teve cardeal dizendo que se devia pegar em armas para combater a proposta. Em 1977, o Congresso aprovou o divórcio. Não houve tiroteio, e a igreja do cardeal nunca mais tocou no assunto. Recordar é viver.
Agora, os evangélicos estão anunciando o apocalipse caso o Senado faça o que a Câmara já fez: aprovar lei punindo a homofobia com prisão. A lei em vigor pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião e procedência nacional. A nova acrescenta a punição por discriminação contra homossexuais. Cerca de 1 000 evangélicos tentaram invadir o Senado em protesto. Dizem que a criminalização da homofobia levará à prisão em massa de pastores e padres, e viveremos todos sob o domínio gay. A história ensina que, cedo ou tarde, a lei, ou outra qualquer com objetivo similar, será aprovada, e a vida seguirá seu curso regular sem nada de extraordinário.
Os evangélicos e aliados dizem que proibir a discriminação contra gays fere a liberdade de expressão e religião. Dizem que padres e pastores, na prática de sua crença, não poderão mais criticar a homossexualidade como pecado infecto e, se o fizerem, vão parar no xadrez. É uma interpretação tão grosseira da lei que é difícil crer que seja de boa-fé.
Tal como está, a lei não proíbe a crítica. Proíbe a discriminação. Não pune a opinião. Pune a manifestação do preconceito. Uma coisa é ser contra o casamento gay, por razões de qualquer natureza. Outra coisa é humilhar os gays, apontá-los como filhos do demônio, doentes ou tarados.
Alegam que a liberdade religiosa fica limitada porque combater o pecado vira crime. É um duplo equívoco. O primeiro é achar que uma doutrina de crença em forças sobrenaturais autoriza o fiel a discriminar o herege. O segundo é atribuir à lei valor moral. O direito penal não é instrumento para infundir virtudes. É um meio para garantir o convívio minimamente pacífico em sociedade. Matar é crime não porque seja imoral, mas porque a sociedade entendeu que a vida deve ser preservada.
O que essa proposta pretende dar aos gays, e sabe-se lá se terá alguma eficácia, é aquilo a que todo ser humano tem direito: respeito à sua integridade física e moral. Os evangélicos, pelo menos os que foram a Brasília, dão prova de desconhecer que seres humanos não diferem de coisas só porque são um fim em si mesmos. Os seres humanos diferem das coisas porque, além de tudo, têm dignidade.

E, para o cristão fundamentalista que ainda insiste na bravata do "direito da liberdade de expressão", eu irei citar mais um excelente texto:

Caso Ellwanger
Copiado de Verdes Trigos
[...]A segunda questão discutida pelo STF versou sobre o tema do eventual conflito entre princípios constitucionais, tendo sido ponderada, no caso concreto, a existência ou não de uma antinomia entre a liberdade de manifestação do pensamento e a condenação de Ellwanger pelo crime da prática do racismo.
Esse tema foi amplamente discutido pelo STF, cabendo destacar os votos dos ministros Celso de Mello e Gilmar Mendes. A orientação fixada no acórdão foi a de que a garantia constitucional da liberdade de expressão não é absoluta, tem limites jurídicos e não pode abrigar, em sua abrangência, manifestações que implicam ilicitude penal. No caso concreto, explicita o acórdão: "O preceito fundamental da liberdade de expressão não consagra o "direito à incitação ao racismo", dado que um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede com os delitos contra a honra. Prevalência dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica".


Nota posterior: Para que cristãos fundamentalistas ofendidos não tentem (como é de praxe) distorcer meu texto, sublinhei o trecho principal do acórdão do STF. A questão aqui não é o racismo, mas a condenação ao desrespeito ao direito constitucionalmente previstos para todos, incluindo os homossexuais. Discriminação é discriminação, continua sendo crime, mesmo disfarçada ou dissimulada como "exercício do direito da liberdade de expressão e opinião".

