sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Disco riscado

Eu sou da época do disco de vinil. Encantava-me os "bolachões" de 78 RPM que, na minha infância, eram considerados "antiguidade". Meu irmão cuidava de sua discoteca com uma atenção primorosa, com direito a banho com sabão neutro.
Na minha época tinha também fitas K7. Meu pai guardava em uma caixa diversas fitas K7 com músicas italianas. Eu sou da época em que gravador tinha apenas um deck. Apenas depois apareceu o "três-em-um".
Eu sou da época do disquete de 3"1/2. Observava atônito os disquetes de 5"1/4 e com um misto de assombro os "antigos" cartões perfurados.
Eu sou da época dos primeiros video players VHS, com uma cabeça. Falar em Super 8 ou betamax era falar em coisa do outro mundo.
Eu sou da época em que desenho animado era filmado quadro-a-quadro.
Eu sou da época da ditadura militar e também do resquício da Contracultura americana. Eu vivi a virada da democracia e vi esta se tornar mais um "commodity" no Brasil. Eu fui da época em que "revista masculina" circulava com várias restrições e também da superficialidade do "amor livre", um subproduto importado da Contracultura americana.
Eu sou da época em que a Igreja vociferava contra o divórcio e contra a fertilização artificial, dizendo que seria o fim da humanidade e da família.
Eu sou da época em que o Protestantismo era pouco conhecido e divulgado. Eu vivi o surgimento, crescimento e a popularização do Evangelismo. Agora "ser evangélico" é fenomeno de massa.
Eu ainda sou da época em que existia a URSS, o Muro de Berlim, Apartheid. Eu sou de uma época em que "ser punk" ainda não era ser mais uma opção dentro do sistema. Eu sou de uma época em que ser ateu era ser bem informado e se combatia a intolerância, o preconceito, a discriminação, o fanatismo e o fundamentalismo.
Eu estou vivendo este conflito entre crente e descrente, discussões sobre o Estado Laico. Eu estou vendo discussões sobre a liberdade de expressão e sobretudo a liberdade de crença.
Eu vi o fim da URSS, a queda do Muro de Berlim, a libertação de Nelson Mandela, o fim do Apartheid, a eleição de Barak Obama.
Eu vi um partido vender-se aos grandes conglomerados, eu vi um presidente tornar-se uma paródia de si mesmo.
Eu vi o fim de todo o ideal e liberdade lançada pela Contracultura pelo ressurgimento do Puritanismo e do Politicamente Correto.
Eu vi diversas endemias, pandemias, neuroses, paranóias coletivas e o mesmo hábito de se escolher bodes expiatórios para nos eximir de nossa culpa e responsabilidade.
Eu vi o Neopaganismo Brasileiro nascer velho e esclerosado, espaço ideal e propício para o sucesso de vigaristas e falsários.
Eu vi o fim da Lei Falcão e a contínua incapacidade do brasileiro em eleger seus representantes.
Eu vi o Horário Eleitoral se tornar uma extensão dos intervalos comerciais. Eu vi o folclore eleitoral tornando-se norma e não algo pitoresco.
Eu sou da época em que Gerson, em uma propaganda de cigarros, descreveu a única lei que realmente é observada no Brasil. A Lei de Gérson, onde o mais importante é levar vantagem em tudo.
Eu vi e vivi o "boom" dos bingos bem como a proibição de um governo que explora os jogos de azar.
Ano que vem será o Ano da Serpente, como foi em 1965. Até agora foram 47 anos e, depois do fiasco do "Fim do Mundo Maia", eu verei o ser humano chegar ao fim de 2012 com as mesmas promessas, os mesmos sonhos, os mesmos projetos.
Parece que a humanidade, em especial o brasileiro, vive como se fosse um disco de vinil riscado. Toca a mesma música sem seguir adiante.
Como disse o sábio: "Nada de novo sob o sol". Mudam-se os nomes na Prefeitura, no Governo, mas a consciência e ação políticas continuam as mesmas.
Pessoas se tornam espíritas, evangélicas, umbandistas, budistas, pagãs, wiccanas...mas continuam a vivenciar uma religião ou espiritualidade vazia em sentido e prática.
Como a minha esposa e minha sacerdotisa diz, eu tenho que fazer a minha parte. Eu tenho que me esforçar e trabalhar pelo meu crescimento. O brasileiro ordinário continuará a se satisfazer com a vitória do seu time. Os politicos brasileiros continuarão a se beneficiar do sistema.
Como Filho da Serpente, eu tenho que me livrar da casca e seguir. Adiante eu encontrarei o melhor e estarei em excelente companhia.
Assim seja, assim é, assim será.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Carta para o Luiz

Caro Luiz, todos os anos, nesta época, comemoramos o Natal.
Algum dia você vai encontrar alguém que vai te dizer que Papai Noel não existe.
Luiz, Papai Noel existe.
De qual Papai Noel se fala? Papai Noel tem uma história e são muitos.
Tudo começou com São Nicolau, bispo de Mira, III século.
Ele distribuia comida e roupa aos pobres, especialmente crianças.
O chatonildo pode dizer triunfante: "Ah, mas ele morreu". Morreu, mas seu espírito e ideais deixaram herdeiros.
Aos poucos, o exemplo foi se espalhando, atravessando fronteiras, rios, mares.
Chegando na Europa, misturou-se ao folclore local e São Nicolau foi mesclado com o mito do Rei Carvalho e do Rei Azevinho, por isso que no Natal se usam coroas de folha de carvalho com enfeites de azevinho.
Foi quando chegou nos EUA que São Nicolau se transformou no Papai Noel. Os EUA são especialistas em transformar tudo em negócio.
Assim, o espírito e o ideal de São Nicolau ganharam outra roupagem e intenção. Papai Noel tornou-se um garoto propaganda do comércio e todo o ano nós vemos as pessoas alucinadas em busca de presentes, esqueçendo-se totalmente do verdadeiro sentido do Natal.
O chatonildo reclama exatamente porque o Natal virou algo fútil e superficial, ou então não ganhou algum presente quando tinha a sua idade.
O chatonildo diz que Papai Noel não existe, então ele não deveria poder comemorar o Natal, reunir-se com a família, fazer a ceia de natal, nem ganhar presentes de quem o ama, certo? Errado. Natal é isso. Deixar as diferenças de lado, perdoar, pedir perdão, amar, consolar, renovar as esperanças.
Assim, Luiz, tenha um bom Natal, um bom Solsticio de Verão [como o seu tio comemora], uma feliz Hanuka [como os Judeus comemoram].
São os votos do seu tio Beto.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Auto iniciação e auto imolação

Você sente a força e o impulso de alguma coisa lá fora, que o leva, pelo desejo, para uma reunião em um clarão na floresta, intoxicado por algo indefinido que te chama. Você vai ansiando por se unir ou realizar algum ritual misterioso prometendo uma certa ligação. Você acredita que está seguindo um chamado, os sussurros dos antigos chamando você de volta para seu aprisco. Às vezes isso pode ser certo e verdadeiro, mas muitas vezes este chamado percebido fala de sentimentalismo e nostalgia, uma saudade de algo real. Esta é, de todas as medidas, um bom ponto de partida, mas ainda temos que, como Andrew Chumbley comentou, fazer uma distinção "entre aqueles com visão e aqueles sem." A visão é o sinal de orientação interna, que uma conexão verdadeira e real é obtida. A visão é sempre agravado por presságios transcendental e igualmente real. Se o sangue reconhece o sangue não deve ser negado. E aqui coloca palavra e chave. "Bruxaria Tradicional" foi acusada de elitismo, mas é tudo sobre pertencimento, o que faz a acusação de elitismo uma questão de inveja.

Toda a idéia de auto iniciação é curiosa, o eu como um iniciador - para quê? Iniciação solitária faz muito mais sentido, mas aqui somos confrontados com a Visão e o Impulso. Em toda a honestidade, a auto inciação é um prejuízo para a natureza da iniciação. Ou o espírito inicia a chama ou a chama se inicia horizontalmente em virtude de um intercessor humano.

Aqui entramos em um campo misturado onde a fantasia e a visão como as víboras do juramento e mentira. O desejo puro para uma conexão acompanhado de fantasia vai levar a imolação e seu filho vai ser confusão - e, no pior orgulho, o equívoco de nosso lugar no mundo. Nas asas da fantasia egoísta, a certeza da grandeza é realizada no mundo das ilusões. Uma verdadeira conexão vai trazer algo mais, que irá moderar as faculdades do sangue que buscam em humildade - um fraco reconhecimento de nosso lugar e não a supremacia.

O desejo experimentado de se conectar pode tomar muitas formas e muitas vezes toma a forma de purificação e de putrefação - uma imolação de si mesmo. O candidato voa nas asas da fantasia e enrola-se em uma ilusão de perfeição distorcida, cometendo um erro no nome do sangue - gerando assim uma maior distância, declarada pela ação que ele ou ela não pertencem.

