segunda-feira, 28 de março de 2011

Da "necessidade" de uma religião "evoluir"

Uma questão interessante e importante para se refletir, principalmente com tantos [pseudo]sacerdotes afirmando que uma religião deve mudar e evoluir:
"Como eu sempre digo, a Wicca hoje é muito mais do que os escritos de Gardner ou de quem quer que seja. O que várias pessoas fazem no mundo hoje é muito diferente do que aquilo que Gardner propôs um dia e isso não tem nada demais e não desmerece a Wicca de forma alguma. Só retrata o processo natural de evolução de uma religião!"
O que várias pessoas fazem não é do interesse do pagão, bruxo e wiccano sério, senão teríamos permanecido católicos ou seguido uma das muitas vertentes do Cristianismo. A Wica sempre foi mais do que Gardner ou outro autor escreve, mesmo porque nós não somos uma "religião de livro", só o Pavão vive estufando suas penas para promover seus livros como se fossem divinamente inspirados.

"Se a Wicca é uma religião que busca inspiração para sua espiritualidade na natureza, seria contraditório desejar que ela continuasse a ser praticada da mesma forma que era há mais de 5 décadas. Olhe a natureza e veja a evolução. Ela não pede nossa opinião e autorização para evoluir, nela a evolução simplesmente acontece. E o mesmo ocorre com uma religião, que é o resultado daquilo que outros um dia fizeram e pensaram e que seguramente teria mudado muito se as pessoas que a idealizaram ainda estivessem aqui."
A natureza não evolui. As espécies evoluem. Por processos ditados pela natureza. Uma religião não é um organismo e o que o autor propõe parece mais um estupro do que um cruzamento.
"Não precisa ir longe, é só ver quantas versões diferentes do Livro das Sombras existem, aquelas que foram escritas e rescritas pelo próprio Gardner entre a década de 50 e 60, com os adendos ou não de Doreen Valiente".
Para comparar LdS [Livro das Sombras], seria preciso ter acesso aos LdS. Apenas iniciados em linhagens tradicionais têm acesso aos LdS de covens pertencentes à WTB [Wica Tradicional Britânica], o que não é o caso do autor.
"Sobre minhas obras e minha visão, eu nunca chamei o que faço de 'Wicca Moderna', para mim é simplesmente Wicca e ponto. A questão de eu concordar ou não com uma religião não implica no fato de eu poder praticá-la ou não. Se fosse assim, os Cristãos teriam que estar praticando o Cristianismo primitivo até hoje e novas denominações não teriam surgido. Eles não mudaram o nome de sua fé somente porque alteraram aquilo que não concordavam em sua antiga religião e forma de praticá-la. Ainda se chamam de Cristãos. Se não fossem esses 'revolucionários', as missas ainda seriam realizadas em latim, sem que ninguém entendesse o que se era falado durante elas."
O autor não entende a própria religião, não entenderia a religião cristã. Quando alguém "não concorda" com uma religião, não tem como praticá-la, procura outra coisa. O que aconteceu com o Cristianismo foi mais um efeito social e político do que uma "evolução" da religião. O que aconteceu foi que diversos reinos católicos começaram a traduzir a bíblia para a língua local, além do latim, a única língua permitida pela Igreja. Nestes locais, cresceu um movimento para que qualquer pessoa pudesse ler e interpretar a bíblia, de onde surgiu o Protestantismo. As diversas vertentes contemporâneas do Cristianismo são fruto dessa livre interpretação e isto não consiste em uma evolução da mesma.
"Não acredito que 50 anos seja suficiente para deturpar ou evoluir nada. Até porque, qualquer coisas que evolui está em constante transformação, o tempo não para. A Wicca está em processo de evolução contínuo."
O autor usa esse argumento fajuto de que a Wicca está evoluindo para sustentar, embasar e impingir os valores, crenças e práticas dele, do seu coven e de sua "tradição".
Aproveito um texto divulgado no forum Amber and Jet [autor: Steph Brady] para esclarecer a questão:

1°) Ela [a religião] deve refletir os valores da sociedade mesmo quando a sociedade muda.
No texto integral, o autor cita o exemplo da segregação. A religão não mudou, o que mudou foram os hábitos e costumes das pessoas que são membros ou sacerdotes das mesmas. Infelizmente a segregação foi e é justificada ainda por leituras tendenciosas de livros, sagrados ou seculares. Haja visto o lamentável exemplo do Caturo e seu patente racismo, xenofobia e fascismo escamoteado como Neopaganismo.
2°) Ela deve ser relevante aos seus seguidores.
Definitivamente errrado. A religião deve ser relevante ao Deus ou Deuses que servem. Uma religião não pode ser um clube ou grupo social.
3°) Para uma religião crescer e prosperar ela precisa ter um processo de recrutamento eficiente.
Princípio básico do Paganismo, da Bruxaria e da Wica: Nós não fazemos proselitismo. A despeito disto, pelas formas nem sempre mais desejadas, nós somos o grupo que mais cresce.
4°) A religião precisa gerenciar continuamente sua percepção pública.
Os organizadores de templos, covens e grupos é que tem que ter essa preocupação em fazer uma boa assessoria de imprensa e relações públicas, reafirmando e esclarecendo os princípios e valores de uma religão. Não haveria muito o que fazer, nem sobre o que se sustentar, se uma religião transforma-se conforme o desejo de seus seguidores, praticantes e sacerdotes.
Nota final: O propósito de uma religião sempre foi a de servir ao Deus ou Deuses, não às vaidades ou objetivos pessoais das pessoas. Isto, quando acontece, é sinal de que o indivíduo está deparando com uma seita, ou pior, com um culto de personalidade.

sábado, 26 de março de 2011

Ateus, católicos e pagãos

Primeiro uma notícia direto das Blas:
Uma pesquisa baseada em dados do censo e projeções de nove países ricos constatou que a religião poderá ser extinta nessas nações. Analisando censos colhidos desde o século 19, o estudo identificou uma tendência de aumento no número de pessoas que afirma não ter religião na Austrália, Áustria, Canadá, República Checa, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e Suíça.
Através de um modelo de progressão matemática, o estudo, divulgada em um encontro da American Physical Society, na cidade americana de Dallas, indica que o número de pessoas com religião vai praticamente deixar de existir nestes países.
''Em muitas democracias seculares modernas, há uma crescente tendência de pessoas que se identificam como não tendo uma religião; na Holanda, o índice foi de 40%, e o mais elevado foi o registrado na República Checa, que chegou a 60%'', afirmou Richard Wiener, da Research Corporation for Science Advancement, do departamento de física da Universidade do Arizona.
O estudo projetou que na Holanda, por exemplo, até 2050, 70% dos holandeses não estarão seguindo religião alguma.
Modelo
A pesquisa seguiu um modelo de dinâmica não-linear que tenta levar em conta fatores sociais que influenciam uma pessoa a fazer parte de um grupo não-religioso.
A equipe constatou que esses parâmetros eram semelhantes nos vários países pesquisados, resultando na indicação era de que a religião neles está a caminho da extinção.
"É um resultado bastante sugestivo", disse Wiener. "É interessante que um modelo tão simples analise esses dados...e possa sugerir uma tendência."

"É óbvio que cada indivíduo é bem mais complicado, mas talvez isso se ajuste naturalmente", disse ele.[G1]
Em seguida, a reclamação do Jorge [Deus lo Vult]:
Os símbolos religiosos (nas repartições públicas inclusive) refletem a cultura de uma sociedade. E, queiram ou não queiram os ateus, não existe uma sociedade atéia natural. Nem nunca existiu, nem nunca é possível que exista, porque o elemento religioso é parte integrante da cultura humana.
O ateísmo é profundamente anti-natural, uma vez que o conhecimento de Deus pertence à natureza humana.
Meu comentário [com correções]:
"Jorge, desta vez eu tenho que concordar…em parte! };)
A proposta de “acabar com a religião” faz tanto sentido quanto propor acabar com a música, a poesia, o teatro.
O que eu discordo é quanto às intenções e motivos dos ateus. A motivação provém exatamente da constante mania da Igreja de se imiscuir em assuntos seculares.
A presença dos crucifixos, por exemplo, é resultado de uma imposição, não de uma confissão, por meio do uso da força e aculturamento, o que foi o caso dos aborígenes brasileiros.
Estes não desenvolveram uma cultura mais refinada porque não tiveram tempo. Mesmo os Europeus não estavam em uma situação melhor, antes da colonização romana. O que não quer dizer que nossos aborígenes sejam inferiores ou incultos. A mensagem de Cristo por acaso é “converta-se ou suma”? Se for, não é por acaso que quero distância dele.
Diga-se de passagem que, se os símbolos nas repartiçoes públicas devem ter uma relação com a história, o mais correto seriam símbolos pagãos.
E a civilização ocidental foi “segurada” exatramente por estes “bárbaros”, reis que ergueram seus reinos por cima das ruínas de Roma, a Igreja apenas pegou a oportunidade e tratou de firmar acordos e vínculos com estes reis."
Eu aproveito para descrever meu assombro e surpresa em ver, em blogs e comunidades pagãs, a reação e a preocupação com um livro publicado por um grupo católico sobre os perigos do Paganismo/Bruxaria/Wicca [com dicas de como nos converter]. Eu não estou preocupado com a possibilidade das religiões acabarem ou com projetos de conversão. Nós estamos bem aqui, mesmo depois de 19 séculos de censura, opressão e repressão. E vamos continuar por aqui. Graças aos Deuses!

