terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Ao Deus das fronteiras














Dia 23 de Fevereiro é consagrado no calendário religioso latino a Terminus, Deus das Fronteiras. Trata-se de uma Divindade, representada por uma pedra, que zela pelo respeito devido aos marcos que delimitam os territórios. Nesta data, os proprietários enfeitavam com grinaldas as pedras que marcavam as fronteiras das suas terras e ofereciam bolos, frutos e vinho à Divindade... Celebrava-se a Terminália junto de uma rocha fronteiriça, no templo de I.O.M. - Iuppiter Optimus Maximus ou Júpiter o Melhor e o Maior - localizado no monte Capitolino, em Roma.
O poeta Ovídio consagrou-Lhe estas palavras:
«Santo Terminus, Tu defines povos e cidades e nações dentro das suas fronteiras. Toda a terra estaria em disputa se não fosses Tu. Não procuras serviços nem o favor de ninguém; nenhuma quantia de ouro pode corromper o Teu julgamento. Em boa fé, Tu preservas as reivindicações legítimas às terras rurais.»
(Ovídio, Fastos II.658-62).
Publicado por Caturo, no Gladius

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O que é "ateu toddynho"

Ateu toddynho é gente que alega ser ateu da boca para fora, se dizem ateus por causa de algum trauma que os fez ficar revoltado exatamente contra esse conceito cristão de Deus que tentam tanto negar, agarrando-se aos fatos e às evidências.
Parece um caso invertido do menino que grita "lobo" sem que houvesse algum. Nega-se o além para se negar o medo. Mas se não há o "lobo", não há medo para ser negado. Nega-se o além talvez por medo de se ter que responder por atos ou omissões ou talvez com receio de ter que passar por mais sofrimentos.
Cometem os mesmos erros dos cristãos.
Tendenciosismo e desonestidade: citam fatos históricos e artigos acadêmicos naquilo que interessam aos seus argumentos.
Generalização: partem de informações básicas sobre algum assunto e os tomam como regra para tudo que se refere a tal assunto.
Simplificação: partem de preconceitos próprios para analisar um assunto, sem buscar informações ou dados que embasem o argumento oferecido.
Reducionismo: partem de informações truncadas ou incompletas para juntar ou aglutinar em um mesmo conceito assuntos díspares.
Hiperbolismo: partem de dados subjetivos, infundados ou incomprovados para sustentar um argumento visivelmente tendencioso.
Superficialismo: partem de opiniões ou dados obtidos pelos métodos acima para produzir uma visão desprovida de conhecimento sobre o assunto, mas dando a esta visão o caráter de veracidade.
Na atenção seletiva do ateu toddynho, apenas aquilo que é "racional", "lógico", "comprovado cientificamente", "sustentado por evidências" é bom, é certo. Tudo que vem da Ciência, da Razão, da Lógica só pode ser algo "civilizado" e [como nossos vizinhos cristãos] tudo que discorde deve ser banido, censurado, destruído. Religião é sinônimo de superstição, de ignorância, de atraso, de intolerância, de preconceito, de incultura.
Falam tanto em Razão, mas isso colocaria a mesma como um princípio transcendental similar aos Deuses. Falam tanto em evidências, mas isso colocaria as mesmas no mesmo conceito que as verdades reveladas por profetas. Falam tanto em fatos, mas estes provam apenas a existência de si mesmos, a interpretação do significado deles é puramente subjetiva. Falam tanto em fanatismo cristão, mas certos ativistas ateus são tão raivosos em proclamar como portadores da verdade tanto quanto alguns apologéticos cristãos. Falam tanto nas realizações feitas por ateus, mas nenhum as fez em nome do Ateísmo. Falam do quanto são inteligentes, mas ser ateu não é garantia para alguém ser inteligente.
Eu tenho visto ser reacendida a “fogueira” contra a "superstição", a "crendice", eu vejo constantemente a religião ser generalizada e jogada no mesmo balaio onde está a instituição da Igreja Católica. Desnecessário repetir que, sem esse aspecto da religião, nossos antepassados não teriam construído a civilização contemporânea. A humanidade possui um conjunto chamado de "cultura" e qualquer aspecto dessa cultura quando é reduzida ou erradicada, deixamos de lado nossa humanidade.
Decerto o ateu toddynho tem complexo de Édipo, tenta livrar-se da ameaça e do perigo que representa a figura paternal para sua noção de identidade, personalidade, individualidade.
No pensamento provinciano é inconcebível que, de povos "selvagens", "incultos" e "crédulos", tenha surgido toda civilização e ciência.
Esmiúça-se o ateu toddynho em detalhar como as coisas são e como funcionam confiante de que, ao assimilar e imitar a ordem natural, tenha conforto e segurança. Apavora-se diante do inexplicável, do misterioso, do imprevisível. Nega tudo e qualquer coisa que não se encaixe nessa visão de mundo mecanicista e insensível.
O ateu toddynho duvida da existência dos Deuses, ainda que a própria existência de todo fato, evidência, indica, como mapa anatômico, que os Deuses são reais.
As coisas são e funcionam porque há existência, esta mesma, prova da realidade dos Deuses. Não há ordem, lei ou regra nas coisas em si mesmas, mas além destas. Somente há ordem, lei e regra, bem como caos, onde há uma inteligência, uma consciência atuante, transcendente e imanente.
No fundo, o ateu toddynho apenas busca as mesmas coisas que nós. Quer respostas, quer conforto, quer segurança, quer ter uma ideia do que pode vir a seguir, quer ter a ilusão de que "sabe" de tudo e que tudo está sob seu controle.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Elementos da religião ancestral