Esta é uma segurança que o Ofício possue porque, em última análise, a palavra e o juramento representam as chaves da entrada e da negação. Pela porta e pela encruzilhada uma multidão se reune. O que nos resta é um rebanho de almas perdidas que se esforça para pertencer e encontra as portas fechadas. Esta situação é causada pelos tormentos da própria alma pedindo para ser conhecida. É no fim sobre ser fiel a quem você é, não importa se o chamado for de desejo e fantasia ou Visão. Seja fiel a si mesmo, rejeite a fantasia em favor da verdade - e o caminho para a felicidade vai abrir, mesmo se não for o que você concentrou todos os seus desejos de alcançar ...
Fonte: Starry Cave
Traduzido com ajuda do Google Tradutor

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O fantasma de Hamlet


Para aqueles que continuam a dizer "Onde é que tu já alguma vez viste os
deuses, e como é que podes ter tanta certeza da sua existência para os
adorares dessa maneira?" A minha resposta é "Em primeiro lugar, eles são
perfeitamente visíveis. Em segundo lugar, também nunca vi a minha alma, e,
no entanto, venero-a. O mesmo se passa com os deuses; é a experiência que
prova o seu poder em cada dia, e portanto estou contente por eles existirem e
venero-os".
- Marco Aurelio Antonino
Como muitos, eu conheci meu pai. Um transeunte que não o conheceu, pode afirmar que meu pai não existiu. Eu tenho fotos e documentos, mas o órfão não, um transeunte pode afirmar que o pai dele não existe.
Eu conheci meus avôs maternos, mas não os paternos. Um transeunte pode afirmar que estes não existiram. Ainda que parentes e familiares mais idosos possam testemunhar que os conheceram, o transeunte simplesmente duvida e exige provas. Acaso não tivessem documentos e fotos, seriam estes menos reais?

Imagine então que dificuldade é convencer o transeunte dos que existiram antes destes! Poucos de nós consegue declinar até a sétima geração. Para o transeunte essa linhagem é uma mera fábula, no sentido pejorativo.
Torna-se impossível convencer ao transeunte da existência de quem este não conhece e não viu, mesmo com um histórico, indícios, documentos. Para o transeunte, respeito e reverência devida aos ancestrais são crendices, superstições, lendas, folclores e mitos, no sentido de mentiras.
Decerto o transeunte tem complexo de Édipo, tenta livrar-se da ameaça e do perigo que representa a figura paternal para sua noção de identidade, personalidade, individualidade.
No pensamento provinciano é inconcebível que, de povos "selvagens", "incultos" e "crédulos", tenha surgido toda civilização e ciência.
Esmiuça-se o transeunte em detalhar como as coisas são e funcionam, confiante de que, ao assimilar e imitar a ordem natural, tenha conforto e segurança. Apavora-se diante do inexplicável, do misterioso, do imprevisível. Nega tudo e qualquer coisa que não se encaixe nessa visão de mundo mecanicista e insensível.
O transeunte duvida da existência dos Deuses, ainda que a própria existência de todo fato, evidência, indica, como mapa anatômico, que os Deuses são reais.
As coisa são e funcionam porque há existência, esta mesma, prova da realidade dos Deuses. Não há ordem, lei ou regra nas coisas em si mesmas, mas além destas. Somente há ordem, lei e regra, bem como caos, onde há uma inteligência, uma consciência atuante, transcendente e imanente.
Eu o sei, pois conheci meu pai, este, meu avô e assim sucessivamente até o primeiro ancestral mítico, que conheceu, viu e testemunhou os Deuses face a face.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Il mestiere del cuore

"Quando você ama realmente alguém, ser fiel não é um sacrificio, é um prazer"
Uma frase meiga e romântica, mas no amor não há regras.
Amor não tem limite, forma, idade. Supõe-se que "ser fiel" é condição inerente, mas o conceito de que no amor deve haver fidelidade é uma imposição social.
Entende-se amar como algo restrito, exclusividade, como se apenas fosse "real" se for um monopolio, privilégio.
Vamos ver como fica a definição em outros termos.
"Um homem ama realmente quando se relaciona com uma  mulher"
Um homem ama realmente, seja uma mulher, seja um homem, ou ambos. Uma mulher amaria realmente da mesma forma, um home, uma mulher ou ambos.
Tem-se filhos, não faz sentido dizer que um pai, uma mãe ama realmente apenas o filho ou a filha, nem faz sentido dizer que o filho/ a filha ama realmente apenas o pai ou a mãe.
Dizer que se ama realmente quando se é fiel é o mesmo que ir em um buffet cheio de diversas comidas e servir-se apenas de arroz-e-feijão. Ou usar apenas bicicleta quando se tem tantas opções de transporte.
Nós observamos admirados a beleza de um jardim e não nos damos conta que a beleza deste jardim é diretamente proporcional ao número de abelhas que polinizam as flores. Diversas abelhas. Polinizando diversas flores.
Nós acreditamos nessa mentira que amar=fidelidade, que amar=monogamia/monotonia. Todos são livres e tem o direito de amar quem quiser, quantos quiser. Que sejam maduros e haja consentimento.
Dizer que apenas se ama realmente quando se é fiel, é diminuir o coração, é empobrecer o amor, é tornar o relacionamento um cárcere.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Olhai os lirios do campo

Um dos assuntos favoritos deste blog: sexo.
Mas por que logo um texto sobre sexo, titio Bode?
Bom, eu não suporto a confusão conceitual e mental que fazem pagãos, bruxos e wiccanos quando abordam o tema "sexo ritual".
E porque vem a calhar, haja visto a polêmica e discussão sobre a legitimidade dos protestos da Femen pelo mundo. Protestos que, por sinal, são duramente criticados por...feministas. Unicamente porque os protestos da Femen usam a nudez feminina como ferramenta. E também porque a nudez feminina, mesmo na Femen, tem interessantes nuances de conceitos e concepções.
E o que amor, relacionamento e sexo tem a ver com o livro "O Mito da Monogonia" e o filme "Qualquer Gato Viralata". E o que isto tem a ver com "Manifesto Onigâmico".
E o que isto tem a ver com essa cultura construida em cima dos valores judaico-cristãos, sexualmente recalcada, reprimida e oprimida. E o que isto tem a ver com a Musa Nana Odara e o sonho deste pagão em um mundo onde todos tenham o direito e a liberdade de amar quem quiser, quantos quiser.
Mas vamos pelas beiradas. Que o assunto é quente. Falar sobre sexo, amor e relacionamento causa comoção, indignação, críticas e comentários inflamados. E o prato do dia é Femen.
Existem movimentos feministas desde o século XVIII [desculpem se a informação não é precisa] e desde então existem várias vertentes, como em toda atividade que envolve posições políticas e ideológicas de muitas pessoas. E apareceu a Femen. Neo-feminsimo. Argh. Detesto essa mania de inserir um prefixo antes de uma palavra, como "Neopaganismo". Paganismo é paganismo. Nossos ancestrais exerciam suas crenças conforme a época, sem se preocuparem com rótulos. Feminismo é feminismo. Mulheres [e homens] lutam por diversos meios por uma sociedade mais inclusiva e igualitária.
Femen conseguiu exposição e importância no mundo e entre militâncias e protestos através do simples ato de se exporem sem roupa nas manifestações. Objeta-se que isto não é protestar contra a sociedade patriarcal, sexista e machista, mas reforça a idéia de que o corpo [especialmente o feminino] é um objeto e que a nudez [especialmente a feminina] é exploração sexual.
Seria, se as meninas do Femen fossem coelhinhas da Playboy. Ou uma figurante em comercial de cerveja.
A nudez das meninas do Femen sai do status quo exatamente porque elas se despem por escolha e decisão própria, elas demonstram que são donas de seus corpos e da forma como elas usam, em prol dos ideais feministas. Daí meu espanto e curiosidade ao ler que, na concepção da Femen, é idiotice ver o corpo feminino com sensualidade. Uma incoerência e contradição. Oh, bem, nada é perfeito.
Uma das bandeiras do Paganismo é a ressacralização do desejo, do prazer e do corpo. Faz parte da natureza das espécies, especialmente as mamíferas, que a fêmea exerça sobre o macho o efeito da atração sexual, por suas formas, por sua sensualidade. Isso é biologia básica, o que me leva ao livro e ao filme.
No filme "Qualquer gato...", o personagem-professor solta uma definição que soa como machismo, a de que a fêmea tem que ser recatada e monogâmica para que o macho [man]tenha interesse. Não é o que demonstra o livro "O Mito da Monogamia". Espécies supostamente "monogâmicas" demonstraram [man]ter escandalosos casos extra-conjugais, extamanete para garantir o êxito da espécie [e a diversidade sexual, entre outras coisas...]. Biologia básica, professor, fêmeas tem uma prole melhor [maior, mais saudavel, mais resistente] porque pula a cerca. Apenas o ser humano cria fronteiras, tabus e proibições nos seus relacionamentos e na sua vida sexual. O que me leva ao "Manifesto Onigâmico".
Um livro pequeno e de fácil leitura, obra de Mauro Bartolomeu, mas com um conteúdo explosivo, para não dizer perigoso e subversivo, para o status quo e nossa sociedade [patriarcal, sexista, machista] cheia de frustrações, recalques, opressão e repressão sexual. A proposta do autor é a da coletividade de relacionamentos, contada através de um conto-ficção, pela interação de um humano com um alienígena. Os pesquisadores de X1S concordam com as idéias do movimento da Contracultura [década de 60, século XX]. O que me leva ao meu sonho por um mundo onde todos tem o direito de amar quem quiser, quantos quiser. No Brasil, a Suma-Sacerdotisa seria Nana Odara.
Mas titio Bode, o que isto tem a ver com os lírios do campo?
Simples, Jovem Gafanhoto. A beleza de um jardim é diretamente proporcional à quantidade de abelhas que a polinizam. Diversas abelhas. Polinizando diversas flores.
Podíamos ser como os lírios, mas preferimos ser cardos...

