sábado, 31 de março de 2012

A Vassoura da Bruxa

Muito se fala sobre a vassoura mágica, mas pouco se revela. Nossa intenção aqui não é limitar o assunto mas contribuir com ele.
Na ponta do cabo de dentro da piaçava há um prego banhado na quentura da guarra do diabo assim como na outra ponta, onde vc sopra o poder no cabo e o prende com o prego. Vassouras em geral são o símbolo do voo sabático, o cavalo de jacó, símbolo dos cavalos e dos enteógenos de montaria para vôos, e representa o elemento ar, podendo varrer pra dentro ou para fora. Em alguns ritos específicos ela fica no leste onde abre e fecha a porta para o círculo, em outros ritos há que se pular a vassoura para poder voar posteriormente para o Entre-Mundos. A lenda das bruxas voadoras em suas vassouras se originou antes de cristo onde durante um rito para pedir boas colheitas era feito o seguinte: As senhoras mais velhas primeiro e depois as mais novas acompanhavam, no campo já arado e plantado, haviam de pular cada pedaço de terra plantada, montadas numa vassoura e as bruxas desejavam pular bem alto, pois quanto mais alto era o pulo, mais alto era o tamanho da planta que cresceria com a benção da vassoura montada. É um humilde utensílio doméstico na aparência, nem por isso a vassoura é menos signo e símbolo de poder sagrado. Une o fálico com o yônico. Nos templos e santuários antigos, a varredura é um serviço de culto, além de manter o auxílio na limpeza. Trata-se de eliminar do chão e do ar todos os elementos que do exterior vieram sujá-lo, e essa tarefa só pode ser designada para quem tem as mãos puras.
Nas civilizações agrárias da África do Norte, a vassoura, que serve para varrer a área onde são batidos os cereais, é um dos símbolos do cultivo. Nessa cultura, durante os primeiros dias de luto, a casa não deve ser varrida, a fim de que a abundância não seja expulsa ou a fim de não ofender a alma do morto. Na Bretanha, igualmente, não se pode ou não se deve varrer a casa a noite, pois isso afastaria dela a felicidade. Os movimentos da vassoura abençoam ou afastam as almas que vagueiam. Entre as Stregas, além de tudo que já foi falado acima, é muito comum colocar a vassoura atrás da porta de entrada/saída para mandar embora as visitas indesejáveis.
Com efeito, essas vassouras que fazem desaparecer a poeira, poderiam também machucar e pôr em fuga os hóspedes invisíveis, os gênios protetores do lar. A maneira como são feitas e a matéria de que se compõem também não são indiferentes. A árvore de eucalipto é uma das mais escolhidas por alcançar o céu, e dela pode fabricar tanto o cabo quanto a piaçava.  Na Argélia, as mulheres costumam colher na primavera um pouco de feixes de urzes em flor, que se tornarão vassouras de bom augúrio, que não afugentarão a prosperidade e não machucarão por descuido os hóspedes invisíveis. Mas se a vassoura inverte seu papel protetor, torna-se instrumento de malefício, e de acordo com a lenda, montadas em cabos de vassouras é que as feiticeiras de todos os países saem pelas chaminés e vão para o sabá. A vassoura é um símbolo fálico de forças que a vassoura deveria ter vencido, mas que dela se apoderam e pelas quais ela se deixa levar, ou trazer. Em maléfica, o cabo de blacktorn também pode ser usado para criar uma vassoura de maldição e banimento, mas geralmente esse tronco é usado para fabricação de bastões maléficos.
Autor: Cléber