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O mistério de Dioniso

Tanto o sátiro como o pastor idílico da época moderna são o resultado de um desejo dirigido ao primitivo e natural; mas como agarra firme e impavidamente o grego a seu homem selvagem, e como brinca, envergonhada e afeminadamente, o homem da nossa época com a imagem lisonjeadora de um pastor delicado, degenerado e tocador de flauta! A Natureza, ainda não trabalhada pelo conhecimento e com as aldravas da cultura ainda inquebrantadas, esta viu o grego em seu sátiro, que não se assemelhava por isso ao macaco. Muito pelo contrário: era a imagem primitiva do homem, a expressão de seus maiores e mais fortes impulsos, como o entusiasta encantado e arrebatado pela proximidade do deus; como companheiro partilhante do sofrimento, no qual se repete a dor deste deus, como declarante de sabedorias provenientes do âmago da natureza, como emblema da onipotência sexual na natureza, que o grego está acostumado a fitar respeitosamente, contemplativo e admirado. O sátiro era algo de sublime e divino, assim deveria parecer principalmente ao olhar dolorosamente alquebrantado do homem dionisíaco. Ter-lhe-ia sido insultuoso o pastor elegante e "mimoso"; nos grandiosos e vigorosos traços descobertos da natureza descansava, com satisfação excelsa, o seu olhar; aqui estava apagada a ilusão de cultura da imagem primitiva do homem, aqui se descobria o homem verdadeiro, o sátiro barbudo que aleluiava o seu deus. Diante dele o homem civilizado desaparecia, tornando-se uma caricatura mentirosa. No que concerne a estes inícios de arte trágica, está Schiller igualmente com a razão. O coro é uma muralha viva contra a realidade que investe, porque ele - o coro satírico - reflete melhor, mais verdadeira e mais completamente, a vida do que o homem civilizado que, a maior parte das vezes, julga ser a realidade única. A esfera da poesia não está fora do mundo como uma impossibilidade fantástica de um cérebro de poeta; ela quer ser precisamente o contrário, a expressão única da verdade, e é por isso que se deve arremessar para longe o adorno mentiroso daquela suposta verdade do homem civilizado. O contraste desta verdade da natureza propriamente dita e da mentira da civilização, que se comporta como se fosse a única realidade, é parecido com o contraste entre o conjunto das cousas e da cousa em si, e do mundo todo das aparências; e assim como a tragédia, com seu consolo metafísico, indica a vida eterna daquele núcleo da existência, com o desaparecimento contínuo dos fenômenos, assim o simbolismo do coro satírico expressa, num exemplo, aquela relação primitiva entre a cousa em si e a aparição, o fenômeno. Aquele pastor idílico do homem moderno nada mais é senão uma imagem da soma das ilusões de cultura que lhe valem como sendo a Natureza; o grego dionisíaco, querendo a verdade e a Natureza em sua forma suprema, vê-se transformado magicamente em sátiro.
Sob tais disposições e conhecimentos se regozija a turba entusiasmada de servidores de Dionísio, cujo poder se modifica sob seus próprios olhos, de modo a julgarem ser gênios renovados da Natureza, sátiros. A constituição posterior do coro da tragédia é a imitação artística daquele fenômeno natural, na qual se tornou necessária, então, uma separação entre espectadores dionisíacos e transformados dionisíacos. É necessário, porém, que se tenha sempre presente que o público da tragédia ática se reencontrava no coro da orquestra e que não existia, fundamentalmente, posição diversa entre público e coro; pois tudo é um grande e excelso coro de Sátiros dançantes e cantantes ou dos que por estes sátiros se fazem representar. A palavra schlegeliana deve-se-nos manifestar aqui numa razão mais profunda. O coro é o "espectador ideal", por ele ser o único que contempla, o contemplador do mundo das visões da cena. Um público de espectadores, tal como o conhecemos, era desconhecido aos gregos. Nos teatros destes, em virtude do terraço que se elevava em arcos concêntricos, era possível a qualquer pessoa apreciar todo o mundo civilizado situado em seu redor e julgar-se, em farta contemplação, corista. Segundo este conhecimento podemos denominar o coro, em seu primeiro degrau, na tragédia primitiva, um auto-reflexo do homem dionisíaco; fenômeno que se pode efetuar o mais claramente pelo processo do ator que, com verdadeira aptidão, vê diante de seus olhos, em forma tangível, o papel que deve representar. O coro satírico é, antes de mais nada, uma visão da multidão dionisíaca, como é, por seu turno, o mundo do palco uma visão desse coro satírico; o vigor desta visão é suficientemente forte para fazer com que o olhar se torne insensível ao efeito da "realidade" e aos homens civilizados, sentados em redor. A forma do teatro grego faz lembrar um vale solitário dos Alpes; a arquitetura da cena aparece como uma imagem luminosa de nuvens, que às bacantes, que a vêem das alturas, vagando nas montanhas, aparece como uma moldura maravilhosa em cujo meio se lhes depara a imagem de Dionísio.
Aquele fenômeno primitivo artístico, que aqui mencionamos para a explicação do coro da tragédia, é quase escandaloso para nosso erudito modo de ver os elementares processos artísticos, enquanto nada pode ser mais certo do que o fato de ser o poeta somente poeta quando se vê rodeado por figuras, que diante dele vivem e agem, e cujo ser interior consegue descortinar. Por uma fraqueza estranha da aptidão moderna, vemo-nos inclinados a representar o fenômeno primitivo estético de modo demasiadamente complicado e abstrato. A metáfora não é, para o verdadeiro poeta, uma figura retórica, mas sim uma representação que lhe aparece na realidade, no lugar do conceito. O caráter não é para ele algo total, composto de traços singulares, mas uma pessoa importunamente vivaz ante seu olhar e que apenas se distingue da visão igual do pintor pela continuidade não interrompida do viver e do agir. Por que é que Homero descreve mais conspicuamente do que todos os outros poetas? Porque vê mais. Falamos abstratamente sobre a poesia, porque todos somos maus poetas. No fundo o fenômeno estético é simples. Consiste em ter-se a capacidade de ver continuamente um jogo vivaz e viver sempre rodeado por turbas de espíritos; então é-se poeta. É só sentir o impulso de transformar-se a si mesmo e falar como proveniente de outros corpos e outras almas, então é-se dramaturgo.
A excitação dionisíaca é capaz de transmitir a uma multidão esta aptidão artística, de se ver rodeada por uma tal turba de espíritos com a qual, interiormente, sabe que é unida. Este processo do coro da tragédia é o fenômeno primitivo dramático; ver-se transformado diante de si mesmo, e então agir como se, de fato, tivesse penetrado em um outro corpo, em um outro caráter. Este processo está no princípio do desenvolvimento do drama. Aqui existe alguém diferente do rapsoda que não se funde com suas imagens, mas que semelhante ao pintor as vê com olhar contemplativo fora de si; aqui há já um abandono do indivíduo em uma natureza estranha. O ditirambo é, por isso, bem distinto de qualquer outro canto coral. As donzelas que, com ramo de louros na mão, se dirigem festivamente ao templo de Apolo, cantando nesse trajeto um hino de procissão, continuam sendo o que são e conservam o seu nome civil; o coro ditirâmbico é um coro de transformados, que esqueceram o seu passado civil, sua posição social. Tornaram-se servidores eternos de seu deus e vivem fora de quaisquer esferas sociais. Todo o outro lirismo coral dos helenos nada mais é que uma monstruosa elevação do cantor único apolínico, enquanto que no ditirambo há, ante nós, uma comunidade de atores que, mesmo entre si, se consideram transformados.
O encantamento é condição de toda arte dramática. Neste encantamento se vê o entusiasta dionisíaco como sátiro e como sátiro vê, por sua vez, o deus, isto é, ele vê em sua transformação uma outra visão fora de si, como complemento apolínico de seu estado. Com esta nova visão se completa o drama.
Segundo este conhecimento, devemos entender a tragédia grega como o coro dionisíaco, que sempre se descarrega num mundo apolínico de imagens. Aquelas partes de coro, com as quais é entrelaçada a tragédia são, pode-se dizer, o seio materno de todo o diálogo, isto é, de todo o mundo da cena, do drama em si. Em diversas descargas sucessivas irradia este fundamento primitivo da tragédia aquela visão do drama. Drama que é um fenômeno proveniente do sonho, e portanto de natureza épica; mas que não representa, por outro lado, como objetivação de um estado dionisíaco, a redenção apolínica na aparência, mas sim, pelo contrário, a divisão do indivíduo e seu unificar-se com o ser primitivo. Com isto representa o drama a sensibilidade apolínica de conhecimentos e efeitos dionisíacos, sendo por isso separado da epopéia por um abismo imenso.
O coro da tragédia grega, o símbolo de toda a multidão excitada dionisiacamente, encontra nesta nossa concepção sua explicação total. Enquanto que nós, acostumados à posição de um coro no palco moderno, especialmente tratando-se de um coro de ópera, não podemos entender como aquele coro trágico dos gregos pudesse ser mais antigo, mais original e mais importante que a "ação" verdadeira - como foi tão claramente transmitido - enquanto que, por outro lado, não podemos atinar com aquela importância e primordialidade tradicionais - porque fora composto somente por seres inferiores e servis e mesmo, primitivamente, por sátiros parecidos com bodes, enquanto a orquestra diante da cena continuava sendo um enigma para nós; chegámos agora à conclusão de que a cena juntamente com a ação só era, primitivamente, imaginada como uma visão, e que o coro é a única "realidade", que de si origina a visão, falando desta com todo o simbolismo da dança, do som e da palavra. Este coro, vê em sua visão seu senhor e mestre Dionísio, e é, por isso mesmo, o coro servil, ele vê como o deus sofre e se glorifica, não agindo ele mesmo por esta razão. Nesta posição completamente servil diante do deus, é ele a maior expressão da Natureza, por ser a expressão dionisíaca, e externa por isso, como aquela, oráculos e sentenças sábias; sendo paciente, ele é, também, o sábio, aquele que anuncia a verdade proveniente do coração do mundo. Assim se origina aquela figura fantástica e repugnante do sátiro sábio e entusiasta, que é ao mesmo tempo "o homem ingênuo", em contraposição ao deus; imagem e reflexo da Natureza e de seus impulsos mais potentes, e símbolo da mesma, sendo ao mesmo tempo arauto de sua sabedoria e de sua arte: músico, poeta, dançarino e visionário em uma só pessoa.
Dionísio, herói verdadeiro do palco e ponto central da visão, não existe primitivamente, segundo este conhecimento e segundo a tradição no período mais antigo da tragédia, mas é só representado como existente; quer dizer que a tragédia é, naquele tempo, somente "coro" e não "drama". Mais tarde experimenta-se mostrar o deus como algo real e de representar, visível a todos, a figura da visão e a moldura glorificante; com isto se inicia o drama em sentido mais restrito. Então é encarregado o coro ditirâmbico de excitar o ânimo dos ouvintes dionisiacamente até um certo grau, a firn de que estes, ao aparecer o herói no palco, não vejam o homem disformemente fantasiado e mascarado, mas sim uma figura de visão, nascida de seu próprio êxtase. Imaginemos Admeto a pensar com profunda cisma em sua esposa Alceste, morta recentemente, consumindo-se totalmente na contemplação espiritual da mesma; de repente se lhe aproxima uma imagem de mulher, de formas parecidas e de andar semelhante, envolta em um véu. Imaginemos a sua repentina perturbação, sua comparação violenta, sua convicção instintiva, e teremos uma analogia do sentimento com o qual, dionisiacamente excitado, o espectador via aproximar-se o deus, no palco, com cujos sofrimentos já se tinha identificado. Involuntariamente transportou toda a imagem, tremulando magicamente ante seu olhar, naquela figura fantasiada, dissolvendo a realidade desta em uma como que fantástica irrealidade. É este o estado de sonho apolínico, no qual se envolve o mundo do dia, nascendo para o nosso olhar em mutações contínuas um mundo novo, mais expressivo, mais inteligível, mais comovedor do que aquele; e mesmo assim mais sombrio. É esta a razão de reconhecermos na tragédia uma categórica contradição do estilo: Linguagem, cor, movimento, dinamismo do discurso se separam de um lado pelo lirismo dionisíaco do coro, do outro pelo mundo apolínico do sonho, como esferas de expressão totalmente diversas. Os fenômenos apolínicos em que se objetiva Dionísio não são mais um "mar eterno", "movimento variante e viver ardente" como o é a música do coro, nem aquelas forças sentidas e não poetizadas para a imagem, nas quais sente o servidor entusiasmado de Dionísio a proximidade do deus; a clareza e a firmeza das criações épicas falam do palco. Dionísio já não se exprime mais por forças, mas sim como herói épico, com linguagem quase semelhante a Homero.
Nietzsche, Frederic. Origem da Tragédia, A. Fonte: ebooksbrasil

Crucificando o feminismo

Que o Cristianismo, em especial o Catolicismo moribundo, não sabe como enfrentar a inevitável mudança da humanidade que luta para sair da opressão tirânica da Igreja em direção de um mundo mais humano, não é novidade para os livres-pensadores. Quem superou o cabresto imposto pela Igreja através de séculos apenas tem pena das reações dos que ainda vivem presos.Senão, como de entender uma declaração desse nível:


Tenho uma opinião polêmica! Nessa opinião, o feminismo que surgiu nos anos 60 é um dos grandes responsáveis pela degradação dos dias atuais, pela violência e aumento no uso das drogas, em fim pelas mazelas que presenciamos e/ou somos vítimas.Quando a mulher deixou de ocupar a nobre função de ser mãe e educadora, passou a ser uma simples paridora. Os lares deixaram de ter amor! Nós homens somos inferiores às mulheres e justamente por sermos inferiores é que precisamos nos autoafirmar perante elas adotando posições dominantes e machistas.