Essa é uma resenha breve sobre o livro “Deep Ancestors – Practicing the Religion of Proto-Indo-Europeans”, de Ceisiwr Serith.
Eu concordo com o autor quando ele afirma que, ao se estabelecer nossa herança ancestral religiosa, estamos falando em cultura, não em etnia e muito menos em raça. Isto posto, eu comparo o livro de Serith com os livros de Dumezil [Archaic Roman Religion] e comparo os elementos da religião ancestral com a Wica Tradicional. Deve se ressaltar que esta resenha não tem a intenção de questionar ou duvidar da veracidade e autenticidade da Wica Tradicional.
Serith e Dumezil concordam com o aspecto fundamental de que falamos de religiões extremamente politeístas. Os atributos dos Deuses nessas religiões são concordantes quanto às características notavelmente ligadas a uma função. Por outro lado, os atributos das Deusas estão mais ligados ao “ser”, fato ou circunstância, identificados com uma determinada Deusa.
Na Wica Tradicional, embora seus praticantes sejam, por definição, politeístas, há o foco no Casal Divino, um Deus e uma Deusa, tornando o culto a outros Deuses algo acessório e particular. De certa forma, a Wica Tradicional assemelha-se a uma forma de henoteísmo.
Serit e Dumezil concordam com o aspecto da forma e do sacerdócio dessas religiões serem primordialmente patriarcais, onde a mulher exerce um papel secundário e, na ocasião do casamento, esta ter que adotar a religião da família de seu marido. Mesmo cultos marcantemente femininos, como o de Vesta, podem ser compreendidos facilmente ao se levar em conta que o lar era fundado em volta do fogo doméstico, função e atributo feminino.
Na Wica Tradicional há uma inclinação para o sacerdócio feminino e transmissão matrilinear. A divisão das funções não está condicionada ao gênero, mas há um foco maior na figura da Alta Sacerdotisa.
Serith e Dumezil concordam com a enorme importância dada em ambas as religiões quanto ao culto aos ancestrais. Padrões similares podem ser percebidos no trato e uso do fogo nos rituais, bem como na preocupação de um momento pré-rito onde ocorrem as purificações.
Na Wica Tradicional, excetuando o sabat de Samhain, não há um culto contínuo [diário, semanal ou mensal] aos ancestrais. Há apenas um local para o fogo, mas não um culto ao fogo. Há a presença de rituais de purificação, mas dentro da liturgia.
Serith e Dumezil concordam quanto à divisão social em três funções básicas, a primeira é os nobres, a segunda é os sacerdotes e a terceira é os servos. Esta divisão social é um reflexo das concepções cosmológica e teológica próprias dessas religiões.
Na Wica Tradicional há uma divisão hierárquica em três graus e uma separação entre iniciados e neófitos.
Serith e Dumezil concordam com a enorme importância dada em ambas as religiões quanto à prática correta do sacrifício, o que significava o uso de animais e, em casos mais extremos, seres humanos.
Na Wica Tradicional, como em todas as formas de Paganismo Moderno, tornou-se perigoso e arriscado falar no uso de animais para sacrifícios. Usa-se com mais frequência substitutos, como oferendas de primícias e artesanato.
Serith e Dumezil concordam quanto às épocas quando ocorriam os rituais, ligados às estações do ano [limitadas a três], ao plantio de itens agrícolas, bem como à criação de gado.
Na Wica Tradicional existem oito sabás, ligados ao ciclo solar e treze esbás, ligados ao ciclo lunar. São usados nomes de duvidosa origem celta, ligados às estações do ano, solstícios, equinócios, vesperais, mas as características estão mais ligadas ao plantio de itens agrícolas e menos à criação de gado.
Serith e Dumezil concordam quanto à característica desses povos antigos, como povos em transição, não sendo exclusivamente nômades, pastoris ou agrícolas. Por estas características, tornou-se mais constante o culto aos Deuses e poucas são as Deusas conhecidas. Seja pela expansão ou migração, estes povos assimilaram e adaptaram as crenças, ritos e Deuses dos muitos povos que encontraram e interagiram.
Na Wica Tradicional, além do Deus e da Deusa, existe culto a Deuses específicos, conforme a tradição, não havendo mistura de panteões ou uso de panteões de origem diversa.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O "home da maça"