terça-feira, 27 de março de 2012

As Bruxas Paulistas

Documentos mostram como a Igreja saiu à caça de feiticeiras em São Paulo no século XVIII
Por Sandra Boccia
O Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo é um tesouro histórico conhecido por poucos. Protegidos do pó em estantes de cedro, 9 000 processos cíveis e criminais permitem rara olhada na intimidade da vida cotidiana em São Paulo, sul de Minas e Paraná entre 1632 e 1856.
Em meio a 10 milhões de registros de batizados, aparece o de Maria Izabel de Alcântara Brasileira, em 24 de maio de 1831. Supõe o historiador Jair Mongelli, chefe do arquivo, que se trata da filha ilegítima de dom Pedro I e Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos. "O nome está grifado", nota.
Há também processos de adultérios, concubinatos, sacrilégios, sodomia, sexo com animais e até mesmo de promessas de casamento não cumpridas. Preso em 1765, um certo Manoel Rodrigues Jordão justificou a dispensa de Joana Machado de Siqueira alegando que a moça não tinha dentes, dinheiro ou formosura. Um fiel da paróquia de Guarulhos, hoje município da Grande São Paulo, foi acusado de ter ouvido missa "vestido de mulher" em 1744. No decorrer do processo, descobriu-se que "o menor" Joaquim José não tivera a intenção de se passar por travesti. Tão pobre que não tinha o que vestir, ele improvisou com roupas de suas irmãs. Acabou absolvido.
Páscoa era uma escrava paulistana que usava pedacinhos de unha, fios de cabelo e excrementos humanos para enfeitiçar e matar. Depois de fazer um pacto com o demônio, ela tornou-se uma espécie de serial killer do século XVIII, matando cinco pessoas.
Essa história fantástica consta dos autos da investigação sobre seus crimes, da qual a Justiça Eclesiástica de São Paulo se ocupou durante dez meses. Finalmente, em 30 de julho de 1750, o juiz assinou a sentença: o caso deveria ser encaminhado à Inquisição, em Portugal. O destino de Páscoa nas mãos do Santo Ofício, que costumava condenar bruxas à morte na fogueira, ainda é um mistério. Processos recém-redescobertos nos arquivos da arquidiocese mostram que entre 1749 e 1771 nove mulheres (Páscoa entre elas) e quatro homens foram acusados de feitiçaria em São Paulo.
Salvos de um incêndio e esquecidos por décadas dentro de um baú de metal, esses documentos inéditos revelam episódios sombrios e pouco estudados da História nacional: a caça às bruxas conduzida pela Igreja Católica há mais de 200 anos.
"Trata-se de uma descoberta revolucionária", diz a historiadora Mary Del Priore, professora de história do Brasil colonial na Universidade de São Paulo, USP. "Essa documentação serve para iluminar um território que ainda continua nas sombras."
Os treze processos por feitiçaria, manuscritos em delicada fibra de pano e carcomidos pelo tempo, mostram como as autoridades eclesiásticas brasileiras seguiam à risca a cartilha da Inquisição portuguesa. Do século XVI ao XVIII, o Tribunal do Santo Ofício puniu com severidade qualquer suspeita de desvio em relação à doutrina católica, incluindo aí a magia. Nunca chegou a se estabelecer na colônia brasileira e seus enviados especiais – os Visitadores – só estiveram nas capitanias prósperas como Bahia, Pernambuco e Grão-Pará.
Em São Paulo, na época um pobre aglomerado de sessenta ruas contornadas pelo Rio Tamanduateí e seu afluente, o Anhangabaú, a caça às bruxas ficou por conta do clero local. Num processo aberto em 1767, Isabel Pedrosa de Alvarenga, moradora de Santo Amaro, foi acusada por um dos espiões da Igreja (chamados de "familiares do Santo Ofício") de dispor de um saco de coisas abomináveis para exercer atividades diabólicas. Umbigos de crianças, bicos de pássaros, cabelos e panos ensopados em sangue eram o tesouro desta mulher que vivia de esmolas e jamais admitiu ser uma bruxa. As acusadas eram normalmente pobres coitadas como Isabel, mais preocupadas com o sustento do dia-a-dia do que em prejudicar alguém.
Eram parteiras, lavadeiras de mortos, benzedeiras, curandeiras e adivinhas – típicas profissões femininas da época. "O próprio saber feminino era visto como bruxaria", diz a historiadora Eliana Rea Goldschmidt, do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina da Universidade de São Paulo. A primeira leitura dos documentos – de difícil compreensão devido ao português arcaico e à deterioração do papel – foi feita pela historiadora a pedido de VEJA.
As regras do Arcebispado da Bahia, editadas em 1707 numa tentativa pioneira de adequar as diretrizes católicas à colônia tropical, puniam os praticantes de magia com multas, excomunhão e degredo na África. A definição de magia era vaga e podia incluir qualquer acontecimento incomum. Em 1749, por exemplo, a Cúria paulista enviou a Portugal os autos de acusação contra Patrício Bicudo da Silva, colono de Santana de Parnaíba. O que tinha sido apurado contra ele era a estranheza de "trazer consigo cobras vivas nas mãos sem receber lesão alguma". Num processo arquivado na Cúria, de 1771, Leonor de Siqueira e Moraes e sua filha, Ana Francisca, foram acusadas de usar "líquido menstrual" para transformar Manoel José Barreto, marido de Ana, num "pateta".
O exílio no Brasil foi pena comum imposta às feiticeiras portuguesas. Isso encheu a colônia de benzedeiras e milagreiras. Apesar da quantidade de autos-de-fé em Lisboa, as cerimônias em que se queimavam hereges, a caça às bruxas foi mais branda em Portugal do que em outros países europeus, como a Alemanha. Todo o continente vivia assombrado por bruxarias.
A conclusão dos processos encontrados no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo pode estar nas montanhas de papel armazenadas na Torre do Tombo, que guarda os documentos coloniais em Lisboa. Ou em lugar nenhum. Se Páscoa ou outras bruxas paulistas arderam nas fogueiras é, por enquanto, uma pergunta sem resposta.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Heterhomobitrans

