segunda-feira, 31 de março de 2014

Admirável Mundo Velho

A Imprensa Abutre está de volta, com tudo. Foi necessário que um avião desaparecesse na Malasia para que aparecessem reportagens ridicularizando as crenças locais. Nenhum site de notícias falou o que é bomoh, nenhum falou da função do xamãn, nenhum falou das crenças da Malasia. Se tivesse sido uma missa de um padre/pastor pelas vítimas do avião e algum ateu fizesse um artigo ridicularizando a missa, não faltaria espaço na Mídia para cristãos expressarem o quanto se sentem ultrajados e ofendidos. Na sequência, surgem notícias sobre rituais na Indonésia, mostrando uma foto que pode impressionar um ocidental provinciano, citando em poucas palavras o nome da festividade e mais nada.
E dá-lhe procurar no oráculo virtual algum artigo que preste para falar um pouco da rica cultura da Malásia e da Indonésia, países aonde ainda se preserva religiões nativas e há convivência com o budismo, o islamismo e o cristianismo. Um exemplo a nós, ocidentais.
Infelizmente a maioria das informações estão em inglês.
Mas isto eu vou deixar para depois. O assunto agora é a reedição (remix) da "Marcha da Familia com Deus Pela Liberdade" e a pesquisa do IPEA mostrando que, na opinião dos brasileiros, a "culpa" da violência [física e sexual] contra a mulher é dela mesma, com um inúmero desfile de jargões machistas, preconceituosos, intolerantes e patriarcais. Como se isso não fosse o suficiente eis que, depois de 50 anos que o Brasil superou a ditadura militar, vivemos uma onda saudozista, revisão histórica e até negação de que houve extremos em ambos os lados.
Em pleno século XXI temos um recrudescimento das idéias, reaparece o puritanismo e o falso moralismo, a ditadura da mediocridade empobrecendo a mente dos brasileiros e a patrulha do politicamente correto acabando com qualquer possibilidade de diálogo ou debate. Sinal da decadência ideológica, temos liberais de direita e temos a esquerda caviar digladiando-se em blogs com retóricas obsoletas e estereótipos absurdos. As lutas e esforços de tantos que nos precederam para que nos tornássemos efetivamente humanos vai desaparecendo, por falta de planejamento, de ação, de interesse.
Nos idos de junho, quando eu havia preconizado, com exatidão, que as manifestações morreriam na praia, os fatos recentes ratificaram minha profecia. As manifestações pecaram ao se associar ao PSOL, que contratava gente desqualificada por R$ 150,00 para a tropa de Black Blocks, gente paga para destruir, quebrar, queimar, cometer vandalismo e violência. Foi preciso morrer um cinegrafista para que os podres das "manifestações pacíficas" viessem à tona. Nada mudou e quando muda é para pior, retrocedendo. O brasileiro continua esmolando e esperando por mudanças sem se dar conta que mudança só ocorrem quando se põe a mão na massa. Pensadores, filósofos, artistas e profetas indicam a direção, mas de idéias e ideais a humanidade está farta, quer soluções práticas e eficientes, não quer compromisso, responsabilidade ou consciência. E ficamos como estamos. Como disse uma vez Elis, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Putin, Europa, Sexo e Crianças

Olá, sr Ponde, faz um tempo que eu não te escrevo. Eu li seu artigo na folha elogiando Putin, o que foi ecoado pelo Rodrigo Constantino - o artigo e o argumento, eu não sei se foi extensivo ao elogio. O que é curioso, porque o que faria Putin, Ponde e Constantino concordarem? Pondo Putin a parte [uma péssima punch line], que quer recriar a Mãe Russia/URSS, o que incomodaria tanto Constantino e o sr para valer artigos concórdios?
Seria o assistencialismo às "minorias"? O assistencialismo fez ruir Grécia, Espanha, Portugal. Fazer assistencialismo pode render votos mas acaba com as finanças de qualquer país. Mas não parece ser o caso. Seria o debate sobre a questão do gênero e da opção sexual? Eu vou apostar que sim, sexo ainda é um tabu em nossa civilização ocidental. Discutir estas questões incomodam e muito certos pruridos e consciências, certamente resultado de um recalque latente. O debate não é invenção de professores com problemas de identidade sexual nem ocupação de gente riquinha. A intenção do debate é exatamente o de acabar com o autoritarismo da ideologia de gênero, imposta sem qualquer base biológica ou psicológica - uma imposição feita, via de regra, por dogmatismo eclesiástico. Se há debate é porque há o que se discutir, especialmente quando está em decadência o monopólio e a ditadura da Igreja sobre as sexualidades. Se é pertinente, é um caso à parte e talvez seja nisto que se escora o texto do sr e do Constantino, eu espero.
Seria interessante entender porque se discute e isto tem a ver com o aspecto do Estado enquanto responsavel pela garantia dos direitos à todos e da assistência social. Politica sexual, se me permitir usar o termo, torna-se uma questão de saúde pública, quando há um aumento de doenças venéreas, aumento de adolescentes que engravidam, aumento da violência sexual contra um gênero. Curiosamente mas não coincidentemente, estas políticas estremecem a autoridade da Igreja, a Católica e a Protestante - pudemos ver ad nauseam os monólogos de Feliciano, Malafaia e Bolsonaro mostrando como uma visão política sexual diferente da "normal" acaba produzindo muita neurose e paranóia. Então o debate é pertinente. Os EUA também tinham "coisas mais importantes" para debater e, mesmo assim, levaram o homem à lua.
Então o problema é que se está debatendo sobre sexo, gênero e opção sexual, sem seguir os padrões impostos pelo stablishment. O que a biologia, a anatomia e a fisiologia demonstram é que todos os seres vivos nascem com sexo. Como tal fator irá se desenvolver, ser percebido e exercido depende de outros fatores - genótipos, fenótipos, habitat. No caso da nossa espécie temos que considerar o enorme peso da cultura e da sociedade. Nós somos a única espécie problemática, criamos categorias de tipos de sexo, chamado de gênero e criamos papéis definidos para cada um. Mas a realidade é bem mais complexa, o espectro de variantes de sexualidade e de gênero é maior do que essa dicotomia imposta, "homem", "mulher". Quem não se adequa ou é morto, ou é internado em um manicômio,   ou é excluído. Como se isso não fosse suficiente, nossa espécie criou uma escala absurda e arbitrária, sem considerar que o metabolismo de cada indivíduo amadurece de formas diferentes, mas o órgão, as funções, as glândulas, estão bem ali no corpo, independentemente de nossa faixa etária. Ou seja, criança tem sexo, mas ainda não amadureceu para ter uma sexualidade, nem adquiriu consciência de como ele/ela percebe, vê e sente o seu sexo. Talvez devamos contestar tentativas de legislar sobre a sexualidade das crianças "avant la lettre", mas é inegável que não podemos tratar a criança como um ser assexuado, nem podemos tentar ocultar delas esta sexualidade, nem negar que vivemos em uma sociedade que explora a sexualidade comercialmente da pior forma possivel. O que devemos e podemos fazer é criar uma política sexual que dê educação sexual para adolescentes e campanhas para adultos tratarem seus desvios sexuais. Sim, é possível chegarmos à lua. Apesar de trogloditas como Putin.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Mestre do Sabat

