sábado, 30 de abril de 2011

Reabilitando Nero

A exposição se espalha pela principal área arqueológica de Roma, entre o Coliseu e o Fórum Romano, onde o imperador, famoso também por perseguir os primeiros cristãos, viveu e reinou.
Lucio Domizio Enobarbo tornou-se imperador com o nome de Nero Claudius Caesar aos 17 anos de idade em de 54 dC.
Personagem complexo e contraditório, Nero teria reinado de forma exemplar no começo, para depois se transformar num dos personagens mais cruéis, narcisistas e megalomaníacos da História.
“Se Nero tivesse morrido nos primeiros anos de reino, não seria recordado como o “veneno do mundo”, apelido que lhe foi dado pelo historiador Plínio, o Velho” disse o historiador Andrea Giardina ao apresentar a mostra, que vai até dia 18 de setembro.
A imagem negativa que atravessou a História, se deve, segundo dados apresentados na mostra, a medidas que Nero teria tomado e que teriam descontentado as elites romanas da época.
Odiado pela aristocracia, Nero, no entanto, era amado pela plebe. E para encontrar seu povo, precisava de grandes espaços, conforme explicou o arqueólogo Carandini.
Segundo o Ministério da Cultura, responsável pela mostra, o imperador, que segundo a lenda tocava cítara enquanto Roma queimava, contribuiu de forma decisiva para redesenhar o plano urbanístico da capital.
A exposição termina no Coliseu, com uma parte dedicada ao grande incêndio, um dos eventos mais trágicos da história de Roma.
Segundo testemunhos da época, foi Nero quem mandou incendiar Roma na noite de 18 de julho de 64 Dc, para construir seu palácio mais suntuoso, a Domus Áurea. O fogo durou nove dias.
“Nero desejava a glória de fundar uma nova cidade à qual daria seu nome”, escreveu Tacito, historiador da época.
Segundo Andrea Carandini, para concretizar seu projeto urbanístico, Nero previa grandes expropriações, que seriam mais fáceis de serem realizadas após um incêndio.
Oficialmente, a culpa caiu sobre os cristãos. As confissões foram arrancadas sob terríveis torturas. Nero ordenou prisões em massa, condenações à morte e crucificações.
A historiadora Silvia Ronchey, contudo, defende Nero.
“Os primeiros editais contra os cristãos são da época de Domiziano e Traiano”. E o grande inimigo deles foi, na realidade, o imperador filosofo Marco Aurélio’’, escreveu num recente artigo sobre a mostra.
A imagem que nos foi passada não faz justiça ao imperador que tinha um refinado carisma e gosto estético, segundo a historiadora.
Segundo ela, Nero conquistou uma imagem de divo graças à vocação teatral, uma calculada atenção ao aplauso do povo.
Fonte: BBC

Ordem dos Druidas chega em Portugal

Sintra foi o local escolhido para acolher a primeira cerimónia do calendário celta, já no primeiro dia de Maio. É dessa forma que se dá a chegada da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas a Portugal.
Aquele que é um dos mais importantes grupos a nível mundial, dedicado à prática, ao ensino e ao desenvolvimento desta espiritualidade com raízes celtas vai chegar a Portugal.
A primeira cerimónia da Ordem em terras lusas será este domingo, data da festividade celta de Beltane (que significa 'Fogo de Bel', uma divindade solar céltica), que está ligada ao redespertar das energias da Terra.
Em língua portuguesa está já disponível um curso completo de druidismo, cobrindo os graus de Bardo, Ovate e Druida.
O revivalismo druídico remonta ao século XVIII, mas formalmente a OBOD foi fundada em 1964 por Ross Nichols, poeta e académico de Cambridge.
Actualmente deverá haver cerca de 12 mil seguidores em cerca de 50 países.
Um dos momentos mais relevantes desse movimento deu-se há um ano, quando Inglaterra reconheceu oficialmente o druidismo como religião.
Fonte: Sol

