sábado, 28 de novembro de 2009

A cidade [antiga]

Cidade e urbe não eram palavras sinônimas entre os antigos. A cidade era a associação religiosa e política das famílias e das tribos; a urbe, o lugar de reunião, o domicílio, e, sobretudo, o santuário dessa associação.
Não devemos imaginar as cidades antigas de acordo com as que costumamos ver nos dias de hoje. Constroem-se algumas casas, e temos uma aldeia. Insensivelmente o número de casas aumenta, e temos a cidade; e, se for o caso, acabamos por rodeá-la por um fosso e uma muralha. Uma cidade, entre os antigos, não se formava com o tempo, pelo lento crescimento do número dos homens e das construções. Fundava-se uma cidade de um só golpe, inteiramente, em um dia.
Mas era necessário que a cidade fosse constituída antes, o que era a obra mais difícil, e ordinariamente a mais longa. Uma vez que as famílias, as fratrias e as tribos concordavam em se unir, e em adotar o mesmo culto, logo se fundava a cidade, para ser o santuário desse culto comum. Também a fundação de uma cidade sempre constituiu ato religioso.
Por primeiro exemplo, tomaremos Roma, a despeito da reputação de incredulidade que se liga a essa antiga história. Muito se repetiu que Rômulo era chefe de aventureiros, que constituíra um povo chamando para junto de si vagabundos e ladrões, e que todos esses homens, reunidos sem escolha, haviam construído ao acaso algumas cabanas, para abrigar nelas o fruto de suas rapinas. Mas os escritores antigos apresentam-nos o fato de maneira bem diversa; parece-nos que, se queremos conhecer a antiguidade, devemos apoiar-nos sobre os testemunhos que a mesma nos apresenta. Esses escritores, na verdade, falam de um asilo, isto é, de um recinto sagrado, no qual Rômulo admitiu todos os que se apresentaram, no que seguiu o exemplo dado por muitos dos fundadores de cidades. Mas esse asilo não era a cidade, e não foi franqueado senão depois de fundada e completamente construída a cidade. Era um apêndice acrescentado a Roma; não era Roma. Não fazia parte da cidade de Rômulo, porque estava situado nas encostas do monte Capitolino, enquanto a cidade ocupava o planalto do Palatino. É importante distinguir nitidamente o duplo elemento da população romana. No asilo estão os aventureiros sem eira nem beira; sobre o Palatino estão os homens vindos de Alba, isto é, homens já organizados em sociedade, distribuídos em gentes e em cúrias, com seus cultos domésticos e suas leis. O asilo não é nada mais que uma espécie de aldeia ou subúrbio, onde as cabanas são levantadas ao acaso, e sem regras; sobre o Palatino ergue-se uma cidade religiosa e santa.
Sobre a maneira pela qual essa cidade foi fundada, a antiguidade é pródiga em informações; encontramo-las em Dionísio de Halicarnasso, que as busca em autores mais antigos; encontramo-las em Plutarco, nos Fastos de Ovídio, em Tácito, em Catão, o Antigo, que havia consultado os velhos anais, e em outros escritores, que sobretudo nos devem inspirar grande confiança, o sábio Varrão e o sábio Vérrio Flaco, que Festo nos conservou em parte, ambos muito informados acerca das antiguidades romanas, amigos da verdade, nada crédulos, e que conheciam muito bem as regras da crítica histórica. Todos esses escritores nos transmitiram a lembrança da cerimônia religiosa que havia marcado a fundação de Roma, e não temos direito de rejeitar tão grande número de testemunhos.
O primeiro cuidado do fundador é escolher o local da nova cidade. Mas essa escolha, coisa grave, e da qual se crê depender o destino do povo, sempre foi deixada à decisão dos deuses. Se Rômulo fosse grego, teria consultado o oráculo de Delfos; se fosse samnita, teria seguido o animal sagrado, o lobo ou o picanço. Latino, muito vizinho dos etruscos, iniciado na ciência augural, pede aos deuses que lhe revelem sua vontade pelo vôo dos pássaros. Os deuses apontam-lhe o Palatino.
Chegado o dia da fundação, oferece primeiramente um sacrifício. Seus companheiros enfileiram-se ao seu redor, acendem um fogo de ramos, e cada um deles pula através das chamas. A explicação desse rito é que, para o ato que se vai cumprir, é necessário que o povo esteja puro: ora, os antigos julgavam purificar-se de toda mancha física ou moral pulando através da chama sagrada.
Depois que essa cerimônia preliminar preparou o povo para o grande ato da fundação, Rômulo cava um pequeno fosso de forma circular, onde lança um torrão, por ele trazido da cidade de Alba. Depois, cada um de seus companheiros, um por um, lança no mesmo lugar um pouco de terra, trazida de seu país de origem. Esse rito é notável, e revela nesses homens um pensamento que é preciso assinalar. Antes de chegar ao Palatino, eles moravam em Alba, ou em alguma outra cidade vizinha. Lá estava seu lar, lá seus pais haviam vivido, e estavam sepultados. Ora, a religião proibia abandonar a terra onde o lar estava fixado e onde repousavam os antepassados divinos. Era preciso, pois, para se livrarem de toda impiedade, que cada um daqueles homens usasse de uma ficção, e que levasse consigo, sob o símbolo de um torrão de terra, o solo sagrado em que seus antepassados estavam sepultados, e ao qual estavam ligados os manes. O homem não podia mudar-se sem levar consigo a terra e seus ancestrais. Era necessário que observasse esse rito para que pudesse dizer, mostrando o novo lugar que adotara: Esta é ainda a terra de meus pais: Terra patruum, patria, aqui é minha pátria, porque aqui estão os manes de minha família.
O fosso onde cada um lançara um pouco de terra chamava-se mundus; ora, essa palavra designava, especialmente na antiga língua religiosa, a região dos manes. Desse mesmo lugar, segundo a tradição, os manes dos mortos escapavam três vezes por ano, desejosos de rever a luz por um momento. Lançando ao fosso um torrão de terra da antiga pátria, acreditavam encerrar nela também as almas dos antepassados. Essas almas, ali reunidas, deviam receber culto perpétuo, e velar sobre seus descendentes. Rômulo, nesse mesmo lugar, levantou um altar, e acendeu o fogo. Este foi o fogo sagrado da nova cidade.
Ao redor desse fogo devia erguer-se a cidade, como a casa se eleva ao redor do lar doméstico. Rômulo traça um sulco, que marca os limites. Ainda aqui os mínimos detalhes estão fixados pelo ritual. O fundador deve servir-se de uma relha de cobre; a charrua é puxada por um touro branco e uma vaca da mesma cor. Rômulo, de cabeça coberta, trajando vestes sacerdotais, segura ele mesmo a rabiça da charrua, e a dirige, entoando preces. Seus companheiros o seguem, observando religioso silêncio. À medida que a relha levanta torrões de terra, lançam-nos cuidadosamente para o interior do recinto, a fim de que nenhuma parcela daquela terra sagrada fique do lado do estrangeiro.
Esses limites traçados pela religião são invioláveis. Nem o estrangeiro, nem o cidadão têm o direito de transpô-los. Pular por cima desse pequeno sulco é ato de impiedade; a tradição romana diz que o irmão do fundador havia cometido esse sacrilégio, e o havia pago com a vida.
Mas, para que se pudesse entrar na cidade, e sair dela, o sulco era interrompido em alguns lugares; para isso Rômulo levantava a relha; esses intervalos chamavam-se portae, as portas da cidade.
Sobre o sulco sagrado, ou um pouco atrás, levantam-se depois muralhas, também sagradas. Ninguém poderá tocá-las, mesmo para restaurá-las, sem permissão dos pontífices. De ambos os lados dessa muralha, um espaço de alguns pés é reservado à religião; chamam-no pomoerium; não se permite passar por ali a charrua, nem levantar ali construção alguma.
