sábado, 31 de dezembro de 2011

Arqueólogos descobrem templo pagão

Foi no ano passado identificado um sítio arqueológico em Ranheim, a dez quilómetros de Trondheim, Noruega, descoberto por acaso durante as obras de construção de uma moradia.
Mais recentemente, chegou-se à conclusão de que de um santuário pagão se trata - um santuário pagão propositadamente escondido pelos seus frequentadores.
O santuário pagão sobreviveu porque as últimas pessoas que o usaram há mais de 1000 anos atrás fizeram o máximo para esconder todo o sistema com uma camada espessa de solo. Tão espessa que nunca aí se tinha arado o solo com profundidade suficiente para destruir o santuário. A descoberta é única no contexto da Noruega, o primeiro alguma vez feito em tais latitudes, diz Preben Rønne no Museu da Ciência / Universidade de Trondheim, que liderou as escavações.
O santuário pode ter sido construído por volta de ou após o ano 400 dC e, portanto, sido utilizado por centenas de anos até que o povo emigrou para evitar a camisa de força do Cristianismo. Consistia numa pedra como "altar sacrificial"; encontraram-se também vestígios de um edifício que, provavelmente, teria abrigado ídolos em forma de bastões com rostos esculpidos de Thor, Odin, Frey e Freya. Também parentes falecidos de alto escalão foram retratados dessa maneira e cultuados. Os arqueólogos terão também descoberto uma rota de procissão.
Graças ao solo, o templo dos Deuses foi muito bem conservado. O "altar" onde se adoravam os Deuses e haveria sangue animal, consistia num cenário formado por uma pedra circular cerca de quinze metros de diâmetro e três metros de altura. A edificação a poucos metros era rectangular, 5,3 x 4,5 metros no térreo e construído com doze pilares, cada qual com uma base pesada de pedra. Pode ter sido alta e é bastante claro a partir dos achados que não foi utilizada como habitação, entre outras coisas porque não tinha lareira. Dentro da casa encontraram vestígios de quatro pilares que podem ser vestígios de uma cadeira alta, onde se situavam os ídolos em pé entre as cerimónias. A estrada de procissão a oeste do templo ia directamente para o polo e foi marcada com duas linhas paralelas de grandes pedras, tendo a mais longa sequência pelo menos vinte e cinco metros de comprimento.
Quando no ano passado os arqueólogos começaram a trabalhar na escavação foi pensado no início que se tratava de um túmulo plano com a sepultura de um senhor e uma ou mais sepulturas secundárias.
«Mas conforme escavávamos tornava-se a pilha mais e mais estranha», diz Ronne. «Por volta da metade da escavação, tivemos que admitir que não era um túmulo, mas um altar sacrificial, nas fontes Norse chamado de Horgen. Era composto de rochas, cúpula redonda e pedras. Durante as obras, encontrámos duas contas de vidro, também alguns ossos queimados e vestígios de uma caixa de madeira que tinha sido preenchido com o marrom avermelhado areia /cascalho e pedra quebrada fervida. Entre os ossos que encontrámos, encontram-se parte de um crânio e vários dentes humanos. No entanto, não encontrámos "ouro velhos", pequenas figuras humanas de ouro fino, que eram muitas vezes usado em conexão com sacrifícios.»
A datação mais recente do templo-panteão é de entre 895 dC e 990 dC. Precisamente neste período, o Cristianismo foi introduzido na Noruega por métodos de mão pesada. Isto significou que muitos deixaram o país para manterem a sua fé nos Deuses original. «Provavelmente as pessoas que usavam o templo estavam entre aquelas que optaram por emigrar, quer para a Islândia quer para outras ilhas do Atlântico Norte», disse Ronne. «(...) O altar todo foi cuidadosamente coberto com terra e argila, exactamente na transição para a era cristã. (...)»
Grandes instalações pré-cristãs de culto na Escandinávia, muitas vezes grandes assentamentos com um grande salão central, muitas vezes com um pequeno prédio anexo, não tinham sido encontradas ainda na Noruega, mas sim no centro e no sul da Suécia (Skåne) e também no leste da Dinamarca.
«Junto ao altar do sacrifício, encontrámos uma fogueira que realmente estava directamente sobre a camada arável pré-histórica. (...) Este túmulo é datado de 500-400 aC. Assim, em tempos teria sido considerado sagrado ou pelo menos tinha um estatuto especial muito antes do altar de pedra ser construído. Na camada arável pré-histórica no poço do fogo, podemos ver claramente os traços do arado», disse Ronne.
Segundo Ronne o achado foi fácil de identificar como santuário de Deuses (gudehov) a partir de fontes nórdicas. Por isso, foi também da região de Trøndelag o maior êxodo de pessoas que queriam manter a sua liberdade, a de não serem cristãs. Uma grande parte delas partiu entre AD 870 e 930 para a Islândia, ou seja, no tempo do rei Harald o Loiro. Ao todo, quarenta pessoas de Trøndelag são especificamente mencionados nas fontes nórdicas. Na Islândia, os seus descendentes escreveram mais tarde grande parte destas fontes.
«As evidências sugerem que as pessoas que deliberadamente cobriram o templo dos ídolos em Ranheim levaram os assentos (? - tradução incerta), bem como o solo do altar, para o lugar em que se estabeleceram e fizeram o seu novo santuário. Porque os nossos resultados e as fontes nórdicas se encaixam tão bem, as fontes podem ser mais confiável do que muitos cientistas acreditavam», disse Ronne.
Agora o santuário de Ranheim corre o risco de ser removido para sempre à medida que se abre caminho para a construção de nova habitação. Mas nem todos concordam: «A instalação seria uma grande atracção turística, se incluisse, simultaneamente, o ser-se informado sobre o que aconteceu no local. Ele é único na Noruega», diz o engenheiro civil Arvid Ystad, explicando como a iniciativa privada se aproxima do Património Cultural. «A localização das habitações pode ser facilmente adaptada a este património cultural único, tudo sem perder um só espaço de habitação. Poderia ter sido um atractivo para novos moradores e dizer-lhes muito sobre a história do lugar há mais de mil anos atrás. Infelizmente a construção de moradias está em andamento», diz Ronne.
Notícia traduzida e divulgada pelo Caturo no Gladius.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Xamans dão alento à presidenta argentina

LIMA, Peru, 29 dez 2011 (AFP) -Doze xamãs peruanos previram nesta quinta-feira, num ritual místico, que a cirurgia a que a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, será submetida, para extirpar um câncer, será coroada de êxito e sua saúde será favorável em 2012.
"Ela estará protegida pela alma do marido (o falecido ex-presidente argentino Néster Kirchner), porque espiritualmente vai apelar para ele", disse à AFP Juan Osco, mais conhecido como o 'xamã dos Andes'.
"Vimos que o câncer não vai se complicar e que sua saúde vai se restabelecer em 2012", disse Osco, ouvido no cume do cerro San Cristóbal, de Lima, lugar onde os bruxos e curandeiros realizaram um ritual.
Os xamãs usaram folhas de coca, naipes do baralho, flores e caveiras para fazerem suas previsões de que a presidente se sairá bem.
Cristina Kirchner sofre de câncer na glândula tireoide e será operada na próxima quarta-feira, numa clínica particular de Buenos Aires.
Fonte: G1 Mundo
Nota da casa: Grande alívio. Ao menos nenhum xaman saiu em público afirmando ser um milagre para chamar mais clientes, como fazem os cristãos, esquecendo de todo o trabalho clínico e médico.