Festival céltico em Belazaima

A festa céltica da fertilidade - Beltane - fazia-se por toda esta região até há cerca de 1500 anos atrás, com fogo, flores, música, danças, muita comida e bebida. Como sortilégio da fertilidade nas terras e na mulher, o BELTANE era dirigido ao deus Belenos, no que respeita às forças vitais da natureza, mas essencialmente era feito com o apelo à energia humana e ao mais intenso dos convívios entre vizinhos. É esta celebração que a Associação Etnográfica Os Serranos vai recuperar em Belazaima do Chão, nos dias 30 de Abril e 1 de Maio, enchendo o Parque e Auditório do Moinho de Vento com muitas centenas de amantes da música e da cultura celta. Desde Ferrol, na ponta da Galiza, até ao centro de Portugal.
Com dois períodos de espectáculo de palco (Sábado, 30, das 22 às 24 h e Domingo, 1 de Maio, das 15 às 17 horas), a primeira edição desta celebração recuperada na bruma do tempo, conta com seis grupos de música céltica, sendo 3 da Galiza e outros tantos de Portugal. De As Pontes – Ferrol, virá a banda MUXAREGA e logo abaixo da Corunha, o grupo de pandereteiras e mestres de dança MESTURAXES. De Xinzio de Limia (Ourense) chegam os enérgicos Jalos d’Antioquia, que há vários anos convivem com a Associação Etnográfica Os Serranos na Romaria Etnográfica Raigame, em Vila Nova dos Infantes (Celanova). A armada portuguesa de gaitas é encabeçada pelo excelente grupo SONS DA SUÉVIA (Braga) e inclui RONCOS E CURISCOS (Coimbra), para além da revelação ANTÓNIO – Gaiteiro de Portugal, semi-finalista no concurso Portugal Tem Talento.
Todavia, para além dos espectáculos de palco, é garantido um roncar permanente de gaitas debaixo do arvoredo do parque do Moinho de Vento, misturado com todo o género de acompanhamentos e puxando pelo cancioneiro popular galaico-português. Tudo sentido, tudo emocionado, gastando energia que passa para a criação da natureza e entusiasma a paixão. Para recompor, a Associação Etnográfica Os Serranos garante comida e bebida, no melhor espírito da cultura celta.
Os celtas foram um povo de origem inicial nórdica, com identidade excepcionalmente forte, resultante do seu agrupamento em comunidades e apoiada em técnicas próprias de exploração agrária e pastoril, mas sobretudo no domínio da metalurgia do ferro. Ocuparam o centro do continente europeu, mas acabaram por se fixar nas frentes atlânticas do oeste europeu, nomeadamente da península ibérica, durante todo o 1º milénio aC, sendo os principais agentes da passagem da idade do bronze para a idade do ferro nestas regiões ocupadas.
As comunidades celtas eram aguerridas, trabalhadoras e, em simultâneo, divertidas e festivas, com uma religiosidade nativa e mística, orientada para a sustentação da natureza. Trouxeram os cereais para a península ibérica e multiplicaram a pastorícia, fixando-se nos povoamentos que hoje exemplificam a cultura castreja e os monumentos megalíticos ligados à mística e a necrópoles, no nordeste da península ibérica. Foram os celtas os primeiros a usar calças na indumentária masculina, inventaram a cerveja e fixaram uma calendarização de festas e rituais, em ciclo anual e fizeram da música uma expressão necessária.
Os lusitanos eram clãs ou tribos celtas, com a coesão e a força proporcionada pela sua identidade e pela cultura. As suas tradições lançadas e vividas entre nós há mais de 2500 anos, foram objecto de sucessivos ataques e aculturações, em particular pela romanização e, posteriormente de modo mais intenso e continuado, pela cristianização durante cerca de 1500 anos. Todavia, muitas das suas tradições e expressões culturais perduraram e permanecem identificáveis nos dias de hoje, com algumas evidências na nossa região: levantar totens e queimá-los (festa do pau), danças em volta de mastros com fitas que entrançam, celebração das maias, uso do fogo como sortilégio, gaita-de-foles, celebrações ligadas às forças da natureza, ainda que muitas destas tenham sido cristianizadas e reorientadas, tal como acontece com a festividade da Santa Cruz, no início de Maio, que é uma adaptação do Beltane céltico, deslocando a centralidade na mulher celta para o símbolo maior do cristianismo.
Os celtas apenas consideravam duas estações no ano (Inverno e Verão) e associavam-lhes respectivamente o espírito da noite e do dia, bem como o das forças da morte e da vida. Na entrada do Inverno (finais de Outubro) celebravam o Samhaim, convocando a presença dos familiares e vizinhos mortos e celebrando a sua presença espiritual, através de um ritual que viria a ser adaptado pelo cristianismo através do Dia dos Fieis Defuntos e pelo mercantilismo americano como dia das bruxas ou haloween. Na passagem para o Verão celebravam o Beltane, a festa da fertilidade e da sagração das forças enérgicas que a produzem: virilidade, fogo, alegria e floração.
Beltane em Belazaima
É esta celebração que a Associação Etnográfica Os Serranos vai recuperar em Belazaima do Chão, nos dias 30 de Abril e 1 de Maio, recriando a festividade céltica do Beltane. O Parque e Auditório do Moinho de Vento irão acolher muitas centenas de amantes destas tradições e em particular da música de inspiração céltica. Haverá festival deste tipo de música, com grupos galegos e portugueses, no Sábado entre as 22 e a meia noite e, no Domingo, entre as 15 e as 17 horas. Pelo meio, Os Serranos organizam ateliers de construção de coroas de Maio, de dança galaico-portuguesa com inspiração céltica e juntar-se-ão dezenas e dezenas de tocadores de gaitas de foles, com presenças já confirmadas desde Ferrol a Lisboa.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Deus de Jajouka

Jajouca, Jajouka, Joujouka ou Zahjouka é uma vila que fica ao sul de Tanger, no Marrocos. Nesta vila, um grupo musical chamados de "Mestres da Música", músicos sufis, que induzem o transe pela música, celebram a Boujeloudia com suas músicas. Eles chegaram a influenciar a geração Beat e Brian Jones.
O que ou quem eles celebram com essa música que é o mais interessante. Ele é chamado de "Pai do Medo", Bou Jeloud, um Deus Bode.
"A vila é o lar dos Músicos Mestres de Jajouca como também o santuário do Santo Sidi Ahmed Sheikh, que veio do leste por volta de 800 DC para divulgar o Islão no norte do Marrocos. Como fundadores da vila, a família Attar mantêm uma das mais velhas e únicas tradições musicais conhecidas no planeta. A música e os segredos de Jajouka têm sido passados por gerações, de pai para filho, por cerca de 1300 anos.
Antes da chegada de Sidi Ahmed Sheikh, as lendas dizem que a música tem suas origens de uma caverna nos montes de Jajouka. Quando o primeiro Attar chegou na região, ele dormiu na caverna de Boujeloud onde o "pai das peles" apareceu a ele em um sonho tocando a mais bela música que ele havia ouvido. Boujeloud, por quem a Boujeloudia é tocada, retornou para ensinar aos vilegos uma forma especial de música que eles podiam passar através das gerações".[Músicos Mestres de Jajouca - em inglês]
Boujeloudia:
"Esta música é, em essência, parte de um ritual de fertilidade, uma variante que tem existido por milênios mas que está melhor preservada em Jajouka. Tradições similares são encontradas através do Mediterrâneo aonde personagens mascarados e frenéticos, em certas épocas do ano, espalham medo e pânico entre os vilegos. Algumas teorias apontam às similaridades destas tradições e os festivais romanos da Lupercalia.
Em Jajouka os rituais são centrados em um personagem chamado Boujeloud e uma mulher por quem ele está apaixonado, Aisha Qandisha. Boujeloud, raivoso, tenta acertar os músicos e o público, mas é controlado pela poderosa força da música, a Boujeloudia. Boujeloud segura galhos em suas mãos e em seu frenesi ele pode atacar qualquer um. Mulheres que são atingidas por ele estão seguras de estarem férteis no futuro. Aisha Qandisha dança e o provoca.
Na lua cheia depois de Aïd el–Kebir [festival muçulmano que marca o fim do Hajj ou peregrinação a Meca], os músicos realizam um festival onde esta música fabulosa é tocada. Ela é caracterizada por um certo ritmo e melodia e pode ser executada com muitos instrumentos como ghaita [corneta] e tebel [tambor de pele de cabra], lira [flauta] e mesmo gimbri [viola forrada com pele de cabra] e bendir [tamborete]. Ela pode ser executada também em outro momento, em casamentos e festas. Todo mundo pode dançá-la, mas deve ficar atento ao homem com um chapeu de palha e uma pele de bode. Boujeloud pode vir correndo de repente e o dançarino terá tempo apenas para ver os olhos faiscantes antes de ter que correr".[Músicos Mestres de Jajouca - em inglês]