domingo, 28 de outubro de 2012

A abóbora de Linus

Parem o bonde do Paganismo Brasileiro que eu quero descer. Eu até engulo a patriotada de querer fazer o 31 de outubro o Dia do Saci. Mas saber que tem pagão brasileiro reclamando que Halloween não é Samhain não dá.
Se vamos evocar a Musa da História, vamos ouvir o que Ela tem para contar na integra, não apenas aquilo que queremos ou nos convém.
Atribui-se a origem do Samhain aos Celtas, um povo antigo, de quem se conhece mais lendas do que fatos. Os Celtas não eram um povo homogêneo, mas um conjunto de povos, que tinham alguns elementos em comum na linguagem e na religião, que chegaram na Europa, a colonizaram e se misturaram com os muitos povos nativos.
Os celtas não deixaram qualquer registro escrito, o pouco que se sabe deles nos é contado pelos Romanos, que invadiram e conquistaram boa parte da Europa, resultando em uma assimilação e romanização da crenças locais. Do pouco que se registrou, observou-se que os Celtas celebravam os solstícios e equinócios.
Depois entraram em cena a imposição do Cristianismo e as invasões bárbaras. Com o colapso do Império Romano, novos reinos se ergueram das ruínas, seguiram-se mais guerras, mais invasões, mais migrações, mais influências culturais.
Na Bretanha, houve a conquista dos Anglos e Saxões, dos desdobramentos da história surge o Reino Unido como um poderoso Império.
Vem a Era Colonial e a Coroa Inglesa reclama a si os territórios no Novo Mundo, dos desdobramentos da história surge os EUA, cuja força e influência são presentes nos dias atuais.
Houve na Europa conflitos entre cristãos, a perseguição religiosa fez com que muitos buscassem refúgio nos EUA. Do Reino Unido veio o costume de celebrar o "All Hallows Eve", ou "Festa de Véspera do Dia de Finados".
Os refugiados nos EUA transformaram esta festa no conhecido Halloween, um feriado importante na cultura americana, como o "4th of July", "Tanksgiving Day" e "Christmas Eve". O Brasil, como colônia européia e americana [economica e culturalmente] assimilou, adotou e copiou algumas destas festas.
A "origem" da celebração do Samhain não vem dos celtas, mas do reconstrutivismo Cultural que surgiu no século XVIII, com o Movimento Romântico, o Neopaganismo, a Royal Society of Folclore. O Neopaganismo tornou-se um fenômeno mundial graças à influência da cultura americana no mundo. O Neopaganismo chegou e ganhou força no Brasil porque nós importamos essa cultura.
Nós somos descendentes de portugueses, italianos e espanhóis, celebramos uma festa de origem inglesa, importada dos americanos. E ainda tem pagão brasileiro reclamando que Halloween não é Samhain.
Podemos até reclamar que o Halloween se tornou uma festa comercial, como o Natal. Celebrações atraem gente e onde tem gente tem comércio. Comércio faz parte de nossa natureza e é também uma manifestação divina, por Hermes e Mercúrio!
Não cabe a nós, pagãos, agirmos como rabinos insandecidos; não podemos nem devemos expulsar os vendilhões do templo.
Então, caro cidadão brasileiro, quer venha a comemorar o Halloween, o Samhain ou o Dia de Finados, boas festas.
E que a Grande Abóbora te abençoe.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O mundo de Gepeto

Meus caros, diletos e eventuais leitores ateus vão ficar chateados, mas tem tido tanto preconceito, discriminação e intolerância contra a religião que eu me vejo na obrigação de relembra-los de alguns fatos sobre a ciência.
O propósito da ciência é descobrir o que as coisas são e como funcionam. Não é propósito da ciência descobrir se há um motivo ou um propósito para as coisas serem como são ou funcionarem como funcionam. Questões sobre a vida e a existência são propósitos da filosofia e da religião.
Para produzir conhecimento, a ciência tem o metodo cientifico, fatos e evidências. No entanto fatos e evidências apenas demonstram que existem, as elucubrações tiradas a partir destes são subjetivas.
A ciência, através do método cientifico, produz tecnologia, uma consequência muito útil resultante da observação, compreensão e imitação daquilo que é observado. Não é porque somos capazes de construir coisas que isto comprova que este conhecimento seja totalmente objetivo, nem que seja o único caminho para se saber a verdade.
O mundo não é feito apenas de coisas e mecanismos, existem seres e relacionamentos. Nós, a despeito da tecnologia, continuamos a sermos humanos, com os mesmos cinco sentidos limitados e um cérebro altamente influenciado por preferências pessoais e percepções subjetivas. Nós apenas conseguiríamos ser absolutamente objetivos se fossemos robôs.
Os ateus e céticos não devem perceber que o elogio à tecnologia pode ser usado como um elogio ao teísmo. Somos nós quem construímos a tecnologia, esta não se constrói sozinha. Portanto, são os Deuses quem construíram [e constroem] o mundo a vida, o universo, estas coisas não se construíram por si mesmas.
Tal como Gepeto, que queria tanto ter um filho que construiu uma marionete. Mas nem todo seu conhecimento e técnica foram o suficiente para animar, dar vida à marionete.
A ciência não é capaz de dar uma alma ao homem. O método cientifico não é capaz de dar uma sensibilidade ao homem. Sem isto, não há imaginação, arte, teatro, música, poesia, amor. Sem isto não há humanidade.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Abtagigi - a que envia mensagens do Desejo

Também conhecido como: Kalili; Kilili

Abtagigi é o espírito suméria da sexualidade sagrada. Ela desperta e estimula impulsos eróticos.

Babilônios e assírios usavam a forma semítica de seu nome, Kalili, da mesma forma que eles chamaram Inanna, Ishtar, Abtagigi-Kalili está entre os espíritos da comitiva Inanna-Ishtar.

Governantes antigos sumérios manteve seu poder promulgando anualmente o Grande Rito, consumando (literalmente) a sua relação com Inanna-Ishtar, que estava temporariamente em posse do corpo de sua sacerdotisa.

A semelhança do nome de Kalili com Lilith não pode ser ignorado. Espíritos irmãos, ambos estão preocupados com o poder inerente no desejo sexual, bem como aspectos esotéricos da sexualidade e da energia sexual, mas Aptagigi-Kalili funciona dentro do templo, enquanto Lilith, um espírito de natureza selvagem, permanece fora.

Abtagigi às vezes é descrito como um espírito maligno de prostituição, mas que a perspectiva deriva aqueles que associam sexo com pecado.

Abtagigi possui os segredos do Grande Rito e pode ser requerida por aqueles que as procuram.

Ela protege os trabalhadores do sexo. Ela também pode ser requerido para despertar ou despertar desejos sexuais, especialmente para aqueles para quem o sexo foi profanado por experiências abusivas, humilhante ou traumática. Ela é um espírito poderoso e pode, por solicitado para punir aqueles que o ato sexual profano.

