quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Eletrons versus fadas

A real diferença entre elétrons e fadas é que para os elétrons acumulamos uma coleção de regras pequenas e específicas sobre como se comportam sob certas circunstâncias. Essas regras nos permitem fazer previsões muito específicas sobre o comportamento do elétron, e sobre o resultado dessas observações.
A palavra “sob certas circunstâncias” indica que a teoria somente se sustenta de forma precária, em outras condições a teoria desaparece por completo. A física quântica é um campo bem delicado, nesse sentido. Pior, as teorias da física quântica ainda não possuem comprovação científica, mas ainda assim dá-se crédito, acredita-se em tais teorias.
Fadas são muito mais arbitrárias. Uma fada sabe o que tem de ser feito. Não pudemos encontrar nenhuma regra útil para predizer como uma fada irá se comportar em determinadas circunstâncias, ou até mesmo nos informar quando uma fada estará envolvida numa observação em particular. Por muitas, muitas décadas não foi possível, aos humanos, testar um conjunto razoável de regras de previsões de fadas, ou encontrar onde estão os erros dessas regras e substitui-los por um conjunto melhor de regras.
Toda a polêmica e celeuma sobre a existência ou não dos Deuses e outras entidades se resumem a essa necessidade neurótica e patológica do ser humano de querer controlar tudo. Toda a busca do método cientifico se resume em coletar provas, evidências e, a partir destas amostras, elaborar uma explicação, uma teoria. Da teoria, tudo se torna previsível, controlável. Quando algo não se encaixa nesse padrão, é ignorado. Quando algo não se comporta da forma como se convencionou, é temido. O que é ignorado é descartado como evidência e o que é temido tem sua existência negada. Coisas e fenômenos físicos podem ser previsíveis porque o comportamento é oriundo de condições naturais, entretanto o comportamento de personas não pode ser previsível porque é oriundo de opções subjetivas. Se a existência das fadas é suspeita por ser imprevisível, muito mais são os seres humanos, mas nem por isso duvidamos de nossa existência.
Há pessoas que acreditam que somente verdades são verdades científicas, mas isso é essencialmente uma fé religiosa individual.
Há pessoas que acreditam que apenas verdades científicas são verdades e isto também é essencialmente uma fé religiosa individual.
Há uma enorme diferença entre dizer que não se acredita em Deus e afirmar que não existe Deus. Assim como há uma enorme diferença entre o método científico e filosofia. A percepção da ciência é material e isto separa por contraste das afirmações de ordem filosófica que se faz a partir da ciência. Os cientistas e os ateus ainda não se perguntaram se não há evidências da existência dos Deuses ou se a nossa percepção [humana e limitada] está convenientemente filtrando os conceitos e ideias de como concebemos do mundo para não admitir que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.
Baseado no textyo de Gabriel Bassi, “Por que acreditamos em elétrons, mas não em fadas”, Sociedade Racionalista USP

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A estrutura do universo

Eu estou lendo o excelente livro “Deep Ancestors - Practicing the Religion of the Proto Indo Europeans”, de Ceisiwr Serith, ADF Publishing. A informação vem em boa hora, considerando os arriscados arroubos de neopagãos sobre extirpe ou sobre a nossa origem Indo-Européia. Aliviado desde a introdução, eu concordo com o autor que quando se fala de nossas origens, falamos em termos culturais e históricos, jamais em termos étnicos. O próprio termo Indo-Europeu é bem vago e indica uma procedência bem asiática, levando em conta que Indo é uma região da atual Índia. Europeu é igualmente um termo vago, visto que as fronteiras geográficas do que se convém ser a Europa foi formulada na Era Moderna, em sua forma original a Europa inclui regiões limítrofes que englobam o Mediterrâneo [um contraste por natureza], Norte da África, Ásia Menor, Oriente Médio e os Balcans.

O livro trata das origens de inúmeras formas de religião [as religiões dos povos Indo-Europeus] que tem em comum uma cosmogonia, uma teologia e virtudes. Neste sentido foi primordial ler no livro o profundo sentido desses ancestrais de que a cosmologia e a teologia não estão separadas. Em suas características, esta religião primordial tem a Axis Mundi, a árvore do Mundo, como a coluna central do Cosmos. O que intriga é o conceito de que o Cosmos, o Universo, que é a Axis Mundi manifestada, é formado da interação entre Caos e Ordem.

O conceito de que a estrutura do universo é como uma árvore, com seus ramos e raízes, arvore esta que é alimentada pela água de um poço, água que é constantemente reposta e renovada pelos frutos que a árvore derrama, dá uma boa noção do “xártus”. Tal como uma árvore, o xártus é orgânico, cresce e estende-se conforme acontece a interação entre Caos e Ordem. Os ramos entremeiam a todas as coisas e seres, o que inclui os Deuses. Ora comparado ao fluxo de um rio, xártus é mais o estado atual do momento, decorrente do que aconteceu anteriormente, antevendo uma miríade de possíveis vir-a-ser. Como corpo vivo do Cosmos, xártus é a Lei Divina, que se subdivide em dhétis, yéwesā, swārtus e swédos. Dhéthis é o comportamento humano, as leis sociais; yéwesā é a regra ritualística, swārtus é o xártus individual e swédos é a ética, estudo e prática da forma certa de viver, no caminho que nos leva à Virtude, estar de acordo com o xártus.

Os Deuses mantém o xártus e nem poderiam fazer diferente, pois a natureza e as leis divinas são, da mesma forma, estruturas do universo, do xártus. Tudo é um reflexo da estrutura do universo, mesmo idéias abstratas, tudo que pode ser percebido ou concebido tem uma correlação, uma correspondência com essa estrutura do universo, portanto, pessoal, portanto divino. O que nos leva ao campo das leis e virtudes humanas, de como percebemos a estrutura do universo, de como percebemos a existência das forças da natureza [manifestação divina], de como percebemos a organização social, de como percebemos o nosso papel nesse cenário e de como tudo isso se correlaciona e interage.

Nessa Era Contemporânea, falar em Virtude e de suas formas, como Verdade, Justiça, Hospitalidade, Caridade, Coragem, Lealdade, Temperança, Excelência, Responsabilidade, Dever, Piedade, Conhecimento, Amor, entre outros, deve soar pedante e perigoso lembrar que valores morais reais antecedem e precedem nossa limitada humanidade, principalmente quando colocamos nossos assuntos pessoais e particulares acima dos assuntos públicos, da convivência em comunidade, de nossa essência humana, de nosso potencial divino.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Sobre Deuses, humanidade e moralidade


"Se partirmos do pressuposto de que Deus, como ser divino, vê o futuro e aceita o mal que os seres humanos fazem, eu excluo que ele seja sumamente bom. Não pode ser bom um Deus que não renuncia criar um mundo assim. E se não pode renunciar a isso ele não é a suma autoridade, não é Deus." 
- Boris Pahor


Quem sofreu atrocidades tem razões de sobra para condenar moralmente o sofrimento que passaram. Entretanto, seus algozes também encontraram formas de justificarem moralmente seus atos, tal é a inconstância humana.

