quarta-feira, 26 de maio de 2010

Tradição indígena de queimar savanas é contestada

Os pemón argumentam que a prática evita queimadas acidentais piores.
As montanhas cobertas de neblina que surgem da floresta formam uma das fronteiras mais atraentes de exploração e pesquisa. Tanto que inspirou o romance fantástico “O Mundo Perdido”, de Arthur Conan Doyle, e equipes de biólogos que ainda armam expedições a escarpas remotas na esperança de encontrar espécies novas para a ciência.
Porém, nas savanas abaixo, os sinais de fumaça pela paisagem atestam um costume que deflagrou um acirrado debate entre cientistas na Venezuela e outros lugares: a tradição dos índios pemón de queimar repetidamente pasto e floresta para caçar animais e plantar alimentos.
A seca que afligiu a Venezuela este ano está intensificando clamores de que os índios da etnia pemón tenham desencadeado um aumento nas queimadas, normalmente extintas pela chuva. Alguns especialistas em florestas dizem que a queimada coloca a Gran Sabana, uma região do tamanho da Irlanda que inclui as enigmáticas montanhas conhecidas como tepuis, em risco de desmatamento e perda de espécies.
O governo do presidente Hugo Chávez já está enfrentando ampla indignação pública em relação à falta de energia elétrica, e a empresa estatal de energia teme que as queimadas possam diminuir as florestas que ajudam a coletar e liberar água, e levar sedimentos do rio para o Guri, complexo hidrelétrico que fornece grande parte da energia elétrica do país.
Porém, muitos pemón, junto com alguns dos estudiosos que pesquisam sobre esse povo, dizem que as queimadas ajudam a evitar que o pasto acumule biomassa para queimadas muito maiores que poderiam se alastrar pela região, da mesma forma como grandes incêndios devastaram partes da Indonésia em 1997.
“Quem vem de fora pensa que somos selvagens primitivos, mas eles desconhecem nossos métodos”, disse Leonardo Criollo, 46 anos, líder pemón cuja vila, Yunek, fica à sombra do maciço de Chumanta, uma coleção de 11 tepuis dos quais cascatas descem de rochas altas. “Queimamos para que possamos viver em harmonia com a savana ao nosso redor.”
O conflito de opiniões sobre a prática centenária faz parte de um debate mais amplo sobre a soberania e o gerenciamento adequado das terras indígenas. Boa parte da Gran Sabana é delimitada ou como parque nacional ou como território militar. Mas alguns ecologistas que defendem a queimada alegam que povos indígenas do mundo todo há muito tempo usam o fogo para alterar seus ecossistemas e moldar regiões como as pradarias do meio-oeste americano.
Relatos sobre as origens dos pemón na Gran Sabana divergem, mas alguns historiadores afirmam que eles podem ter migrado para cá há cinco séculos, vindos da costa do que hoje é a Guiana, após incursões de exploradores europeus. Paleoecologistas também debatem sobre que porcentagem da Gran Sabana era coberta originalmente por florestas e quando a queimada por parte dos humanos passou a ocorrer.
De qualquer modo, os pemón, que hoje são cerca de 25 mil, tinham boa parte da Gran Sabana para si até o começo do século 20, quando missionários começaram a fortalecer sua presença. Os missionários foram então seguidos por equipes de pesquisadores cientistas e, nas últimas décadas, por autoridades venezuelanas que construíram uma rodovia aqui na década de 1970.
Toda a área agora é agitada. Caminhões do Brasil correm pela rodovia pavimentada trazendo bens de consumo. Contrabandistas pegam a mesma estrada pela fronteira para vender gasolina. Soldados mal-humorados pedem suborno nos postos de controle. Os militares estão aumentando sua presença na área com uma nova base de monitoramento de satélite na vila de Luepa.
No meio de tudo isso, os pemón continuam ateando fogo em partes da Gran Sabana, já que áreas recém-queimadas logo dão lugar a pasto fresco que atraem presas desejadas, como o veado de rabo branco.
“Por que eu mudaria um costume que funciona há várias gerações”, disse Antonio Garcia, 70 anos, caçador pemón, enquanto se preparava em uma manhã recente perto de Santa Elena de Uairen, uma cidade de fronteira bastante pobre e cheia de atividades de contrabando.
A caça não é o único motivo. Bjorn Sletto, especialista em planejamento da Universidade do Texas, que estuda os hábitos de queimadas dos pemón, os viu queimar a terra para eliminar cobras e escorpiões; para se comunicar através de sinais de fumaça; e para pescar, pois o fogo faz com que os insetos pulem na água, atraindo peixes.
Porém, um dos principais motivos desse povo indígena queimar a savana, segundo Sletto, pode ser criar um mosaico de paisagens divididas por queimadas naturais que evitam que incêndios maiores se espalhem. “Há razoes ecologicamente sensatas para que os pemón mantenham baixos os níveis de combustível na savana”, disse.
Outros discordam. Nelda Dezzeo, bióloga florestal do Instituto Venezuelano de Pesquisa Científica, sustenta que algumas florestas da Gran Sabana podem nunca se recuperar de queimadas repetidas. Ela disse que a ameaça de fogo se espalhando da savana para a floresta era especialmente preocupante.
“Há áreas onde novas espécies de árvores ainda estão sendo estudadas”, ela disse. “Se os danos chegarem a essas áreas, as espécies podem se perder, ou podemos perder espécies que ainda nem conhecemos”.
Os pemón enfrentam uma ração envolvendo as queimadas que vai além do limite do debate científico. Venezuelanos não-indígenas muitas vezes os chamam de “quemones”, um termo em espanhol para designar pessoas que queimam muito. “Os pemón são piromaníacos por natureza, e este ano vimos algumas das piores queimadas”, disse Raul Arias, 54 anos, que opera um serviço de helicóptero na região.
Alguns indígenas zombam de declarações como essas. “Quem é de fora chega e deixa seu excremento e lixo nos tepuis, depois reclamam que a queimada estraga sua visão”, disse Miguel Lezama, 46 anos, líder que mora perto do Monte Roraima.
Novos motivos para os incêndios complicam ainda mais a situação. Estudiosos viram um aumento nas queimadas para protestar contra a instalação de torres elétricas e a abertura da base de monitoramento de satélite. Outros pemón às vezes iniciam queimadas para atormentar o governo e pressioná-los a atender a suas exigências por serviços.
Poucos especialistas sabem como essas queimadas irão afetar a Gran Sabana, além de semear a discórdia na região.
“O governo está muito enganado se pensa que os pemón são ovelhinhas dóceis das savanas”, disse Demetrio Gomez, 36 anos, líder pemón que participou de um protesto violento perto de Santa Elena de Uairen este ano para desalojar invasores das terras indígenas. “Queimávamos essas terras muito antes da chegada de outras pessoas”, disse ele, “e vamos continuar queimando para sempre”.
Fonte: G1
Nota da casa: A notícia é importante para que muitos dos pagãos modernos, principalmente os urbanos, entendam que estar em harmonia com a natureza significa interagir, às vezes de forma invasiva, com ela.

A realidade de ponta-cabeça


Os dois tipos básicos de ser humano são o masculino e o feminino. O modo como se estrutura o relacionamento entre mulheres e homens constitui o modelo básico para as relações humanas. [Riane Eisler, na pg 240]