Não podemos supor razoavelmente que esses ritos tenham sido imaginados pela primeira vez por Rômulo. Pelo contrário, é certo que muitas cidades antes de Roma foram fundadas da mesma maneira. Varrão disse que esses ritos eram comuns ao Lácio e à Etrúria. Catão, o Antigo, que, para escrever seu livro Origines, havia consultado os anais de todos os povos italianos, informa-nos que ritos análogos eram observados por todos os fundadores de cidades. Os etruscos possuíam livros litúrgicos, onde estava consignado o ritual completo dessas cerimônias.
Os gregos, como os italianos, acreditavam que o local de uma cidade devia ser escolhido e revelado pela divindade. Assim, quando queriam fundar alguma, consultavam o oráculo de Delfos. Heródoto assinala como ato de impiedade ou de loucura o fato de o espartano Dória ter ousado construir uma cidade “sem consultar o oráculo, e sem praticar nenhuma das cerimônias prescritas”, e o piedoso historiador não se surpreende ao ver que uma cidade assim construída, contra as regras, não tenha durado mais de três anos. Tucídides, recordando o dia da fundação de Esparta, menciona os cantos piedosos e os sacrifícios daquele dia. O mesmo historiador nos diz que os atenienses possuíam ritual particular, e que jamais fundavam uma colônia sem obedecê-lo. Pode-se ver em uma comédia de Aristófanes um quadro bastante exato da cerimônia usada em tais casos. Quando o poeta imaginou a alegre fundação da cidade das Aves, pensava certamente nos costumes que eram observados na fundação das cidades dos homens; assim, pôs em cena um sacerdote que acendia o fogo invocando os deuses, um poeta que cantava hinos, e um adivinho que recitava oráculos.
Pausânias percorria a Grécia nos tempos de Adriano. Chegando a Messênia, fez com que os sacerdotes lhe contassem a história da fundação da cidade de Messena, e assim nos transmitiu sua narrativa. O acontecimento não era muito antigo; dera-se nos tempos de Epaminondas. Três séculos antes os messênios haviam sido expulsos de seu país, e desde esse tempo viviam dispersos entre os outros gregos, sem pátria, mas guardando com piedoso cuidado seus costumes e sua religião nacional. Os tebanos queriam reconduzi-los ao Peloponeso, para estabelecer um inimigo ao lado de Esparta, mas o mais difícil era fazer com que os messênios se decidissem. Epaminondas, que os conhecia como homens supersticiosos, achou bom espalhar um oráculo, que predizia a esse povo a volta para a antiga pátria. Aparições miraculosas atestaram que os deuses nacionais dos messênios, que os haviam traído à época da conquista, voltavam a ser-lhes favoráveis. Esse povo tímido decidiu-se então a voltar para o Peloponeso, atrás de um exército tebano. Mas tratava-se de saber onde levantariam a cidade, porque nem se podia pensar em reocupar as antigas cidades do país: elas haviam sido manchadas pela conquista. Para escolher o lugar em que se estabeleceriam, não tinham o recurso ordinário de consultar o oráculo de Delfos, porque a Pítia estava do lado de Esparta. Por felicidade, os deuses possuíam outros meios de revelar suas vontades; um sacerdote dos messênios teve um sonho, no qual um dos deuses de sua nação lhe apareceu, e lhe disse que ia estabelecer-se sobre o monte Itoma, e que convidava o povo a segui-lo. Sendo assim indicado o local da nova cidade, restava ainda conhecer os ritos necessários para a fundação, mas os messênios os haviam esquecido; eles não podiam, aliás, adotar os dos tebanos, nem de outro povo qualquer, e não sabiam como construir a cidade. Muito a propósito, outro messênio sonhou que os deuses mandaram que se dirigisse ao monte Itoma, procurasse um seixo, que se encontrava ao pé de um mirto, e cavasse a terra nesse local. Ele obedeceu, e descobriu uma urna, e nessa urna folhas de estanho, sobre as quais se encontrava gravado o ritual completo da cerimônia sagrada. Os sacerdotes imediatamente fizeram cópias, e o inscreveram nos livros sagrados. E ninguém deixou de acreditar que a urna fora ali depositada por um antigo rei dos messênios, antes da conquista do país.
Uma vez de posse do ritual, iniciou-se a fundação. Os sacerdotes, em primeiro lugar, ofereceram um sacrifício; invocaram os antigos deuses de Messênia, os Dioscuros, o Júpiter de Itoma, os antigos heróis, os antepassados conhecidos e venerados. Todos esses protetores do país, aparentemente o haviam abandonado, de acordo com as crenças dos antigos, no dia em que o inimigo tomou posse de suas terras; conjuraram-nos então a voltar. Pronunciaram-se fórmulas, que deviam ter por efeito determiná-los a habitar a nova cidade em comum com os cidadãos. Isso é que era importante: fixar os deuses em sua companhia era o que mais lhes importava, e podemos acreditar que a cerimônia religiosa não tivesse outra finalidade. Assim como os companheiros de Rômulo cavaram um fosso, e acreditaram depositar nele seus antepassados, assim os contemporâneos de Epaminondas chamavam a si seus heróis, seus antepassados divinos, os deuses do país. Acreditavam assim, por meio de fórmulas e de ritos, ligá-los ao solo que iam ocupar, e encerrá-los dentro dos limites que iam traçar. O primeiro dia transcorreu com esses sacrifícios e essas preces. No dia seguinte traçaram-se os limites, enquanto o povo cantava hinos religiosos.
Surpreendemo-nos, à primeira vista, quando vemos nos autores antigos que não havia cidade, por mais antiga que fosse, que não pretendesse conhecer o nome do fundador e a data da fundação. É que uma cidade não podia perder a lembrança da cerimônia sagrada que havia marcado seu nascimento, porque cada ano celebrava esse aniversário por um sacrifício. Atenas, como Roma, também festejava seu dia natalício.
Muitas vezes acontecia que colonos ou conquistadores se estabeleciam em uma cidade já construída. Não tinham necessidade de construir casas, porque nada lhes impedia a que ocupassem as dos vencidos. Mas eram obrigados a observar a cerimônia da fundação, isto é, tinham de assentar o próprio lar, e fixar em sua nova morada os deuses nacionais. É por isso que lemos em Tucídides e em Heródoto que os dórios fundaram Esparta, e os jônios Mileto, embora esses dois povos tenham encontrado as cidades já construídas, e muito antigas.
Esses costumes nos dizem claramente o que era uma cidade no pensamento dos antigos. Fechada dentro de limites sagrados, estendendo-se ao redor do altar, a cidade era o domicílio religioso, que recebia deuses e homens. O que Tito Lívio dizia de Roma, qualquer um podia dizer da própria cidade, porque, se havia sido fundada de acordo com os ritos, recebera em seu recinto os deuses protetores, que estavam como que implantados em seu solo, e não deviam abandoná-lo jamais. Toda cidade era um santuário; toda cidade podia ser chamada santa.
Como os deuses estavam para sempre ligados à cidade, o povo não devia abandonar nunca o local onde seus deuses estavam fixados. A esse respeito havia um acordo mútuo, uma espécie de contrato entre deuses e homens. Os tribunos da plebe disseram certo dia que Roma, devastada pelos gauleses, não era mais que um montão de ruínas, e que a cinco léguas dali havia uma cidade completamente construída e bela, bem situada, e sem habitantes, desde que os romanos a haviam conquistado; era necessário, pois, abandonar Roma destruída, e mudar para Veios. Mas o piedoso Camilo respondeu-lhes: “Nossa cidade foi fundada religiosamente; os próprios deuses designaram seu lugar, e nela se estabeleceram em companhia de nossos pais. Embora em ruínas, ela é ainda a morada de nossos deuses nacionais.” — Os romanos ficaram em Roma.
Algo de sagrado e de divino ligava-se naturalmente àquelas cidades que os deuses haviam levantado, e que continuavam a impregnar, com sua presença. Sabemos que as tradições romanas prometiam a Roma a eternidade. Cada cidade tinha tradições semelhantes. Todas as cidades eram construídas para serem eternas.
Autor: Fustel de Coulanges - A Cidade Antiga . Fonte: Ebooks Brasil