Eu vejo o texto como o tipico texto de ateu toddynho. 1. Eu sofro 2. Deus deve ser bom 3. Mas se eu sofro, então Deus não é bom 4. Então eu sou ateu. O sofrimento humano fez com que se questionasse a moral dos Deuses. Não há qualquer correlação entre sofrimento e moralidade. O que se pode discutir é a ética de certos atos humanos, visto que a moral humana serve às nossas conveniências. Todo nosso sentido de moral e ética foram desenvolvidos por povos antigos graças a este sentido humano quanto à existência dos Deuses. Portanto, quando condenamos moralmente atos humanos como Cruzadas, Inquisição, Genocídio, o fazemos porque tal sentido nos foi dado. Portanto, a responsabilidade sobre tais atos é do ser humano, não dos Deuses.

O ser humano é uma criatura peculiar. Tem padrões de comportamento que, ora são vistos como sendo "bons", ora são vistos como "ruins". Tem necessidades e desejos, como toda criatura vivente, mas detesta ser contrariada ou ignorada. Formulou os conceitos de "bem" e "mal", dividiu e categorizou o mundo dentro dessa dicotomia discutível. Qualquer circunstância, pessoa ou entidade que não se encaixa ou não se enquadra nessas concepções são questionadas, atacadas, acusadas e condenadas.
Recorrer a exemplos circunstanciais não é argumento suficiente para afirmar que "se Deus pode ver o futuro e aceita o mal, então Deus não é bom". Esse é uma falácia de petição de principio. E uma péssima remixagem do Paradoxo de Epicuro.

O paradoxo de Epicuro é um desafio aos teístas, não porque questiona o problema do mal - fato, ação, circunstância - mas porque questiona a presunção das crenças humanas ao atribuir a um (ou mais) Deus(es) a Bondade, a Justiça, a Onipotência, a Onipresença e a Onisciência.
O paradoxo deixa de ser um desafio simplesmente refutando a premissa de que um (ou mais) Deus(es) deve(m) ser bom(ns), justo(s), onipotente(s), onipresente(s) e onisciente(s). Na concepção dos povos antigos, conservada nos mitos, os Deuses demonstravam ter um comportamento assombrosamente humano. Mesmo os Deuses seguiam determinados padrões de ética e moral.

Diz o ateu: "A moral e ética sempre existiram, faz parte da consciência humana desde lá dos primeiros agrupamentos sociais". Então a moral e a ética existiram sempre? Então maior é a responsabilidade do homem em não observá-las. Ao afirmar que moral e ética existiram sempre, atribui-se um componente sobrenatural a este conjunto de preceitos. Então o senso de moral e ética não é humana, mas divina e é anterior ao homem, sua organização social e a sua percepção como ser senciente.

Existem dois tipos de "sofrimento". Aqueles que são naturais e os que são adquiridos.
Naturais acontecem por que perdemos nossa ligação com Deus. Adquiridos acontecem pelo meio ou tipo de vida que construímos.
O engraçado é que nos rebelamos contra essas coisas que nós mesmos construímos e culpamos a Deus. Em alguns casos crônicos, acreditamos que nos bastamos a nós mesmos.
Deus nos dá em abundância. Se existe fome ou miséria, é o Homem que a causa, para ter mais dinheiro, poder, influencia social... Nós construímos esse meio, esse tipo de vida. Nós somos os responsáveis.

Não precisava ser assim. O mundo não é nosso inimigo, mas nós mesmos. Deus está onde sempre esteve e não mudou. Somos nós que mudamos. Acabamos prisioneiros de um mundo construído por nossas ilusões. Ou seja, nos falta disciplina com responsabilidade e consciência sobre nossos atos e omissões.

Quando sofre, o homem quer culpar alguém, não se pergunta o que fez para chegar nisso. Evidente, o homem sabe disso e cria uma organização religiosa que se sustenta explorando essa necessidade humana de jogar a responsabilidade no "bode expiatório".
Temos um enorme potencial. Mas pelo mundo que nós construímos, ao preferir viver essa ilusão - essa falsa imagem - como se fosse real, perdemos nossa ligação com essa Fonte - Deus - por isso vivemos sempre insatisfeitos. Por estarmos sempre insatisfeitos e tomando a ilusão como real, fazemos coisas que tem consequências terríveis: miséria, fome, guerra. E o que o homem faz quando vê sofrimento e miséria criados, construídos por ele? Se revolta contra Deus e muitos, ao invés de assumir sua responsabilidade com consciência, tentam negar o divino.
Pelo controle consciente e responsável, deixamos de querer/fazer coisas desnecessárias, deixamos de causar/sofrer ações prejudiciais, passamos a ter uma ação correta em relação a nós mesmos, em relação à nossa comunidade e em relação ao divino.
O problema não está nas coisas, mas do que fazemos delas. Deus nos deu o conhecimento, a consciência e a capacidade. Infelizmente usamos para prejudicar nosso irmão.

A existência dos Deuses, independente de sua crença ou descrença, tem incumbências e preocupações mais amplas e mais cruciais do que satisfazer as nossas necessidades efêmeras. O homem, diante dos Deuses, é uma parte importante, mas não a mais importante. Dor, fome e sofrimento são parte da natureza, seria contraditório se isso não fizesse parte da nossa existência.

"Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles". [Epicuro – Carta a Menescau]

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Palo, a religião afro-cubana

Introdução

Palo, uma das quatro principais religiões de origem africana ainda praticada em Cuba, juntamente com Santeria, Abakuá e Arará, desenvolveu entre seus praticantes uma forma de necromancia chamada Nganga, ainda encontrada em várias partes do oeste da África Central.[1]
Esta religião tem um forte componente ancestral e tradicional, é uma religião iniciática e sacerdotal. Usa de cânticos, danças, desenhos [firmas] e oferendas para os mais variados fins. Tem um sistema oracular, chamado chomolongo ou diloggun ou ibbo, cada uma das 16 posições das conchas [ou búzios] são chamadas de oddu, grosseiramente chamado de adivinhação quando o correto é divinação.

A Regra de Palo

Os cultos de origem do Congo, ou provenientes da cultura banto, também chamados de cultos paleros, tem sua origem da região subsaariana da África, sendo os cultos mais antigos de Cuba, pois chegaram ao país com os primeiros carregamentos de escravos provindos do Congo.
A Regra do Palo se fundamenta no caldeirão que contém o "nfumbe o nkise"
(morto) e no poder mágico das árvores do monte, donde vem o qualificativo de "palero", ainda que empreguem os poderes mágicos de outros elementos da natureza como pedras, terras, animais, etc. O "caldeirão de palos" está regido por um poder sobrenatural no qual se concentra toda a força do bruxo.
Esta religião tem um forte componente espiritual e nela faz-se culto permanente aos antepassados.
A Regra de Palo tem três vertentes principais: Palo Mayombe, Palo Monte, Palo Kimbisa e Palo Briyumba. Estas vertentes encontram-se desenvolvidas na região ocidental do país ainda que em outras regiões algumas vertentes sejam mais importantes.
O Palo tem características próprias que a fazem uma religião independente nas quais se podem encontrar soluções aos problemas da vida prática e espiritual, por mais graves que estes problemas possam ser, sempre e quando o fundamento responde e se façam total e corretamente as obras [oferendas] indicadas.