Livros de Bruxaria, sejam históricos, antropológicos, filosóficos, psicológicos, ou testemunhais, em algum momento terá de lidar com o complexo, complicado, intenso, profundo e às vezes traumático tema da identidade e do papel do "Diabo". A figura do Homem de Preto, o Bode Negro do Sabat, o "Diabo", o Deus Cornífero, o Deus das Bruxas, é um personagem crucial e perturbador no meio do Paganismo Moderno.
Nas religiões antigas, especialmente nas urbes, o Deus supremo é Júpiter, Zeus, ladeado por uma corte de Deuses, certamente um espelho da forma como nossos antepassados viam a sociedade e o mundo. Além dos limites das cidades, no campo e nas vilas, o domínio pertencia a divindades mais antigas, mais poderosas, mais sábias. Incontroláveis, portanto perigosas e temíveis, eram adoradas em meio às florestas, em poços, lagos, cavernas, montanhas e encruzilhadas.
Reinos e impérios surgiram, expandiram e conquistaram vários povos, levando ao sincretismo, assimilação ou desaparecimento dos Deuses antigos dentro do culto oficial, mas nas crenças e folclore popular a figura do Deus Cornífero resistiu por milênios. Na Europa não seria diferente, diversos Deuses da caça, da floresta, das feras, do gado e da agricultura fundiram-se em um único Deus que, com a chegada e domínio do Cristianismo, o sincretismo popular e a folclorização do cristianismo, acabou sendo assimilado ou identificado com o Diabo Cristão.
O ressurgimento dos antigos cultos e a adoração do Deus da Floresta foi o resultado de um processo histórico, onde o povo comum queria resgatar a alegria, a felicidade e a liberdade, rebelando-se contra os poderes constituídos, seculares e eclesiásticos. Mas não nos enganemos, a concepção e crença popular diferiam em muitos aspectos do Diabo Cristão, mas certamente usou a iconografia dominante para dar um sentido a essa revolução, como descreve Jean Michelet.
Com o Renascimento, a Ciência, a diminuição do poder da Igreja e o Estado Moderno, o Romantismo do século XVIII trouxe para o mundo artístico e intelectual o culto das bruxas do século XII, dando origem ao neopaganismo, o florescimento do ocultismo, o surgimento de diversas ordens e as missas negras.
Na Idade Moderna, na Era Industrial, com o trabalho de diversos filósofos e o aumento da liberdade de pensamento, foi possível haver uma ruptura do sistema dominante. No pós-modernismo aconteceu a Contracultura e ali o neopaganismo cresceu junto com diversas religiões alternativas. A necessidade cada vez maior por liberdade, pelo fim da opressão e repressão, pela contestação ao poder da Igreja, pela falta de compromisso e seriedade, o ser humano tornou o Deus das Bruxas em um mero arquétipo, confinando-o a conceitos pós-modernos ou, pior, muitas vezes sendo vilificado e negado, como acontece em vertentes do Dianismo e da neowicca.
No mundo contemporâneo, com estudantes sérios e dedicados, a Wicca e a Bruxaria Tradicional tem conseguido, orgulhosamente, remar contra a corrente. Por inspiração, por dom, por honestidade, por honra, muito de nós tem mantido e resgatado essa longa e antiga crença, adoração e nome do Deus Cornífero, o Homem de Preto, o Bode Negro, o Mestre do Sabat.
Descrevê-lo ou defini-lo para o mundo contemporâneo, mesmo para pagãos modernos, continua sendo um desafio, um risco e um problema. Não porque não o conheçamos ou que estejamos proibidos. Mas porque a complexidade e a profundidade de nosso Deus vão de encontro às suscetibilidades humanas e para muitos isso é ofensivo, escandaloso ou vergonhoso. Reinos e impérios viraram pó exatamente porque o ser humano preferiu ouvir sua vaidade e orgulho a ouvir os Deuses. Para os poucos que tem a coragem de falar a verdade há a eternidade do heroísmo. Nosso compromisso, serviço e adoração são para os Deuses, não para nossas preferências ou agendas pessoais.
Eu canto a vós, Senhor. O primeiro existente que nasceu neste mundo. Aceitou nascer, viver e morrer como todos que vem a este mundo, por que vós sois o mestre dos mistérios e conhecedor de todos os caminhos. Vieste a este mundo como o carvalho e o azevinho. Vós fostes posto no solo como semente, brotou, cresceu, floriu, frutificou e foi ceifado. Vós viestes a este mundo como o lobo e o cervo. Vós fostes posto dentro de um ventre, passou pela infância, adolescência, maturidade e senilidade. Conheceu o leite, comeu da terra, gerou muitos para depois aceitar a morte. Vós viestes a este mundo como a caça e o caçador. Vosso é o domínio dos grãos, do gado, das feras, da floresta. Por vós, tudo é santificado e sacramentado. Em vossos rituais nos reencontramos ao celebrar o êxtase da vida. Vós sois o arado que abre a terra, a chuva e a força que faz a semente brotar. Vós viestes a este mundo como bebê, criança, jovem e adulto. Vós fostes o camponês, o sacerdote, o guerreiro e o rei. Vós viestes a este mundo como filho, pai e consorte. Vosso é o domínio do amor, do desejo, do prazer, do sexo. Por vós, tudo é belo e divino. Em vossos bosques sagrados, nos santuários das cavernas, entre rios, vales, morros e encruzilhadas, nós festejamos. Vós sois aquele que nos tira do ventre e nos conduz para a tumba. Vós viestes a este mundo como vencedor e vencido, como herói e monstro. Vossa são as dádivas da vida e da morte. Ave Dioniso, ave Cernunnos, ave Herne, ave Pan!