Festival Internacional da Máscara Ibérica

O Festival Internacional da Máscara Ibérica, que começou esta quinta-feira, pretende levar às principais praças de Lisboa a diversidade das culturas regionais europeias. O evento prolonga-se até ao próximo domingo.
O primeiro momento do certame, a Mostra das Regiões, pode ser visitado, durante os quatro dias, na Praça do Rossio. Diariamente, o evento irá ainda proporcionar concertos, animação de rua, exposições e provas de produtos regionais.
O ponto alto do festival é o desfile de máscaras, marcado para sábado, às 16.30 horas, entre a Praça do Comércio e o Rossio. Por Portugal desfilam os grupos Máscaros de Vila Boa (de Vinhais); Caretos da Lagoa (Mira); Caretos de Varge (Bragança); O Chocalheiro da Bemposta, Os Velhos de Bruçó e O Farandulo de Tó (todos de Mogadouro).
Desfilarão ainda 15 grupos de Espanha, um da Irlanda e um de Itália.
Em entrevista recente à Lusa, na apresentação do programa, Hélder Ferreira sublinhou que a última edição teve "20 vezes mais retorno do que custos", mas o evento continua a ser mais financiado por Espanha do que por Portugal.
Na presente edição, o evento será visitado por observadores da UNESCO (agência das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura), que vão avaliar a possibilidade de candidatar a máscara ibérica a Património da Humanidade.
Citado pelo Caturo, no Gladius.
Fonte: Jornal de Notícias

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O 3° país que mais se crê em Deus

Parece ser uma boa notícia, mas não é:
O Brasil foi o terceiro país em que mais se acredita em "Deus ou em um ser supremo" em uma pesquisa conduzida em 23 países.
A pesquisa, feita pelo empresa de pesquisa de mercado Ipsos para a agência de notícias Reuters, ouviu 18.829 adultos e concluiu que 51% dos entrevistados "definitivamente acreditam em uma 'entidade divina' comparados com os 18% que não acreditam e 17% que não tem certeza".
Quem diria que nós somos medalha de bronze em alguma coisa, em nível mundial. Nem cabe a pergunta capciosa em qual Deus se crê - e disto não falo de nós, Pagãos, politeístas - afinal, o conceito e a interpretação de quem ou o que Deus é tem enormes variáveis dentro do Cristianismo. mas não é uma boa notícia:
O país onde mais se acredita na existência de Deus ou de um ser supremo é a Indonésia, com 93% dos entrevistados. A Turquia vem em segundo, com 91% dos entrevistados e o Brasil é o terceiro, com 84% dos pesquisados.[BBC]
Sermos comparados com a Indonésia não é uma boa comparação. Sermos comparados com a Turquia fica um pouco melhor, mas não podemos nos esquecer que a Turquia é um país de maioria muçulmana. Tanto lá, como cá, existem leis que garantem a liberdade religiosa, mas na prática, nós sabemos que isso não funciona.

Quem sabe, algum dia, o Brasil seja o 3° país em justiça, igualdade e tolerância social.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A face de Aletheia

Aletheia, a Verdade, a Deusa.
A Deusa da Verdade, na definição de Blavatsky:
"The Epinoia, the first female manifestation of God, the "Principle" of Simon Magus and Saturninus, holds the same language as the Logos of Basilides; and each of these is traced to
the purely esoteric Alêtheia, the TRUTH of the Mysteries. All of them, we are taught, repeat at different times and in different languages the magnificent hymn of the Egyptian papyrus, thousands of years old: The Gods adore thee, they greet thee, O the One Dark Truth". [A Doutrina Secreta - III]
Curioso como a Deusa da Verdade se manifesta como escura, negra, oculta, algo bem diferente do conceito linguístico dado ao termo "verdade".
Consequentemente, ao entrar na Verdade, o buscador tem uma luz, uma iluminação, um esclarecimento. este é o momento da descoberta, da idéia, quando o buscador diz "eureka", dado pelas Deusas: Conhecimento, Sabedoria e Inteligência.
Nisto, o buscador recebe diplomas, títulos, certificados, que somente fazem sentido e têm significado no meio daqueles que reconhecem tais documentos, por pertencerem ao mesmo meio, o acadêmico. Mas a verdade, o conhecimento, a sabedoria e a inteigência não estão nos diplomas, nos títulos, nos certificados ou na suposta autoridade que a pessoa se dá, devido ou por causa deles.
O homem se vê sozinho nesta busca então, por vaidade, orgulho, crê que foi por seu único esforço que percebeu a verdade.
O homem crê que pode possuir ou deter a verdade, mas não existe uma verdade cujo sujeito possa ser o seu detentor.
Mas quando uma pessoa deixa que seus diplomas, títulos, certificados ou suposta autoridade sejam seu salvo-conduto, seu cartão de apresentação, seu manto de infalibilidade, sua coroa de inerrãncia, fatalmente esta pessoa desmerece a verdade, o conhecimento, a sabedoria e a inteligência que se acha portador.
Assim é o tolo que em seu transtorno narcisista, em seu complexo de superioridade se acerca de seu séquito e profere seus conselhos, suas bulas e suas "verdades".
Em seu pequeno, círculo, em seu pequeno mundo, ele é soberano.
Para a Deusa da Verdade, Aletheia, é mais um deslumbrado com a pequena chama com que foi dotado. E pobres e perdidos são os que o seguem, convencidos de que seu líder efetivamente sabe e pode conduzi-los, de que ele é divinamente inspirados, de que ele é o portador da verdade, de que apenas ele sabe das respostas.
Pagãos não tem messias e dispensam salvadores. Nenhum pagão que se preza a si e aos Deuses irá depositar sua caminhada e sua busca em pessoas que se arrogam alguma autoridade, secular ou sacerdotal. Um pagão é senhor e papa de si mesmo, diante dos Deuses.

Maslenitsa, o carnaval russo


" Maslenitsa é uma festa eslava antiguíssima, uma herança da cultura pagã que foi reconhecida oficialmente pela igreja ortodoxa.
É festa de despedida alegre do inverno, iluminada pela esperança radiante de vinda próxima do calor e da renovação primaveril da natureza. A festa de "maslenitsa" começa 56 dias antes da Páscoa. Alguns historiadores afirmam que outrora "Maslenitsa" estava ligada ao dia do solstício de primavera, mas depois da adoção do cristianismo esta festa deixou de anteceder a quaresma e depender dos seus prazos.
Mas a festa de "maslenitsa" não se reduz a isso. É que para os eslavos ela coincidia também com os festejos do Ano Novo! Até o século XIV o ano novo começava na Rússia em março. Mesmo as panquecas,  atributo obrigatório da "Maslenitsa", tinham um significado ritual: redondos, bem tostados e quentes, elas simbolizavam o sol que se torna nesta época cada vez mais quente alongando o tempo claro do dia. Uma crença antiga reza: qual for a festa do ano novo, tal será o ano. Foi por isso que os  antepassados russos não poupavam nestes dias dinheiro para pôr uma mesa farta e para festejos alegres sem fim. E o povo chamava a Maslenitsa "folgada", "glutona" ou, inclusive, "esbanjadora".
Também é dito que o nome "Maslenitsa" deriva da tradução grega, pois a semana que antecede a Grande Quaresma chama-se Sirnaya sedmitsa (A Semana do Quejo) em grego. Quando o cristianismo apareceu na Rússia Antiga, as pessoas ainda não sabiam o que era queijo e manteiga. Para compreender o que é permitido comer nestes dias, surgiu o nome "Maslenitsa", da palavra russa "Maslo" – isto é, a manteiga. Na semana antes da Grande Quaresma é preciso comer laticínios e já não se pode comer carne.
Outro nome de Maslenitsa é "myassopust". O myassopust russo é quase a mesma coisa que o carnaval ocidental cujo nome é composto por duas palavras latinas – carnis e vale, isto é, "vitela, adeus".
Como visto acima, panquecas são a principal iguaria na semana de maslenitsa. Podem ser feitas da massa leveda ou não leveda, da farinha de trigo, e os recheios podem ser de peixe, caviar, requeijão, manteiga, creme azedo ou geleia. Existem um grande número de receitas. Todos os restaurantes caros e cantinas públicas de vários estabelecimentos têm este prato durante a semana de maslenitsa. Os cozinheiros do Kremlin, da Casa do Governo e do parlamento vão fazer cerca de 10 mil panquecas durante a festa tradicional russa. Segundo as sondagens, 83% das mulheres russas vão cozer panquecas. Durante a maslenitsa costuma-se visitar parentes e amigos, oferecer panquecas e outras iguarias aos hóspedes.
Seja qual for a explicação, a Maslenitsa é  uma celebração geral do povo pelo retorno da luz e do calor e a última gota de diversão e comilança antes do início da quaresma. "
Fonte: Anoitan