Existem na natureza, 450 espécies entre animais, aves e até peixes catalogados como sendo homossexuais e bissexuais, contendo suas variações, as seguintes espécies:
- 70 espécies de aves;
- 30 espécies de mamíferos.
Entre os animais, existe o ritual do sexo e mesmo quando os machos são a maioria ou estão sobrando, as fêmeas fazem sexo entre elas, como comprovou a pesquisa mostrada no vídeo durante o fórum.
Em se tratando de transexualidade, ela existe sobre os tipos : Natal, Legal, Genético entre outros, e as pesquisas comprovam que o ser humano encontra sua identidade sexual aos 2 anos de idade, e só então é possível iniciar os modos de pensar, como mulher ou como homem.
Diferentemente dos homossexuais, a mente da pessoa pensa como mulher mas o corpo é de homem e vice-versa. Encontra-se ai, a potencial pessoa a ser chamada de transexual, mas até então não. Essa pessoa vai crescendo e não encontra meios onde se sinta bem consigo mesma, e na maioria das vezes se sente um homem num corpo de mulher ou uma mulher num corpo de homem, e passa aspirar uma cirurgia de mudança de sexo para equilibrar mente e corpo e solucionar esse “transtorno”.
Os homossexuais sentem-se bem com o corpo de homem ou de mulher em que vivem e não almejam a mudança de sexo, e sim sentem-se atraídos sexualmente e são inclinados a gostar de uma pessoa do mesmo sexo. Até mesmo o sufixo “ISMO” deixou de ser usado no termo homossexualismo, pois tal sufixo designa doença e a ciência hoje em dia comprovou o que os homossexuais já sabiam. Não se trata de doença!
O sufixo “ismo” deu lugar a “idade” ficando homossexualidade e já tem diversas leis para serem aprovadas à favor dos homens e mulheres homossexuais.
No caso de pessoa transexual, a figura muda de ângulo.
Ela tem vergonha do seu próprio corpo, sente-se rejeitada por si mesma e entende que corpo e alma estão em desacordo, em desarmonia, como se estivesse presa à um corpo que não lhe pertence. Que incômodo!
Como é o caso dos pseudos-hermafroditas que nascem com um testículo de um lado e um ovário do outro, ou atrofia do membro masculino e a abertura vaginal fechada. (O termo pseudo-hermafrodita é aceito e usado em contra parte ao hermafrodita apenas, isso se dá em razão de que não existe hermafrodita como no caso do camaleão que se auto-fecunda). Ao olhar, o médico e até os pais vêem um sexo (masculino ou feminino) mas ao crescer e se desenvolver a coisa muda de figura e, quando percebem o que realmente aconteceu com a pessoa, já é tarde demais, pois a pessoa havia recebido um nome civil masculino ou feminino causando vários transtornos, apelidos, humilhações, brigas, desentendimentos na fase escolar e até mesmo quando o policial de trânsito pede os documentos. Até explicar que focinho de porco não é tomada.... – E na hora de ir no banheiro?
Bem, existiu um filosofo que teve a pachorra de afirmar que o homem é a medida de todas as coisas, e isso influenciou toda uma geração. No entanto, sua teoria caiu por terra literalmente, vejamos:
Por que os seres humanos precisam estudar a natureza e os animais para entenderem e compreenderem seus comportamentos e sua própria natureza, já que o homem é a medida de tudo?
Simples, eles não se auto compreendem, não se entendem e por isso busca na natureza a resposta para tudo.