domingo, 23 de março de 2014

A marca da bruxa

Outro tema que chamou minha atenção após a leitura do livro de Lee Morgan, “Deed Without a Name”, é a tão afamada “marca da bruxa”.
Para os nossos ancestrais tudo possuía substância, ou um “corpo”, a ideia de que o corpo carnal é algo distinto ou separado do corpo sutil apareceu mais tarde, com outras correntes espirituais. Nosso corpo e alma estão interligados, interconectados, então o limite de nosso “corpo” vai além de nossos limites físicos.
Com o treino e domínio do corpo e alma, o bruxo consegue manipular sua sombra e dar forma a uma segunda pele. Com o desenvolvimento dessa habilidade o bruxo consegue entrar em contato com o seu daimon, tornando a caminhada e o aprendizado mais fácil, mais suave, mais dinâmico, mais surpreendente. O daimon ainda é parte do nosso “eu”, muito embora o inverso seja mais verdadeiro.
O acesso à nossa consciência espiritual nos deixa mais próximo do mundo divino e do submundo, através do daimon a bruxa atrai para si dois espíritos, duas entidades complementares, o espírito consorte e o espírito familiar. Com o primeiro a bruxa tem um relacionamento marital e com o segundo a bruxa tem uma relação filial.
O provável é que o espirito familiar seja progênie da união entre a bruxa e o espirito consorte, se não for por adoção. O importante, nesse caso, é que a bruxa tem que alimentar essa entidade, geralmente por uma teta falsa (verruga?) que é a “marca da bruxa”.
Um tema controverso, visto que este sinal é citado em muitos dos julgamentos de bruxas, mas havemos de considerar que os juízes (seculares e clericais) não teriam tal imagem se isto não fizesse parte de um folclore antigo. Ainda que as confissões sofram de um vício de procedimento (feito sob tortura), muitos testemunhos feitos voluntariamente relatam essa circunstância.
Chegamos ao consenso que de que uma bruxa tem um espirito consorte, tem um espirito familiar e tem uma marca. Discutir ou definir a Bruxaria sem essas características torna-se inútil ou desonesto. Esta marca é um dom que veio de nascença ou foi recebido por um ente - tema delicado e polêmico no meio pagão - que é o “Diabo”. A associação da bruxa com este Deus e Mestre, essa figura do Bode Negro, em relatos de bruxas do passado e atual, cuja imagem e conceito carregam muito da visão judaico-cristã e visões pós-modernistas, sem dúvida deve tocar em um ponto sensível nas mentes suscetíveis, o que talvez requeira um texto para apaziguar a identidade, personalidade e papel do “Diabo” na Bruxaria.

sábado, 22 de março de 2014

O caminho tortuoso

Da leitura do livro de Lee Morgan, “Deed Without a Name”, eu farei uma reflexão em cima do conceito dado pelo autor a respeito do “crooked path”.
O inverso, o conceito do “straight path”, parece um conceito mais fácil de abordar. A maioria das religiões majoritárias pertence ao “straight path”. As características mais evidentes são que há uma “revelação”, uma “palavra”, um “profeta”, uma “doutrina”, uma “origem”, um “destino”. Enfim, um único caminho “reto” ao qual desvios não são tolerados. São religiões cujo sucesso se deve a necessidade humana de certeza. A certeza, parte da crença, torna o individuo conformado, reconfortado, acomodado. Diante da certeza, da crença de que se possui a verdade, faz com que o homem esqueça-se de suas inseguranças, o mundo se torna um lugar previsível, controlável.
A tradução não ajuda muito, “crooked” pode significar acidentado, sinuoso, traiçoeiro. Lee Morgan o exemplifica este caminho com a forma de uma cobra caminhar, o que combina com o conceito do Ofício, com a jornada do bruxo e do pagão. Nossa jornada é feita com os pés no chão, o contato e convivência com a natureza é a base de nossa busca.
Isso significa colocar nosso corpo, nossas entranhas, nessa busca e procurar por trilhas que serpenteiam em meio às florestas, em meio a inúmeros espíritos antigos, em meio às maravilhosas experiências que só podem ser compreendidas pela vivência. Eu utilizo em meus textos a ideia do caminho entre os bosques sagrados.
Muitos disseram que a jornada é solitária, onde essa expedição irá passar e nos levar depende do viajante. Há um largo, imenso e extenso mundo a ser explorado, sendo necessário apenas dois pés e a vontade. Não há uma rota definida, não há um destino definido, cada um é seu profeta e dono de sua revelação, não há um caminho plano, não há certezas absolutas. Nosso caminho é cheio de desafios, obstáculos, surpresas, becos, valas, morros, rios, árvores, espinhos. Muitas vezes acabamos voltando a um mesmo ponto. Para quem olha de fora, esse caminho não é muito atraente, mas o sábio conhece que as aparências enganam. No caminho reto, pela promessa de um paraíso perdemos nossa alma.
A despeito dos riscos e das dificuldades, muitos percorreram estes bosques sagrados e estas antigas trilhas são a herança sem nome, o tema do livro de Lee Morgan. Com alegria e tristeza, seguimos adiante, celebrando e cantando, as agruras e felicidades de seguir esse caminho sinuoso. Quando se fala no perigo de trilhar esse caminho traiçoeiro, não se trata apenas da perseguição por agentes da lei, do Estado ou da Igreja. Isso nós tiramos de letra, temos sobrevivido à margem da sociedade há séculos. Infelizmente, caro dileto e eventual leitor, estudante e praticante do Ofício, o maior perigo está em nosso meio. Volta e meia lemos histórias e experiências que não deram muito certo. Eu mesmo narrei a saga de Joãozinho. Nesse caminho haverá muito logro, muita decepção e muito delírio. Não poderia ser diferente, esse é um caminho feito nesse mundo e é um caminho natural e humano.
Não se desespere, não fique frustrado, não guarde rancor. Por onde quer que passe, por onde quer que perambule, por mais voltas e turnos que sejam, saiba que tudo tem um propósito que é o de nos dar o conhecimento necessário para resgatarmos nossa humanidade e realizarmos todo o nosso potencial divino.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Cegos e ateus