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Um efeito da falta de educação sexual

Que no Ocidente Cristão assuntos que envolva o corpo, o prazer, o sexo e o relacionamento entre pessoas seja motivo de alarde, escândalo, puritanismo e moralismo hipócrita, não é novidade a este pagão ou a este blog.
Por exemplo, eu ainda espero por uma resposta [via email] do Luis Pondé aos meus comentários a seu texto "Terrorismo Sexual":
O autor escreve: "Sexo é assunto da vida privada e familiar", mas esquece que em muitas famílias falar sobre ou a respeito de sexo ainda é tabu.
Curiosamente o autor desconfia da intenção e da formação das pedagogas: "Nenhuma escola ou pedagoga maníaca por sexo deveria entrar nas cabeças das crianças com suas fantasias travestidas de teorias", mas se vamos desconfiar da formação e da intenção de uma pessoa com formação acadêmica, o autor deveria desconfiar de si mesmo.
O autor pergunta candidamente, como se não houvesse dado uma "resposta" anteriormente: "Quem são os teóricos de confiança? Quem descobriu o sexo correto?" A resposta pode não ser a adequada ou a preferida do autor, mas certamente não podemos continuar a fingir que o ser humano não possui sua sexualidade desde que nasce, apenas mudando as formas de manifesta-la, segundo Reich e as 5 fases da sexualidade humana.
Em seguida o autor comete o mesmo equívoco, difamação, calúnia e injúria que osd argumentos dos fundamentalistas cristãos recorrem quando o assunto é educação sexual, sexualidade, crianças e adolescentes: "No futuro, talvez revoguem a lei contra a pedofilia em nome dos avanços conra os preconceitos e a pedofilia venha a ser correta", mas esquece de estabelecer o vínculo causal entre um argumento e outro. Violência sexual sempre será crime, o que pode variar é a questão da idade ou do consentimento entre as pesoas que se relacionam. O fato é que a nova geração tem maior acesso à informação do que a nossa, em especial sobre sexo e sexualidade, mas sem a devida orientação/educação/formação. Os casos de pedofilia é apenas uma ponta convenientemente explorada pela sociedade hipócrita para voltar a vigorar o puritanismo.
O autor é incensado, sem razão, pelos católicos ao repudiar a educação sexual, descrevendo-a como ridícula, mas sem essa educação haverá apenas um aumento de casos de pedofilia, de violência sexual contra crianças e adolescentes, de gravidez não planejada. Não contente, ainda sugere que a professora tenha um exame de sanidade mental ou de atestado de que tenha uma vida sexual feliz para abilitá-la a dar aulas de sexo. O autor por acaso fez um auto-exame?
O autor reproduz o estado de ignorância social quanto ao sexo: "Sexo saudável é sexo pelo sexo, sem preconceitos? Conversa fiada, sexo sempre é dificil porque seu contexto passa por fantasias, mentiras, insegurança e infidelidades", sem se dar conta que tal situação ocorre exatamente porque nós vivemos um século dominado pelo puritanismo, pela repressão e opressão sexual.
O autor entra no mesmo argumento que resvala a "teoria de conspiração" tão acalentada entre os fundamentalistas: "Educação sexual é uma armadilha a serviço de todo tipo de lobby", um engano que tem causado manifestações de homofobia. Então recorre ao velho apelo à maioria: "Se o bando da educação sexual fosse de homoafetivos [...]? você [...] heteroafetivo(s), aceitari(am) somente porque o bando em questão acusaria você(s) de maioria esmagadora preconceituosa?" O autor se esquece que nem sempre a maioria está certa, só por ser maioria, ou o autor se esquece que o Nazismo conquistou o poder graças à essa maioria? Estamos em um Estado de Direito, onde mesmo as minorias tem seus direitos resguardados. Mesmo que equivocada ou tendenciosa, uma formação educacional tem que refletir a realidade sexual humana e o Estado de Direito. Os incomodados que continuem em seu puritanismo recalcado.
A discussão sobre a sexualidade, em especial da criança e do adolescente ainda é um tabu, uma proibição, resultante do obscurantismo que a Igreja impõe no Ocidente Cristão. Não foi nenhuma surpresa ao me deparar com as reações a esta notícia:
Virou moda entre muitas meninas britânicas o uso de pulseiras de plástico coloridas, apelidadas de "shag bands" ("pulseiras do sexo", em tradução-livre).
Cada cor representa um ato afetivo ou sexual que, em teoria, a meninas precisariam fazer caso um menino consiga arrebentar a pulseira. Esses atos vão desde um inocente abraço até sexo oral e relações sexuais completas.[BBC]
Poderia confundir-se com mais uma daquelas modas que pega, uma vez que é usado por milhares em várias escolas primárias e preparatórias no Reino Unido e custa apenas uns cêntimos em qualquer banca ao virar da esquina.
Andam uns atrás dos outros nos recreios das escolas, na tentativa de rebentar uma das pulseiras. Quem a usava terá de “oferecer” o acto físico a que corresponde a cor.[Destak]
Não é necessário ter nivel superior para saber que se for proibido vai ser pior. O que se precisa é perceber que a responsabilidade é da própria sociedade, que usa a sexualidade para fins comerciais, que mantém uma indústria pornográfica, enquanto pelo outro lado continua a tratar a criança e adolescente como um ser alienado, ingênuo, inocente.