terça-feira, 22 de março de 2011

A Deusa Cro-Magnon

Por ter crescido na Lituânia, Marija Gimbutas familiarizou-se com as tradições da Deusa Latima, a fiandeira, ou a tecelã da vida. Ela se lembra que as mulheres costumavam fazer-lhe oferendas de toalhas e artigos tecidos. À noite, a Deusa sempre fiscalizava seus seguidores espiando-os pela janela.
Embora a Lituânia tenha sido cristianizada durante o século XIV, ela permaneceu predominantemente pagã por muitos séculos ainda, devido à falta de habilidade dos missionários com a língua. A Deusa permaneceu como parte da cultura da Europa oriental em algumas áreas até o século XIX ou mesmo XX. Fascinada pela cultura com a qual cresceu, Gimbutas concentrou seus primeiros estudos em lingüística, etnologia e folclore.
Em 1942, Gimbutas completou seu mestrado pela Universidade de Vilnius, na Lituânia ocupada pela Alemanha; quatro anos mais tarde, ela doutorou-se pela Universidade de Tubigen, na Alemanha. Ambas as graduações foram em arqueologia. Sua dissertação centrava-se nas religiões antigas e pagãs, no simbolismo, nos ritos fúnebres e nas crenças da vida após a morte.

Nascida numa época em que a Lituânia era tão pagã quanto católica, Gimbutas possuía um ponto de vista único sobre a Europa e sua história. Durante anos, ela trabalhou em escavações no sudoeste da Europa e no Mediterrâneo, e começou a desenvolver a teoria sobre a existência de uma cultura que um dia, em uma época remota, prevaleceu na região.
Sua visão dos povos da pré-história européia é também um conto sobre o choque entre culturas e, especificamente, sobre a que um dia foi proeminente: a cultura da Deusa-Mãe. A pesquisa de Gimbutas fornece evidências de que antes dos indo-europeus dominarem a região, uma cultura completamente diferente existiu ali, uma cultura à qual ela se refere como cultura da Grande Deusa ou da Deusa-Mãe. Era uma cultura igualitária, embora centrada no materno como fundamentação para sua cosmologia.
Gimbutas se refere a essa cultura como matricista ou matrifocal, e não como matriarcal. Tratava-se de uma sociedade equilibrada. As mulheres não eram tão poderosas a ponto de usurpar o papel do homem. Os homens tinham seu próprio poder e posição, e executavam seus próprios deveres para benefício da família e do clã. Segundo Gimbutas, era uma sociedade comunal e comunista no melhor sentido da palavra. As Deusas eram verdadeiramente criadoras, e, de fato, criavam por si mesmas, quer fossem utensílios domésticos, quer fosse uma criança.
Diversos tipos de estatuetas de Deusas apareceram na Idade do gelo, mas elas não formam um panteão. Em essência, elas representam diferentes funções da mesma Deusa. A divindade era a própria natureza: a natureza que dá a vida, tira a vida, regenera-a. Essas eram as três importantes funções da Deusa, e elas compunham o ciclo vital natural.
As estatuetas posteriores à Idade do Gelo, com seios acentuados, eram esculpidas tipicamente com uma cabeça de pássaro. As estatuetas da Idade do Gelo também tinham seios grandes e cabeças de pássaro. A partir disso, ficou claro para Gimbutas que elas eram do mesmo tipo e que sua cultura continuou até os tempos históricos.
A religião sempre desempenhou um importante papel em qualquer cultura, tanto modernas quanto antigas. A cultura da Deusa não era diferente. Sua cosmologia era baseada no pássaro d’água e no ovo cósmico. No início, o mundo começou quando o pássaro d’água trouxe o ovo. O ovo rompeu e uma parte se tornou terra e a outra parte, céu.
Para a cultura da Deusa-Mãe, o templo era o centro da vida religiosa. Belos artefatos eram produzidos para seus altares e para a Deusa. As evidências sugerem que esse povo era grato pelo sustento que a terra proporcionava, e dava graças à Deusa. A alta sacerdotisa e a rainha eram a mesma pessoa nessa hierarquia de sacerdotisas. As mulheres eram mais prestigiadas pela vida nova que nascia delas e, em resultado, tinham mais influência na vida religiosa. Elas comandavam o templo e executavam rituais nos nascimentos, mortes e na mudança das estações.
As descobertas da Dra. Gimbutas, baseadas nos vestígios físicos e no que se pode deduzir da mitologia, sugerem que a vida política era regulada por um sistema avuncular. Os governantes da comunidade eram a rainha, que também era a alta sacerdotisa, e seu irmão ou tio. O homem dividia com ela a autoridade. A existência desse sistema era expressa na mitologia clássica, na qual casais de irmãos, Deusas e Deuses, são encontrados com freqüência.
Seria presunção sugerir que essa era apenas uma cultura de mulheres e que não existiam Deuses homens. Em sua arte, o masculino é menos representado, mas os Deuses homens, de fato, existiram. Em todas as mitologias a mãe terra existe com seu companheiro masculino ao lado.
“O Egito Antes dos Faraós”, de Edward Malkowski, pg. 231 a 235, Editora Cultrix.
Nota da casa: Eu peço encarecidamente aos pagãos, bruxos e wiccanos que leiam o tópico "A origem do mito moderno da Deusa-Mãe" antes de embarcar nessa idéia dourada de uma "antiga religião da Deusa".

terça-feira, 15 de março de 2011

Não viemos aqui para salvar tua alma

Não é novidade quando alguém sofre de algum trauma emocional, físico ou psicológico que se procura respostas na religião. Para muitos, isto funciona muito bem e através do novo relacionamento com sua crença se encontra a força neles mesmos para superar o sofrimento que passaram e compartilhar o fardo que tiveram de carrregar.
Estas histórias de sucesso são altamente propagandeadas e frequentemente são usadas para validar esta ou aquela crença. "Venha a nós!" Dizem eles, clamando por sua atenção. "Nós resolvemos os problemas do Beto, nós podemos resolver os seus problemas também!"
Entretanto, como vimos antes, com esta premissa que a crença pode te "consertar", as pessoas se tornam desseletivas e voltam-se a o que quer que lhe seja agradável. Infelizmente nem toda religião tem a intenção de "consertar" quem quer que seja.
A WTB não é um lugar para as pessoas encontrarem redenção ou salvação. Veja, todos temos problemas. Nem todos têm 99% de problemas, mas todos temos problemas. Isto deve ser posto de lado diariamente para focar na tarefa que temos à mão. Se você está muito distraído pelas dificuldades da vida, outras áreas irão ficar prejudicadas. Quando isto se aplica ao trabalho com magia, ter uma bagagem emocional que afeta sua evocação é algo muito sério com que temos de nos preocupar.
Particularmente se você trouxer esta bagagem ao círculo. Sem falar dos efeitos de gerar energia em tal estado emocional, o que você traz consigo não afetará apenas você, terá repercussão para todos os envolvidos.
Trabalhar com magia ou participar em rituais pode deixar alguémm vulnerável, o círculo não é lançado por espetáculo! O círculo apenas pode manter fora o que não está lá dentro.
Ter probelmas não significa que a WTB não te serve. Mas quando um trauma do passado torna-se uma grande parte de sua vida a ponto de te controlar, você não está pronto. Ao contrárui das muitas vertentes do Cristianismo que oferece perdão e redenção, Wicca não está aqui para salvar quem quer que seja. Ela não serve para este propósito e se é isso que é procurado, procure em outro lugar senão todos os envolvidos vão sofrer (você por não encontrar o que procura, os demais pelos conflitos resultantes).
Quando procurar por uma crença, eu recomendo primeiro saber o que você quer dela.
Autor: Ash, no fórum da Amber and Jet.