Entre os argumentos teístas listados no artigo de Dan Baker no site do Ateus ponto net, eu vou frisar um interessante por que a analogia e a refutação precisam de uma análise.
Diz Dan Baker, como "argumento" teísta, a seguinte analogia:
"Os ateus não têm discernimento espiritual e dificilmente poderiam criticar a experiência teísta de Deus. Isso seria como uma pessoa cega negando a existência das cores."
A refutação de Dan Baker vem com o seguinte argumento:
"A analogia com o cego não é apropriada porque as pessoas cegas não negam o sentido da visão, nem negam que as cores existam. Os cegos e os que veem vivem no mesmo mundo, e ambos podem compreender os princípios naturais envolvidos. O caminho da luz pode ser traçado através de um olho normal até ao cérebro. As frequências podem ser explicadas e o espectro pode ser experimentado independentemente da visão."
A análise vai se basear no quesito existência e evidência.
O ateu não crê na existência dos Deuses baseado na acepção de que não há evidências de que os Deuses existem.
A analogia teísta vem de encontro a este argumento basilar do ateu ao argumentar que negar a existência dos Deuses é similar ao cego negado a existência das cores. Explicando melhor, o ateu nega porque não percebe a existência dos Deuses. O caso que deve ser melhor explicado e detalhado é se o cego nega a existência das cores a despeito de sua deficiência sensorial.
Neste ponto há uma falha no argumento de Dan Baker, pois ele descreve o processo de como percebemos as cores, não uma evidência de que as cores existam. No caso do cego, pela lógica do ateu, sem evidências não se pode dizer que as cores existam, portanto a refutação falhou.
Voltemos às questões quanto ao processo de percepção, ao caso do cego, à existência das cores e às evidências.
A percepção das cores não pode ser considerada evidência da existência das cores porque a) os cães, a despeito de ter um órgão sensitivo, percebem as coisas apenas em preto-e-branco b) os humanos, a despeito de serem capazes de perceber as cores, são limitados e não percebem todos os espectros de cores. Portanto, o processo de percepção das cores não é evidência da existência das cores. Para que haja a percepção das cores primeiramente as cores devem existir para então haver a percepção das mesmas através dos órgãos sensitivos.
O autor não explica nem dá provas quanto ao cego, então devemos pressupor que o cego não negue o sentido da visão nem negam a existência das cores. Obviamente, pessoas desprovidas de visão vivem no mesmo mundo que o nosso, mas isso não prova a existência das cores e, como nós vimos, o processo de percepção das cores não pode ser considerada evidência da existência das cores. O autor argumenta que ambos [cegos e não cegos] podem compreender os princípios naturais envolvidos, mas para "compreender" algo denota alguma forma de aprendizado, cultura e percepção. Ora, se as cores não existissem, não haveria a percepção, ainda que tivéssemos os órgãos sensitivos; não haveria compreensão porque sem elementos de exemplo para o aprendizado seria nulo o conceito de "cor" e, sem um conceito, não há a formação de uma cultura para explicar esse estímulo sensitivo como sendo "cor". Portanto a refutação falhou.
Sendo falha a refutação nesse quesito, permanece o dilema – como fazer um cego crer na existência da cor, considerando que: a) para a concepção do ateu, não se pode crer na existência da cor sem que existam evidências; b) falta ao cego a capacidade sensitiva para perceber a cor; c) a existência da cor precede conceito, aprendizado e explicação; d) o ambiente natural é comum a todos, mas existem condições para compartilhar a mesma concepção de mundo.
A medicina e a tecnologia são capazes de substituir o órgão sensitivo, tornando o cego capaz de "ver". Sem qualquer parâmetro ou referência, o cego terá que "aprender" a associar esse estímulo sensitivo como sendo "cor". Apenas e só então o cego poderá crer na existência da cor, pois será capaz de reconhecer aquele estímulo como sendo "cor" e, pelo reconhecimento, será evidência da existência da cor.
Nesse sentido, o argumento teísta tem sentido pois, a despeito do ateu e do teísta pertencerem ao mesmo mundo e serem capazes de compreender os princípios naturais envolvidos, cada um tem uma concepção de mundo diferente. A concepção do ateu é uma percepção do mundo apenas em sua aparência física e mecânica, desconsiderando ou ignorando qualquer coisa que não tenha evidência, ainda que a evidência não seja percebida por uma deficiência sensitiva. Nisso o cego é melhor que o ateu, afinal, ainda que ao cego lhe falte a capacidade sensitiva, este não nega o sentido da visão nem a existência da cor. Estabelecendo uma correlação com o cego, o ateu nega o sentido da crença e a existência dos Deuses porque a) não tema percepção; b) nega o "aprendizado" recebido; c) nega os parâmetros associativos d) nega as evidências se baseando no conceito de que não foram "testadas" ou "confirmadas" pela ciência.
Para que o ateu possa perceber a evidência da existência dos Deuses ele terá que a) desenvolver a percepção; b) abandonar os preconceitos e as doutrinas; c) procurar e desenvolver uma experiência religiosa; d) procurar conhecer e reconhecer os Deuses como são, onde estão. Este é um desafio e tanto, considerando o crescente ressentimento dos ateus contra todo tipo de crença, religião ou concepção "não científica". Mas aos ateus que não tem medo, receio ou vergonha de admitir que podem não saber de tudo, saibam que são muito bem vindos, com todas suas dúvidas e críticas, ao Paganismo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Mazzerismo

O mazzerismo é uma prática de adivinhação do folclore corso, provavelmente um legado xamânico, para o qual alguns indivíduos em algumas famílias na ilha são considerados possuidores de qualidades incomuns. Entre essas qualidades a faculdade de bilocar durante o sono, a pessoa que dorme está, simultaneamente, em uma situação de caça, onde ele caça e mata animais. O possuidor do dom de ser dito mazzerismo vem de mazzero. Ele também é apelidado de "O caçador de almas" e "O Mensageiro da Morte".

Origem

Este valor provavelmente remonta a um período anterior à religião megalítica, do povo de caçadores e coletores. Na verdade, a ligação mística entre a vítima eo mazzero repete muito do que teria existido na Idade Pré-Neolítica entre o caçador e sua presa. O mazzerismo também oferece muitos pontos em comum com o xamanismo. Embora muitas tribos espalhadas do mundo se sustentam com a caça não é um estado místico comparável ao mazzerismo corso.

Etimologia

Mazzero evolui de mactator, Substantivos da mactare verbo latino, de onde vem também o italiano "matar". Ele definitivamente tem paralelos com a palavra espanhola matador que, precisamente na realidade e não no sonho, mata um animal. O Mazzer tem vários nomes na Córsega, dependendo da área, "culpadore" ("colpatori" em Figari), "acciacatore", "mazzeru" ("mazzatori" em Gualdariccio), "lanceiros" em Sartène , "nuttambuli" ou "sunnambuli" em Appietto, "murtulaghj" em Marignana. Em algumas dessas áreas, no entanto, argumenta-se que os homens são murtulaghj apenas para aparecer em um sonho, anunciando a morte.

O Mazzer

A caça pode ser individual ou coletiva. Neste caso, o sonho envolve mais mazzeros. Muitas vezes, o mazzero assume a forma de animal: um cão, um gato ou um corvo. O mazzero tem na sociedade uma reputação ambivalente, embora realiza uma vida social normal por seus concidadãos é considerado como um ser sobrenatural, como um intermediário entre o submundo e o mundo dos vivos.

O sonho de perseguição e profecia

Sua arma de escolha é uma vara pesada, chamada de "morcego", mas com o avanço da cultura, também pode usar a arma, lança, machado, punhal, facas e até mesmo o asfódelo, a arma usada no luta entre dois mazzeros de duas aldeias diferentes. A caça ocorre em áreas de fronteira e nos lugares mais selvagens: os locais mais desolado, os vaus, rios. Estes são os seus lugares favoritos. Ele joga para emboscada e segue o mesmo padrão de caça tradicional perto de pontos de água, em lugares incultos, selvagem e impenetrável. Os rios marcam a fronteira de um mundo para outro. A água também é um dos lugares favoritos dos espíritos dos mortos que não tenham expiado seus pecados. No entanto, a função de mazzerismo também pode ser útil: você pode agir sobre os acontecimentos e inverter a tendência em favor da pessoa reconhecida na caça.

O Mandrache

O Mandrache é uma batalha fantasma entre os mazzeros de duas aldeias diferentes. Ocorre geralmente em uma colina. Isso acontece na noite de 31 de Outubro -1 novembro, agrupados em milícias, lutando contra os da comunidade vizinha. Esta guerra é praticada com o asfódelo. Os vencedores terão um ano de prosperidade, um dos perdedores e fome. Os mazzeros da aldeia perdedora não vão perder os mortos.

Transmissão de poder e taumaturgia

A transmissão de mazzerismo é geralmente hereditária e você tem que ser um membro de uma família de Mazzero. É um presente que você não pode recusar, se limita se você não vai se tornar um mazzero "acciaccatore" assassino ou não, nesses casos o mazzero será o salvador e curador de almas.