No inicio os invasores eram simplesmente bandos de saqueadores que matavam e pilhavam. Na Europa Antiga o abrupto desaparecimento das culturas estabelecidas coincide com o primeiro aparecimento de túmulos de chefes Kurgans.
Mas depois de algum tempo os próprios conquistadores começaram a mudar. Eles - e seus filhos e netos e, por sua vez, os filhos e netos destes - a dotaram algumas das tecnologias, valores e modos de vida mas avançadas das populações conquistadas. Eles se fixaram e tomaram por esposas mulheres da região. Como senhores micênicos em Creta, acabaram interessando-se pelas coisas mais refinadas da vida.
Depois de cada onda sucessiva de invasões, paulatinamente também se reafirmou o impulso em direção a maior refinamento e complexidade tecnológica cultural. A cada invasão e, após um certo período de regressão cultural, a civilização retomava seu curso interrompido. Mas a civilização tomava agora um rumo muito diferente. Isso porque, se os conquistadores quisessem manter suas posições dominantes, havia um aspecto da cultura anterior que não podia ser absorvido. Esse aspecto, ou mais precisamente esse complexo de aspectos, era o cerne sexual e socialmente igualitário e pacífico do modelo anterior de sociedade em parceria.
A continuidade de dois sistemas constituía um risco enorme de o sistema antigo recobrar sua força, sendo por demais convidativo aos povos que tinham fome de paz e queriam libertar-se da opressão.
Para consolidar o poder das novas elites, essas mulheres teriam que ser despidas de seus poderes de decisão. Ao mesmo tempo, sacerdotisas teriam que ser despojadas de sua autoridade espiritual. A descendência matrilinear teria que ser substituída pela patrilinear, onde as mulheres passaram a ser vistas cada vez mais como tecnologias de produção e reprodução controladas pelos homens ao invés de membros independentes e líderes da comunidade.
Como é típico das sociedades de dominação, as tecnologias de destruição receberam altíssima prioridade. Os homens mais fortes e brutais passaram a ser honrados e lautamente recompensados por sua capacidade técnica de conquistar e pilhar.
A medida que a revolução tecnológica retomou seu crescimento, após a estagnação ou regressão dos tempos de invasão, aumentou a quantidade de bens e outros recursos materiais. Mas o modo como eram distribuídos esses recursos mudou.
A evolução social também retomou o impulso ascendente. Instituições politicas, econômicas e religiosas continuaram a ganhar complexidade. Mas á medida que novas especializações e funções administrativas se fizeram necessárias em função das novas tecnologias, também essas foram assumidas por conquistadores e seus descendentes adeptos do uso da força.
O padrão típico dessas conquistas era primeiro os homens conseguiam posições de dominância destruindo e apropriando-se da riqueza dos territórios conquistados. Depois, à medida que avanços tecnológicos e complexidade social criavam a necessidade de novos papéis na produção e administração da riqueza, também estes eram apropriados por eles.
Os cargos novos certamente não eram dados às chefes dos clãs matrilineares, nem às sacerdotisas. Ao invés disso, todas as novas posições sociais e especializações que tivessem algum poder ou status eram sistematicamente transferidos de mulheres para homens.
Agora era a força o que determinava quem controlaria os canais de distribuição de riqueza. A organização social era regida agora pelo princípio do escalonamento. Começando pela colocação dos homens fisicamente mais fortes acima da outra metade da humanidade, as mulheres, todas as relações humanas tinham que se conformar a esse modelo.
Ainda assim, era preciso estabelecer que os antigos poderes que governavam o universo haviam sido substituídos por deidades novas e mais poderosas. E para tanto era necessário, acima de tudo, garantir que não apenas sua representante terrena, a mulher, mas também a própria Deusa, fosse derrubada de seu elevado posto.
Em alguns mitos do Oriente Médio isso foi obtido pela história de como a Deusa foi trucidada. Em outros, ela foi subjugada e humilhada pelo estupro.
Outro recurso era o de reduzir a Deusa à posição subordinada de consorte de um Deus masculino mais poderoso. Outro ainda era transforma-la em Deusa marcial. Ao mesmo tempo, muitas das funções antes associadas a deidades femininas foram associadas a Deuses.
Negar completamente que o feminino participa da divindade é algo espantoso, principalmente porque boa parte da mitologia hebraica derivou dos mitos mesopotâmicos e cananeus anteriores. Mais espantoso ainda, porque as evidencias arqueológicas mostram que, muito depois das invasões hebraicas, o povo de Canaã, incluindo os próprios hebreus, continuou a venerar a Deusa.
A ausência da Deusa constitui a mais importante assertiva isolada sobre o tipo de ordem social que os homens lutavam para estabelecer e manter. Do ponto de vista simbólico, a ausência da Deusa nas escrituras sagradas oficialmente sancionadas é a ausência de um poder divino para proteger as mulheres e vingar os males infligidos pelos homens.
Por fim, completando e encimando a configuração violenta da sociedade de dominação, temos o autoritarismo e a dominância masculina.
Não foi por coincidência que em toda parte do mundo antigo a imposição da dominância masculina marcou a mudança de um modo pacífico e igualit´raio de organizar a sociedade humana para uma ordem violenta e hierárquica, governada por homens brutais e gananciosos. Tampouco é coincidência que as árvores da vida e do conhecimento, outrora associada ao culto da Deusa, passassem a ser propriedade privada de uma divindade masculina suprema.
Tanto o autoritarismo quanto a dominância masculinas era justificadas pelo mesmo discurso que continua a ser  usado pelos modernos totalitários ou aspirantes a totalitaristas - Não pensem. Aceitem as coisas como são, aceite o que a autoridade diz ser verdade. Acima de tudo, não usem a sua própria inteligência, sua própria capacidade mental para questionar-nos ou buscar conhecimento independente.
Eisler, Riane. O Cálice e a Espada, pg 145-158.
Nota da casa: Fazer uma síntese ou um resumo deste livro nunca fará a devida justiça ao seu conteúdo rico e profundo. Eu coletei o trecho que eu considero mais crucial para se entender o porque de tanta violência, física ou sexual, de nossa sociedade.
PS: Há que se registrar que a autora se baseia nas teorias questionáveis de Marija Gimbutas, o que não invalida o fato de que a violência, a agressividade e o sistema de dominação que oprime e reprime existem. A fonte da violência atual vem do passado, houve uma transformação na sociedade antiga e eu tendo a crer que, como na decadência de Roma, essas mudanças e conflitos foram antes causadas pelas prórias características destas sociedades do que por agentes externos.

sábado, 22 de maio de 2010

Mulher é ordenada pela primeira vez na Itália

A italiana Maria Longhitano, 35 anos, professora e casada, se tornou neste sábado a primeira mulher sacerdote na Itália a ser ordenada em Roma pela Igreja Vétero Católica - um movimento católico independente não reconhecido pelo Vaticano - vinculada à anglicana.
Longhitano foi ordenada sacerdote durante uma cerimônia na Igreja Anglicana, no centro da capital italiana, e agora poderá abençoar e rezar missa na paróquia Jesus de Nazaré, em Milão.
"É um ato importante que rompe com tradições milenares", assinalou o sacerdote vétero-católico que oficiou a posse, destacando o trabalho da nova sacerdotisa em Milão "em favor dos doentes, das crianças e dos necessitados".
Longhitano afirmou que é consciente que "abriu um novo caminho", embora tenha destacado que "foi um percurso de emoção e medo" e comentou que "sem as mulheres, o catolicismo, que quer dizer universalidade, fica mutilado".
A sacedorte criticou a proibição da Igreja Católica de ordenar mulheres.
Maria Longhitano se tornou neste sábado a primeira mulher na Itália a ser ordenada pela Igreja Vétero Católica.
Fonte: Noticias Terra
Nota da casa: A nomenclatura correta é "sacerdotisa" para uma mulher que recebe o ministério religioso. Este pagão que vos escreve deseja boa sorte para esta sacerdotisa e espera que isso se torne regra em toda forma de Cristianismo e Monoteísmo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Hipocrisia e censura