As prendas

O resguardo é qualquer tipo de objeto preparado pelo "palero" para proteção e benefício de uma pessoa.
O fundamento é uma prenda maior, feita com o caldeirão, também chamado de "nganga o nkise". Estas prendas em geral são feitas de barro ou ferro, ainda que inicialmente fossem constituídas por um envoltório de saco que contem a carga magica dominada pelo Padre [Tata] ou Madre [Yayi].
Cada caldeirão é preparado segundo o tratado do santo ou "mpungo" que conterá e se encarregará do mesmo ainda que o poder do caldeirão reside no "nfumbe".
O fundamento deve ser colocado em um lugar separado da casa, ou pelo menos que tenha privacidade. A prenda deve receber a atenção necessária de seu dono que poderá consultar, realizar cerimonias e trabalhos, celebrar festas e dará "de comer" em cada aniversário que é o ritual principal de fechamento.
As prendas podem ser herdadas quando morre seu dono, se estas desejem ficar com algum afilhado ou parente. Neste caso a prenda será objeto de veneração e atenção deste herdeiro. Do contrário, há de se perguntar a quem a prenda quer ir, para que isto se cumpra.
Receber um fundamento é um compromisso muito sério para o qual deve se preparar.[2]

Árvores Sagradas

O nome "palo" provém da palavra "pau", ou seja, os troncos de árvores sagradas são o material principal na religião Palo, utilizadas nas prendas e nos fundamentos [assentamentos]. Estes troncos tem diversas listas, conforme a tradição, mas usualmente são chamados de palo amargo, palo vence batalla, palo jina, palo namo, palo dulce, palo hueso, palo jabon, palo guasimo, palo muerto, palo aceituno, palo ramon, palo una de gato, palo gayaba, palo pino, palo amansa guapo, palo jobovan palo canpeche, palo ojancho, palo guaramo, palo guama, palo cocuyo, palo espuelade gallo, palo santo, palo camito, palo tocino, palo mulato, palo torcido, palo negro, palo bomba, palo caballero, palo cambia voz, palo cajá, palo clavo, palo jeringa, palo diablo, palo malambo, palo moro, palo manga sayas, palo ven a mi, palo justicia, palo cambia rubra, palo abre caminho, palo espanta muerto, palo espanta policia.[3]

Os Deuses

Chamados de Nkisis são: Burufinda, Lucero [diversos], Tiembla Tierra , Siete Rayos, Madre de Agua, Mama Chola, Zarabanda, Pata En Llaga, Centella Ndoki.[4]
Chamados de Mpungos são: Lucero Mundo, Sarabanda son Briyumba, Sobayende/Cobayende, Gurunfinda, Tiembla Tierra, Siete Rayos Punto Firme, Madre de Agua, Chola Unwemwe, Centella Ndoke, Cubre Monte, Cabo de
Guerra.[5]
No livro Palo Mayombe, de Carlos Galdiano Montenegro, os Deuses são: El Cristo Negro, Los Espiritus Intranquilos, Santisima Muerte, San Simon, El Cristo Rey, Madre de la Luna, Madre de Agua, Santisima Pedra de Iman, Francisco de los Siete Rayos, Mama Chola.

Conclusão e bibliografia

Por suas práticas e origens, esta religião pode ser considerada uma "religião de bruxos", uma das poucas que ainda se mantém intacta, não se tornou um produto de massa, como infelizmente ocorre com muitas práticas e crenças.
[1] The Book on Palo, Baba Raul Canizares, pg 2.
[2] Trabajando com la Nganga, pg 4 – 9.
[3] Lista baseada no livro Palo Mayombe, de Carlos Galdiano Montenegro, pg 104 – 113.
[4] Lista baseada no livro El Libro de Palo, pg 28 – 63.
[5] Lista baseada no livro Tratado de Nfunbe, de Tata Nkisy Malongo, pg 42 – 43.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Kindoki

Pouca coisa se escreveu sobre a autêntica Bruxaria Africana, pois a essência da verdadeira Bruxaria não pode ser codificada ou transmitida de uma forma totalmente racional. A Bruxaria, como é entendida nas culturas de base africana e latina pelo mundo, não é sinônimo de religião ou misticismo, no sentido convencional.
A Bruxaria é considerada como parte da vida e da existência diária para milhões ao redor do mundo. A Bruxaria é essa expressão mágica que faz a si mesma entendida e permaneceu intacta através das eras. Ela é uma essência elusiva e tem sua própria sensação estranha. Aqueles que entendem essa afirmação tiveram uma indescritível noção do crepúsculo, da energia onírica da verdadeira bruxa. Essa Bruxaria que eu falo tem permanecido praticamente inalterada em muitas partes do mundo e sem dúvida será um pouco difícil para ocidentais perceber sua extensão.
A bruxa africana é considerada uma pessoa que vive fora das normas sociais e as práticas com que elas se envolvem são consideradas uma atividade criminosa. Kindoki, um termo comparável com Bruxaria, é tanto uma magia necromante bem como um poder natural manifestado por uma pessoa seleta.
Dizem que Kindoki é uma forma de mau-olhado, concebido como um poder de causar não intencionalmente uma maldição aos adversários ou inimigos. No reino do Kindoki, pode-se perceber algumas correlações com outras religiões de matriz africana. Isto é particularmente verdade com relação a Palo, ainda que Palo Mayombe ou Palo Monte seja uma religião de matriz do Congo, com uma forte tradição ancestral e rituais e processos cerimoniais únicos. Enquanto Kindoki usa elementos do Palo, este está relacionado com outro apenas de forma superficial.
Bruxaria e Kindoki podem ser empregados por qualquer bruxa por qualquer razão e seu propósito está mais nas necessidades e desejos pessoais do que em qualquer sistema abstrato de moral altruísta. Tanto Bruxaria quanto Kindoki empregam espíritos, embora Kindoki confie mais na presteza e eficiência dos espíritos dos mortos, enquanto Bruxaria enfatiza o trabalho com entidades elementais e demoníacas.
Dogmas religiosos e regras arcaicas não são importantes na Bruxaria, uma vez que a verdadeira energia mágica é derivada do processo criativo individual da bruxa e a conexão delas com essas forças com as quais se relacionam. Bruxaria e Kindoki são compatíveis, visto que misturam livremente os elementos mágicos de várias estruturas de sistemas e crenças. A bruxa não vê as coisas estritamente em termos de "bem" ou "mal", as bruxas tendem a ver apenas o poder no mundo e as ferramentas de seu comércio mágico como meros recursos usados para canalizar esse poder. Os muitos elementos da natureza são estas manifestações materiais que estão mais conectadas a este imenso oceano de poder e são combinados e usados de formas bem especificas para manipular, tanto para o bem quanto para o mal, de acordo com a vontade da bruxa.
Fonte: Kindoki – A Manual of African Witchcraft and Brujeria, de Afefe Ogo, Dark Harvest Occult Publishers, pg. 05 a 11.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