A religião doméstica

Não é necessário representar esta antiga religião como as que foram fundadas mais tarde, com a humanidade mais evoluída. Há muitos séculos que o gênero humano não admite mais uma doutrina religiosa senão com duas condições: uma, que tenha um único deus; outra, que se dirija a todos os homens, e seja acessível a todos, sem afastar sistematicamente nenhuma classe ou raça. Mas a religião dos primeiros tempos não preenchia nenhuma dessas condições. Não somente não oferecia à adoração dos homens um único deus, mas ainda seus deuses não aceitavam a adoração de todos os homens. Não se apresentavam como sendo os deuses do gênero humano. Não se assemelhavam nem mesmo a Brama, que era, pelo menos, o deus de uma grande casta, nem a Zeus Pan-heleno, que era deus de toda uma nação. Nessa religião primitiva cada deus só podia ser adorado por uma família. A religião era puramente doméstica.
O culto dos mortos de nenhum modo se assemelha ao que os cristãos dedicam aos santos. Uma das primeiras regras desse culto era que não podia ser observado senão pelos familiares de cada modo. Os funerais não podiam ser religiosamente observados senão pelo parente mais próximo. Quanto ao banquete fúnebre, que depois se celebrava em épocas determinadas, apenas a família tinha o direito de assisti-lo, e os estranhos eram severamente excluídos. Acreditava-se que o morto não aceitava a oferta senão da mão dos parentes, não queria o culto senão de seus descendentes. A presença de um homem que não pertencesse à família perturbava o repouso dos manes. A lei, portanto, proibia aos estranhos aproximar-se de um túmulo. Tocar com o pé, mesmo por descuido, uma sepultura, era ato de impiedade, pelo qual se devia aplacar o morto e purificar-se. A palavra pela qual os antigos designavam o culto dos mortos é significativa: os gregos diziam pratiázein, os latinos parentare, porque as preces e oferendas não eram endereçadas senão aos antepassados de cada um. O culto dos mortos era, verdadeiramente, o culto dos antepassados.
Na Índia, como na Grécia, a oferta não podia ser feita ao morto senão pelos seus descendentes. A lei dos hindus, como a ateniense, proibia receber estranhos, embora amigos, no banquete fúnebre. Era de tal modo necessário que o banquete fosse oferecido pelos descendentes do morto, e não por outras pessoas, que se supunha até que os manes, em sua morada, faziam freqüentemente este voto: “Que nasçam sucessivamente de nossa estirpe filhos que nos ofereçam, na continuidade dos tempos, arroz cozido em leite, mel e manteiga purificada”.
Por essa razão na Grécia e em Roma, como na Índia, o filho tinha o dever de fazer libações e sacrifícios aos manes do pai e de todos os ancestrais. Faltar a esse dever era a mais grave impiedade que se podia cometer, pois a interrupção desse culto provocava uma série de mortes, e destruía a felicidade. Tal negligência era considerada verdadeiro parricídio, multiplicado tantas vezes quantos antepassados possuía o filho negligente.
Se, pelo contrário, os sacrifícios eram sempre observados de acordo com os ritos, se os alimentos eram levados ao túmulo nos dias marcados, então o antepassado tornava-se deus protetor. Hostil a todos os que não descendiam dele, expulsava-os de seu túmulo, castigando com doenças os que dele se aproximavam; para os seus, porém, era bom e compassivo.
Havia perpétua troca de favores entre os vivos e os mortos de cada família. O ancestral recebia dos descendentes a série de banquetes fúnebres, isto é, a única alegria que podia experimentar em sua segunda vida. O descendente recebia do antepassado a ajuda e a força de que necessitava neste mundo. O vivo não podia abandonar o morto, nem o morto ao vivo. Por esse motivo estabelecia-se poderosa união entre todas as gerações de uma mesma família, constituindo assim um corpo inseparável.
Cada família tinha seu túmulo, onde seus mortos vinham descansar um após outro, sempre juntos. Todos os que descendiam do mesmo sangue aí deviam ser enterrados, e nenhum homem de outra família podia ser nele admitido. Nele celebravam-se as cerimônias e aniversários. Cada família acreditava possuir antepassados sagrados. Nos tempos mais remotos, o túmulo ficava dentro da propriedade da família, no centro da casa, não longe da porta “a fim de que — diz um antigo — o filho, entrando ou saindo de sua morada, encontrasse todas as vezes os pais, dirigindo-lhe vez por vez uma invocação". Assim o antepassado mantinha-se no meio dos seus; invisível, mas sempre presente, continuava a fazer parte da família, e a ser o pai. Imortal, feliz, divino, interessava-se por aquilo que deixara de mortal sobre a terra; conhecia-lhes as necessidades e amparava-os na fraqueza. E aquele que ainda vivia, que trabalhava que, segundo expressão antiga, não se havia desempenhado da existência, esse tinha junto a si guias e apoio, que eram os pais. No meio das dificuldades, invocava sua antiga sabedoria; no sofrimento pedia-lhes consolo; no perigo, apoio; depois de uma falta, perdão.
Na verdade, hoje em dia muito dificilmente poderemos compreender que o homem possa adorar ao pai ou a um antepassado. Mas reflitamos que os antigos não tinham idéia da criação; para eles o mistério da geração era o que para nós pode ser o mistério da criação. O que gerava parecia-lhes uma criatura divina, e por isso adoravam os antepassados. Era necessário que esse sentimento fosse muito natural e poderoso, porque aparecia como princípio de uma religião na origem de quase todas as sociedades humanas; encontramo-lo entre os chineses, como entre os antigos getas e citas; entre os povos da África, como entre os do Novo Mundo.
O fogo sagrado, que tão intimamente estava ligado ao culto dos mortos, tinha também, como caráter essencial, pertencer apenas a uma família, representava os antepassados; era a providência da família; não tinha nada em comum com o fogo da família vizinha, que era outra providência. Cada lar protegia apenas os seus.
Toda essa religião limitava-se ao círculo de uma casa. O culto não era público. Pelo contrário, todas as cerimônias, eram celebradas apenas pelos familiares. O fogo sagrado nunca era colocado fora da casa, nem mesmo perto da porta externa, onde um estranho poderia vê-lo. Os gregos colocavam-no sempre em um recinto fechado, para protegê-lo do contacto e olhar dos profanos. Os romanos escondiam-no no meio da casa. Todos esses deuses, fogo sagrado, lares, manes, eram chamados de deuses escondidos, ou deuses do interior. Para todos os atos dessa religião exigia-se segredo; se uma cerimônia fosse assistida por um estranho, era considerada perturbada, manchada por um único olhar.
Para essa religião doméstica não havia nem regras uniformes, nem ritual comum. Cada família tinha a mais completa independência. Nenhum poder exterior tinha direito de dar regras para esse culto ou crença. Não havia outro sacerdote além do pai; como sacerdote, ele não conhecia nenhuma hierarquia. O pontífice de Roma, ou o arconte de Atenas, podia certificar-se de que o pai de família cumprisse todos esses ritos religiosos, mas não tinha o direito de obrigá-lo a nenhuma modificação. Cada família tinha suas cerimônias, que lhe eram próprias, suas festas particulares, suas fórmulas de oração e seus hinos. O pai, único intérprete e pontífice dessa religião, era o único que tinha o poder de ensiná-la, e não o podia fazer senão a seu filho. Os ritos, as palavras da oração, os cantos, que faziam parte essencial dessa religião doméstica, eram patrimônio ou propriedade sagrada, que a família não participava a ninguém, e que era até proibido revelar a estranhos.
Assim, a religião não residia nos templos, mas nas casas; cada um tinha seus deuses; cada deus protegia apenas a uma família, e era deus apenas de uma casa. Não se pode supor razoavelmente que uma religião com tais características fosse revelada aos homens pela imaginação poderosa de alguém, ou que fosse ensinada por uma casta de sacerdotes. Ela nasceu espontaneamente no espírito humano; seu berço foi a família; cada família fez seus próprios deuses.

Esta religião não podia propagar-se senão pela geração. O pai, ao dar vida ao filho, dava-lhe ao mesmo tempo sua fé, seu culto, o direito de manter o fogo sagrado, de oferecer o banquete fúnebre, de pronunciar fórmulas de orações. A geração estabelecia misterioso vínculo entre a criança que nascia para a vida e todos os deuses da família. Tais deuses eram sua própria família, theòi enghenéis; seu próprio sangue theòi synaimoi. A criança, portanto, ao nascer, recebia o direito de adorá-los, e de oferecer-lhes sacrifícios, assim como, mais tarde, quando a morte, por sua vez, o divinizasse, ele devia ser contado entre os deuses da família.
Mas é necessário notar esta particularidade: a religião doméstica não se propagava senão de varão para varão. Isso, sem dúvida, prendia-se à idéia que os homens faziam da geração. A crença das idades primitivas, tal como a encontramos nos Vedas, e nos vestígios que ficaram em todo o direito romano e grego, era que o poder reprodutor residia unicamente no pai. Somente o pai possuía o princípio misterioso do ser, e transmitia a centelha da vida. Dessa antiga opinião resultou que o culto doméstico passou sempre de homem para homem; a mulher, dele não participava senão por intermédio do pai ou do marido; depois que estes morriam, a mulher não tomava a mesma parte que o homem no culto e cerimônias do banquete fúnebre.
Autor: Fustel de Coulanges - a Cidade Antiga
Fonte: Ebooks Brasil



quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Da necessidade de estudar as mais velhas crenças

Para conhecer a verdade a respeito desses povos antigos, deve-se estudá-los sem pensar em nós, como se nos fossem completamente desconhecidos, com o mesmo desinteresse e liberdade de espírito com que estudaríamos a Índia antiga ou a Arábia.
Encaradas desse modo, a Grécia e Roma apresentam-se-nos com um caráter absolutamente inimitável. Nada do que é moderno lhes é semelhante. E no futuro nada poderá ser-lhes semelhante.
As grandes transformações, que de tempos em tempos aparecem na constituição das sociedades, não podem ser efeito do acaso, ou apenas da força. A causa que as provoca deve ser poderosa, e essa causa deve estar no próprio homem.
A história da Grécia e de Roma é testemunha e exemplo da estreita relação que há entre as idéias da inteligência humana e o estado social de um povo.
Mas, à frente dessas instituições e dessas leis, colocai as crenças, e os fatos tornar-se-ão claros e sua explicação tornar-se-á evidente. Se, considerando as primeiras idades dessa raça, isto é, a época em que fundou suas instituições, observamos a idéia que fazia então da criatura humana, da vida, da morte, da segunda existência, do princípio divino, percebe-se íntima relação entre essas opiniões e as regras antigas do direito privado, entre os ritos que se originaram dessas crenças e as instituições políticas.
A comparação das crenças e das leis mostra que a família grega e romana foi constituída por uma religião primitiva, que igualmente estabeleceu o casamento e a autoridade paterna, fixando as linhas de parentesco, consagrando o direito de propriedade e de sucessão. Essa mesma religião, depois de estabelecer e formar a família, instituiu uma associação maior, a cidade, e predominou sobre ela como o fazia na família. Dela se originaram todas as instituições, como todo o direito privado dos antigos. Da religião a cidade tirou seus princípios, regras, costumes e magistraturas.
É necessário, portanto, estudar antes de mais nada a crença desses povos. As mais antigas são as que devemos conhecer melhor, porque as instituições e crenças que encontramos na época áurea da Grécia e de Roma nada mais são que a evolução de crenças e instituições anteriores; é necessário que busquemos as raízes em um passado bem longínquo. Foi em época mais antiga, em uma antiguidade que escapa às datas, que se formaram as crenças e se estabeleceram e prepararam as instituições.
Felizmente, o passado nunca morre por completo para o homem. O homem pode esquecê-lo, mas continua sempre a guardá-lo em seu íntimo, pois o seu estado em determinada época é produto e resumo de todas as épocas anteriores. Se ele descer à sua alma, poderá encontrar e distinguir nela as diferentes épocas pelo que cada uma deixou gravada em si mesmo.
Autor: Fustel de Coulanges - A Cidade Antiga
Fonte: Ebooks Brasil