Na Terra do Indigo

Joãozinho, você conseguiu sobreviver da primeira vez e, ousado, ainda retorna ao seu novo lar, ao seu pai e mãe espirituais.
Confiante, usa seu próprio veículo e sua memória para chegar na Terra do Indigo. Alguns pequenos erros, mas você conseguiu chegar até lá.
Alegre, você ainda anuncia sua chegada e vitória buzinando. Sadações, saudações. Salve Exu, guardião de seu novo lar.
Algo mudou, Joãozinho e começou por você. Exibe, orgulhoso, as marcas do seu tratamento cirúrgico e conta sua saga. Mas a melhor mudança se mostrará no seu temperamento. Silêncio, Joãozinho, que isto interessa apenas para a família.
Um pequeno passeio, almoço, conversas, descobertas.
Mais tarde, um pouco do maná indigo, afinal, sua cabeça dura precisa de um auxiliador e o espírito da Terra do Indigo lhe oferece seu maná.
Tudo parece ficar dançando, contrastes são mais detalhados, cores ficam mais vívidas, os movimentos parecem ser mais lentos, expressões faciais ganham uma rica textura. Sua boca tem gosto de cigarro, seus ouvidos zunem, suas pernas bambeiam, seus dedos formigam. E isto ainda acordado, Joãozinho.
Na hora de dormir, um belo festival kaleidoscópio, figuras em cores brilhantes, como se fossem moldadas em neon, vão aparecendo e se multiplicam. Arte psicodélica. Por duas vezes você vê como um fusível entrando em curto e você estremece.
No escuro da noite você delibera consigo mesmo, Joãozinho, como na primeira vez. Antes, você resolveu suas manias em relação aos outros. Agora você resolveu suas manias em relação e você mesmo. Quem sabe na próxima, se você sobreviver mais uma vez, consiga resolver suas manias em relação ao mundo espiritual.
Dia seguinte, a cabeça dói, o gosto de cigarro continua na boca. Café e aspirina. Você se serve do último pedaço de omelete.
Chega as compras, alegria! Você vai poder ajudar, enfim, Joãozinho. Pena que houve um chamado e você não vai poder ficar para a cerimônia de fim de ano, mas ajudou a guardar o porquinho.
Adeus pai, adeus mãe. Joãozinho volta para a cidade fria, insensível e morta.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Gruss vom Krampus!


imagem: missmonster

Se você ainda não ouviu falar no Krampus, não se preocupe, poucas pessoas o conhecem. Mas quem o conhece, não esquece. O Krampus [grafia alemã] é um ser mítico, fantástico — definitivamente um ser do Mal – muito conhecido das populações das aldeias e cidadezinhas dos Alpes. Ele também habita a imaginação européia através do folclore na Áustria, Alemanha, Alsácia, Suíça, Eslovênia, e demais áreas das montanhas alpinas. Faz parte da cultura local desde tempos imemoriais. Apesar de muito antigo e limitado geograficamente aos Alpes, sua influência afeta alguns costumes natalinos de outras terras, até hoje.
De acordo com as lendas, Krampus começa as festividades do Natal na noite do dia 5 de dezembro. Ele é um companheiro de São Nicolau, ou como dizemos por aqui, de Papai Noel. Ele é o contraponto ao Papai Noel, e ao invés de dar presentes às criancinhas das aldeias, Krampus invade as casas das pessoas e retira delas as crianças que foram más, que mentiram, que fizeram pirraça… E ele as leva. Nada de presentes para crianças más…
Krampus não é nada mais nada menos do que a inserção nas festividades natalinas de um demônio bastante conhecido nessas regiões e já temido por todos, que foi incorporado pelo cristianismo. Ele aparece lado a lado com o mais bondoso dos santos, aquele que distribui presentes às crianças. Assim, ajuda a equilibrar as forças do bem e do mal, servindo como um freio social, como um lembrete de que as crianças precisam ser boazinhas e comportadas para ganharem presentes de Natal: presentes não vêm automaticamente . Foi uma maneira inteligente de manter em cheque as crenças pagãs que teimavam em ressucitar. Já no século IV da nossa era, o Papa Gregório, havia aconselhado Santo Agostinho a permitir que esse personagem pagão fosse incorporado às festividades desde que fosse rebatizado. Krampus é o novo nome dessa entidade: Percht ou Perchta. Bartl, Ruprecht, Knecht Ruprecht, são alguns dos muitos outros nomes de Krampus.
Perchta era uma deusa pagã da região alpina, que aparece em duas formas: ou sedutora belíssima, branca como a neve, ou como um demônio em trapos. A ela cabia a vigilância dos animais no início do inverno e a visita às casas para se certificar de que a fiação da lã estava sendo feita corretamente. Seu dia festivo era o dia 6 de janeiro e sua festa foi incorporad às festas da Epifania no calendário cristão.
Até hoje, tradicionalmente, jovens rapazes das regiões Alpinas se vestem como Krampus – principalmente na cidade que é centro de comércio na Bavária, chamada Berchtesgaden, e desfilam acompanhando São Nicolau, durante as primeiras duas semanas de dezembro.
Até 1969, quando a Igreja Católica Apostólica Romana retirou do seu calendário oficial a Festa de São Nicolau, celebrada no dia 6 de dezembro, grande ênfase dessa procissão e das travessuras feitas pelos rapazes vestidos de Krampus, era dada à noite do dia 5 de dezembro, véspera do dia da festa em que trocava-se presentes na região.
Os rapazes reproduziam o que todos sabiam que Krampus fazia: andavam sem objetivo nas ruas, alarmando as crianças, colocando medo naquelas que haviam se comportado mal e arrastavam pesadas correntes de ferro aumentando a algazarra. A imagem de Krampus é aquele ser com uma longa língua vermelha, coberto de pelos, carrega correntes e tem na mão um freixo de galhos de madeira com o qual ameaça as crianças que se comportam mal ou que não sabem suas lições.
Na Áustria, Krampus pode mais comumente ter chifres e cascos de cabra no lugar dos pés. Sua aparência é a de um diabo, como é representado mais comumente. Foi só no final do século XIX, por volta de 1890 que sua imagem começou a aparecer nos cartões de Natal acompanhando São Nicolau. Aparecia frequentemente com os dizeres “Gruss vom Krampus” [Saudações de Krampus] ou com a frase “Brav Sein!” [Comporte-se!].
No final do século XIX a popularidade de Krampus era grande e passou a fazer suas aparições também ao norte da Alemanha.
Krampus estava sempre pronto a punir as crianças que não se comportavam.  E evidentemente colocava-as em fila e as levava para algum lugar.
As visitas que Krampus fazia às casas das pessoas para verificar quem era bom e quem não era, não só fizeram algum sucesso nas artes gráficas como também, devidamente digeridas, sanitarizadas e embelezadas vieram a fazer parte do panorama cultural dos Estados Unidos, terra que acolheu imigrantes de todo o mundo cada qual com suas tradições e hábitos culturais.  O resultado são referências a tradições de outros lugares do mundo, no dia a dia americano.
Krampus é hoje em dia um dos personagens que gera festas, eventos, e todo tipo de manifestação cultural na Áustria, na Bavária, na região alpina.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Deus segundo Spinoza

Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.
O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?
Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria!
Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.
Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações?
Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti.
Postado por Francisco Hurtz no Facebook.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Uma vez ao ano

Chega dezembro e as pessoas ficam agitadas, trânsito insuportável, lojas cheias, filas e uma inexplicável romaria em busca de presentes. Todo esse estresse tem um motivo por detrás do consumismo e do oportunismo comercial. Chame de Natal, de Yule, de Solstício de Inverno, Chanuka, Saturnália, Die de Solis Invictus. O que as pessoas tanto buscam nas lojas é uma forma de expressar amor, carinho, felicidade, alegria, esperança, algo raro neste mundo onde se valoriza a agressividade, o ódio, a violência, o individualismo, a intolerância.
Por um dia, as pessoas perdoam ou pedem perdão; procuram ajudar quem precisa ou pedem caridade; lembram dos familiares, tanto os vivos como os que se foram; procuram os amigos e os inimigos; procuram paz e confraternização.
Crentes e descrentes comemoram algo há muito tempo esquecido, proibido, reprimido: Amor. Como cantaram o quarteto de Liverpool: "Tudo o que você precisa é Amor".
Nós comemoramos a volta do Sol, a chegada do Verão e, com isso, a fartura da horta e do rebanho. Mas sem Amor o Sol não voltaria, não haveria Verão, as plantas secariam, o rebanho minguaria.
Os Cristãos comemoram o nascimento de Cristo e, com isso, a redenção e o perdão. Mas sem Amor, a Virgem não conceberia, os Apóstolos não apareceriam, a Paixão não ocorreria.
Queremos amar e ser amados, mas ainda ecoa o discurso cheio de ódio, por questões religiosas, contra outra pessoa, simplesmente por que ele ou ela tem uma religião diferente, por que tem uma identidade de gênero diferente, por que tem uma preferência sexual diferente, por que tem uma opinião diferente. Queremos amar e sermos amados, mas ainda tratamos a pessoa amada como objeto, como posse, algo desprovido de liberdade, de humanidade. Queremos amar e sermos amados, mas ainda permitimos que grupos e instituições tenham influência, autoridade e poder sobre o nosso corpo, sobre o nosso desejo, sobre o nosso prazer e deixamos que ditem a forma como devemos amar e nos relacionar.
Nossas vidas no aspecto do amor e do relacinamento se tornou medíocre, cheia de tabus e proibições. Nos tornamos indigentes, não apenas de cultura, mas de amor.
Assim como as campanhas de caridade que ocorrem em dezembro, nós tentamos repor ou compensar em um dia, uma data, um evento, nossa total incompetência em perdoar, em amar, em manifestar a paz, a tolerância, e a fraternidade. Tal como essas ações populistas e assistencialistas, nos iludimos ao crer que ações tópicas e isoladas irão alterar um problema que é conjuntural.
De certa forma, sabemos disso, por isso que exprimimos nosso carinho e amor, um dia ao ano, aos que realmente importam, com presentes, objetos inanimados, geralmente inúteis, que vão ser trocados ou vão quebrar até o carnaval. Dar e receber amor, ao longo do ano inteiro, a todas as pessoas, seria muito perigoso, ilegal, imoral.
Mas é Natal, Solstício de Verão, Yule/Litha, Saturnália. Sol e Cristo estão trazendo consigo a esperança, estão nos dando mais um ano para que reacendamos a fagulha divina que está em nós, para que todo homem e toda mulher seja uma estrela, para que, enfim, o Amor seja toda a Lei.
Feliz Natal. Feliz Solstício de Verão.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Árvore de natal: tradição pagã