(Des)razões dos cristãos

1. O "casamento" homossexual não é casamento.
1. Casamento é o vínculo estabelecido entre duas pessoas, mediante o reconhecimento governamental, religioso ou social e que pressupõe uma relação interpessoal de intimidade, cuja representação arquetípica é a coabitação, embora possa ser visto por muitos como um contrato.
Em direito, é chamado "cônjuge" às pessoas que fazem parte de um casamento. O termo é neutro e pode se referir a homens e mulheres, sem distinção entre os sexos.
Há uma grande variedade, dependendo de fatores culturais, nas regras sociais que regem a seleção de um parceiro para o casamento. Há uma variação no quanto a seleção de parceiros é uma decisão individual pelos próprios parceiros ou de uma decisão coletiva por parte de seus parentes, existindo uma variedade das regras que regulam quais parceiros são opções válidas.[wikipédia]
2. O "casamento" homossexual viola a Lei Natural.
2. Quando se fala em "Lei Natural", deve-se considerar aquilo que ocorre na natureza, não a doutrina de Tomás de Aquino, que argumenta que a "Lei Natural" é a "Lei de Deus".
3. O "casamento" homossexual sempre nega à criança ou um pai ou uma mãe.
3. Estudos indicam que crianças adotadas por casais homossexuais não apresentam distúrbios nem alterações de comportamento.
4. O "casamento" homossexual valida e promove o estilo de vida homossexual.
4. O reconhecimento do casamento inclusivo é um ato necessário e humano, não irá substituir nem proibir o casamento heterossexual.
5. O "casamento" homossexual transforma um erro moral num Direito Civil.
5. O conceito moral de um grupo não pode servir de base para a discriminação e o preconceito contra os direitos de outro grupo. Os movimentos por direitos civis são a expressão de que nem tudo que é moral é ético.
6. O "casamento" homossexual não cria uma família, mas uma união naturalmente estéril.
6. Existem diversos casais heterossexuais que não produzem progênie. Se necessariamente a procriação é condição obrigatória e necessária para que o casamento seja "legítimo", então estes casais tornar-se-iam ilegais, pela ótica cristã.
7. O "casamento" homossexual desvirtua a razão pela qual o Estado beneficia o casamento.
7. A função do Estado não é beneficiar o casamento, mas o de reconhecer, dentro dos termos da lei e justiça, as implicações oriundas dessa união.
8. O "casamento" homossexual impõe a sua aceitação por toda a sociedade.
8. A aceitação do casamento homossexual pela sociedade  é o ato mais humano e necessário, visto que estas pessoas são humanas e merecem ter seus direitos reconhecidos e respeitados.
9. O "casamento" homossexual é a vanguarda da revolução sexual.
9. No Cristianismo, temas como sexualidade, relacionamentos, desejo, prazer, são tabus. Houve uma época que a Igreja era contra o casamento heterossexual. O Cristianismo contém doutrinas que interessam apenas aos que esta religião professam, não pode ser modelo, norma, ou padrão de um Estado de Direito.
10. O "casamento" homossexual ofende a Deus.
10. O cristão recorre ao conceito equivocado de que a homossexualidade ofende a Deus. Ora, se o Deus Cristão é o Criador e existe a homossexualidade, então estas pessoas também são criaturas criadas por esse Deus. De acordo com a bíblia, Deus criou a ambos, macho e fêmea [Gen 1:27], o que pode ser lido que o primeiro ser humano era hermafrodita. De acordo com os evangelhos, o casamento é algo condenado [1 Co 7:1, 7:27; Mt 19:10-12]. Portanto, não se pode usar a bíblia ou os evangelhos para embasar o preconceito e a discriminação.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Religiosidade no Neolítico - II

Durante a constituição do modelo de cidade-Estado, que dominará o Mediterrâneo pelos próximos séculos [4000-3500 a.C em diante], veremos nascer criações fundamentais do ser humano. Apesar de constatar-se a domesticação de plantas selvagens do próprio local em regiões afastadas do Levante, as áreas ao redor do Crescente Fértil necessitavam do que era inicialmente produzido nessa área geográfica. A disseminação das culturas do sudoeste asiático “foi logo seguida pela de outras inovações que nasciam no Crescente Fértil ou perto dele, entre elas a roda, a escrita, técnicas de metalurgia, ordenha, árvores frutíferas e produção de vinho e cerveja.” 1

Nas cidades-Estado hieráticas, o mundo sagrado das divindades era muito mais do que um ideal a se aspirar, mas, antes disso, um protótipo, um arquétipo da vida na terra. Os próprios deuses haviam ensinado as técnicas de construção das cidades aos homens e, por conta disso, concebia-se que tudo no mundo era uma réplica frágil de alguma contraparte divina, ou seja, as pessoas e objetos da realidade sagrada tinham suas imitações no mundo material 2. Foi por volta do terceiro milênio AEC que surgiu “o profissional em tempo integral, iniciado e estritamente arregimentado, sacerdote de templo.” 3

As cidades de Ur, de onde veio o Patriarca Abraão, Kish, Erech, Nipur, Shuruppak, Sipar e Lagash foram os palcos privilegiados dessa nova forma de se enxergar a realidade. Do alto das maravilhosas torres-templos chamadas zigurates os sacerdotes podiam admirar o cortejo das sete esferas eternas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, a Lua e o poderoso Sol, os mensageiros da lei e ordem universais. O número sete torna-se objeto de especial reverência por conta das sete “estrelas” errantes das quais derivou a semana 4. Toda a cidade é uma cópia na terra da ordem do Cosmos e, de acordo com a concepção matemática de inspiração astronômica que dava suporte a essa consonância mágica, o universo (macrocosmos) unia-se à comunidade (mesocosmos) e esta, por sua vez, ligava-se ao ser individual (microcosmos) 5.

“Pois há uma lei, um rei, um Estado e um universo. E além dos muros de nossa pequena cidade-estado estão as trevas; mas dentro dela reina a ordem, planejada de toda a eternidade para o homem, suportada pelo pivô do rei, que em sua imitação sagrada da lua (…) é a lua terrena (…). Sua rainha é o sol. A sacerdotisa virgem que o acompanhará na morte e será a noiva em sua ressurreição é o planeta Vênus. E seus quatro primeiros ministros de Estado – os senhores das finanças e da guerra, o primeiro-ministro e o carrasco – encarnam os poderes, respectivamente, dos planetas Mercúrio, Marte, Júpiter e Saturno.” 6

Quando o rei ou a rainha morriam, eram acompanhados à sepultura por todos os membros que refletiam a ordem celeste. Nesse mundo arcaico o verdadeiro caráter dos seres não estava em sua personalidade individual, mas em sua representação arquetípica. O rei é o bom pastor e seus súditos seu rebanho; ou é o agricultor dos deuses (como Adão em Gênesis 2:15) que dá vida aos campos; também pode ser o mestre das artes, o portador da cultura (que nas mitologias é o aquele que traz o fogo, símbolo da sabedoria, à comunidade) que constrói a cidade 7.