sábado, 16 de abril de 2011

Feliz Songkran!

Songkran (Renovação) é o nome do antigo ano novo tailandês, que este ano, entra no ano de 2554. Ele parece muito com o réveillon brasileiro em que a ideia é deixar para trás o que não deu certo e renovar as energias e esperança para o próximo ano. As festividades marcam o nascimento de buda e acontecem no mês de abril, de 13 a 15, e correspondem ao Ano Novo Budista.
"A festa antecede a plantação do arroz, alimento base de todas as culturas da região e que crescerá nos alagados", explica David.
No Brasil, o Songkran, também conhecido como Festival das Águas, a cada ano vem sendo mais festejado pelos que cultuam as tradições tailandesas no país. O chef David Zisman, do Nam Thai, no Rio de Janeiro, não poderia deixar passar em branco, e como todo ano, prepara um cardápio especial (R$ 85, menu completo) para ser servido entre os dias 13 e 17 de abril (de quarta a domingo).
"A ideia foi fazer uma ligação com a festa através da água, um dos símbolos forte da festividade. Por isso trouxe receitas com peixes", revela ele.
Começando a exótica viagem pelos sabores thai o delicado salmão temperado em shoyo e gengibre com tempero de creme de queijo de cabra e crumble. Em seguida, o saboroso lombo de robalo com curry de abacaxi. Para finalizar a surpreende sobremesa copa de frutas. Servida em uma charmosa taça de Martini com frutas da estação laminadas nas bordas, sorvete de tangerina e calda de açafrão, vinho branco e pimenta.
Os comensais serão brindados ainda com um uma charmosa garrafinha de San Pellegrino, conhecida como a champanhe das águas minerais, entre quarta e sexta-feira (13 a 15).
O princípio do Songkran é a tradição e a forma do povo tailandês agradecer à divindade do Buda pela graça concebida da dádiva de chuvas, que fizeram abundancia de arroz e frutos nas terras sob sua proteção. Milhões de fiéis de todas as idades vão aos templos budistas do norte ao sul, para colocar água na imagem de Buda, nas mãos dos monges budistas, dos idosos da comunidade e receberem as suas bençãos para que os guie no bom caminho durante o ano que começa. As ruas são tomadas por uma divertida guerra campal onde os tailandeses jogam bolinhas de água uns nos outros.
E aqui no Brasil, mas precisamente no Rio, os fãs da culinária, tailandeses ou não, vão entender literalmente que não se precisa ir muito longe para se chegar à Tailândia.
 Fonte: Revista Fator

Religioso vs Irreligioso

(...) o homem religioso assume um modo de existência específica no mundo, e, apesar do grande número de formas histórico-religiosas, este modo específico é sempre reconhecível. Seja qual for o contexto histórico em que se encontra, o homo religiosus acredita sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado, que transcende este mundo, que aqui se manifesta, santificando-o e tornando-o real. Crê, além disso, que a vida tem uma origem sagrada e que a existência humana actualiza todas as suas potencialidades na medida em que é religiosa, ou seja, participa da realidade. Os Deuses criaram o homem e o Mundo, os Heróis civilizadores acabaram a Criação, e a história de todas as obras divinas e semi-divinas está conservada nos mitos.
Reactualizando a história sagrada, imitando o comportamento divino, o homem instala-se e mantém-se junto dos Deuses, quer dizer, no real e no significativo.
É fácil ver tudo o que separa este modo de ser no mundo da existência de um homem a-religioso. Há antes de tudo o facto de que o homem a-religioso nega a transcendência, aceita a relatividade da "realidade", e chega até a duvidar do sentido da existência. As outras grandes culturas do passado também conheceram homens a-religiosos, e não é impossível que esses homens tenham existido até mesmo em níveis arcaicos de cultura, embora os documentos não os registem ainda. Mas foi só nas sociedades europeias modernas que o homem a-religioso se desenvolveu plenamente.  (...) O homem faz-se a si próprio, e só consegue fazer-se completamente na medida em que se dessacraliza e dessacraliza o mundo. O sagrado é o obstáculo por excelência à sua liberdade. O homem só se tornará ele próprio quando estiver radicalmente desmistificado. Só será verdadeiramente livre quando tiver matado o último Deus.
(...)
Mas o homem a-religioso descende do homo religiosus e, queira ou não, é também obra deste, constituiu-se a partir das situações assumidas por seus antepassados. Em suma, é o resultado de um processo de dessacralização. Assim como a "Natureza" é o produto de uma secularização progressiva do Cosmos obra de Deus, também o homem profano é o resultado de uma dessacralização da existência humana. Isto significa que o homem a-religioso se constitui por oposição ao seu predecessor, esforçando-se por se "esvaziar" de toda a religiosidade e de todo significado trans-humano. Reconhece-se a si próprio na medida em que se "liberta" e se "purifica" das "superstições" de seus antepassados. Por outras palavras, o homem profano, queira ou não, conserva ainda os vestígios do comportamento do homem religioso, mas esvaziado dos significados religiosos. Faça o que fizer, é um herdeiro. Não pode abolir definitivamente o seu passado, porque ele próprio é produto desse passado: é constituído por uma série de negações e recusas, mas continua ainda a ser assediado pelas realidades que recusou e negou. Para obter um mundo próprio, dessacralizou o mundo em que viviam os seus antepassados; mas, para chegar aí, foi obrigado a adoptar um comportamento oposto àquele que o precedia – e ele sente que este comportamento está sempre prestes a reactualizar-se, de uma forma ou outra, no mais profundo do seu ser.
Como já dissemos, o homem a-religioso EM estado puro é um fenómeno muito raro, mesmo na mais dessacralizada das sociedades modernas. A maioria dos "sem religião" ainda se comporta religiosamente, embora não esteja consciente desse facto. Não se trata somente da massa das "superstições" ou dos "tabus" do homem moderno, que têm todos uma estrutura e uma origem mágico-religiosas. O homem moderno que se sente e se pretende a-religioso carrega ainda toda uma mitologia camuflada e numerosos ritualismos degradados. Conforme mencionamos, os festejos que acompanham o Ano Novo ou a instalação numa casa nova apresentam, ainda que laicizada, a estrutura de um ritual de renovação. Constata-se o mesmo fenómeno por ocasião das festas e dos júbilos que acompanham um casamento ou o nascimento de uma criança, a obtenção de um novo emprego ou uma ascensão social etc..
Poder-se-ia escrever uma obra inteira sobre os mitos do homem moderno, sobre as mitologias camufladas nos espectáculos que ele prefere, nos livros que lê. O cinema, esta "fábrica de sonhos", retoma e utiliza inúmeros motivos míticos: a luta entre o Herói e o Monstro, os combates e as provas iniciáticas, as figuras e imagens exemplares Herói e o Monstro, os combates e as provas iniciáticas, as figuras e imagens exemplares (a "Donzela", o "Herói", a paisagem paradisíaca, o "Inferno" etc.). Até a leitura comporta uma função mitológica – não somente porque substitui a narração dos mitos nas sociedades arcaicas e a literatura oral, viva ainda nas comunidades rurais da Europa, mas sobretudo porque, graças à leitura, o homem moderno consegue obter uma "saída do Tempo" comparável à efectuada pelos mitos. Quer se "mate" o tempo com um romance policial, ou se penetre num universo temporal alheio representado por qualquer romance, a leitura projecta o homem moderno para fora de seu tempo pessoal e integra-o noutros ritmos, fazendo-o viver numa outra "história". (...)