Parece ser o velho caso de jogar a culpa na vítima. Ignora-se ou joga-se fora todas as causas políticas, econômicas e culturais. Ignora-se ou joga-se fora o fato de que o mundo ainda é dominado pelo patriarcado e pelo sistema financeiro instituído por ele. A culpa, de tudo, como é de se esperar dessa gente, é das mulheres e da ousadia delas lutarem pelo seu legítimo direito como seres humanos. A concepção dessa gente, embora disfarçados com falsos paladinos, é a visão bíblica de que a mulher deve ser submissa ao homem:

A bíblia como instrumento de legitimação
Neste contexto histórico de globalização neoliberal, a contradição nos salta à vista, e suasconseqüências para a humanidade são muito imprevisíveis.
Para Zigmunt Bauman, ao mesmo tempo em que a globalização une toda a Terra por meio da compressão do tempo/ espaço, através da extraordinária velocidade de movimento, provinda principalmente da revolução informacional, ela separa e segrega um número desmesurado de seres humanos que não conseguem e nunca conseguirão, devido à lógica deste sistema, ter acesso aos seus benefícios. A globalização aumenta ainda mais o fosso que separa as classes possuidoras das classes despossuídas.
Segundo a teóloga feminista Mary Hunt, a globalização é mais uma forma de colonialismo. O deslocamento forçado de populações, a migração da mão-de-obra para acompanhar o capital e a hierarquização das pessoas de acordo com a cor da pele e a origem étnica, lembra as formas primitivas de colonialismo nas quais o cristianismo desempenhou um papel tão sinistro.
Como foi na utilização da Bíblia e de diversas interpretações fundamentalistas para justificar a escravidão.
Essas normas, valores, códigos domésticos, foram construídos para defender e legitimarinteresses e poder de algumas pessoas, em detrimento do racismo, das guerras, do imperialismo, do sexismo, dentre outros, como fato dado e uma experiência de "sentido comum".
Genero e Religião. Felix, Isabel Aparecida.

Religião e Feminismo
O feminismo propunha uma transformação radical das relações de gênero em todos os domínios da vida social, tanto o público, como o privado. Importante lembrar que este feminismo teve como substrato material, a emergência da sociedade urbano-industrial moderna, que foi marcada pela entrada das mulheres no mercado de trabalho, a qual se ampliou progressivamente no decorrer do século XX. Aos poucos, as mulheres passaram a ter uma dupla jornada de trabalho (doméstica e extra-doméstica) e, com isto, a nova responsabilidade de conciliar vida profissional com vida familiar. Neste contexto social em que as mulheres começaram a ocupar cada vez mais o espaço público por meio da inserção no trabalho assalariado e na educação formal, as contradições do espaço privado vinham à tona e tornava-se premente politizá-las.
Ao politizar as relações pessoais, o feminismo combatia um dos pilares da dominação masculina: a dependência da sexualidade com a reprodução, com todos seus desdobramentos familiares, sociais e políticos. Romper com esta subordinação implicava não só do ponto de vista legal tornar acessível o uso de contraceptivos seguros e a prática do aborto; mas também, do ponto de vista social tornar possível a escolha da maternidade, em última instância, desligá-la do determinismo biológico. Por conseqüência, o papel social da maternidade na família não poderia mais ser considerado como natural, com isto ficavaabalado outro pilar da dominação masculina, a divisão sexual do trabalho na esfera privada.
O catolicismo tradicional sustentava a posição reinante: separação das duas esferas (por gêneros) e mantinha-se irredutível em relação às questões da reprodução e da sexualidade.
Na crítica feminista laica e religiosa havia, então, embate explícito contra a hierarquia católica masculina, que ditava regras para a vida das mulheres, perpetuando a desigualdade de gênero. Na crítica feminista católica se contestava os lugares que as mulheres ocupavam na Igreja - tal qual a impossibilidade da ordenação feminina - que apontavam para as questões de poder e de gênero em luta no campo religioso.
Dos anos 70 para os anos 2000, muitas coisas mudaram e outras tantas continuaram estagnadas, principalmente, as que dizem respeito a perpetuação dos valores simbólicos, com mais força nos países do sul. A busca pela profissionalização e a escolha da maternidade ampliou as possibilidades das mulheres alcançarem uma realização pessoal e social mais abrangente. Mas, nem por isto abandonaram as práticas religiosas, algumas mulheres começaram a contestá-las por dentro; outras, submetiam-se aos seus limites. Em relação ao catolicismo, cabe dizer que na maioria das vezes, as regras restritivas em relaçãoà contracepção, por exemplo, não eram seguidas por suas fiéis.
As feministas continuaram suas lutas, algumas históricas, pois ainda nãoconquistadas, como as do direito ao aborto na maioria dos países da América Latina, que se confronta com os princípios de praticamente todas as religiões. Neste sentido, o trabalho político das Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) tem um papel fundamental dentro do catolicismo, neste continente, por defender os interesses das mulheres no próprio campo religioso que, como todos os campos sociais, é um campo de lutas.
Cada vez mais as transformações nas relações de gênero abalam os padrões tradicionais de comportamento. Entretanto, junto com estas mudanças há as permanências e, portanto, a persistência social da dominação masculina.
Em um campo há sempre um elemento principal em jogo - no caso do campo religioso, a manutenção do monopólio de seus princípios doutrinários, ou seja, o capital simbólico, cultural e econômico de cada religião - e as diferentes posições dos grupos que se disputam no campo. As mulheres neste campo são assujeitadas aos preceitos produzidos pela hierarquia masculina. Estas estruturas rompem-se quando dentro do campo há uma luta contra esta posição. Ou, ainda quando, as mulheres buscam outras formas de expressão de suas sensibilidades e/ou espiritualidades.
Em conclusão é possível afirmar, que todas as transformações sociais, econômicas da modernidade e a difusão das idéias feministas, nestes últimos 40 anos, incidiram sobre as relações de gênero. Estas idéias abriram caminhos para que em todos os campos do social, as questões de gênero fossem colocadas. Observa-se pelos dados acima que, mesmo o campo religioso, em seu aspecto institucional, tradicionalmente antifeminista, não ficou imune aos efeitos sociais e culturais das idéias feministas contemporâneas.
Religiões, Gênero e Feminsmo. Scavone, Lucila.

A Igreja se coloca como defensora do casamento, da família, da vida e dos valores sociais, não porque esta é bondosa, mas por razões corporativas. Seja pela história ou por notícias recentes, a Igreja tem demonstrado que não observa os próprios conselhos que emite aos seus devotos. Com uma enorme falsa modéstia, seus acólitos alegam que foi ela que ajudou a construir a civilização. Ora, como a decadência humana é o resultado do processo histórico, a mesma Igreja que critica tem sua quota de culpa nessa decadência, sem dúvida estimulada pela manutenção dos seus dogmas e de sua influência na sociedade e na política.
Felizmente a humanidade está mudando. As mães estão deixando de ser uma pálida cópia da repressão imposta pela Igreja e reproduzida pelo sistema social patriarcal. As famílias estão sendo mais flexíveis e abrangentes. As mulheres estão conquistando seu devido espaço em todas as áreas, tanto na política quanto na religião. As mulheres estão aumentando sua influência nas relações sociais, afetivo-eróticas e comunitárias, modificando as relações de poder velhas, arcaicas e obsoletas, incomodando as instituições que vem se mantendo no poder, desde a ascenção do Cristianismo. Não é por acaso que o Cristianismo, em particular o Catolicismo, tem visto uma diminuição em seus quadros de devotas. Não é por acaso que as mulheres tem procurado caminhos espirituais alternativos. O mundo e a humanidade está a caminho de reinstaurar a mulher e o feminino no devido lugar. O Paganismo, o mundo, a humanidade esperam ansiosamente por isso. A tentativa de resistência da Igreja é simplesmente o estertor de um moribundo. O sol há de brilhar por sobre suas ruínas e a humanidade irá recuperar a alegria de viver, graças aos Deuses Antigos.

O Cristianismo e o sagrado feminino

Escrito por José Laércio do Egito
Para que se possa entender bem o porquê dos tabus em torno da feminilidade em geral e da mulher em particular é importante que se tenha conhecimento das transformações que ocorreram no tocante ao papel da mulher no contextos das religiões.