Nota da casa: O Beto não tem problema algum. "Nós" somos perfeitamente normais. }%P

segunda-feira, 14 de março de 2011

O sacerdócio wiccano

Muito bem, diletos e eventuais leitores. Aqui eu dei espaço para o texto do Herne falando sobre os aspectos do sacerdócio no texto "O que constitui o sacerdócio". O texto tem elementos importantes para se entender o sacerdócio em um aspecto mais "acadêmico".
A guisa de contraponto e esclarecimento, eu considero igualmente importante o texto da Mavesper Cerydwen faando sobre o sacerdócio wiccano, um aspecto mais específico, um texto que contém elementos fundamentais e que devem ser divulgados.
1) A etimologia de sacerdócio estar ligada a sacrifícios de vítimas nada tem a ver com a definição atual, cotidiana e vernacular de sacerdócio. Todos nós aqui estamos carecas de saber o que é sacerdócio, é uma palavra que transcendeu e muito seu significado etimológico, razão pela qual debater em cima disso é perda de tempo. Wicca tem sacerdócio. [1]
2) Questão bem diferente é saber se Wicca tem sacrifício, em termos de imolação sacrificial. Respondo em duas partes.
2a) Sem sombra nenhuma de dúvida a Wicca tem seu maior mistério centrado no sacrifício que é o Grande Rito. Na sua forma não simbólica o Grande Rito demonstra, até mesmo nas palavras ritualisticas, que o sacricífico realizado é o semen do Deus, que pelo orgasmo fertiliza o Corpo da Deusa, que é o altar ancestral erigido para esse fim, onde toda a espécie humana já celebrou. Creio que vocês conhecem o texto classico do BoS gardneriano. O sacrifício do Deus Solar não se resume na compreensão do Samhain, mas se faz a cada dia, em mil formas, em todos os ciclos de morte-vida -renascimento que vievmos no universo - desde cada uma de nossas células que morre, até nossos entes queridos, modos de vida, crenças.
As palavras ritualisticas tipícas do GR revelam bem que o corpo da mulher é o altar e o gozo do homem o sacrifício. Alias, essas palavras, com algumas variações mistéricas, são proferidas durante o ato sexual sagrado.
Alias, o BOS gardneriano para em certo momento, quando sacerdote e sacerdotisa vão realizar o ato sexual sagrado. na hora do orgasmo, o sacerdote avisa a sacerdotisa da iminência do orgasmo e ela diz : "Eu sou o altar" e ele responde : "E eu sou o sacrificio" e goza. Mais literalidade que esse sacrifício eu acho dificil alguem conceber! [2]
Creio que pela simples leitura vocês chegarão à conclusão de que somente alguem que jamais leu rudimentos sobre Wicca ousaria afirmar que ela não realiza e celebra como o centro de seus mistérios o sacrifício do Deus de Chifres.
2b) Wicca admite vítimas sacrificiais, ou seja, morte de animais realizada ritualisticamente? Aqui eu respondo que parte da Wicca realiza sim sacrifícios animais. Notadamente as tradições com maior influencia do craft inglês, onde há o animal totêmico do coven, que deve ser morte e ter seu crânio fazendo parte da estaca de 7 em 7 anos. Outras tradições de bruxaria ampliam esse tipo de sacrifício para feitiços ou outros fins. Mas muitas linhagens de Wicca eliminaram as vítimas sacrificias, permanecendo apenas com o sacrifício do GR, simbólico ou concreto. [3]
BB - Mavesper Cerydwen, na Sociedade Wicca.
Notas e comentários esparsos:
[1] Por um lado eu tenho que concordar com a Mavesper. O sentido da palavra não pode ser reduzido ao estudo de sua etimologia, mas ao seu conteúdo e contexto histórico. Por outro eu devo discordar, pois nem sempre as definições "atuais", "cotidianas" e "vernaculais" estão corretas.
[2] O GR não é um sacrifício, mas uma reencenação do mistério central da geração do mundo. E até hoje não foi divulgado o BoS gardneriano, o que existe é a citação de um trecho do livro de Aidan Kelly, o "Crafting the Art Magical - Book I", onde ele analisa um texto supostamente de autoria de Gerald Gardner - "Ye Book of Art Magical".
[3] E aqui se desfaz uma das maiores ilusões e enganos que são propagados através de textos, livros e sites da internet que a Wicca "não aceita sacrifícios de animais".

domingo, 13 de março de 2011

Entre a discriminação e a liberdade religiosa

Eu li no blog do Wild Hunt sobre o incidente que aconteceu na edição de 2011 do Pantheacon, envolvendo o Coven Caya e um grupo de "mulheres" transgêneros, que foram proibidas de entrarem e participarem do "Ritual de Lilith", a ser conduzido pelas sacerdotisas do Coven Caya.
Isso acontece exatamente porque muita gente vê no Paganismo, na Bruxaria e na Wicca, um território seguro, um abrigo, um refúgio, onde cada um pode se sentir à vontade com suas opiniões, opções, escolhas e tendências. Confusões acontecem na comunidade pagã também por causa disso, por falta de bom senso ou de uma verdadeira obsessão por agendas pessoais e políticas, deixando de lado o aspecto espiritual e sagrado.
Um pequeno intervalo é necessário, para estabelecermos alguns parâmetros:
Gênero (português brasileiro) refere-se às diferenças entre homens e mulheres. Ainda que gênero seja usado como sinônimo de sexo, nas ciências sociais refere-se às diferenças sociais, conhecidas nas ciências biológicas como papel de gênero. Historicamente, o feminismo posicionou os papéis de gênero como construídos socialmente, independente de qualquer base biológica. Pessoas cuja identidade de gênero difere do gênero designado de acordo com o sexo são normalmente identificadas como transexuais ou transgêneros.[wikipedia]
Nas ciências sociais e humanas, papel social de gênero é um conjunto de comportamentos associados com masculinidade e feminilidade, em um grupo ou sistema social. Todas as sociedades conhecidas possuem um sistema sexo/gênero, ainda que os componentes e funcionamento deste sistema varie bastante de sociedade para sociedade.
A maioria dos pesquisadores reconhecem que o comportamento dos indivíduos é uma consequência das regras e valores sociais, e da disposição individual, seja genética, inconsciente, ou consciente. Alguns pesquisadores enfatizam o sistema social e outros enfatizam orientações subjetivas e disposições.
Com o passar do tempo mudanças ocorrem sob regras e valores. Entretanto todos os cientistas sociais reconhecem que culturas e sociedades são dinâmicas e mudam. Há extensos debates em como e o quão rápido estas mudanças ocorrem. Tais debates são especialmente intensos quando envolvem o sistema sexo/gênero, já que as pessoas possuem uma gama de visões diferentes sobre o quanto gênero depende do sexo biológico.[wikipedia]
A identidade sexual (ver Escala de Orientação Sexual de Harry Benjamin) indica a percepção individual sobre o gênero (e.g. masculino e feminino) que uma pessoa percebe para si mesma. Assim como o termo sexo pode assumir várias interpretações costuma-se separar orientação sexual do conceito de identidade sexual. O termo identidade de gênero aproxima-se da identidade sexual mas também mantém diferenças conceituais significativas.[wikipedia]
As "mulheres" transgêneros gritam "preconceito" e dianistas [como Z Budapest] grita "liberdade religiosa". Não há engano, isso aconteceu em uma convenção de Paganismo, não no Congresso Nacional, entre Evangélicos e a comunidade LGBT.
Em suma, há que saber diferenciar a questão de gênero da questão da identidade sexual. Um incidente não pode manchar a postura do Paganismo, da Bruxaria e da Wica diante da questão LGBT.
Deixando de lado a obsessão excessiva, ou o oportunismo de pessoas ou grupos em usar o Paganismo, a Bruxaria e a Wica como plataforma para objetivos de caráter político ou pessoal, tudo se resume a muito barulho por nada.
O ritual era de responsabilidade do Coven Caya. Como anfitriões, cabem aos membros deste coven decidir quem pode entrar ou não. O convite ao ritual é bem claro quando fala "mulher" e as minhas amigas trasngêneros me perdoem, mas por mais que vocês se esforcem ter um corpo de mulher, vocês não serão mulheres. Ser mulher é mais do que ter seios e vagina. Ser mulher é ter útero, é ter menstruação, é ser capaz de gerar filhos, é ter estrogênio naturalmente. Os pagãos e pagãs que sejam transgêneros continuam sendo bem-vindos/as, nós temos diversos grupos, irmandades e covens que estão prontos para receber a todos, basta que cada um procure o que é melhor para si. O que não é cabível é forçar sua entrada em um ritual, grupo ou coven que tem outras prioridades que não seu desejo pessoal de ser aceito/a, reconhecido/a e respeitado/a socialmente. Não tornem um caso isolado um motivo para alimentar os cristãos fundamentalistas, nem para criar uma fissura para dividir a comunidade.