Eu não apoio a pornografia, não nos moldes que esta é divulgada, que denigre e coisifica a mulher, servindo como suporte e propaganda do patriarcado, do sexismo, da misoginia. Mas chamou-me a atenção o caso da professora Bruna Real, de Portugal, que pode vir a perder o emprego por posar nua.
Bruna Real é descrita em Mirandela como uma mulher bonita e vistosa, que «gosta de dar nas vistas». O «pecado» de que a acusam está bem exposto em oito páginas da Playboy, numa produção fotográfica ousada onde expõe todos os seus atributos. Para exaltar mais os ânimos, Bruna é professora do Ensino Básico e a exposição na revista masculina pode vir a custar-lhe o emprego.
O director da escola já pediu à Câmara que tome medidas, pois a responsabilidade de contratar docentes é do município. «Aparecer numa revista sem roupa não é compatível com a função de professora e de educadora», referiu José Pires Garcia ao Jornal de Notícias.
A Câmara garantiu que vai analisar o caso e prometeu tomar uma decisão no prazo «máximo» de uma semana. «As pessoas têm de ser responsáveis pelos actos que praticam quando trabalham em determinados cargos», disse à Lusa o presidente José Silvano.
[TVi 24]
Diz a Constituição da República Portuguesa, aprovada pela Assembleia Constituinte de Abril de 1976, que recomendo vivamente uma leitura, pelo menos na diagonal, a Maria Gentil Vaz, Vereadora do PSD com o Pelouro da Educação na Câmara Municipal de Mirandela e a José Pires Garcia, o director do Agrupamento de Escolas da Torre de Dona Chama, que “Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária”. É o artigo primeiro, não deveria ser difícil, pelo menos, ter em conta o simples trinómio republicano “Liberdade, Justiça e Solidariedade”. Já o artigo 42.º fala-nos da “Liberdade de criação cultural”, que consagra o direito de Bruna Real em se expor numa reputada revista erótica, que não tive a felicidade de comprar mas que, pelos vistos, esgotou no mesmo concelho que a quer privar de dar aulas. Dita-nos a lei fundamental da nossa República, que a liberdade, direitos e garantias só podem ser suspensos em casos previstos constitucionalmente. Ora, não sou jurista, mas tenho o mínimo de bom senso para interpretar leis fundamentais e perceber que a cidadã Bruna Real, fora da sua actividade profissional de docente do Ensino Básico, tem o direito de livremente fazer o que lhe der na real gana, como diz o povo, dentro dos trâmites constitucionais, onde se enquadra a Liberdade de criação cultural e não me parece que os seus direitos possam ser privados por uma qualquer emissão de estado de sítio ou de emergência (artigo 18º, 19º e afins), por muitas qualidades físicas e intelectuais que esta possa ter.
Bruna Real tem 3 azares: é uma jovem bonita, por ser professora podemos considerá-la relativamente inteligente, acima da mediania certamente, e vive num país medíocre, onde o conservadorismo pseudo-moralista ainda é reinante, bem ao estilo do julgamento público de uma Maria Madalena portuguesa do século XXI, onde todos “atiram a sua pedra” sem qualquer motivação plausível. Maria Gentil Vaz e José Pires Garcia devem retratar-se quanto antes e devemos todos, sem excepção, encetar uma profunda reflexão quanto aos limites de intromissão do Estado, demais órgãos e de terceiros na esfera das liberdades individuais de cada um de nós. Meus caros, há muito Abril para efectivar, o caminho é longo e sinuoso…
[Claudio Carvalho]
A decisão provocou fortes reacções (o grupo de apoio à professora Bruna Real no Facebook já tem mais de 12 400 membros) e levantou a questão: deve a vida privada ter impacto na vida profissional? João Araújo não tem dúvidas: "As pessoas devem ser julgadas pelo resultado do trabalho que efectuam e não pelas suas actividades de índole pessoal."
Opinião diferente tem Paulo Veiga e Moura, advogado especialista em direito administrativo. "Quem trabalha para o Estado tem deveres acrescidos e o que faz na vida privada pode afectar a vida pública", explica. "Ela pode ser a melhor professora do mundo, mas parece-me óbvio neste caso que ficou comprometida a dignidade da profissão, o prestígio e a imagem da instituição. As crianças não podem estar a comentar as partes íntimas da docente".
Contactada pelo i, Bruna recusou-se a fazer mais comentários além dos que já tinha feito durante o fim-de-semana. "O que fiz foi apenas tirar umas fotos e não vejo por que razão não posso voltar a dar aulas. Não fiz mal a ninguém", afirmou ao "Correio da Manhã", que avança que Bruna recebeu 700 euros, perto do seu salário mensal como professora.
[I online]
Quer dizer que se fosse uma artista, uma modelo, uma manequim, pode. Mas se é uma professora, uma policial, uma deputada, não pode. Depois tem gente que me pergunta porque eu digo que a sociedade ocidental cristã é sexualmente doente.
PS: Final feliz para a Bruna e os usuários da biblioteca onde ela irá trabalha.
Bruna Real iniciou ontem à tarde as suas novas funções de bibliotecária no arquivo da Câmara Municipal de Mirandela, depois de na sexta-feira ter sido suspensa de dar aulas e afastada do contacto com as crianças.
Segundo o Correio da Manhã apurou, Bruna terá de cumprir duas horas diárias "nas catacumbas do arquivo, onde poderá entrar à hora que lhe for mais favorável, pois o emprego é apenas temporário, até Junho", informou a directora do arquivo. No primeiro dia, a jovem acabou por passar três horas no espaço, saindo das instalações da autarquia pelas 17h30, tão sorridente quanto entrou.
Vários foram os jovens que ontem à tarde se juntaram em torno do Arquivo da Câmara Municipal de Mirandela para ver a entrada de Bruna Real no seu novo posto de trabalho. "És pouco boa, és!" e "tira a camisola para nós" foram dos piropos mais ouvidos dos adolescentes. Uma das jovens presentes, de 19 anos, acabou por manifestar ao CM a sua opinião: "Para as funções que exerce não se deveria ter exposto desta forma", disse. Já os rapazes dizem estar "deliciados" e "prontos para fazer fila em qualquer lugar em que Bruna esteja presente".[Correio da Manhã]

sábado, 15 de maio de 2010

Templo de Cibele em Nova Iorque

Existe já desde 2002 um moderno templo de Cibele na pequena cidade norte-americana de Catskill, no Estado de Nova Iorque. Os seus edificadores e crentes chamam-lhe Maetreum of Cybele, Magna Mater (MCMM), ou Maetreum de Cibele, Magna Mater (Grande Mãe) e o edifício propriamente dito foi antes conhecido como Central House, ou Casa Central.
Cibele é uma Deusa-Mãe antiquíssima, de origem frígia, Cujo culto foi imensamente divulgado no Mundo Antigo, chegando a tornar-se num dos mais populares e praticados do Império Romano. Em 1999, a matriarca líder do MCMM, actualmente sexagenária, «fundou» o novo culto à Deusa, embora já na infância tivesse tido um sonho em que Cíbele lhe apareceu. Desde 2002 que a sacerdotisa ensina no MCMM técnicas de êxtase à base do tambor (o chamado «tar»), que conduzem à comunhão com Cíbele.
Como organização religiosa e não lucrativa, a MCMM está legalmente isento de impostos... ou estaria, e é a partir daí que se torna motivo de acesa polémica local. As autoridades locais de Catskill querem recusar à MCMM a isenção de impostos, alegando que o Maetreum tem muito poucos símbolos religiosos no seu interior. Isto porque o advogado da câmara diz não ter visto, quando visitou o edifício, imagens que ele reconhecesse como religiosas... A sua argumentação tem toda a pinta de derivar de uma incapacidade, provavelmente derivada de ignorância simples (não necessariamente de má fé), de perceber a religiosidade de estatuetas e símbolos alusivos a cultos de há dois mil anos, há muito esquecidos pelo comum dos mortais ocidentais... Em reacção, o MCMM processou a cidade por lhe querer negar um direito garantido pela lei.
Fonte: Gladius

quinta-feira, 13 de maio de 2010

O fim da Wilka S/A?