Fonte: Wikipedia Italiana

sexta-feira, 14 de março de 2014

A guerra pela Ideologia de Gênero

Estamos em pleno século XXI, mas ainda nos vemos às voltas com um assunto que suscita muita resistência e polêmica: a questão do gênero. Mas por que, tio Bode, tem tanta gente querendo tomar conta da vida sexual alheia? Caro dileto e eventual leitor, não podemos nos esquecer que o poder, prestígio e influência de diversos grupos dependem da manutenção de um determinado sistema, cujos conceitos, definições, limites e conjuntura são mantidos pela opressão e repressão sexual.
Assim como houve uma verdadeira paranoia e neurose sobre a homossexualidade e a pedofilia, mexer com certas convicções mexe com a forma como a política e a sociedade encaram o sexo, o amor, o desejo e o prazer.
Um Estado de Direito Democrático, onde deve haver a inclusão de todos os cidadãos, sendo indiferente suas opções, opiniões e preferências, não poderia ficar intimidado com a resistência ou o protesto de setores da sociedade onde ainda vigora um puritanismo anacrônico. Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade e um governo que sofre e muito a influência da cultura católica, imposta pela Igreja, onde a única “ideologia de gênero” aceita é aquela ditada pelo Vaticano.
Facilmente podemos achar textos no oráculo virtual [google] com essa ditadura ideológica.
Site Católico #1:
- “Nos dias de hoje temos ouvido isso mais comumente. Isso é um movimento considerado anticatólico, que diz o seguinte: a criança nasce sem um sexo definido. Quando a criança nasce não deve ser considerada do sexo masculino ou sexo feminino; depois ela fará esta escolha. Essa é a chamada Identidade de gênero ou Ideologia de gênero.
Inclusive, já existem escolas para crianças na Suécia e na Holanda, onde não se pode chamar o aluno de menino ou menina, chama-os apenas de crianças, porque eles devem decidir quando crescerem se serão homens ou mulheres, o que é antinatural.”
Site Católico #2:
- “Nesta quarta-feira, dia 11/12, será votado o substitutivo do PNE (Plano Nacional de Educação), proposto pelo senador Vital do Rêgo.
Esse projeto, caso seja aprovado, introduzirá a igualdade de gênero e a orientação sexual como diretrizes da educação nacional para os próximos 10 anos.
Qual é o problema em relação à ideologia de gênero? A palavra “gênero”, segundo os ideólogos da ideologia de gênero, deve aos poucos substituir o uso corrente de palavra “sexo” e referir-se a um papel socialmente construído, não a uma realidade que tenha seu fundamento na biologia. Desta maneira, por serem papéis socialmente construídos, poderão ser criados gêneros em número ilimitado, e poderá haver inclusive gêneros associados à pedofilia ou ao incesto.
Ora, uma vez que a sexualidade seja determinada pelo "gênero" e não pela biologia, não haverá mais sentido em sustentar que a família é resultado da união estável entre homem e mulher.
Site Católico #3:
- “A Ideologia de Género, ou melhor dizendo, a Ideologia da Ausência de Sexo, é uma crença segundo a qual os dois sexos — masculino e feminino — são considerados construções culturais e sociais, e que por isso os chamados ‘papéis de género’ (que incluem a maternidade, na mulher), que decorrem das diferenças de sexos alegadamente ‘construídas’ — e que por isso, não existem —, são também "construções sociais e culturais".”
Site Católico #4:
- “A diferença da estrutura sexual biológica não é relativa, ao contrário é um fato dado, uma marca inegável e segundo a qual a própria criança se depara desde seus primeiros olhares para seu próprio corpo.
A psicologia está repleta de argumentos sobre a importância da organização dos papeis parentais para o desenvolvimento saudável de um ser humano, contudo não são os argumentos teóricos e científicos que parecem fazer diferença no debate midiático que se faz sobre a tão falada ideologia de gênero, tudo se circunscreve sob as defesas ou ataques de questões preconceituosas.”
Existe um texto mais extenso no site Eclésia, mas a tônica pode ser resumida nos trechos citados acima, nos termos de sustentar a visão da Igreja. Citar trechos de textos que corrobore a visão da Igreja e ignorar aquilo que cada disciplina considera em conjunto em relação ao gênero e sexualidade é omitir do público que a biologia distingue genero de sexualidade e é omitir que a psicologia está repleta de argumento onde famílias homoparentias não demonstram diferenças em relação à famílias heteroparentais. Isto é feito não por que exista algum risco à sociedade ou à família, mas sim por que há um risco à autoridade, prestígio e influência da Igreja.
Neste sentido vale a pena citar um trecho do texto de Maira Kubik:
- “Refletir sobre o gênero significa mexer com a ordem das coisas e questionar o que aparentemente está estável. E isso incomoda.
A cada vez que novos caminhos são abertos em direção a uma sociedade mais horizontal, há uma reação contrária por parte daquelxs que não querem compartilhar seus privilégios. Pouco tempo antes do ataque ao gênero, o foco foi a luta contra a aprovação do casamento homossexual: certas pessoas acreditavam que esse direito era exclusivo delas. O mesmo ocorreu com a reprodução assistida e a defesa de que apenas mulheres heteros deveriam utilizar a técnica — algo que, por enquanto, se mantém.
Agora, a ideia é simplesmente impedir as as crianças de terem acesso ao conhecimento. Querem que parem de ensiná-las a pensar. Nada poderia ser mais perigoso.”
Neste blog o caro dileto e eventual leitor poderá ler os textos “Identidade Espiritual”, “Identidade de Gênero – Identidade Cultural” e “A Reconfiguração da Família” onde este pagão que lhes escreve discursa sobre o assunto.
Que a Igreja Católica irá continuar a se imiscuir na sexualidade alheia não é novidade. O que não pode ser aceito é que esta instituição, que mal consegue manter seu quadro de “funcionários” na linha, possa impor ou ditar como toda uma sociedade, que não é apenas composta de católicos e heterossexuais, deva conceber ou considerar as questões do gênero, da opção e preferência sexual. O que se espera é que os católicos se dêem conta de que o discurso que fazem é também uma “ideologia de gênero”. O que este pagão pede, é um clamor que faz tempo que eu não faço.
APOSTASIA JÁ!