Fonte: Enciclopédia dos Espíritos, J. Illes, pg. 117
Pescado da página do facebook "The Blyssful Witch".
Traduzido com a ajuda do Google Tradutor.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O pé de feijão

Mais uma vez, Joãozinho, desafiando todas as probabilidades e o instinto de auto-preservação, você se dispõe e se expõe.
Acha mesmo, Joãozinho, que tem permissão ou razão de reclamar, de ousadamente exigir retorno? O que tem feito, realmente, que valha a pena? Vede tudo o que recebeu até hoje! Mesmo os obstáculos, as dificuldades, as dores, as mágoas, não foram igualmente responsáveis por ter chego onde chegou até hoje?
O que tem feito, realmente, para merecer tua Mãe? O que tem feito realmente, para reverenciar tua Sacerdotisa? O que tem feito, realmente, para adorar tua Deusa?
Voltemos ao básico, Joãozinho.
Alegre-se que teve a capacidade de perceber onde estava, o que estava fazendo e o que estava realizando.
Ainda está começando a resolver suas pendências passadas, ainda está resolvendo seus traumas, ainda está cicatrizando suas feridas, ainda está superando as cicatrizes. Mas não é porque o mundo te tratou mal que você deve tratar o mundo mal.
Para que a lama se torne solo fértil, você tem que ser um canal das bençãos.
Você chegou até o local onde se ergue o pé de feijão.
O que deseja? Voltar para o rebanho, viver uma vida medíocre e sem sentido, ou descobrir a razão de sua existência, descobrir sua missão e seu destino?
O que deseja? Continuar a remoer o passado, continuar a repetir padrões negativos em busca de reconhecimento, continuar a mendigar atenção em busca de aceitação ou reencontrar o verdadeiro valor que há em si mesmo?
O que deseja? Lamentar que vendeu sua vaca por um punhado de feijões ou subir pelo pé de feijão, até chegar ao Castelo dos Ventos, até encontrar o Pote de Ouro?
A vitória e os louros chegam apenas aos heróis.
Heróis são aqueles que rejeitam as ilusões do ego e isto leva à loucura e ao saber.
Saber te levará mais à margem da sociedade, te afastará ainda mais daquilo que é desnecessário, fútil e supérfulo. O preço do saber é o sofrimento, Joãozinho.
Não há aprendizado e amadurecimento sem sacrifício e sofrimento, Joãzinho.
Esse é o sabor agridoce do Ofício.
Mas ânimo, pois quanto maior for teu sacrifício, sofrimento e perda, tanto maior será teu regozijo.
Ide, continue, Joãozinho, que teus ancestrais e Deuses te aguardam em Tir Na Nog, com um lugar reservado para ti no Grande Banquete, com muita comida, bebida, música e amor.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Os dez sóis