Sim, algo está mudando. A Sociedade Wicca parece finalmente estar tomando gosto pela seriedade e compromisso com a Arte. Eis que prenuncio o fim da Wilka S/A.
Vejam os textos/reflexões que colhi nessa comunidade do orkut:
O que é uma Tradição de Wicca?
É muito comum vermos pessoas chamando a pratica pessoal individual ou a pratica em apenas um coven de Tradição X. Apesar de comum, isso é errado em termos de Wicca.
Vamos nos acostumar a chamar de tradição apenas o que realmente o é. E quem define isso? Acho que nossos parãmetros devem ser os utilizados pelo site Witchvox para definir o que seja uma tradição. Vou reproduzi-los abaixo e depois podemos conversar sobre esses requisitos, que são oriundos do que a comunidade Wiccaniana internacional elegeu como seus standards.
Traduzo o texto de www.witchvox.com:
"1. Uma tradição tem que ser estabelecida. Por estabelecida se compreende que seja praticada por 3 ou mais grupos, há pelo menos um ano inteiro ( nota minha: eu colocaria 3 anos, acho o minimo). Práticas de indidviduos ou de apenas um coven não formam uma tradição.
2. Tradições pagãs pertencem a todos os seus praticantes, assim não aceitamos tradições "registradas" em nome de uma pessoa só, mesmo que seja seu fundador."
[...]quem se inicia pertence a Wicca. Essa é minha visão pessoal e da maioria dos wiccanianos. O que torna uma pessoa membro da religião Wicca são seus votos sacerdotais, que ocorrem em um rito de inciação, após um longo periodo de aprendizado, que se chama Dedicação , onde ocorre o que se chama Processo Iniciatico.
Uma Tradição diz de que JEITO vc vai fazer essas coisas. Uma Tradição não surge do nada, ela surge de alguem que se conectou com os Deuses, se inspirou, e aprendeu um jeito legal de fazer essas coisas. Ensinou isso a outros e depois de muitos anos esses outros resolveram passar a outros esse JEITO ESPECIAL de praticar wicca. Isso é uma tradição.
É por isso que quem nunca foi iniciado numa Tradição não pode pertencer a ela, porque nem sabe como ela é.[Mavesper Ceridwen]
Cada Tradição é formada por diversos Covens, que é como uma extensão dela, um ramo autorizado a agir, atuar, ensinar e falar em nome da Tradição. Poderíamos comparar isso a um sistema de redes. Um Coven seria uma sucursal local de uma Tradição, da mesma forma que as agências de banco ou lojas de uma rede são uma filial de uma grande corporação.
Iniciação é o caminho através do qual as pessoas são oficialmente aceitas como parte de uma Tradição. Isso que dizer que o fato de um Bruxo praticar a Arte inspirado ou de acordo com uma determinada Tradição não o transforma em um praticante dela. Para ser um membro oficial de uma Tradição, a pessoa deve ser formalmente iniciada por alguém já iniciado naquele caminho. Isso significa que Bruxos solitários ou auto-iniciados não possuem Tradição alguma. Somente ingressando em um Coven é que será possível receber uma Iniciação Tradicional e se tornar membro de uma Tradição de Bruxaria.
Cada Tradição possui uma linhagem, ou seja, uma árvore genealógica iniciática que em teoria pode ser usada para confirmar a veracidade da alegação de uma Iniciação dentro daquele sistema. Assim, é perfeitamente possível checar quando uma pessoa está falando a verdade ou mentira ao dizer que é iniciada em uma Tradição simplesmente conferindo sua linhagem. Uma Iniciação levará a outra, que levará a outra, sendo possível traçar a árvore iniciática até o fundador da Tradição.
Todas as Tradições são unidas por um laço de juramento que impede seus iniciados de revelar os seus segredos e rituais para pessoas que não iniciados nela. Às vezes tais votos incluem também a proibição de revelar a identidade dos membros da Tradição.
Cada Tradição possui um Livro das Sombras que é comum a todos os membros do grupo contendo seus rituais, histórias e práticas. Apesar de não ser uma regra geral, às vezes o Livro das Sombras pode ser parcialmente ou totalmente cifrado para que somente pessoas verdadeiramente iniciadas na Tradição possam interpretá-lo.
Uma Tradição não é algo que se cria do dia para a noite, como a planta de uma casa ou uma receita de bolo.
Poderíamos equiparar isso ao ato de gerar um filho (Tradição Filha), que surge da existência prévia de dois seres humanos (Tradição Mãe). Este filho terá novas características, personalidade e outro nome, mas não poderá ser formado sem a existência prévia de seus pais. A criança que nasce levará anos de aprendizado com seus pais para aprender tudo o que precisa, até se tornar totalmente independente deles e poder caminhar com suas próprias pernas. Esse exemplo se aplica perfeitamente a formalização de uma Tradição. Assim sendo, uma Tradição sem raízes dificilmente resultará em algo digno de ser chamado de Tradição.
Em nenhum momento isso quer dizer que cada pessoa não possa ter sua forma distinta e eclética de cultuar os Deuses e praticar a Wicca particularmente. Mas até isso ser uma Tradição, de fato, tem uma ENORME diferença.
O próprio Witchvox, como citou anteriormente a Mavesper, só considera Tradição um caminho de Bruxaria que tenha mais de 3 ou mais grupos diferentes e autônomos praticando o mesmo sistema filosófico, litúrgico e ritualístico entre si. Isso significa que o que uma pessoa ou meia-dúzia de pessoas em comum praticam não é uma Tradição. Chamar um sistema de Bruxaria de Tradição é algo muito sério e só o tempo é capaz de dizer se aquilo se transformará verdadeiramente em uma Tradição ou não.
Leva-se anos para se passar por uma iniciação decente, aprender o que se deve, cumprir metas para se elevar de graus, poder iniciar outras pessoas e muitos outros grupos surgirem a partir do seu para que você chame o que faz de Tradição.
Wicca é algo que não se aprende do dia para noite e o autodidatismo nesses casos pode levar a erros crassos. Por isso é como eu sempre digo: se optarem pelo caminho solitário fiquem atentos ao que lêem e se procurarem por um grupo, tomem cuidado com quem se envolvem.
É como procurar um cirurgião para fazer uma operação: Procurem por pessoas reconhecidas, indivíduos confiáveis e peçam referências sempre!
Um cirurgião promove a cura do corpo físico, um iniciador é o cirurgião da alma.[Claudiney]
Estes textos/reflexões recebem meu total apoio e endosso.

