segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Boas intenções, motivos equivocados

Foi divulgado no jornal virtual Extra uma matéria assinada por Og Sperle, intitulada "Intolerância religiosa contra wiccanos - preconceito ou ignorância".
Na Wicca Brasil eu fiz um comentário suscinto:
"Há um dado incorreto. Não havia wiccanos na época da Inquisição".
Pois nestes dias eu li uma "explicação" do autor na Sociedade Wiccca, diante das críticas de Herne:

"Santa Inquisição contra a Wicca???

Quando digo na matéria que a intolerância religiosa faz parte da história da Wicca, não quiz dizer que foram os wiccanos, perseguidos neste período, e isso fica bem claro na última linha deste mesmo parágrafo, quando digo: 'Nós, wiccanos, somos herdeiros espirituais destes que foram assassinados em nome de uma divindade que pregava o 'Amor'.

E por que dizer 'história da Wicca'?

Bem, cansamos de ler que as origens da Wicca, remontam do período paleolítico, além, é claro, Tambem nos pegamos, volta e meia falando sobre nossos irmãos bruxos e bruxas que forma queimados no período da inquisição. Enfim...
Hereges como cristãos adoradores de divindades pagãs???

Desculpe Herne, mas este trecho deve ser de outra matéria. Em momento algum escrevi isso. No texto esta escrito: 'Ela foi inicialmente instituída para combater os chamados 'hereges': grupos religiosos que praticavam a adoração às divindades pagãs, bem como seus sincretismos e rituais agrários...'

'Paganus' ainda existentes (e mortos) na época da Inquisição???

Paganus (latim), um adjetivo que significa originalmente 'rural', 'rústico' ou 'do campo'. Como substantivo, paganus foi usado para significar 'habitante do país, morador'. Após o Imperador Constantino ter reconhecido o Cristianismo como religião do Estado, a mesma se espalhou lentamente no campo, diferente do que aconteceu nas cidades, e logo a palavra "paganus" se tornou sinônimo de alguém que não era 'cristão', e deu origem ao moderno significado de 'pagãos'."

Diante disto, eu devo fazer algumas análises e críticas:
No primeiro parágrafo, o autor tenta consertar o equívoco histórico que cometeu ao dizer que wiccanos foram perseguidos na época da Inquisição ao indicar o parágrafo posterior como argumento, mas isto não se sustenta, pois no caso, o argumento deveria vir primeiro e não deveria ter sido colocado como parte da história da Wicca a perseguição da Inquisição.
No segundo parágrafo, o autor regurgita o absurdo de que a Wicca é uma religião que tem sua origem no paleolítico. Este tipo de desinformação tem sido desonestamente pregada [e esta é a palavra mais certa] por pseudo-sacerdotes e pessoas ligadas ao dianismo que querem enfiar goela abaixo a crença de uma Antiga Religião da Deusa Mãe, um disparate que tem por base as fantasias de Marija Gimbutas, devidamente refutado no tópico "A origem do mito moderno da Deusa Mãe".
No terceiro parágrafo, uma curiosa "explicação" que na verdade reitera o que foi afirmado, de que os hereges são 'grupos religiosos que praticavam a adoração às divindades pagãs, bem como seus sincretismos e rituais agrários'. Hereges eram grupos de cristãos que seguiam crenças, práticas e doutrinas que eram diferentes da autorizada pelo poder Secular e Eclesiástico. Apenas depois, quando começou a aparecer as acusações de haver cultos de bruxaria e bruxas, é que os tribunais seculares e clericais lidaram com esse problema como se fosse heresia.
No quarto parágrafo, lidamos de novo com a questão reducionista da etimologia da palavra. O sentido da palavra não pode ser reduzido ao estudo de sua etimologia, mas ao seu conteúdo e contexto histórico. Vale a pena reler o meu texto entitulado "Conceitos e contradições sobre o Neopaganismo".

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Dia da Memória Pagã


A 24 de Fevereiro de 391, o imperador Valentiniano II proíbe, não apenas os sacrifícios, mas também a simples visita a templos pagãos. No mesmo ano, decretou ainda que todos os templos pagãos fossem fechados.
Foi um dos muitos marcos religiosos, políticos e legais que assinalou o fim da tolerância geral do mundo antigo genuinamente europeu e instaurou o totalitarismo vindo do Oriente semita. A sua abissal ofensa foi dupla - não apenas destruiu a liberdade em si - liberdade de culto, de expressão, de consciência até, tanto quanto possível - destruiu também os altares dos Deuses Nacionais ocidentais, legítimos padroeiros dos Povos do Ocidente, a começar pelos Romanos, mas rapidamente se estendendo a todas as outras nações europeias.Ao mesmo tempo, vários motins anti-pagãos em Alexandria levaram à destruição de bustos de Serápis em toda a parte onde fossem encontrados, e a sua substituição por crucifixos, pintados em janelas, paredes, pilares, etc.. Deu-se uma revolta de pagãos, liderada pelo filósofo Olympius; os pagãos acabaram refugiados dentro do templo de Serápis; após um cerco violento, os cristãos ocuparam o edifício e demoliram-no, queimando, no processo, a famosa biblioteca de Alexandria, e profanando as imagens de culto do Deus.
O encerramento dos templos implicou a extinção do fogo sagrado do templo de Vesta, que era o fogo sagrado da pátria, todos os anos apagado e reacendido, imagem maior do fogo sagrado do lar, que brilhava no centro de cada casa romana (sucedendo algo de similar noutras partes do mundo indo-europeu, como a Grécia e a Índia ariana).
Vários séculos depois, surge em Itália a iniciativa do Dia Europeu da Memória Pagã, que, sendo marcado para 24 de Fevereiro, constitui um retomar simbólico do facho pagão - tal como sucedia outrora, o fogo sagrado deve reacender-se no dia em que se extinguiu.
Fonte: Gladius