Em Fevereiro de todos os anos a cena repete-se. A pretexto das festividades católicas a S. Brás milhares de romeiros deslocam-se a um monte de Santa Cruz do Bispo para, entre festejos pagãos, pedirem a ajuda do “Homem da Maça” na busca do parceiro/a que lhes vem escapando. Para isso oferecem flores ao “santo” e despejam-lhe vinho na cabeça...
Há muito tempo – tanto que já não se sabe muito bem há quanto – um tenebroso leão assolava aquela que é hoje a freguesia de Santa Cruz do Bispo. Responsável por uma longa série de mortes, a fera mergulhara a população num profundo temor, tanto mais que demonstrava possuir grandes dotes de agilidade, força e inteligência. Com efeito, culpado pela morte de musculosos jovens, o leão soubera também escapar a todas as batidas que haviam sido organizadas para o capturar.
Mas a sua sorte (ou azar) estava traçada. E certo dia, quando um jovem agricultor regressava a casa depois de, nas margens do Leça, ter estado a maçar o linho, o temível leão surgiu-lhe ao caminho. Rapidamente envolvido numa luta que se revelaria mortal para ambos, o jovem, invocando o auxílio de um santo (S. Brás?), e como que imitando a bíblica figura de Sansão, consegue despedaçar a cabeça do leão, socorrendo-se para tal da maça – o pesado bastão de madeira que utilizara pouco antes, no trabalho do linho.
Profundamente agradecido pela façanha do mártir, o povo do local decide erigir uma estátua em pedra representando a fera e o herói que a subjugara, empunhando este numa das suas mãos a imprescindível e famosa maça que lhe deu a notoriedade e o imortalizou.
É esta, em traços gerais, a lenda do “Homem da Maça” que explica o aparecimento no alto do Monte S. Brás, na matosinhense freguesia de Santa Cruz do Bispo, de uma enigmática estátua granítica de um guerreiro decepado, associado à representação de um animal onde, só com muita boa vontade, conseguiremos descortinar um feroz leão.
(...)
Mas o “Homem da Maça” nem sempre esteve no topo do Monte S. Brás. Embora se desconheça a sua origem e a atribuição cronológica seja igualmente polémica (a maior parte dos estudiosos divide-se entre datá-la do período romano ou do renascimento), se nos socorrermos dos registos mais antigos que possuímos com referências à estátua (todos já do século XIX), facilmente nos apercebemos que esta permaneceu a maior parte do seu tempo na base da elevação, entre as capelas de S. Brás e Nª Sª do Livramento e a de S. Sebastião. (...) Em 1935, por fim, é colocado no ponto mais alto do Monte. Tratou-se, no entanto, de um verdadeiro “chuto para cima”. Com efeito a sua elevada e aparente nobre localização, desde a qual se desfruta de ampla panorâmica, mais do que uma valorização da estátua terá sido uma tentativa, por parte das autoridades eclesiásticas, de a “esconder” ou, no mínimo, de evitar a sacrílega convivência e concorrência que esta “imagem” possuía com a capela de S. Brás. De resto, ainda hoje muita gente confunde o “Homem da Maça” com o santo, designando o primeiro como S. Brás.
Na base da confusão (ou será pretexto?) entre o sagrado e o profano, ou seja, entre S. Brás e o “Homem da Maça”, está a crença nas virtudes mágicas e casamenteiras desta estátua em pedra. O que, aliás, não é nenhuma novidade. A veneração idolátrica de pedras –geralmente devida a características que lhes são atribuídas como propiciatórias de fecundidade e amor – é ainda muito comum no nosso país, embora geralmente ande associada a menires e outros monumentos pré-históricos. De resto, há autores que defendem a possibilidade da representação do musculoso e hercúleo “Homem da Maça” resultar de uma antropomorfização pétrea de um remoto e pagão culto litolátrico pré-existente no local. Mas, afinal, como funcionam as propriedades casamenteiras do nosso “Homem da Maça”?
Embora ao longo do ano se multipliquem as velas acesas junto às pernas do “santo”, é, segundo a tradição, no dia da Festa ao S. Brás, no início de Fevereiro, que o “casamenteiro” se encontra mais receptivo aos pedidos dos seus “devotos”. Para isso estes têm, contudo, que – num verdadeiro ritual pagão e panteísta – lhe deixar curiosas oferendas. As raparigas e mulheres desejosas de noivos devem abraçar a estátua e adorná-la com colares de flores (o que nem é difícil nas últimas décadas, uma vez que o monte foi invadido pelas mimosas que, exactamente nesta época do ano, o cobrem de flores amarelas). Quantos aos homens, o ritual exige que se despeje vinho (embora recentemente a cerveja se venha impondo) sobre a cabeça do “santo”. Depois... Bom, é esperar até à festa do ano seguinte. E, se nada acontecer, o “Homem da Maça” lá estará uma vez mais para atender o pedido ou – facto igualmente curioso deste “santo casamenteiro” – para sofrer as consequências de não ter respondido às solicitações. É que o “Homem da Maça” permite que, como represália, pelo não cumprimento da sua parte, o (ex) devoto lhe parta sobre a cabeça a malga que, um ano antes, lhe havia vertido o vinho.
(...)

(...)
A estátua em granito está enterrada até aos joelhos, atinge a altura de uma pessoa, falta-lhe os dois antebraços, mostra mutilações nos olhos, nariz e boca, e ao lado, no seu sopé, encontra-se uma figura indefinida do mesmo granito, representando algum animal.
Para uns é a figura de um antigo guerreiro (lusitano?) a julgar pela vestidura, cinturão, joelheiras e presumível couraça. Junto teria a estátua de um leão ou qualquer outro animal feroz. Nesta hipótese teria a clava na mão, se não estivesse mutilado. Está também desprovido dos membros inferiores e encontra-se implantado até ao meio da coxa sobre uma pedra de superfície plana. Seria, pois, um antigo guerreiro de barba e cabelo engrenhados, isto é, uma estátua representando uma personagem bárbara e togada - arte principal do séc. I.
Para outros, a referida estátua é uma figura artesã e não mostra sinais de obra de arte culta. Seria trabalho que mãos habilidosas criaram, num misto de obra de arte culta. Seria trabalho que mãos habilidosas criaram, num misto de religião e paganismo. A opinião (do Dr. Bertino Daciano) faz deste achado um arranjo escultórico quinhentista que decoraria a Quinta do Bispo.
A hipótese que parece ser mais estruturada é a que situa a famosa estátua entre os vestígios arqueológicos romanos existentes, outrora, na zona. Será, com efeito, um exemplar da estátua de Hércules ou seu filho - Amato, divindade mitológica grega que os romanos propagam nas sua colonizações da Península.
Na mitologia e no mundo romano o culto de Hércules representava uma epopeia como evocação de um homem que ganhou o seu lugar no Olimpo, a premiar uma vida intensa de amores que terminou com uma morte trágica. Hércules, deus guerreiro, está associado ao culto de Vénus, expressão da força e do amor, com grande expansão no mundo ocidental. O relacionamento do "Homem da Maça", como estátua de culto mitológico nas povoações romanas não só é viável mas, inclusivamente, alumia de um modo científico a origem do próprio nome de Matosinhos.