MONTEVIDÉU, 22 dez 2011 (AFP) -A tradição de celebrar o Natal ao redor de uma árvore carregada de enfeites e luzes multicoloridas é um costume de vários séculos entre os povos cristãos, mas sua origem não é em absoluto cristã: surgiu entre povos pagãos escandinavos e germânicos que, posteriormente, se converteram na Idade Média.
Mas o hábito de usar uma árvore de folhas duradouras como símbolo da fertilidade e vida eterna é muito anterior a estes povos, que o adotaram após a chegada na Europa de antiqüíssimos costumes orientais.
De qualquer forma, foram primeiro os germânicos e depois os escandinavos que criaram a tradição de celebrar o Ano Novo colocando uma árvore na porta de casa ou dentro dela, com a finalidade de afastar os demônios durante todo o ano.
A árvore de Natal tal como a conhecemos hoje é bastante posterior a estes antecedentes. Provém de uma tradição medieval da Alemanha cristã, que consistia em colocar em casa, no dia 24 de dezembro, uma árvore na qual se penduravam maçãs para remeter à árvore do paraíso, da qual Eva tirou o fruto proibido para oferecê-lo a Adão.
Este hábito de recordar o pecado original no Natal foi evoluindo ao longo das gerações até que, em determinado momento, surgiu o costume de pendurar nos galhos da árvore ao invés de frutas, biscoitos ou doces em formas diversas, representando a hóstia, símbolo cristão de redenção, e freqüentemente na noite de Natal eram penduradas velas acesas.
Até o século XVI, este antigo costume se fundiu com outra tradição secular dos camponeses alemães: o de manter em casa, durante os dias de Natal, uma pirâmide de madeira com estantes onde eram colocadas folhas duradouras, velas e, no topo, uma estrela.
No século XVIII, entre os luteranos alemães a árvore adotou a forma e os enfeites da pirâmide, mas foi só no século XIX que a árvore de Natal passou a ser considerada uma tradição já antiga e arraigada.
No entanto, quando isto ocorreu, o antigo costume já havia chegado aos Estados Unidos, levado por colonos alemães, antes mesmo de se espalhar pelo resto da Europa, numa época de grandes migrações estimuladas pela vigorosa expansão do capitalismo americano.
Finalmente, no início do século XX, missionários cristãos europeus levaram a tradição da árvore de Natal para a China, pondo fim a uma viagem milenar.
Fonte: G1 Mundo

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Carta a Menescau

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la.
Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.
Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.
Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles.
Acostuma-se à idéia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.
Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no momento, a maioria das pessoas a foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.
O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal.
Assim, como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.
Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades.
Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem.
Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.
Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.
Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. de fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.
É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.
Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.
Consideramos ainda a auto-suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.
Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita.
Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não é só conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temos as vicissitudes da sorte.
Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam as pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ele é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas.
Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremos ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor?
Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas; o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses através das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável.
Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau.
Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais.
Epicuro [Blocos Online]

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Espiritualidade e Religião

Espiritualidade e religião se complementam; mas, não se confundem. A espiritualidade existe desde que o ser humano irrompeu na natureza, há mais de 200 mil anos. As religiões são recentes, não ultrapassam 8 mil anos de existência.
A religião é a institucionalização da espiritualidade, assim como a família é do amor. Há relações amorosas sem constituir família. Do mesmo modo, há quem cultive sua espiritualidade sem se identificar com uma religião. Há inclusive espiritualidade institucionalizada sem ser religião, como é o caso do budismo, uma filosofia de vida.
As religiões, em princípio, deveriam ser fontes e expressões de espiritualidades. Nem sempre isso ocorre. Em geral, a religião se apresenta como um catálogo de regras, crenças e proibições, enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o "toque" divino.
A religião é uma instituição; a espiritualidade, uma vivência. Na religião há disputa de poder, hierarquia, excomunhões e acusações de heresia. Na espiritualidade predominam a disposição de serviço, a tolerância para com a crença (ou a descrença) alheia, a sabedoria de não transformar o diferente em divergente.
A religião culpabiliza; a espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade suscita perguntas. As religiões são causas de divisões e guerras; as espiritualidades, de aproximação e respeito.
Na religião se crê; na espiritualidade se vivencia. A religião nutre o ego, pois uma se considera melhor que a outra. A espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a vida e o bem.
A religião provoca devoção; a espiritualidade, meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na religião, Deus, por vezes, é apenas um conceito; na espiritualidade, uma experiência inefável.
Há fiéis que fazem de sua religião um fim e se dedicam de corpo e alma a ela. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da palavra (religar), é um meio para amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e alegria, serve para ser lançada ao fogo. É como flor de plástico, linda, mas sem vida.
Há que tomar cuidado para não jogar fora a criança com a água da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade, e precaver-se para não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma espiritualidade solipsista, indiferente às religiões.
Há que fazer das religiões fontes de espiritualidade, de prática do amor e da justiça, de compaixão e serviço. Jesus é o exemplo de quem rompe com a religião esclerosada de seu tempo, e vivencia e anuncia uma nova espiritualidade, alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dessa espiritualidade resultou o cristianismo.
Há teólogos que defendem que o cristianismo deveria ser um movimento de seguidores de Jesus, e não uma religião tão hierarquizada e cuja estrutura de poder suga parte considerável de sua energia espiritual.
O fiel que pratica todos os ritos de sua religião acata os mandamentos e paga o dízimo e, no entanto, é intolerante com quem não pensa ou crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É como uma família desprovida de amor.
O apóstolo Paulo descreve magistralmente o que é espiritualidade no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios. E Jesus a exemplifica na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37) e faz uma crítica mordaz à religião em Mateus 23.
A espiritualidade deveria ser a porta de entrada das religiões. Antes de pertencer a uma Igreja ou a uma determinada confissão religiosa, melhor propiciar ao interessado a experiência de Deus, que consiste em se abrir ao Mistério, aprender a orar e meditar, penetrar o sentido dos textos sagrados.
Autor: Frei Betto