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Escolas, linhagem, tradição

O que é exatamente uma linhagem, o que é uma escola iniciática, o que é uma sociedade secreta?
Quais semelhanças e diferenças entre elas?
Este artigo tem como objetivo apresentar algumas considerações sobre esse tema.
Nossa civilização é fruto de um processo histórico, onde grupos em guerra pelo poder não tiveram receio de invadir, saquear e destruir outras culturas, assim como de destruir os grupos dissidentes dentro de seu próprio seio.
Vejam por exemplo a Igreja Católica Apostólica Romana, condenando a morte os Cátaros e Templários, entre muitos outros, porque essas irmandades, até então parte da Igreja, ameaçavam com seu modo de ser os grupos que pretendiam manter seu poder dentro da instituição.
Isto é algo que não pode ser esquecido, dentro das instituições religiosas que se tornaram meios de poder existe uma guerra entre diversas facções em busca do controle da Instituição.
Até o Budhismo, com sua filosofia ímpar em equilíbrio e paz não escapou destas contradições, como as lutas internas entre facções diferentes que aconteceram no Tibete antes deste ser cruelmente invadido pela China, que aliás está neste momento aumentando a repressão sobre os poucos mosteiros que ali ainda restam.
Para entender isso podemos usar um exemplo bem chão. Dentro de uma empresa um diretor e seu grupo pretendem manter uma determinada política gerencial. Para alcançarem isso vão arregimentar aliados e tentarão colocar para fora todos que não se adaptem a suas políticas. Este jogo político dentro das instituições, bem humano, esconde outra guerra, mais séria e mais danosa, pois quando nestas lutas grupos como os Templários são destruídos, em sua manifestação tangível, levam com eles a chance de uma interferência saudável e evoluída na sociedade.
São muitos os que sabem que os Templários já mantinham contato com o "novo mundo" que hoje chamamos América e que havia um grande plano de fusão das culturas européia e nativa, que foi destruído com a destruição dos Templários, sobrevivendo apenas a lenda dos amigos brancos e barbados que voltariam um dia, terrível equívoco, pois os índios ao abrirem os braços aos que retornavam, tendo roubado o conhecimento dos herdeiros dos templários, receberam sabre e tiros.
E a ignorância, a limitação e a sanha dominadora dos destruidores continua a manter a humanidade em séculos de obscurantismo. Portanto, estamos presos a uma história mentirosa, falsa, escrita pelos vencedores, que ainda comemoram os 500 anos do descobrimento do Brasil, quando deveríamos estar reavaliando estes séculos em que nos roubaram, em que saquearam, mataram a população nativa e ainda nos mantém como um povo sem base, a viver gravitando e alimentando interesses internacionais. Uma história que ainda chama os matadores e escravizadores de índios e destruidores de sua cultura, os Bandeirantes, de heróis.
Mesmo esta civilização tem seus centros de conhecimento e busca da verdade, conhecidos como Universidades, onde se estuda e se investiga a natureza e seus mistérios. Mas tais investigações sofrem muitas limitações, por exemplo, muitas universidades tem sérias restrições a realizarem pesquisas na área da terapia natural, pois recebem suas verbas de laboratórios farmacêuticos que discreta ou acintosamente ameaçam cortar verbas se tais tipos de pesquisas forem desenvolvidas. E quanto saber não é deixado de lado por ameaçar as visões pré-estabelecidas, ameaçar o poder de certos grupos? Essa ânsia do ser humano em conhecer e aprender mais sobre si e o meio no qual está inserido é antiga. Assim como as forças que em busca do poder mundano e temporal lutam para que a ignorância não perca terreno.
Para compreendermos o que são as escolas de sabedoria temos que rever o conceito de história que nos foi passado. Estamos impregnados de um neodarwinismo social. Acreditamos que o mundo tal qual está aí é o ápice do desenvolvimento. Confundimos o desenvolvimento tecnológico realmente espantoso e nos deixamos empolgar pelas táticas marketeiras dos atuais donos do poder.
Mas vamos aos fatos.
Nem mesmo a gripe conseguimos controlar, vejam o fiasco das vacinações anti-gripe. Olhem a AIDS, o Câncer, a volta de doenças tidas como controladas como a Tuberculose, devido a resistência gerada pelo excesso no uso de antibióticos, assim como a cólera, por falta de saneamento básico nas populações carentes. Vejam o caos social dos nossos dias, a violência nas ruas, o alcoolismo e as drogas tomando o mundo. O caos ecológico, efetivo e aumentando, o buraco na camada de ozônio e o risco de entrarmos em guerra ainda neste século que vai chegar, por causa de água potável.
Não se trata de pessimismo, apenas uma localização sem "maquiagem" da realidade que nos circunda. Vivemos mais que os antepassados históricos, vivemos melhor em termos de alimentação e controle de muitas doenças, mas não somos a maravilhosa civilização. Temos muito o que aprender ainda.
Outras civilizações já existiram no passado. Que atingiram um desenvolvimento surpreendente. Pirâmides, monumentos Mayas, Astecas, Incas, em Angkor e tantos outros lugares aí estão como mudos sobreviventes destes períodos. Estas civilizações, por causas que não cabem aqui avaliar, tiveram seu declínio. E outra civilização surgiu. Quantas vezes isso terá ocorrido?
O fato é que o saber dessas antigas civilizações não pereceu com elas. Por via oral, em manuscritos secretos, por vias que desconhecemos, homens e mulheres mantiveram o elo do saber e vieram trazendo o conhecimento para a nova era que nascia.
Na misteriosa Suméria, na Babilônia, onde no reinado de Cambises, Pitágoras esteve aprendendo e ensinando, na terra dos Vedas, nas ilhas dos Druídas onde herdeiros dos Atlantes continuavam seu saber mágico, como nas terras de Ken e suas pirâmides, nas alturas do Tibete, no Himalaia, onde os Hsien, alquimistas taoístas por vezes aceitavam aprendizes em seus eremitérios, nos mosteiros de Shao Lin, entre os misteriosos Sarmouns, nas terras da África onde magistas aprendiam a arte do transe e da recepção de seus orixás, na antiga Tula, onde Toltecas há mais de 7.000 anos atrás já possuíam uma civilização complexa, enfim, em todo o mundo vamos encontrar grupos que mantém uma linha de conhecimento que segue a margem da sociedade oficial.
Enquanto na sociedade oficial reis e rainhas conspiram para manter seu poder, com apoio de seus "nobres", declaram guerra a outros povos, escravizam, são escravizados, matam, são mortos, traem e são traídos, homens e mulheres de forma discreta e intensa mantém ancestral tradição, ampliando seu saber sobre si e sobre o mundo que os circunda.
Uma linhagem é a continuidade no tempo e no espaço desse saber acumulado. Posso exemplificar com o exemplo das linhagens xamânicas.
A Irmandade dos Escudos que congrega mulheres no norte do Canadá, a linhagem Tolteca na qual o Doutor Carlos Castaneda e suas companheiras foram iniciados, representam essa perpetuação de um conhecimento, que geração após geração é mantido, e passado de iniciador(a) pra iniciado(a).
Temos a linhagem sufi no médio oriente, a linhagem taoísta, a linhagem lamaísta e tantas outras. Elas perpetuam no tempo e no espaço uma tradição. Estas linhagens podem atuar de duas formas. Podem apenas buscar sua manutenção, sua continuidade. É o caso da linhagem Tolteca a qual o Doutor Carlos Castaneda teve acesso.
Creio que não compreender esta idéia é a causa de tanta gente cometer profundos equívocos quando tenta pregar o "Castanedismo" como um novo credo universal. Como o próprio Doutor Carlos Castaneda deixou claro em suas palestras realizadas quando da apresentação dos seminários de Tensegridade por todo o mundo que ocorreram até o começo de 99, D. Juan Matus nunca pretendeu criar uma escola, ou um trabalho aberto as massas.
A proposta dele era apenas manter sua linhagem, para isso "caçou" um grupo de homens e mulheres que tinham o tipo energético adequado e transmitiu todo seu saber, no contexto que o xamanismo considera transmitir, ampliou a consciência de seus aprendizes e os ensinou a comprovar em si e por si o que lhes era ensinado.
Quando o Doutor Carlos Castañeda descobriu que ele não era capaz de continuar a linhagem, por razões de sua morfologia energética, foi que resolveu revelar plenamente o saber que tinha recebido, para que fosse usado por quem soubesse usar.
Outro caso, bem diferente é quando alguém é treinado por uma linhagem com o objetivo de abrir uma Escola. Hoje acreditamos que esse é o caso de Gurdjieff e de Rene Guenon entre outros, foram iniciados como Sheiks em irmandades sufis e mandados ao ocidente para criarem escolas, adequadas ao tempo e ao lugar.
Uma Escola iniciática é uma manifestação no tempo e no espaço da ação de uma Linhagem ancestral.
Uma Escola tem propósitos claros, existem dentro de um contexto e quando as condições desaparecem ou se tornam inviáveis a Escola também some.
Uma Escola é formada por homens e mulheres que tendo atingido certo grau de auto-realização operam em grupo com objetivos claros e específicos.
A ligação de uma escola com a linhagem da qual emana pode ser direta, quando há uma ligação efetiva com os "pilares" da tradição, ou indireta, isto é, houve o contato, houve o transmitir de certo papel a ser desempenhado mas o elo não se manteve.
Muitas Escolas surgem dentro de um tempo e espaço específico, com um trabalho específico por realizar e quando cumprem a tarefa a Escola se dissolve. As pessoas que estavam na origem do trabalho se vão. O elo com a linhagem, com a tradição não mais existe. As pessoas que aprenderam o suficiente para ter a possibilidade de continuar no caminho de maneira independente prosseguem. Mas alguns que estiveram em contato com o trabalho, que participaram das atividades, podem continuar a repetir o que foi ensinado, os exercícios e alguns conhecimentos. Entretanto eles estarão tomando a parte que tiveram acesso pelo todo do trabalho.
Quando uma escola está em atividade, em contato com a Fonte dizemos que é uma escola estrutural, quando está apenas continuando o que já foi ensinado, é uma escola linear.
Ela repete o que foi dito, mas tem um limite, isto é, só é capaz de auxiliar alguém até certo ponto e, mais sério, após um certo tempo, dentro de outras condições energéticas, de uma nova era, a mesma escola pode se tornar contraproducente, por tentar ensinar coisas que não pertencem a aquele momento.
Muitas vezes esta imitação externa mantém apenas o formalismo exterior e encontramos casos de escolas neste caso, mantidas por décadas, vem brigar como "dona da verdade", com outra manifestação, mais atual, da mesma fonte.
Mas esses sistemas também tem seu valor, pois servem de intermediários entre a humanidade, imersa no materialismo robotizante e entre as tradições de fato esotéricas.
Toda Escola esotérica ao mesmo tempo que trabalha por sua continuidade está imersa em fluxos cósmicos que determinam seus trabalhos. É importante compreender que tais escolas estão em atividade, assim para nelas ingressarmos não basta "boa vontade" mas temos que nos colocar ao seu alcance e temos que ter utilidade para o projeto dessa escola.
Cada Escola de acordo com o caminho ao qual estiver ligada vai atrair pessoas diferentes e assim como um arquiteto não vai ver interesse numa escola de comunicação social, o adepto de uma escola pode não encontrar nada em outra.
Por razões históricas certos momentos tornam a ação aberta das Escolas impossível.
Se no Egito houveram dinastias onde as escolas estavam abertas a todos, isto é, qualquer um podia chegar e se propor a passar pelas provas iniciáticas que selecionavam quem podia ou não mergulhar no saber da Escola, outros momentos levavam as Escolas a serem perseguidas.
O mesmo ocorreu na Grécia e ainda mais em Roma.
Aí surgem as Sociedades Secretas Iniciáticas.
Sociedades Secretas existem muitas, de cunho político, militar e tantos outros. Uma sociedade secreta iniciática é uma escola que em virtude do obscurantismo de uma época tem que fugir da história para continuar existindo.
Uma sociedade secreta vai se reunir em local secreto, tem seus ritos em segredo e seus membros não divulgam dela fazer parte, só sendo reconhecidos por seus pares.
Ordens como a maçonaria moderna e muitas linhas rosa-cruzes são escolas de sabedoria que por terem um sistema iniciático em graus tem seu saber restrito a seus membros. No rigor do termo não são mais sociedades secretas, pois podemos encontrar o endereço em listas telefônicas e seus membros não tem nenhum problema em alardear sua filiação as mesmas.
As Sociedades Secretas são agudamente conscientes que os perigos que criaram a Inquisição e outros momentos de obscurantismo não estão ausentes dessa sociedade, vejam a praga fundamentalista evangélica se desenvolvendo.
Assim elas se mantém a margem, como guardiãs invisíveis prontas para recolher o saber das idades frente a uma nova era de ignorância e perseguição e salvaguardar tal saber até que surjam novamente condições de tal saber vir a tona.
Onde menos esperamos estão os guardiães desse saber.
Vivi uma experiência há algum tempo que reforçou essa certeza. Na minha última viagem à Cuzco, estava com um grupo numa Van. Meu hotel ficava fora da cidade, assim era o último "a ser entregue". Um dia, voltando de um passeio a Sacsayhuaman ouvi de um dos turistas a tradicional história dos ETs terem vindo construir aquele monumento. Como de praxe, discordei, colocando a ressalva de que creio em visitantes de outros mundos, hoje e ontem na história, mas creio que dizer que foram ETs os que construíram tais lugares é uma forma de negar a existência de uma complexa cultura que existiu antes, da qual os Incas e outros povos descenderam, mesmo tendo perdido a Arte, como a Europa Medieval, supersticiosa e grosseira, nada aparentava da fabulosa cultura greco-romana que a antecedera.
Acalorados debates mas cada um chegava no seu hotel e iam embora. Quando estava só com o motorista da Van ele me perguntou porque eu dissera aquilo. Falei-lhe do meu interesse pelas antigas culturas dali e pelo xamanismo. Ele me disse que no outro dia não fosse ao City Tour, estava viajando com um grupo com o qual faria a trilha inca alguns dias depois e eles tinham me convidado a fazer o City Tour com eles a fim de almoçarmos juntos. Ele pediu que ficasse no hotel e o esperasse que ele ia me levar num lugar pouco conhecido. Fiz isso e no meio da manhã apareceu o motorista com seu carro. Me levou pra um lugar no centro de Cuzco. Um portão do lado de uma casa, nada diferente de outras, dava para um lance de escada que levava a uma grande sala, uma espécie de porão, cheio de engradados de bebida e caixas, como um depósito de um supermercado. Havia outro lance de escadas e alguns pavimentos abaixo havia uma área imensa, iluminada com aquelas lâmpadas de óleo animal que eles usam. Era um templo antigo mantido intacto. Fui recebido por dois outros índios que me contaram coisas muito interessantes sobre seus antepassados e sobre como, de fato, embora em íntimo contato com seres de outros mundos, foram estes antepassados que construíram os monumentos que visitávamos.
Falaram sobre os Incas, que como devem saber é o nome da elite governante que erroneamente usamos pra todo o povo, sua ascensão e a escravização de outros povos, herdeiros estes da Tradição dos antigos.
Afirmaram que os antigos foram para outros mundos e que ainda hoje visitam este mundo. Afirmaram que o tempo dos Incas é história recente e já decadente. Uma das coisas que guardei foi quando ainda na Van, indo para esse lugar, que fica dentro da cidade mesmo, o motorista me disse que embora os espanhóis e os Incas antes deles (isso chamou minha atenção) tivessem tentado roubar-lhes sua herança espiritual eles haviam resistido e continuaram resistindo até o momento de revelarem de novo ao mundo seu saber.
Ele se dizia parte de um grupo de guardiães de um saber ancestral. Sou cético por natureza e treinamento, assim quando entrei no templo subterrâneo, quando ouvi o que me disseram e participei do rito minhas resistências cederam. Participei de um rito com eles que um dia escrevo sobre, ainda hoje não tenho total lembrança do mesmo. Só sei que saí dali já de noite, não era nem meio dia quando entrei, com uma fome de leão e encontrei meus amigos preocupados com meu paradeiro. Tal vivência me deixou convencido que disfarçados no cotidiano, os (as) guardiães (ãs) do saber das Idades permanecem em seu trabalho.
No outro dia o mesmo motorista nos levou até a estação de Trem onde íamos pegar o trem até um ponto a partir do qual íamos pela trilha. (dessa vez não íamos fazer a trilha inteira , mas parte dela).
Na hora de despedir ele pegou minhas duas mãos, olhou firme nos meus olhos e disse que estava me passando uma energia especial que ia me permitir entrar em sintonia com os do povo dele que ainda habitavam aquelas montanhas. De fato tive sonhos incríveis durante a trilha, esclarecedores. Assim percebo que as linhagens continuam a existir guardadas pelos seus pilares, que estão por aí, nunca se proclamando desnecessariamente.
Espero ter ajudado a esclarecer esta diferença entre uma Escola Iniciática, uma tradição, uma linhagem e uma sociedade secreta.
Resumindo: Uma linhagem é a manifestação de uma tradição através dos tempos.
Uma escola é a ação direta ou indireta de uma linhagem dentro de um momento e lugar com objetivos específicos.
Fonte: Pistas do Caminho