Durante muitos séculos as religiões ocidentais foram descriminativas com relação ao lado feminino da natureza, embora isto não haja sido oriundo de outros ciclos de civilização. Já no início do Cristianismo, o domínio da Igreja de Pedro prevaleceu com tamanha influencia que até mesmo os Gnósticos Valentinianos chegaram a substituir o Demiurgo - masculino - por Sophia - feminino. Isto quer dizer que deixaram de atribuir a divisibilidade ao Demiurgo e passaram a atribuí-la a Sophia.
Deixaram de considerar o masculino como símbolo da fragmentação - queda - e passaram a considerar com tal o aspecto feminino. Assim a mulher passou a ocupar a posição de causadora da "queda" pelo "Mito de Osíris", no qual a dissociação da natureza não se fez sentir pelo gênero feminino e sim pelo masculino.
Mudanças ocorreram durante séculos. No catolicismo primitivo o machismo patente na Igreja de Pedro prevaleceu embora Jesus jamais houvesse descriminado o lado feminino. Basta que se considere que Jesus após a ressurreição primeiro se manifestou às mulheres e não aos apóstolos. Nos Evangelhos Canônicos há ênfase aos apóstolos, mas considere-se que houve manipulações nos evangelhos, foram adequados à conveniência dos interesses humanos da época. O papel da mulher diante de Jesus, e nos primeiros anos do cristianismo, é claro nos documentos de Nag Hamadi, que datam do terceiro século. Contudo, mesmo nos Evangelhos Canônicos se vêem que todos os Passos de Jesus foram acompanhados pelas mulheres, entre elas Maria, Madalena, Marta e outras.
O papel da mulher é um tanto obscurecido nos Evangelhos Canônicos (Os 4 aprovados no Concilio o de Nicéia), pois mesmo estes Evangelhos foram convenientemente manipulados. No Concilio de Nicéia foram excluídos muitos outros evangelhos, isto está registrado nos documentos encontrados em Nag Hamadi e que corresponde ao terceiro século do Cristianismo. Por eles se pode ver que a mulher tinha um papel relevante nas primitivas igrejas cristãs. Até mesmo há um evangelho atribuído a Maria, mãe de Jesus e um outro à Maria Madalena. Pelos documentos de Nag Hamadi se pode ver o quanto já existia de discriminação contra a mulher no tempo dos Apóstolos, quantas pressões elas já sofriam por parte de alguns dos apóstolos. Na verdade estes eram membros da comunidade judaica fortemente machista.
A partir do Concilio de Nicéia o Cristianismo ficou dividido, tendo de um lado o gnosticismo e do outro o pré-catolicismo - ortodoxos - seguidores da Igreja de Pedro que era extremamente intransigentes para com as mulheres. Assim, passo a passo, a mulher foi sendo discriminada, não havendo sido poupada nem mesmo Maria, mãe de Jesus. Depois do Concilio de Nicéia a mulher foi se tornando subserviente, chegando ao ponto de no contexto religioso ela só ter direito de assistir aos atos litúrgico, mas não de participar diretamente deles, e menos ainda de exercer qualquer tipo de sacerdócio. E ainda mais, mesmo como assistente, ela tinha que cobrir a cabeça com um véu. Mas, a despeito das tentativas do Cristianismo Ordotoxo de eliminar a mulher do contexto religioso, o povo mantinha vivo o sentimento ligado à Deusa Mãe, e neste contexto os cristãos cultuavam Maria, a despeito do ostracismo exercido pelos bispos e sacerdotes.
A desconsideração para com a mulher, mesmo o ostracismo imposto a Maria chegou a um ponto tal que a população durante o Concilio de Éfeso ameaçou incendiar o local em que os bispos estavam reunidos e queima-los vivos. Foi então que por temor os membros daquele Concílio os bispos voltaram atrás e reconsideraram o papel de Maria, mas basicamente movidos pelo temor de serem queimados vivos e não por aceitação do feminino no seio do Cristianismo.
Por medo da pressão popular, os bispos concederam à Maria um elevado título, o de Santa Maria Mãe de Deus. Mas isto foi por medo, o resultado da pressão exercida pelo povo, pelos devotos de Maria e não por respeito ao lado feminino. Mesmo assim a posição da mulher no Cristianismo Romano não mudou muito, pois foi reconhecida Maria, mas não a mulher em geral. Esta continuou sendo relegada a um plano de inferioridade diante do masculino. A igreja católica não viu ser impossível se destruir um Princípio Hermético.
Assim o Princípio do Gênero, expresso como feminino / masculino, não ter como ser destruído um dos pólos sem que o outro também o seja. Os ministros religiosos, em sua quase totalidade, haviam perdido conhecimentos tradicionais, já não viam a importância fundamental do equilíbrio da polaridade de gênero. Ou pela ignorância, ou pela intencionalidade preconceituosa, o Princípio do Gênero foi posto de lado, do que resultou uma visão equivocada quanto ao papel do lado feminino por parte do Cristianismo, e assim tentaram fazer prevalecer o masculino, posição assumida pela quase totalidade das religiões cristãs até o presente. Elas consideram algumas funções ao feminino, mas conservaram o sacerdócio apenas para o masculino, e até mesmo incentivando a abstinência sexual.
Na verdade a abstinência tem sentido quando se tem o objetivo de poupar energia sutil, mas na verdade não foi é esse o motivo que o Catolicismo exige o celibato de deus ministros. As religiões tradicionais retiram Osíris da posição de Binah, substituindo-o por Sophia e, ainda mais, responsabilizaram-na pela fragmentação da Unicidade da Trindade. Isto fez com que o Catolicismo passasse a ver a mulher como basicamente pecaminosa e conseqüentemente fossem consideradas satânicas todas as práticas que desse ênfase ao Divino Feminino e até mesmo a função básica da fecundidade, gestação e parturição.
O Principio do Gênero, expresso como masculino / feminino, foi um ponto que fortemente contribuiu para o grande cisma estabelecido no Concílio de Nicéia, pois de um lado situaram-se os que aceitavam o Divino Feminino - Gnósticos - e do outro os que a negavam - Ortodoxos. Mesmo assim uma grande ala dos gnósticos, os valentinianos, infelizmente já havia substituído o Demiurgo por Sophia. Outro fator relevante foi a condenação do próprio corpo humano com sendo coisa diabólica, em especial o feminino, e ainda mais intensamente o ato da procriação, da gravidez, e do parto.
A substituição do Divino Feminino não aconteceu somente na Trindade Cristã, pois mesmo as religiões védicas, cujas vertentes situaram-se na Atlântida, também foram levadas a colocar na Trimurti - Trindade Indiana - Shiva como um ser masculino. Contudo as religiões védicas tiveram muitas deusas, o feminino conservou muito de suas qualidades, o inverso do que aconteceu com as religiões cristãs em geral e com o Judaísmo em particular, que relegaram o feminino à uma condição inexpressiva, ou mesmo desprezível.
Por haver o pólo masculino sido substituído pelo feminino na posição Binah, posição da "queda" - fragmentação da Tríade Superior - Trindade - o Catolicismo não podia tolerar qualquer doutrina, ou sociedade que de alguma forma cultuassem o Divino Feminino, daí a destruição do celtismo, que a igreja transformou em bruxaria e práticas diabólicas certos rituais. Assim sendo, muitos praticantes de rituais celtas foram abjurados pelo catolicismo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Perdendo minha religião pela igualdade

As mulheres tem sido discriminadas por muito tempo por uma interpretação distorcida da palavra de Deus.
Eu tenho sido um cristão praticante toda minha vida e um diácono e um professor da bíblia por muitos anos. Minha crença é uma fonte de força e conforto para mim, como as crenças religiosas são para milhares de pessoas no mundo. Então minha decisão de cortar meus laços com a Southern Baptist Convention, após seis décadas, foi doloroso e dificil. Foi, entretanto, uma decisão inevitável quando a convenção dos líderes, citando alguns versículos cuidadosamente escolhidos e afirmando que Eva foi criada depois de Adão e foi responsável pelo pecado original, ordenaram que as mulheres devem ser submissas aos seus maridos e proibidas de servirem como diaconisas, pastoras ou capelãs no serviço militar.
Esta visão que as mulheres são, de alguma forma, inferior aos homens não é restrita a uma religião ou crença. As mulheres são proibidas de terem um papel mais pleno e igual em muitas crenças. Essa discriminação, injustamente atribuida a uma Alta Autoridade, tem providenciado uma razão ou desculpa de privar as mulheres de direitos iguais pelo mundo por séculos.
Em seu mais repugnante, a crença que as mulheres devem se subjugar aos desejos dos homens permite escravidão, violência, prostituição forçada, mutilação genital e leis nacionaisw que omitem o estupro como crime. Mas também custa a muitos milhares de meninas e mulheres o controle sobre seus corpos e vidas e continua a lhes negar acesso justo a educação, saúde, emprego e influência dentro de suas próprias comunidades.
O impacto dessas crenças religiosas alcança todos os aspectos de nossas vidas. Elas ajudam a explicar porque em muitos países os meninos são educados antes das meninas; porque dizem às meninas quando e com quem devem se casar; e porque muitas enfrentam riscos enormes e inaceitáveis na gravidez e no parto por causa que suas necessidades básicas em saúde não são encontradas.
Em algumas nações islâmicas, as mulheres são restringidas em seus movimentos, punidas por permitir a exposição de um braço ou cotovelo, privadas da educação, proibidas de dirigir um carro ou de competir com homens por um emprego. Se uma mulher é estuprada, ela é severamente punida como culpada do crime.
O mesmo pensamento discriminatório está por detrás da contínua lacuna de gênero no pagamento e no porque existem poucas mulheres no escritório no Ocidente. A raiz desse preconceito se esconde profundamente em nossas histórias, mas seu impacto é sentido todo dia. Não são apenas as meninas e as mulheres que sofrem. Danifica a todos nós. As evidências mostram que investir nas mulheres desenvolve maiores benefícios para a sociedade. Uma mulher educada tem crianças mais saudáveis. Ela tem mais possibilidade de mandá-las para a escola. Ela ganha mais e investe na sua família.
Simplesmente é autodestruição para toda comunidade discriminar metade de sua população. Nós precisamos desafiar essas atitudes e práticas cíclicas e antiquadas.Eu entendo, entretanto, porque muitos líderes políticos podem ser relutantes sobre pisar neste campo minado. A religião, e tradição, são áreas poderosas e sensíveis para se desafiar.
Nós decidimos em dar uma atenção especial para a responsabilidade dos líderes religiosos e tradicionais em garantir igualdade e direitos humanos e publicamos uma declaração onde dizemos: "A justificação da discriminação contra as mulheres e meninas no campo da religião ou tradição, como se tivesse sido prescrito por uma Alta Autoridade, é inaceitável". Nós estamos convocando a todos os líderes para desafiar e mudar os ensinamentos e as práticas prejudiciais que justifiquem a discriminação contra as mulheres.
Nós pedimos, em particular, que os líderes de todas as religiões tenham acoragem de compreender e enfatizar as mensagens positivas da dignidade e da igualdade que toas as religiões mundiais majoritárias compartilham.
A verdade é que os líderes religiosos masculinos tem tido - e ainda têm - uma opção de interpretar os ensinamentos sagrados tanto para exaltar ou para subjugar as mulheres. Eles tem, para seus próprios propósitos egoistas, escolhido o último. Suas escolhas tem provido a fundação ou a justificação para muitas das constantes perseguições e abusos contra as mulheres no mundo. Esta é uma violação, não apenas contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também aos ensinamentos de Jesus Cristo, os Apóstolos, Moisés e os profetas, Mohamed e os fundadores das outras grandes religiões. Está na hora de termos a coragem de desafiar estas visões.
Autor: Jimmy Carter
Fonte: The Age