Então comprovamos aqui que, A Natureza é a medida de Tudo!
Nos casos de bissexualidade entre animais, temos pesquisas que evidenciaram nos leões, elefantes, macacos entre outros, tal comportamento natural. Os antílopes machos são homossexuais e isso também é natural.
Poderíamos pesquisar mais a respeito sobre o tema Parafilia, mas deixarei a gosto de cada um(a).
Quanto ao sexo entre humanos, há necessidade de acabar com o preconceito, já que os homens expiam os animais para se entenderem, e os animais são naturalmente tanto héteros, como bi e homossexuais. Também observemos que: Os animais pensam mas não raciocinam, os seres humanos pensam e também raciocinam.
Então, porque os que pensam e raciocinam não podem erradicar o tal preconceito?
Essa pergunta é para refletir e está voltada aos bruxos e bruxas que desempenham funções ou trabalham no mundo jurídico, pois precisamos repensar as leis, ao integrarem na carreira como legisladores(as), jurístas, advogados(as), juízas(es), e até mesmo os humanos da área médica e psico-social.
Todo ser humano tem a genética bifronte, isto é, pode ser homem ou pode ser mulher, dependendo dos aspectos hormonais.
A mulher, até pouco tempo atrás era vista como a pessoa disceminada para procriar.
Essa frase era no mínimo preconceituosa, pois colocava a mulher só para procriar quando sabemos que elas não tem só esse dom e poder. No caso da mulher transexual, ela não poderá procriar, mas o que dizer das mulheres que não podem ter filhos por motivos diversos? E a adoção, existe para que? Todo conflito “pode ter” uma solução. Pelo menos ela poderá viver feliz na sua condição de “realizada”, guardando sempre os conceitos éticos e morais de não esconder seu passado do marido, para não correr o risco de cair em contradição.
Uma mulher pode ficar anos a fio sem fazer sexo com ninguém, nem por isso ela deixará de ser mulher, e assim é com os gays, com os homens e mulheres heteros, que no fundo, são TODOS potencialmente BISSEXUAIS pela própria condição de portar o caduceu de hermes em vossas colunas espirituais. Uma pomba-gira num corpo de um homem 'médium', não deixa de ser mulher; uma mulher que nasceu com o útero seco ou teve seu útero amaldiçoado para ficar seco e nunca mais poder gerar, não deixa de ser mulher, e uma mulher em espírito será sempre mulher, esteja ela num corpo de características masculinas ou femininas. A menstruação é um dom, um sangue que prepara o útero para geração da vida. Eu vejo a mulher que não menstrua, como a Anciã, ou face Negra da Deusa. 
Norberto Bobio, diz que “Os preconceitos não tem razão de ser”; assim como Russeau, fazendo crítica à liberdade “ativa” e o exercício da sexualidade.
O transexualismo, aqui com o sufixo “ismo”, transformado em transexualidade é o exercício do direito de liberdade positiva da sexualidade. A doença representada pela palavra transexualismo não está tão somente no físico-material, mas no espiritual. No sentido de que viver sob tal condição passa ser uma doença, podendo ser curada com a cirurgia. A pessoa transexualismada ainda não é feliz, enquanto a pessoa transexual é feliz.
E de transformação, nós Bruxas e Bruxos “Entendemos”, mas precisamos aprender buscar nossos direitos, e o único meio é a informação.
Autor: Cleber de Lupino Haddad
Texto publicado na Caverna de Lilith [grupo do facebook]