Exposição: Antífona

O Museu Afro Brasil, instituição da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, inaugura no próximo dia 26 de fevereiro a exposição Antífona de Gal Oppido. São 27 registros de rostos e corpos de intensa feminilidade produzidos como forma de retomar a discussão sobre o papel da mulher da atualidade. Cada uma das fotos apresenta mulheres com personalidades e características diferentes, traduzindo a visão do artista sobre o feminino liberto. “ A mulher que recentemente tem sua sexualidade afirmada igualitariamente perante uma sociedade até então de acento masculino, abrindo um horizonte para a compreensão dos inúmeros vínculos afetivos possíveis entre os humanos”, explica Gal.
Para conceituar este novo trabalho, e o sentido de liberdade que ele impõe, o fotógrafo mergulhou na obra do poeta Cruz e Souza, de onde emprestou o título da exposição. “Ele (Cruz e Souza) de vasta erudição dirige sua crítica para esta sociedade serpenteada pelo racismo, preconceito e discriminação, sem abandonar o seu fazer poético, donde escolhi o poema Antífona, para animar as imagens resultantes deste ensaio”, conclui.
Fotógrafo ensaísta, Marcos Aurélio Oppido é nome marcante quando o assunto é a fotografia aplicada às áreas de artes cênicas, expressão corporal e arquitetura. Expondo desde 1981, seus trabalhos integram acervos do MASP, MAM e MIS.
Formado em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP), em 1975, Gal inicia sua carreia aliando a fotografia ao desenho, fortalecendo-se anos depois como fotógrafo independente. Conhecido por seu trabalho extremamente autoral, explora o corpo, a efemeridade do tempo, a simbologia de objetos abandonados e a relação do homem com a matéria.
Museu Afro Brasil
Av. Pedro Alvares Cabral, s/n - Parque Ibirapuera Portão 10 São Paulo/SP
De ter a dom das 10h as 17h.
Nota: Tire um tempo a mais para visitar o museu. Peças incríveis mostrando a enorme riqueza cultural trazida pelos africanos.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Redescoberto o Altar dos Doze Deuses