segunda-feira, 10 de março de 2014

O bule do Chapeleiro Louco

"De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada." – Bertrand Russel.
Bertrand Russel caberia bem nas roupas do Chapeleiro Louco. Ele nos convida para tomar o chá das cinco, como bom britânico. Nem Alice com toda sua ingenuidade consegue acreditar no que ele diz. Balançando o bule diante dos convidados, o senhor Russel quer nos convencer de que o bule existe apenas na imaginação. O senhor Russel confunde Catolicismo, Cristianismo e diversas religiões, como se fossem uma única coisa. Religião não pode ser confundida com as organizações religiosas. Nem o sofisma do bule voador com a existência dos Deuses.
Não é necessário ser um detetive muito bom para investigar o caso do bule voador. O bule é chinês, então sem dúvida haverá um comprovante de exportação e há uma nota fiscal de compra que comprova sua existência. Sendo conhecida sua origem, deve haver uma explicação para que o bule tenha ido parar na órbita entre Terra e Marte. Explicações levam a meios, métodos, planejamentos que consistem em registros e evidências de que, efetivamente, o bule existe e foi enviado até esse ponto no espaço sideral. Não é necessário ser um Batman para descobrir tais fatos. Além do que se sabe que um objeto no espaço sideral mantém a sua massa e essa massa provoca uma distorção gravitacional nas emissões de luz, o que tornaria o bule detectável e comprovável, mesmo sem estas investigações anteriores. Portanto a analogia de Bertrand Russel é fraca e sem sentido, assim como a bronca geral dos ateus contra as crenças e religiões. Não são os livros antigos, por mais sagrados que sejam, quem afirma que são uma verdade, mas as instituições religiosas, cujo poder, prestígio, influência e riqueza dependem da manutenção incontestável de uma doutrina, de um dogma.
Carl Sagan não foi feliz com sua analogia do dragão na garagem. Bertand Russel não foi feliz com sua analogia do bule voador. Ateus são péssimos em analogias em suas tentativas fúteis de refutações filosóficas acerca da existência dos Deuses.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Tréplica aos Cristãos