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A cruzada das mulheres

No século 19, o maior desafio moral era a escravidão. No século 20, foi o totalitarismo, neste século, é a brutalidade infringida nas mulheres. Ainda assim, se a injustiça que as mulheres sofrem em países mais pobres são de grande importância, em um sentido econômico e geopolítico a oportunidade que elas representam é ainda maior. Em um grande pedaço do mundo, as meninas não são educadas e as mulheres são marginalizadas e não é um acidente que nestes mesmos países são desproporcionalmente envolvidas na pobreza e dilaceradas pelo fundamentalismo e caos.
Existe um crescente reconhecimento entre todos que focar nas mulheres e meninas é a maneira mais eficiente de combater a pobreza mundial e o extremismo. Este é o motivo pelo qual a ajuda estrangeira tem crescido em direção às mulheres. O mundo está acordando para uma verdade poderosa: as mulheres e as meninas não são o problema; elas são a solução.
Tradicionalmente, o status das mulheres era visto como um assunto suave - digno mas marginal. Em circunstâncias normais, as mulheres vivem mais que os homens e então há mais fêmeas do que machos no mundo. Assim mesmo em lugares onde meninas tem um profunda diferença de status, elas somem. As meninas somem parcialmente porque elas não tem o mesmo atendimento médico e comida que os meninos.
As estatísticas mundiais sobre o abuso de meninas são inúmeros. Parece que mais meninas e mulheres estão sumidas do planeta, precisamente porque elas são fêmeas, do que homens foram mortos nos campos de batalha em todas as guerras do século 20. O número de vítimas desse generocídio rotineiro excede o número de pessoas que foram mortas em todos os genocídio do século 20.
A frase discriminação de gênero pode evocar pensamentos sobre pagamento desigual, baixo financiamento em times de esporte ou assédio sexual do chefe. No mundo em desenvolvimento, milhões de mulheres e meninas estão escravizadas. A International Labor Organization estima que existem 12,3 milhões de pessoas envolvidas em trabalho forçado de todo o tipo, incluindo servidão sexual. Meninas e mulheres são trancadas em bordéis e agredidas se resistirem, alimentadas apenas o suficiente para se manterem vivas e muitas vezes sedadas com drogas.
Hoje, enquanto a discriminação e a desigualdade e o assédio persistem, a cultura tem sido transformada.
No recente ano de 1990, as Nações Unidas e o Banco Mundial começaram a proclamar o potencial recurso que as mulheres e as meninas representam. Outra razão para educar e dotar as mulheres é que quanto maior for o envolvimento feminino na sociedade e a economia surge para enfraquecer o extremismo e o terrorismo. Agora está emergindo que a dominação masculina da sociedade é também um fator de risco; pode ser que quando as mulheres são marginalizadas as nações assumem uma cultura cheia de testosterona de um campo militar.
Existem muitas metáforas para o papel da ajuda estrangeira. Para nós, a ajuda é um tipo de lubrificante. Algumas gotas na máquina do desenvolvimento mundial para que as engrenagens possam se mover livremente por conta própria.
Autor: Nicholas Kristof
Fonte: New York Times