Pode-se estranhar um rei lua ao invés de uma rainha, mas nesse perído (anterior à invasão acádia de 2500 a.C) na esfera do sagrado A era B, o masculino era feminino e a morte era indissociável da vida. A divindade Lua, ao contrário do Sol que era sempre o mesmo, exemplificava a lei universal do devir com seu crescimento, decrescimento, desaparecimento e renascimento. Ela era aquela que se situava para além dos pares de opostos da existência sensível, relembrando o mundo do mito antes do primeiro assassinato ou da primeira relação sexual. A serpente, o símbolo lunar junto do chifre do touro, mordendo a cauda na forma de Ouroboros, simbolizava o eterno retorno e os pares de opostos unidos, pois sua boca era como uma vagina recebendo o órgão sexual masculino. A sociedade da cidade-Estado hierática era matrifocal 8, mas o entendimento da importância do homem na procriação durante a época de sedentarização e domesticação de animais tornou-se mais evidente por meio da observação do desenvolvimento dos rebanhos.

“Em consequência desta situação encontramos a Deusa-Mãe acompanhada de um ser masculino, um filho ou um irmão que a acompanha nos ritos da fertilidade e com os quais se une. Nos mitos e ritos trata-se de um deus jovem que há de morrer para logo renascer. No entanto, é a Grande Deusa quem cria a vida e governa a morte, mas agora reconhece-se muito melhor a participação masculina na procriação. As núpcias sagradas (hierogamias) e outros ritos similares festejados durante o quarto e terceiro milênios expressavam estas crenças. Até que a deusa se tivesse unido ao jovem deus e houvesse tido lugar a morte e o renascimento deste, não podia recomeçar o ciclo anual das estações. A sexualidade da Deusa é sagrada.” 9

O consorte, filho de parto virginal ou irmão da Deusa era o “Filho Legítimo do Abismo”, ou “O Filho do Abismo que se Levanta” 10 ; aquele que representa a energia geradora que se autoconsome; o deus-touro com o chifre em forma de lua o qual entra no mundo subterrâneo e é resgatado por sua esposa, a deusa nua em forma de serpente que copula com a serpente monstro e renova as forças do mundo 11, após três dias de trevas. É Baal e Anat, “Ístar e Tammuz, Vênus e Adônis, Ísis e Osíris, Maria e Jesus.” 12

Esse deus da colheita é em muitos casos o deus da morte. Ao morrer e retornar à vida, personifica o processo universal no qual vida e morte estão inexoravelmente ligadas. O culto do deus morto é simbolizado pela carnificina porque a vida nunca vence completamente. O antigo mito sumério de Inanna, sua parte ctônica Ereshkigala e Dumuzi 13 deixa essa questão bem clara. Inanna desce ao submundo para usurpar a irmã Ereshkigala, rainha das profundezas e da vida. Fracassa, e os Sete Juízes subterrâneos (contrapartes ctônicas das sete esferas celestes) a condenam à morte. Volta à terra acompanhada de demônios que forçam Dumuzi a ocupar o lugar de Inanna por este ter traído a esposa. Doravante, passa seis meses com Ereshkigala, nos quais a terra sofre a estiagem, e seis com Inanna, quando os grãos brotam e a colheita acontece.

A agricultura não era uma atividade pacífica e sim uma batalha constante contra as intempéries, esterilidade, fome e seca. A mitologia neolítica é violenta e as forças sacras da morte precisavam ser vencidas para que o alimento pudesse ser produzido. A semente penetra a terra e morre para dar origem à vegetação, os “implementos agrícolas mais parecem armas, o cereal deve ser reduzido a pó, as uvas, amassadas até a extração de sua polpa antes de se tornarem vinho”. 14

A grande mãe não era generosa e gentil; ao contrário, suas raízes remontam à Grande Deusa, senhora dos animais e fonte da vida; a que dá à luz constantemente por meio da morte do marido Animal. Nascida do ressentimento inconsciente da mulher em decorrência dos perigos pelos quais o caçador precisava passar, exigia grande derramamento de sangue para sua manutenção. A mulher, apesar de assegurar a sobrevivência da tribo por ser a fonte de nova vida, precisava do “interminável sacrifício de homens e animais” 15 para sua alimentação e a das suas crianças. Sua evolução, a Deusa Mãe, também precisava da morte do consorte o qual, como os alimentos de origem agrária, era esquartejado e mutilado antes de ressuscitar com a colheita.

“O imaginário sexual do plantio não significa que os povos percebiam a agricultura como um caso amoroso romântico com a natureza. A própria reprodução humana era extremamente perigosa para mãe e filho. Do mesmo modo, lavrar os campos exigia trabalho árduo, estafante. No Gênese, (…), a perda da condição paradisíaca inicial é vivida como prática da agricultura. No Éden os primeiros seres humanos cuidavam do jardim divino sem fazer esforço algum. Após a Queda, a mulher passa a parir os filhos entre dores, e o homem a tirar o sustento da terra com o suor de sua fronte. (Gênese 3:16-19)” 16

No mundo antigo, a deusa era representada por um monte de terra o qual era o omphalos, o umbigo e ponto de início do mundo. Esse axis mundi era o centro dos quatro cantos do mundo, como a árvore da vida e os quatro rios da Gênesis (Gênesis 2:9-14), no qual a realidade divina e humana se encontravam.

“(…) é o centro do círculo simbólico do universo, o Ponto Imóvel da lenda do Buda, em torno do qual, pode-se dizer, o mundo gira. Sob esse ponto, encontra-se a cabeça — suporte da terra — da serpente cósmica, o dragão, que simboliza as águas do abismo — a energia e a substância divinas,criadoras de vida, do demiurgo, o aspecto gerador do mundo do ser imortal. A árvore da vida, isto é, o próprio universo, cresce nesse ponto. Está enraizada na escuridão e sustentada por ela; o pássaro dourado do sol está empoleirado em sua copa; uma fonte, poço inexaurível, borbulha a seus pés.” 17

Notas:

1 - DIAMOND, Jared. Armas,germes e aço. Os destinos das sociedades humanas. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 183
2 - ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus. São Paulo: Editora Schwarcz, 2008. p.18
3 - CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2005. p. 126
4 - BOYER, Carl B. História da Matemática. . São Paulo: Blucher, 2001. p. 36
5 - CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2005. p. 327
6 - idem, ibidem. p. 327
7 - idem, ibidem. p.331-334
8 - Apesar das crítica feitas à ideia de “matriarcado primitivo” de Johann Jakob Bachofen, não entraremos aqui no mérito da pertinência ou não do termo e das críticas ao mesmo. Todavia, os conceitos de sociedade “matrifocal” ou “matricêntrica” referindo-se a comunidades centralizadas na figura da mulher será utilizado juntamente ao termo “matriarcado”.
9 - MOREIRA, Ana Maria Mendes. A mulher, o divino e a criação. Colóquio internacional “A Criação”. Convento dos Dominicanos. Lisboa, 2001. Versão online http://triplov.com/creatio/moreira.htm
10- CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. São Paulo: Palas Athena, 2005. p. 333
11- idem, ibidem. p. 337
12- CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus. Mitologia Primitiva. Pgs. 123-124. São Paulo: Palas Athena, 2005.
13- BARBAS, Helena. (tradução). Descida de Inanna aos Infernos in: A saga de Inanna (antologia de poemas).http://www.helenabarbas.net/traducoes/2004_Inanna_H_Barbas.pdf
14- ARMSTRONG, Karen. Breve História do Mito. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 45
15- idem, ibidem. p. 38
16- idem, ibidem. P. 44-45
17- CAMPBELL, Joseph. O Heroi de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 22; CAMPBELL, Joseph. O Heroi de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1995. p. 22, idem, ibidem. P. 44-45