In O Sagrado e o Profano, de Mircea Eliade.
Citado pelo Caturo, no Gladius.

A iniciação do Ser

Gradualmente a idéia da auto-iniciação está se espalhando na forma de uma iniciação a um culto, crença ou tradição. Em particular isto é comum nas formas da wicca e bruxaria eclética. Esta é uma idéia curiosa que ao mesmo tempo em que adentra no cerne, se lança para fora dele. Percebo a natureza da auto-iniciação como refletindo um indivíduo que sente um certo chamado e administra os ritos de sua indução sem um intermediário ou professor presente. É uma oferta de servitude e dedicação ao poder que se deseja evocar. Pelo lado bom denota uma escolha pessoal e uma afirmação de crença, aonde o espírito anfitrião é evocado para testemunhar o ato. É um sintoma da humanidade sentindo-se espiritualmente perdida e que procura se reconectar com o que percebe estar perdido. Eles querem se re-ligar, re-anelar sua crença, eles querem fazer sua religião. Muito frequentemente o que está acontecendo é verdadeiramente o que o termo auto-iniciação significa, que você se inicia (espiritualmente). É uma declaração à Criação de que você está se engajando em uma busca espiritual.
Isto é maravilhoso, mas torna-se problemático quando o mesmo auto-iniciado proclama ser iniciado em um culto, crença ou tradição existente, na qual ele não possui qualquer vínculo pelo sangue ou sopro. Nisto eles tentam se re-ligar a algo que está perdido ou algo que nunca esteve lá. Eles se auto-iniciam em uma fantasia de inclusão.
Esta idéia extendida de auto-iniciação - de que você enquanto um auto-dedicado pode escolher um culto ou tradição e dizer que você faz parte - é enganoso se não uma fanfarronice, especialmente quando a tradição em questão existe e você foi incapaz de se conectar a ela. De minha perspectiva, isto deveria te dizer algo, que sua dedicação não foi atraente aos seus pares. É o que acontece em muitos dos casos, onde pessoas simplesmente usurpam tradições e crenças e se auto-adotam em um caminho sem qualquer aprovação ou ligação com a tradição em questão.
Esta é uma possibilidade moderna e é uma das razões pela qual vejo a modernidade como um regresso e não como um progresso positivo. Então temos pessoas auto-iniciadas na Stregoneria ou bruxaria Basca. Estas pessoas comumentemente são atraídas à ilusão do nome ou da mitopoesia que eles puderem reter, mas para mim, que pus o pé na sujeira e bebi deste fogo é estranho ver esta possibilidade surgindo; de que uma pessoa com uma inclinação sentimental se imponha sobre meu sangue e família. É ainda pior quando vejo que nada dizem do meu sangue e da minha família, mas somente uma devoção deslocada e falha a qualquer que seja o espírito nos ditos panteões, demonstrando uma completa falta de entendimento, veneração e compreensão do mistério que fez sua teia sob a tradição em questão. Para mim é tão estranho quanto se eu decidisse adotar-me na família de Bragança ou Lionheart só porque eu senti uma afinidade com o brasão da família. Acho isso muito ridículo, porque uma tradição verdadeira age como uma rocha sólida para nossa crença. É a encruzilhada entre o próprio sangue e os que trazem a marca que media a tradição propriamente. Isto se manifesta em Magisters e Damas sólidos, que asseguram a passagem da tocha para que o trovão dos inomináveis possa te incendiar na totalidade de seu potencial. Tradição é a encruzilhada de intercessores humanos e mortais que grava a luz nas pedras
Creio que uma boa iniciação no caminho possa começar com uma dedicação solitária à natureza e um espírito escolhido. Mas isto é o começo de um caminhar, não uma aceitação comunitária que se toma em um sopro, vinho e sangue dado no momento da sua dedicação. A auto-iniciação fala do início de sua jornada espiritual. Isto é algo bom enquanto mantivermos a atenção em nós mesmos e não projetamos isto a uma fantasia de inclusão.
Acho que outro vírus moderno é aquele em que todos querem ser algo eminentes e dignos em nome da ambição. Todos querem ser sacerdotes e sacerdotisas de algo. Nisto a busca espiritual se torna um expositor de problemas pessoais. Ao almejar títulos e status, podemos esquecer de nossa essência e o grande trabalho que somos presenteados quando chega o trabalho sobre a essência. Ao fazer isto, podemos transmitir nossa prória disfunção a um grupo maior e nos inclinarmos aos problemas que demos a outros, como se eles não pertencessem ao fundador da crença disfuncional. Isto é importante, porque quando você assume o papel de sacerdote, sacerdotisa, mestre, guru, magister, sua qualidade neste serviço repousa em como você iniciou e resolveu os mistérios do ser.
Então, aqui apresento para a reflexão: quando você busca uma auto-iniciação, o que você busca? Quando você declara uma denominação ou um pedigree tradicional à sua iniciação, o que você está realmente afirmando? Quando você afirma que é sacerdote/sacerdotisa, quem é você realmente e por que você assumiu este ofício?
Por Nicholaj de Mattos Frisvold
Revisão por Qelimath
Nota da casa: A auto-iniciação é a única prática que elimina sua própria razão de ser.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rasgando os véus