Feriados pagãos na Ucrânia

Se você reclama de encontros online, bares decadentes e feriados pelo mundo não são o suficiente para achar o/a parceiro/a certo, pense em como era para seus ancestrais. Presos em uma vila, eles tinham poucas opções: ou suas esposas vinham da casa do ferreiro ou do oleiro? Para ter uma vidência eles tinham que confiar nos oráculos e outros métodos de auscultar a Mãe Natureza. E estas tradições tornaram-se tão enraizadas nos ucranianos que nem mesmo 100 anos de Cristianismo ou a influência do Comunismo puderam se livrar disso.
Para as celebrações de rituais pagãos mais gostosos, visite a Ucrânia no verão para o festival de Ivana Kupala. Em dezembro, o Dia de Santo André é outra oportunidade para uma boa quiromancia enquanto se despede ao sol para o inverno. A Epifania, celebrada em janeiro, ajuda a limpar os pecados - em lagos e rios gelados - mas não antes de uma boa dose de vidência. E quando paradas decadentes varrem as ruas da Europa e dos EUA, os ucranianos  vigiam pelos seus antepassados comendo panquecas durante a celebração da Semana da Panqueca.
O jeito mais fácil de experimentar o subrenatural é reservar uma viagem a Kiev em julho. Celebrado depois do solstício de verão no dia 6 de julho, Ivana Kupala faz reverência ao Deus dos frutos da terra. Lendas dizem que se você se aventurar dentro da floresta e achar uma samambaia florindo - embora seja praticamente impossível - comece a cavar. Esta samambaia magica esconde um tesouro. O rito apareceu em filmes, desenhos e livros infantis, todos contribuindo para sua grande popularidade no país.
Ninguém realmente se aventura nas florestas a não ser em 7 de julho. Com o adventio do Cristianismo as igrejas adotaram alguns elemntos da tradição religiosa e popular para forçar os pagãos para a nova religião. Os ortodoxos celebram este dia como o Dia de São João Batista, quando crentes se batizam em rios e lagos. Mesmo assim o feriado moderno ainda é mais associado com magia do que com religião. As pessoas vestem camisas tradicionais e caminham ao museu a céu aberto Pirohovo na região de Kiev. Um modelo da Ucrânia do século XIX, o museu fica em 150 hectares de terras verdes e lagos rodeando casas de telhados rústicos, velhos moinhos e legítimos bares ucranianos.
Durante o dia, as mulheres tecem coroas de flores e lançam nas águas tentando adivinhar de onde seu futuro parceiro virá. Depois de testarem suas habilidades em tecer coroas, as participantes são desafiadas a colocar uma vela acesa no meio dessa tiara natural. Aquelas cujas velas queimarem por mais tempo e cujas coroas flutuarem mais longe crêem que terão uma chance maior de se casarem em um ano. Os homens não se ocupam com coroas; ao invés disso eles tentam pegá-las com a esperança de se casarem com uma artífice em particular. Em outro ritual, casais pulam sobre uma fogueira, mãos dadas, para purificar a alma e mais sorte na vida.
Se, entretanto, em 13 de dezembro, sua vida amorosa não progrediu, Santo André pode dar uma mãozinha aos Deuses pagãos. O feriado é celebrado pela Europa, na Escócia, Grécia e Romênia o santo (um dos 12 apóstolos de Jesus) é honrado em orações na igreja, bares ou mesmo com um feriado bancário, em algumas vilas remotas do oeste da Ucrânia as pessoas atirarão uma bota por cima do telhado e murmurarão cânticos à luz de velas para achar um marido ou esposa. Antes de Santo André, há o sol e os pagãos precisam de uma data para darem uma festa de agradecimento em sua honra antes que ele vá dormir para o inverno. Você pode reservar uma viajem étnica para uma vila nas montanhas dos Cárpatos para ver estes rituais em ação.
Na Epifania, em 19 de janeiro, se você ainda não estiver alegremente casado/a, existem outras maneiras de espiar em seu futuro romântico. Um rito popular instrui às mulheres a irem passear e perguntarem aos passantes pelo nome, onde crêem que será o nome de seus noivos. Depois se banham na água gelada para purificar seus pecados. Muitos ucranianos, especialmente os políticos que as piadas dizem ter mais pecados que todos, entram em buracos no gelo - cortados na forma de uma cruz - para honrar o batismo de Jesus Cristo no rio Jordão. O Hydro Park em Kiev, o complexo de entretenimento construído pelos soviéticos nas margens do rio Dnipro, é o lugar para ir se você quiser dar um emrgulho ou ver outros mergulharem.
Em fevereiro e março chega a primavera pagã e também a Quaresma da igreja. O feriado de Maslyana frequentemente cai na última semana antes dos quarenta dias que precedem a Páscoa. Comer panquecas com carne, cogumelos ou doces recheios e ver danças folclóricas e jogos no museu de Pirohovo em Kiev nesta ocasião é uam alternativa mais autêntica do que se fantasiar para o Mardi Gras.
Fonte:
BBC

sábado, 12 de março de 2011

Pagãos em campanha pelo Censo

Pagãos estão em campanha para que druidas e bruxas declarem sua religião no Censo para ter maior reconhecimento ao grupo.
A Federação Pagã diz que quer o mesmo reconhecimento que as outras crenças.
Secularistas dizem que a questão opcional sobre qual religião que a pessoa é pode levar a resultados artificiais identificando [as pessoas] como cristãos.
Isto pode levar a uma excessiva provisão das escolas religiosa, argumenta a Associação Humanitária Britânica.
No Censo de 2001, mais de 70% das pessoas se declararam cristãs.
A Federação Pagã iniste que druidas, wiccanos, bruxas e outros pagãos constituem um grupo religioso sério e em crescimento.
Há dez anos atrás 42 muil pessos se declararam pagãs - o sétimo número mais alto de qualquer religião da Grá Bretanha - mas alguns especialistas creem que na verdade sejam 250 mil e isto é significantemente maior agora.
Pagãos não adoram a um único Deus, mas procuram pelo espiritual na natureza.
Algusn grupos se concentram em tradições, práticas ou elementos específicos tais como ecologia, bruxaria, tradiçoes celtas ou certos Deuses.
Wiccanos, druidas, xamãns, ecologistas sagrados, odinistas e pagãos ["heathen" tem um sentido de incivilizado, selvagem, inculto-NT] fazem parte da comunidade pagã.
Fonte: BBC
Nota da casa: Esta controvérsia também foi levantada aqui no Brasil e foi notícia em 2010, como se pode ler no texto "O Censo e as religiões" e em "Religiões se mobilizam para o Censo 2010".

terça-feira, 8 de março de 2011

Carnaval tradicional

Neste blog eu dei minha crítica ao texto de Og Sperle, divulgado no jornal virtual Extra, na coluna "Religião e Fé".
Nesta época de carnaval, onde até cristãos lamentam que o povo se joga em uma festa pagã, muito me espanta a declaração dele no mesmo jornal sobre o carnaval:
"Apesar de a religião Wicca ter suas raízes nos antigos cultos sazonais pagãos, o Carnaval não é propriamente uma festividade comemorada pelos wiccanos".
A pergunta mais óbvia é: por que os wiccanos não comemoram o carnaval? Afinal o carnaval original tem sua origem nos cultos agrários:
"As origens do Carnaval são obscuras e longínquas. Não temos como comprovar cientificamente o nascimento do Carnaval, entretanto, baseados em pesquisas da história da evolução do homem deduzimos que os primeiros indícios, do que mais tarde se chamaria Carnaval, surgiram dos cultos agrários ao tempo da descoberta da agricultura. Esclarecemos, ainda, que há dúvida quanto à data da descoberta da agricultura. Sabemos, no entanto, que o surgimento da agricultura só ocorreu após o final da última glaciação da Terra, há, aproximadamente, 10.000 anos a.C., quando melhores condições climáticas fizeram surgir nos lugares dos imensos glaciares, bosques e pradarias, ricas em recursos animais e vegetais. O novo ambiente da Terra fez com que os humanos saíssem das cavernas para os campos. Livres da predação dos grandes animais, desaparecidos, os homens evoluíram para a domesticação e criação dos animais e cultivo dos vegetais (sedentarização). Favorecidos pelo humos (ou limo) que deixava extremamente fértil as terras irrigadas pelo rio Nilo, teriam sido os povos que, primitivamente, habitavam as suas margens e que a partir de 4000 anos AC evoluíram para as unidades políticas chamadas "Nomos", os verdadeiros criadores da agricultura e dos cultos agrários. O homem começou a entrar no reino da comemoração. No momento da festa desligava-se das coisas ruins, que concretamente tinham ido embora (o inverno que o prendia aos abrigos) e saudava o que lhe parecia um bem ( a entrada da primavera, o término das enchentes do rio Nilo, o nascer e o pôr do sol), com danças e cânticos para espantar as forças negativas que prejudicavam as plantações".[CREM Pereira]
Por estas e outras que eu digo aos curiosos, simpatizantes e praticantes do Paganismo, da Bruxaria e da Wica, para tomarem cuidado com o que andam lendo.