Androginia sagrada

A liberdade sexual e a indefinição das fronteiras de gênero podem provocar o ódio daqueles cujas crenças são desafiadas [pg 21]
Inanna apareceu como Guerreira, como Alta Sacerdotisa, como Amante. Agora Inanna abraça e cria um ritual específico honrando o aspecto cerimonial para as pessoas com identidade de gênero ambíguo.
Enheduanna descreve uma garota no poema "Dama de Grande Coração" usando uma palavra em Sumério que significava "o vigor de um jovem em seu ápice". A palavra "formoso/a" traduz melhor o significado transgênero, particularmente quando nós lemos e entendemos o contexto da situação. A garota no poema, por causa de sua aparência masculina, carrega o mesmo ostracismo em Sumer que muitos andróginos ainda carregam
A androginia cerimonial tem uma longa história. Na Mesopotâmia, as pessoas do tempo envolvidas na adoração da deusa são frequentemente descritas em textos literários relacionados aos rituais do templo como andróginos ou sexualmente ambivalentes, eunucos, hermafroditas ou travestis. Nos tempos modernos, algumas culturas indígenas americanas tem um espaço para a manifestação sagrada do transgênero.
As sacerdotisas e os sacerdotes transgêneros têm a habilidade de trespassar, de revelar duas palavras essencialmente diferentes uma da outra. Nessa transgressão, a unidade original da criação do mundo é revelada.
O lugar do chamado terceiro sexo no ritual tem sido observado por séculos. Os galli greco-romanos eram chamados de tertum sexus - representantes de um terceiro gênero. Will Roscoe cita "a violação das fronteiras sociais, especialmente aquelas fundamentais para a vida diária, como macho e fêmea, rompe com a realidade fabricada aos que testemunham isto".
As pessoas de gênero ambíguo atuavam dentro dos limites do ritual do templo. Assim contidos, o rompimento da realidade fabricada permitia aos cultuadores contemplarem a fragilidade de suas realidades construídas e dar espaço à instabilidade dentro de seu mundo predominantemente previsível.
Enheduanna nos traz diante da androginia de Inanna. Inanna representa a total expressão de todo o escopo das possibilidades da identidade da mulher. Este escopo inclui uniões do mesmo sexo. Inanna é livre para viajar pelo cenário de sua sexualidade, deleitando-se ao máximo com cada aspecto. Ela sanciona a sexualidade em suas várias formas como a força da vida propriamente dita. Suprimir uma expressão viável da sexualidade, como uniões do mesmo sexo, seria contrário à vida para Inanna e iria contra a força criativa de sua natureza.
Os aspectos rituais da androginia conectam-se ao propósito sagrado de transgredir para revelar o outro lado, de pertencer a mais de um mundo. Esta transposição espiritual era mais facilmente atravessada pelos andróginos do templo porque eles já haviam atravessado as fronteiras tradicionais da definição de gênero.
Inanna invena o ritual do nada. Ao fazê-lo ela conecta a definição ambígua de gênero a um arquétipo sagrado. O arquétipo nesse caso é a habilidade inata de atravessar fronteiras, de viajar entre os mundos consciente e inconsciente. Inanna declara o gênero ambíguo um dom dos deuses e dá à sacerdortisa e ao sacerdote recém iniciados um propósito ou um ofício específico no culto do templo.
Inanna os renomeia como mulher caniço e homem caniço. Os caniços que são onipresentes na margem do brejo dos rios de Sumer definem o espaço entre o terreno sólido e o fluxo da água do rio. Inanna nomeia seus novos sacerdotisa e sacerdote por esse trecho de terreno intermediário, um espaço transitório da água para a a terra, para identificá-los como pessoas que são capazes de viver no espaço entre mundos, margeando o consciente e o inconsciente.
Inanna puxa os fios de sua teia. Ela é quem tem o poder de mudar homem em mulher, mulher em homem, aquela que tem o poder de situar estes queridos por ela firmemente em seu domínio sagrado, seja sua sacerdotisa, guerreira, amante, andrógina.
"Inanna, Lady of Largest Heart", de Betty De Shong Meador, University of Texas Press, pg 162-167.