sábado, 22 de agosto de 2009

O mito de Melusine

O maravilhoso é, em primeiro lugar, a projeção fora do nosso universo, e imerso em sua catarse, de atitudes mentais incompatíveis com a exigência de uma descontinuidade entre o ser humano e a natureza, e que o pensamento cristão tinha por essencial na Idade Média. O ethos feminino pode ser analisado como catalisador de mitos, elevando um fenômeno de cultura popular ao mito e vice-versa. Nesse sentido buscado por nós, o de perceber a entronização de uma fábula no meio social, como gêneses de uma cultura - a medieval - terão que analisar as relações entre níveis de cultura e grupos sociais.
Teremos que pensar a Idade Média como uma convivência de populações, impregnadas de tradições mentais completamente diferentes. Desde o fim da Antigüidade Tardia e mesmo em pleno período medieval, observamos a emergência de populações camponesas exercendo pressões sociais importantes, sobre uma elite latina, que somada a uma crescente indiferenciação cultural das camadas culturais laicas frente ao clero, convidam uma crise. Essa cultura clerical, que monopolizava as formas eruditas de cultura, sobretudo as escritas, no grego ou latim, tinha que se ajustar às resistências culturais de origem pagã sejam elas célticas, ou romanas.
Teremos dificuldade em discernir qual seria o tamanho e o peso cultural da população camponesa frente ao monopólio clerical dessa mesma produção. Se nos introduzirmos ao problema do feminino medieval, encontraremos a mulher perante os seguintes paradoxos: A importância do caráter diabólico da mulher - ela permanece essencial, porque continua a ser o pivô de toda a sorte de desgraças e, na atmosfera cristã medieval, surge uma nova interrogação: a infidelidade da promessa não é menos culposa pelo caráter "diabólico" da mulher. Isso procede devido a cultura da época que desloca o problema. Como se faz a propósito das mulheres "maravilhosas", a distinção entre magia boa ou má, nas fadas ou feiticeira será construída - então o cristianismo oferece a Melusina uma possibilidade de salvação ou condena-a inevitavelmente às penas do inferno. Melusina, simbólica, evoca paixão, numa mescla entre erotismo e prosperidade, de abundância.
O Feminino no período medieval
Elas emergem das fontes medievais com imagens contraditórias. A mulher é descrita no pacto matrimonial, como mercadoria a ser avaliada acordo com a herança ou o dote que traziam com elas. Somado a esse lugar social, existia a forte tradição misógina herdada de São Paulo e dos escritos patrísticos, que retratavam a mulher como Eva, a suprema e obstáculo para a salvação. A respeito disso temos o testemunho de Santo Agostinho, dado por Simone de Beauvoir: "A mulher é um animal que não é seguro nem estável; é odienta para tormento do marido, é cheia de maldade e é o princípio de todas as demandas e disputas, via e caminho de todas as iniqüidades".
Logo, era melhor casar do que se consumir - mas não muito melhor - e um homem decidido a levar uma vida santa deveria ingressar em uma ordem religiosa. Santo Tomás também lhe assegurava esse lugar social discriminado: " Eliminai as mulheres públicas do seio da sociedade, e a devassidão a perturbará com desordens de toda a espécie. São as prostitutas, numa cidade, a mesma coisa que uma cloaca num palácio: suprimi a cloaca e o palácio tornar-se-á um lugar sujo e infecto".
Há algumas excepcionalidades. Pelo menos no fenômeno do amor cortês, representada pela figura do trovador, faz ventilar nas cortes algo contra a sedimentação cultural da sociedade cristã. São as "Cortezia es d`amar, o fin`amor, o bom amors, ou o amor valent " - todos inventados por poetas do século XII, exprimindo uma relação completamente nova entre o homem e a mulher, o que traduz um modus operandi de importante alcance: a promoção da mulher na sociedade nobre. Existe um pequeno espaço onde a mulher habita em igualdade de condições, e o faz na poesia. Até no trovadorismo, o mundo aristocrático não tratava a mulher com qualquer espécie de ternura. A princípio desprezada pela sua incapacidade para o manejo das armas, vivendo em um ambiente guerreiro que excluía toda a feminilidade, quase que eternamente tratada em condição de menoridade. Não se atribuía qualquer função além de procriar. Mas mesmo nas canções d´amour a mulher é tida como tentação do diabo.
O próprio Abelardo escreveu uma obra intitulada História das Minhas Calamidades, onde relata seu romance com Heloísa, como algo de penoso. Trata-se de um retrato social importante, e com ele podemos penetrar na intimidade de um intelectual da Idade Média, oprimido pelos costumes.
A Melusina - nosso objeto do maravilhoso
Num primeiro momento temos que fazer uma distinção entre o sentido de estranho e de maravilhoso. Que as vezes se misturam. O estranho pode ser identificado pela reflexão, ao passo que o maravilhoso conserva sempre um resíduo sobrenatural, sendo dividido em três âmbitos: Mirabilis, magicus e miraculosus. Mirabilis- é o nosso maravilhoso , com origens pré -cristãs; Magicus- no período medieval este termo deslizou para o lado do mal, para o diabólico. Magicus é, portanto o sobrenatural maléfico, o sobrenatural satânico.
O sobrenatural propriamente cristão ou maravilhoso cristão, é o que se origina de miraculosus. Mas "milagre", o miraculum, é um elemento bastante restrito, dentro do universo maravilhoso. Assim o penso porque uma das características do maravilhoso é ser representado, certamente por seres sobrenaturais que são inúmeros. Ora, no maravilhoso cristão somente pode haver uma autoria que é precisamente Deus. Logo, é o problema e o lugar do maravilhoso numa religião monoteísta como a cristã. Tiveram que propor - os clérigos da Igreja - a regulamentação desse maravilhoso no corpus do milagre. Essa regulamentação tem que ser até certo ponto desconstruída por nós, para podermos realizar uma crítica ao milagre. Será uma linha tênue, pois faz desvanecer o maravilhoso. Temos uma tendência para racionalizar o maravilhoso, despojando-o de seu caráter essencial, que é justamente a imprevisibilidade. Tanto que se, num apelo reducionista, nos limitarmos a inferir etimologicamente as suas raízes ele significará "aparição". Então, o milagre, se depende do arbítrio divino possui regularidade. Mas se o milagre tiver que se realizar através de seus mediadores que são os santos será ainda mais previsível. Nas lendas dos santos cristãos, a partir do momento em que os santos entram em cena nós já sabemos o que ele vai fazer. Sabemos desde logo que ele multiplicará algum alimento, que fará uma ressurreição, que expulsará um demônio. Dessa forma, há um perigo de esvaziamento do maravilhoso.
Podemos acrescentar qual a função do maravilhoso. O maravilhoso é um contrapeso à banalidade e a regra do cotidiano. Os temas principais sempre são os da abundância de alimentos, a nudez, a liberdade sexual e o ócio. Um mundo ao avesso é em suma a reversão das hierarquias, que a propósito é a emergência de valores pagãos frente a ideologia cristã. O maravilhoso foi em última análise uma forma de resistência ao cristianismo. Há por isso uma recusa a figura do homem como imagem e semelhança de Deus, já que em inversão ocorre justamente o contrário. Bestas se apresentam sempre metade humana e metade fera. A recuperação cristã canalizou o maravilhoso para o milagre, mas este na verdade restringe o maravilhoso. Isto porque se refere sempre a Deus, o regulamenta e o racionaliza. A imprevisibilidade é substituída pela ortodoxia, frente ao sobrenatural. Assim, os santos, anjos e demônios são transformados em milícias cristãs, verdadeiros exércitos de Deus. Por isso existe, por exemplo, a busca pelo Graal. Podem aparecer terras e lugares naturais, como montanhas, lagos, fontes, árvores. Também não podemos esquecer de que o maravilhoso é visto por alguém, é visionário. Logo, pode ser enganador porque ver, mirar evoca o devaneio das miragens. Ora, isso nos remete ao latim mirari, advindo da mirabilia, ou seja, maravilha e a visão. Por isso, as maravilhas são visionárias em sentido lato ou metafórico e tudo aquilo que o imaginário pode representar. Os mirabilia são naturalmente coisas que o homem pode admirar com os olhos, são metáforas visíveis.
A estória maravilhosa de Melusina
"Melusina, chorando, sempre é vista por um cavalheiro em viagem em uma floresta. Ali, se banhando, nua, persuade o cavalheiro a se casar com ela, mas apenas se nunca a observasse tomando banho". Ele casa com a dama e tem muitos filhas, "Presina, Paulina e Palestina". Mas não conseguindo conter sua curiosidade, a observa por uma fechadura. Então ela o percebe e "se transforma em dragão voando pelos ares da torre do castelo".
Percebemos algumas passagens que nos garantem alguns tabus cristãos quebrados por essa mulher na figura de "melusina". Ele a vê numa floresta, no pagus, no campo, é então uma figura pagã, silvícola. Como as deusas célticas dos banhos, ela se encontra no lago. Ele "a salva" e casa com ela. Ela lhe dá muitos filhos, retratando uma forte preocupação medieval - a demografia- por causa da alta taxa de mortalidade infantil. A quebra do tabu - a de não vê-la se banhando - evidencia a natureza demoníaca de melusina. Na medida em que a água é um elemento purificador, como a água benta da missa cristã, Melusina revela sua aparência de dragão ou serpente voadora e voa pelos ares a fugir. Neste sentido, Melusina nos remete a uma outra lenda, a da " Dama do Castelo de Esperver ". Ela chegava tarde à missa e não podia assistir à consagração da hóstia. Como o marido e os criados a tinham, à força, retida por um dia na igreja, no momento das palavras da consagração, ela voou, destruindo parte da capela e desaparecendo para sempre. Essa estória nos parece a de uma pré- melusina.
Mas existem outras. Em " Henno dos Dentes Grandes" há evidente semelhança. Em Aix-en Provence, o senhor do castelo Rousset. No vale de Trets, encontra perto do rio Arc uma bela dama, magnificamente vestida, que o chama pelo nome e que acaba por consentir em casar com ele, com a condição de jamais procurar vê-la nua, porque assim o faria perder toda a prosperidade material que ela lhe irá proporcionar. O Senhor Raymond promete e o casal conhece a felicidade; riqueza, força e saúde, além de muitos e belos filhos. Mas o esposo puxa a cortina um dia atrás da qual sua mulher toma banho no quarto. A bela esposa se transforma então em serpente e some na água do banho para sempre. Só as amas a ouvem de noite, quando ela volta invisível paras ver os filhos. Esta é também uma mulher-serpente. Percebemos que ocorre uma verdadeira comunhão de mitos. E há muito mais ainda. Melusina é criada na ilha de Avalon, a mesma das lendas do Rei Artur. Isso nos dá mais um ponto a favor da origem céltica da lenda. O tema da caçada ao javali, animal psicopompo e visivelmente celta, faz parte igualmente da lenda. O próprio Raimodin encontra nessa caçada, três mulheres muito belas, entre as quais a própria Melusina.
Algo que nos chama a atenção é a forme de "tríade" que configura a formação da família de Melusina e suas irmãs que formam o triunvirato "Melusina, Melior e Palestina". Sendo Melhor e Palestina outra alusão aos problemas dos infiéis ao cristianismo, sendo clara uma referência ao oriente próximo. De qualquer modo, as formas das deusas tríplices celtas e pagãs já foram exaustivamente tratadas por Frazer, Campbell, Eliade, como sendo as deusas do destino e é neste fato que começaremos divagar sobre este problema. Ora, destino é fado, ou seja, algo que não se pode evitar, um jugo. O português "fado" se origina do latim dando origem a "fatal", "fato" que significa justamente isso, "algo terrível, que não se pode evitar". Daí surge a conotação de fatal, ou seja "irrevogável". Talvez graças a isso, Melusina se transforma em serpente todos os sábados. O tempo é cíclico mas não é linear. Ritmos lentos, explosões, perdas e ressurgências, dão vida ao maravilhoso imaginário. Essa variável é a natureza do acontecimento que provoca o desaparecimento. Um fato trágico consiste quase sempre na revelação da natureza do ser mágico, a serpente.
Então, Melusina surge com um papel de perturbar a paz da família feliz, provocar qualquer desgraça. Por isso mesmo, Melusina no conto é chamada com adjetivos tais como "pestilenta" e "mui falsa serpente". A Melusina também é assimilada como um demônio súcubo, fruto de cópulas com mortais, que posteriormente dão filhos excepcionais, dotados de dons físicos (beleza para as mulheres e força para os homens) , porém infelizes, retardados, ou tarados.
Estamos preocupados com essas terminologias etimológicas e filológicas para solucionar algo que quase sempre tem passado despercebido pelos estudiosos de mitos medievais. A fada é malévola, fatal, portanto o que nos leva a crer como mui plausível seria uma sutil cristianização desse substrato pagão dos mitos, transformando as fadas em senhoras idosas e conselheiras. Melusina é uma fada, só que em sua gênese, solta fumaça pela boca, é serpentária, mesmo ofídica; um dragão. A necessidade do sobrenatural permeia toda a Idade Média. Isso nos remete ao problema do totemismo. O dragão pagão é antes de tudo um símbolo de poder; símbolo da mulher que já possuiu um lugar social garantido pelo matriarcado céltico em épocas remotas. O cristianismo levou pelo menos meio milênio para impor-se (do século III ao século VIII ). Assim sendo, mesmo com intenso combate a essa mentalidade, deixou subsistir na cultura popular numerosas crenças pré-cristãs.
Conclusão
O nosso pensamento será o de nos remetermos a saída encontrada pela população para falar de si própria: - o mito. Ali, no fantástico no imaginário, qualquer minoria tem o direito de transitar, mesmo que em sonho, ou mesmo pleitear uma nova condição de vida. É a Melusina que representa o imaginário feminino medievo em sua mais saliente pujança. A mulher, nomeada pela Igreja Romana como filha de Eva, portanto portadora do "vírus" do demônio, é retratada em sua forma diabólica, como serpente voadora, dragão e fada dos lagos. Como resposta a essa emergência de valores pagãos, a Igreja para não se expor ao perigo do desmoronamento, ou melhor, para conseguir escapar dele, o faz à custa de numerosas adaptações. Poderíamos citar a princípio o problema do "marianismo" medieval.
Ora, a devoção Mariana, ou da Virgem Maria, nasce no século XII com toda a força, já que já que as comunidades rurais européias continuam cultuando uma espécie de virgem negra, das grutas, com um simbolismo visivelmente subterrâneo e pagão, da cultura céltica. A oficialização por parte do bispado através da oficialização das procissões, agora sob nova gênese, renovada pelo manto do cristianismo, nomeada de mãe de Jesus. O surgimento de numerosos "santas" em substituição à divindades pagãs, é um exemplo constante. Nesse processo cultural, - a desnaturação- os temas folclóricos mudam rapidamente de significado.
Como exemplo temos a "Vita Marcelli", de Fortunato. Neste escrito, o dragão é pagão, símbolo de forças naturais ambivalentes, vantajosas ou prejudiciais. Pois o dragão cristão continua a coexistir com o dragão cristão, este identificado com o diabo e reduzido a um significado de maldade. Mas, surpreendentemente, no "Vita Marcelli", um santo sai vencedor do dragão, mas mantendo ainda um leitmotiv pré-cristão, ele hesita em matar ou domesticar o monstro. Percebemos um enorme fosso cultural entre o caráter ambíguo da cultura folclórica, tendo as forças da natureza como locus, e um certo racionalismo da cultura eclesiástica que prega o binarismo bem e mal.
A Melusina representa o combate cristão a esse substrato pagão céltico implícito na lenda. Essas idéias variáveis e freqüentemente contraditórias sobre as mulheres são sintomáticas da natureza complexa e multiforme de seu status e funções na sociedade medieval. Por fim poderíamos sinalizar para o conteúdo político da lenda de Melusina. Existe a possibilidade de um "maravilhoso político". Neste espaço mítico, as famílias nobres reivindicam o mito como sua própria gênese. A família francesa Lusignan, um ramo Plantagenetas se diz "filhos da mulher-demônio' por conseguirem prestígio na Côrte de Ricardo Coração de Leão. Então a própria sociedade toma como verdadeiro o mito para se exaltar, como emblema de força, de poder, mesmo que "infernal". Desta forma, a cultura erudita, uma cultura dominante cristã ,dava respostas individuais ou coletivas ao problema da atitude a adotar em relação ao conteúdo da cultura profana pagã, utilizando uma ferramenta intelectual aperfeiçoada por autores didáticos que sistematizavam lendas populares inferindo conteúdo cristão. Os próprios escritores conhecem a versão pagã da estória já que freqüentemente são gauleses ou celtas que adotam rapidamente a cultura cristã, por ali precisamente se encontrar um dos melhores processos de ascensão social. O fenômeno que permite que essas lendas maravilhosas sobrevivam, será o de muito longa duração. As vezes, quanto mais interessados em expurgar esses costumes ancestrais, a atitude favorece a emergência dessas mesmas crendices. Por isso, Santo Agostinho distingue a urbanitas da rusticitas quanto aos aspectos sociais das mentalidades, das crenças e dos comportamentos.
A evangelização exige dos clérigos um esforço de adaptação cultural: língua ou sermo rusticos, emprego de formas orais, sermões e cantos; certos tipos de cerimônia, tais como liturgia, procissões, rogações, milagres encomendados e oficializados por Gregório Magno. A obliteração de temas pagãos por fim encobre e elimina a cultura folclórica. É a desnaturação, ou fim pelo tema cristão definitivo. Assim, assiste-se na Idade Média, um bloqueio da cultura, estanque, hierarquização. Mas a população não é atingida literariamente já que não era letrada. E a mulher irromperá mais algumas vezes na Idade Média, e muitas vezes depois, muito mais poderosas do que os medievais poderiam imaginar. O milagre se consumou.
Autor: Fabio Liborio
Fonte: Monografias