A reforma na linha férrea na região ateniense entre Monastiraki e Thisseio trouxe à tona uma das mais excitantes descobertas arqueológicas dos últimos anos. Arqueólogos acham que as ruínas achadas durante a construção na área da antiga Agora, no noroeste da Acrópolis, pertence ao famoso Altar dos Doze Deuses, um dos monumentos mais antigos de Atenas e um marco da cidade antiga, do qual todas as distâncias eram medidas.
O achado criou muita excitação entre arqueólogos gregos, que acham que isto vai mudar o mapa da antiga Atenas como conhecemos.
O Altar dos Doze Deuses está quase completamente enterrado debaixo das linhas do trem. A companhia de trem não pretende dar aos arqueólogos o tempo que precisam para coletar evidencias ou fazer planos para lidar com ele. De acordo com os arqueólogos eles estão 100% certos sobre a identidade do achado, porque o altar é um dos monumentos atenienses que tem sido melhor descrito pela literatura.
De acordo com Tucídides, o Altar dos Doze Deuses foi fundado durante a tirania de Pisístrato pelo seu neto e filho do tirano Hípias em 522-521 AC, marcando o centro da antiga cidade.
O Altar dos Doze Deuses foi parcialmente destruído durante um ataque Persa no período de 480-479 AC e não foi reconstruído até muitas décadas depois, conforme evidencias encontradas durante a escavação da antiga Agora.
Próximo da Era Moderna, em 1891, quando a linha férrea estava sendo construída, apenas uma pequena parte da Agora foi escavada e bem poucos monumentos vieram á tona. Na época, nem os arqueólogos nem a companhia tinham qualquer idéia quais relíquias estavam arriscadas a serem destruídas no processo de construção e então eles falharam em tomar qualquer providência em prevenir qualquer dano.
Entretanto, arqueólogos dizem que a despeito da extensão do trabalho efetuado no período, pouco dano foi causado enquanto a companhia construía a linha um pouco acima de onde o altar está localizado.
A evidencia dada pelos arqueólogos é esclarecedora: a escavação de fossas para escorar as paredes laterais da seção da linha férrea em 1891 destruiu a área em volta do altar e trouxe à tona pequenas seções do altar. Mais tarde, escavações de arqueólogos em 1934 na antiga Agora começou a revelar mais partes do altar bem como o peribolos, ou pátio, que ajudaram os arqueólogos a identificá-lo seus achados foram confirmados mais recentemente pela descoberta de uma estátua com uma antiga epígrafe sugerindo que a estátua foi encomendada pelo antigo aristocrata ateniense Leagros ao escultor Glaukos para honrar os Doze Deuses do Olimpo.
Muitas questões continuam intrigando os especialistas que esperam que novas escavações no sítio revelem tudo. Suas esperanças, entretanto, podem ter vida curta se a companhia continuar com a reforma como planejado.
Esta descoberta reiniciou a disputa de jurisdição que tem sido a maldição de muitas construções na Grécia e também tem selado o destino de muitas áreas de interesse histórico.
Arqueólogos insistem que futuras escavações na área podem contribuir significantemente para mais descobertas sobre a topografia e vida da antiga Atena.
Eles acham que se permitirem enterrar novamente o Altar dos Doze Deuses não só irá abrir um precedente mas também fará uma marca negra na sociedade grega e na atitude dela com sua herança antiga.
Se o Altar dos Doze Deuses for enterrado de novo é admitir, como sociedade, que nós falhamos em cumpri com nosso dever, que nós permitimos que outros nos digam como gerenciar nosso legado antigo e o entregamos aos que venderam sua consciência em troca de bens materiais, acrescentou Angelos Matthaiou.
Fonte: Ekathimerini

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Reue, o Dyaus Pater lusitano

Reue é uma das Deidades Cujo culto ocorre no mesmo território que o de Bandua. Assim, para começar, devemos considerá-Las como Deidades diferentes. Na nossa opinião, os mais fortes argumentos apontam para a eventualidade de Reve ser equivalente ao Deus romano Júpiter ou ao Deus gálico Taranis. Isto é em primeiro lugar baseado nas associações do Deus com certas áreas montanhosas, como se vê numa inscrição que liga o Deus indígena Reve a um item geográfico do norte de Portugal, a montanha do Larouco, que do alto dos seus 1538 metros, domina toda a região circundante. Esta inscrição, de Baltar, Orense, foi dedicada a Reue Laraucus, enquanto noutra inscrição, encontrada em Vilar de Perdizes, Montalegre, Vila-Real, Laraucus Deus Maximus é mencionado. Esta última inscrição foi encontrada juntamente com outra contendo uma referência alusiva a Júpiter. Ambas as inscrições partilham um número de características formais e foram encontradas muito perto da montanha. Portanto, estes achados implicam que o Deus Reue pode ter sido identificado com o Deus supremo dos Romanos, Júpiter.
O altar vem de Guiães, Vila-Real, muito perto do alcance da Serra do Marão e foi dedicada a Reue Marandicui, o que sugere uma relação entre o epíteto do Deus e o nome da montanha. Isto pode ser outra área montanhosa a representar uma possível base da Deidade lusitano-galaica Reue. Estes não são os únicos casos nos quais Reue aparece ligado a importantes montanhas. A natureza sagrada deste local é confirmada pelo achamento de catorze altares votivos sem inscrições na base da montanha, longe de quaisquer áreas povoadas.
Em várias dedicatórias a Júpiter, os apelativos referem-se a montanhas ou a áreas elevadas. Um exemplo é o de Iuppiter Candamius, citado numa inscrição encontrada em Candanedo, León. A inscrição foi encontrada numa área montanhosa e além disso o epíteto do Deus também deriva do nome da montanha. Esta informação revela o laço entre a Deidade e esta montanha, cujo nome, de acordo com Albertos, é derivado de *kand- «brilhar, arder ou faiscar». Pode assumir-se o mesmo para a dedicação a Iuppiter Candiedo, cuja exacta origem é desconhecida, e Iuppiter Deus Candamus, mencionado numa inscrição encontrada na parte exterior de um muro em Monte Cildá, Olleros de Pisuerga, Palência.
Argumentos similares podem ser usados para estabelecer que esta mesma característica religiosa está escondida dentro de outra denominação nativa, Salamati. Em primeiro lugar, Salamati está directamente relacionado com o nome moderno da área montanhosa de Jálama (1492 metros), que na Antiguidade era chamada Sálama. Sálama provavelmente cobria a área da Serra da Gata até à Serra da Malcata ou à Serra de Las Mesas, muito perto dos locais onde as inscrições foram encontradas. Em segundo lugar, se a interpretação de Melena estiver correcta, o nome Salamati aparece numa inscrição como D(eus) O(ptimus). Portanto, de acordo com a informação disponível, a teoria mais provável é que Reue, tal como o Deus Júpiter dos indígenas, está associado com sítios montanhosos onde o Seu poder e as Suas funções são claramente reveladas.
Esta relação é apoiada pela localização de vários altares nestas montanhas ou nas imediações (num caso, uma inscrição foi encontrada junto a outra dedicada a Iuppiter), e pelas referências ao Deus com epítetos derivados dos nomes das montanhas mencionadas acima.
As provas a respeito da Deidade Salama são similares às que existem para Reue. Por conseguinte, a teoria de que existia uma associação entre Salama e Reue pode ser sustentada tendo em conta o facto de que os territórios onde ambos os Deuses eram adorados não se sobrepunham, eram em vez disso complementares. Acresce que ambos os Deuses coexistiram com o mesmo grupo de Deidades em cada uma das Suas áreas. Portanto, Salama poderia simplesmente ser um apelativo de Reue.
Em acrescento à ligação entre Reue e as áreas montanhosas, pode também estabelecer-se uma ligação com correntes de rios. De facto, a raiz *Sal-, além de se relacionar com montanhas, poderia também ser interpretada como «corrente de água». Esta raiz está bem representada nos hidrónimos europeus, pois que alguns deles aparecem com o sufixo -am, tais como o rio francês Salembre, que no século XII era chamado Salambra. Um número de exemplos disto é também conhecido na Península Ibérica, alguns deles relevantes para a nossa teoria. Estes incluem o Salamanquilla, em Toledo, ou o Salamantia, provavelmente o nome antigo do rio Tormes e possivelmente a origem do topónimo Salmantica (Salamanca).
A associação com rios é claramente confirmada pelo teónimo Reue. De acordo com Fita, Reue era provavelmente uma Deusa que representava a deificação do rivus, ou corrente, e provavelmente tinha o mesmo significado que a palavra feminina francesa rivière (rio) ou a catalã riera (ravina). Blázquez, embora com algumas reservas, aceitou que esta Deidade tivesse algum tipo de associação com a água.
De acordo com Villar, Reue deriva da raiz *reu-, que provavelmente significa «fluir, corrente, rio ou água corrente». Villar também mostrou, com alguns sólidos argumentos e numerosos exemplos, que a maioria dos apelativos de Reue expressam provavelmente não apenas o género masculino do Deus mas também a Sua ligação a certos rios.
Do estudo do teónimo e epítetos de Reue, Villar conclui que Reue foi usado como apelativo para «rio», mas «gradualmente o Deus deixou fr ser a mesma realidade física que o rio e mudou, convertendo-Se numa entidade pessoal ou carácter divino, que habitava o rio e era o seu protector ou senhor.»
Em suma, além da associação de Reue com sítios montanhescos, uma ligação entre Reue e os rios pode também ser vista a partir da análise etimológica do Seu teónimo e dos epítetos. Esta segunda associação com rios é similar em natureza à das montanhas, o que é o mesmo que dizer que os vales dos rios eram provavelmente lugares onde o poder da Deidade seria mais evidente, portanto onde o crente sentiria um mais forte contacto espiritual com a Divindade.
Vários autores notaram já que um significativo número de colunas dedicadas a Júpiter que foram encontradas em fontes ou rios nas províncias gaulesas e germânicas. A relação entre estes monumentos e os canais de água foi posteriormente explorada por Drioux no seu trabalho em território dos Lingones.
A chave, segundo estes investigadores, reside no significado mitológico e religioso da imagem esculpida na parte superior das colunas. Um cavaleiro semelhante a Júpiter é mostrado a conduzir a sua montaria contra um monstro reptilínio numa cena de óbvias afinidades com o mito védico da confrontação entre o Deus Indra e o demónio Vritra (Rig-Veda 3, 33; 4, 18). Todavia, Indra aparece neste mito como o «conquistador das águas», enquanto a Divindade que regula e manda as águas ao homem era o Deus supremo indo-iraniano Varuna.
Os mitos que incormporam a luta entre o Deus da Tempestade e o dragão, ou uma serpente anfíbia com características antropomórficas, são muito características não apenas das áreas célticas e indo-iranianas, mas são também encontradas em diferentes religiões indo-europeias. Baseados nos argumentos mencionados acima, podemos prontamente concluir que Júpiter, o Deus supremo dos Galo-Romanos, tinha uma garantida associação com os rios e que esta relação era mais forte em certos lugares, tais como confluências de rios-fontes. A natureza desta relação deriva provavelmente do facto de que nesses lugares, uma das principais funções da Deidade era realizada. Esta função por um lado a de benfeitor e garante das chuvas e da sobrevivência da comunidade e, por outro, a de criador das tempestades e das cheias catastróficas. É lógico que nesses lugares onde o crente poderia melhor aperceber-se do poder do Deus, o culto era expresso através da erecção de altares votivos, colunas monumentais ou através da construção de santuários.
De acordo com estas noções, pode-se afirmar etimologicamente que o teónimo Taranis, associado ao de Iuppiter na Gália, está ligado aos rios.
Traduzido [pelo Caturo]e adaptado de Celtic Gods of the Iberian Peninsula, de Juan Carlos Olivares Pedreño, Universidade de Alicante.
Fonte: Gladius
Nota: O tipo mitológico de um Deus Tempestade que luta contra um Deus [ou Deusa] Serpente ou Dragão está presente em toda a região conhecida como Crescente Fértil.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Deus social