Os Caretos de Podence

Não há Entrudo sem tropelias. Em Podence, aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros, nada, ou quase nada, detém os bandos de Caretos que todos os anos saem para as ruas em desenfreadas correrias, perseguindo as moçoilas para as “chocalhar”.
Talvez mais do que em qualquer outro lugar, o carnaval de Podence é uma elegia do movimento. Nos dias grandes da festa os Caretos só param para se dessedentar ou para combinarem mais uma investida sobre o Largo da Capela, a pequena praça da aldeia onde a gente do lugar e um punhado de forasteiros curiosos se juntam para assistir ao ritual. E como em todas as culturas e latitudes onde se celebra a funçanata, o mote da agitação está impregnado de um desígnio de licenciosidade, feição que tem pai e mãe na dualidade profana e religiosa da tradição: tanto desvario serve para despedida do Inverno e para anunciar a chegada da Primavera (em Podence, os foliões costumam contar com a benção assídua do sol), por um lado, e, por outro, para marcar (em excessos que supostamente se filiam nas antigas saturnais romanas, festas de homenagem a Saturno, deus das sementeiras) o início da Quaresma, um período de contenção no calendário religioso cristão.
As poucas centenas de habitantes de Podence ainda colhem uma parte substancial do seu sustento da actividade agrícola, cereais e castanha, essencialmente, ainda que nos últimos anos a oliveira tenha vindo a ganhar terreno. Nos difíceis anos da agonia do antigo regime e nos que se seguiram à revolução de Abril, a emigração sangrou uma boa parcela da população e o fenómeno teve as suas consequências tanto na dimensão das actividades agrícolas como na garantia de continuidade de tradições como as dos Caretos.
Nas festas do Entrudo, é a máscara que confere todo o poder. Às iras dos Caretos endiabrados ninguém se atreve a opôr-se. Apenas as Matrafonas (raparigas disfarçadas de homens, ou vice-versa) são poupadas à sumária justiça carnavalesca, assaz singular no caso da aldeia transmontana: os demónios mascarados lançam-se ao assalto das moças e, encostando-se a elas, ensaiam uma dança um tanto erótica, agitando a cintura e fazendo embater os chocalhos que trazem pendurados contra as ancas das vítimas. Rápido se aprende o que há a fazer: não resistir e deixar o corpo ser levado no balanço do ritual, a única forma de amenizar as nódoas negras.
Na investida bárbara que faz ecoar por toda a aldeia o alarido dos chocalhos e o tropel surdos dos passos, os Caretos levam tudo pela frente, indistintamente. É um modo de dizer: por detrás da máscara de latão os olhos em fogo procuram muitas vezes, confessam, “as moças mais apetecidas”, as da terra ou as que de fora vêm — ainda que inadvertidamente — para o sacrifício.
Dica dada pelo Caturo [Gladius]
Fonte: Bragança Net

O resgate da tartaruga sagrada

Centenas de vietnamitas se aglomeraram na capital Hanói na terça-feira para acompanhar a operação de captura de uma rara tartaruga gigante que vive no lago.
O animal de cerca de 1,8m de comprimento e 200 kg estaria muito debilitado e precisaria urgentemente de socorro. No entanto, não foi possível resgatá-lo.
Nem com a rede foi possível capturar a rara tartaruga gigante
Especialistas acreditam que existam apenas outros quatro indivíduos da espécie Rafeteus swinhoei vivos em todo mundo.
Muitos vietnamitas consideram a tartaruga sagrada e, embora especialistas calculem que ela tenha entre 80 e cem anos, a crença popular é de que o animal tenha mais de 300 anos de idade.
Reza a lenda que uma tartaruga do lago Hoan Kiem deu a espada usada pelo rei do Vietnã para derrotar invasores chineses há cerca de seis séculos.
Funcionários do governo realizaram uma limpeza do lago, retirando lixo e jogando água limpa, já que a poluição poderia ser a causa da doença do animal.
Fonte: BBC

segunda-feira, 7 de março de 2011

Carnaval de Oruro

A festa do Carnaval de Oruro, na Bolívia, é considerada uma das mais genuínas e interessantes do mundo. As máscaras arísticas usadas pelos diabos dançarinos, e a mistura de paganismo e religião com raízes históricas, levaram a UNESCO a considerar este Carnaval como Património Oral e Intangível da Humanidade em 2001.
O Carnaval de Oruro, cidade mineira localizada nos Andes da Bolívia a quase quatro mil metros de altitude, é um dos mais tradicionais e mais próximos das suas origens de todo o mundo.
As festividades do Carnaval de Oruro têm início quarenta dias antes da Páscoa, e dele fazem parte peregrinações ao Santuário da Virgem do Socavón, ritos de agradecimento à Pachamama, concursos de bandas de música tradicional, desfile de grupos folclóricos e musicais que dançam ao despique em pontos estratégicos da cidade.
O Carnaval ou A Diablada - representação da luta entre o bem e o mal, com a vitória do primeiro. O curioso do carnaval de Oruro é ser uma festa verdadeiramente sagrada e profana. Começa na semana anterior ao Carnaval, com o que chamam de convite em devoção à Virgem do Socavão (uma Nossa Senhora que apareceu numa mina, num dia 2 de fevereiro), que é quando os conjuntos visitam o templo. Na sexta-feira seguinte os fiéis realizam a bênção ("ch'alla") das paragens mineiras e no sábado os grupos dançam até o romper da aurora, quando acontece a saudação à Virgem do Socavão: os dançarinos entram na gruta do Cerro Pie de Gallo e as várias bandas locais começam a tocar músicas diversas, simultaneamente. As ruas da cidade ficam reservadas para essa explosão de som (bandas com muitos metais e melodias simples) e cores (máscaras bastante ornamentadas), e para sucessivas celebrações (como ao Tio, entidade que vela nas entranhas da terra) e bênçãos.
Nota da casa: O carnaval verdadeiro e legítimo é aquele celebrado pelos poopulares, não esse espetáculo comercializado, onde imperam o sexismo e a misoginia.

domingo, 6 de março de 2011

O que constitui o sacerdócio

Segue abaixo uma série de textos divulgado por Herne na Sociedade Wicca, com uma importante reflexão sobre a característica, princípio e valor de um sacerdócio.
SACERDOTE É A PESSOA PREPARADA PARA OFERECER O SACRÍFICIO À DIVINDADE. Desconheço outro sentido para o termo.
Portanto, para ser sacerdote ou sacerdotisa, antes de mais nada a pessoa tem que saber qual o animal deve ser oferecido ao(s) Deus(es) do(s) qual(is) está a serviço, como fazê-lo, quando fazê-lo; ter sido treinado para isso; saber preparar as partes que estão destinadas ao(s) Deus(es) e como proceder; saber preparar as partes que estão destinadas ao consumo dele mesmo, de quem oferece o sacrifício e/ou da comunidade. Na maioria das vezes, também tem que saber como e onde recolher o sangue, o que fazer com ele, como conservá-lo (se o culto inclui a conservação) ou como dispô-lo.
Mas, também até onde eu sei, a Wicca não oferece sacrifícios e, portanto, não tem sacerdotes. Acho que se confunde muito "sacerdote" com "lider religioso". Um sacerdote não é necessariamente o líder; e um líder não é necessariamente um sacerdote. Historiacamente, inclusive, na maioria das vezes realmente não eram - reis-sacerdotes ou sacerdotes-reis são raríssimos na história, e assim mesmo bastante pontuais.
O "sagrado ofício" é o preparar e oferecer um sacrifício agradável aos Deuses. Por isso, babaorixás são sacerdotes: eles fazem o sagrado ofício de preparar e oferecer a "comida de santo".
Todo sacrifício significa a imolação de uma vítima para agradar um Deus/a. O termo latino - "sacrificium" - etmologicamente sempre se referiu a uma morte, uma imolação, uma morte (vigária ou como oferta) de um animal (inclusive o humano). Por isso, muitas vezes, o sacrifício era seguido do "banquete sagrado": depois de separada a parte que é do/a Deus/a, a outra parte era consumida pelos que ofereceram/participaram do sacrifício e pelo sacerdote. Nos sacrifícios clânicos, o animal imolado é sempre o ancestral totêmico, visando refazer os laços de ancestralidade e se "encher" da força totêmica desse ancestral.
Na verdade, o ato de matar o animal não pode ser separado do objetivo principal desse ofício, que é oferecer uma refeição agradável à Divindade! Esse é o papel do "sacerdote" - alimentar os Deuses com aquilo que lhes é agradável; saber como fazê-lo, como preparar, como apresentar e até quais os desejos daquela Divindade. A participação humana nesse banquete divino, podia ser totalmente impedida (ou limitada aos sacerdotes). Mas também podia ser significativa: algumas sociedades apresentam esse banquete sagrado como uma festa oferecida pelos humanos aos Deuses (esses como "convidados"); em outras, os humanos é que são convidados dos Deuses podendo "comungar" com parte desse sacrifício.
Se não há prática de sacrifício, também não há sacerdócio. Até porque não faria sentido, já que uma coisa remete à outra.
A palavra é romana e antiga; sempre teve esse sentido. Se tirarmos a referência à imolação do sacrifício, então essa pessoa também deixa de ser sacerdote. O uso do termo, portanto, se torna indevido e acaba gerando confusão, pois "cria" um novo sentido que nunca esteve relacionado à palavra. Faz parecer que os líderes wiccanos são sacerdotes como padres, babaorixás e tantas outras religiões que realmente têm a prática do sacrifício - que, como você disse, não faz parte da Wicca.
Toda a descrição [dada pela Mavesper na SW-NB] corresponde, certamente, à de um religioso (uma pessoa dedicada, consagrada à sua religião). Mas não a um sacerdote, exatamente por não incluir o sacrifício. Podemos, portanto, conversar sobre esse dia-a-dia, só insisto que esse não é, em hipótese alguma, o dia-a-dia de um sacerdote. Até porque esse, em nenhuma religião antiga, sacrificava todos os dias. Normalmente um sacerdote (ou corpo de sacerdotes) servia no templo por umas semanas e, pelo resto do ano, sustentava-se com outras atividades. O que significa que o cotidiano de um sacerdote é bem diferente o de um religioso.