O "HOMEM DA MAÇA" E A ORIGEM DO TOPÓNIMO MATOSINHOS
Na mitologia, com efeito, Hércules tinha o filho Amato, que prolongava, na colonização, a irradicação mitológica da divindade. Daí que seja viável que os romanos ou primeiros latinos que aqui chegaram tenham chamado ao porto de Leça, no sopé do Monte Castelo, o Porto de Amato, ou seja, no original latino, AMATUS SINUS, AMITI SINUS, AMATUSIAE ( sinus quer dizer porto), fórmulas que a semântica transformaria em MATOSINHOS.
Esta explicação para o topónimo Matosinhos é tão ingénua como a tradicional que fazia derivar o nome diminutivo de matos (Matos + inhos, vendo analogia entre Mato e Bouças), ou do "Matizadinhos" das conchas da praia, com que Caio Pallantia = Maia se cobriu nas festas do seu noivado, na ocasião em que ao largo ia passando um navio com os restos mortais de S. Tiago.
(...)
De facto, os testemunhos, mesmo orais, mais antigos, convergem todos para a tipicidade da romaria de S. Brás não apenas no seu aspecto propriamente religioso, mas também pitoresco e folclórico. As tradicionais romarias de S. Brás, que se realizam em 2 e 3 de Fevereiro, eram e ainda continuam a ser muito concorridas. As pessoas num vai e vem ritual passeiam, pelo Monte de S. Brás. De manhã são as cerimónias religiosas, de tarde é o povo anónimo, que, desde Matosinhos e freguesias limítrofes, acorre ao arraial.(...)
Nas romarias, as raparigas abraçavam-se ao pescoço do "Homem da Maça", colocavam-lhe flores e muito em segredo pediam um rápido casamento. Homens e casais, em orgias de vinho e de risadas, tocavam o mesmo talismã, desejosos de possuírem filhos varões.(...)
Publicvado pelo Caturo [Gládio]

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A natureza do sacrifício

Quando as pessoas modernas usam a palavra 'sacrifício' atualmente, eles costumam dizer algo negativo e desconfortável , como quando nos referimos do 'sacrifício' ao falar sobre as mortes de nossos soldados na guerra. Mas a palavra tinha um significado bem diferente na vida religiosa dos antigos.
A palavra 'sacrifício' vem de duas raízes latinas, sacer, que significa 'sagrado', e facere, que significa 'fazer'. Então sacrifício significaria, 'para tornar sagrado' neste contexto.
A palavra 'sagrado' provavelmente vem da palavra proto-indo-europeu ‘sacros’, que significa 'santo' (a palavra é uma recriação). Cognatos para esta palavra também incluem o latino ‘sacerdos’ [padre] e a palavra ‘saker’ [feliz]. Também pode haver uma conexão distante com a palavra hitita ‘saklai ' [rito, costume], que é intrigante se considerarmos que alguns pensam que 'sagrado' também pode vir da palavra ‘sek’ [cortar], que, no sentido ritual, pode significar  'cortado do mundo’. Assim, um rito em que algo foi feito sagrado poderia ser aquele em que algo foi separado da realidade mundana. Outra palavra interessante relacionado com o sagrado, ‘consagrar‘, significa ‘declarar ou separado como sagrado'. A raiz para ‘consagrar’ teria sido ‘weik’, ​​e esta tem alguns cognatos bem interessantes, como a [palavra] vitima e até mesmo a moderna palavra 'bruxa'. O cognato sânscrito, ‘vinákti’ , significa ‘separar'. Tudo isso sugere que uma boa definição para a palavra "sacrifício" pode ser " fazer algo separado da realidade comum. '
Então, por que a palavra sacrifício veio a ter um significado tão negativo? A resposta pode estar na retomada cristã da palavra baseada na crucificação de Cristo . Este sacrifício na cruz resumiu todos os sacrifícios do Antigo Testamento, e foi visto como o último sacrifício necessário, uma vez que criou uma nova relação do homem com o vingativo e irado Deus do Judaísmo. Então sacrifício passou a significar desistir da própria vida , ou , pelo menos , "dar até doer " . O conceito de ' desistir ' aqui ao invés do antigo conceito religioso de "dar" é importante e será abordado mais adiante neste ensaio .
Sacrifício como um ato religioso no Paganismo parece ter ocorrido em quatro contextos antigos , bem como no  moderno. Eles são :
1. Manter a ordem cósmica
2. Prestação de Serviços Através de Presentes
3. Fornecer Proteção
4. Comensalidade (Comunidade)
5.  Mitigando a Ordem com o Chaos (a idéia moderna)