Autor: Leonardo Veloso Pin
Editor: Guilherme Balan
Fonte: Bule Voador

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Sobre o "dragão na garagem"

Os argumentos relativos ao problema da existência de Deus têm sido viciados, quando positivos, pela circunstância de frequentemente se querer demonstrar, não a simples existência de Deus, senão a existência de determinado Deus, isto é, dum Deus com determinados atributos. Demonstrar que o universo é efeito de uma causa é uma coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente é outra coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente e infinita é outra coisa ainda; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente, infinita e benévola outra coisa mais. - Fernando Pessoa

Ateus, em seus textos e argumentos antiteistas recorrem, geralmente, ao exemplo do "amigo imaginário", o exemplo do "bule voador", o exemplo do "dragão na garagem". Eu fiquei farto de ouvir a mesma ladainha [catecismo?] à lá Dawkins.
Cristãos, em seus textos e argumentos teístas recorrem, geralmente, aos ensinamentos de Tomás de Aquino ou leituras sofríveis de história, antropologia, mitologia e certamente a interpretações desonestas de artigos de cientistas e filósofos da ciência. Deveras, não faz um bom quadro daqueles que crêem.
Curiosamente o conceito de ambos sobre quem ou o que é Deus consiste na teologia cristã. Não coincidentemente, os ataques de uns contra outros, crentes ou descrentes, tendem à uma generalização e análise superficial sobre Deus, crença, religião.
Mas qual o conceito deste pagão que vos escreve, qual o consenso [se há algum, seja qual for a religião/crença] do [Neo]Paganismo a respeito dos Deuses e sua existência?
Históricamente isso coloca-me em uma situação complicada, pois na Antiguidade haviam tantos Deuses quantas as religiões. As posições teológicas dos povos antigos vão desde o Politeísmo ao Monoteísmo, incluindo Monismo, Panteísmo e até Ateísmo.
Não é verdadeiro, entretanto, alegar que os Deuses não sejam entidades transcendentes e imateriais. Na época de Aristóteles, os neoplatônicos tinham uma concepção teológica que é semelhante ao conceito de Deus, segundo os cristãos [que, por sinal, embasam boa parte de sua teologia nos escritos neoplatônicos], como podemos ler no meu tópico "Doutrina de Georgius Gemistos Pleto" e no tópico "Sobre os Deuses".
Eu considero de grande ajuda os textos de Walter Otto, como o tópico "A Infinita Riqueza do Ser" e o tópico "A Essência do Mundo".
Sobre a realidade da existência dos Deuses, eu proponho o tópico "A Realidade do Rei" e "O Fantasma de Hamlet".
Para resumir, eu irei reproduzir trechos de um texto de minha autoria que encerra a minha visão teológica:
"Para nós (neopagãos) os Deuses e Deusas são imanentes e transcendentes, ou seja, o universo, a natureza e o mundo são parte da manifestação e da presença dos Deuses e Deusas, mas também estão além da dimensão material. Eles e Elas possuem corpos (embora não tenham o mesmo conteúdo que o humano), senão não poderiam se manifestar na natureza, nos mitos e nos cultos. Eles e Elas sofrem igualmente da velhice e da morte (e reencarnação) senão não poderiam nos guiar pela vida. Cada qual tem sua própria identidade e personalidade, comportando-se muitas vezes de formas contraditórias, mas sempre mantendo os Altos Ideais em vista.
Para nós (neopagãos) a Causa Primeira pode ser tanto a comunidade formada pelo conjunto dos Deuses e Deusas (Panteísmo) como a Bruma do Tempo de onde os Deuses e Deusas foram se formando (Monismo). Em termos morais e éticos, nós consideramos tanto a virtude quanto o vício conceitos humanos, variáveis conforme a época, a cultura e a sociedade. Eu particularmente creio que a maldade é causada pela ignorância.
Para nós (neopagãos) o culto não é uma mera cerimônia para propiciar ou agradecer aos Deuses e Deusas, cada rito evoca o ciclo da existência que é a essência dos Deuses e Deusas. Os Deuses e Deusas vivem em simbiose com os humanos, para Eles e Elas a vida é o culto divino sem o que não há Providência nem a Compreensão do Destino e isto é um dos maiores mistérios a ser desvendado por ambos.
A maior dificuldade ao conceituar e ver quem são os Deuses e Deusas está em nossa percepção, que é finita e imprecisa, nós tendemos a ver a aparência/embalagem e não procuramos ver o conteúdo/essência".
Eu escrevi anteriormente sobre a diferença entre Deus e o amigo imaginário no tópico "Deuses e Amigos Imaginários".
Se ainda assim descrentes virulentos, como Homero Ottoni, ainda preferem queimar bíblias, corões, sutras ou a demolir igrejas, sinagogas e mesquitas ou a prender todo aquele que crer em outra coisa senão na Santa Sagrada Ciência, sirvam-se do tópico "Deus segundo Spinoza" para, quem sabe, ver que raciocínio e crença não estão separados e que a religião não é um mal a ser extirpado.
Conclusão: "O que o ser humano (crente ou descrente) deveria perceber é que os mitos e das religiões não são (ou não deveriam ser) as donas da Verdade, mesmo porque a Verdade é dona de si mesma. Os mitos e as religiões são sistemas, como a Ciência, que aponta os indícios através dos quais se pode ter um vislumbre da Verdade."

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Religiosidade no Neolítico - I

O céu continuaria a ser um símbolo do sagrado bem depois do período Paleolítico. Mas um progresso inicial mostrou que a mitologia falharia se falasse de uma realidade transcendente demais. Se um mito não permite que as pessoas participem de algum modo do sagrado, ele se torna remoto e escapa de sua consciência. A certa altura (…), as pessoas de diversas partes do mundo, isoladas entre si, passaram a representar o céu. Começaram a contar histórias sobre um “Deus Celeste” ou “Deus das Alturas”, que criou sozinho o céu e a terra, a partir do nada. Esse monoteísmo primitivo quase certamente data do período Paleolítico. Antes de começarem a adorar uma série de divindades, os povos de muitas partes do mundo reconheciam apenas um Deus Supremo, que criara o mundo e administrava os assuntos humanos do alto.

Esse Deus Supremo, que era a Causa Primeira de todas as coisas, não podia ser representado por imagens e não possuía templos ou sacerdotes, por ser sublime demais para as inadequadas categorias e culto humano. Por essa razão foi desvanecendo-se aos poucos até ser substituído por divindades menores e mais acessíveis, pois o mythos é paradigmático e precisa fazer-se presente e estar voltado à vida das pessoas para que possa florescer. No período Paleolítico as mitologias dominantes eram a do “valente xamã – cujo poder era atrair os animais para a queda” quer dizer, por meio dos rituais, o feiticeiro, meio homem, meio fera, encantava os animais para tornarem-se passíveis de serem caçados, como podemos constatar pelas pinturas de Trois Frères – e a do Mestre Animal, muito bem representada pelo ritual do culto ao urso e à rena e que estaria relacionado à magia que evitava “ser surpreendido pela vingança sangrenta” do espírito do ser o qual teve o sangue derramado durante a caçada ou luta. Porém, percebemos uma mudança clara na mitologia a partir de quando as sociedades passaram a cultivar o próprio alimento.