domingo, 9 de maio de 2010

Bruxos de verdade

Este é o quinto de uma série de cinco artigos que foram publicados em Maio pela Revista da Biblioteca Nacional, nº 56 do ano 5. Enfim, textos realmente relevantes no ponto de vista acadêmico, sem preconceito, sem paranóias, sem histerias.
Sim, Millennium é um bruxo brasileiro, daqueles que fazem magia e sabem o porquê das vassouras voadoras e dos chapéus pontudos. É um sumo sacerdote da Wicca - a religião dos bruxos - e não está sozinho. Em junho, São Paulo reunirá seguidores da religião na 6ª Conferência de Wicca e Espiritualidade da Deusa, que está sendo preparada para receber até 400 pessoas. A programação inclui uma série de palestras e workshops. Entre as dezenas de temas abordados estão as vestimentas usadas em rituais e a magia dos egípcios, dos indianos e do conjunto de povos de origem celta que ocuparam diversas regiões da Europa Ocidental desde o segundo milênio AC até por volta do século XVII.
A princípio, reunir num mesmo evento práticas da cultura do Egito, da Índia e dos primórdios europeus parece uma grande confusão. Mas isso pode ser explicado pela trajetória do inglês Gerald Brosseau Gardner, responsável pelo ressurgimento a bruxaria nos anos 1950, segundo relatos de wiccanos. Ele começou a modernizar os rituais incluindo suas experiências em outros grupos secretos, como a ordem mágica Ordo Templi Orientis, Rosacruz e a Maçonaria. De 1954 a 1957, Gadner e Doreen Valiente, sua iniciada, escreveram todas as filosofias da Wicca. O trabalho resultou no Livro das Sombras, um tipo de manual prático wiccano.
Gardner baseou seus estudos no culto de uma Deusa e de um Deus que descendiam de rituais de sociedades tribais desde o período paleolítico. Os Celtas, por exemplo, não tinham um consenso sobre o Deus a ser adorado. "Como se tratava de várias tribos com filosofias diferentes, acabavam não tendo uma religião institucionalizada. O que eles dividiam era um panteão de Deuses. Mas cada tribo tinha a sua Deusa ou Deus de devoção", conta Millennium.
A ênfase na espiritualidade feminina chamou a atenção da antropóloga Andréa Barbosa Osório. Ela viu na bruxaria moderna a possibilidade de cruzar estudos de gênero e antropologia da religião. O interesse da pesquisadora resultou na dissertação "Mulheres e Deusas, um estudo antropológico sobre a bruxaria Wicca", defendida em 2001 na UFRJ. Mas ela percebeu que há divergências nos relatos sobre a data de surgimento da doutrina. "Alguns dizem que ela é pré-histórica; outros, que é uma criação de Gerald Gardner. Este conflito é só um dos que se encontram na prática wiccana, que se apresenta, ao mesmo tempo, moderna e extremamente antiga. No Brasil, é certo que ela se tornou visível no final da década de 1990 e, especialmente, no início do século XXI", diz a antropóloga.
Como a Wicca não é uma categoria religiosa incluída nos censos, não é possivel estimar quantos bruxos existem no Brasil. Além disso, segundo a antropóloga, é intenso o trânsito religioso entre os adeptos. "As pessoas que entrevistei já haviam se convertido a mais de uma religião e existem indícios de que algumas delas não permaneceram na Wicca", afirma Andréa.
Outro fator que dificulta essa estatística é a inexistência de um templo destinado a essa religião. O que há são os chamados círculos mágicos, que são desenhados no chão. A cerimônia ocorre no seu interior e é feita uma preparação com os quatro elementos (água, fogo, terra e ar), para a recepção da energia dos Deuses. "Quando é traçado o círculo, os participantes se revestem do mesmo sentimento que um cristão se reveste quando entra numa igreja", diz Millennium.
Mas por que não ter um templo? O motivo está na ascendência tribal e no fato de se tratar de uma religião que inicia sacerdotes e não fiéis. Como todos são sacerdotes, é possível gerenciar um ritual sozinho, não há a necessidade de um rebanho. Mas esta é a visão tradiconal da Wicca, que só considera bruxo quem é iniciado por outro bruxo. Alguns grupos aceitam a autoiniciação. A origem dessa mudança vem dos anos 1970, quando o ciganista inglês Raymond Buckland põe passagens de bruxaria em seus escritos. Segundo Millennium, Buckland abandonou a doutrina de Gardner porque não tinha como acompanhar os rituais: "Ele acabou criando a Seax Wicca, a Wicca Saxônica, que admite pela primeira vez a autoiniciação. Assim, ele acaba deturpando um conceitoda Wicca".
A estudante de história, Arliny Rochete Cavalcante é seguidora da bruxaria que não foi iniciada da forma tradicional. No círculo mágico do qual participa, não há nenhum sacerdote e ninguém pretende ter esse título. "Assim não há hierarquia, somos todos iguais", diz ela, que se tornará membro do grupo de fato depois que os wiccanos chamam de "a roda do ano", um ciclo de rituais associados aos equinócios, aos solstícios e aos entremeios das estações. São referências às festas essencialmente agrícolas dos Celtas.
A mudança na forma de iniciação também gerou outras divisões na doutrina. Já existe até Wicca Cristã, contradizendo a característica básica da criação da religião: o Paganismo. A aliança entre Cristianismo e Bruxaria é, no mínimo, curiosa. Os bruxos já foram acusados de demoníacos pela Igreja e, por isso, foram perseguidos. "Mas isso é impossível, porque, para ser um satanista, primeiro a pessoa tem que ser cristã. Como vou acreditar que existe um anticristo se eu não sou cristão? Sou pagão, meus preceitos são muito anteriores a Cristo", diz Millennium, que associa essa acusação a uma tentativa do Cristianismo de converter os Pagãos. Essa explicação poderia esclarecer a criação da imagem do demônio com chifres e rabo e a relação da bruxa com o mal, que mais tarde foi incorporada aos contos de fadas.
Os símbolos ligados à bruxaria não são poucos. Vassouras, chapéus cônicos e caldeirões são alguns dos mais conhecidos. Francisco de Goya chegou a retratar bruxas voando numa vassoura no final do século XVIII, tal como os Celtas faziam: com as palhas para frente e não para trás, como mostram as bruxas do cinema. A tradição conta que, para celebrar a colheita, os bruxos colocavam vassouras entre as pernas e corriam pulando no campo. Diante desta cena, cristãos deduziam que eles queriam voar.
O chapéu em forma de cone é explicado pelos bruxos como uma maneira de receber e gerar energias. Já o caldeirão é para a preparação de feitiços. Aliás, segundo Millennium, esta não é uma prática exclusiva dos bruxos. "A feitiçaria é a arte de mover energias para alcançar um determinado objetivo. Ela é aproveitada em várias religiões, ou até em todas. O cristão não deixa de ser um feitiçeiro quando acende uma vela para o santo e faz pedidos. Ele está querendo que a vontade dele se manifeste ali. Neste caso, ele é feitiçeiro, mas não bruxo".
O caldeirão já deixou marcas na literatura brasileira. Reza a lenda que Machado de Assis instalou o utensílio de cobre na frente de sua casa, no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, para queimar manuscritos. Assim teria nascido o apelido de "o bruxo do Cosme Velho", popularizado ainda mais por Carlos Drummond de Andrade num poema em homenagem a Machado. Já Monteiro Lobato fez questão de caracterizar a personagem Cuca, a feitiçeira do Sítio do Pica-pau Amarelo, com um grande caldeirão borbulhante, que aguça a imaginação dos leitores mirins.
Autora: Vivi Fernandes de Lima
Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº 56, pg 28-31.
Nota da casa: Em vermelho, um pequeno trecho do texto corrigido.

sábado, 8 de maio de 2010

Benditos pactos diabólicos

Este é o terceiro de uma série de cinco artigos que foram publicados em Maio pela Revista da Biblioteca Nacional, nº 56 do ano 5. Enfim, textos realmente relevantes no ponto de vista acadêmico, sem preconceito, sem paranóias, sem histerias.
As terras dos pagãos eram consideradas domínio de Satanás. Esta era a visão que a Igreja tinha das religiões nativas na época do descobrimento. Os sacerdotes dessas crenças eram rotulados de feitiçeiros, agentes do diabo. Frei Vicente do Salvador, nosso primeiro historiador, dizia que o próprio nome do Brasil simbolizava as brasas do fogo do Inferno e o padre Anchieta relatava em 1560: "Há certos demônios aqui, a que os índios chamam de Curupira, que os atacam muitas vezes no mato, dando-lhes açoites e ferindo-os bastante". Em meados do século XVIII, um nobre cavaleiro da Bahia denunciava à Inquisição portuguesa: "Aqui há tanta quantidade de negros e negras feitiçeiros que não se pode particularizar". E nas Minas Gerais, no século XVIII, um morador de Vila Rica desabafava: "Estas minas estão bastante infectadas do Demônio!".
Durante todo o período colonial, os feitiçeiros, calunduzeiros e curandeiras eram perseguidos pelas justiças do bispo, da Inquisição e do rei, podendo ser presos, açoitados e até degredados para a África. Apesar da legislação tão repressiva, diversos tipos de feitiçaria e "pactos diabólicos" eram praticados por todas as camadas sociais e grupos étnicos, mesclando, na maioria das vezes, rituais europeus medievais com cerimônias ameríndias e africanas. O baiano Gregório de Matos assim descreceu um desses rituais, tal qual era praticado nu quilombo adjacente à capital da América Portuguesa:
"Que de quilombos que tenho com mestres superlativos, nos quais se ensinam de noite os calundus e feitiços. Com devoção os frequentam mil sujeitos femininos e também muitos barbados, que se prezam de narcisos. Ventura dizem que buscam, não se viu maior delírio! Eu que os ouço, vejo e calo por não poder divertí-los. O que eu sei, é que em tais danças, Satanás anda metido e que só tal padre-mestre pode ensinar tais delírios. E quando vão confessar-se, eoncbrem aos Padres isto, porque o têm por passatempo, por costume, ou por estilo".
A rica descrição desse "calundu" - termo recorrente em todo o período colonial, até ser desbancado pelo "candomblé" no início do século XIX - exagera ao dizer que os adeptos destes rituais escondiam dos confessores tais festins demoníacos, com medo de rigorosas penitências. A documentação conservada nos volumosos Cadernos do Promotor da Inquisição de Lisboa, na Torre do Tombo, mostra que muitas das autoridades eclesiásticas eram indiferentes - quando não coniventes - à prática das "artes diabólicas", sobretudo de matriz africana.
Há notícias de vários sacerdotes de diversas capitanias que abrigavam famosos feitiçeiros em sua escravaria: nas Minas Gerais, o padre Manoel Fagundes, tinha um escravo mina, Antônio, muito procurado para dar "remédio para amansar senhores e não castigar os cativos"; na Capela do Bom Jesus do Furquim, toda a vizinhança sabia que o escravo congo Domingos era renomado bruxo, sendo conhecido por três sacerdotes: os padres Machado, Vilas Boas e Albano Silva, que nunca o delataram aos Comissários do Santo Ofício.
A presença de feitiçeiros nas propriedades das ordens religiosas também era uma grave negligência canônica, já que essas congregações deviam primar pelas virtudes e plea restrita vigilância contra heresias. Em 1618, os frades do Convento de São Francisco da Bahia abrigavam um "negro velho tido e havido como feitiçeiro", que adivinhava com sucesso o paradeiro de escravos fugitivos; em 1760, o preto Afonso, escravo dos padres da Companhia de Jesus, morador da Fazenda da Panela, na cidade da Mocha, no Piauí, "curava bicheiras com palavras", um ritual suspeito de camuflar pacto com o demônio; em 1775, Jaques, preto escravo dos beneditinos de Olinda, "com uma vela acesa na mão, olhando para uma estrela, fazia orações" para a realização de um dificultoso casamento; em 1773, no Grão-Pará, a índia Quitéria, solteira, da adminstração dos religiosos de Nossa Senhora do Carmo, "ensinava umas palavras que tinham virtude para adivinhar as pessoas que tinham furtado alguma cousa, tendo cravado os bicos de uma tesoura no arco de um balaio". No Rio de Janeiro, em 1779, consta que eram "os negros do bispo que vão ao mato buscar as folhas de alecrim e arruda para os rituais de exorcismo ministrados pelo feitiçeiro Inácio".
O caso mais comprometedor de envolvimento clerical com bruxaria remete-nos à Bahia, entre 1730 e 1740. Para exorcizar uma enferma, o carmelita calçado frei Luiz de Nazaré ordenou que matassem um porco. Com a banha, fez um unguento para passar na barriga da doente e mandou que os miúdos do animal, depois de cozidos, fossem depositados numa encruzilhada, tarde da noite. Usava erav-espinheira, erva-de-são-caetano, carvão e bolo armênio para a lavagem das enfermas. Ao ser consultado pelo senhor de uma escrava endemoninhada, foi categórico: "Que mandassem a preta aos curadores chamados calunduzeiros, porquanto a dita queixa eram feitiços a que chamam calundus e os exorcismos da Igreja não tiram aquela casta de feitiços por serem cousa diabólica".
Algumas denúncias chegaram à Inquisição. Em 1758, o Comissário do Santo Ofício de Salvador recebeu a seguinte delação: "Neste Convento do Desterro veio três vezes uma preta chamada Teresa Sabina, no mês de setembro, para curar a uma religiosa chamada Maria Teresa Josefa, com abusos da sua terra, pondo-lhe o pé e cantando na sua língua, mandou esfregar o corpo da religiosa com um tostão de cobre". Assim, os rituais de matriz africana chegaram a penetrar até no mais recôndito dos conventos de religiosas encalusuradas.
Autor: Luiz Mott
Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº 56, Maio de 2010, pg 24-25.