1 . Manter a ordem cósmica
Existem muitos mitos sobre a criação do cosmos no antigo mundo Indo-Europeu, mas alguns deles compartilham semelhanças notáveis. Em geral, um ser primordial é morto ou desmembrado e dos pedaços de seu corpo o universo é feito. Às vezes, porém nem sempre, os personagens centrais são 'Man' (Manu ) e seu 'gêmeo' (Yemo), que é muitas vezes referido como um rei, e às vezes são acompanhados por um boi. Juntos, eles decidem criar o universo. O "Man" seria um sacerdote, e ele faz um sacrifício dos outros dois, a fim de realizar seu objetivo. Este pode ser o mito de criação primordial.
Os romanos também tinham alguns temas similares em sua própria sabedoria. Deve ser lembrado que a mitologia Indo Européia em Roma era mias cívica do que religiosa, linhas, onde os temas míticos iriam atuar nas 'histórias' da fundação de Roma, a era monárquica e até mesmo no início da República.
Dois mitos sobre a fundação da cidade ( os ' cosmos ' de Roma ) refletem esses temas - um do assassinato de Twin e outra de desmembramento. Em um conto , os gêmeos Rômulo e Remo foram colocar para fora dos muros da cidade. Rômulo estava arando um sulco para marcar as paredes, enquanto Remus, que tinha acabado de perder o direito de nomear a nova cidade, insultou seu irmão por saltar sobre o 'muro' arado. Na raiva , Rômulo matou seu irmão. O nome sagrado de Rômulo, Quirino, (Co -vir - inos) vem da palavra ‘Man', e o nome 'Remus' é aparentado (com deformação consonantal inicial) da palavra 'yem' ou 'gêmeo'.
Estas transformações do microcosmo (Twin) ao macrocosmo (criação de cosmos) também ocorrem durante o sacrifício. Sacerdotes Indo europeus alegaram estar fazendo a mesma coisa, embora talvez em menor escala, aonde cada sacrifício seria distribuído ao cosmos. Sem a matéria derivada destas ofertas, o cosmos e o mundo material se tornaria exausto e empobrecido.
Mas o sacrifício é uma via de mão dupla. Não só oferecemos para sustentar o cosmos, mas também podemos usar o sacrifício para transferir o poder do universo em nossos próprios corpos. Alimentos (através da "refeição partilhada" tomada após sacrifício) e cura são os dois principais exemplos disso.
O sacrifício é realizado para alimentar os cosmos, bem como o inverso, para regenerar a vida. O animal sacrificado dá comida para a família, promover a vida de outra forma. E, como as videiras podadas dão crescimento a um ramo novo e mais forte, assim também o grão colhido, enterrado no chão como sementes, dão um novo grão . É tudo um ciclo contínuo (ou círculo, se preferir) de vida e morte.

2 . Prestação de serviços através de presentes
O sacrifício é sobre ‘dar a’ e não ' desistir '. E uma boa motivação para dar poderia ser a formação de relacionamentos onde os presentes podem ser recebidos em troca. Esta idéia é bem resumida na frase em latim , do ut des, ' eu dou para que você possa dar ‘.

Ghosti
O termo Ghosti, é uma palavra de raiz proto-indo-europeu recriada o que significa: 'Alguém com quem se tem deveres recíprocos de hospitalidade' . Cognatos desta palavra incluem em inglês 'guest' e 'host' , bem como a palavra latina ‘hostis’ [inimigo], o que só mostra que os estranhos poderiam se tornar amigos ou inimigos.
Hospitalidade, bem como as obrigações que lhe digam respeito (dos dois lados) eram extremamente importantes. No conto da Guerra de Tróia , Zeus resolve destruir a cidade porque Paris violou as leis da hospitalidade quando ele sequestrou Helena para longe de Esparta , enquanto permanecia como convidado sob a hospitalidade de seu marido, Menelau.
Relações baseadas na troca mútua foram semelhantes aos relacionamentos 'parentais', mas atravessou as fronteiras entre as famílias e foram geralmente acompanhadas do ritual de dar presentes. Isso criaria uma obrigação de hospitalidade mútua e amizade que poderia continuar para sempre.
Um famoso exemplo deste tipo de relacionamento contínuo através das gerações é a de Glauco e Diomedes na Guerra de Tróia. Embora em lados opostos da batalha, eles descobriram que o avô de Glaucus, Belerofonte, tinha sido um convidado do avô de Diomedes, Eneus, anos antes. Eles saltaram de seus carros, agarraram nas mãos um do outro, e empenhada amizade.
Desde a época de Hesíodo, foi dito que o valor absoluto de um presente para os Deuses não era o que importava , mas sim que cada um deve fazer o sacrifício de acordo com seus meios. Em outras palavras, aqueles que têm mais devem dar mais.
Os gregos levaram esta a um extremo em seu rito chamado de hecatombe . Este rito foi um ato mágico de multiplicação. Os gregos iria oferecer um boi na expectativa de receber 100 bois dos deuses em troca!
Mas a idéia de 'quem tem mais deve dar mais' funciona bem na relação patrono-cliente que apareceu em muitas partes da esfera indo-européia.

Patrono - Cliente
Nesta forma de reciprocidade, chamado clientela, o patrono e o cliente têm responsabilidades mútuas em relação uns aos outros que formam a base do relacionamento. O patrono , o mais rico e mais poderoso dos dois, fornece suprimentos, dinheiro ou outras necessidades e o cliente, em troca, realiza tarefas ou presta apoio político. Em Roma, o patrono pode fornecer uma renda estável e, em troca , o cliente iria fazer serviços ou votar como lhe é dito .
Na antiga sociedade celta, a clientela foi fundamental e o status de patrono dependeria do número de clientes que ele tinha. Uma vez que esta relação abraçou obrigações sociais, militares, políticas e econômicas, foi em grande parte a base do poder da nobreza. O patrono supriria seus clientes com suporte legal, proteção política, a possibilidade de partilhar os despojos de guerra, e até mesmo um lugar cheio com as ferramentas necessárias de agricultura. Em troca, o cliente iria pagar uma renda anual de alimentos, fornecimento de mão de obra, dar apoio político e lutar no exército do patrono ou, pelo menos sob o seu comando. Um patrono que foi mesquinho em cumprir sua parte do acordo pode não durar muito tempo.
Outro exemplo, desta vez vindo de Roma, mostra claramente a importância de manter a relação recíproca. Havia um antigo ritual público denominado Evocatio (evocação), que envolvia atrair os deuses de uma cidade inimiga assediada pelos romanos em abandonar aquela cidade e se juntar ao acampamento romano. Os romanos prometem criar uma residência e de culto para deuses dos inimigos entre os romanos. Mas parte do ritual envolvido convidando os Deuses instilava o medo, terror e esquecimento nas pessoas inimigas. Se o inimigo se esquecesse de fazer seus sacrifícios a seus deuses, os laços de reciprocidade seriam quebrados . Assim, os deuses, retirados da cidade, continuarão a deter uma honra por causa do esquecimento do povo.