Esse sentido de “sacerdócio” como sacrifício pessoal, como “oferecer o melhor de si mesmo” ou como o “privar-se de um bem” é muitíssimo recente. Etimólogos e sociólogos dizem que ela surge no início do século XX, entre as duas Grandes Guerras, se tornando mais corrente após a segunda delas. Esse novo sentido, portanto, é profundamente ideológico e um tanto quanto alienador. Pois afasta do seu verdadeiro sentido: sem a imolação, não há sacrifício... e sem sacrifício, não há sacerdote! Portanto, pelo que todos os estudos apontam, todos os textos antigos, todos os etimólogos e historiadores, a deturpação não está em associar sacerdócio ao sacrifício, mas em dissociá-los.
Desculpe, mas não creio que você possa ou tenha o direito de dar outro sentido a um termo que cultural, tradicional e etimologicamente sempre deve um sentido bem claro e preciso. Particularmente por ele ainda ser usado para designar aqueles religiosos responsáveis pelo sacrifício aos seus Deuses de outros povos, outras culturas e outras religiões. Muitas religiões ainda têm no sacrifício um oficio sagrado e, por isso, ainda preparam, formam e iniciam sacerdotes para isso. E assim como você [Mavesper-NB] apela para a antiguidade e a etimologia do termo “ECCLESIA” para justificar seu uso por wiccanos, não entendo porque para “sacerdocium” o mesmo critério não valha. Não podemos ficar oscilando entre sentido etimológico para umas palavras e o apelo à evolução de sentido para outras, pois isso gera confusão e dúvidas – quando recorreremos à etimologia e quando não? o que determinará a diferença? e quem fará isso e sobre quais critérios e parâmetros? Não existe um “sentido wiccano” de sacerdócio. Pode, no máximo, haver um uso wiccano desse termo arcaico dando-lhe um outro sentido que não é original... Mas é lógico que isso , então, é profundamente questionável.
Acho que o importante aqui é lembrar que a liderança religiosa não tem que ser sacerdotal. Se na wicca não existe sacrifício, então também não existe sacerdócio. Mas isso não significa que não tenha liderança religiosa. Muito menos que essa liderança seja inferior aos sacerdotes de outras religiões. Budistas não têm sacerdotes... mas ninguém questionará a autoridade religiosa de um monge, muito menos do Dalai Lamma.
As ações que você [Mavesper-NB] elenca – consagração pessoal, vivência dos mitos e serviço aos deuses – são, sem dúvida, ações religiosas, mas não sacerdotais. O sacerdócio exige sim – por definição – a prática consciente e sábia da imolação ritual e do preparo da refeição sagrada aos Deuses. Mas se mesmo sabendo disso se insiste em usar o termo “sacerdócio” com outro significado, também não se pode falar em duplo sentido ou em deturpação quando se questiona onde está o sacrifício entre wiccanos. A deturpação – infelizmente – parte de quem usa o termo erroneamente. E não tem como justifica o uso do termo pela prática do “Grande Rito”, pois ele não tem sentido sacrifical. E obviamente isso o diferencia – e muito – da Missa católica e de outros ritos cristãos que são nitidamente sacrificais. As vezes até literalmente: a Igreja Armênia ainda mantém (hoje, século XXI) o rito da imolação do cordeiro pascal, a aspersão de seu sangue e a queima da sua gordura.
Pela etimologia do termo - repito - o sacerdote se diferencia dos outros crentes pelo fato de ser especialmente treinado e preparado para oferecer o sacríficio agradável à divindade. Se retirarmos esse aspecto, então já não temos sacerdote e, obviamente, também não tem nada que o diferencie dos demais crentes.
Pois então: se alguns wiccanos se chamam de "sacerdotes" gostaria de saber qual é o sacrifício agradável à divindade que eles oferecem e como formam treinados e preparados prá isso. Se não têm esse treinamento, essa preparação e esse ofício, o que faz deles sacerdotes e os outros não? Em que seu cotidiano se diferenciaria dos demais wiccanos?
Eu não estou brincando nem faltando com seriedade. Estou levantando questões e até agora não recebi - nem de você [Mavesper-NB]- uma resposta razoável, que fosse embasada. A única coisa que tenho é: "todo mundo diz...", "todo mundo pensa assim...". Se formos por esse caminho, repito que a maioria do mundo é de religiosidade abraâmica, que considera a bruxaria uma coisa demoniaca... A quantidade de pessoas que fala isso está certa porque, em termos numéricos, é maior? Portanto, não creio que esse seja um bom argumento.
Por outro lado estou questionando, sim, o uso de termos de forma desvirtuada e que gera ilusão e equívocos nas pessoas. Nem você, nem eu, nem ninguém pode simplesmente pegar um termo e mudar-lhe completamente o significado para que ele se encaixe naquilo que eu penso e quero que ele signifique. Por isso torno a pedir: alguém tem algum embasamento (que não seja o achismo ou o número de wiccanos) para afirmar que o termo sacerdócio pode ser desvinculado de sacrifício?
Meus questionamentos não se tratam de "crença pessoal", como você [Mavesper-NB] insiste em colocar. Não estou com achismos. Estou questionando a partir de uma base etimológica, histórica, antropológica e teológica... E não recebi, em momento algum, resposta nesse nível. Você pode me apresentar algum estudo sério que embase a sua opinião sobre sacerdócio?Também não é verdade que sacerdócio e sacrífio estiveram ligados "em algum momento". Esse "meio tempo" são SÉCULOS! Enquanto que uma mudança do significado de sacríficio só começa a se esboçar no início do século XX e numa Europa ocidental e cristianizada, que tem outros motivos para fazer esse esforço. Também não é verdade que essa ligação "é passado"... E todos os ritos de diversas religiões que ainda fazem sacrifício? Vamos desconsiderá-los?
Com certeza sacerdócio é isso: o compromisso que se assume com a Divindade para servi-la! A questão aqui é que tipo de serviço o sacerdote presta à Divindade, posto que esse termo sempre se referiu ao serviço da imolação e preparação do banquete sagrado. Então, de que forma esse termo pode ser usado por líderes wiccanos explicitando o que é imolado e como se prepara o banquete.
Não estou falando, com isso, que toda religião tenha que fazer sacríficios. Existem aquelas que nunca tiveram essa prática. Porém, toda religião que faça sacrifícios desenvolveu uma classe de sacerdotes para isso... e, logicamente, toda religião que tenha sacerdotes, é porque faz sacrifícios. A forma e constância desses sacrifícios é muito variável; as características do animal a ser sacrificado, também. Mas ele existe de alguma maneira para que se justifique o título de "sacerdote" da classe responsável.