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Comemorando a consciência

Em um país em transe, os brasileiros irão comemorar amanhã (20/11) o Dia da Consciência Negra, algo que certamente deve horrorizar os racistas, que irão falar que isso é "racismo inverso", etc.
O cerne da comemoração é a consciência, algo que não tem cor nem etnia, mas é a questão de ter uma atitude positiva diante de situações de discriminação, de preconceito, de intolerância.
Isso ocorre por causa de um sistema vigente que age de forma prejudicial e desfavoravel contra uma opção sexual, como a homossexualidade; contra um gênero, como as mulheres; contra uma etnia, como os negros; contra uma religião, como o Paganismo. O sistema é estruturado para favorecer uma opção sexual, como a heterossexualidade; para favorecer um gênero, como o homem; para favorecer uma etnia, como os brancos, para favorecer uma religião, como o Catolicismo.
Em outras palavras, o sistema vigente exclui, segrega e marginaliza certas pessoas por causa de seu gênero, de sua origem, de sua etnia, de sua opção sexual ou religiosa. O próprio sistema é uma expressão que patrocina a alguns privilegiados e oprime os demais. O próprio sistema se manifesta em prol do homem, do branco, do heterossexual, do cristão. Entretanto, em sociedades contemporâneas, onde vigora o Estado de Direito, estes grupos, chamados de "minorias" devem ser resguardados das ações abusivas por parte dos grupos privilegiados, chamados de "maioria".
Evidentemente, aqueles que são privilegiados pelo sistema irão tentar resistir, para manter sua influência e seu poder na sociedade. Por causa disso que atos como o Dia da Consciência Negra, a Parada Gay e o Dia do Orgulho Pagão são importantes. Servem para despertar o ativismo social dos que estão oprimidos, segregados, excluídos. Servem para lembrar que os direitos existem para todos e não apenas aos privilegiados. Servem para mostrar que as "minorias" são mais numerosas do que se pensa. Servem para ensinar que as diferenças devem ser celebradas e não temidas.
Que amanhã seja um dia para todos os brasileiros despertarem e exercerem sua consciência.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Festa das Bruxas

E falando em sexta-feira 13, em dias que o brasileiro só pensa no 13º, por meio do Gladius uma boa notícia vem dos patrícios:
A última sexta-feira 13 de 2009 vai ser assinalada na 'capital do misticismo', em Montalegre, com um espectáculo que abre portas às bruxas, duendes e seres demoníacos e envolve mais de 300 pessoas do concelho, entre crianças e adultos.
Desde 2002 que a Câmara de Montalegre organiza as 'Noites das bruxas', que de realizam em todas as 'sextas-feiras 13' e já fazem parte integrante do calendário cultural do Barroso.
Depois das enchentes de Fevereiro e Março é esperada nova romaria nesta sexta-feira, até porque em 2010 só existe uma, agendada para Agosto.
A grande novidade da próxima edição é que os actores que encarnam os seres do outro mundo, como as bruxas, duendes e demónios que vão assombrar a vila, são crianças e adultos do concelho, que participam nas 'Oficinas de actor' promovidas pelo Centro de Estudos do Barroso, Teatro e Tradições (CEBTT).
O CEBTT resulta de uma parceria entre a Câmara de Montalegre e o Centro de Criatividade da Póvoa de Lanhoso.
Matilde, Nuno e Pedro são três das 175 crianças do primeiro ciclo das escolas de Montalegre que estão a ter aulas de teatro duas vezes por semana com actores profissionais do Centro de Criatividade da Póvoa de Lanhoso.
'Nós vamos ser os duendes, as bruxas são os maiores. Vamos ter que andar a correr atrás das bruxas e quando lá chegarmos elas dão-nos uma sapatada nas costas. Devagarinho para não nos magoarem e depois vamos para o castigo', explicou à Agência Lusa a pequena Matilde.
Aqui, no Barroso, e ao contrário de outras zonas do país, as crianças não têm medo das bruxas. Estas fazem parte do seu imaginário infantil mas não desempenham o papel de más nas suas histórias.
A actriz Isabel Pinto classifica a sua experiência no Barroso como 'muito interessante'.
'São crianças muito especiais, que possuem um imaginário muito especial, com ritmo e necessidades de concentração, consciência corporal e espacial muito específicas, que nós tentamos trabalhar com a oficina de teatro', salientou.
Isabel Pinto disse ainda que o trabalho incide muito no imaginário do Barroso, no duende, na floresta, a bruxa ou o lobo. 'São tudo espaços oníricos que estamos a desbravar', frisou.
Sofia Dias, animadora da câmara, referiu que o objectivo do projecto nas escolas 'é valorizar o desenvolvimento da criança, não formar actores e formar novos espectadores e novos públicos'.
Depois, às sextas-feiras à noite, a oficina de teatro abre as portas aos mais velhos, com o objectivo de intervir junto de toda a comunidade.
Nos três fins-de-semana que antecederam esta sexta-feira 13, decorreram oficinas com vista à produção de máscaras, figurinos e adereços.
Como já é tradição, a 'Noite das Bruxas' vai continuar a ter como personagem principal 'Dom Bruxo', o padre António Fontes, conhecido pelos Congressos de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, que tem como função fazer a queimada, a 'mistela abençoada' que pode livrar de bruxedos, feitiços e maus-olhados.
Até Janeiro, será preparado um novo espectáculo que contará com a participação de actores profissionais e amadores da região.[Montalegre]