Podemos constatar o culto à fertilidade nas crenças Paleolíticas ao observarmos as diversas estatuetas femininas datadas do Aurignaciano e do Paleolítico Superior, como a “Vênus impudica”, a qual apresenta uma grande abertura vaginal; ao mesmo tempo temos as imagens masculinas toscas, cujo único detalhe seria o pênis ereto. Normalmente as “Vênus” Paleolíticas possuem certas partes da anatomia representadas de modo exagerado – abdômen (possivelmente por estarem grávidas, mas alguns estudiosos acreditam que se trata apenas um símbolo de abundância numa época na qual os recursos eram escassos), seios, quadris, coxas, nádegas e vaginas. Além disso não apresentam definições faciais, apesar de exceções como a Vênus de Brassempouy, que seria uma das primeiras representações da face humana. Esse culto à Grande Mãe teria surgido por conta dos mistérios primais do nascimento e da menstruação, que seriam manifestações naturais de poder. Por essa razão, os ritos femininos estariam relacionados à ideia de perigo misterioso, exemplificado pelo estranho fenômeno vaginal, a qual seria um portal ligando o mundo ao mistério com o poder de trazer nova vida à nossa existência. O uso do ocre nos rituais antigos mostra a importância do ciclo menstrual para o mito ancestral. Tanto que sua força ainda pode ser constatada na Gênesis bíblica na figura de Adão (adam em hebraico que vem de adamah, terra,dam, sangue e adom, vermelho), o hermafrodita, feito da terra vermelha feminina e do sopro do céu masculino (Gênesis 2:7).

Todavia, apesar da importância da fertilidade e dos úteros físico, (qual permite o nascimento carnal), e simbólico, (representado pelas cavernas e submundo, relacionado ao nascimento ritual) – o mesmo que seria experimentado por Jesus em seu túmulo quando abandona sua carne em nome de uma vida espiritual -, o Paleolítico era o mundo da caça, atividade essencialmente masculina. A divindade que passeava pelo céu, essência do transcendental e da alteridade, era o grande caçador “Sol”. Ele é o leão, cujo rugido espanta os rebanhos e o grande boi lunar, a grande águia, cujas garras capturam a ovelha; ele é a esfera luminosa cujos raios ao alvorecer dispersam os “rebanhos” do céu noturno, as estrelas, é o pássaro que caça a cobra lunar. Mas, felizmente, os rebanhos e a lua animal sempre regressavam na noite seguinte, pois o eterno céu, os astros e estrelas serviam como pano de fundo estável para a vida ordinária, que transcorre sob o domínio da morte, da vicissitude, da sucessão interminável de eventos e do ciclo das estações.

E enquanto o homem caçava instruído pelos “Ancestrais” – os seres arquetípicos os quais ensinaram aos humanos suas atividades cotidianas e que tornavam as mesmas sagradas, do sexo à arte da caça -, as mulheres eram responsáveis pela coleta de raízes, bagas e larvas. Essa atividade permitiu-lhes desenvolver o cultivo de plantas e tornarem-se as responsáveis pela produção de alimentos e as únicas responsáveis pela geração e criação dos filhos. Segundo Karen Armstrong, “Dessa maneira conquistaram poder e prestígio tanto econômico quanto social, e o sistema matriarcal tomou forma”. Essas primeiras agricultoras não surgiram espontaneamente. Suas técnicas foram resultado da acumulação de várias decisões ao longo dos séculos sobre a utilização de tempo e esforços. As coletoras anteciparam diversos elementos da arte agrícola, como tratar a terra queimando-a, estimulando o desenvolvimento do vegetais que brotavam depois; colher os tubérculos, separando esses dos caules e pontas e replantando os últimos; e arar o solo, ao cavar para extrair as raízes.

Foi com o início da agricultura que as principais formas míticas do passado estruturaram-se; principalmente aquelas as quais podemos encontrar em diversas passagens do Velho e Novo Testamentos bíblicos. A grande serpente e a donzela, as divindades lunares e solares, o deus assassinado que desce ao submundo para retornar em seguida, a Deusa Mãe – a terra fornecedora que, como o céu, foi personalizada – uma divindade nova que manteve as características da sangrenta Grande Mãe Paleolítica, a que era ao mesmo tempo o bem e o mal, etecetera. Foi no mundo Neolítico que grande parte da estrutura mitológica Euroasiática tomou forma, com sua cristalização ocorrendo durante a formação das cidades-estado hieráticas há 5500 anos na região da Mesopotâmia.

Algo que devemos ter em mente quando estudamos a passagem da experiência mítica de sociedades caçadoras coletoras para as agrícolas é que, diferentemente do animal, se alguém cortava uma planta e jogava fora o ramo morto, ela brotava novamente. A poda estimulava o crescimento das plantas em vez de matá-las, a semente mudava de forma e parecia precisar morrer para permitir o nascimento do vegetal. A questão do renascimento após a morte, que vai permear muitas religiões encarnacionistas, desenvolve-se no mundo do agricultor. Ao contrário da atividade da caça – que trazia grande peso psicológico a quem precisava matar animais que tinham expressões faciais, gritavam de dor e derramavam o mesmo sangue vermelho do caçador – a agricultura não necessitava do derramamento de sangue. Entretanto, os rituais ligados a ela eram sangrentos e terríveis, sendo sacrificados tanto bichos quanto homens, pois pensava-se que deuses, humanos e animais estavam inextricavelmente ligados. Eram compostos da mesma substância divina, não havendo diferença em quem deveria ser oferecido em holocausto.

O confronto com a morte resultava no crescimento espiritual, na aceitação da mortalidade; o êxtase dos ritos religiosos levava o fiel à automutilação em diversas ocasiões; a morte daqueles oferecidos em sacrifício mutilados e enterrados como plantas servia para renovar as forças da criação e fornecer campos férteis. Era uma "forma de reciclar as forças esgotadas que mantinham o mundo vivo. Havia uma firme convicção de que vida e morte, criatividade e destruição estavam inextricavelmente interligadas. As pessoas achavam que sobreviviam apenas porque outras criaturas davam a vida por elas, e assim reverenciavam a vítima animal por seu auto sacrifício. Como não podia haver vida sem essa morte, alguns imaginavam que o mundo surgira em função de um sacrifício realizado no começo dos tempos".”