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Acreditar é humano

por Marcelo Gleiser para Folha
O ser humano é um animal acreditador. Talvez esse seja um bom modo de definir nossa espécie. "Humanos são primatas com autoconsciência e a habilidade de acreditar." Já que " acreditar" sempre pede um "em quê?", refiro-me aqui a acreditar em poderes que transcendem a percepção do real, algo além da dimensão da vida ordinária, além do que podemos perceber apenas com nossos sentidos.
Eu me pergunto se a necessidade de acreditar em algo (não uso a palavra "fé", pois essa tem toda uma conotação religiosa) é consequência da consciência. Será que outras inteligências cósmicas também acreditam?
Parece que somos incapazes de viver nossas vidas sem acreditar na existência de algo maior do que nós, algo além do "meramente" humano. Bem, nem todos nós, mas a maioria. Isso desde muito tempo. Para os babilônios e egípcios, os céus eram mágicos, a morada dos deuses, ponte entre o humano e o divino. Interpretar os céus era interpretar mensagens dos deuses, muitas vezes dirigidas a nós mortais.
Essa divinização da natureza é muito mais antiga do que a civilização. Pinturas rupestres, os símbolos mais antigos da expressão humana, já demonstram a atração que nossos ancestrais nas cavernas tinham pelo desconhecido, sua reverência por poderes além de seu controle. As pinturas de animais representavam encantamentos, uma mágica gráfica criada com o objetivo de auxiliar os caçadores em sua empreitada, cujo sucesso garantia a sobrevivência do grupo.
Fico imaginando o poder que essas imagens -que dançavam à luz do fogo- exerciam sobre o grupo reunido na caverna, uma tentativa de recriar a realidade para ter algum controle sobre ela. A religião nasceu da combinação de reverência e necessidade. E assim continua, definindo como a maioria dos humanos vê o mundo.
Mesmo após termos desenvolvido meios para explorar fontes de energia da natureza, estamos ainda à mercê dos elementos. Muitos chamam enchentes, tornados, erupções vulcânicas ou terremotos de atos divinos, representando forças além do nosso controle.
A ciência, claro, atribui esses desastres a causas naturais, o que acarreta abandonar a crença de que a fé pode nos ajudar de alguma forma a controlá-los. Fica difícil, hoje em dia, rezar para o deus do vulcão ou para o deus da chuva.
Esse é um desafio para a ciência e para os seus educadores: a ciência pode explicar, às vezes prever e, até certo ponto, proteger-nos de desastres naturais. Porém, não pode competir com o poder da crença na imaginação humana, mesmo na completa ausência de evidência de que possa nos proteger contra desastres naturais.
O mundo estava cheio de deuses no início da história da nossa espécie e, para muitas pessoas, assim continua. A resposta, parece, não é tentar transformar a ciência numa espécie de deus, substituindo uma crença por outra, mas, ao contrário, mostrar que vidas podem ser vividas sem a crença em poderes divinos cuja intenção é nos manipular, seja para o bem ou para o mal.
Talvez a maior invenção da vida na Terra tenha sido essa espécie de primatas com a capacidade de imaginar realidades que a transcendem.
Marcelo Gleiser é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita".
Divulgado e citado no blog Paulopes
Nota da casa: Citado igualmente no blog do Carmadélio. Impressionante a capacidade [má-fé?] dos Católicos de quererem puxar a sardinha.

Passeata das vassouras

Bucareste, 12 dez (EFE) - Um grupo de 15 bruxas tentou entrar nesta segunda-feira no Parlamento romeno para 'amaldiçoar' um deputado que protocolou um projeto de lei que visa a proibição de práticas ocultistas com fins de lucro, informou a agência de notícias 'Mediafax'.
Munidas com cartas de tarô e recipientes com água amaldiçoada, as bruxas encontraram resistência da polícia em seu caminho rumo ao escritório do deputado Nicolae Paun, representante da minoria cigana no parlamento e iniciador do controvertido projeto.
'Se eu o molhar com esta água, ele ficará sem forças para o resto da vida', disse umas das feiticeiras ao se referir ao líquido que levava.
O projeto de lei criado por Paun prevê penas de prisão de 5 a 15 anos para as pessoas que realizarem práticas ocultistas com fins de lucro, como ler a sorte.
'As vítimas são exploradas psíquica e financeiramente', declarou Paun, que considera a popularidade da bruxaria entre a minoria cigana da Romênia um dos motivos de sua marginalização e atraso.
'Podemos descartar a lei se fizerem encantos para tirar a Romênia da crise', finalizou o deputado, em tom de ironia, sobre o protesto.
Fonte: G1 Mundo

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Arqueólogos encontram "casa de bruxa"

Arqueólogos britânicos encontraram um gato mumificado em uma casa do século 17 durante um projeto de construção em Lancashire, no norte da Inglaterra.
A casa foi descoberta perto de um reservatório no vilarejo de Barley. A construção tem uma sala fechada e, dentro de uma das paredes, foi encontrado o gato mumificado.
Os historiadores afirmam que a casa pode ter pertencido a uma mulher acusada de bruxaria que vivia na região no século 17 e acredita-se que o gato tenha sido emparedado vivo para proteger os moradores da casa de maus espíritos.
Uma companhia de fornecimento de água, a United Utilities, levou os arqueólogos para o local, um procedimento de rotina da companhia antes de fazer obras de escavação em áreas que podem ter importância arqueológica.
"É como descobrir sua pequena Pompeia. Raramente temos a oportunidade de trabalhar em algo tão bem preservado", disse Frank Giecco, arqueólogo que descobriu a casa. "Assim que começamos a cavar, encontramos o topo das portas e sabíamos que tínhamos em mãos algo especial", acrescentou.
A região de Lancashire teve muitos registros da presença de mulheres acusadas de bruxaria no século 17, principalmente na área de Pendle Hill, onde a casa foi encontrada. Na época, distritos inteiros em algumas partes de Lancashire relatavam ocorrências de bruxaria, contra homens e animais, gerando uma onda de acusações contra muitas pessoas.
Em 1612, 20 pessoas, entre elas 16 mulheres de várias idades, foram levadas a julgamento, a maioria delas acusada de bruxaria, em um episódio que ficou conhecido na região como o 'julgamento das bruxas de Pendle'.
Frank Giecco afirmou que a construção encontrada é um "microcosmo da ascensão e queda desta área, do tempo das 'bruxas de Pendle' até a era industrial. Há camadas de história bem na sua frente".
"Não é com frequência que você encontra uma casa de contos de fada completa, incluindo o gato da bruxa", disse Carl Sanders, gerente de projeto da companhia. "A construção está em ótimas condições, você pode andar por ela e ter um sentimento real de que está espiando o passado. Pendle Hill tem uma verdadeira aura, é difícil não ser afetado pelo lugar", afirmou Sanders. "Mesmo antes de descobrirmos a construção, havia muitas piadas entre os funcionários sobre vassouras e gatos pretos. A descoberta realmente nos surpreendeu", disse.
"Em termos de importância, é como descobrir a tumba do (faraó egípcio) Tutancâmon", disse Simon Entwistle, especialista nas bruxas de Pendle. "Daqui a alguns meses teremos os 400 anos dos julgamentos das bruxas de Pendle e aqui temos uma descoberta rara e incrível, bem no coração da região das bruxas."
"Gatos aparecem muito no folclore sobre bruxas. Quem quer que tenha dado este destino horrível a este gato, certamente estava buscando proteção de espíritos malignos", acrescentou.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Sete dias de dor

Eu morri. Pela terceira vez.
A primeira foi afogado em uma piscina.
A segunda foi quando eu fiz endoscopia.
A terceira foi quando eu fiz a cirurgia de osteotomia maxilar.
Na primeira vez a gente fica impressionado, não há quem não pense em como é morrer, mesmo os descrentes pensam nisso.
Os ateus tem uma vantagem prática, eles simplesmente aceitam o fato, sem especular com o além.
Como bom pagão a minha concepção é bem naturalista e como eu não deixo minha concepção interferir em outros aspectos da minha vida ou da de utrem, então não há mal algum em ter tal espectativa.
O que eu posso falar das três experiências de morte que tive é que eu acordei, como todos acordam no dia seguinte, mas sem sonhos, sem lembranças ou sensações do período em que eu estava "morto".
Existem Deuses e Deusas da morte, existem Paraísos pagãos e nós temos a certeza, não a crença, de que nossa existência há de continuar.
Para mim fica bem claro que a morte é um estado, uma circunstância, não uma realidade permanente ou uma entidade a ser temida.
Todos os dias nós comemos. Sejam coisas que foram plantadas, cujas sementes precisaram morrer para que viessem os frutos, sejam animais que foram criados, cujo sacrifício é necessário para suprir nossas necessidades alimentares. Tem gente que tem horror e prurido quanto a isso, mas tudo que vive mantém sua existência pela morte de outros seres.
Ateus céticos e agnósticos discordam. Recentemente eu li um texto afirmando que nós somos como computadores, rodando um programa e que a alma é uma ilusão produzida por este programa. Uma analogia extremamente pobre e longe da realidade.
O ser humano tem senciência, consciência e percepção de sua existência, sendo capaz de definir e transmitir culturalmente tais conceitos, algo que um computador (e o animal) não é capaz.
O ser humano é capaz de se modificar, se alterar, se melhorar, ampliando, inovando e revolucionando as idéias, concepções, ações, decisões, interpretações e habilidades, algo que o computador não é capaz.
Cada ser humano é único em sua personalidade, identidade, características e talentos. Um computador, por mais veloz e mais dados que carregue, será sempre igual a todos os demais e somente executará os programas e o sistema operacional que estão gravados em sua HD.
Mas aproveitando a analogia homem=computador, então nossa existência não é produto do acaso, mas sim o resultado "tecnológico" de diversos inventores. Nós temos um usuário ou propietário que cuida de nós, nos dirige e nos faz "back-up"; assim como o computador, o ser humano está interligado em uma enorme "rede". Em suma, mesmo depois que o "homem-computador" queimar/morrer, nosso "sistema operacional" e "back-up" estará preservado em algum dispositivo físico (CD, pendrive) ou virtual (servidor, rede). Ou seja, aquilo que morre é o corpo. Nossa identidade/personalidade/alma continuará a existir, bastando ser "baixada" ou "instalada" em outro "homem-computador" para voltar a funcionar.
Para mim está bem claro que, se há vida no além, continua sendo vida e a morte é simplesmente um estado, circunstância, restrita a um corpo/objeto. Nós continuamos a existir, do mesmo modo que acordamos no dia seguinte, do mesmo modo que recobramos a consciência depois de uma anestesia geral. Ainda que mude o ambiente, o local, o "hardware" e a nossa função, continuaremos sendo nós mesmos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cientistas desvendam profecia maia