Dia Mundial da Gentileza

Nesta sexta-feira, 13 de novembro, comemorou-se o “Dia Mundial da Gentileza” ou “World Kindness Movement”, cujo objetivo é despertar a atenção das pessoas para a importância de atitudes gentis na construção de um mundo mais amável e justo. A data foi estabelecida durante uma conferência entre profissionais de diversos países, em 1996, em Tóquio.
Atitudes como desejar que as pessoas tenham um bom dia, oferecer água ou café, abrir a porta para alguém passar ou até mesmo pegar algum objeto caído no chão são demonstrações de gentileza. Estas, segundo especialistas, têm relação direta com a configuração do ambiente, a influência das relações familiares e a índole de cada indivíduo. “A família, bem como um ambiente harmônico e propício contribuem para a formação de um indivíduo gentil”, defende o psicólogo Paulo Wenderson.
A pedagoga Tecla Mello afirma que a formação de uma pessoa, que implica também no agir ou não de forma gentil, é resultado da interação entre o comportamento que traz em si desde o nascimento e o ambiente no qual está inserido.
Segundo ela, ao longo da vida, essa interação proporciona o desenvolvimento da auto-gentileza e a partir daí a gentileza com os outros. “Tem que ser gentil consigo mesmo para depois ser com os outros. As pessoas não podem oferecer aquilo que elas não têm”, afirma Mello.
No blog Cidadão Repórter, alguns leitores são enfáticos ao responder se costumam praticar gentilezas no dia a dia. Foi o caso de Carlos Machado: “Claro. Todo dia, toda hora, em casa, no trabalho e principalmente no trânsito. Parar na faixa não só e obrigatório como também uma gentileza tamanha, dar passagem ao pedestre, aos carros em geral. Você se sente com a alma lavada, vê no semblante das pessoas a satisfação de terem sido contempladas com uma gentileza”.
Outros chamam atenção para os gestos nada gentis que algumas pessoas expressam quando estão diante de uma gentileza. “Eu sou extremamente gentil, as pessoas até comentam com minha mãe. É muito legal ser educado, pena que muitas pessoas não são, nem respondem quando você fala ‘obrigada’, ‘bom dia’ e outros. Tem tanta gente mal educada, que dá até medo falar. Pra mim é uma satisfação ser gentil, tanto que educo meus filhos para serem gentis e educados”, aponta Gabrielle Conceição.
A opinião de Conceição é reforçada pelo leitor Gilvã Osvaldo dos Santos que acredita que “um dos princípios básicos da educação é a gentileza. Se todos tivessem o mínimo de racionalidade e personalidade para pedir desculpas, licença e agradecer sempre, muitas truculências e atrocidades que vivenciamos, no dia a dia, teriam um outro final”.
Para o psicólogo Paulo Wenderson, esse medo da gentileza está associado à vida nos grandes centros urbanos, onde as pessoas dedicam pouco tempo ao relacionamento entre si. “Faltam espaços para as pessoas se relacionarem. Todos os espaços, nos grandes centros, são pagos. A própria rua é programada para desenvolver e resolver problemas individuais e não coletivos. Nessas localidades, as relações são voltadas para o indivíduo”, explica Wenderson.
O psicólogo diz que o ideal seria projetar espaços voltados para o coletivo, favoráveis às atitudes gentis. “Na verdade, essas pessoas querem a gentileza, mas por receio acabam apostando em uma estratégia que complica ainda mais a vida nesses centros. A gentileza é um bem intangível e importante para a sociedade se desenvolver, uma vez que uma sociedade gentil produz mais qualidade de vida para as pessoas”, afirma.
Comemoração nacional – No Brasil, o “Dia da Gentileza” também é comemorado em 29 de maio, data em que José Datrino, o profeta Gentileza, faleceu aos 79 anos. O profeta tinha como lema “Gentileza gera gentileza” e andava pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro espalhando palavras, gestos e escritos de incentivo a atitudes gentis entre as pessoas. Da Avenida Brasil até o Centro da cidade, Gentileza chegou a pintar 55 painéis sob os viadutos.
Ele costumava dar flores às pessoas que chegavam na barca de Niterói para trabalhar na cidade. “Gentileza saía pela Uruguaiana pedindo flores aos donos de floriculturas e quando juntava uma boa quantidade distribuía para as pessoas que chegavam para trabalhar”, conta o jornalista André Holanda, que morou no Rio de Janeiro quando o profeta ainda era vivo.
“Lembro-me muito da sensação de passar de ônibus e ver os escritos dele. Eu trabalhava oito horas por dia, estudava e ainda tinha que enfrentar um trânsito horrível... Em meio àquela correria, tinha as mensagens simpáticas de amor e gentileza para as pessoas, que a gente ia olhando pelo ônibus”, conta. “Mas nós não dávamos muito valor, ler aquilo era uma coisa de distração. Foi quando tiraram que todo mundo sentiu falta”, completa o jornalista.
Notícia publicada no Tarde Online, com uma pequena correção, visto que eu a estou citando depois de sua publicação.
Nota da casa: Para mim, "ser gentil" é um ato natural. Quando se torna uma "data" ou algo que precise de um "incentivo", deixa de ser gentileza para se tornar patrulhamento. Eu dispenso "profetas" ou cópias urbanas de Antônio Conselheiro. Ninguém se perguntou como uma pessoa que vive feito um ermitão, vomitando lições de moral, pode efetivamente dar conselhos sobre algo que não vivencia.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

As 12 teses da violação

Martin Kugler escreveu 12 teses pelas quais, segundo ele, o crucifixo não viola a liberdade religiosa.
Deixando um pouco de lado o fato que o autor é cristão, eu vou citar e refutar cada uma das teses.
1. O direito a liberdade religiosa pode apenas significar seu exercício, não a liberdade de confrontação.
O direito a liberdade religiosa deve incluir a liberdade de confrontação, do contrário ocorre uma ditadura. Mesmo o Cristianismo teve em sua história diversas confrontações, tanto entre Cristãos, quanto entre estes e outras religiões.
2. O significado de "liberdade religiosa" não tem relação com criar uma sociedade que está "livre da religião"!
O significado da liberdade religiosa deve incluir até mesmo a ausência de uma religião. O cerne da liberdade religiosa consiste na convivência e tolerância de todas as opiniões, inclusive as contrárias à religião.
3. Forçosamente remover o simbolo da cruz é uma violação do mesmo nível que forçar um ateu a elevá-lo [o autor usa "mount", montar, trepar, copular, subir, escalar] . A parede vazia também é uma afirmação ideológica - especialmente, se depois de tantos séculos, não esteve vazia. Um Estado "com valores neutros" é uma ficção, que é frequentemente usado para fins propagandísticos.
O símbolo da cruz não foi colocado na parede por devoção das pessoas, mas por imposição tanto do poder secular quanto do poder sacerdotal. A retirada do símbolo da cruz do serviço público o recoloca no seu devido lugar, que são os templos cristãos.
4. Um direito alegado [que] não [pode] ser confrontado com um conteúdo religioso não pode ser mais forte do que o direito de livre exercício da religião.
O conteúdo religioso em suas alegações de direitos não pode ser mais forte do que os direitos dos demais grupos sociais. Nem pode estar isento de confrontação ou contestação.
5. Os Estados, que assinaram a Conveção Européia de Direitos Humanos, entenderam que o "direito de liberdade religiosa" não é certamente uma "liberdade da religião".
A Declaração de Direitos Humanos e seus Estados participantes entendem perfeitamente que é um crime contra os direitos humanos a imposição de uma doutrina religiosa, então a liberdade religiosa inclui a liberdade da religião.
6. Juristas falam da "ladeira escorregadia". Impeça que comece! Atualmente as instituições estão afetadas pelas tentativas iconoclásticas, amanhã eu não terei a permissão de usar um pingente religioso [o autor usa "chain", cadeia, corrente] em volta de meu pescoço.
Vale a pena lembrar que a maior parte dessa "iconoclastia" foi manifestada por Cristãos. Vale a pena lembrar que estamos falando de logradouros, autarquias e serviços públicos, que não deveriam favorecer um credo [ou mesmo qualquer credo] nas sociedades contemporâneas.
7. Ao invés de lutar contra a intolerância religiosa, a religião, pelos seus símbolos, está sendo atacada.
Quando uma sociedade privilegia um símbolo religioso desautoriza-se a existência de qualquer outro símbolo religioso, o que fomenta a intolerância.
8. Ninguém pode lutar contra problemas políticos lutando contra a religião.
Ninguém pode evitar problemas políticos deixando de lado a questão da religião.
9. O fundamentalismo anti-religioso torna-se um cúmplice do fundamentalismo religioso quando provoca pela intolerância.
As posturas e opiniões contrárias à religião existem para denunciar e desmascarar as pretensões dos que a usam para seus propósitos políticos e sociais. Estas opiniões se baseiam em fatos, argumentos e evidências, não em crenças infundadas, portanto, não podem ser fundamentalistas.
10. O Cristianismo por sua própria natureza estimula sua exteriorização - ele nunca pode ser repudiado como privado nem ser trancado em um gueto!
O gueto existe porque o Cristianismo criou-os na Idade Média para confinar os Judeus. A exteriorização do Cristianismo de forma pública foi a causa da morte de milhares de inocentes pela acusação de heresia e bruxaria.
11. A maioria da população afetada gostaria de manter a cruz! Este é um problema para a democracia, ao dar prioridade a interesses individuais [de forma] tão evidente.
A maioria da população da China gostaria de banir a cruz. O problema é que uma democracia deve garantir os direitos dos que professam outra crença [ou não tem nenhuma]. Se a cruz deve ser mantida em locais públicos, um espaço equivalente deve ser dado a outros credos.
12. A cruz é o símbolo da Europa. Ela é um símbolo religioso, mas ainda assim mais do que isso.
A cruz é um símbolo do Cristianismo, não da Europa. Existem muitos símbolos da Europa, a maioria são Pagãos. Faz muito mais sentido então colocar símbolos religiosos ligados às crenças da Europa que existiam antes do Cristianismo. E isto eu apoio.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Dia do Crânio - Bolívia