A expectativa do Paraíso
O Paraíso na Índia védica era a recompensa daqueles que fizeram penitência rigorosa, ou heróis que arriscam suas vidas no campo de batalha (que ressoa com as idéias nórdicas do Valhalla), mas acima de tudo, para aqueles que dão presentes sacrificiais liberalmente.

O presente é parte do indivíduo
O sacrificador é a pessoa que realmente executa o sacrifício, enquanto o sacrificante é a pessoa que vai receber o benefício do sacrifício. Na cultura védica um chefe de família e sua esposa iria pagar os sacerdotes para realizar um sacrifício, com a intenção de que as bênçãos viriam para o agregado familiar. Da mesma forma, nas cidades do Mediterrâneo, os sacrificadores seria sacerdotes profissionais, e os sacrificantes seriam as pessoas (ou o Estado). Nos casos em que uma pessoa estaria realizando o seu próprio sacrifício, seriam tanto sacrificador e sacrificante.
Sacrificadores podem ser sacerdotes, sacrificando em nome de clientes ou as pessoas, membros seniores da família (como o paterfamilias romano) sacrificar para a família, ou ele mesmo o suplicante. As pessoas costumam fazer sacrifícios em tempos de crise pessoal ou de grupo, ou periodicamente, em momentos especiais sazonais, ou pelo conselho de videntes ou adivinhos. E o que as pessoas geralmente estão fazendo no sacrifício é realizar um ato de propiciação, que é feito para fazer com que as divindades a ser em favoráveis, para induzir ou recuperar a sua boa vontade, ou para apaziguar ou conciliá-los.
Ao dar , uma pessoa dá uma parte de si mesmo. O melhor presente que uma pessoa pode dar aos deuses seria realmente a sua própria vida, mas um sacrifício de si mesmo é raro.

Substituição
Os antigos vieram com uma solução prática para este problema através do conceito de substituição. No mundo antigo, o substituto habitual e mais ideal para o sacrificante seria um animal doméstico, como um boi, cabra, ovelha, etc, para ser morto em seu lugar. Outros itens também foram aceitáveis ​, como objetos preciosos, os primeiros frutos da colheita, etc, mas os animais foram preferidos. A razão para o uso de animais domésticos é que eles foram identificados com a casa, as pessoas que viviam lá e, portanto, com o próprio homem, em oposição à natureza ou o selvagem.
Os substitutos mais próximos para a sacrificante seria uma outra pessoa, um animal doméstico, as plantas cultivadas ou de seus produtos (como o vinho) e objetos preciosos .

Sacrifício Humano
Isso traz a questão do sacrifício humano. O substituto mais próximo para um ser humano seria um outro ser humano. E a escolha da vítima seria importante. Terá que ser alguém separar da comunidade (criminosos, estranhos , estrangeiros, escravos), mas não muito separado, ou a substituição pode não ser o suficiente da igualdade para agir como um substituto para os sacrificantes. Muitas vezes, estes sacrifícios seria com a finalidade de evitar o mal , como no ' extraordinário ' (palavra de Plutarco) sacrifício romano de um par de gregos e um par de gauleses (um homem e uma mulher em cada par), em 228 ​​aC, para evitar a ameaça de uma invasão gaulesa.
Mas o sacrifício humano era raro no curso geral das coisas, e geralmente visto como uma oferenda para proteção em tempos de ameaça ou para fins de execução judicial, onde um criminoso seria 'cortado' da sociedade. Na verdade, pode ser difícil de determinar se as sepulturas que foram encontradas pelos arqueólogos eram sacrifícios ou execuções ou ambos.

Sacrifício sem matar
Como afirmado anteriormente, a matança de animais era uma forma preferida de sacrifício. Além do fato de que os animais domésticos eram bons substitutos para o sacrificante, eles também eram uma boa forma de proteína animal para os povos antigos. De fato, na Grécia, a única carne que foi comido era carne sacrificial. Afinal, a morte é necessário para uma refeição carnívora.
Mas desde a morte é algo que é final e irrevogável, implica também uma mudança de status. A morte faz com que algo não ser mais de uso humano . Depois que ele se foi, ele se foi.
Assim, as armas poderiam ser "mortas" e oferecidas, e objetos preciosos poderiam ser enterrados ou jogados em corpos de água, e, portanto, sair do humano. A força necessária para tirar ou dobrar um objeto bronze implicaria violência semelhante à matança de animais.