Comprando um produto para minha esposa, o vendedor, de Hong Kong, avisou que o envio poderia atrasar devido ao festival de meio de outono.
O festival do meio de outono pode ser considerado uma festa pagã por seus elementos e este festival foi divulgado neste blog. O que eu gostaria de publicar é a lenda de Hou Yi, que faz parte dos festejos.
Conforme conta a lenda, durante o reinado do imperador Yao, dez Sois apareceram no céu ao mesmo tempo originando gravíssimas secas.
Que teria acontecido? Xibe, a Mãe-Sol, tinha dado à luz dez filhos. Moravam todos juntos no lago oriental Tanggu, para além dos confins do mar, e como não houvesse dia em que não nadassem e brincassem nas águas do lago, estas estavam sempre escaldantes durante todo o ano. No centro do lago crescia uma - enorme arvore chamada Fusang, com mais de mil metros de altura e mil braçadas de circunferência e com dez ramos, aonde os dez Sois iam sempre descansar.
Mas os Sois não passavam o tempo divertindo-se em vão, pois, por ordem do Imperador Celestial, todos os dias um deles tinha de trabalhar, a fim de iluminar o mundo dos humanos. Ao que estava de guarda, competia-lhe levantar-se a oriente de madrugada, atravessar o largo céu e pôr-se a ocidente no crepúsculo, emitindo durante a sua paisagem luz e valor ao mundo. Os dez irmãos revezavam-se constantemente nessa missão a cada dez dias. O mundo de então era maravilhoso! Tinha imponentes montanhas, impetuosos rios, densas florestas, viçosas e coloridas vegetação e flores, e terras férteis arroteadas a custo de suor... Em resumo, para os dez jovens Sóis a terra era bem mais divertida do que o lago oriental Tanggu.
Todavia, os Sois tinham poucos ensejos para apreciarem juntos a esplendorosa paisagem terrestre, pois, por ordem do Imperador Celestial, cada qual podia somente descer a terra uma vez em cada dez dias.
Os Sois eram muito travessos e um dia conversavam uns com os outros quando se puseram a lastimar.
- Este lago aborrece-me muito. Estou farto de ficar aqui nove em cada dez dias. Já não posso aguentar mais! - queixou-se um dos Sois.
- É verdade! Estamos presos a este lugar desinteressante. O Imperador Celestial controla-nos tão à risca que não chegamos a ter nenhuma liberdade - acrescentou um outro.
- Eu, por mim, penso que o regulamento é justo porque o mundo humano não poderia suportar o valor se todos ai fossemos juntos - retorquiu um deles.
Ouvindo esta opinião, o Sol que tinha falado primeiro ficou muito zangado:
Justo?! Justo?! Acho que não é nada justo! deveríamos era poder divertirmo-nos a nosso bel-prazer, pois de outro modo, contidos entre estas quatro paredes, todos os dias, a vida realmente perde o sentido. A meu ver, a partir de amanha, deveríamos ir todos juntos aonde bem quiséssemos.
- Sim, tem razão. Vamos! - ecoaram em uníssono as vozes dos outros.
Assim, no dia seguinte, e a despeito das proibições do Imperador Celestial, os dez Sois deixaram o lago Tanggu e foram despreocupadamente brincar nos céus sobre o mundo humano.
Quando um Sol aparecia no céu a terra era iluminada e aquecida de modo normal, mas com dez Sois surgindo ao mesmo tempo a situação tornava-se totalmente diferente. Em breve o mundo apresentou um aspecto desolador, pois a partir de múltiplos e diferentes ângulos os Sóis derramaram a sua luz sobre a terra iluminando-a completamente e deixando-a sem nenhuma sombra. Devido a forte incidência dos raios solares a temperatura subiu vertiginosamente, os rios secaram, a vegetação e flores murcharam, e as plantações ressecaram. Devido ao extremo calor, os seres humanos respiravam ofegantes, acabando por ter de irem se esconder em grutas.
Completamente alheios a extensão da calamidade que desencadeavam na superfície do planeta, os Sois vadiavam, brincavam e até se contentavam com as suas travessuras.
O imperador Yao, que reinava então na China, era um homem de hábitos extremamente frugais. Habitava em uma cabana, comia arroz não-refinado e bebia sopa com ervas silvestres. Tomando a peito os sofrimentos do seu povo, decidiu ir suplicar aos Sois que se afastassem imediatamente do mundo humano, caso contrário, a população não poderia sobreviver, mas não querendo saber do que ouviam, os Sois continuaram a brincar sem terem a mínima intenção de voltarem para o lago de Tanggu.
O imperador terrestre não teve então outro remédio, senão recorrer ao Imperador Celestial, o qual, ficando furioso ao saber que os Sois tinham transgredido as suas instruções provocando enormes calamidades no mundo, mandou chamar imediatamente o guerreiro Hou Yi, e disse-lhe:
- Os filhos da mãe Xihe violaram a minha ordem. Eles agem como irresponsáveis, perturbando a vida normal dos habitantes do mundo. Quero que os castigues com este arco vermelho e estas dez flechas brancas que te dou.
Assim, armado com o arco e as flechas e por encargo do Imperador Celestial, Hou Yi desceu ao mundo humano.
Ao chegar à terra, Hou Yi ficou perplexo com os males que o povo passava sob o brilho dos dez Sois e, levantando os olhos, furioso, tirou o arco que levava ao ombro e preparou uma flecha que, enérgica e certeiramente disparou contra eles. A flecha atravessou rapidamente os ares atingindo um dos Sois em cheio. Ouviu-se então um estrondo celeste, e o Sol, atingido pela flecha transformou-se em uma bola em chamas despedaçando-se no solo. Espantados, os outros nove tentaram fugir o mais depressa que puderam, mas Hou Yi, com tiros rápidos e certeiros atingiu um após outro. Quando o guerreiro tirou a sua ultima seta, o imperador Yao deteve-o e disse-lhe:
- Pare! Não dispare mais! A luz solar é muito proveitosa ao mundo humano. O problema que existia é que dez Sois era demasiado para as necessidades de sobrevivência humana, mas agora, como só resta um, o melhor é não disparar mais.
Acenando positivamente com a cabeça, Hou Yi guardou então a sua arma. O ultimo Sol estava pálido de medo!
Com a morte dos nove Sois, a temperatura normal reestabeleceu-se sobre o mundo humano, gradualmente a população saiu das grutas e recomeçou a cultivar os terrenos, a caçar e a reconstruir casas, levando alegremente a sua vida pacifica de outrora.
Apos ter liquidado os nove Sois, o herói Hou Yi preparava-se para voltar as alturas, quando os habitantes da terra lhe pediram insistentemente e muito reconhecidos, que passasse uns dias de folga juntamente com eles e que, como na terra ainda existiam muitas outras calamidades, se fosse possível, o herói os ajudasse a eliminá-las.
Hou Yi decidiu satisfazer-lhes o desejo.
Com a destruição dos noves Sois, e depois de o planeta ter-se completamente recomposto da grande secura, Hebe, o demônio das aguas, começou a intensificar as suas perniciosas atividades. Assumindo a forma de um dragão branco, cavalgando sobre uma torrente de agua, o demônio viajava constantemente por toda a parte provocando enormes inundações, nas regiões por onde passava, a força da corrente arrastava homens e gado, destruindo casas e desenraizando plantações e árvores. Quando a noticia chegou aos ouvidos do imperador Yao, este ficou muito inquieto e foi imediatamente pedir ajuda ao herói Hou Yi, que generosamente lhe prometeu fazer o melhor que pudesse.
Assim, Hou Yi resolveu ir para a margem de um no e esconder-se atrás de um grande salgueiro, ficando a espera do aparecimento de Hebe, o demônio das aguas. Não tardou muito para que visse nadando em sua direção um dragão branco, acompanhado por altas vagas e desencadeando uma enchente que transbordava das margens do rio. Foi então que Hou Yi disparou a ultima flecha que lhe restava e atingiu o olho esquerdo do dragão branco. Ouviu-se um grito estridente e o animal mergulhou nas profundezas.
Ferido, o demônio das aguas foi queixar-se ao Imperador Celestial:
- Eu vivo no rio e nunca fiz nenhum mal a Hou Yi, no entanto, ele feriu-me no olho. Peso-lhe que justiça seja feita e que se vingue deste crime por mim, caso contrario, de que servem os princípios e a lei?
Mas o Imperador Celestial, estando a par do que se passava, criticou-o severamente:
- Sendo um demônio das águas, podias servir o povo, em vez de vacilares por toda parte e molesta-lo com tempestades e cheias! O teu procedimento mereceu bem o castigo que Hou Yi te aplicou!
Não tendo razão para se justificar, Hebe, o demônio das aguas, partiu sem dizer mais nada para o fundo do rio onde habitava, sem mais coragem para criar futuras desordens no mundo humano. Rodeado de afeição e respeito, Hou Yi continuou vivendo feliz na terra, sempre correndo riscos a bem da humanidade e perseguindo animais ferozes nas florestas e montanhas. Nesse tempo, o mundo era infestado por vorazes feras selvagens que deambulavam e dizimavam os homens - isto, porque a humanidade estava mal equipada para as poder enfrentar. Hou Yi não parava de correr, transportando o seu arco e flechas às costas, exterminando animais selvagens e aves ferozes.
Na planície central da China, Yayu era uma fera muito conhecida por sua bestialidade. Segundo se dizia, tinha o corpanzil de um boi coberto de longos pelos vermelhos, uma cara humana, patas de cavalo e o seu rugido, dir-se-ia, o choro de uma criança: melancólico e chocante. Tinha uma enorme força, galopava mais velozmente que todos os outros animais e ninguém escapava às suas vorazes mandíbulas. Por vezes, pela calada da noite, a fera irrompia no seio das tribos destruindo as casas e devorando as pessoas. Eram incontáveis as pessoas que ela tinha comido!
Tomando em conta os interesses do povo, Hou Yi tomou a seu cargo destruir a fera Yayu.
Assim, um dia, e de acordo com as informações dadas pelos caçadores, o herói foi procurar a fera em uma alta montanha. Chegando a um vale das redondezas deparou-se, repentinamente, com um monte de ossos humanos. Levantou então a cabeça e avistou ao longe a fera devorando uns homens no cimo de um penhasco. Furioso com o que via, o herói disparou uma flecha contra a fera acertando em cheio na cabeça do animal fazendo-o rolar pela montanha abaixo soltando roucos gemidos. A partir dessa altura, os habitantes dessa região puderam viver descansados!
Em uma fértil planície do sul da China, habitava um animal monstruoso com dentes de três metros de comprimento e pontiagudos como formões. Os homens deram-lhe a alcunha de "dentes-formão". Quando as pessoas atravessavam os rios ou lagos onde ele habitava, por vezes o animal lançava-se de súbito sobre elas, levando-as para o fundo das aguas, onde as mastigava e depois as engolia. Dir-se-ia ser quase impossível vencê-lo, porque para além dos seus enormes dentes aguçados, tinha um corpo revestido de uma pele tão dura e tão espessa como uma carapaça indestrutível contra todas e quaisquer facadas ou machadadas. Felizmente Hou Yi era um exímio arqueiro porque um dia o "dentes-formao" lançou-se contra ele abrindo a sua enorme bocarra para o devorar e, se não fosse o herói ter acertado a garganta do animal em cheio com uma flecha, de terra terminado ali os seus dias.
Segundo conta a lenda, no sul da China corria um rio chamado Xiongshui onde habitava um temível monstro aquático chamado Jiuying que matava todos os incautos que se aproximavam das suas margens. O animal tinha nove cabeças e cuspia constantemente fogo e agua, sendo tão feroz que ninguém se atrevia a querer derrota-lo. Se por acaso alguém o ferisse ou lhe tentasse cortar uma das suas cabeças, o monstro não morria, mas, pelo contrario, lançava-se com uma fúria redobrada sobre o seu inimigo. No entanto, Hou Yi, ao encontra-lo disparou nove flechas tão rápidas e certeiras que o atingiram nas nove cabeças, vindo o animal a morrer sem mesmo ter tempo para reagir.
Pouco tempo após a morte do monstro Jiuying, nas margens do lago Dongting, não muito longe do rio Xingshui, surgiu uma jiboia gigante, de um enorme comprimento e grossura, e com uma boca tão grande que era capaz de engolir um elefante por inteiro, só vomitando os ossos do paquiderme depois de o ter digerido durante três anos. Segundo se dizia, estes ossos regurgitados eram os melhores e mais eficazes medicamentos para curar todas as doenças dos órgãos internos. Era realmente um ser terrível que despovoava todos os locais por onde passava, pois deglutia todos quantos conseguisse alcançar. Foi só apos uma renhida luta que Hou Yi a conseguiu matar, sendo que os ossos da jiboia gigante transformaram-se em uma montanha que veio a se chamar de Baling.
Depois de ter morto todas as feras do sul da China, Hou Yi voltou para o norte pela região leste. Estava ele atravessando a montanha Verde quando os seus habitantes lhe disseram que a região estava infestada por uma ave de rapina chamada Dafeng, a qual agredia as pessoas e perturbava a vida normal da população. Esta ave tinha um grande porte e quando em voo a amplitude das asas chegava a cobrir metade do céu. O bater das suas asas desencadeava fortes tufões que chegavam a desenraizar milhares de arvores e a destruir centenas de casas; homens e gado eram frequentemente vitimas da sua voracidade. Hou Yi compreendeu que a ave tinha um enorme poder e podia voar para muito longe com grande velocidade e que, com uma só seta, não seria possível mata-la, pois se ela fugisse ferida seria quase impossível liquidá-la mais tarde. Consciente de que tinha de acabar com a ave de uma só vez, depois de muito pensar, Hou Yi encontrou um meio: primeiro, amarrou uma corda a haste da seta; depois, disparou uma flecha atingindo a ave em cheio e prendendo-a de modo a não a deixar fugir; e finalmente, obrigando-a a pousar, decepou-a com a sua espada. O exemplo de Hou Yi passou a ser seguido por todos quantos tencionavam apanhar animais selvagens e aves possantes.
Mais tarde, Hou Yi foi para a aldeia de Sangcun, onde matou o colossal javali Fengxi e o lobisomem Fenghu que se podia metamorfosear de felino para humano.
Assim, gradualmente, o herói Hou Yi, após a sua inicial chegada e estabelecimento no mundo humano, veio a ganhar méritos sem par por parte de todos os povos. Certamente que sob o excesso do calor dos dez Sois escaldantes, as pedras já se teriam fundido em uma massa uniforme e todas as outras coisas a superfície da terra estariam derretidas, todo o planeta provavelmente estaria reduzido a cinzas, se não fosse Hou Yi ter infalivelmente atingido os noves Sois que agiam tão arbitraria e descuidadamente no céu. E que grandes ameaças seriam para a vida humana, se todos aqueles animais e aves malévolas não fossem mortos pelo herói?!... Por isso, de geração em geração, os povos continuam a recordar-se e a venerar o herói Hou Yi sempre com o maior respeito e grande admiração.
Fonte: FERREIRA FH., O.A. Hou Yi, o arqueiro que derrotou nove sóis. Portal Templodeapolo.net, Porto Alegre-RS. Disponível em: Templo de Apolo.