Sarkozi, se me perdoam pelo péssimo trocadilho, está procurando sarna para se coçar.
Na França está proibido o uso do véu ou qualquer outra roupa que evite a identificação dos cidadãos. Ou melhor, a proibição visa as muçulmanas que, por hábito familiar ou preceito religioso, usam o véu. A lei, que está sendo considerado inconstitucional, debruça-se sobre a segurança do Estado, contra possíveis atos de terrorismo. Aqui no Brasil tivemos uma experiência ruim com leis feitas em nome da segurança do Estado. Especialistas acreditam que a lei será inócua. E muçulmanas estão protestando contra o governo francês, usando os véus em público depois da lei.
Neste blog eu comentei no texto "Roupa, sociedade e religião" e no texto "Escravidão espiritual" meu estranhamento. Sarkozi tentou ludibriar a opinião pública que este seria uma lei que iria "libertar" a mulher. Vindo de um governante patriarcal, só podia ter dado nisso. E a lei foi feita para aplacar o crescimento da direita e da xenofobia na França.
Para as muçulmanas que realmente acreditam que o véu a dignifica e que o Islamismo é uma religião "compreensiva" com as mulheres, eu recomendo a leitura do drama das mulheres curdas:
"Diyarbakir (Turquia), 14 abr (EFE).- Ferihan (nome fictício) foi obrigada a se casar quando ainda era menor de idade. Seu marido, um parente muito mais velho do que ela, a forçou durante anos a se prostituir e por isso a mulher decidiu fugir com o homem que amava.
 Infelizmente, o marido conseguiu encontrá-la e levou Ferihan de volta para casa, onde foi "julgada" por seus próprios familiares e condenada à morte por ter "manchado a honra da família".
 Ferihan teria sido assassinada - como muitas outras mulheres do conservador sudeste da Turquia, onde se concentra a população curda - caso seu irmão, contrário à decisão da família, não tivesse pedido ajuda ao colégio de advogados de Diyarbakir.
 Apesar de os nacionalistas curdos, que controlam a política do sudeste do país, trabalharem há anos para incorporar a mulher à administração, o domínio dos homens nas ruas e nos postos de trabalho das regiões curdas é bastante forte.
 Nas áreas rurais, os clãs ainda têm poder para decidir sobre a vida de seus membros, e o código de conduta tradicional, a "töre", está acima das normas ditadas pela laica República da Turquia. Nestes lugares, a honra é a lei suprema.
 "As mulheres não podem viver livremente, não podem se casar nem amar quem quiserem. Quando chegam os 14 ou 15 anos, o clã decide quem vai casar com a menina e recebe dinheiro ou animais da família do noivo", conta Gül Kiran, da Associação de Mulheres de Van (Vakad).
 "Segundo as normas tradicionais, a mulher não é mais do que uma propriedade do clã", explica.
 No ano passado, 72 mulheres morreram assassinadas nas regiões curdas (frente às 265 no resto do país) e outras 269 foram hospitalizadas vítimas de violência machista.
 Além disso, 113 mulheres foram obrigadas a se suicidar por suas famílias ou porque não conseguiram suportar as condições nas quais viviam.
 Türkan Turan, encarregada de assuntos da mulher na Prefeitura de Diyarbakir, afirma que desde a chegada ao poder do Partido da Justiça e o Desenvolvimento (AKP, moderado), em 2002, o número de mortes de mulheres aumentou, algo que atribui à visão "machista" do governo de Recep Tayyip Erdogan.
 Segundo dados dos serviços sociais de Diyarbakir, 13 assassinatos de mulheres curdas cometidos em 2010 foram executados em nome da honra.
 E essa honra pode ser manchada muito facilmente, de acordo com os costumes locais: basta que uma jovem fale com um menino; que uma mulher casada peça o divórcio ou até que seja estuprada.
 "Basta um simples rumor", explica Nilgün Yildirim, do Centro de Mulheres de Diyarbakir (Kamer).
 O marido pedirá à família dela que limpe sua honra e a assembleia familiar deverá decidir como castigar a mulher que "desonrou" o clã.
 "Se uma mulher à qual a sociedade considera merecedora de castigo não for punida, a vida para a família se torna impossível: os vizinhos não te cumprimentam e nas lojas não te vendem nada. Todo mundo tenta marginalizar a família que não lavou sua honra", relata Yildirim.
 Muitas vezes, são os homens da família que avisam as associações como a Kamer que um crime está a ponto de ser cometido.
 "São pessoas que se opõem ao assassinato, mas não têm poder para impedi-lo dentro da assembleia familiar", acrescenta o especialista.
 "Denunciar não é fácil para uma mulher, é preciso muita coragem. A pessoa se expõe a um grande risco. Apesar de tudo, nos últimos anos houve um grande aumento das denúncias", relata Demet Öztürk, do colégio de advogados de Diyarbakir.
 Para essa mudança, contribuem as campanhas de conscientização das associações de mulheres e a rede formada pelos serviços sociais das prefeituras e os advogados, que permite proteger as vítimas da violência ao levá-las para casas de amparo e oferecer assessoria jurídica.
 As associações também conseguiram com que o governo elevasse as penas de prisão para quem comete crimes machistas e desde 2005 é possível acusar todos os membros da família que participaram da decisão de matar uma mulher.
 "A Promotoria pode chamar um povoado inteiro para depor. E também são muito importantes os registros telefônicos, para saber quem e até que nível está envolvido", conta a advogada Gülay Alan.
 "De qualquer forma, apesar de a lei ser boa, a mentalidade impede que seja colocada em prática integralmente", lamenta-se Yildirim.
 "Nós crescemos aqui e sabemos como as coisas funcionam. Quando uma mulher ameaçada quer voltar para casa, procuramos uma pessoa dentro de sua família que queira protegê-la. Esta pessoa deve dar sua palavra que ninguém voltará a tocá-la e, além disso, procuramos alguém respeitado - um prefeito ou um imame - que garanta que a palavra dada vai ser respeitada", explica.
Felizmente, nas regiões curdas, a palavra de uma pessoa tem tanta importância quanto a honra."[G1]
Por fim, se o problema é a segurança do Estado, a França deveria proibir também que freiras usassem véus. Quem me garante que debaixo daquela batina uma freira não leva uma bomba? Aliás, por que não remover também os vestidos de todas as mulheres? Vamos todos andar pelados, assim o Estado pode descansar em paz, em segurança.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O fio da vida