As guerras particulares de El são para estabelecer sua liderança na família dos Deuses. Suas guerras são contra seu pai Samen (Céu) pelo bem de sua mãe perdida Ars (Terra), os dois, Céu e Terra, são os últimos pares teogônicos. El toma sua irmã por esposa e emascula seu pai. Os paralelos com a Teogonia de Hesíodo são próximos: Terra, pelo seu primogênito Céu gerou os grandes Deuses, entre eles Réia e Cronos. Foi Cronos quem, em defesa de sua mãe Terra, emasculou o Céu. Zeus, o filho de Réia e Cronos guerreou contra seus parentes e os venceu, prendendo-os no submundo. Similarmente, no mito de Kumarbi, ele emasculou seu pai Anu (Céu), que em seu tempo aprisionou seu pai Alalau no submundo. O mais extraordinário exemplo do que nós podemos chamar de motivo patricídio-incesto é achado em uma teogonia recentemente publicada. Através de seis gerações de pares teogônicos, o poder é passado através do patricídio e do incesto. Na Segunda geração, o jovem Deus Sumuqan mata seu pai, casa-se com sua mãe Terra e sua irmã Mar por cortesia. Mar também matou sua mãe e esposa rival Terra. Na terceira até a sexta geração o jovem Deus mata o patriarca (duplamente sua mãe também) e regularmente se casa com sua irmã (apenas na terceira geração ele se casa também com sua mãe). Na sétima geração o jovem Deus mantém seu pai cativo. [...]
A existência dessa forma barroca do padrão patricida e incestuoso dos mitos teogônicos deveria estabelecer de uma vez por todas a sucessão dos Deuses.[...] O padrão de violência na geração dos Deuses antigos acaba na transição aos grandes Deuses do culto, quem finalmente estabelece a paz.
Os mitos de El apresentam estruturas estáticas ou eternas que constituem a natureza e a ordem da sociedade patriarcal. [...] Na família cósmica dos Deuses o patriarca sempre fica entre o Deus velho (ou morto) e seu filho lascivo e ambicioso. Esta é a estrutura que o mito descreve, uma estrutura primordial. Os pares teogônicos mais velhos, ao menos de inicio, devem ser inevitavelmente incestuosos. Além do mais, a sociedade patriarcal criou modelos nos quais a tentação do incesto de um lado e a revolta contra o pai do outro constantemente ameaça a paz familiar.
Nós vemos El como a figura do pai divino[...] A única imagem de El que une todos seus mitos e o do patriarca. Ao contrário dos grandes Deuses que representam os poderes por detrás do fenômeno da natureza, El é em primeira instância um Deus social. Ele é o pai primordial dos deuses e dos homens, às vezes rígido, freqüentemente compassivo, sempre sábio no julgamento.
[...]
El é criador, o mais antigo, cujos extraordinários poderes procriativos populou o céu e a terra e há poucas evidências que seu vigor tenha diminuído. [...] El descansa agora das guerras antigas nas quais ele ganhou a autoridade patriarcal.[...] a principal esposa de El, a mãe dos Deuses, está ocupada com intrigas familiares. El aparenta afeto a ela, mas os textos do hiero gamos de El revelam que ele freqüentemente se volta para esposas mais jovens. Suas três consortes principais são sua duas irmãs Asherah e Astarte e sua filha Anat.[...]
Traduzido do livro Canaan Myth and Hebrew Epic, Frank Moore Cross, pg. 41 a 43.
Nota: Este é o trecho mais interessante do livro, pois El é, a grosso modo, o avô do Deus Cristão. Foi o ser humano, por vaidade e orgulho, que distorceu e adulterou os mitos primordiais e originais de seus Deuses, unicamente para atender a projetos e agendas pessoais. O resultado, para os povos e os reinos que o fizeram foi, invariávelmente, a destruição, a miséria e a escravidão.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Bandua, divindade lusitana


(...) Bandua, uma das principais Divindades adoradas nesta área [Lusitânia] Cujo culto se estendeu também à Callaecia. Bandua é a versão mais tradicional do nome embora Pedrero (1997: 540) tenha recentemente proposto que o nome mais provável será Bandu. Temos de salientar que não foram encontrados registos relativos a esta Deidade em quaisquer cidades com evidência de alto grau de romanização. Os altares a Bandua estão localizados a uma certa distância destas cidades e, em vários casos, em pequenos enclaves fortificados tais como o Castro do Mau Vizinho, Sul e S. Pedro do Sul, Viseu, que é dedicado a Bandua Oce...
(...)
Podemos estabelecer que no território lusitano-galaico, Bandua é a Deidade nativa mais vezes citada juntamente com epítetos referentes aos vici, pagi ou castella, de maneira que se pode concluir que havia uma relação muito especial entre este Deus e as comunidades indígenas de baixo estatuto. No que diz respeito à grande proporção de dedicatórias a Bandua com epítetos que caracteriza a Deidade como estando associada a diferentes povoados, há uma total ausência de quaisquer apelativos desta Deidade em relação a grupos familiares, tribais ou de clã. Além disso, um vasto número de epítetos de Bandua são desconhecidos, e entre eles poderiam ser encontrados alguns apelativos de família; isto, obviamente, não pode ser confirmado pelas provas actuais.
Quando se investiga o significado religioso de Bandua, é muito importante salientar o facto de que nas provincias gálicas, onde as Deidades nativas foram associadas a Deuses romanos, a Deidade que está mais relacionada através dos seus epítetos com centros populacionais é Marte. Acresce os apelativos indígenas deste tipo na Hispânia constituem vinte e quatro por cento do número total referentes a este Deus. Isto representa uma proporção muito elevada, muito diferente das percentagens registadas para as outras Deidades. Estes números reflectem o facto de que Bandua na Hispânia e o Deus Marte indígena da Gália são as Deidades menos frequentemente adoradas por mulheres. Na Hispânia, de todas as dedicatórias nas quais o sexo do adorador é conhecido, apenas uma das trinta e quatro (três por cento) dedicatórias conhecidas a Bandua é atribuída a uma mulher, enquanto a norte dos Pirinéus, apenas dez inscrições (cinco por cento) de um total de cento e noventa e nove inscrições a Marte são da autoria de mulheres. Esta percentagem é muito mais baixa do que aquela que existe em relação a outras Divindades, algo que pode ter a ver com o carácter destas Divindades: o de protectores de comunidades locais, dos vici e dos pagi.
A polarização religiosa que pode ser identificada entre os diferentes locais mostra uma relação directa com o estatuto (normalmente administrativo) destes locais. Como já vimos, nenhum apelativo de Bandua se refere a municipia ou a capitais de civitates. Por conseguinte, focando as áreas onde as provas relativas a esta Divindade foram claramente registadas, pode ser visto que praticamente todos os achados vêm de lugares, frequentemente vici ou castella, localizados relativamente longe das principais ou mais romanizadas cidades. Pensou-se que Bandua, como defensor de comunidades locais, tinha um carácter bélico. No entanto, com o declínio do poder político dos castella e a centralização deste poder em certos e determinados oppida romanizados, o carácter e significado público e guerreiro de Deidades como Bandua começou a perder-se e estes Deuses mantiveram apenas a Sua função de Deuses protectores de indivíduos dos vici, pagi e castella, que se tinham tornado agora identificados como grupos sociais de seu pleno direito.
Em suma, foi nestas comunidades tais como os castella, os vici ou os pagi que os habitantes nativos continuaram a confiar a sua protecção às Deidades dos seus ancestrais, enquanto nos novos municipia ou em cidades capitais de civitates as Divindades guardiãs romanas estavam a tornar-se progressivamente mais estabelecidas através do patronato das elites nativas.
(...)
Traduzido e adaptado de Celtic Gods of the Iberian Peninsula, de Juan Carlos Olivares Pedreño, Universidade de Alicante.
Fonte: Gladius