Quando sexo ainda é tabu

Três notícias que demonstram a que ponto a nossa sociedade está sexualmente doente, graças à repressão sexual imposta pela Igreja:
Livro sobre sexualidade gera polêmica.
Na terra em que refrões como "toma pirraia" e "chupa que é de uva" fazem sucesso, falar sobre sexo, quem diria, ainda é um tabu. Prova disso é a polêmica causada pela adoção do livro paradidático "Mamãe, como eu nasci?" neste ano pela rede municipal do Recife. A obra, escrita há 18 anos pelo educador Marcos Ribeiro, foi motivo de protesto de pais e responsávels por alunos de escolas da Zona Norte do Recife. Eles se queixaram das ilustrações do livro, voltado para crianças de 7 a 10 anos de idade. As páginas, que entre outras coisas mostram um menino e uma menina se masturbando, deixaram até professoras de cabelo em pé. O paradidático faz parte do kit escolar dos estudantes do 4º e do 5º ano da rede, com idades entre 8 e 10 anos. O material foi distribuído na semana passada a 25 mil alunos de 208 escolas municipais. A Prefeitura do Recife marcou uma reunião na próxima semana para definir como a obra será trabalhada a partir de agora.[Diário de Pernambuco]
Debate sobre o tema ainda é tabu.
Segundo os especialistas em sexologia humana entrevistados pelo Diario de Pernambuco, as famílias estão delegando à escola o papel de educar os filhos. À escola, na verdade, cabe a função de repassar conhecimento. Já a família tem a obrigação de transmitir valores. Quando isso não acontece, a família é omissa. Então, quando a escola vai além em questões que os pais não gostariam, chovem protestos. E quando o assunto é educação sexual, há um vácuo. As pessoas não estão preparadas. A educação sexual eficaz, na verdade, não existe.
"A gente tem que admitir que não existe educação sexual. Sempre que se toca neste assunto, as pessoas fogem. Tudo choca. E, quando se fala em educação sexual, só se pensa em reprimir. Não pode transar, não pode engravidar. Qualquer coisa que fale sobre prazer, como por exemplo a masturbação, que é o prazer pelo prazer, tudo é reprimido. É um pânico infundado", avaliou a ginecologista e especialista em sexologia humana Angelina Maia.
Ela afirmou que o livro do autor Marcos Ribeiro émuito sério. Mas que a maior parte da família recifense não está preparada para ele. Primeiro porque os pais não estão mais junto dos filhos como antes, por causa do trabalho. "A educação foi terceirizada. Os pais estão largando os filhos nas escolas", disse.
A psicoterapeuta sexual Vitória Menezes concorda. "O pré-adolescente já tem, por si só, curiosidade em relação a sexo. Mas isso não é motivo para pânico. Pelo contrário. É o momento em que a família deve chegar e conversar com os filhos, para entrar no assunto de forma natural", ensinou.[Diário de Pernambuco]
Malu Rodrigues [16] fez 'O Despertar da Primavera' na capital sem autorização.
A atriz emancipada Malu Rodrigues, de 16 anos, que mostra o seio e simula um ato sexual no musical “O Despertar da Primavera”, atuou durante pouco mais de dois meses na peça encenada no teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, sem qualquer autorização da Justiça paulista. A última apresentação foi no dia 2 de maio. O Ministério Público paulista e o fluminense pedem esclarecimentos aos responsáveis pela garota e pelo espetáculo por suspeita de ele ter infringido o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) por mostrar a parte íntima da garota e permitir que ela interpretasse uma cena de sexo.
Segundo o juiz titular da Vara Central da Infância e Juventude em São Paulo, Adalberto José Queiroz Telles de Camargo Aranha Filho, informou ao G1, na sexta-feira (7), o ECA determina que qualquer pessoa com menos de 18 anos de idade precisa de alvará do órgão para se apresentar em teatros. A emancipação, que permite ao adolescente ter alguns direitos civis de adultos, não é levada em consideração pelo estatuto, de acordo com ele.
Segundo o estatuto, compete à autoridade judiciária disciplinar autorizar, por meio de portaria ou mediante alvará, a entrada, permanência ou participação de criança ou adolescente, desacompanhado dos pais ou responsável, em teatro e seus ensaios. Deverá se levar em conta a natureza do espetáculo.
O juiz ainda entende que a questão se a criança ou o adolescnte irá fazer ou não cenas de nudez sempre deve ser informada ao juiz competente para que ele decida sobre a sua participação no evento. “Nos termos do ECA há proibição de crianças e adolescentes exibirem partes íntimas do corpo em público”, disse Adalberto Aranha Filho.
O advogado Alberto Zacharias Toron, que representa os interesses da Divina Comédia, em São Paulo, uma das empresas responsáveis pelo “O Despertar da Primavera”, discorda do juiz. Ele disse que o fato de Malu ter sido emancipada pelos pais exime a adolescente de obter o alvará para participar da peça. “Considerando que a menor de 18 anos já era legalmente emancipada, não havia necessidade de alvará judicial para a sua atuação artística. Aliás, isso, segundo as informações que obtive, foi expresso por funcionário do cartório [da vara central]”, afirmou o advogado. “Eu entendo assim, mas pode, no entanto, se estabelecer uma controvérsia sobre a lei.”O advogado Ricardo de Moraes Cabezon, presidente da Comissão da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP), falou ao G1 que o texto do ECA dá margem a muitas interpretações distintas sobre a validade ou não do alvará para emancipados.
“Não precisa necessariamente de alvará. Mas, independentemente de mostrar o seio, precisa informar ao juiz, por cautela, sobre os integrantes menores de idade que compõem o elenco da peça e sua situação jurídica. No caso da moça [Malu], a emancipação. A Justiça não deve, porém, se ater apenas ao ECA, pois emancipação gera situação excepcional. Entretanto, acho no mínimo estranho colocar justamente a menina de 16 anos emancipada na cena que causa a polêmica”, afirmou o advogado Cabezon.[G1]
Nota da casa: E ainda teve um arcebispo que [como é de praxe na Igreja] tentou desviar a responsabilidade de seus pares nos escândalos de abuso sexual ao afirmar que "A sociedade é pedófila". Mas o melhor mesmo foi a admissão do porta-voz do sr Ratzinger, Federico Lombardi: "As autoridades eclesiásticas consideram não ser competentes sobre temas de carácter médico e psicológico, para os quais se remetem naturalmente os estudos de especialistas e as pesquisas". Ao longo deste blog, o distinto leitor irá encontrar diversos artigos que contestam a visão oficial, mas eu recomendo que o/a sr/a comece pelo "Curando a doença social".