terça-feira, 20 de março de 2012

Nábia, Deusa do rio Nabão

No princípio era o Caos… entretanto, na ânsia de encontrar uma explicação para os fenómenos da natureza que o rodeiam, o Homem concebeu inúmeras divindades que além de representar os atributos de tais fenómenos passaram ainda a revelar emoções e sentimentos próprios dos humanos uma vez que eram construídos à sua imagem e semelhança.
Entre tais divindades, Nábia foi uma das divindades mais veneradas na faixa ocidental da Península Ibérica ou seja, a área que actualmente corresponde a Portugal e à Galiza, durante o período que antecedeu à ocupação romana. Na mitologia céltica, Nábia, era a deusa dos rios e da água, tendo em sua honra o seu nome sido atribuído a diversos rios como o Navia, na Galiza e o Neiva e o Nabão em Portugal. Inscrições epigráficas como as da Fonte do Ídolo, em Braga e a de Marecos, em Penafiel, atestam-nos a antiga devoção dos nossos ancestrais à deusa Nábia.
Quando ocuparam a Península Ibérica à qual deram o nome de Hispânia, os romanos que à época não se haviam convertido ainda ao Cristianismo, adoptaram as divindades indígenas e ampliaram o seu panteão, apenas convertendo o nome de Nábia para Nabanus, tal como antes haviam feito com os deuses da antiga Grécia.
Qual reminiscência do período visigótico, a crença pagã em Nábia – ou Nabanus – viria a dar origem na famosa lenda de Santa Iria – ou Santa Irene – cujo corpo, após o seu martírio, ficou depositado nas areias do rio Tejo junto às quais se ergueram vários locais de culto, tendo inclusive dado origem a alguns topónimos como a Póvoa de Santa Iria e, com a introdução do Cristianismo, a atribuição do seu nome à antiga Scallabis, a actual cidade de Santarém.
Bem vistas as coisas, são em grande parte do rio Nabão e das suas nascentes as águas que o rio Tejo leva ao Oceano Atlântico, junto a Lisboa, depois daquele as entregar ao rio Zêzere. E, é nas águas cristalinas do rio Nabão que habita a deusa Nábia e nas suas margens que Santa Iria encontrou o eterno repouso.
Fonte: Auren

segunda-feira, 19 de março de 2012

Idolatria e iconoclastia II

Recentemente acendeu-se a polêmica e a controvérsia  quanto à presença de crucifixos em repartições públicas. Polêmica e controvérsia inúteis aos olhos deste pagão, pois a proposta de “acabar com a religião” faz tanto sentido quanto propor acabar com a música, a poesia, o teatro.
De um lado, os ateus militantes, rasgando seus jalecos de pretensa racionalidade e cientificismo, clamando que o Estado é laico e portanto - em seu pensamento ficcioso- não pode haver qualquer símbolo religioso em repartições públicas.
De outro, a Igreja Católica e seus lacaios, entoando a mesma ladainha de que estamos em um país de cultura católica, chegando ao exagero de dizer que querem explodir o Cristo Redentor e outras baboseiras.
Em ambos os lados sobram argumentos e faltam razões.
Ateus, retirar os crucifixos das repartições públicas não é promover o Estado laico, mas a iconoclastia. A mera presença dos crucifixos é resultado de circunstâncias [histórica, cultural e social], retirá-los não afetará as circunstâncias. A retirada dos crucifixos não afetará o cerne do problema que impede do Estado brasileiro ser laico de fato, que é o poder e a influência da Igreja. Eu diria mais, irá apenas dar lenha às fogueiras santas que estão aparecendo, em defesa da Igreja, em defesa do "direito de liberdade de expressão, de opinião e de crença", em defesa da "cultura brasileira", etc.
Católicos, preservar os crucifixos não é promover o "direito de liberdade de expressão, de opinião e crença", mas vetá-lo, afinal, dificilmente os senhores irão permitir ou concordar com a presença de símbolos de outras religiões nas repartições públicas. Se os símbolos nas repartiçoes públicas devem ter uma relação com a história, o mais correto seriam símbolos pagãos. Presença que, por sinal, os senhores estão escandalizando, acusando a presença de "estátuas pagãs" da Deusa Themis nos prédios dos fóruns. Os senhores ou estão elogiando o Paganismo latente em nosso Estado, ou estão confundindo arte secular com arte sacra.
O que deveria ser discutido e com ênfase, é o poder e influência da Igreja no Estado. Vemos a resistência da Igreja e acólitos contra os direitos dos gays, vemos uma campanha inquisitorial contra qualquer discussão séria quanto à educação sexual, aos direitos reprodutivos e ao planejamento familiar.
Mal o ano eleitoral teve início e altas autoridades clericais [bispos] manifestam-se contra qualquer debate, discussão, opinião ou visão que divirja do totalitarismo doutrinário versando sobre o aborto.
O Estado brasileiro só será efetivamente laico quando cessar toda e qualquer intromissão ou influência da Igreja na nossa sociedade e na nossa política.
O resto é desperdiçar munição ou vela com santo.