Arqueólogos de diversos países se reuniram no Estado de Chiapas, uma área repleta de ruínas maias no sul do México, para discutir a teoria apocalíptica de que essa antiga civilização previra o fim do mundo em 2012.
A teoria, amplamente conhecida no país e contada aos visitantes tanto no México como na Guatemala, Belize e outras áreas onde os maias também se estabeleceram, teve sua origem no monumento nº 6 do sítio arqueológico de Tortuguero e em um ladrilho com hieróglifos localizado em Comalcalco, ambos centros cerimoniais em Tabasco, no sudeste do país.
O primeiro faz alusão a um evento místico que ocorreria no dia 21 de dezembro de 2012, durante o solstício do inverno, quando Bahlam Ajaw, um antigo governante do lugar, se encontra com Bolon Yokte', um dos deuses que, na mitologia maia, participaram do início da era atual.
Até então, as mensagens gravadas em "estelas" - monumentos líticos, feitos em um único bloco de pedra, contendo inscrições sobre a história e a mitologia maias - eram interpretadas como uma profecia maia sobre o fim do mundo.
Entretanto, segundo o Instituto Nacional de Antropologia e História (Inah), uma revisão das estelas pré-hispânicas indica que, na verdade, nessa data de dezembro do ano que vem os maias esperavam simplesmente o regresso de Bolon Yokté.
"(Os maias) nunca disseram que haveria uma grande tragédia ou o fim do mundo em 2012", disse à BBC o pesquisador Rodrigo Liendo, do Instituto de Pesquisas Antropológicas da Universidade Autônoma do México (Unam).
"Essa visão apocalíptica é algo que nos caracteriza, ocidentais. Não é uma filosofia dos maias."
Novas interpretações
Durante o encontro realizado em Palenque, que abriga uma das mais impressionantes ruínas maias de toda a região, o pesquisador Sven Gronemeyer, da Universidade australiana de Trobe, e sua colega Bárbara Macleod fizeram uma nova interpretação do 6º monumento de Tortuguero.
Para eles, os hieróglifos inscritos na estela se referem à culminação dos 13 baktunes, os ciclos com que os maias mediam o tempo. Cada um deles era composto por 400 anos.
"A medição do tempo dos maias era muito completa", explica Gronemeyer. "Eles faziam referência a eventos no futuro e no passado, e há datas que são projetadas para centenas, milhares de anos no futuro", afirma.
Para a jornalista Laura Castellanos, autora do livro "2012, Las Profecias del Fin del Mundo", o sucesso da teoria apocalíptica junto à cultura ocidental se deve a uma "onda milenarista" que, segundo ela, "antecipa catástrofes ou outros acontecimentos cada vez que se completam dez séculos".
Para Castellanos, esse tipo de efeméride é reforçada por uma 'crise ideológica, religiosa e social'.
Ela observa que as profecias sobre 2012 não têm somente uma 'vertente catastrófica', mas também uma linha que "prognostica o despertar da consciência e o renascimento de uma nova humanidade, mais equitativa".
Crença no final
A asséptica explicação científica e histórica vai de encontro à crença popular no México, um país onde há quem procure adquirir os conhecimentos necessários para sobreviver com seu próprio cultivo de alimentos em caso de uma catástrofe mundial.
Muitos dos que vivem fora procuram regressar ao país porque sentem que precisam estar em casa em 2012, e há empresas que oferecem espaço em bunkeres subterrâneos, com todas as comodidades.
Afinal, o possível fim do mundo também é negócio. O próprio governo mexicano lançou uma campanha para promover o turismo no sudeste do país, onde estão localizados os sítios arqueológicos maias.
Muitos governos dos Estados onde existem ruínas da antiga civilização maia já estão registrando aumento na chegada de turistas.
Fonte: G1 Mundo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dia de Salácia

Dia I de Dezembro é consagrado a SALÁCIA, Deusa ligada à água salgada e ao culto de NEPTUNO, sendo por vezes considerada como Sua esposa. SALÁCIA - Cuja etimologia indica um significado associado ao acto de saltar, pular, aludindo ao movimento das águas do mar, bem como dos rios - estaria particularmente associada às águas salgadas.
Há uma lenda popular interessante narrada pelo Dr. Rocha Martins em 1935 (texto a itálico):
“Na verdade, ao que parece, Alcácer do Sal foi fundada pelos lusitanos no ano Vlll de César, isto é trinta anos antes de Cristo, atribuindo-a a uma lenda que reza o seguinte: Bugud, califa africano, invadiu a Lusitânia, pondo as povoações a ferro e fogo. Havia na região de Alcácer, um tempo dedicado à deusa Salácia (um dos nomes da deusa Diana), que foi profanado pelos africanos. Quando estes se faziam ao mar, porém, um grande temporal destruiu as embarcações, perecendo no naufrágio a maioria dos invasores, e perdendo-se as riquezas roubadas. Os lusitanos viram no acontecimento um milagre da Deusa, e fundaram uma vila a que deram o nome de Salácia. Há também uma corrente de opinião para quem o nome de Salácia se referia, não à Deusa, mas à abundância de sal existente na região."
Antes de ler este texto, aqui a itálico, não tinha conhecimento de que SALÁCIA pudesse de algum modo estar relacionada com DIANA, Deusa Lunar do Bosque, que, tanto quanto sei, nunca teve nada a ver com o mar. No entanto, a menção do Seu nome nesta lenda pode indicar que havia na Lusitânia um extenso culto desta Divindade, ou, talvez, de uma Divindade lusitana que Lhe fosse de algum modo equivalente. A este respeito, é intrigante que o templo romano de Évora, comprovadamente de culto imperial, seja considerado como templo de DIANA; do mesmo modo, vale a pena referir que, na Crónica Geral de Espanha de 1344, considera-se que a Lusitânia recebeu o seu nome porque o mítico Hércules aí celebrou jogos em honra de DIANA (Ludi + DIANA).
O que por outro lado parece testemunhado neste mito é a intolerância totalitária muçulmana para com o Paganismo que talvez existisse ainda nas regiões hispânicas mais interiores no dealbar do século VIII, ou não fosse o Islão o irmão mais novo, e ainda mais radicalmente totalitário, do Cristianismo. Não é de todo impossível que tenha havido muito património pagão ibérico a ser destruído pelos sequazes de Mafoma, pois que o Paganismo (shirk, adoração de Outros que não Alá) constitui, na religião muçulmana, um crime dos maiores senão o maior.
Texto do Caturo, no Gladius.