Milhares de bolivianos celebraram no domingo o "Dia do Crânio", uma tradição que mistura crenças indígenas e católicas.
Anualmente, no dia 8 de novembro, milhares de pessoas enfeitam os restos mortais com flores e fazem oferendas de folhas de coca, charutos e bebidas.
Segundo a crença popular boliviana, os crânios, conhecidos como "ñatitas", afastam os maus espíritos e os ladrões.
Muitas vezes os restos mortais são de um parente.
Publicado na BBC e copiado pelo Notícias Terra.
Procurando mais uma vez pelo oráculo virtual [Google], mais uma vez obtenho mais informações de los hermanos:
Na Bolivia, a Festa das Ñatitas é uma mescla colorida de rituais antigos e fé católica e se pode apreciar próximo do cemitério de La Paz.
Oscar Morales se ajoelha em frente a duas cixas de cristal que contém duas caveiras humanas com suas respectivas boinas.
Ao seu redor, milhares de pessoas caminham pelo enorme cemitério, cantando e tocando música popular para suas caveiras decoradas, oferecendo a elas suas orações e todos os tipos de oferendas, desde ramos de flores até pães e doces.
Esta é a Festa das Ñatitas, um ritual religioso local que alcança seu ponto mais alto no começo do mês de novembro - exatamente uma semana depois do Dia de Todos os Santos católico.
As “Ñatitas” – ou "narizes chatos" na linguagem indigena Aymara - são caveiras humanas reverenciadas por milhares de indígenas católicos bolivianos que crêem que [as caveiras] os protegem do mal e os ajudam a alcançar seus objetivos e inclusive podem operar milagres a pedidos.
Os crânios – não necessáriamente de parentes ou pessoas queridas - a vezes são exumados e outras vezes passam de mão em mão.
A maior parte do tempo [os crânios] são guardados no interior das casas, porém a cada ano, nesta época, desfilam pelo cemitério principal da cidade.[BBC]

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Arquétipos, egrégoras, Deuses

Quando nós queremos comemorar um evento especial ou aniversário nós convidamos apenas a amigos, parentes e a família. Nós temos tanto critério para algo tão informal, devemos ter muito mais critério para algo formal como um culto. Quando convidamos alguém para uma festa, nós temos o cuidado de endereçar os convites corretamente, com o nome e o tratamento adequado a cada convidado. Nós temos tanto cuidado para algo tão informal, devemos ter muito mais cuidado para algo formal como evocar os Deuses em nossas cerimônias.
Assim como meu pai e seu pai são pessoas diferentes a despeito de ambos serem pais e homens, os Deuses não podem ser confundidos ou mesclados em uma mesma cerimônia. Cada Deus ou Deusa tem sua personalidade. Eu considero um desrespeito, um sacrilégio, misturar Deuses de panteões distintos na mesma cerimônia, como se fossem meros arquétipos.
Quando falamos de uma religião genérica, é comum haver sincretismo entre diversas crenças. O Neopaganismo como é uma religião genérica, sem pretensões sacerdotais, permite a nós, Pagãos, que escolhamos os Deuses e os panteões de nossa preferência, uma vez que isto é pessoal. Mas quando falamos com uma religião mais específica, como a Wica, a escolha do panteão é limitada, uma vez que isto é condicional.
Por definição, a Wica é uma religião Duoteísta, ou seja, um Deus e uma Deusa e, dentro das cerimônias, há a adoção de um determinado panteão politeísta, ou seja, os Deuses destes panteões serão evocados abaixo do Casal Divino. Este panteão varia, conforme a tradição, a linhagem e o coven. Em termos gerais, existem alguns critérios para que um panteão possa ser utilizado nessas cerimônias, um deles é a egrégora, outro são os mitos e, por fim, a qual etnia este panteão pertence.
Cada povo (etnia) desenvolveu uma egrégora que, por simpatia e semelhança, atraiu um determinado panteão. Conforme o conjunto entre etnia, egrégora e região, os mitos foram sendo desenvolvidos e, partindo destes, os ritos, até uma religião se consolidar. Ou seja, a identidade e personalidade de cada um dos Deuses estão ligados à egrégora, à etnia e aos mitos.
No tocante à Wica, os panteões mais usados são o Egípcio, o Grego, o Romano, o Celta. Eventualmente o Babilônico, o Assírio, o Fenício, o Sumério. O panteão escolhido deve ter em seus mitos e mistérios alegorias que nos remetam aos ciclos da vida e às estações da natureza. Outros panteões, ainda que os Deuses estejam ligados à uma etnia, ainda que sejam antigos e originais, ou que estejam simbolicamente à natureza, lhes faltam os mitos e os mistérios vinculados a estes elementos.
Um bom exemplo são os chamados Deuses do dito panteão Africano, muito em voga entre os neopagãos brasileiros. Há um equívoco muito comum quando se iguala os Orixás cultuados nas religiões afro-brasileiras com os Deuses Antigos, sobretudo em definir os Orixás como sendo um panteão Africano. A África é um continente, não uma etnia. Os Orixás foram trazidos às colônias espanholas e portuguesas pelos negros que vieram da África por causa da escravidão. Este negros tinham sua etnia e são por estas etnias que a personalidade e identidade dos Orixás pode ser determinada. Afirmar que os Orixás podem ser usados na cerimônia wiccana da mesma forma que os Deuses Egípcios o são é de uma grosseria sem par.
Os Orixás não são Deuses, não pertencem a um panteão Africano. Os Orixás são entidades ligadas à etnia Yorubá, cuja religião não possui mitos ou mistérios vinculados aos ciclos da vida e estações da natureza. Podem ser cultuados privadamente pelos Pagãos que se interessem pelas religiões afro-brasileiras, segundo as tradições e cerimônias estabelecidas. Não faz sentido algum que um bruxo de uma etnia diferente da Yorubá os use em seu Ofício. Não faz sentido que um wiccano de uma tradição diferente da afro-brasileira os use em suas cerimônias. Afirmar, com base na leitura dos arquétipos, que os Orixás podem ser usados em cerimônias wiccanas, faz tanto sentido quanto usar os Santos Cristãos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Festa da Cabra