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A Linha do Sangue

A idéia da transmissão de uma linhagem como é visto dentro do Ofício é complexa. É uma transmissão no sentido original e tradicional e não simplesmente a trasmissão de costumes em um ambiente social. A transmissão em si mesma confere poder e memória enquanto se relaciona a uma consciência particular que remete à origem da criação. A linhagem repousa no sangue e a memória que é passada em virtude do sangue é da mesma ordem da sabedoria divina mantida por anjos e dadas às mulheres. Esta memória vem com um poder criativo que separa o sábio do mundano e do profano. Uma rebelião vem com o poder do sangue, não uma rebelião em premissas antinomiais - mas uma rebelião contra o profano e o vulgar. Está no sábio ir contra a pequena rebelião contra as idéias modernas de progresso. Ser o sujeito de uma transmissão autêntica do sangue maldito indica uma recepção desta potência. Esta recepção é de uma procedência profética que acelera a intuição onírica e memórias veladas em uma grande recordação de quem nós somos. Esta lembrança acelerada pelo sangue e linhagem repousa em princípios tradicionais, que é explicada de forma simples por Maimônides:
"A fundação de toda fundação e o pilar de toda sabedoria é saber que há Deus que criou todas as coisas. Todas as coisas do firmamento e da terra e do que há no meio disto veio a existir apenas pela verdade da existência de Deus".
É a memória do início que atiça naquele que recebeu a transmissão - e disto a conduta da maestria do Destino é liberada no mundo. Esta transmissão pode ocorrer pelo trabalho com uma tocha ardente, que indica a iniciação em um clan ou família de sangue compartilhado. Aqui as doutrinas da lei primordial são postas de lado para o sábio e o caminho pode ser abraçado com facilidade e o Destino ser dominado com eloquência. Para alguns o sangue acelera em um instante como o lampejar de um trovão dá a vida a uma alma e o renascer ao original é realizado como a pele do velho é deixado para trás assim que a jornada pelo mundo à busca da parentela. Com a terra e anjos, plantas e ventos como guias, o caminho é percorrido como o sangue flui no caminho e na alma.
A transmissão é como reascender uma vela feita do sangue do primeiro dragão e cera - este é o começo da sabedoria. Esta sabedoria desafia o dogma e a ordem cultivada da civilidade em favor da liberdade indômita da alma aceitando seu destino singular. O sábio vê na natureza o templo supremo - a casa de Deus, onde Ela se revela na mais úmida beleza. Ela é a memória do solo e Dela nasce toda a diversidade. Ela é a mãe da nimfa, planta, lobo e pássaro. Rainha das Rainhas que se une com o firmamento.
Hoje, na Noite da Candelária, Ela abre a porta para seus segredos e dá as boas vindas aos peregrinos em sua porta. Hoje os peregrinos no caminho sangrento do mistério pegará uma única vela de cera de abelha e na árvore mais velha na terra, os pedidos de agradecimento serão ditos em honra ao dragão do submundo e às mães cujos restos descansam na luz das terras sombrias.
Fonte: Speculum Celestae

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O resgate do princípio feminino

Divulgado pelas Musas Nana Odara, Rosa Leonor e Gaia Lil, devidamente copiado e postado do original:
O poder é uma das características fundamentais do masculino no homem e na mulher. O poder na forma de dominação, entretanto, representa uma patologia. Por isso, nossa civilização, estigmatizada pela dominação em quase todas as áreas, produz a inflação do masculino, do patriarcalismo e do machismo. São produtos do patriarcado o tipo de ciência que praticamos e o tipo de desenvolvimento que operamos. Ambos são reducionistas, fragmentados e excludentes da natureza e da mulher. Nesta forma, o poder-dominação não desumanizou apenas os homens, mas também as mulheres. Os homens recalcaram sua dimensão de anima e não permitiram que as mulheres realizassem sua dimensão de animus.
Em razão dessa errância, fica claro que a questão do masculino, nos dias de hoje, reside no feminino negado, reprimido ou não integrado. Para ser plenamente humano, o homem precisa reanimar nele o seu feminino e reeducar o seu masculino. Somente então podem ambos, homem e mulher, entreter relações civilizatórias, humanitárias e realizadoras do mistério humano feminino-masculino.
A grande tarefa civilizacional, talvez a mais urgente nos dias atuais, consiste no resgate do princípio feminino. Chamo atenção para o fato de que não falo de categoria feminino/masculino, mas de princípio feminino/masculino. Afasto-me decididamente da ideologia do gênero, sexista, baseada no sexo biológico, que constrói social e culturalmente as categorias do masculino e do feminino de forma dualista e excludente. Ela distribui os papéis, os valores e os antivalores: a criatividade, a atividade e a violência tributados ao masculino; e a passividade, a receptividade e a não-violência, ao feminino.
Precisamos ultrapassar essa visão excludente e entender a sexualidade num nível ontológico, não como algo que o ser humano tem, mas como algo que ele é. O masculino não diz respeito somente ao homem, mas também à mulher. O feminino não ganha corpo apenas na mulher, mas também no homem. Esse feminino representa o princípio de vida, de criatividade, de receptividade, de enternecimento, de interioridade e de espiritualidade no homem e na mulher. Portanto, trata-se de um princípio inclusivo e seminal que entra na constituição da realidade humana.
O resgate do princípio feminino junto com o do masculino propicia uma nova inteireza à humanidade, ao transcender as distorções na relação homem-mulher e ao ultrapassar o sexo biológico de pertença. Significa não somente libertação dos humanos, especialmente da mulher, mas também da natureza e das culturas não estruturadas no eixo do poder-dominação, equiparadas ao fraco e ao frágil - portanto, ao feminino cultural.
A recuperação do princípio feminino permite um processo de libertação mais integral e verdadeiramente includente, pois parte do feminino oprimido. O oprimido tem um privilégio histórico e epistemológico pelo fato de possuir uma percepção mais alta que inclui o opressor enquanto ser humano. O opressor exclui o oprimido, pois o considera uma coisa ou um ser humano menor, subordinado e dependente. A libertação deve começar pelo oprimido para acabar com o opressor. Só então ambos se encontram sobre o mesmo chão comum, como humanos, construindo juntos, na igualdade e na diferença, a sociedade e a história.
A inclusão do princípio feminino obrigará toda a cultura masculinizante a questionar seu paradigma fundacional. Ele radica-se no poder-dominação, hoje vastamente em crise. O pensamento da crise, no interior do mesmo paradigma, não pode trazer soluções. O veneno que mata não pode ser o remédio que cura. Os únicos que podem oferecer algo alternativo e terapêutico são aqueles que foram vistos como incapazes de pensar, por não serem suficientemente racionais e produtivos. Ora, os que pretendiam trazer as luzes (os iluministas) nos conduziram às trevas atuais. Os que se propunham a difundir a razão, a ciência e a técnica por todos os quadrantes nos estão conduzindo ao pior, à destruição e ao desaparecimento.