sábado, 6 de outubro de 2012

Eleições do cavalete

Ou como deixar mais confuso o cidadão dentro de um sistema eleitoral.
Amanhã o brasileiro irá escolher seus representantes para a Camera Municipal e Prefeitura de sua cidade.
Aqui em São Paulo eu vejo uma amostra do que deve acontecer pelo Brasil a fora.
Os mesmos candidatos de outrora, o mesmo horário eleitoral gratuito que não informa nem esclarece.
As mesmas campanhas, baixarias e promessas espalhafatosas.
A sensação é de que estamos escolhendo o melhor dentre prestigitadores e malabaristas.
E o assunto do momento é o suposto envolvimento de um candidato à Prefeitura com uma igreja neopentecostal. Não é muito pior do que bispos cometendo crime eleitoral nas eleiçoes anteriores.
O que marcou esse pleito eleitoral foram os cavaletes. Onde foi parar a Lei da Cidade Limpa eu não sei. Alguns artistas até fizeram uma intervenção urbana, criando o Cavalete Parade.
Esta eleição ficou marcado também pela incompreensível aliança entre partidos antagonistas. Mas há tempos que no Brazil os partidos políticos deixaram os princípios políticos de lado. Esquerda? Direita? Centro? Liberal? No Brazil, tanto faz. o único interesse de nossa classe política é chegar no poder. E fazer o que todos fazem. Como eu ouvi dois senhores de idade dizer: aqui no Brasil não se pode ser honesto. Algo que digo com frequência: nossa classe política é um reflexo da nossa sociedade. E o brasileiro que disser que nunca tentou ser malandro na vida é paraguaio.
Enquanto a nossa festa eleitoral vai sendo manchada por usos e abusos feitas por grupos e instituições, eis que tem os mesmos perdedores e inexpressivos que tentam chocar o brasileiro com discursos, acusações ou ações inócuas.
Pelo vai e vem das pesquisas de boca de urna, teremos segundo turno e aqueles que outrora eram adversários vão buscar coalizões e conluios. É a forma tupiniquim de fazer política.
Serão mais quatro anos para os futuros prefeitos e vereadores. Seja quem ganhar, o perdedor continua a ser o cidadão.
Boa festa eleitoral, brasileiro.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Entregando o coração à Serpente

Depois de ler os dois volumes do "Star Crossed Serpente" (Serpente da Estrela Cruzada), de Evan Jones e Shani Oates, eu pude apreciar um pouco mais o trabalho do Clan de Tubal de Cain.
O 1º volume tem material para minha jornada no Ofício, o 2º volume dissipou mais as névoas que encobrem o Mistério.
Eu pude perceber algumas pistas que vão ser úteis e que podem ser conciliadas com a Wicca Tradicional.
Impossivel fazer uma sinopse ou resumo por tópicos. Como bem colocaram os autores, palavras escritas não são substitutos às experiências vividas.
O caminho está menos nebuloso, mas ainda há muito a percorrer; o caminho está mais claro, mas o labirinto permanece desafador.
Apenas depois de bater muito a cabeça na parede é que eu aceitei seguir a linha guia de Ariadne.
No momento eu estou fechando as feridas e curando as cicatrizes.
Eu devo continuar o esforço, se quiser recuperar a força e o espírito necessários para chegar ao Castelo dos Ventos.
Por ora, eu entendo que muitos passaram por esta jornada antes de mim, que existem muitos caminhos além deste e que estes também foram trilhados por muitos outros antes de mim.
Por ora, contento-me e congratulo-me por ter despertado e ter tido a senciência de estar neste labirinto.
Por ora, eu tenho que me contentar por perceber que todos os caminhantes perseguem a Verdade.
Mesmo aquele que pregava ser a Luz, a Verdade e a Vida pôde dizê-lo porque as recebeu da Soberana.
Eu passei pelos caminhos dos cristãos e estes crêem que o Evangelho é o único sistema e há apenas um Cristo.
Eu passei pelos caminhos dos ateus e este crêem que o Método Científico é o único sistema e há apenas uma Ciência.
Cada um destes caminhos tem um fundador e um sistema. O fundador não é o Messias, mas quem caminha. O sistema não é a Verdade, mas a bússola.
Querer saber é buscar a loucura e a morte.
Assim seja, assim é, assim será.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Uma pista do Graal

Washington, 18 set (EFE).- Um fragmento de um papiro do século IV, que poderia fazer parte de um evangelho apócrifo, menciona em uma frase que Jesus tinha uma esposa, o que alimenta a teoria de que o messias do cristianismo já esteve casado.
Um estudo publicado nesta terça-feira pela professora Karen King da Universidade de Harvard detalha que esse fragmento de papiro inclui a frase em copta, a língua dos antigos cristãos que habitavam o Egito: 'Jesus disse para eles. Minha esposa ...'.
Para Karen, que apresentou suas conclusões no Congresso Internacional de Estudos Coptas em Roma, este antigo papiro 'apresenta a primeira prova que alguns dos primeiros cristãos acreditavam que Jesus já esteve casado'.
A tradição cristã afirma que Jesus não se casou, entretanto, a responsável pela pesquisa garante que não existe nenhuma evidência histórica que sustente essa afirmação.
O papiro, que possui inscrições em ambas as faces, embora apenas uma delas seja legível, é propriedade de um colecionador anônimo que contatou Karen entre 2010 e 2011 para investigar o que considerava uma prova de que Jesus esteve casado.
As oito linhas visíveis do fragmento de quatro por oito centímetros escritas em copta demonstram a divisão de opiniões que existia nos primórdios do cristianismo sobre a opção pelo casamento ou pelo celibato.
'Desde o início, os cristãos discordavam se era melhor não casar, mas foi apenas mais de um século depois da morte de Jesus que começaram a recorrer à condição matrimonial dele para apoiar suas posições', garantiu a especialista de Harvard, que acredita que o papiro faz parte de um evangelho perdido.
Esse testamento, conhecido pelos pesquisadores como o 'Evangelho da Esposa de Jesus', foi provavelmente escrito em grego na segunda metade do século II e traduzido posteriormente à língua dos coptas.
Um comunicado da Universidade de Harvard acrescenta que especialistas como Roger Bagnell, diretor do Instituto para os Estudos do Mundo Antigo, consideram que o fragmento analisado é autêntico de acordo com uma análise do material e da escrita.
Os pesquisadores desconhecem a origem exata do papiro, mas acreditam ter vindo do Egito, já que está escrito na língua copta utilizada pelos cristãos nessa região durante o Império Romano, e faz parte de um códice.
Segundo Karen, no fragmento analisado Jesus fala de sua mãe e de sua esposa, a uma das quais se refere como 'Maria'. Além disso, os discípulos discutem se Maria é digna e Jesus diz: 'Ela será capaz de ser minha discípula'.
A pesquisadora reconhece que este fragmento não prova a teoria que Jesus esteve casado com Maria Madalena ou se ela foi aceita como discípula. Entretanto, afirma que o papiro reacende o debate existente desde a origem do cristianismo entre aqueles que consideram que as mulheres poderiam exercer o sacerdócio e temas como o celibato. EFE
Fonte: G1 Mundo

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O culto céltico das cabeças no Alentejo

Objectos votivos encontrados no Escoural
Nos últimos anos, novos contributos científicos têm permitido rever conceitos e teorias. Em particular, no que diz respeito à História, com o novo paradigma da Continuidade Paleolítica, apoiado na linguística, na genética, na arqueologia, na climatologia, etc., é possível colocar-se a hipótese de serem os antigos Celtas os primeiros habitantes, em tempos paleomesolíticos, do Ocidente Europeu. Ora o Alentejo pode contar-se entre as regiões que mais claramente se harmonizam com tal hipótese.
À luz desta perspectiva, entre os vestígios arqueológicos do Sudoeste peninsular vamos salientar alguns exemplos que nos levam a supor estarem as terras alentejanas incluídas, de modo expressivo, dentro do roteiro céltico do culto das cabeças. Efectivamente, muitos achados parecem indiciar ter havido um tratamento especial dado a certos crânios, tratamento esse que pode remeter-nos para práticas rituais de cariz mítico-religioso próprio do mundo celta.
Segundo muitos autores, para os antigos Celtas, a cabeça possuiria atributos divinos. Como tal, talvez considerada incorruptível e autónoma do corpo, teria poderes protectores – das pessoas ou colectividades, do gado ou da vegetação –, divinatórios ou proféticos, de cura e de regeneração, poderes, em suma, xamânicos. (...)
Os dados arqueológicos, iconográficos, ou mitológicos sugerem, por outro lado, ter existido uma primeira fase desse culto das cabeças, interligado com o conhecimentos dos ciclos sazonais, os cultos primordiais da fertilidade, dos mortos e dos antepassados; numa segunda etapa, nas idades dos Metais, sobretudo do Ferro – meados do I milénio a. C. – ter-se-á evoluído para o culto das cabeças cortadas, a cabeça dos inimigos, relacionando-se, deste modo, não apenas com a sobrevivência do próprio grupo, mas também com a guerra e com os jogos de poder entre grupos distintos. Ora o Alentejo parece dispor claramente dessas duas fases.
Poderemos dizer que este culto é visível desde, pelo menos, o VII milénio a. C., passando pelas sucessivas eras pré-históricas até à romanização, época em que um crânio encontrado em Tróia (Setúbal) mostra a continuidade e a larga diacronia da prática de trepanação, uma prática com componentes reveladoras do exercício de rituais relacionados com a crença nas capacidades excepcionais atribuídas à cabeça humana.
(...)
Um pouco mais tarde, no espólio do Monte da Velha, em Serpa (III milénio a. C.) – um provável santuário megalítico –, encontraram-se os fragmentos cranianos de um esqueleto claramente dissociados das restantes ossadas. Nas necrópoles de todo o Sudoeste peninsular, do período Calcolítico ao Bronze Final (cerca do IV ao II - I milénio a. C.), mantém-se este tipo de atitude – veja-se o caso da sepultura de Medarra, em Aljustrel –, a ponto de, por vezes, se depositarem os crânios numa espécie de arca, fazendo-os acompanhar por oferendas funerárias.
(...)
Todo o espólio parece implicar a existência de um eventual ritual relacionado com um sacrifício humano, próprio do culto das cabeças cortadas em contexto guerreiro, bem como do culto das cabeças inserido em rituais fundacionais e de soberania. A natureza dos objectos votivos encontrados, como a cerâmica ou as placas oculadas – na linha dos achados do Escoural, Estremoz, Vidigueira ou Évora, de épocas anteriores – e os múltiplos restos animais – a sugerir refeições e libações rituais cíclicas, como seriam as cerimónias solsticiais –, indica-nos, assim, não só a persistência de crenças, como também a presença da segunda fase deste culto céltico.
(...)
Citado e divulgado pelo Caturo, no Gladius.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Pelo fim do fundamentalismo