Que mistério pode haver em algo tão comum e ordinário como o cabelo? Não obstante, o ocidente tremeu com o terro japonês, Ju-On [The Grudge, O Grito], onde o espírito/entidade manifestava-se por longo fios de cabelo negros. O folclore japonês tem diversas histórias onde espíritos e cabelos estão de alguma forma vinculados.
Na mitologia clássica, fios, linhas, cordas, pêlos e tecidos cumprem uma silenciosa tarefa simbólica.
O mito mais conhecido são as Parcas, ou Moiras.
"Em Roma, as Parcas (equivalentes às Moiras na mitologia grega) eram três deusas: Nona (Cloto), Décima (Láquesis) e Morta (Átropos).
Determinavam o curso da vida humana, decidindo questões como vida e morte, de maneira que nem Júpiter (Zeus) podia contestar suas decisões. Nona tecia o fio da vida, Décima cuidava de sua extensão e caminho, Morta cortava o fio. Eram também designadas fates, daí o termo fatalidade.
Interessante notar que em Roma se tinha a estrutura de calendário solar para os anos, e lunar para os atuais meses. A gravidez humana é de nove luas, não nove meses; portanto Nona tece o fio da vida no útero materno, até a nona lua; Décima representa o nascimento efetivo, o corte do cordão umbilical, o início da vida terrena, o individuo definido, a décima lua. Morta é a outra extremidade, o fim da vida terrena, que pode ocorrer a qualquer momento."[wikipédia]
Menos conhecido, eclipsado pelos personagens Teseu e Minotauro, tem o mito de Ariadne.
"Ariadne propôs ajudar Teseu, dizendo-lhe que, se a levasse do palácio com ele, ela lhe daria o segredo para sair do labirinto do qual ninguém escapava. Entregou a Teseu o famoso mithos, novelo antigo usado para preparar a lã, dizendo que o desenrolasse, conforme entrasse no labirinto.
[...]Ela é filha de Pasifae e, enquanto sua mãe gerou um monstro, representando um retorno ao primitivo, Ariadne fez exatamente o oposto, pois venceu o primitivo, ajudando Teseu a vencer o Minotauro.
[...]A simbologia do labirinto é fundamental, pois todos têm, em sua relação com o outro, o Minotauro pela frente e o labirinto a enfrentar, mas às vezes perde-se o fio da meada, ou seja, o fio da vida."[Mitologia Viva, Viktor Salis, pg. 109-112]
Ou seja, o sentido do mito de Ariadne é inverso ao do mito das Parcas, embora estejam correlacionados. Aqui, a linha, o fio, serve para conduzir Teseu ao auto-conhecimento, enfrentando o labirinto da alma que todo ser humano possui, tornando-se senhor de suas pulsões animais e então trazendo-o de volta como um iniciado. O fio de Ariadne ludibriou a Fatalidade que pesava sobre Teseu, pelo auto-conhecimento os homens podem ludibriar o Destino.
Assim nos cercamos ao mito/saga mais conhecida, A Odisséia, quando nos deparamos com Penélope, a esposa de Ulisses/Odisseu.
"Enquanto Ulisses guerreava em outras terras e seu destino era desconhecido, não se sabendo se estava vivo ou morto, o pai de Penélope sugeriu que sua filha se casasse novamente, mas ela, uma mulher apaixonada e fiel ao seu marido, recusou, dizendo que o esperaria até a sua volta. No entanto, diante da a insistência de seu pai, para não desagradá-lo, Penélope resolveu aceitar a corte dos pretendentes à sua mão. Para adiar o máximo possível o novo casamento, estabeleceu a condição de que se casaria somente após terminar de tecer uma peça em seu tear.
Durante o dia, aos olhos de todos, Penélope tecia, e à noite secretamente ela desmanchava."[wikipédia]
Em lendas associadas, Penélope tecia uma cena que revelava um mistério e um Deus ou Deusa vinha desfazer para ocultar o mistério. Ou então que suas bordaduras davam oráculos do que estava por vir e um nobre ou uma cortesã vinha desmanchar para escapar do vaticínio. Na maior parte das vezes, sem sucesso, pois com a volta de Ulisses/Odisseu a tecelagem foi terminada, tudo aconteceu como foi predito e o mistério foi desvelado.
Assim é o destino das coisas, mais como uma trama, onde múltipos destinos se entrecruzam, do que uma única linha tênue. O destino não é apenas uma ação dos Deuses, mas uma co-criação com os homens. Lendas onde homens antigos tomaram o destino nas mãos nos levam ao Velocino de Ouro.
"O Velo de Ouro é na mitologia grega a lã de ouro do carneiro alado Crisómalo. Conta-se que tal velo estava pendurado num carvalho sagrado na Cólquida. Segundo a lenda, Jasão precisava recuperar o velo para assumir o trono de Iolco na Tessália.
Atamas, rei da cidade de Orcomeno na Beócia, teve como primeira esposa a deusa das nuvens Nefele, com quem teve dois filhos, o menino Frixo e a menina Hele. Mais tarde, ele se apaixonou e casou-se com Ino, a filha de Cadmos. Ino tinha ciúmes de seus enteados e planejou matá-los.
Nefele, em espírito, enviou às crianças um carneiro alado cuja lã era feita de ouro. Com esse carneiro, as crianças poderiam escapar por sobre o mar. Entretanto, Hele caiu e se afogou no estreito que passou a carregar seu nome, o Helesponto. O carneiro pôde levar Frixo a salvo para a Cólquida, no extremo oeste do Mar Euxino. Frixo sacrificou então o carneiro e pendurou seu velo numa árvore guardada por um dragão, em um bosque consagrado a Ares."[wikipédia]
Aqui o mito adverte contra o maior erro humano, chamado pelos gregos antigos de hubris. Jasão adquiriu o velo de ouro, tornou-se rei de Iolco, mas sua dinastia teve uma curta duração, como conta a tragédia grega "Medéia". Ele, como muitos humanos, perseguiu o sucesso, a riqueza, o prestígio, sem se importar com as consequências, desafiando não o destino, mas a medida certa das coisas, chamada pelos gregos antigos de sofrósina.
Por último, mas não menos importante, é a prática da "vaecordia" ou "ligadura" no Ofício. O que mais amedrontava os nobres, feudatários, padres e bispos não eram os conjuros, mas a habilidade das bruxas de tornar um homem impotente com uma inocente e comum linha de costura. Não ter herdeiros em um mundo dominado por questões de cessões e posses de terras era mais do que uma questão econômica. Era uma questão de poder, de autoridade, de influência. Coroas e tiaras dependiam disso e, com um simples fio, a bruxa podia alterar o destino de reinos e dioceses.