Corpo e alma

Quando eu era mais novo muitos desenhos faziam sucesso e a lista dos que eu assisti e gostei provocaria diversas lembranças em meus caros e eventuais leitores. Alguns ainda estão sendo transmitidos, para tapar buraco na programação.
Um deles é o Pica-Pau, desenho das antigas que em nosso tempo onde impera o Politicamente Correto fatalmente não existiria ou não alcançaria o sucesso que teve em seu tempo áureo.
Em um episódio, Pica-Pau se vê diante de um de seus adversários, o  Zé Jacaré, crocodilo que mora no Mississipi, que tenta cozinhar o Pica-Pau em um caldeirão para uma poção mágica.
Em uma das cenas, o Pica-Pau diz para  o Zé Jacaré: “Vudu é pra jacu”, evidentemente na dublagem em português. O personagem, cuja característica é a irreverência, acaba servindo como porta-voz do sistema. Não é coincidência que as cores do Pica-Pau sejam azul, branco e vermelho, as cores da bandeira dos EUA.
Assim age as elites, seculares e sacerdotais, ou usam do terrorismo psicológico, ou ridicularizam aquilo que desconhecem ou não podem controlar.
Esta introdução foi-me necessária para falar do Vodou e do Haiti, uma religião pouco conhecida e que carrega consigo muitos estigmas, como seus seguidores, os sèvi Lwa, a maioria haitianos.
Eu me deliciei em ler o livro “Vodou Haitiano”, de Patrick Bellegarde-Smith e Claudine Michel. O Haiti é um país que tem um histórico muito parecido com muitos países latino-americanos, onde uma população nativa foi dizimada pelos colonizadores católicos, onde toda uma cultura foi subjugada e marginalizada pela imposição da doutrina católica, onde seres humanos foram capturados e vendidos como escravos.
Sim, os Pagãos Modernos tem muito a aprender com os Haitianos. Eles guardaram suas origens, suas crenças, mesmo oprimidos e perseguidos, mantiveram sua alma intacta, mantiveram sua conexão com sua terra nativa, com os espíritos de seus ancestrais, estabelecendo um profundo e forte senso de coletividade, com o qual puderam fixar novos elos com os espíritos e entidades dessa nova terra, nesse exílio forçado. Foram dobrados pela força do chicote, foram forçados a ouvir sermões, foram obrigados a reverenciar santos, foram obrigados a seguir os ditames de uma instituição religiosa estrangeira, mas da fraqueza tiraram a força para esconder, disfarçar, sincretizando a crença kreole com a crença católica, a subversão e liberdade convivendo nas brechas e fissuras do totalitarismo religioso.
Resistiram à força das instituições absolutistas, seculares e clericais, mas como os brasileiros, acabam sendo traídos e abandonados por aqueles que deveriam representá-los, que nasceram no mesmo berço, mas por provincianismo ou elitismo, acabaram representando de forma patética a estética e a cultura européia.
O trabalho de Patrick e de Claudine é, entretanto, uma esperança. A esperança de que os kreole abrancados, europeizados, despertem e redescubram suas verdadeiras origens, suas verdadeiras raízes, seu verdadeiro povo e ajam de acordo.
Um povo só tem um futuro e um país promissores quando corpo e alma estão juntos, quando governantes e cidadãos abraçam a mesma identidade, prezam pelos mesmos valores, crêem nas mesmas coisas e mantêm fortes elos com seus ancestrais, espíritos naturais e deuses. Um senso de identidade e personalidade étnica ligadas ao local, ao solo, ao terreno, ao território, à natureza; que irá rejeitar e resistir ao que é estranho, alienígena; confrontando e contestando o poder, a influência, a opressão e a repressão das instituições estrangeiras, sejam seculares ou clericais.