HARISSA, Líbano, 14 Set 2012 (AFP) -O papa Bento XVI chegou nesta sexta-feira a Beirute para sua primeira visita ao Líbano, e pediu a judeus, cristãos e muçulmanos que eliminem o fundamentalismo religioso, considerado por ele uma ameaça "mortal", no momento em que a região é sacudida por manifestações, muitas vezes violentas, contra um filme que ridiculariza o Islã.
Esta visita, a segunda de Bento XVI ao Oriente Médio - após uma viagem à Terra Santa em 2009 - é uma das viagens mais delicadas do Pontífice, de 85 anos, num contexto de confrontos na Síria e de revolta no mundo muçulmano desencadeada por um filme que ridiculariza e critica o Islã.
Em sua Exortação Apostólica - conjunto de diretrizes para os bispos do Oriente Médio - assinado por ele nesta sexta-feira na Catedral de São Paulo, em Harissa, primeira etapa de sua viagem ao Líbano, Bento XVI afirma que o fundamentalismo "atinge todas as comunidades religiosas e rejeita o 'viver junto' secular" que caracteriza países como o Líbano.
"O fundamentalismo quer tomar o poder, às vezes com violência, sobre a consciência de cada um e sobre a religião por razões políticas", alertou o Papa, sem apontar o dedo unicamente para o extremismo islâmico.
"Faço um apelo urgente a todos os líderes religiosos judeus, cristãos e muçulmanos da região, que procurem fazer todo o esforço para erradicar esta ameaça que afeta indiscriminadamente e fatalmente os fiéis de todas as religiões", escreveu.
"Usar palavras sagradas, as Escrituras santas ou o nome de Deus, para justificar os nossos interesses, nossas políticas, ou nossa violência, é um crime muito grave", acrescentou.
Segundo o papa, "as incertezas econômicas e políticas, a capacidade de manipulação de alguns e uma compreensão deficiente da religião entre outras coisas, são o leito do fundamentalismo religioso".
A Exortação Apostólica "Igreja no Oriente Médio" foi assinada quase dois anos após o Sínodo dos Bispos do Oriente Médio, que foi realizado no Vaticano, no outono de 2010, pouco antes da "Primavera Árabe".
Este documento enfoca a presença ancestral dos cristãos como "parte integrante" do Oriente Médio, um "laicismo saudável", a rejeição da violência, a vontade de lutar contra "estratégias para um Oriente Médio monocromático", a "gestão transparente das finanças das igrejas, a acolhida dos refugiados cristãos e imigrantes.
Grito de liberdade
Ao desembarcar em Beirute, Bento XVI também pediu o fim do fornecimento de armas à Síria, vizinha do Líbano, onde os confrontos entre o Exército e os rebeldes provocaram mais de 27.000 mortes, em sua maioria civis.
"As importações de armas devem cessar de uma vez por todas. Sem as importações, a guerra não poderá continuar", declarou ainda no avião aos jornalistas.
"Ao invés de importar armas, o que é um grave pecado, seria conveniente importar ideias de paz, de criatividade, de amor ao próximo".
Ele também comentou a Primavera Árabe, na qual vê "um desejo por mais democracia, liberdade, cooperação para uma identidade árabe renovada".
"Este grito de liberdade, que vem de uma juventude melhor dotada culturalmente, profissionalmente, e que deseja participar na vida política e social, é uma promessa, algo muito positivo", afirmou.
"Mas, sabemos que o grito da liberdade, tão importante, tão positivo, corre o risco de esquecer um aspecto fundamental da liberdade, a tolerância com o outro. Devemos fazer tudo para que o conceito de liberdade siga na direção apropriada".
Ao longo da estrada que leva ao aeroporto de Beirute, centenas de pessoas - incluindo mulheres com xador e jovens uniformizados, ligados ao Hezbollah - saudaram o líder católico.
Os sinos das igrejas de todo o país ressoaram em homenagem ao Sumo Pontífice, de 85 anos, que foi recebido com 21 salvas de canhão.
Quinze anos depois da histórica visita do popular João Paulo II, Bento XVI retomou a expressão do antecessor ao chamar de "mensagem" a coexistência no Líbano de várias comunidades, ao redor de 35% de cristãos e 65% de muçulmanos.
"Feliz convivência libanesa, que demonstra ao conjunto do Oriente Médio e ao restante do mundo que, dentro de uma nação, pode existir a colaboração entre as diferentes igrejas, o diálogo religioso entre cristãos e seus irmãos de outras religiões".
A visita começou pouco antes de um manifestante morrer em confrontos no norte do Líbano entre forças de segurança e islamitas, que incendiaram uma lanchonete da rede americana de fast-food KFC em protesto contra o filme ofensivo aos muçulmanos.
Bento XVI visitará ainda nesta sexta-feira a Basílica São Paulo de Harissa, ao norte de Beirute, onde assinar a "exortação apostólica", fruto do sínodo sobre o Oriente Médio que o pontífice presidiu em 2010.
A visita terminará no domingo com uma missa solene em uma esplanada ao ar livre em Beirute, com a presença estimada de 75.000 pessoas.
Fonte: G1 Mundo
Nota: Pena que o sr Ratzinger e a Igreja não seguem aquilo que apregoam.

domingo, 9 de setembro de 2012

O espetáculo midiático

Comemoramos no dia 7 de setembro o "Dia da Independência" do Brasil. Piada. Nunca fomos independentes se nossos politicos ainda estão atrelados aos interesses de corporações .
O que aprendemos com esse espetáculo midiático?
Assisti nesse fim de semana "Jogos Vorazes". Um filme fraco, como muitos outros que exploram essa moda em promover algum tipo de personagem que idealiza a adolescência. Eu prefiro os mangás shonem. Podiam ter explorado o filme como uma crítica ou paródia dos inúmeros "reality shows" que empesteiam a programação da televisão.
Está tudo lá. Pessoas que são escolhidas para ficarem isoladas da sociedade e realizarem algum tipo de competição. A única parte que os "reality shows" não fazem é a matança entre os competidores. Por enquanto. Mas a influência dos patrocinadores no jogo é igual. Eu me pergunto se os patrocinadores dos "reality shows" não se envergonham de patrocinarem a degradação humana. Ou estamos vendo a manifestação mais crua de que vale tudo, para aumentar a audiência e as vendas de produtos completamente supérfulos. Não vai demorar muito para aparecer algum "reality show" onde haverá algum tipo de homicídio socialmente tolerado.
E como em toda "Parada da Independência", tivemos os costumeiros protestos. Com o acréscimo das minhas amigas do Femen. Protesto político em pleno ano eleitoral me faz pensar de quanto inútil se tornou o protesto. Faz tempo que as elites perceberam que o protesto é também um produto que pode ser vendido. Nunca tivemos tantos protestos. Com tantas idéias e ideais a defender, os interesses da massa tende a ser difuso e diluído em pequenos grupos inexpressivos.
E dá-lhe protesto por escrito, por redes sociais, pela internet. Ateus, curtindo suas neuroses, denunciam que um candidato à Prefeitura de São Paulo tem vínculo com a IURD. E o Kiko? Ao invés de criticarem e reclamarem, o que os ateus [e pagãos, diga-se de passagem] estão fazendo para se mobilizarem e se organizarem políticamente? Absolutamente nada, porque é mais fácil alimentar pensamentos e atitudes negativas do que pensamentos e atitudes positivas. Destruir é mais cômodo do que criar.
E não nos esqueçamos da dita super-qualidade da televisão HD. Qualidade técnica, não qualidade de conteúdo. Os programas televisivos estão decaindo cada vez mais, ficando cada vez mais vulgares. Essa é a tônica da cultura da mediocridade. Reflexo, consequência ou causa da Indigência Cultural. Temos educação pobre porque faltam políticas públicas ou não temos políticas públicas de educação porque o povo não quer ser educado? Pelo nível dos candidatos à Câmera Municipal, eu acertei o tacho. Ainda procuramos pelo Salvador da Pátria. E continuamos a ser vendidos por um punhado de feijões.