O mistério da Lua, o grande disco de prata que toma o lugar do poderoso Sol durante a noite, com sua morte e ressurreição perpétuas durante a mudança dos ciclos lunares, intrigava as pessoas do passado. Parecia haver alguma relação com a interdependência entre vida e morte, sexo e assassinato, que sustentam a existência. A coincidência do ciclo menstrual com o da Lua ajudou a tornar essa divindade um dos símbolos da religião da Grande Deusa, juntamente com a cobra, o falo, que, assim como o astro prateado, também parece ter o poder de renovar-se ao trocar de pele. A serpente relacionada ao astro feminino tornou-se um símbolo (tão vilipendiado pelo Tenach da sociedade patriarcal hebraica) da mulher na mitologia, como podemos constatar, por exemplo, pela escultura da “Deusa Minóica das Serpentes” de 3600 anos. Apesar de ter sido subjugada pelos deuses masculinos dos invasores semitas e indo-arianos, sua presença ainda hoje ecoa nas mitologias da Eurásia.

A produção de alimentos iniciou-se por volta de 8500 AEC na região mediterrânea do Crescente Fértil e tinha, entre outras funções, o objetivo de garantir um estoque para o caso de carência de plantas e animais silvestres. Um dos fatores de seu crescimento, juntamente ao da domesticação de animais, foi a melhora do clima na área no final do Pleistoceno, a qual permitiu uma expansão da oferta de cereais silvestres passíveis de domesticação. Ao mesmo tempo houve uma redução na oferta de gazelas selvagens, que eram uma fundamental fonte de carne para os caçadores-coletores da região.

“Um outro fator a pesar contra os caçadores-coletores foi o desenvolvimento cumulativo de tecnologia das quais a produção de alimentos iria depender – tecnologias para coleta, processamento e armazenamento de alimentos silvestres. Que uso os fazendeiros poderiam fazer de uma tonelada de grãos de trigo, se não tivessem antes pensado em como colher, como descascar e como armazenar essa quantidade. Os métodos, implementos e meios necessários surgiram rapidamente no Crescente Fértil depois de 11000 a.C., e foram inventados para dar conta da abundância de cereais subitamente disponíveis”.

Temos na região do Oriente Médio e Egito o desenvolvimento da cultura Natufiana no período chamado de Protoneolítico (por volta de 8.500 a 5.500 a.C.). Esse povo foi o primeiro do Mediterrâneo Oriental a estabelecer vilarejos permanentes, utilizando-se da “promissora e altamente significativa colheita de grãos ou capim que se somara às provisões da caça” 4 , formadas pelas cabra e ovelha juntamente a dois dos principais animais da mitologia Euroasiática, o boi e o porco. Cabra, ovelha e porco foram domesticados no sudoeste Asiático por volta de 8.000 AEC.

Entre 5.500 e 4.500 AC, durante o Neolítico Basal, os fundamentos de uma economia agropecuária já estavam bem desenvolvidos. Os cereais da zona mitogenética do Oriente Médio eram o trigo e a cevada. As artes da tecelagem, da cerâmica (surgida no Japão há 14 mil anos e na Ásia Ocidental por volta de 8.000 a.C.), carpintaria e construção de casas desenvolvia-se a pleno vapor até que entre 4.500 e 3.500 a.C. No Neolítico Superior a cerâmica começa a ser enfeitada com desenhos geometricamente organizados nos estilos conhecidos como Halaf, Samarra e Obeid. As formas abstratas geometricamente organizadas eram um tipo inédito de arte até aquele momento, que surgiu exatamente quando o mundo da aldeia agropastoril concretizou-se. Essa sociedade com organização mais complexa foi responsável por uma mudança profunda e substancial que influenciaria a vida do homem nos milênios seguintes: a diferenciação das funções sociais.

No mundo da caça essa diferenciação era totalmente dispensável – a não ser aquela em relação ao sexo, como já vimos, e idade – pois cada um era conhecedor de toda a herança cultural e técnica do próprio grupo social que, dessa forma, era composto por indivíduos equivalentes. Com o aparecimento das sociedades mais complexas, surge a tendência à especialização. Uma pessoa adulta a partir daí constituía-se num órgão necessário do corpo social e possuía um certo conhecimento técnico ou habilidade especial. Tinha, dessa forma, de suportar a convivência com outras que tinham capacidades, conhecimentos e ideais diferentes sem os quais ela, entretanto, não poderia sobreviver.

“A súbita aparição, no Neolítico Superior, de uma forma de arte composta geometricamente, em que elementos díspares eram unidos como um todo harmônico, parece-me indicar que algum problema psicológico dessa ordem já tivesse começado a aparecer.”

Nesse período, é feito um amálgama de diferentes mitologias. Dos ofídios das selvas ao touro das estepes, os diferentes animais da tradição mitológica são fundidos em criaturas fantásticas como leões com cabeças de águias e touros com caudas de peixes. Esses motivos mitológicos básicos são representados na sofisticada cerâmica da época: o touro, a pomba, a cabra, o carneiro, o porco e a deusa são representados por estatuetas e desenhos na região diametralmente oposta àquela onde as Vênus do Paleolítico foram encontradas, sendo ambas separadas apenas pelo mar Negro.

Estatuetas femininas em osso, pedra, marfim ou argila e cerâmicas pintadas foram encontradas nos estratos arqueológicos de 4.500 AEC e dão pistas a respeito das crenças Neolíticas. As figuras esculpidas ou desenhadas são representadas nuas, muitas vezes grávidas e em alguns casos segurando uma criança. Também foram descobertas, nesse mesmo estrato, figuras com o motivo da cabeça do touro-lua, o qual morre e ressuscita e fertiliza a deusa-terra 6 , o animal mais nobre e poderoso do rebanho sagrado, que emprenha as vacas leiteiras e puxa o arado, o qual abre e semea a terra ao mesmo tempo.

“Além disso, os primeiros complexos de templos do Oriente Próximo de Fato, os primeiros na história do mundo, reforçam a evidência do deus-touro e da deusa-vaca como principais símbolos de fertilidade do período. Datados grosso modo entre 4000-3500 a.C., três desses complexos de templos foram escavados no sul da Mesopotâmia, em Obeid, Uruk e Eridu; dois um pouco para o norte, em Khafajah e Uqair, respectivamente ao norte e ao sul de Bagdá; enquanto um sexto, bem longe dali, em Tell Brak, no vale do Khabur no nordeste da Síria, sugere uma ampla difusão daquela forma, comum na região sírio-cilícia (chamada Táurea). Sabe-se que dois desses seis complexos foram dedicados a deusas: o de Obeid, a Ninhursag e o de Khafajah, a Inanna — as divindades dos outros são desconhecidas. E três dos complexos (em Obeid. Khafajah e Uqair), cada um cercado por dois altos muros, eram de forma ovalada, projetada, ao que parece, para sugerir a genitália feminina.(…) Mosaicos multicoloridos encontrados entre as ruínas em Obeid revelam um grupo de sacerdotes em sua sacra tarefa de ordenhar as vacas sagradas, tirando e armazenando o leite, e sabemos, por numerosos documentos escritos posteriormente, que a forma da deusa cultuada naquele templo, Ninhursag, a mãe do universo e de todos os homens, deuses e animais, era em particular a padroeira e guardiã dos reis, que ela alimentava com seu leite santificado — na verdade, o leite dos animais através dos quais ela atuava aqui na terra.”

Autor: Leonardo Veloso Pin
Editor: Guilherme Balan
Fonte: Bule Voador