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O pai das adivinhações

Este é o quarto de uma série de cinco artigos que foram publicados em Maio pela Revista da Biblioteca Nacional, nº 56 do ano 5. Enfim, textos realmente relevantes no ponto de vista acadêmico, sem preconceito, sem paranóias, sem histerias.
No final da tarde de 25 de julho de 1862, foi preso em sua casa, em Salvador, o africano liberto Domingos Sodré. Ele havia sido denunciado por receber de escravos objetos roubados de seus senhores como pagamento por adivinhações e "feitiçarias". O chefe de polícia denominou o que acontecia na casa do africano de "candomblé", termo já em voga nessa época para definir diferentes práticas religiosas tidas como africanas.
Na casa de Domingos, localizada ao lado do seminário católico instalado no Convento de Santa Tereza, foram encontrados muitos objetos de culto, como búzios, chocalhos, "figuras de pau" e roupas cerimoniais, indicando que procedia a denúncia de que ali se praticavam rituais de candomblé. Como isso não era crime, Domingos foi preso sob a acusação de receptar objetos furtados, mas conseguiu safar-se: foi solto sob a promessa de abandonar aquelas práticas para se dedicar ao que a polícia chamou de "meio de vida honesto". Caso reincidisse, seria deportado para a África, uma punição não prevista na lei, mas frequentemente aplicada contra africanos libertos acusados de feitiçaria.
A polícia não investigou bem a vida de Domingos, ou, pelo menos, negligenciou alguns aspectos intrigantes dela. Ele era senhor de escravos, por exemplo. Quando foi preso, tinha pelo menos uma escrava e foi proprietário de seis cativos em diferentes momentos entre 1849 e 1877. Ao mesmo tempo, Domingos era chefe de uma junta de alforria, sociedade formada por escravos e libertos que emprestavam dinheiro para a compra da liberdade. Em geral, reuniam-se nessas organizações africanos pertencentes ao mesmo grupo étnico. A de Domingos era formada principalmente por nagôs, pois essa era a sua nação.
Domingos nascera em Lagos, hoje a maior cidade da Nigéria e fora vendido para a Bahia no final da década de 1810. Serviu no Engenho Trindade, que pertencia aos Sodré, uma família tradicional de senhores de engenho. Em 1836 conseguiu sua alforria, provavelmente dada em testamento pelo senhor, falecido no ano anterior. Talvez tenha sido depois de liberto que ele se estabeleceu em Salvador, onde se casou com uma africana, que morreu em 1850. Casou-se de novo, em 1871, com outra africana, depois de ter com ela vivido pelo menso dez anos.
Ao ser preso em 1862, papai Domingos, como era conhecido, foi considerado pela polícia o maior dos adivinhos e curandeiros que atuavam em Salvador. Isso sugere que ele seria um babalaô ou sacerdote de Ifá, o sofisticado sistema de adivinhação dos iorubás. Algumas das coisas confiscadas na casa de Domingos indicava que o praticava, como uma enfiada de objetos que lembra o opelê, a corrente divinatória do Ifá. Nada sugeria que fosse chefe de terreiro, alguém que tivesse sob sua liderança um grupo de iniciados que se reuniam periódicamente para reverenciar deuses africanos. Sua prática era doméstica e individual.
A procura pelos serviços de Domingos não se restringia aos pretos africanos e brasileiros. A imprensa noticiou que ele tinha clientes também entre a gente branca de posses. Nada foi dito sobre o tipo de serviço ritual que desempenhava para os brancos, mas, considerando o que se fazia noutros endereços africanos de Salvador, homens e mulheres o procuravam para tratar de males do corpo e da alma, curar-se de alguma doença ou de algum feitiço, fazer, refazer ou desfazer relações amorosas e promover o sucesso nos negócios.
Sobre seus clientes escravos, os documentos dão mais detalhes. Eles procuravam Domingos para que ele cuidasse de "amansar" seus senhores. Os escravos lançavam mão de beberragens, feitas com ervas as mais diversas, que debilitavam os senhores a ponto de perderem o controle sobre seus movimentos e pensamentos. Assim, eram facilmente manipulados por seus escravos, que podiam melhor dispor de seu tempo em festas e pequenas fugas, ou subtrair dinheiro e bens senhoriais sem que fossem descobertos e muito menos punidos.
Uma vez amansados, os senhores ainda podiam conceder a alforria sob condições mais favoráveis para os escravos, fosse um valor mais baixo ou mesmo gratuitamente. É possivel que Domingos usasse suas habilidades na manipulação de ervas e de forças espirituais em combinação com sua atividade na junta de alforria. Deste modo, os objetos e o dinheiro tirados dos senhores por seus escravos terminavam indo abastecer o caixa da junta chefiada pelo curandeiro africano.
Domingos Sodré não professava apenas a religião trazida do lado de lá do Atlântico. Ele era membro da irmandade católica do Rosário dos Homens Pretos da Rua de João Pereira. E quando a polícia invadiu sua casa, ali descobriu uma coleção de quadros de santos que forravam as paredes da sala, além de um oratório com bem aparelhadas imagens católicas. Há ainda mais indícios de que ele aderiu ao Catolicismo. Ao escrever seu testamento, o liberto lembrou-se de que tinha sido batizado na capela do Engenho Trindade e ao longo de sua vida havia comparecido à pia batismal como padrinho de mais de uma dezena de afilhados.
Figura bastante complexa esse Domingos: adivinho, curandeiro, devoto de orixá e de Nossa Senhora do Rosário, senhor de escravos, amansador de senhor de escravos e chefe de junta de alforria.
Autor: João José Reis
Fonte: Revista de História da Bibliteca Nacional, ano 5, nº 56, Maio de 2010, pg 26-27.