Em um artigo de Brandon Vogt traduzido, listam-se dez refutações para os argumentos a favor do casamento homossexual.
Seguindo a mesma tônica, sem apelar a leitura do livro sagrado, eis que este pagão oferece a tréplica.
1. O casamento tem evoluído ao longo da história, então ele pode mudar de novo.
1. Diferentes culturas têm tratado o casamento de forma diferente. Alguns promoveram casamentos arranjados. Outros amarram casamento com dotes. Outros ainda viam o casamento como uma relação política através da qual poderia forjar alianças familiares.
Mas todas estas variações ainda abraçaram a essência fundamental, imutável de casamento. Eles ainda viram, em geral, como uma parceria, ao longo da vida pública entre um homem e uma mulher para gerar e criar filhos.
1. Se isto é verdadeiro, então casais heterossexuais que não tenham filhos tornam-se ilegais e ilegítimos. Casaia heterossexuais que adotam são ilegais e ilegítimos. Crianças que são criadas por tios e avós não são uma família.
2. Casamento do mesmo sexo é relativo principalmente à igualdade.
2. Igualdade não é de equivalência. Isso não significa que o tratamento de cada pessoa ou cada grupo, seja exatamente da mesma maneira. Para usar uma analogia, homens e mulheres têm direitos iguais, mas porque eles diferem significativamente eles exigem banheiros separados. Igualdade significa tratar igualmente coisas semelhantes, mas não as coisas que são fundamentalmente diferentes.
Questões: A igualdade de pessoas diferentes e igualdade de relacionamentos diferentes. As leis de casamento atuais já tratam todas as pessoas igualmente. Qualquer homem solteiro e mulher solteira pode se casar com outra, independentemente da sua orientação sexual, a lei é neutra em relação à orientação, assim como ignora raça e religião.
A verdadeira questão é saber se pessoas do mesmo sexo diferem significativamente dos relacionamentos com o sexo oposto, e a resposta é sim. A maior diferença é que os casais do mesmo sexo não podem gerar filhos, nem garantem o direito básico de uma criança de ser criada por sua mãe e seu pai. Estes fatos por si só significa que estamos falando de dois tipos muito diferentes de relacionamentos. É errado, portanto, assumir que o Estado deve, necessariamente, tratá-los como se fossem a mesma coisa.
Com todos os benefícios decorrentes do casamento, este injustamente aprova um conjunto de relações em detrimento de outras. Mas se o Estado apoiasse o casamento homossexual estaria então favorecendo homossexuais "cônjuges" em detrimento dos   casais heterossexuais solteiros. O argumento é para os dois lados e é finalmente auto-destrutivo.
2. Confusão conceitual. A questão é de igualdade legal, não de igualdade real. Ignorância legal. Toda a polêmica dos cristãos contra o casamento homossexual, excetuando a visão religiosa, é de base "legal", a Constituições dos países até o momento não tinham leis que incluissem ou reconhecessem o casamento homossexual. Ignorância de relacionamento. A diferença da forma de relacionamento não torna a base do relacionamento diferente. Em casais de sexos diferentes também ocorre a ausência de procriação, portanto, não pode ser a base legal para o reconhecimento para quaisquer uniões. Várias crianças são criadas por tios e avós, portanto, a criação das crianças pelos seus progenitores não pode ser a base legal para o reconhecimento de quaisquer uniões. Ignorância da constituição de um Estado de Direito. O Estado de Direito deve reconhecer toda forma de união entre pessoas adultas. Confusão legal. O reconhecimento do casamento civil entre pessoas não diminui, não obsta, nem cessa os direitos de famílias monoparentais.
3. Todo mundo tem o direito de casar com quem ele ou ela ama.
3. A maioria de nós reconhece que deve haver pelo menos algumas limitações sobre o casamento por razões sociais ou de saúde. Por exemplo, um homem não pode se casar com uma criança ou um parente próximo. E se um homem está realmente apaixonado por duas mulheres diferentes, ele não legalmente autorizados a casar com as duas, mesmo que ambos concordam com esse arranjo.
A verdadeira questão aqui não é se o casamento deve ser limitado, mas como. Para responder a isso, temos de determinar por que o governo se incomoda com o casamento. Não é para validar duas pessoas que se amam, agradável como que é. É porque o casamento entre um homem e uma mulher é provável que resulte em uma família com crianças. Desde que o governo está profundamente interessado na propagação e estabilização da sociedade, ele promove e regula este tipo específico de relacionamento acima de todos os outros.
Para colocá-lo simplesmente, aos olhos do estado, o casamento não é sobre os adultos, é sobre crianças.
Não há direito geral de ter qualquer relação reconhecida como casamento pelo governo.
3. Existem convenções socias e médicas. Convenciona-se que se casam pessoas maduras, em idade de consentimento. Convenciona-se, por razões de ordem médica, que aparentados não devem se casar. Entretanto, em algumas sociedades existe a convenção social de se permitir o casamento poligâmico, portanto, convenções socias não pode ser a base legal para o reconhecimento para quaisquer uniões. A preocupação do Estado de Direito é o de garantir os direitos de herança e sucessão das famílias, em suas múltiplas formas. Por exemplo, não se vê nenhum juiz ou governante anular um casamento por falta de filhos ou por morte de um dos conjuges. Portanto, a ausência de procriação não pode ser a base legal para o reconhecimento para quaisquer uniões. Confusão legal e ignorância de constituição. Um Estado de Direito tem o dever e a obrigação de reconhecer a união entre pessoas e resguardar os direitos legais e jurídicos advindos desta.
4. Casamento do mesmo sexo não irá afetar você, então por que se importa? 
4. Ela enfraqueceria o casamento. Após o casamento homossexual ser legislado na Espanha, em 2005, as taxas de casamento despencaram. O mesmo aconteceu na Holanda.
Após o casamento homossexual ter sido legalizado no Canadá, o Conselho Escolar Toronto implementou um currículo de promoção da homossexualidade e denunciando "heterossexismo.
Redefinindo o casamento iria ameaçar a liberdade moral e religiosa.
4. Utilização de dados estatísticos feitos de forma desonesta e de má-fé. Dados estatísticos dos países citados não sofreram alterações significativas no numero de casamentos. A desonestidade consuma-se ao comparar o total de casamentos da população e comparar com o percentual de casamentos heterossexuais. Dados estatísticos anteriores a legalização contavam apenas casamentos heterossexuais. Após a legalização, houve um aumento compreensivel da procura por casamentos homossexuais, que anteriormente existiam de forma clandestina e ilegal. Consequentemente há um aumento no total geral, então ao se ler o total geral em relação a um total parcial, vai parecer que houve uma diminuição, o que é uma afirmação incorreta. Citação de evento local feito de forma tendenciosa, desonesta e de má-fé. Em Estados onde o devido reconhecimento dos direitos civis deve ser estendido a todos levou a ações para esclarecimento público e ao combate da discriminação e preconceito. Apenas grupos que tem conceitos religiosos fundamentalistas e dogmáticos se sentem ameaçados. Confusão ética e religiosa. Negar as pessoas o reconhecimento e o respeito a seus legitimos direitos civis é mais imoral. Liberdade de religião e de expressão não é permissão para divulgar qualquer forma de discriminação e preconceito.
5. Casamento gay não vai levar a outras redefinições.
5. Quando o casamento gira em torno de procriação, faz sentido limitar a um homem e uma mulher. Essa é a única relação capaz de produzir filhos.
A procriação é o principal motivo de o casamento civil ser limitado a duas pessoas.
5. Ignorância genética. Existem outras formas de procriação. Casais podem recorrer a fertilização "in vitro" ou à "barriga de aluguel". Ignorância de sentido. Se casamento tem a ver com a criação de crianças, casais podem adotar. Ignorância legal e jurídica. O Estado de Direito deve reconhecer toda forma de união entre pessoas adultas.
6. Se casais do mesmo sexo não podem se casar porque não podem se reproduzir, por que os casais inférteis se casam?
6. Se o casamento é sobre as crianças, por que o Estado deve permitir que o primeiro grupo se case? A razão é que, enquanto nós sabemos que os casais do mesmo sexo são inférteis, geralmente não se sabe isso em casais de sexo oposto.
Casais férteis podem ter injustamente negado casamento sob tal cenário. Isso nunca é o caso de casais do mesmo sexo, que não podem produzir filhos juntos.
6. Tegiversação. Falta de resposta. Se a base legal de um casamento é a procriação, casais heterossexuais inferteis ou que adotam devem ser ilegais. Se a base legal de um casamento é a produção de filhos que sejam dos conjuges, então as familias que são estruturadas na figura do tio ou da avó devem ser ilegais.
7. As crianças não serão afetadas, pois não há diferença entre pais do mesmo sexo e do sexo oposto pais.
7. Vários estudos recentes têm posto que tal alegação no desprezo. Em junho, a professora  Loren Marks publicou um artigo peer-reviewed em Pesquisa em Ciências Sociais. O sociólogo Mark Regnerus do Texas divulgou um estudo abrangente intitulado "Como são diferentes os Filhos adultos de pais que têm relações do mesmo sexo?" Sua pesquisa utilizou uma amostra grande, aleatória e nacional e o seu âmbito foi sem precedentes entre os trabalhos anteriores neste campo.
7. Recurso a estudos feitos de forma tendenciosa, desonesta e de má-fé. Os estudos citados foram todos refutados pela Comunidade Científica.
8. A oposição ao casamento do mesmo sexo é baseada na homofobia, fanatismo e no ódio religioso.
8. Tolerar opiniões não requer consagrando-las através de lei. Pode-se tolerar defensores do casamento homossexual, e seriamente aceitar a idéia, enquanto ainda rejeitá-la por razões imperiosas.
Homofobia. Isto se refere a um medo da homossexualidade, e a suposição é que as pessoas que se opõem casamento homossexual fazem isso porque eles estão com medo irracional. Mas, como mostra este artigo, há muitas boas razões para se opor a casamento do mesmo sexo que nada têm a ver com o medo.
Ódio religioso. Algumas pessoas não concordam com o casamento homossexual, apenas por razões religiosas. Mas, de novo, como este artigo demonstra, pode-se discordar por outros motivos, sem apelar para a revelação, a Bíblia divina ou de qualquer autoridade religiosa.
Se essas acusações eram todas verdadeiras, isso significaria que a esmagadora maioria das pessoas ao longo do tempo - que na maioria apoia o casamento tradicional - também seria homofóbicos, fanáticos intolerantes. Isso inclui os pensadores mais profundos em muitas tradições diferentes: Sócrates, Platão, Aristóteles, Musônio Rufus, Xenófanes, Plutarco, São Tomás de Aquino, Immanuel Kant e Mahatma Gandhi.
8. Equivoco de circunstância. A opinião é algo pessoal. As leis devem ser impessoais. A opinião pessoal não pode ser base para a rejeição ao legitimo reconhecimento e respeito dos dirietos civis das pessoas. Tegiversação. Falta de resposta. As tréplicas mostram que não existem razões nem motivos para fazer opisição ao reconhecimento e respeito do legitimo direito civis das pessoas, independentemente de opinião pessoal, crença religiosa ou opção sexual. Falha de argumento. Apelação. As pessoas famosas citadas podem ter eventualmente dito algo sobre o casamento heterossexual, sem que isso necessáriamente possa ser considerado como reconhecimento exclusivo a este tipo de relacionamento. Se tais declarações são aceitaveis, devem-se aceitar também declarações sobre o casamento homossexual. Se tais declarações são aceitaveis, devem-se aceitar as declarações contra o casamento heterossexual, tal como ocorreu na história da Igreja.
9. A luta pelo casamento do mesmo sexo é como o movimento dos direitos civis dos anos 1960.
9. A sugestão aqui é que o sexo é semelhante à raça, e, portanto, negar o casamento por qualquer razão é errado.
9. Erro de leitura e interpretação de texto. Equivoco de motivo. Engano deliberado na interpretação de um evento da história. O movimento pelos direitos civis não se tratava apenas da questão dos direitos aos afro-descendentes, mas também dos direitos às mulheres, entre outros. O movimento surgiu com a exata intenção de garantir a todas as pessoas o devido reconhecimento e respeito, legal e jurídico, de seus direitos civis.
10. Cada redefinição foi imposta pelos deputados estaduais e os tribunais. No geral, os americanos permanecem fortemente a favor do casamento tradicional. A maioria das pesquisas mostra que cerca de dois terços do país querem manter o casamento como ele é.
10. Erro de localidade. Erro de motivoDesvio de assunto. Em diversos países foi reconhecido o direito legitimo das pessoas por intermédio de leis. A realidade mundial não pode ser resumida a análise de casos peculiares, como os EUA. Até há pouco tempo, aconteceram celeuma e polêmica nos EUA sobre a libertação dos escravos, tendo ocorrido inclusive uma Guerra Civil por isso. O mesmo não ocorreu em outros países, onde a escravidão foi abolida.

quarta-feira, 5 de março de 2014

A primeira revolução sexual

Um novo livro mostra que a liberdade sexual não começou com os cabeludos nos anos 1960. Surgiu no século XVIII, por uma aliança de prostitutas, intelectuais e libertinos.