O princípio feminino é sanador e libertador, pois se move num outro paradigma e opera numa outra lógica. Seu paradigma básico é a vida, e não o poder; o respeito e a veneração pela vida, e não a agressão e a dominação. A lógica da vida não é a redução e o isolamento, arrancando os seres do seu meio real e analisando-os em si mesmos ou manipulando células, genes e microorganismos fora de seu ecossistema. A lógica da vida é a complexidade, é a teia de interações em todas as direções e em todos os lados, é a sinergia e a panrelacionalidade.
Ora, o feminino consiste na capacidade de viver o complexo, de elaborar sínteses, de cultivar o encantamento do universo, de cuidar da vida, de venerar o mistério do mundo, de elaborar um desenvolvimento com a natureza, e não contra ela, de alimentar o esprit de finesse para contrabalançar o esprit de géometrie.
O feminino - porque obedece à lógica do complexo e porque naturalmente é inclusivo - representa o único caminho para a humanidade, para um planeta sustentável e para a convivência pacífica e solidária entre o Norte e o Sul.
A introdução do princípio feminino representa um desafio ao paradigma machista, cujo desenvolvimento e prática técnico-científica implicou o domínio, a destruição, a violência, a expropriação e a marginalização da mulher e da natureza, hoje considerados supérfluos. O princípio feminino propicia uma economia política da vida, devolve importância à natureza, resgata o sentido da Terra como Grande Mãe, superorganismo vivo, Gaia e Pachamama. Ele se transforma num caminho não violento de interpretação e transformação do mundo, num reforço de todos os processos sinergéticos que respeitam a diversidade e que nela buscam convergências que interessam a todos, o bem comum humano e sociocósmico.
O homem que evoca em si e integra sua dimensão de anima incorpora, junto ao seu vigor, a ternura; junto ao trabalho, a gratuidade; junto à razão, a emoção; junto ao logos, o pathos e o eros. Ele emerge mais humano, relacional e liberto das malhas que o desumanizavam e desumanizam a mulher e a natureza. Agora, diferentes e juntos, podem construir o humano de forma mais dialética, tensa, dinâmica, aberta a novas e surpreendentes sínteses.
Autor: Leonardo Boff
Fonte: Grupelho

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A porta secreta para o Eden

O documentário "Sexo, a Porta Secreta para o Éden" foi feito por uma instituição gnóstica baseada nos ensinamentos do Mestre Samael Aun Weor fala sobre a Magia Sexual, o Arcano AZF, o Grande Arcano da Magia.
O Mestre Samael publicou sobre tal assunto pela 1ª vez nos idos da década de 50 através de livros tais como O Matrimônio Perfeito e a Revolução de Belzebu, dando origem a mais de 70 obras escritas pelo Mestre. Quando publicou tais obras falando abertamente de sexo e espiritualidade foi preso, acusado de atentado ao pudor e coisas do gênero.
De lá para cá muita coisa já aconteceu e o ensinamento precisa ser atualizado. Especialmente nos seguintes pontos:
1 - um ensino mais voltado para a prática de transmutação sexual para as mulheres, pois o foco do ensinamento está todo no homem, como perceberão no documentário.
2 - uma linguagem mais objetiva, sem julgamentos de valor derivados da religião, onde conceitos como pecado e inferno impregnam o imaginário popular de uma forma muito negativa, pois assentam-se em culpa e medo.
3 - a coragem de criticar o trabalho de um homem tido como mestre, a partir da própria experiência com o ensinamento, reconhecendo que mesmo os mestres cometem erros, pois o próprio Mestre Samael teve a coragem de dizer que a maior parte de suas obras estavam cheias de erros, pois ele escrevia a medida que seu nível de consciência se desenvolvia. Aliás isso é algo natural. Tanto que ele mesmo, das mais de 70 obras que escreveu, autorizava, no fim de sua vida, a reedição das 7 últimas escritas.
4 - a compreensão de que orgasmo e ejaculação podem ser duas coisas distintas para o homem, e que no caso da mulher, é o controle da menstruação e não do orgasmo o foco do trabalho de transmutação. Aliás, esse último ponto é tão grave que vi várias companheiras da Gnose terem tido problemas de ordem psicológica por isso não ter ficado claro no ensino do Mestre e dos instrutores da Gnose, por completo desconhecimento das técnicas femininas de transmutação. Aliás, tais técnicas hoje podem ser encontradas no trabalho do mestre taoísta Mantak Chia.
5 - a necessidade de fazermos a nossa própria leitura da Bíblia e de outros textos sagrados e não ficar dependentes da interpretação de terceiros, mesmo que esses sejam mestres, pois precisamos buscar a nossa própria maestria, ou seja, nossa própria autonomia do pensar e do agir.
No mais reconheço, assim como tantos outros estudantes, a enorme tarefa e o enorme labor que o bodhisattwa do Mestre Samael cumpriu. Fica aqui registrado o nosso reconhecimento, nossa gratidão e nosso carinho já que trabalhamos por cerca de 8 anos dentro do Movimento Gnóstico.
Fonte: Pistas do Caminho
Nota da casa: Em muitas ocasiões eu lembro aos pagãos e aspirantes de bruxo de que a principal ferramenta que nós temos que aprender a usar está sempre acessível e gratuita: nosso corpo. Também não é novidade aos eventuais leitores que eu defendo o prazer, o desejo e o sexo como vias de iluminação, celebração e comunhão com o divino. Temos os meios, as técnicas e as ferramentas - nossos pruridos e recalques são os únicos obstáculos. Cabe a nós saber superar estes tabus e proibições.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dia de Yemanja