Cimento é invenção dos macedônios

Objetos da civilização helênica estão em exposição no Museu Ashmolean de Oxford, na Grã-Bretanha. Mas alguns deles, recém-descobertos, nunca foram vistos pelos próprios cidadãos gregos.
Os novos artefatos foram encontrados em um complexo real que pertencia a Alexandre, o Grande e a seu pai Felipe, da região grega da Macedônia.
Após a análise dos artefatos, os arqueólogos determinaram que os macedônios não eram somente grandes guerreiros, mas também foram construtores revolucionários.
Evidências mostram que eles usavam cimento três séculos antes dos romanos, a quem, até então, se atribuía a invenção do composto.
O repórter da BBC Malcolm Brabant foi a Vergina, no norte da Grécia, para conhecer o complexo de Alexandre. [G1]
E nós, tão "civilizados" e "modernos", achando que os antigos eram "bárbaros" e "incultos".
PS: Por enquanto eu irei postar novos textos via e-mail.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O ovo do basilisco

Aproveitando meu primeiro dia de férias, me debruço sobre a tragédia mais recente que engordou a conta bancária da nossa Imprensa Abutre, chamada de Chacina do Realengo.
Eu estava no serviço quando o pessoal começou a comentar sobre o atentado. Minha primeira reação foi lembrar que casos assim eram comuns nos EUA e nós, brasileiros, em nosso provincianismo e bairrismo, dizíamos como era bom que isso não acontecia no Brasil. Então jogaram ao público que o autor estava envolvido com o Islamismo. Nós também diziamos, quando víamos notícias internacionais sobre atentados praticados por radicais e fundamentalistas islâmicos, como era bom que isso não acontecia no Brasil.
Conforme avançavam as investigações, novas "explicações" surgiam, mas não convencem nem justificam: a mãe dele era esquizofrênica, ele era reservado, ele era tímido, ele sofria discriminação na escola. Ah sim, a palavra da moda, bullying. Antes a palavra da moda era pedofilia. Mas o que vemos é a sociedade e o comércio estimulando a erotização precoce das crianças e adolescentes, como o lançamento de lingeries com enchimento para meninas de seis (6!) anos.
Nenhuma das explicações servem. A minha mãe tem esquizofrenia e eu fui zoado na escola. Muitos brasileiros tem histórias semelhantes. Mas nem eu nem estas outras pessoas foram em busca de "vingança" por algo que aconteceu na infância e adolescência, descontando em cima de gente inocente que não tem culpa alguma. O que tentam evitar, fora o "perfil de distúrbio mental" do criminoso, é sua evidente identificação com uma ou mais formas de fundamentalismo religioso. Cenas na residência do autor mostram inúmeros livros "religiosos", a saber, bíblias e o Livro de Mórmon.
A comunidade islâmica tratou de desmentir que o matador fosse membro de alguma mesquita. A comunidade das Testemunhas de Jeová também desmentiram que ele fosse membro de alguma igreja. Se tivessem encontrado algum livro de bruxaria, ninguém iria perguntar ou ouvir a comunidade pagã, como já aconteceu em outros crimes. Apesar da negação, basta ler estes livros e estudar a doutrina para ver que o germe do fundamentalismo e do fanatismo estão ali, como um ovo de basilisco. Mas mesmo isso não é suficiente para entender a tragédia.
O elemento que mais se quer evitar de falar está na nossa sociedade. Nós vivemos e reproduzimos um sistema onde a violência é encorajada, aplaudida, comercializada. Basta vermos os filmes e jogos de sucesso. Basta vermos as ações militares pelo mundo. Basta vermos as ações policiais pela cidade.
A política da administração de empresas é a agressividade. O comportamento mais elogiado diante da comunidade é a agressividade - o assédio moral, o bullying, é apenas um sintoma. A sociedade apenas recebeu de volta os frutos de sua beligerância, neste e em outros casos.
Nós estamos criando e chocando um ovo de basilisco. Se o brasileiro quer realmente saber quem é o culpado pelo atentado em Realengo, basta ele olhar-se no espelho.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Editorial de esclarecimento

Eu fico muito agradecido e consternado ao ver meus textos divulgados pela internet. Aos diletos e eventuais leitores, visitantes e escritores, meu muito agradecido.
Eu apenas devo alertar que meus textos não são a manifestação do conhecimento puro, absoluto e incontestável.
Como comunicólogo, eu sei que quando um escritor acaba sua obra, em um jornal, em um livro, ou em mídias eletrônicas, imediatamente esta se torna pública. Um escritor assume as conseqüências de sua obra e arca com as reações, críticas e elogios. O que significa que, quando eu sou citado, nem sempre eu irei concordar com a pessoa ou grupo que usou meus textos em seu espaço midiático.
Esse é o caso do blog Conselho de Bruxaria Tradicional e seu autor, Ricardo Draco.
Eu NÃO concordo com sua visão eurocentrista.
Eu NÃO concordo com sua visão a respeito do que seja a Bruxaria Tradicional.
Em meus comentários em seu blog, eu deixei claro diversas vezes [embora não estão divulgados] que a visão dele é muito limitada e equivocada.
A Bruxaria Tradicional transcende à todas as épocas, povos, regiões e culturas. A Bruxaria Tradicional não é apenas as crenças pré-cristãs européias. O próprio conceito é um absurdo, uma vez que quando se fala em “tradição ibero-celta”, o termo em si constitui uma mistura [íbero+celta] o que, na própria definição do Ricardo Draco, não constitui uma “tradição”. Os celtíberos ocuparam apenas uma parte do que é hoje definido [definição moderna] como Continente Europeu, ou simplesmente Europa. Ou seja, a definição dele parte de uma amostragem pequena, senão inconsistente, visto que deixaria de lado as demais regiões da Europa: a central, a nórdica, a dos balcãs, a do báltico e a oriental. Regiões com uma cultura religiosa muito variada e distinta da península ibérica, assim como as diversas práticas de bruxaria.
Sem esquecer de diversos outros povos e crenças antigas, que são tanto uma parte quanto a origem da Bruxaria Tradicional, que existiram na África, no Oriente Médio, na Ásia Menor antes mesmo dos Celtas começarem a colonizarem a Europa. Incluindo locais mais longínquos, como as Américas e a Oceania, lá estão também crenças e práticas que são o corpo da Bruxaria Tradicional.
No que consta para este escritor pagão, o Conselho de Bruxaria Tradicional é uma empresa da mesma monta que a famigerada Igreja Brasileira de Wicca e Bruxaria.
Gratos pela atenção.