sábado, 3 de março de 2012

A era da decadência dos ideais

Eu ainda sou de uma época em que os ideais eram puros e cristalinos.
Quem diria que eu, ao chegar aos 4.6, em pleno século XXI, no Terceiro Milênio, veria a decadência e morte desses ideais que eram pedras preciosas no século passsado?
Meninos, eu vi os ideais de "liberdade, igualdade e fraternidade" tornarem-se bordão de propaganda.
Eu vi a desintegração tanto do comunismo quanto do capitalismo.
Eu vi planos de governo e plataformas politicas perderem seus princípios em troca de resultados eleitorais.
Eu vi uma pátria tropeçar em suas velhas instituições medievais.
Eu vi movimentos que luziam ouro tornarem-se lixo popular.
Eu estou sendo testemunha da indigência cultural, da estupidificação do meu povo, da promoção do individualismo, da vulgarização da liberdade de expressão e opinião, da dispersão da mobilização popular.
O tempo está passsando, toda uma nova geração está surgindo e a canção de Elis Regina está cada vez mais atual: "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais".
Eu estou vendo toda uma geração de jovens nascerem velhos.
Nós continuamos a repetir os mesmos velhos clichês e palavras de ordem de 50 anos atrás, vestimos os mesmos santos e ícones revolucionários, mas nada mudamos. Nós estamos mantendo o mesmo sistema, sustentamos as mesmas instituições, continuamos com a mesma vidinha medíocre, como gado continuamos dentro do currral e carregamos orgulhosos nossos cabrestos.
Eu vejo os mesmos anseios por um mundo melhor, mais justo, onde a huanidade possa manifestar todo seu potencial.
Eu vejo também a resistência, lado a lado com o preconceito, a intolerância e o ódio.
Eu ouço a humanidade clamar pelos seus direitos, por democracia, por liberdade, por amor.
Eu vejo também a humanidade protegendo e apoiando seus feitores, a aceitar ditaduras, a promover a discriminação, a divulgar a segregação, a disseminar a violência.
Todos querem falar, mas tentam calar outras vozes; todos tem opinião, mas não aceitam discuti-las; todos querem ser ouvidos, mas não sabem ouvir.
Somos ágeis em exigir nossos direitos, mas lentos em observar nossos deveres.
Somos rápidos em exigir respeito e tolerância, mas lerdos em respeitar e tolerar.
Somos expeditos em julgar, mas lenientes na auto-crítica.
Nos faltam razão e argumentos. Nos tornamos "especialistas" em qualquer assunto simplesmente por passar algumas horas na internet. Nos tornamos [ou nos damos uma posição de] autoridades, irreprimíveis, inerráveis, irreprováveis. Nos revestimos do manto do santo, do profeta, do missonário e regurgitamos doutrinas como se fatos fossem.
Queremos, esperamos e exigimos que o público nos reconheça, nos aplauda, nos incensem, nos idolatrem, nos aceitem e nos dêem crédito, sem questionamentos, sem críticas, sem contestação.
Isto tem se tornado pior, dentro da comunidade pagã brasileira. Em redes sociais, foruns, blogues, sobram e abundam os "especialistas instantâneos", pouco ou nenhum com grau acadêmico real e efetivo, usam uma concepção superficial, rala e aguada desses ideais preciosos enquanto lhe são úteis, mas logo os descartam quando perdem a utilidade.
Desde o início de minha caminhada como pagão e da concepção, construção e crescimento deste blogue, eu creio poder dizer que, na medida do possível, deixei a todos os diletos e eventuais leitores comentarem. Eu acho que nunca clamei por uma autoridade nem usei de minhas credenciais acadêmicas para calar opiniões diferentes. Comprei briga com gente da minha gente, com sacerdotes, com sacerdotisas. Eu fiquei entre tapas e beijos com a Qelimath. Eu continuei teimando em segurar o osso e a alimentar as minhas amarras. Para minha sorte, a despeito da dificuldade, como toda mudança, deixei de lado os tapas e fiquei com os beijos. Parei de alimentar o troll dentro de mim. Parei de criar reação. Eu estou diminuindo minha obcessão com meu auto-controle. Eu estou diminuindo minhas manias em relação aos outros. Antes de querer mudar o mundo, eu preciso mudar. E este blogue irá refletir essa mudança.
Por enquanto, o único ponto imovível é o meu ideal de amor. De que todos são livres e tem todo o direito de amar quem quiser, quantos quiser, da forma que quiser, desde que sejam ambos maduros e haja mútuo consentimento. Eu ainda vou acreditar no Amor. Mesmo em um mundo onde se aplaude a violência e se vaia o amor. De tudo, eu espero que ao menos o Amor perdure.