domingo, 27 de novembro de 2011

A invenção do natal

Embora tradicionalmente a data represente a celebração do nascimento de Jesus, o festejo do Natal precede o próprio Cristianismo. Não há uma data exata definida, mas há relatos históricos de que as comemorações antecedem de 2 a 4 mil anos o nascimento de Jesus. "A origem do Natal é muito vaga", afirma Jany Canela, mestre em educação e graduada em História pela Universidade de São Paulo. "Na verdade, é sabido que muitos rituais e festas do Cristianismo eram originalmente tradições pagãs reunidas de maneira a incorporar também a cultura popular", afirma Jany.
Muitos antes do nascimento de Jesus, um antigo festival na Mesopotâmia, chamado Zagmuk, simbolizava a passagem de um ano para outro. As comemorações duravam 12 dias e a tradição dizia que, por conta do solstício de inverno (que marca a noite mais longa do ano), os monstros do caos ficavam furiosos. Para lutar contra eles, o rei deveria morrer no fim do ano e, ao lado do deus Marduk, ajudá-lo nessa batalha.
Para poupar o rei, um criminoso era vestido com suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo morto e levando todos os pecados do povo consigo. "Os povos antigos sempre realizaram festas de celebração em deferência aos marcos de transição da natureza, como as estações ou períodos representativos de mudanças importantes, entre eles o solstício (em dezembro) e o equinócio (em março)", explica Jany.
Um ritual semelhante, chamado de Sacae, era realizado pelos persas e babilônios. Sob os mesmos pilares da luta contra a escuridão, a versão também contava com escravos tomando lugar de seus mestres. "Por conta da relação luz/escuridão trazida pela simbologia do solstício, a teoria mais difundida sobre o Natal associa a data a esse período, em que alguns povos passavam a noite em vigília com tochas acesas para garantir que o sol nascesse e imperasse sobre a escuridão", afirma a historiadora.
Os gregos: homenagem a Saturno
A Grécia antiga também incorporou os rituais estabelecidos pelos mesopotâmios ao celebrar a luta de Zeus contra o titã Cronos. O costume alcançou os romanos, que passaram a realizar a Saturnalia (em homenagem a Saturno). A festa começava no dia 17 de dezembro e ia até o 1º de janeiro, comemorando o solstício do inverno. De acordo com os cálculos do povo, o dia 25 era a data em que o sol se encontrava mais fraco, porém pronto para recomeçar a crescer e trazer vida às coisas da Terra.
Durante o dia 25 de dezembro, conhecido como o Dia do Nascimento do Sol Invicto, não havia trabalho nem aulas e eram realizadas festas nas ruas, grandes jantares com amigos, além de que as árvores verdes eram ornamentadas com galhos de loureiros e iluminadas por muitas velas para espantar os maus espíritos da escuridão.
O Cristianismo
Segundo o Cristianismo, Maria deu à luz o filho de Deus, chamado Jesus, em um estábulo em Belém. No dia 25 de dezembro, entre bois e cabras, Jesus nasceu, sendo enrolado com panos e deitado em uma manjedoura (objeto usado para alimentar os animais). No entanto, a data exata do nascimento é polêmica.
Cross Content
Especial para o Terra
Nada de novo sob o sol. Nesta época do ano aparecem artigos e notícias divulgando aquilo que nós sabemos desde criancinhas.

Deuses não são para serem interpretados

Eu encontrei uma curiosa reflexão na SW, por parte de Herne, sobre a estranha mania de pagãos/bruxos/wiccanos acharem que os Deuses são como livros, estão abertos a "interpretação".
A “interpretação” não é apenas um exercício racional, mas antes de mais nada uma postura cultural. Explico: interpretamos as coisas (fatos, histórias, ritos, atos, etc) a partir de um conjunto de idéias que já trazemos em nós. Esse conjunto é sempre dado pela sociedade em que somos criados e introjetados através da educação (formal e informal). Ou seja: a cultura nos dota com óculos através dos quais vemos o mundo (e que também nos faz cegos para o que não conseguem passar por eles). Esse é o principal desafio dos antropólogos e etnólogos: conseguir tirar esses óculos e tentar vestir os óculos da outra cultura para poder vê-la a partir de si mesma e, então, tentar uma tradução dos significados daquela cultura para uma linguagem da nossa cultura, tornando-a compreensível para nós.
O sagrado de um povo também sofre essa “deformação”: acabamos por olhá-lo com os óculos de nossa cultura e o INTERPRETAMOS a partir do nosso conjunto de idéias. Para nós, por exemplo, é estranho que hindus passem fome com aquele imenso rebanho de vacas... mas eles nos olham horrorizados pela na falta estupidez e selvageria por comermos carne bovina no cotidiano. Nós os INTERPRETAMOS como atrasados; eles nos INTERPRETAM como selvagens abomináveis. Muitos acham abomináveis os costumes religiosos africanos e afro-brasileiros de sacrificar animais aos seus orixás... eles acham engraçado (e estranho) como essas pessoas têm tanto medo da morte e não compreendem que a essência do animal sacrificado, longe de ser violentada, foi elevada.
Não creio que Baal, Lucifer, Lillith se “transforme” naquilo que as pessoas pensam deles. Eles são o que são. A questão está – como colocou o Rufus – na INTERPRETAÇÃO que se faz desses (e outros deuses) a partir de critérios éticos, morais, sociais... enfim, culturais por outros povos. E eles continuam interpretados como “maus, perigosos, não-confiáveis” não porque o são ou se tornaram, mas porque estão sendo olhados com óculos estranhos àquela cultura.
Deixa te dar um exemplo: Pachamama é INTERPRETADA pelos ocidentais como uma DEUSA. E, quando se usa esse conceito, se traz à consciência todas as características desenvolvidas pelas culturas daquela região do planeta. Muitos de nós, inclusive, ainda pensamos em Deuses e Deusas dentro daqueles mesmos critérios cristãos: seres onipotentes, onipresentes, oniscientes, que controlam ou têm poder para interferir na nossa vida, para o bem ou para o mal... e isso se traduz na instituição da monarquia e/ou da concentração (e, as vezes, centralização) de poder nas mãos de uma pessoa. Essa idéia para os povos indígenas sul-americanos é totalmente estranha. Pachamama, Inti, Ñanderu, Mama Quilla... não são “deuses”, mas Espíritos que não tem poderes, mas capacidades... como nós, humanos, também temos capacidades. Particularmente é estranha essa idéia de que eles podem intervir na nossa vida, sobretudo para castigar. No conceito guarani, um “deus” que faça qualquer tipo de mal a uma pessoa simplesmente não é um deus! E por “qualquer tipo de mal” não estou falando só do castigo, mas até das idéias de “lei tríplice”, “cagada mágica”, “trapaça”, etc. E tudo isso se traduz na falta de instituições e papéis sociais que concentrem poder.
Muitas vezes, estamos com os olhos tão viciados pela nossa própria cultura que simplesmente não conseguirmos ver nada além dela. E acabamos interpretando erroneamente as coisas. Inclusive, os Deuses de outros povos.
Quanto à questão do "trabalho mágico reunindo pessoas com visões diferentes sobre o(s) Deus(es) que serão celebrados"... há muita coisa a se pensar.
Primeiro: será mesmo que os Deuses atendem a qualquer "chamado"? De qualquer pessoa? Você atenderia? Digo: se um estranho passa por você na rua e, todo sorridente, te convida a ir numa festa na casa dele, você iria??? Se te oferecesse comida, você comeria??? Se te oferecesse flores, você aceitaria??? E de te pedisse "favores especiais", você atenderia??? Por que achamos que os Deuses são mais ingênuos que nós?
Baal, Lúcife, Lillith não são órfãos de povo! Eles fazem parte de um contexto e só nesse contexto eles podem ser entendidos a ponto de serem chamados de forma que eles próprios compreendam. E atendam. Há formas, ritos, rituais, simbolos, odores, cores, palavras, idiomas etc, etc que eles reconhecem como sendo do seu "grupo". E para se ter ciência de todas essas informações, é preciso aprender de quem sabe. É preciso ser INTRODUZIDO naquele contexto sagrado, saber caminhar por aquele ambiente... e, então, ir se tornando conhecido (e reconhecido) pelos Deuses.
A partir desse ponto de vista, acho impossível que duas pessoas com visões antagônicas de um Deus ou Deusa possam fazer alguma coisa juntos. Ou melhor: possam fazer algo que realmente seja reconhecido por esse Deus ou Deusa a ponto de atender ao chamado.
Ver tal reflexão na comunidade pagã brasileira é um alívio, diante da Casa de Mãe Joana que é divulgado pela internet.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sacerdócio e confrarias religiosas