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A religião da antiga Israel

A bíblia hebraica - o que os Cristãos chamam de Velho Testamento - lembram uma memorável experiência que o profeta Elias teve no monte Sinai. Deus disse a Elias para ficar ali e esperar por um encontro com o divino. O Deus hebreu, Yahweh, com toda a atmosfera ao redor dele, foi tênue.
Este episódio, do primeiro livro dos reis, é frequentemente citado como um marco na história da religião. No “primitivo” politeísmo, as forças da natureza podem estar habitadas pelos Deuses, ou enganadamente igualadas com Eles. Mas no monoteísmo que estava tomando forma no Oriente Médio, teria mais distância entre a natureza e a divindade. Ao contrário das divindades pagãs, Yahweh não estava nas forças da natureza, mas em um reino à parte.
A divinidade pagã clássica da bíblia era Baal, adorado pelos Cananeus e, às vezes, pelos Israelitas que se desviaram da devoção a Yahweh. Baal, como um Deus da fertilidade, era chamado de Deus da Chuva e Orvalho. Yahweh, em contraste, era o Senhor de coisa alguma e de tudo em particular; ele era a causa primeira do poder a natureza, mas ele não a negligenciava; ele era tanto um gerente quanto um diretor.
Essse tipo de Deus é mais frequentemente descrito como moderno do que pagão, mais compatível com a visão científica. Afinal, observando para as leis mecânicas da natureza não faria muito sentido se, como os pagãos acreditavam, que a natureza era animada pelo humor dos Deuses. Há mais lugar para os princípios científicos se existir apenas um Deus, sentado em algm lugar acima da luta — capaz de intervir em ocasiões especiais, mas tipicamente presidindo acima de um universo de leis regulares.
Transcendente é o termo que alguns acadêmicos usam para descrever esse Deus. Em qualquer evento, esse é um Deus que, embora menos evidente do que os Deuses pagãos, é mais poderoso. Yahweh não vive no processo da natureza, ele os controla. O Deus hebreu foi mais revolucionário do que evolucionário. A religião de Yahweh foi uma criação original do povo de Israel. Foi absolutamente diferente de tudo que o mundo pagão conheceu.[*]
Entretanto, por mais moderno que que esse Deus transcendente pode ter sido, o Yahweh do tempo de Elias ainda não tinha o que muitas pessoas poderiam chamar de sensibilidade moral moderna.
Essa é a queixa mais comum a respeito do monoteísmo que emergiu no Oriente Médio — que sua teologia criou a intolerância beligerante. Alguns vêem isso como uma propriedade intrinseca do monoteísmo, enquanto o politeísmo reconhece a validade dos Deuses, monoteístas ardorosos são alergicos à uma pacífica coexistência.
Cristãos e Muçulmanos, como os Judeus, identificam seu Deus com o Deus que, de acordo com a bíblia, se revelou a Abraão no segundo milênio AC. Embora os três grupos alegam a mesma linhagem para seu Deus, eles não se vêem como adoradores do mesmo Deus. Se você ler a bíblia hebraica cuidadosamente, ela conta a história de um Deus em evolução, um Deus cuja personalidade muda radicalmente do começo ao fim.
Entretanto há um problema se você quer ver o desenrolar dessa história. Você não pode começar por ler o primeiro capítulo do Genesis e seguir em frente, esperando para que Deus cresça. O primeiro capítulo de Genesis foi escrito após o segundo capítulo, por um autor diferente. A bíblia hebraica tomou forma vagarosamente, por vários séculos e em uma ordem na qual não é a ordem que aparece agora. Alguns textos ugaríticos que foram decifrados pela arqueologia ajudaram a dar uma visão dessa história pelo lado dos Cananeus. Quando tudo isso é colocado junto, você tem uma imagem inteira do Deus de Abraão. Uma imagem que, de um lado, absolve o monoteísmo abraãmico de muitas das acusações graves contra ele, mas de outro lado, desafia as bases padrões da crença monoteísta. Esta é uma imagem que elogia o Deus abraãmico em termos frequentemente depreciativos, mas ilustra sua maturação e oferece esperança para um crescimento futuro. E certamente é uma imagem bem diferente da que é desenhada na sinagoga, igreja ou mesquita.
Fonte: Robert Wright
[*]Nota: A idéia de um único Deus não foi uma concepção exclusiva do povo Judeu. Os Egípcios e os Persas passaram pela experiência, o primeiro com o culto a Athon e o segundo com o culto a Ormuz. A idéia de que Yahweh seja transcendente contrasta com referências na bíblia que descrevem Yahweh como o Senhor dos Exércitos, certamente originado de algum antigo Deus da Guerra. A concepção de Yahweh como Deus único tem duas hipóteses possiveis: ou foi o resultado de um consenso em comum entre as tribos hebraicas para a formação do reino de Israel, ou foi o resultado da influência do império Persa durante o exílio babilônico.