Primícias , libações e oferendas votivas
O sacrifício das primícias (ou primeiros frutos) refere-se à idéia de que a primeira parte de qualquer colheita deve ser reservado para os deuses. Na Grécia antiga, sempre que uma jarra de vinho foi aberto para beber, o primeiro copo de vinho seria derramado no chão, como uma libação.
Libações foram o mais comum dos atos sagrados realizados no mundo antigo, particularmente na Idade do Bronze. No pensamento grego, ele estava em oposição à morte do sacrifício animal. Enquanto o sacrifício queimado sobre o altar, a libação seria derramado em torno dele  uma espécie de fim das hostilidades, por assim dizer . Libações derramadas no chão eram geralmente destinados para os mortos ou deuses ctônicos e libações seriam feitas em valas construídas em túmulos para os mortos (porque os mortos estavam sempre com sede). E não é só os mortos que bebem, mas a terra também. Libações também foram derramados em pedras para marcar orientações espaciais significativas, como em uma encruzilhada.
A oferenda é uma oferta feita , em conseqüência de um voto. Costuma-se configurado como uma fórmula 'se - então', como : 'se , poderosos deuses , meus campos produzir mais grãos do que no ano passado , então eu vou sacrificar um alqueire extra para você'! O voto vem em primeiro lugar e, se ocorrer o resultado desejado, então o sacrifício é feito. Muitas vezes, os votos seriam aumentar as ofertas dos primeiros frutos, relacionando-os com a oferenda de uma cadeia contínua de sacrifício.
Os tipos de ofertas geralmente prometidos na Grécia antiga seriam sacrifícios simples, vestes custosas ou outros itens, um presente de um escravo para um santuário, um voto de serviço para um santuário, e até mesmo a construção de novos santuários ou santuários, embora geralmente um sinal divino seria necessário para isso.

3 . Ofertas apotropaicas de proteção
Uma oferta apotropaica é aquele que tem o poder de evitar uma má influência ou má sorte e é uma salvaguarda contra o mal. Esta poderia ser uma oferta do tipo 'tome este sacrifício e vá, por favor'.
Execuções poderiam ser consideradas apotropaicas, pois estão removendo o criminoso da sociedade, para protegê-la de mais mal. Ainda hoje isto é cercado por um ritual que acontece antes do evento, o local das testemunhas, a forma de matar, etc.
Oferendas aos deuses para evitar a morte e a guerra, ou doença, ou qualquer outro mal seriam consideradas um sacrifício apotropaico. Na Grécia e em Roma, oferendas aos mortos poderiam ser considerado apotropaicas também.

Poluição
A remoção de um poder perigoso só poderia ser realizada por meio de expiação, que é o ato de fazer as pazes ou reparação por má conduta ou culpa. Em Roma e na Grécia, isso poderia ser feito em uma variedade de maneiras, inclusive através do sacrifício .
Um sacrifício piacular (do latino piaculum) poderia ser qualquer sacrifício oferecido em expiação por qualquer atitude errada, de crimes mais leves tais como realização de um ritual de forma incorreta até um sacrilégio.
Na Grécia, a purificação foi um processo social. Para pertencer ao grupo demanda pureza, enquanto que ser um réprobo, um rebelde ou um estranho era ser imundo. Assim ritos de purificação estavam envolvidos com atos de limpeza e para comemorar a remoção de sujeira (física e espiritual), e os ritos elevavam as pessoas a um estado mais elevado, de um estado de desconforto genuíno a um de pureza.
Em Roma, a pureza foi conectada à piedade. Pureza era um estado corporal não diretamente relacionado com as intenções ou moralidade. Associações com o luto, a morte ou morto pode levar a um estado impuro o que exigiria ritos de purificação que variam de abluções simples (lavagem) para os períodos de resguardo. Da mesma forma, a lavagem das mãos antes de um rito seria obrigatório. Mas impiedade poderia abranger mais do que apenas a pureza. O crime de ofender uma divindade poderia ser expiado se o crime fosse intencional, mas um delito intencional não poderia ser purificado.
Purificação através da água foi o principal método no mundo greco-romano, como limpar, removendo a sujeira, mas também foi usado fumigação através de incensamento, pois poderia remover o mau cheiro e era uma forma primitiva de desinfeção .
Na Grécia, qualquer coisa que colocava a vida cotidiana fora dos eixos era necessário purificação. Isto incluía a atividade sexual, mas outros eventos eram muito mais graves. O contato com a morte exigiria sinais extravagantes de luto , como o arrancamento de cabelos e roupas, por um determinado período de tempo, terminando com a família se purificando, derramando água sobre a cabeça , limpando a casa e fazendo um sacrifício especial na lareira . Doenças, especialmente causadas ​​por pragas, eram ocasiões para o sacrifício e purificação de ritos , e a purificação de um assassinato requeria purificação com sangue.

Bode expiatório
A palavra ' bode expiatório ', na verdade, vem do Antigo Testamento referindo-se a um bode real que foi usado para purificar o povo do pecado. Mas um conceito semelhante existiu no mundo indo-europeu.
Na Grécia, o pharmakos é um homem escolhido por conta de sua feiúra e é comemorado com figos, caldo de cevada e queijo, e, em seguida, ele é chicoteado com ramos de figueira e cebolas do mar, e muito importante, ele é atingido sete vezes em seu pêni. A idéia é que um animal ou pessoa é usado para carregar para longe a poluição da cidade ou grupo, o que purifica todos os outros.
Uma coisa que parece ser necessário é o bode expiatório ser trazido primeiramente em contato íntimo com a comunidade ou cidade, para que ele possa absorver, por assim dizer, a poluição. Depois que ele é expulso, só a pureza permanece.
Bois e belas donzelas também poderia ser bodes expiatórios aos quais os homens eram mais propensos. E na Grécia, o bode expiatório não precisa ser necessariamente morto, e adolescentes escolhidos para esta função podem até ter passado por ritos para serem reincorporados de volta para a comunidade.
Um famoso exemplo da morte do bode expiatório é da cidade grega de Massalia, no sul da Gália. Lá, um cidadão pobre se ofereceu em nome da cidade. Durante um ano, o povo de Massalia o festejou e o mimou, e , em seguida, no final do ano, eles o vestiram com um manto e coroa de folhas sagrados, levou-o pela cidade com as pessoas xingando-o por todo o caminho , e depois o matou.