O culto público, sob o controle do Estado, era efetuado por certo número de oficiantes e confrarias religiosas. Na época da monarquia, o rei ocupava o primeiro posto na hierarquia sacerdotal: era o rex sacrorum. Infelizmente, pouco se sabe sobre a maneira como eram celebrados os ofícios. Sabe-se no entanto que, na Regia, a casa do rei, praticavam-se três categorias de ritos: destinados a Júpiter (ou a Juno e a Jano), a Marte e a uma deusa da abundância agrícola, Ops Consina. Desse modo, a casa do rei era o lugar de encontro, e o rei, o agente de síntese das três funções fundamentais que, como em breve veremos, eram administrados separadamente pelos flamines maiores. É lícito supor que, já na época pré-romana, o rex tinha a seu lado um corpo de sacerdotes. Contudo, a religião romana caracteriza-se por uma tendência ao fracionamento e à especialização. Em Roma, cada sacerdote, cada colégio ou sodalidade tinha sua competência específica.
Depois do rex vinham, na hierarquia sacerdotal, os 15 flamines, em primeiro lugar os flâmines maiores: os de Júpiter (flamines Dialis), de Marte e de Quirino. Os flâmines não formavam uma casta; além disso, não constituíam sequer um colégio; cada flâmine era autônomo e ligado a uma divindade da qual tirava seu nome. A instituição é por certo arcaica; os flâmines distinguem-se por seu costume ritual e por um grande número de proibições.
Para os flâmines de Marte e Quirino, as obrigações e proibições eram menos severas.
São poucas as informações que temos sobre a origem do colégio pontifical. O colégio compreendia, além dos pontífices, o rex sacrorum e os flâmines maiores. Ao lado do flamen Dialis, o pontifex desempenhava, no círculo sagrado do rei, uma função complementar. Os flâmines exerciam seus ofícios de certa forma "fora da história"; efetuavam regularmente as cerimônias prescritas, mas não tinham o poder de interpretar nem de resolver situações inéditas. A despeito de sua intimidade com os deuses celestes, o flamen Dialis não traduzia a vontade do Céu, responsabilidade afeta aos áugures. Por outro lado, o colégio dos pontífices, mas precisamente o pontifex maximus, de quem os outros eram apenas o prolongamento, dispunha ao mesmo tempo de liberdade e de iniciativa. Comparecia às reuniões em que se decidiam sobre os atos religiosos, respondia pelos cultos sem titulares e fiscalizava as festas. No tempo da República, incumbia ao pontifex maximus criar os flâmines maiores e as vestais sobre os quais possuíam poderes disciplinares e ser o conselheiro, por vezes o representante destas últimas.
As seis vestais estavam vinculadas ao colégio pontifical. Escolhidas pelo sumo pontífice entre os seis e os doze anos de idade, as vestais eram ordenadas por um período de 30 anos. Protegiam o povo romano alimentando o fogo da cidade, que tinha a obrigação de nunca deixar se extinguir. Sua força religiosa dependia da virgindade: se uma vestal incorresse em falta contra a castidade, era enterrada viva num túmulo subterrâneo, e seu parceiro era supliciado.
O colégio augural era tão antigo e tão independente quanto o colégio dos pontífices. Mas o segredo da disciplina foi bem guardado. Sabe-se apenas que o áugure não era convocado para desvendar o futuro. Seu papel limitava-se a esclarecer se este ou aquele projeto era fas. Entretanto, já no fim da realeza, os romanos começaram a consultar outros especialistas.
Além destes colégios, o culto público compreendia muitos grupos fechados ou sodalidades, cada qual especializado numa técnica religiosa particular. Os 20 Fetiales sacralizavam as declarações de guerra e os tratados de paz. Os salii, dançarinos de Marte e de Quirino, em grupos que contavam com 12 membros cada um, atuavam em março e em outubro, sempre que se dava a passagem da paz à guerra e da guerra à paz. Os Frates Arvales protegiam os campos cultivados. A confraria dos Luperci celebrava, em 15 de fevereiro, os Lupercalia.
Tanto no culto público quanto no privado, o sacrifício consistia na oferenda de determinada matéria alimentar: primícias de cereais, uva, vinho doce e principalmente vítimas animais. Com exceção do cavalo de outubro, o sacrifício das vítimas animais obedecia à mesma encenação. Efetuavam-se libações preliminares sobre o lar portátil (foculus), que representava o foculus do sacrificante, e situava-se em frente ao templo, ao lado do altar. Em seguida, o sacrificante imolava simbolicamente a vítima, passando a faca sacrifical sobre o corpo, da cabeça até a cauda. Nos primeiros tempos, ele abatia o animal, mas no ritual clássico essa tarefa era desempenhada por certos sacerdotes (victimarii). A parte reservada aos deuses - fígado, pulmão, coração e alguns outros pedaços - era queimada sobre o altar. A carne era consumida pelo sacrificante e por seus companheiros no culto privado, e pelo corpo de sacerdotes nos sacrifícios celebrados em favor do Estado.
Autor: Mircea Eliade em "História das Crenças e das Idéias Religiosas II", pg 112 - 115, Editora Zahar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O culto privado

Até o fim do paganismo, o culto privado - dirigido pelo pater familias - manteve sua autonomia e importância ao lado do culto público, efetuado por profissionais subordinados ao estado Ao contrário do culto público, que sofreu contínuas modificações, o culto doméstico, realizado em volta do lar, não parece ter mudado muito durante os 12 séculos da história romana. Trata-se certamente de de um sistema cultural arcaico, pois é encontrado em outros povos indo-europeus. Tal como na Índia ariana, o fogo doméstico constituía o centro do culto: eram-lhe oferecidos sacrifícios alimentares quitidianos, flores três vezes por mês etc. O culto endereçava-se aos penates e aos lares, personificações mítico-rituais dos antepassados, e aos genius, espécie de "duplo" que protegia o indivíduo. As crises deflagradas pelo nascimento, pelo matrimônio e pela morte exigiam ritos de passagem específicos regidos por certos espíritos e divindade menores. A cerimônia religiosa do casamento processava-se sob os auspícios das divindades ctonianas e domésticas e de Juno com protetora do juramento conjugal, e comportava sacrifícios e passeios ao redor do lar.
Os ritos funerários, que terminavam no nono dia após o enterro ou inumação, prolongavam-se no culto regular dos "pais defuntos" (divi parentes) ou manes. Duas festas eram-lhe consagradas: os Parentalia, em fevereiro, e os Lemuria, em maio. Durante as primeiras, os magistrados não ostentavam suas insígnias, os templos eram fechados, os fogos extintos sobre os altares, e não se contraía casamento. Os mortos retornavam à terra e se serviam do alimento depositado sobre os túmulos. Mas era sobretudo a pietas que apaziguava os antepassados (animas placare paternas). Como no antigo calendário romano fereveiro era o último mês do ano, ele compartia a condição fluída, "caótica", que caracterizava esses intervalos entre dois ciclos temporais. Estando suspensas as normas, os mortos podiam retornar à terra. Era ainda em fevereiro que se desenrolava o ritual dos Lupercalia, purificações coletivas que preparavam a renovação universal simbolizada pelo "ano-novo".
Durante os três dias dos Lemuria, os mortos (lemures) retornavam e visitavam as casas de seus descendentes. A fim de apaziguá-los e de impedir que arrastassem consigo alguns vivos, o chefe da família enchia a boca de favas pretas e, enquanto cuspia, pronunciava nove vezes as seguintes palavras: "Com estas favas redimo a mim e os meus." Finalmente, fazendo barulho com um objeto de bronze para amedrontar as sombras, repetia nove vezes: "Manes de meus pais,afastem-se daqui!" A recondução ritual dos ortos, depois de suas visitas periódicas à terra, é uma cerimônia amplamente difundida no mundo.
Lembremos também outro rito relacionado aos manes: a devotio. O ritual da devotio ilustra uma concepção arcaica do sacrifício humano como "homicídio criador". Trata-se, em suma, de uma transferência ritual da vida sacrificada em favor da operação que acaba de ser empreendida.
Desconhecem-se as representações do reino dos mortos próprias dos anitgos habitantes do Lácio; as que nos foram transmitidas refletem a influência das concepções gregas e etruscas. É muito provável que a mitologia funerária arcaica dos latinos fosse um prolongamento das tradições neolíticas européias. Por outro lado, as concepçoes do outro mundo compartilhadas pelos troncos rurais itálicos foram modificadas de modo bastante superficial pelas influências ulteriores, gregas, etruscas e helenísticas. Em contrapartida, os infernos evocados por Virgílio, o simbolismo funerário dos sarcófagos da época imperial, as concepções de origem oriental e pitagórica da imortalidade celeste se tornarão extremamente populares em Roma e nas outras cidades do império a partir do século I AC.
Autor: Mircea Eliade, em "História das Crenças e Idéias Religiosas II", pg 110 - 112, Editora Zahar.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Caracteres específicos da religiosidade romana