Direto das Blas Fêmeas:
Artistas como Otto, Pedro Luís, Clara Nunes, Rita Ribeiro e Marisa Monte também fizeram suas oferendas a Iemanjá
Cabelos negros, compridos e brilhantes, olhos pretos como jabuticaba, corpo delicadamente desenhado em curvas, vestes em azul e branco, cantar doce e sereno, alma calma e encantadora, essa é Iemanjá. Mãe de todos, Rainha do Mar, Iemanjá é agraciada por grande parte da população no dia dois de fevereiro. Também conhecida por Janaína, a Orixá, proveniente dos rituais africanos, principalmente do Candomblé e da Umbanda, é sincretizada religiosamente como Nossa Senhora dos Navegantes.
O nome Iemanjá ou Yemanjá, deriva da expressão ioruba “Yéyé Omo ejá”, que significa “Mãe cujos filhos são peixes”. A entidade se popularizou entre a maioria dos brasileiros, e em sua festa no segundo dia do mês de fevereiro, cristãos, adeptos do candomblé e umbandistas de muitos lugares do Brasil, se misturam e juntos caminham em procissão até chegaram ao destino final, a casa de Iemanjá, o mar. E é lá que depositam as oferendas para a Grande Rainha. Diz a lenda que Iemanjá gosta de receber flores brancas, espelhos, jóias, sabonetes e bonecas. Os presentes devem ser predominantes nas cores claras: azul e branco. O cantor e compositor Otto fala justamente disso em sua canção, “Janaína”.
Autora: Nathalie Hornhardt
“Dia 2 de fevereiro - dia de festa no mar”, segundo a música do compositor baiano Dorival Caymi. É o dia em que todos vão deixar os seus presentes nos balaios organizados pelos pescadores do bairro do Rio Vermelho junto com muitas mães de santo de terreiros de Salvador, ao lado da Casa do Peso, dentro da qual há um peji de Yemanjá e uma pequena fonte. Na frente da casa, uma escultura de sereia representando a Mãe d´Água baiana, Yemanjá. Desde cedo formam-se filas para entregar presentes, flores, dinheiro e cartinhas com pedidos, para serem levados à tarde nos balaios que serão jogados em alto mar.
É única grande festa religiosa baiana que não tem origem no catolicismo e sim no candomblé. (Dia 2 de fevereiro é dia de N.Sra. das Candeias, na liturgia católica, e esta Nossa Senhora é mais freqüentemente paralelizada com Oxum, a vaidosa deusa das águas doces).
Iemanjá, rainha do mar, é também conhecida por dona Janaína, Inaê, Princesa de Aiocá e Maria, no paralelismo com a religião católica. Aiocá é o reino das terras misteriosas da felicidade e da liberdade, imagem das terras natais da África, saudades dos dias livres na floresta (AMADO,1956;137)
Dois de fevereiro é - oficiosamente - feriado na Bahia. É considerada a mais importante das festas dedicadas a Yemanjá, embora Silva Campos narre que antigamente a mais pomposa festa a ela dedicada era a efetuada no terceiro domingo de dezembro, em Itapagipe, em frente ao arrasado forte de São Bartolomeu (SILVA CAMPOS, 1930;415). Odorico TAVARES (1961;56) narra que, nos outros tempos, os senhores deixaram seus escravos uma folga de quinze dias para festejarem a sua rainha em frente ao antigo forte de São Bartolomeu em Itapagipe. QUERINO (1955;126/7) confirma ser na 3a dominga de dezembro a festa comemorada em frente ao antigo forte de S.Bartolomeu, hoje demolido, “à qual compareciam para mais de 2.000 africanos”. Tio Ataré era o pai de santo residente na rua do Bispo, em Itapagipe, que comandava os festejos. Reuniam os presentes em uma grande talha ou pote de barro que depois era atirada ao mar. A festa durava quinze dias, durante os quais não faltavam batuques e comidas típicas baianas, com azeite de dendê. Hoje a festa do Rio Vermelho dura só o dia 2, prolongando-se pelo fim de semana seguinte, quando próximo.
SILVA CAMPOS conta também uma lenda de que no Rio Vermelho havia uma rendosa armação de pesca de xaréu sendo bastante abundante tal peixe alí. Certa feita, veio junto com eles na rede, uma sereia. O proprietário do aparelho, querendo viver em paz com a gente debaixo d´água fê-la soltar imediatamente. Anos depois, sendo outro o dono da armação, novamente caiu uma sereia na rede e eles resolveram pegá-la e levá-la, carregada por dois pescadores, para assistir missa na igreja do povoado (não se sabe se na de Santana ou na extinta capela de São Gonçalo). Ela ficou o tempo todo chorosa e envergonhada; terminada a cerimônia soltaram-na à beira-mar. Desde esse dia nunca mais se pegou um xaréu que fosse nas águas do porto de Santana do Rio Vermelho, apesar dos pescadores anualmente levarem oferendas à Mãe d´Água (SILVA CAMPOS, 1930;417).
O pintor Licídio Lopes, morador antigo do Rio Vermelho, conta em suas memórias que era “entre a praia do Canzuá e a da Paciência, por cima das pedras” que “havia uma gruta muito grande que os antigos diziam que era a casa da Sereia ou Mãe d´Água, porém ela não morava mais ali e a gruta estava abandonada” Esta gruta foi destruída por uma pedreira, na década de 20 do século XX, mas permaneceu a pedra da Sereia; na gruta e nesta pedra é que se botavam presentes para a Mãe d´Água ou sereia. Agora que não existe mais a gruta, botam presentes em todas as praias, e se dá preferência à maré enchendo ou cheia. Conta ainda que o grande presente para Iemanjá, no dia 2 de fevereiro, é uma idéia que não veio das seitas de candomblé, mas de um pescador, querendo reviver a festa do Rio Vermelho, já que a de Santana estava ficando menos concorrida. Decidiram dar um presente à Mãe d´Àgua no dia 2 de fevereiro. Pescadores e peixeiros se reuniram para organizar a festa que começava com uma missa na igreja de Santana de manhã e à tarde botavam o presente para a Rainha do Mar; houve problema com um padre que não gostou que se misturasse missa com presente para uma sereia e eles resolveram não celebrar mais missa e apenas botar o presente à tarde para Iemanjá. Mas como ocorressem algumas dificuldades e imprevistos, alguém lembrou que essa obrigação era feita na África, onde Iemanjá é mãe de todos os orixás. Como no Rio Vermelho não existisse na ocasião algum terreiro, foram procurar em outros bairros uma casa que se encarregasse das obrigações para dar o presente. A mãe de santo Júlia Bugan, que tinha casa de Candomblé na Língua de Vaca, perto do Gantois, foi quem orientou, dando uma nota para comprarem tudo o que era preciso. Fez os trabalhos e preceitos, colocou na talha que pedira e dentro do balaio, enfeitou com muitas fitas e flores e mandou-o para a casinha de pescadores no dia 2 de manhã. A partir de então continuaram fazendo sempre este preceito para tudo correr bem.
Em 1988, 89 e 90 o preceito foi realizado por Waldelice Maria dos Santos, do Engenho Velho da Federação (SANTOS,1990;28 e 34)
A partir de 1967 o Departamento de Turismo passou a ajudar. Em 1969 foi feito o pedestal junto à casa dos pescadores e colocada a estátua de uma sereia feita por Manuel Bonfim. (LOPES,1984;58/9 e 61).
No largo de Santana e cercanias armam-se muitas barracas, onde o devoto, depois de depositar sua oferenda, pode ficar tomando uma bebida, degustando as típicas e tradicionais comidas baianas, beliscando aperitivos e revendo os conhecidos e amigos, que sempre aparecem neste dia por lá.

Às 4 da tarde é que saem os barcos que levam os balaios cheios de oferendas a serem lançados em alto mar. Quando as embarcações voltam para a terra os acompanhantes não olham para trás, que faz mal. Diz a lenda, que os presentes que Yemanjá aceita ficam com ela no fundo do mar, e os que ela não aceita são devolvidos à praia pela maré, à noite e no dia seguinte, para delícia dos meninos, que vão catar nas praias os presentes não recebidos por ela.
AMADO (1956;136) conta que se Iemanjá aceitar a oferta dos filhos marinheiros é que o ano será bom para as pescarias, o mar será bonançoso e os ventos ajudarão aos saveiros; se ela o recusar,... ah! as tempestades se soltarão, os ventos romperão as velas dos barcos, o mar será inimigo dos homens e os cadáveres dos afogados boiarão em busca da terra de Aiocá.
Odorico TAVARES conta uma lenda iorubana que diz que quando Orungan, filho de Iemanjá, apaixonado pela mãe, tentou violentá-la, ela o repudiou e saiu correndo pelos campos, com o incestuoso ao seu alcance. Num dado momento ela caiu e seu corpo começou a crescer; dos seus seios saíram dois rios e seu ventre despedaçou-se dando origem a quinze orixás que regem os vegetais, o trovão, o ferro, a guerra, o mar, os lagos, rios africanos, a agricultura, os caçadores, os montes, as riquezas, a varíola, o sol e a lua (TAVARES,1961;53/4). CACCIATORE (1977;267) os nomeia, não na mesma ordem: Dadá, Xangô, Ogun, Olokun, Oloxá, Oyá, Oxum, Obá, Okô, Okê, Xampanã, Oxossi, Ajê Xalugá, Orun (sol) e Oxupá (lua).
No Brasil Yemanjá é orixá do mar e considerada mãe de todos os orixás de origem iorubá (os de origem daomeana - Omolu, Oxumaré e às vezes Exu - são tidos como filhos de Nanã).
VERGER (1987;50) narra a lenda africana de Yemanjá que era filha de Olokum, a deusa do mar. Casou-se, em Ifé, com Olofim-Odudua., com quem teve dez filhos que se tornaram orixás. De tanto amamentar os filhos, seus seios se tornaram imensos. Cansada da estadia em Ifé, fugiu para o oeste, chegando a Abeokutá. Ao norte desta cidade vivia Okere, rei de Xaki, que desejou desposá-la. Ela concordou, com a condição de que ele nunca ridicularizasse o tamanho de seus seios. Ele assentiu e sempre a tratava com consideração e respeito, mas um dia, voltando bêbado para casa, gritou para ela: “você com seus seios compridos e balouçantes! você com seus seios grandes e trêmulos!”. Yemanjá, ofendida, fugiu em disparada. Antes de seu primeiro casamento Yemanjá recebera de Olokum, sua mãe, uma garrafa contendo uma poção mágica pois, “nunca se sabe o que pode acontecer amanhã”; em caso de necessidade Yemanjá deveria quebrar a garrafa, jogando-a no chão. Em sua fuga, Yemanjá tropeçou e caiu, a garrafa quebrou-se, e dela nasceu um rio cujas águas levaram Yemanjá em direção ao mar, residência de sua mãe. Okere, contrariado, quis impedir a fuga de sua mulher e foi-lhe ao encalço. Para barrar-lhe o caminho transformou-se em uma colina, ainda hoje chamada Okere. Não conseguindo passar, Yemanjá chamou Xangô, o mais poderoso dos seus filhos. Ele pediu uma oferenda e, recebida, disse-lhe que no dia seguinte ela encontraria por onde passar. Nesse dia Xangô desfez os nós que prendiam as amarras das chuvas e as nuvens começaram a se reunir; Xangô então lançou seu raio sobre a colina Okere, ela abriu-se em duas, e as águas do rio de Yemanjá atravessaram a colina e a levaram até o mar, onde ela resolveu ficar e não voltar mais à terra.
Yemanjá é festejada em muitos locais na Bahia. Vive e é festejada na Ribeira, em Plataforma; na península de Humaitá, onde fica a igrejinha de Montserrate; na Gameleira, na ilha de Itaparica; no Rio Vermelho, frente à igreja de Santana, e em muitos outros lugares conhecidos pelos seus filhos e filhas de santo, que vão aí oferecer seus presentes e fazer suas obrigações.
Autora: Antonietta  de  Aguiar  Nunes
Aos irmãos descendentes da Diáspora Africana, Feliz Dia de Yemanja!