Sacrifício de juramento helênico
O sacrifício de juramento helênico poderia ser visto como o inverso de um rito apotropaico, em que o terror e a destruição são usados ​​para ligar um juramento, dando-lhe a maior importância. Aqui, após o sacrifício, quem faz o juramento mergulha suas mãos em um balde de sangue do animal e depois pisa sobre os órgãos genitais cortados do animal, combinando derramamento de sangue com castração. E atos de auto xingamento seguiam para realmente ligar a ação, pedindo a destruição total daquele que quebrar o juramento e de sua linhagem.

4 . Comensalidade - A refeição compartilhada
A parte comum do processo sacrificial no mundo antigo era cozinhar e comer da carne do animal sacrificado. Na Grécia, apenas carne obtida através do sacrifício poderia ser comido - não tinham açougues nas esquinas . Estes ritos de sacrifício eram a ocasião de grande festa e alegria. A partilha de alimentos simbolizava e reforçada a unidade do povo na celebração. Permitia também a comunhão com os deuses invocados.
Geralmente, na Grécia, apenas a pele, os ossos e gordura eram dadas aos deuses, enquanto o restante era reservado para o povo. Festejar era extremamente importante em qualquer festival, e continua a ser assim hoje.
E na relação patrono-cliente, o cliente fornece alimentos para o patrono em troca de proteção, parte dos despojos, etc. A partilha de alimentos com os deuses na refeição compartilhada também reflete essa barganha humana, dando ao homem o direito fazer exigências sobre os Deuses .

5 . Chaos mitigando Cosmos (Moderno)
Finalmente, chegamos à forma moderna de sacrifício que aparece na prática atual. Se cosmos é igual a ordem e o caos é igual a falta de ordem, então existe uma área entre os dois, uma espécie de liminar onde a ordem e o caos estão em equilíbrio. Embora muito caos faz com que tudo desmorone, muita ordem pode causar fragilidade. Ceisiwr Serith introduziu a idéia de que o caos pode alimentar cosmos em 2000.
Imagine um pinheiro em um furacão. A falta de flexibilidade da árvore fará com que a árvore quebre na tempestade. Mas uma palmeira flexível irá dobrar com o vento, suas folhas se dobrarão para se proteger contra o vento, e depois que a tempestade passou, a palmeira geralmente volta ao lugar, como se nada tivesse acontecido.
Em algumas partes do mundo antigo , os rituais tinham de ser executados absolutamente corretos ou os deuses ficariam ofendidos. Em Roma, se houvesse algum erro ou omissão cometido em um ritual , os pontífices primeiro teria que realizar um ritual de expiação (piaculum) conciliar a Deus ofendido, e depois repita o rito mal executada mais uma vez. Espontaneidade era desaprovada.
Nos tempos modernos, no entanto, alguma espontaneidade é valorizada porque muita previsibilidade e ordem pode ser visto como chato. Orações espontâneas e ofertas de louvor podem ser vistas como adições positivas para qualquer rito. Aqui, a mitigação do cosmos (ordem) com um pouco de caos (desordem) pode ser uma coisa boa. Não importa o quão cuidadosamente organizada uma seção de Oferta de Louvor de um rito moderno pode ser, há sempre o elemento de incerteza quando as pessoas têm a chance de louvar, cantar, dançar ou fazer seja o que for que eles elegeram para fazer como um sacrifício para os deuses. Este pouco de caos atenua a ordem normal de qualquer rito, dando-lhe vida.

Sacrifício para pagãos modernos
Vamos convir, a matança de animais simplesmente não é aceitável para a maioria das pessoas em um ritual público, e matar de pessoas é garantia de muitos problemas .
Mas precisamos ter algo a dar para os parentes, de modo que eles possam dar de volta para nós em troca, e aqui a substituição vem para ajudar. Itens feitos pelos sacrificantes ou valores pertencentes a eles fazem sacrifícios maravilhosos, para serem jogados no poço (para eliminação posterior) ou serem pendurados em uma árvore .
Alimentos e bebidas foram muitas vezes oferecidos aos Poderes no mundo antigo, e nós podemos fazer o mesmo hoje. Itens que os antigos usavam incluem o óleo e a manteiga oferecido ao fogo, o vinho para o altar de fogo (mas lembre-se que o vinho e a cerveja não queimam e irá apagar o seu fogo se colocado diretamente sobre as chamas), e outros alimentos podem ser oferecido ao fogo também. Lembre-se que libações não inflamáveis ​​são melhores quando derramadas diretamente no chão.
Armas como espadas podem ser 'mortas' ao serem quebradas ou dobradas, ou podem simplesmente ser oferecidas por inteiro ao poço ou vala ou enterrada no solo. Da mesma forma os itens feitos à mão podem ser quebrado ou enterrados ou de outra forma dada aos parentes.
E, finalmente, a refeição compartilhada é uma maneira maravilhosa de se juntar com os outros e as Famílias, em um ato de unidade. Parte de um pedaço de pão ou outros alimentos podem ser oferecidos para os Espíritos, e o resto comido pelo povo.

CONCLUSÃO
O sacrifício era uma parte integral da religião, adoração e espiritualidade no mundo antigo, sem a qual não teria havido nenhuma religião pública. O conceito de reciprocidade nos possibilita dar e receber as bênçãos de que necessitamos para os nossos corações e espíritos, dando-nos um roteiro para o nossa vida física, bem como a espiritual. E mesmo que não sejamos esses povos antigos, essas idéias simples podem trabalhar para nós, hoje, aproximando-nos dos deuses e outros espíritos, para que possamos conhecê-los, e eles, a nós.
Fonte: ADF