A disposição e o vivíssimos interesse pelas realidades imediatas, tanto cósmicas como históricas, não demoram a aparecer na atitude dos romanos em relação a anomalias, acidentes ou inovações. Para os romanos, como também para as sociedades rurais em geral, a norma ideal manifestava-se na regularidade do ciclo anual, na sequência ordenada das estações. Toda inovação radical equivalia a um ataque à norma; em última análise, implicava o risco de um retorno ao caos. De modo semelhante, toda anomalia - prodígios, fenômenos insólitos - denunciava uma crise nas relações entre os deuses e os homens. Os prodígios proclamavam o descontentamento ou até a cólera dos deuses. Os fenômenos aberrantes equivaliam a manifestações enigmáticas dos deuses; de certo rpisma, eles constituíam "teofanias negativas".
Para os romanos, a significação precisa dos prodígios não era evidente; tinha de ser decifrada pelos profissionais do culto, o que explica a importância apreciável das técnicas divinatórias e o respeito mesclado de temor que desfrutavam os arúspices etruscos e, mais tarde, os LIvros Siblilinos e outras coleções oraculares. A diviniação consistia em interpretar os presságios vistos (auspicia) ou ouvidos (omnia). Somente os magistrados e os chefes militares estavam autorizados a explicá-los. Mas os romanos haviam guardado para si o direito de recusar os presságios. Uma vez decifrado o sentido do prodígio, procedia-se a lustrações e a outros ritos de purificação, pois estas "teofanias negativas" haviam denunciado a presença de determinada mácula, e era importante que ela fosse cuidadosamente afastada.
A primeira vista, o medo desmedido dos prodígios e das máculas poderia ser interpretado como um terror pela superstição. Trata-se, no entanto, de um tipo particular de experiência religiosa, poruqe é por meio de tais manifestações insólitas que se estabelece o diálogo entre so deuses e os homens. Essa atitude diante do sagrado é consequência direta da valorização religiosa das realidades naturais, das atividades humanas e dos acontecimentos históricos, em suma, do concreto, do particular e do imediato. A proliferação dos ritos constitui aspecto desse comportamento. Já que a vontade divina se manifesta hic e nunc, numa série ilimitada de sinais e incidentes insólitos, importa saber que ritual será o mais eficaz. A necessidade de reconhecer até nas minúncias as manifestações específicas a todas as entidades divinas encorajou um processo bastante complexo de personificação. As múltiplas epifanias de uma divindade, assim como suas diferentes funções, tendem a distinguir-se como "pessoas" autônomas.
Em certos casos, essas personificações não chegam a libertar uma verdadeira figura divina. São sucessivamente evocadas, mas sempre em grupo.
O gênio religioso romano distingue-se pelo pragmatismo, pela busca da eficácia e sobretudo pela "sacralização" das coletividades orgânicas: família, gens, pátria. A famosa disciplina romana, a fidelidade aos compromissos (fides), a dedicação ao Estado, o prestígio do direito traduzem-se pela depreciação da pessoa humana: o indivíduo contava tão somente na medida em que pertence a seu grupo. Só mais tarde, sob a influência da filosofia grega e dos cultos orientais da salvação, os romanos descobriram a iportância religiosa da pessoa.
O caráter social da religiosidade romana, em primeiro lugar a importância atribuída às relações com o outro, é claramen5e expresso pelo termo pietas. Apesar de suas ligações com o verbo piare (apaziguar, apagar uma falta, conjurar um mau presságio, etc), a pietas designa a observação escrupulosa dos ritos, mas também o respeito aos relacionamentos naturais entre os seres humanos. Para um filho, a pietas consiste em obedecer o pai; a desobediência equivale a um ato mostruoso, contrário à ordem natual, e o culpado deve espiar essa falta com a própria morte. Ao lado da pietas com relação aos deuses, existe a pietas com os membros dos grupos a que se pertence, a cidade e finalmente todos os seres humanos. O "direito das gentes" (ius gentium) prescrevia os deveres mesmo com relação aos estrangeiros. Essa concepção desabrocha plenamente sob a influência da filosofia helênica, quando se estabeleceu com clareza a concepção da humanitas, a idéia de que o simples fato de pertencer á espécie humana constituía um verdadeiro parentesco, análogo àquele que ligava os membros de uma mesma gens ou cidade e criava deveres de solidariedade, amizade ou pelo menos de respeito. As ideologias humanitaristas dos séculos XVIII e XIX nada mais fazem do que retomar e elaborar, ainda que a dessacralizando, a velha concepção da pietas romana.
Autor: Mircea Eliade, em "A História das Crenças e das Idéias Religiosas II", pg108 - 110, Editora Zahar.

domingo, 20 de novembro de 2011

Altar de Larouco

Da página «Portugal Romano» do Facebook:
Altar de Penascrita e desenho do lugar de Culto – Ao Deus Larouco, companheiro de Júpiter, atribuída pelos soldados da Legião VII Gemina Pia Felix (Vilar de Perdizes).
Afloramento granítico, trabalhado para altar rupestre, composto por três degraus encimados por mais três entalhes na rocha, em forma de "E" deitado. Na superfície sobressai uma cavidade rectangular, e rasgos lineares. Esta cavidade é, interpretada por alguns autores como sendo o "foculus". Numa das faces do altar existe uma inscrição consagrada a Deus Larouco, companheiro de Júpiter, atribuída pelos soldados da Legião VII Gemina. De referir a semelhança a outros dois altares aparecidos nas imediações, um deles consagrado ao Deus Larouco e outro a Júpiter. Segundo a interpretação feita por Rodrigues Colmenero, através da leitura de alguns excertos: trata-se de uma santuário, dedicado a:
Larouco, Companheiro de Júpiter - I(ovis) Soc(io) Larouco.
Pelos soldados da legião VII Gemina- La[roc]vo......M(ilites) Leg(ionis) VII P(iae) F(elicis) (centuriae.....?).
No restante ainda se verificam outros caracteres, embora indecifráveis. Trata-se, neste caso de um topónimo, onde o nome da montanha é referido. No Outono e no Inverno a serra está quase sempre encoberta, de tal modo que é possível supor que o santuário da Pena Escrita, situado no altiplano abrigado (altitude 827 metros) congregasse rituais de culto nas estações mais agrestes quando o cume do Larouco é assolado por ventos fortes, cortantes e frios, ou por nevões persistentes.
Texto divulgado pelo Caturo, publicado no blog Gladius.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Vivendo em Aliança

Calma, caros diletos e eventuais leitores, este escritor pagão não se converteu. Este é um ensaio feito para explorar alguns termos e conceitos wiccanos.
Comecemos com as lendas e textos da Idade Média que nos contam das assembléas das bruxas.
Quando Gardner organizou a estrutura da Wicca, ele denominou de "coven" às reuniões do seu grupo.
O termo "coven" provém do latim "covenire", que significa exatamente reunião, assembléia.
Existe também o termo "covenant" que significa contrato, acordo, pacto, aliança.
O conceito de "fazer uma aliança com Deus" foi e é muito difundido e propagandeado por padres e pastores.
Nos textos dos processos do Santo Ofício era muito comum a acusação de que as bruxas tinham feito um pacto com o Diabo.
Na visão teológica católica, hereges e bruxas eram, por natureza, adoradores do Diabo e, portanto, faziam tudo às avessas da Santa Doutrina Cristã.
Ao pleitear por seu ingresso, o neófito, depois de passar pelo treinamento formal e a transmissão oral da tradição, deve fazer um voto, um juramento, ["oath"] tal como está implicito ao se firmar um contrato ou se estabelcer um acordo.
Parece-me que este é o verdadeiro sentido do termo "coven", a saber, equiparando com o termo "covenant", o neófito não empenha sua palavra unicamente para ingressar como membro de uma assembléia, mas também celebra um pacto, uma aliança, com o Deus e a Deusa [divindades específicas] cultuados pelo grupo, ato que se consuma na iniciação e ao se proferir o voto, o juramento, diante daqueles que serão sua família e diante dos Deuses.
Para uma vida em comum, especialmente no que diz respeito ao meio pagão, bruxo e wiccano, fica bastante explicito as condições, o que contrasta com os conceitos populistas divulgados pela internet. Viver em aliança, com uma comunidade, com os Deuses, requer um compromisso sincero, profundo e honesto, não há espaço para agendas pessoais nem conflitos entre egos.
Assim como no casamento, onde o anel é o símbolo da aliança, no coven, a ação cerimonial de lançar o círculo é o ato sagrado em que se reencena nosso compromisso com os nossos iguais, preservando a tradição e servindo a Deuses específicos. Qualquer coisa abaixo ou menor do que isto é simplesmente alimentar a vaidade, a presunção e a arrogância do líder carismático, do vigarista disfarçado de guru, do estelionatário travestido de sacerdote.