Acho que, aqui, a grande confusão é que se dissociou o termo SACERDOTE de sua raiz - o SACRIFÍCIO - e o associou ao conceito de LÍDER RELIGIOSO. Pela argumentação apresentada até agora, é isso que dá para entender. E - parece-me - ser o foco da polêmica. Se se está usando o termo "sacerdote" para designar aquelas pessoas que são "liderança religiosa", então realmente não tem que necessariamente se falar em sacrifício... mas tem-se que falar que o termo é impróprio e mal-utilizado.
O sacríficio como serviço aos Deuses (ou "sacro ofício") parte da idéia de que humanos e Deuses coabitam, dividem o mesmo espaço. Algumas religiões dizem que esse espaço é dos Deuses e nós somos seus convidados; outras já afirmam que esse espaço é humano e os Deuses são nossos convidados. De uma forma ou de outra, construimos espaços para esses Deuses e lhes prestamos serviços. Um deles é o de ALIMENTÁ-LOS. E é onde entra a função do sacerdote!
Por isso, a questão primária é: como os wiccanos alimentam seus Deuses?
Então, ou a Wicca não tem sacerdotes, ou ainda não ficou claro (e/ou público) que sacrifício é oferecido na Wicca para alimentar os Deuses. E se não ficou claro porque não é para ficar - por se tratar de "segredo de sacerdotes" - então também não se tem como debater o cotidiano sacerdotal em público. Porém, se não ficou claro porque ainda não se parou para pensar, um motivo a mais para continuarmos debatendo, não acha?
Vale lembrar, agora, as características que foram levantadas aqui sobre os sacrifícios:
1 - Os animais sacrificados são TOTENS, ou seja, representam uma Ancestralidade da comunidade;
2 - Por isso, os sacrifícios criam uma IDENTIDADE no grupo;
3 - Dessa forma, os sacrifícios têm uma função de COESÃO SOCIAL - na medida em que torna "parentes" todos os que comem da mesma carne de sacríficio;
4 - O sacrífico ALIMENTA A DIVINDADE;
5 - O sacerdote, por tudo isso, tem um papel social e político grande.

sábado, 5 de março de 2011

Conferência de Paganismo

Divulgado pelo Caturo [Gladius] e ecoando por aqui.
Em Portugal, Gilberto de Lascariz faz no dia 05 de março [hoje] um "workshop" sobre Paganismo.
No ano passado a Inglaterra fez-se ouvir no mundo com a legalização do Druidismo como religião oficial em Inglaterra. Este é o primeiro passo para gradualmente regressarmos ao Paganismo que, segundo o filósofo Alain Benoist, "é a religião original da Europa".
Ao longo da história do Paganismo encontrámos verdadeiros mitos avatáricos que ilustram esse processo de transformação da alma, desde Dionísio a Odin e, tão tardiamente quanto o século VII EC, figuras de culto como Ceridwen, Merlin e Taliesin.
Na realidade não existiu um Paganismo mas vários Paganismos na Europa, assim como vários modelos iniciáticos de transformação cognitiva, dos quais se deve realçar os modelos ctónicos e agrários, guerreiros e mágicos.
Programa:
- A Chegada da Luz do Antigo Paganismo e o crepúsculo do monoteísmo Judaico-Cristão.
- O Homem Pagão entre as Forças Ctónicas da Fertilidade e as Forças Celestes da Sabedoria.
- O Homem Sensorial e Imaginal como substrato cognitivo do Antigo Paganismo.
- Iniciação versus Religião. O significado da Iniciação no Antigo Paganismo.
- O Paganismo do Campo, o Paganismo dos Mistérios e o Paganismo da Teurgia.
- Os Quatro Mistérios Pagãos: Agrários, Guerreiros, Metalúrgicos e Eróticos.
- A Concepção da Alma e o relacionamento com o Mundo dos Mortos.
- Merlin e Ceridwen como avatares divinos da via xamânica do Ocidente.
- Dois mitos opostos do Paganismo: a descida ao Mundo Subterrâneo e a Ascensão pelas Esferas Planetares, enquanto mitemas dos impulsos contraditórios de Vida e Morte na Natureza.
- A via do corpo convulsivo como método extático em Dionísio.
- O Deus Cornudo (Cernunnos/Hu Gadarn/Dionísio) como epifania da Alma da Natureza.
- O Culto da Cabeça e o culto do Falo: dois pólos complementares do Paganismo.
- O caminho sacrificial do guerreiro astucioso em Odin.
- Magia sexual em Freya e Afrodite enquanto Via Sexualis do Paganismo.
- O significado do Sacramento entre os pagãos. A sua prática na vida quotidiana.
- A Via Onirosófica e os retiros oniromânticos.
- O Conhecimento do Daimon/Siddhe e o papel de Hermes na Tradição Pagã.
- Um programa de experimentação das vias pagãs para uso quotidiano.
Local: Sintra (Caminho dos Frades, a 500 m da Quinta da Regaleira)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Hina Matsuri

Mais de mil bonecas foram reunidas no templo da cidade de Sendai. O Hina Matsuri, ou Festival de Bonecas, é uma tradicional celebração japoensa realizada sempre no terceiro dia de março para afastar maus espíritos.
Durante as celebrações, as famílias rezam pela felicidade e saúde das meninas do país.
Mais de mil bonecas, vindas de diferentes partes do Japão, foram exibidas no salão principal do templo da cidade de Sendai, no norte do país.
Tradicionalmente, as bonecas são expostas em cima de um tapete de vermelho.[G1]
A celebração tem esse formato desde o século XIX. A característica do Hinamatsuri são as bonecas tradicionais.
Plataformas dispostas em forma de uma escada são cobertas com um tecido vermelho. Nessas plataformas são colocadas as pequenas bonecas que representam o imperador, a imperatriz, senhoras da corte e músicos, todos com as mais finas vestimentas da corte do passado. Um jogo completo terá cerca de 15 bonecas, além de objetos de decoração, uma laranjeira e uma cerejeira, um espelho, instrumentos musicais, utensílios de mesa e equipamentos utilizados na corte.
As bonecas muitas vezes são presenteadas pela família da mãe da menina, quando esta vai realizar o seu primeiro Hinamatsuri.
O jogo completo pode ser adquirido numa loja de departamentos mas pode custar mais de 3 mil dólares. Assim, como um jogo para Hinamatsuri pode ser transferido de uma geração para outra, é considerado um bem de família.
No dia 3 de março, a menina convida seus amiguinhos para um chá na frente das bonecas, ocasião em que ela oferece aos convidados o hishimochi (um bolinho doce de arroz com formato de diamante), e o sakê sem álcool. Sendo a anfitriã, a menina poderá cantar uma música antiga para entreter seus amigos. Apesar de ser composto por belíssimas peças, as bonecas do Hinamatsuri só ficam expostas durante no máximo duas semanas. Depois, segundo a tradição, devem ser cuidadosamente empacotadas e guardadas, caso contrário, diz-se que as garotas da casa demorarão para se casar.
O Hinamatsuri tem origem na antiga prática do ritual da purificação, em que pessoas transferiam seus pecados para as bonecas de papel e arremessavam-nas no rio, ao mesmo tempo em que participavam de um piquenique aproveitando a primavera. Foi no período Edo (1603 a 1867) que essas bonecas passaram a ser modeladas com a aparência de membros da corte. Curiosamente, o festival de bonecas alcançou seu auge de popularidade nesse período, numa época em que a posição social da mulher tinha alcançado o nível mais baixo em relação ao homem. Hinamatsuri era a única ocasião em que uma menina se sentia importante: esse era o seu festival, ela convidava os meninos e cantava para os visitantes.[
Cultura Japonesa]