Enquanto aqui no Brasil os basileiros ora comemoram ora censuram o halloween, ora falam bem ora falam mal do Sanhaim, lá entre os patrícios [Portugal] os gajos comemoram as antigas tradições das crenças que existiram na Europa antes do Cristianismo.
Festa da Cabra e do Canhoto é já considerada uma das noites mais genuínas de Portugal.
A aldeia de Cidões, no concelho de Vinhais, prepara-se para celebrar, em mais uma tradicional “noite das bruxas”, a 31 de Outubro, a Festa da Cabra e do Canhoto. Esta é já considerada uma das noites mais genuínas de Portugal. Aqui não há bruxas de vassoura nem chapéus cónicos ou abóboras iluminadas, tradições importadas de outras localidades. Em Cidões a festa é transmontana, com origens que se perdem no tempo, e celebra-se como sempre se celebrou: “numa noite de folia e transgressão, generosidade e alegria, canhotos hão-de criar uma fogueira que ainda se faz numa encruzihada e ai daquele que não se aqueça nessa fogueira ou que não coma do banquete que ali se preparará” pois diz já diz a antiga lenda “quem no canhoto não se aquecer e da cabra não comer, um ano de azar vai ter”. É nessa fogueira que, em potes enormes, serão cozinhadas “velhas e boas cabras, machorras”. Dos potes sairá um repasto que chega para todos, locais e forasteiros: “suculenta carne de cabra, pão cozinho em antigos fornos de lenha, castanha assada, maçãs, figos e nozes”. Mas nesta noite secular haverá também o “interminável vinho e aguardente queimada” acompanhado de “histórias de arrepiar, de outros tempos” e muitas tropelias dos rapazes que visam evocar as energias renovadoras e propiciatórias do caos que caracteriza o fim e o princípio de um ciclo. Após o jantar, os rapazes percorrem a aldeia para a “virar do avesso”, literalmente. Roubam vasos de flores das varandas, viram do avesso carros de bois e carroças e, ao longo de toda a noite, passeiam com um carro de bois toda a noite fazendo-o “chiar” de modo a que ninguém durma.[Mensageiro Notícias]
Cidões come hoje cabra para não ter ano de azar.
Na noite mais propícia a todos os sustos, a população de Cidões, em Vinhais, esconjura, hoje, os demónios comendo, literalmente, a mais tradicional representação do demo a cabra. Como se não bastasse, a dita é cozinhada em grandes potes, sobre o fogo intenso do canhoto (tronco). Ninguém acredita em bruxas, mas não vá o diabo tecê-las, e melhor é todos petiscar a cabra,seja ela demónio, belzebu, diabo ou qualquer outro espírito maligno.
A festa é simbólica, mas está muito arreigada no espírito dos habitantes de Cidões, que se deslocam de vários pontos do país só para participar, como Ana Mendes que vive Sintra. A origem da festa perde-se na memória. "É muito antiga, eu sei lá quando começou", desabafa Luís Alves, um dos membros mais antigos da organização.
Ali, não há lugar aos mais recentes atropelos à tradição com costumes importados, não há vestígio de fantasias de bruxas de vassoura e chapéu negro nem abóboras luminosas do Halloween. "Cruzes, credo", benzem-se os mais velhos. "A tradição aqui é genuína" garante José Manuel, membro da Junta.
O repasto está marcado para as 20 horas, são esperadas algumas centenas de pessoas na "Festa da Cabra e do Canhoto". Geralmente o número ultrapassa os 400 comensais. A organização tem preparadas quatro machorras (cabras estéreis) para dar de comer a quem aparecer. A noite escura como o breu é aquecida com vinho e aguardente.
Enquanto o repasto vai apurando, os comensais petiscam castanhas assadas, figos e outros frutos secos.
O cenário é o ideal para uma noite de bruxarias. A aldeia está encaixada no sopé da serra, a estrada é íngreme, com declive acentuado, longe de tudo.
A noite é de transgressão. Após o jantar, os rapazes viram a "aldeia ao avesso", roubam vasos de flores das varandas, voltam carros de bois e carroças. Depois, vão passear com o carro de bois por toda a localidade, de modo a não deixar dormir ninguém devido ao "chiar" (ranger) das suas rodas.
"Chateavam-se e chateiam-se com esta barulheira, mas há que aguentar" diz Luís Alves. Reza a lenda que quem se aquecer na fogueira afasta a má sorte, "quem no canhoto não se aquecer e da cabra não comer, um ano de azar vai ter".
A festa da cabra e do canhoto é uma tradição ligada à noite de Todos os Santos, que se perdeu na maioria das localidades. Em Cidões queima-se o canhoto (tronco) e faz-se uma grande fogueira com lenha furtada, onde se cozinha cabras velhas.
Os costumes recomendam o uso de machorras (cabras velhas estéreis), que costumam engordar muito e por isso são boas para o banquete. Este ano foi preciso comprar parte delas noutras aldeias porque não havia número suficiente em Cidões.
A grande pilha de lenha que servirá para cozinhar a cabra já foi recolhida durante o fim-de-semana, para acautelar situações imprevistas. Foi colocada à estrada da aldeia próxima de um cruzamento, locais cheios de misticismo associados a bruxarias.[Jornal de Notícias]
Os brasileiros bem que poderiam, ao invés de querer trocar o Dia das Bruxas pelo Dia do Saci por "ser mais brasileiro", tentar saber mais sobre suas origens, saber mais sobre a festividade que envolvem os dias 31 de Outubro, 1º e 2 de Novembro, ao invés de cair nesse nacionalismo/patriotismo pobre, provinciano e puritano.

Novembro, o nono mês

Novembro é o nono mês do calendário romano, seu nome vem de "novem", nove em latim.
Festas em Novembro:
Dia 4 a 17 – Ludi Plebeii, jogos para o povo de Roma. Os Ludi Plebeii eram feitos para comemorar a liberdade da ordem dos plebeus após o banimento dos reis ou após da secessão dos plebeus do Aventino. Entretanto, fontes históricas não sustentam essa teoria e é mais provável que este jogos foram instituidos em comemoração à reconciliação entre os patrícios e os plebeus, depois que os plebeus saíram do Aventino.
Dia 13 – Epulum Jovis. Esta festa era realizada pelos senadores e altos magistrados durante os Ludi Romani e Ludi Plebeii. Se iniciava com o sacrifício de uma vaca branca e bolos cerimoniais em honra a Jupiter, possivelmente Juno e Minerva. Os Deuses eram formalmente convidados e atendidos; eram trazidas camas luxuosas para as estátuas. Uma vez acomodadas, suas estátuas eram colocadas em almofadas na posição mais respeitável da mesa e servidas com ricos acepipes.
Dia 15 – Festival em honra de Feronia. Uma Deusa rural marginalizada na religião romana, a quem as florestas e mananciais eram consagrados e uma Deusa mais importante entre os Latinos.
November 24 – Brumalia. Um antigo festival Grego realizado no solstício em honra a Dioniso, geralmente no dia 25 de Dezembro. O festival incluia bebidas e diversão. O nome vem da palavra latina bruma, significando "dia mais curto". Durante o festival, proferiam-se sinais proféticos para a espectativa do restante do inverno.

domingo, 1 de novembro de 2009

Dia de Finados

Amanhã é comemorado o Dia de Finados em todos os países que seguem alguma forma de Cristianismo. Alguns criticam o excessivo clima comercial da data, mas isto não aconteceria se não existisse um público e uma necessidade. O principal, para quem vai ao cemitério, é amenizar a saudade de quem partiu, prestar homenagens pela memória do parente falecido.
O encontro da cultura cristã com a cultura celta deu origem à comemoração do Dia de Finados. Os celtas – povo que habitava a região da atual Irlanda – tinham no seu calendário a festa conhecida como Samhain. Nesse dia, os celtas acreditavam que os dois mundos – o dos vivos e o dos mortos – ficavam muito próximos e eles celebravam essa comunhão.
Desde o século I, os cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram.
No século V, a igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava.
O abade Cluny, santo Odilon, em 998 pedia aos monges que orassem pelos mortos. E os papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia aos mortos.
No século XI, o calendário litúrgico cristão incorporou o Dia de Finados, que deveria cair no dia 2 de novembro para não se sobrepor ao Dia de Todos os Santos, comemorado no dia 1º.
A primeira celebração do dia dos mortos pelos povos católicos foi feita pelos monges beneditinos de Cluny, na França.
31.10: Véspera do Dia de Todas as Almas: em inglês "All Hallow's Eve" (reduziu para "Halloween"); celebra todos os que morreram e foram condenados ao inferno.
01.11: Dia de Todas as Almas ou Todos os Santos: celebra todos os que morreram em estado de graça e não foram canonizados.
02.11: Dia de Todos os Mortos ou Finados: celebra todos os que morreram, estão no limbo ou não são mais lembrados.[JE & ED]
Até o século IX d.C., a Igreja Católica comemorava o Dia de Todos os Santos no mês de maio. Contudo, o papa Gregório III, no ano de 835, procurando evitar conflitos religiosos entre católicos e os povos recém-conquistados no noroeste europeu (como já foi visto, que tinham grande concentração de tribos celtas), autorizou a celebração do “dia de Samhain” e transferiu a data do calendário católico para o 1º dia do mês de novembro. Outra tentativa de conciliação entre as festividades pagãs e as cristãs foi quando os católicos edificaram o Panteão romano (templo destinado para a adoração politeísta) em igreja cristã. Os ritos religiosos cristãos aos santos eram cultuados um dia depois ao dos deuses pagãos. Até hoje o calendário das datas comemorativas conserva esta origem histórica e religiosa.
Na Idade Medieval é quebrado o respeito ao culto pagão por parte do cristianismo. A Igreja Católica, por meio da Santa Inquisição, intitulou como bruxo todo aquele que praticasse rituais pagãos e institucionalizou o Dia de Finados em 2 de novembro para abolir as festividades de Samhaim. Desta forma, muitas pessoas eram jogadas nas fogueiras, marcando assim uma das atitudes de extremismo religioso mais condenadas pela história.[Guia SJP]