Nemorália - Festival de Diana

Dia 13 de Agosto é marcado pela celebração da Nemorália (também conhecido como "Festival das Tochas"), mais tarde adoptado pelos católicos como Festa da Assunção.Este festival é realizado ou no dia 13 ou no dia 15 de Agosto ou na Lua Cheia de Agosto, em honra de Diana. Neste dia, colocavam-se cornos de vaca - simbolismo de Hércules - na parte da frente do templo da Deusa.
Ovídio descreve esta celebração do seguinte modo: "No vale Ariciano, há um lago rodeado de florestas com sombra, consideradas sagradas por uma religião dos tempos antigos...Numa longa cerca, pendem muitas peças de novelos feitos de fios de linho entrelaçados, e muitas tábuas estão lá colocadas como ofertas de gratidão à Deusa. Muitas vezes, uma mulher cujas preces foram por Diana respondidas, com uma grinalda de flores coroando-lhe a cabeça, vai a pé desde Roma carregando uma tocha ardente...Lá, uma corrente flui, sussurando, do seu leito rochoso..." Durante a celebração, os adoradores formavam uma luminosa procissão de tochas e velas à volta das escuras águas do Lago Nemi, ao qual se chamava "Espelho de Diana". As luzes das suas velas juntavam-se às luzes da Lua, dançando, reflectindo-se sobre a superfície da água.
O festival é levado a cabo à maneira grega, isto é, Grecu Ritu. Centenas juntavam-se junto ao lago, usando grinaldas de flores. De acordo com Plutarco, parte do ritual (antes da procissão em torno do lago) consiste na lavagem do cabelo e na sua decoração com flores. É um dia de descanso para mulheres e para escravos. Os cães também são honrados e adornados com flores. Os viajantes entre os bancos do norte e do sul do lago são transportados em pequenos barcos iluminados por lanternas. Candeias similares eram usadas pelas vestais e foram encontradas imagens da Deusa em Nemi, por isso Diana e Vesta são por isso, algumas vezes, consideradas como sendo a mesma Deusa.
Um poeta do primeiro século DC, Propertius, que não foi ao festival mas que o observou de fora, disse, a alguém que amava: "Ah, se tu ao menos pudesses andar por lá nas tuas horas de ócio. Mas não nos podemos encontrar hoje, pois que te vejo exaltada com uma tocha ardente em direcção ao bosque de Nemi foste tu levando uma luz em honra da Deusa Diana"
Pedidos e ofertas a Diana podem incluir: pequenas mensagens escritas em laços atados ao altar ou a uma árvore; pequenas estatuetas feitas de barro cozido ou de pão, representando partes do corpo que precisem de cura; pequenas imagens de barro de mãe e filho; finas esculturas de veados; dança e canto; fruta, como, por exemplo, maçãs. Oferendas de alho são feitas à Deusa da Lua Negra, Hécate, durante o festival. É proibido matar ou caçar qualquer animal durante a Nemorália.
Diana é uma Deusa Itálica celestial e luminosa. O Seu nome parece provir da palavra "Dius", que expressa a ideia de brilho relacionado com o céu. Diana tem um carácter nocturno e lunar, não sendo no entanto o mesmo que a Lua, como mais tarde veio tantas vezes a ser identificada. Há também aqui uma relação etimológica com os teónimos Janus (Deus dos Inícios) e Anna Perena, outras Duas Deidades latinas. Esta última pode estar relacionada com um monte hindu de nome Anna Purna. "Anna Perena" significaria "Anna Que fornece". É possível que Anna e Diana, sendo teónimos de certo modo "pan-indo-europeus", fossem originalmente genéricos entre os Ítalos e agrupassem Deidades de distintos santuários como se estas fossem aspectos diferentes da mesma Divindade, e aqui havia espaços para importações, sincretismos, etc...
É, desde cedo, uma Deidade protectora da virgindade e das meninas, embora também pudesse presidir aos partos, sob o nome de Diana Lucina, isto é, "Diana Que faz vir à luz", tendo este epíteto, Lucina, em comum com Juno.
Diana pode ter sido em tempos a parceira de Júpiter; todavia, na época histórica conhecida a esposa deste Deus é Juno.
Apesar de, por ter sido considerada equivalente à helénica Ártemis, ter adquirido, na mente dos cultuadores, um aspecto florestal de caçadora, nunca perdeu o Seu carácter propriamente lunar, o qual a própria Ártemis também possui. Tal como Ártemis, tem uma faceta violenta e sanguinária, vingativa, embora se notabilize pelo seu lado mais pacífico e protector.
Os Seus santuários mais antigos ficavam em Cápua - onde é conhecida como Diana Tifatina, ou Diana de Tifata, montanha situada a norte de Cápua, e onde lhe é consagrada uma corça, símbolo de longevidade, garante da existência da cidade, o que traz repentinamente à memória o facto de que o romano Sertório conseguiu a estima e a admiração dos Lusitanos ao afirmar que se comunicava com uma corça mágica, e é de notar que a Deusa Diana foi das Deidades mais adoradas na Lusitânia - e em Arícia, povoação vizinha de Roma. Nesta última localidade, o Seu templo estava situado mais precisamente no bosque de Nemus. O facto de este local de culto estar associado a escravos pode ter a ver com a total liberdade de que estes gozavam no dia 13 de Agosto.
Aqui, no bosque de Nemus, onde lhe chamam Diana Nemorensis, o seu aspecto florestal é talvez mais marcado, pois que "Nemus" significa "bosque" com sentido sagrado, o que parece especialmente interessante, se se tiver em conta que "Nem", nas línguas célticas, significa ao mesmo tempo "Sagrado" e "Céu" e está na raiz da palavra "Nemeton", a qual por sua vez significa precisamente "Bosque Sagrado". Esta semelhança etimológica não surpreende quando se sabe que o Latim e o Celta são da mesma origem: partem do grande ramo Celto-Italiota da família Indo-Europeia ocidental. Em território hoje português, pouco a norte do Douro, viveram os Nemetati. Na Galiza registou-se uma "Nemetóbriga" já nos tempos da Romanização. Na Ásia Menor, actual Turquia, existiu uma povoação com o nome de Drunemeton.
O santuário de Nemi, perto de Roma, de origem latina, teria sido, de acordo com a tradição romana, fundado por Egerius Baebius ou Laevius, ditador latino que representava várias povoações, tais como Aricia, Tusculum, Tibur e Lanuvium, entre outras. Outro possível fundador poderá ter sido Manius Egerius. Entretanto, uma tradição estrangeira atribuía o surgimento do santuário ao herói helénico Orestes, o qual, depois de matar o rei Thoas do Queroneso Táurico (Crimeia), fugira com a sua irmã para Itália, trazendo consigo o culto de Diana Táurica. Em Nemi havia uma outra Deidade, associada a Diana, que era Vírbio – e Vírbio tinha com Diana uma relação similar à de Hipólito e Ártemis: um Deus jovem e moribundo e uma Deusa Mãe telúrica que o ressuscita, esquema assaz conhecido e divulgado no Mediterrâneo Oriental, classicamente representado pelo mito de Cíbele e Átis, Osíris e Ísis, Afrodite e Adónis…Aparentemente, os Romanos achavam que Vírbio era o mesmo que Hipólito.
Segundo Estrabão e Ovídio, vivia nos montes da floresta de Nemi um sacerdote-rei (Rex Nemorensis) que, em determinadas circunstâncias, tinha de lutar com quem o desafiasse, isto porque quem quisesse ocupar o lugar deste monarca tinha de o matar, golpeando-o com um ramo arrancado de certa árvore. Pode haver aqui uma semelhança com mitos célticos.
O templo de Diana mais importante foi o do monte Aventino, edificado antes de 509 AC pelos Romanos com o intuito de colocar a confederação das cidades do Lácio sob a protecção da Deusa.

Nas colónias ou províncias imperiais, o culto de Diana assumiu diferentes formas. Na obra "Guia Arqueológica de España", pode ler-se: "Os Romanos conquistaram a povoação e chamaram-lhe Saltus Dianae, ou Santuário de Diana". Registam-se em várias da Europa Meridional algumas palavras que derivam de Diana, não apenas em etimologia, mas também, de certo modo, em significado.
Fonte: Gladius