sábado, 1 de setembro de 2012

Alimentando a alma

Duro, dificil, trabalhoso. A transformação, o crescimento, a "evolução" do indivíduo, em sua personalidade, individualidade e espiritualidade custa muito esforço, nem sempre reconhecido e recompensado.
Não obstante, Joãozinho, continuamos. Por que se procura acrescentar sofrimento ao viver tão sofrido? Não o sei. Sofrer pelas coisas certas, realizar nosso propósito, preencher nosso destino. Será?
Vivemos em um momento onde o culto ao corpo [hedonismo?] pode resultar em anorexia e bulimia. Vivemos em um momento onde se discute apaixonadamente se um feto é uma pessoa ou não.
Discutimos apaixonadamente os direitos da pessoa sobre seu corpo, sua identidade e preferência sexual, seus modelos de vida erótico-afetivos. Sem chegar a lugar algum ou sem ter uma resposta.
Discutimos sobre a [im]propriedade das manifestações da Femen em um país onde há uma excessiva sensualidade [carnaval, pornografia, alpinistas sociais] que trabalha em prol da soberania do patriarcado e do machismo, sem reconhecer a beleza sagrada e divina da nudez feminina.
Discutimos a liberdade religiosa ao mesmo tempo que tentamos censurá-la, confundimos Estado laico com restrição à crença.
Discutimos a melhor forma de alimentar nosso organismo, sugerindo receitas mirabolantes e milagrosas, quando não perigosas ou motivadas por motivos outros que não os nutricionais.
Então como temos nos identificado? Como temos dado nosso apoio ou atenção? Qual a função ou lugar de nossa senxualidade e sensualidade? Que tipo de dieta religiosa temos seguido?
Somos o que somos ou nos definimos por aquilo que gostamos ou odiamos?
Houve um tempo em que eu me definia e lutava por aquilo que eu queria combater. E nada realizei.
Fatos e evidências existem por si só, mas não como nós a interpretamos. A interpretação dos fatos e evidências continuam a ser subjetivas, não são científicas, não são racionais. Para o desespero dos ateus.
Eu não estou criticando, eu estou desvelando um fato. Eu passei por esta fase. A fase de acabar com a figura paternal. A busca incessante, obcecada, por liberdade e independência, pela afirmação de minha personalidade e individualidade. E notei que eu era [e sempre fui] livre. A atenção e ódio que devotava a idéias, intituições, circunstâncias apenas tornavam-as mais fortes.
Eu vejo por um lado os cristãos tentando reprimir nos outros aquilo que estes mesmo não se permitem. Por outro lado, eu tenho visto os ateus se tornando cada vez mais neuróticos em sua santa cruzada contra a religião. Quem está ganhando? Ninguém. Quem está perdendo? Todos.
Tentamos, desesperadamente, trazer para nossas convicções e visões de mundo mais pessoas. Como fica o direito do outro de seguir suas opções? Como fica o direito do outro de discordar de nossas visões, sejam conservadoras ou liberais? Ao invés de construir, dar o exemplo, tentamos denegrir e destruir os concorrrentes.
Ao invés de cuidar da vida do outro devíamos cuidar primeiramente da nossa. Em seguida, olhar pela coletividade. Só é cristão, católico ou protestante, quem quer. Só é ateu, cético ou agnóstico, quem quer. Só é pagão, tradicional ou popular, quem quer. Só é wiccano ou wilkano quem quer. Só se é ovelha ou lobo como se quiser. Só se é vigarista ou otário quem quer. Só se é guru ou seguidor quem quer.
Velhos hábitos custam morrer e cobram caro quando tentamos nos desvencilhar deles.
Ser o nosso real Self, eis o maior desafio, a maior tarefa, a que poucos se arriscam. Eu me arrisco...por que eu quero. Eu não vou mais me definir pelo que eu gosto ou odeio. Isso são acessórios. Eu vou me definir pelo meu Self, alimentando-o pela honra aos ancestrais e pela reverência aos Deuses.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Entre heróis e homens

Eu terminei de ler "As Musas: Poesia e Divindade na Grécia Antiga" de Luis Krausz.
No primeiro capítulo, onde o autor descreve os diversos órgãos que compõem a alma humana, ele também discorre sobre a declínio humana e do quanto estamos distantes do herói e dos Deuses. na definição do autor, o herói é menos um paradigma das idéias do homem comum acerca da condição humana e mais retratos da classe dirigente. O herói é uma elite dentro de uma elite, um privilegiado, um escolhido, predestinado a participar de um contato direto com os Deuses e a eternidade.
Eu tenderia a concordar com o autor, se não estivéssemos a Era da Mediocridade, onde há um movimento deliberado para nivelar por baixo as qualidades da humanidade.
Analisando os mitos e lendas dos heróis, a despeito de sua origem divina, o herói sempre empreende uma jornada, cheia de perigos e mistérios, desafios tanto físicos quanto mentais, após somente os quais o herói descobre sua origem divina, o propósito de sua existência e seu Destino.
Em suma, se o herói não tivesse empreendido essa jornada de auto-conhecimento e vencesse as dificuldades e obstáculos, que são uma representação metafórica da condição humana a que todos estamos sujeito, ele teria continuado a ser tão comum quanto todos nós.
O herói é cantado não porque representa a classe dirigente, mas porque ele é o ideal ao qual todo homem pode almejar, desde que tenha coragem, determinação e empenho em seguir aquilo que nós nomeamos de "Alto Ideal".
Em suma, a humanidade está em declínio exatamente porque tem se distanciado do ideal do herói; porque a humanidade tem se tornado insensível, indiferente à Realidade Divina, voltando suas costas a ela, ou pior, a nega.
Evidente, esta é uma opção e busca pessoal.
Para alguns a solução é encontrada em se renegar o mundo, o corpo e a natureza. Isto leva a uma experiência com o divino, mas não ao auto-conhecimento necessário para a comunhão com o divino.
O herói, que nós podemos ser, consiste naquele que segue, mesmo na dor e sofrimento, mantendo contato com a Realidade Divina, fazendo aquilo que deve ser feito, assumindo conscientemente sua responsabilidade sobre sua vida, seus atos e opções.

domingo, 12 de agosto de 2012

Aguentando a jornada

No mês passado, exausto, cansado, estressado, de sempre ser exigido mais, sempre ser cobrado, sempre ter a impressão de que se está patinando sem sair do lugar, eu desabafei com minha esposa.
- Pra que, por quem, eu me esforço tanto? O mundo está ficando cada vez pior, as pessoas estão cada vez mais agressivas, violentas. Por que, para que eu quero ser melhor? Do que me adianta tornar-me um ser humano melhor se eu vou ficar sozinho?
Sim, Joãozinho, um caminho espiritual, quando é sincero, honesto e dedicado, vai te levar a pisar as pedras que estão no fundo do rio. Quem busca uma religião como escape ou fuga da realidade, do sofrimento, está fazendo algo péssimo para si mesmo e para a espiritualidade/religiosidade escolhida.
As recompensas e respostas nos vêm, mas como adoramos esta postura de vítima, nem sempre percebemos o quanto recebemos. Uma dica, Joãozinho: se o mundo exige muito de ti, exija muito de teu próximo. Querem que seja melhor? Exija que o mundo seja melhor e faça para que isto aconteça.
Ontem eu fui à Bienal do Livro e, ao contrário da que teve em 2010, eu tirei melhor proveito. Simpesmente não criando expectativas. Simplesmente indo com a mente e o coração neutros. E tive boas surpresas.
Ontem também eu vi pela internet o filme "Valente" da Pixar e chamou-me a atenção que nessa animação se fala em destino, nossa vontade em querer alterá-lo [ah, o livre-arbítrio!] e os curiosos agentes que conduziram Merida [a personagem principal/heroína] ao seu Destino.
Em inglês, chamam-nos de will of the wisp; em português, fogo fátuo:
will-o'-the-wisp or ignis fatuus is a ghostly light seen by travellers at night, especially over bogs, swamps or marshes. It resembles a flickering lamp and is said to recede if approached, drawing travellers from the safe paths.
Folk belief attributes the phenomenon to fairies or elemental spirits.
Fogo-fátuo (ignis fatuus em latim), também chamado de Fogo tolo ou, no interior do BrasilFogo corredor ou João-galafoice, é uma luz azulada que pode ser avistada em pântanosbrejos etc. [wikipedia]
No filme, estas criaturas tem uma forma parecida com a de uma água viva, em tom azulado e aparecem para Merida para indicar a ela um caminho para que cumpra-se o Destino. Em uma cena, o guerreiro amaldiçoado, preso no corpo de um urso, ao ser liberado, primeiro assume sua forma humana para então tornar-se mais um fogo-fátuo. O que me faz recordar que em antigas lendas, o "povo das fadas" tem sua origem no espírito dos mortos. Eis uma boa dica aos que gostam e esperam ver filmes com referências à Arte.