Celtas - da Idade do Bronze aos nossos dias

(...)Aqueles que acreditam nos Celtas antigos têm como certa a sua sobrevivência até à Idade Moderna ou, se têm uma inclinação romântica ou nacionalista, explicam-na como uma luta heróica contra todas as expectativas. Mas, quando se pensa em tal, o facto de ainda haver na era romântica pessoas que se podiam redescobrir como Celtas (ou reinventar, se for céptico), é realmente fantástico. Afinal, onde estão os outros povos da Europa da Idade do Ferro? Desapareceram todos, Etruscos, Iberos, Ilírios, Trácios, Dácios, mesmo os Romanos. Em vez de olhar para a história celta como um longo declínio de dois milénios, deve ver-se nela uma história real de sobrevivência. (...) Apenas os Celtas, Gregos e Germanos ainda existem. (...) A definição mais consistente e mais largamente aceite baseia-se na língua, que é o único traço seguro de continuidade, ligando os Celtas antigos aos seus descendentes modernos: os Celtas são povos que falam línguas celtas.
Nos tempos antigos, estes povos incluíam Gauleses, Belgas, Celtiberos, Lusitanos e Gálatas, e Bretões e Irlandeses antigos.
(...) Os primeiros estados celtas baseavam-se na tribo e nos grupos de parentesco, em vez de no controlo de um território em particular.(...)
A imagem popular da religião pagã dos Celtas, fomentada pelos neo-druidas e vários grupos pagãos dos Tempos Modernos, é uma imagem simples e um pouco estranha, de um modo de culto. Esta visão vem de uma grande confiança depositada no testemunho de César e de outros escritores clássicos, que desejavam retratar os Celtas como bárbaros irracionais e supersticiosos. Os Celtas tinham algumas práticas religiosas características, especialmente o seu culto da cabeça cortada, sendo pouco usual haver uma classe de padres profissionais, conhecida como os druidas, na Europa antiga. Contudo, em muitos aspectos, as crenças religiosas e as práticas dos Celtas eram semelhantes às dos Romanos, Gregos Germanos contemporâneos. Eram todos politeístas, todos acreditavam na eficácia do sacrifício e da adivinhação, feitiços mágicos e bruxaria. Todos veneravam aspectos significantes da paisagem, como fontes e rios, tinham um medo mortal de fantasmas e acreditavam que não existia uma clara fronteira entre o natural e o sobrenatural. Tirando o sacrifício humano e o culto da cabeça cortada, não existia nada na religião celta que não fosse compatível com as crenças dos Romanos. (...)
O Deus mais importante, sem nome, dos Celtiberos, foi identificado como Júpiter, por exemplo, a Deusa Ataecina do submundo com Prosérpina e o Deus nativo da guerra Tarbucelis com Marte. As imagens religiosas romanizaram-se, mas muitas vezes eram pobres disfarces de Deuses nativos. As imagens de Vénus e Diana eram provavelmente de Deusas Mães nativas. A adoração a vários espíritos da natureza, como a fémea Xanas das Astúrias, que eram usualmente retratados numa versão romanizada como Ninfas e Faunos, continuou por séculos e sobreviveu no folclore local até aos nossos dias. Todos os templos e altares, fossem de Divindades nativas ou romanas, foram construídos nos estilos clássicos. As crenças religiosas foram menos romanizadas na Galiza. Na maior parte da Espanha imperial, as Divindades romanas ultrapassaram em número as Divindades nativas. No Noroeste, contudo, os números eram praticamente iguais. (...) Os cultos celtas entraram em declínio à medida que o Cristianismo foi crescendo, no século IV, e a mais recente inscrição conhecida que menciona um Deus celta, foi feita em Santander em 399, sendo dedicada a um desconhecido Erudinus. (...) Os símbolos celtas, como os discos solares, eram usados nas estelas funerárias (lajes em pedra na vertical, com gravuras ou inscrições) e os estilos decorativos pré-romanos ressurgiram no final da época dos Romanos, mostrando um consciente revivalismo da identificação com o passado celta. Os torques ainda eram feitos no período imperial [e conhecidos e oferecidos no tempo do Condado Portucalense - nota do blogueiro] e o tipo de dardo celtibero continuou a ser usado mesmo no século XIII.
(...) A língua hispano-celta estava certamente ainda em uso normal no século I d.C. e., como o Português moderno e o Galego contêm muitas palavras de formação celta, deve ter sobrevivido até ao fim dos tempos romanos, quando o Latim começou a despontar como precursor das modernas línguas românicas. Está claro que não foi a conquista romana que matou a Espanha celta mas o Cristianismo e as subsequentes invasões germânicas e árabes. (...)
Os reis também adoptaram o princípio teocrático da ordenação divina, comum a outras monarquias europeias, para que não mais fosse necessário o rei ser, ou pretender ser, do mesmo parentesco que os seus súbditos. [na Irlanda do século X, por influência cristã e anglo-normanda] (...)
No início do século XIX, o Renascimento metodista tinha absorvido muita da energia que levara ao Renascimento galês, pelo que a renovação cultural não se tornou um nacionalismo político. Embora o declínio da língua galesa tenha sido apenas temporariamente travado, o renascimento celta deu aos Galeses uma nova confiança na sua identidade e a sua assimilação pelos Ingleses já não parecia tão inevitável. (...)
O rápido aumento de pessoas que falavam Inglês no século XIX no País de Gales começou a ser visto como uma ameaça à língua, à cultura e à identidade galesas. Isto inspirou o mais fasto autoconsciente elemento da diáspora celta - tentativas para fundar colónias de pessoas que falassem Galês no estrangeiro, onde esta cultura pudesse ser preservada das influências anglicanas.
Autor: John Haywood "Os Celtas (da Idade do Bronze aos Nossos Dias)", citado pelo Gladius

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Remédios de comadres

Este é o segundo de uma série de cinco artigos que foram publicados em Maio pela Revista da Biblioteca Nacional, nº 56 do ano 5. Enfim, textos realmente relevantes no ponto de vista acadêmico, sem preconceito, sem paranóias, sem histerias.
A medicina e a feitiçaria já estiveram muito mais próximas do que se pode imaginar. Durante o Brasil Colônia até o século XIX, a produção de remédios com o uso de animais associados ao universo mágico, como o morcego e o cão negro, não era exclusivamente de curandeiros. Médicos e boticários também receitavam substâncias cujo significado difere muito do que hoje entendemos por ciência, utilizando até mesmo cadáveres humanos em suas fórmulas.
Naquela época, a quantidade de médicos no país era mínima, mas não faltavam representantes das muitas variadas ocupações para aplicar todo tipo de feitiços, como barbeiros, sangradores e mezinheiros. Esses terapeutas populares tratavam de doenças e de problemas cirúrgicos com ervas medicinais, amuletos e práticas como o catimbó e o calundu, designação genérica de um ritual associado a danças e cantos coletivos, em que ocorriam a invocação de espíritos, adivinhações e curas mágicas, de orgiem africana, com elementos do catolicismo.
Os físicos e cirurgiões não tinham uma posição de relevo na sociedade. Este cenário só mudou a partir da metade do século XVIII, quando, já formados em universidades européias e membros de academias literárias e científicas, eles passaram a ocupar uma posição mais privilegiada.
Com o prestígio muito abaixo do que têm hoje, doutores, cirugiões e boticários diplomados não reconheciam a proximidade de sua profissão com a feitiçaria. Pelo contrário, esforçavam-se para estabelecer a diferença entre os dois domínios, reivindicando ao governo a restrição e a regulamentação do ofício dos curandeiros. Para isso, contavam com o apoio da Igreja e das Ordenações do Reino. A Igreja Católica estabelecia a fronteira cultural entre o universo demoníaco e a cura médica associada aos saberes universitários. A medicina procurava desvalorizar o conhecimento terapêutico popular, distinguindo os procedimentos "científicos" das crenças consideradas "supersticiosas".
Gradualmente, a medicina oficial foi ganhando força. Algumas medidas foram decisivas para que isso acontecesse. Desde 1826, D Pedro I já havia concedido o monopólio dos diplomas em cirurgia às escolas médico-cirúrgicas do Rio e da Bahia. Em 1828 foi extinta a Fisicultura-Mor, órgão do governo responsável pela fiscalização sanitária e pela regulamentação das artes terapêuticas. Sangradores e curandeiros foram definitivamente postos na ilegalidade. Em 1832, as duas escolas médico-cirúrgicas, que datavam de 1808, tornaram-se Faculdades de Medicina. Finalmente, em 1850, foi criada a Junta Central de Higiene Pública, logo após a primeira epidemia de febre amarela. Mas boa parte dessas medidas era "para inglês ver", e existiam de sobra vendedores ambulantes de remédios secretos na corte ou nas províncias.
A população ainda não associava competência terapêutica aos diplomas oficiais. As autoridades, por sua vez, faziam vista grossa aos anúncios que ofereciam curas imediatas para os mais diversos males.
Em um artigo publicado no periódico Archivo Médico Brasileiro, em 1848, seu autor atestava que, na Corte, a cura da bebedeira era monopólio dos curandeiros.
O uso dos remédios prescritos por médicos ou por curandeiros indicava a que camada da sociedade o cliente pertencia. O acesso aos produtos das farmácias, boticas e drogarias, muitos deles importados, era quase sempre uma prerrogativa dos brancos ricos. A imensa população de pobres e escravos contava com remédios caseiros, fórmulas feitas com ervas medicinais e outros produtos recomendados ou administrados por curandeiros, sangradores e barbeiros. As receitas utilizadas por esses profissionais era desprezadas pelos "civilizados", por serem consideradas indignas de gente fina ou delicada.
A repressão aos curandeiros, antes tolerados, recrudesceu a partir da década de 1870, quando o poder público ampliou o cerco às práticas e concepções populares de cura nos principais centros urbanos. A lei passou a ser aplicada com mais rigor, principalmente na capuital do Império. O Código Penal de 1890, da nascente República, embora garantisse a liberdade de consciência e culto, sancionava a perseguição aos terapeutas populares, criminalizando as práticas do espiritismo, da magia, do uso de talismãs e das cartomancias quando empregadas para a cura de moléstias. O exercício do ofício de curandeiro também era formalmente proibido e estava sujeito a penas de prisão e multa.
As associações médicas de grande prstígio, como a Academia Nacional de Medicina e a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, influíram na elaboração desses dispositivos legais. Elas reivindicavam o monopólio da assitência médica para os doutores diplomados e associaram as práticas terapêuticas populares à fraude e ao charlatanismo.
Autor: Flavio Coelho Edler.
Fonte: Revista de História da Bibliotca Nacional, ano 5, nº 56, Maio de 2010, pg 21-23.