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Noite de Shiva

O Mahashivaratri é um dos maiores festivais religiosos ocorridos na Índia. Festejado não só por adeptos da Tradição Shaiva, esta celebração é comemorada em vários locais do continente pan-indiano.
Na Índia, onde os devotos de Shiva são inúmeros, costuma-se observar – de acordo com o Shiva-Purána –, todos os meses, o Shivaratri, dia dedicado ao Senhor Shiva, na décima quarta noite da lua, i.e. o último dia da lua minguante. Essa devoção inclui jejum e cânticos devocionais.
O Mahashivaratri é um grande Shivaratri. Grande porque nesse período do ano, que se situa entre fevereiro e março, o poder exercido pela lua (negra), no último dia da lua minguante, é menor, em relação ao resto do ano. Daí a grande celebração.
O aspirante espiritual, aquele que se esforça para obter purificação e transformação interna, vê na comemoração desse evento uma oportunidade de entrega, através do jejum, da dança e da repetição do Nome do Senhor Shiva, entoando mantras e cânticos devocionais.
Inúmeros grupos distintos de devotos ao Senhor Shiva realizam a cerimônia de adoração (pújá) em uma extraordinária festa noturna. Os Páshupatas, Aghorís, Kápálikas e Kálámukhas, adeptos mais radicais da tradição Shaiva, comemoram o Mahashivaratri intoxicados por uma bebida inebriante chamada thandai (a base de cannabis, amêndoas e leite), cantando mantras, bhajans e kirtans enquanto dançam ao ritmo dos tambores. Lembranças de uma aurora xamânica.
A prática de cantar e louvar ao Senhor Shiva, por si, já tem o poder de acalmar a mente inquieta. Essa mesma prática, realizada com fervor na noite em que a lua tem mínima ascendência sobre a mente, tem seu valor potencializado. Por meio dela, a mente pode ser pacificada, para que a Luz Divina possa penetrar sem a resistência do ego.
Esta noite é sagrada porque é o dia em que Shiva toma a forma de Lingam, para benefício dos devotos. Portanto, nesta noite, os devotos do Senhor Shiva praticam a contemplação sobre o atmalinga ou jyotilinga, i.e. o símbolo da Suprema Luz da Sabedoria, e se convencem de que Shiva está no íntimo de cada um. A realização do abhisheka (banho sagrado no Shivalingam) e do agnihotra (cerimônia do Fogo Sagrado), torna explícita esta mensagem.
Na auspiciosa ocasião em que acontece o Mahashivaratri, é dito que o Senhor Shiva perfaz sua dança extática de realização. Neste feito, o Senhor é conhecido como Shiva Natarája. A dança simboliza a emoção da auto-realização para além dos reinos de vigília, sonho e sono profundo. Além das experiências do corpo e suas percepções, da mente e dos sentidos, do intelecto e dos pensamentos. Para além disso tudo o Senhor Shiva Natarája provê seus devotos com uma intoxicante dança de suprema bem-aventurança.

O Senhor Shiva
O Senhor Shiva – que significa “O Auspicioso” – é a terceira pessoa da Trimurti ou Trindade Hindu, e personifica o aspecto Destruidor ou Transformador de Deus. Shiva domina a energia de tamas, que representa a inércia ou ignorância e deve ser eliminada para que haja a renovação.
Muitas vezes, Shiva é tratado não só como o Destruidor ou o Transformador da Trimurti hindu, mas sim o próprio Absoluto, sendo denominado Maheshvára (Grande Senhor do Universo), Paramashiva (Consciência Cósmica), Páshupati (Senhor das Bestas), Natarája (Dançarino Cósmico), Bhairava (o Terrível), Dakshinamurti (o sábio que ensina em silêncio) etc., de acordo com a tradição.

Geralmente, o Senhor Shiva é representado como um renunciante vestido com peles de animais e adornado com cinzas, serpentes e colares de rudrákshas. Essa é a imagem personificada mais popular que apareceu primeiro nas upanishads e nos puránas. Estas escrituras idealizaram a imagem de Shiva que crescia (1500 a.C. a 100 d.C.) como um Deus soberano, que, como asceta, propunha a perfeição como meta de vida. Na Shvestáshvatara Upanishad, Shiva designa o arcaico Rudrá védico. Literalmente, Rudrá significa ‘trovão’, mas o nome denota ‘rugido’, ‘grito’. Este rugido expressa à fúria da tempestade com seus assustadores trovões. A partir desta aparição, Shiva se converte na versão benigna das forças mais assustadoras da natureza, alojadas no interior de todos os seres humanos.
Outra importante forma de Shiva é o Shivalingam. O culto a Shiva na forma do Lingam é o ponto alto no Mahashivaratri. A palavra lingam (ou linga) significa ‘símbolo’ ou ‘aquilo através do qual se pode ver outra coisa’. O Shivalingam é uma das mais sutis representações de Deus conhecidas pela humanidade. Trata-se de uma pedra em formato de elipse (ovalada) que, tendo uma configuração “abstrata”, tanto pode representar o Absoluto sem forma, quanto o Senhor dotado de atributos.
Por não ter uma forma humana ou animal específica, o lingam indica que Deus é sem atributos, estando além de qualquer limitação ou definição. Mas, como possui um formato básico, também mostra que o Senhor pode assumir a forma que desejar, como realmente o faz, ao se manifestar em toda a Criação. Ele simboliza todo o processo de Criação, Manutenção e Destruição do Universo, pois, do Sem Forma nascem todas as formas, que por fim, voltam a se dissolver no Absoluto.
Na intenção de reverenciar o Senhor Shiva, inúmeros devotos realizam as peregrinações aos doze jyotilingas. Um jyotilinga ou jyotilingam é um santuário onde o Senhor Shiva é adorado na forma de um lingam de luz. Na Índia existem doze santuários de peregrinação. Acredita-se que uma pessoa pode ver esses lingas como colunas de fogo através de perfuração no planeta depois que ele atinja um nível mais elevado de realização espiritual.
Fonte: Erick Schulz
Nota da casa: Infelizmente, como é de se esperar, a belíssima cerimônia sagrada apenas foi noticiada pela imprensa local por que os sadhus fumam cannabis sativa.

terça-feira, 1 de março de 2011

Dez anos sem os Budas em Bamiyan

Há dez anos, em 1 de março de 2001, os Taleban ordenaram a implosão das gigantescas estátuas de Buda, escavadas no século 5 nas montanhas de Bamiyan, um vilarejo bucólico localizado na antiga Rota da Seda, que ligava a China e a Índia.
O amigo e jornalista afegão Farhad Peikar, que vive em Cabul, viajou 240 km até Bamyian para testemunhar o cenário atual. Ele contou ao blog Pelo Mundo o que viu e ouviu.
“Os nichos agora vazios de Bamiyan, que há dez anos abrigavam as maiores estátuas de Buda no mundo, com 38 e 55 metros de altura, são uma lembrança amarga da ira cega dos radicais islâmicos do Taleban. Não foram apenas as estátuas que eles destruíram, então, mas todo o vilarejo, povoado pela minoria xiita hazara. Essa gente foi torturada. Os Taleban não se deram por satisfeitos apenas em destruir os Budas, eles fizeram com que os moradores os ajudassem, mesmo contra a vontade. Eles tiveram de escalar as estátuas, pendurados em cordas, abrindo buracos na rocha para colocar dinamites. Quem não o fizesse, seria preso. E os habitantes daqui sabiam bem o que significa ir para uma prisão do Taleban, acusado de tortura e mortes. O povo de Bamyian não se esquece dessas atrocidads e odeiam os Taleban.”
Os nichos que antes abrigavam os Budas gigantes de Bamyian continuam vazios, apesar da queda do Taleban e da presença estrangeira no país há uma década. São apenas mais um sinal visível de que, apesar das tantas promessas de reconstrução do país, muito pouco, ou quase nada, foi feito. Quando estive em Cabul, em 2008, testemunhei com os próprios olhos a destruição. Pela janela do carro sacolejante – porque nem mesmo as ruas da capital têm asfalto! – passavem ruínas de prédios inteiros ainda da guerra civil, anterior à tomada do país pelo Taleban; marcas de balas por toda parte; ar seco, poluição, lixo; uma cidade sem luz, apesar de ser a capital. Durante os 15 dias que estive em Cabul, dois suicidas detonaram seus explosivos em ruas movimentadas da capital e nesses ataques morrem apenas afegãos, porque os estrangeiros costumam estar bem protegidos entre muros altos protegidos por barricadas, vidros à prova de balas e homens armados até os dentes. Os afegãos se perguntam o que toda aquela gente está fazendo no país!
Ele continua:
“A reconstrução dos Budas gigantes de Bamiyan tem sido discutida e discutida, mas planos concretos mesmo não há. Seriam necessários entre 30 e 50 milhões de dólares para restaurar as estátuas. Mas as pessoas aqui ainda não têm hospitais, escolas, às vezes nem mesmo comida para dar aos filhos. Como falar em gastar esse dinheiro para reerguer estátuas?”
A região de Bamiyan é uma das poucas ainda controladas pelas forças de coalizão. Em uma recente declaração, o comando do Taleban afirmaou ter retomado o controle de 75% do país – as estimativas de organizações de segurança global não diferem muito disso; falam em 72%. As tropas estrangeiras dominam as capitais das províncias, mas mais de 70% do Afeganistão é formado por vilarejos rurais, sobre os quais o Taleban teria voltado a exercer seu domínio.
Fonte: Blog da Adriana Carranca
Nota da casa: O mundo ocidental ficou chocado e repudiou o ato do Taliban. O mundo ocidental devia cobrir a cabeça de vergonha pelas centenas de estátuas, templos e santuários pagãos que foram destruídos depois que o Cristianismo se tornou a única religião oficial.