O mundo em que vivemos é um monumento intelectual ao Iluminismo. A superioridade da razão, a primazia da consciência individual e a noção de que as leis da natureza (e não de Deus) governam o mundo são pilares da visão moderna sobre a vida. Essas premissas do Iluminismo estão tão entranhadas na consciência contemporânea que se tornaram parte do senso comum. Mais de 300 anos depois do movimento que sacudiu o mundo cristão e serviu de base às revoluções Americana e Francesa – assim como ao surgimento da ciência e da sociedade como as conhecemos –, ainda é possível encontrar, na mente de um rapaz de 20 anos que caminhe pelas ruas, concepções que vieram diretamente do arsenal iluminista, mesmo em áreas inesperadas e surpreendentes como o sexo.
Uma dessas premissas, que sobreviveu intacta desde 1700, diz respeito à diferença entre a sexualidade dos homens e das mulheres. Por volta de 1700, formulou-se uma tese segundo a qual os homens, como todos os animais, precisam naturalmente de sexo e deveriam estar mais ou menos livres para procurá-lo; e as mulheres, embora filhas da mesma natureza, estão sujeitas a outras regras de procedimento. No caso delas, decidiu-se, a necessidade de sexo era menor, por isso deveriam levar vida mais casta.
“Essa ideia estava em choque com toda cultura anterior desde a Bíblia, que apontava a mulher como naturalmente lasciva, incapaz de conter seu desejo sexual”, disse a ÉPOCA Faramerz Dabhoiwala, historiador da Universidade de Oxford, autor de As origens do sexo – uma história da primeira revolução sexual (Editora Globo, 687 páginas), monumental estudo sobre o sexo na Grã-Bretanha e na América do Norte entre os séculos XVI e XVIII. “Ainda somos tão influenciados pelo período iluminista que reproduzimos até suas contradições, como tratar de forma diferente a sexualidade de mulheres e homossexuais.”
O livro de Dabhoiwala, recebido com aplausos e prêmios no mundo anglo-saxão, revê radicalmente a história da liberdade sexual. Em vez de invenção dos jovens cabeludos dos anos 1960, que incendiaram as ruas de Paris e tomaram as pastagens de Woodstock pelo direito de transar sem casar, ele a atribui a uma conquista de libertinos e prostitutas dos anos 1700, que lutavam nas ruas de Londres e na Justiça contra a polícia dos costumes. O resultado prático desse embate é sintetizado numa estatística: em 1650, apenas 1% das crianças inglesas nasciam fora do casamento. Em 1800, esse número subira para 20%. “Como na época não havia contraceptivos, essa é uma evidência forte de que as pessoas faziam mais sexo. Em todas as classes sociais” afirma Dabhoiwala.
Os antecedentes, o contexto e os detalhes dessa transformação vertiginosa constituem o material de As origens do sexo.
O Estado, antes do século XVIII, tinha o direito de se imiscuir no comportamento íntimo das pessoas, porque não existia a noção da privacidade do corpo ou da vida. Tudo era público, e discutido publicamente, segundo os preceitos da religião e das leis, que se misturavam arbitrariamente. O Estado tinha o direito de investigar, julgar e executar, com base em ritos sumários, que dispensavam a necessidade de evidências factuais e testemunhos isentos. As pessoas eram condenadas por “fama” e “circunstâncias suspeitas”.
Se uma mulher casada permanecesse com outro homem que não fosse seu marido entre quatro paredes, poderia ser condenada à morte por adultério. Se um jovem solteiro de “má fama” fosse acusado de incidir sexualmente sobre uma mulher (ainda que solteira), poderia ser preso, açoitado e exilado por “fornicação”. O sexo entre homens, tratado pelo termo bíblico de sodomia, era punido com a morte. A polícia dos costumes e uma rede vigilante de delatores comunitários cuidavam para que as regras fossem implementadas sem desvios.
Um dos fundamentos desse mundo repressivo era a concordância coletiva em torno de seus valores. O público acreditava que o sexo fora do casamento era pecado. Tinha certeza de que Deus as puniria por seus erros. Concordava que a comunidade tinha o direito de vigiar e denunciar infratores, pois eles poderiam colocar a coletividade em desgraça junto a Deus. Havia vozes que se levantavam para defender que não havia erro em fazer sexo, mas eram tímidas e esporádicas. No livroTrópico dos pecados, que trata da inquisição sexual no Brasil no final do século XVI, o historiador Ronaldo Vainfas mostra que, mesmo na colônia desregrada, sujeita a controle social mais frouxo que nas metrópoles, a maioria moral prevalecia. “Para cada homem que negava haver pecado na fornicação”, escreve Vainfas, “vários diziam o contrário, advertindo o suposto herege e não raro denunciando-o à Inquisição.”
Dabhoiwala mostra como a combinação de uma série de novidades históricas acabou com a unanimidade moral. Primeiro, diz ele, veio o crescimento das cidades. Vigiar e punir, em metrópoles como Londres e Paris, tornou-se virtualmente impossível. O autocontrole das comunidades rurais de 200 pessoas não era aplicável a cidades com quase 1 milhão de habitantes. Depois houve as guerras religiosas entre protestantes e católicos, a partir do século XVI. Elas abriram a porta ao dissenso radical das ideias que levaria, gradualmente, ao rompimento do fundamentalismo religioso e ao questionamento da ordenação divina da sociedade. Por fim, emergiu desse caldeirão de ideias e fatos a noção de indivíduo, onde antes havia apenas Deus, a família e a comunidade. O indivíduo abstrato, com seus direitos e aspirações, passou a ocupar o centro das atenções dos intelectuais e agitadores políticos. É a esse novo homem, um igual entre iguais, que se dirige o preâmbulo da Constituição americana de 1787, ao afirmar o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade.
Quando o médico austríaco Sigmund Freud publicou Três ensaios sobre a sexualidade, em 1905, e estabeleceu a importância do impulso sexual sobre o comportamento humano, houve escândalo e discordâncias. Mas a balança moral já se inclinara em direção à liberdade. Mesmo atacado, Freud podia dizer, anos depois: “A moral sexual – como é definida pela sociedade, e em sua forma mais extrema pelos americanos – parece-me muito desprezível. Defendo uma vida sexual incomparavelmente mais livre”. No tempo dele, a repressão sexual ainda era forte, mas não era mais exercida pela polícia. Ficara a cargo da educação, da família e da religião. Tornara-se ideológica – e podia ser combatida abertamente.
Freud trabalhava sobre a herança de gigantes intelectuais como o enciclopedista Denis Diderot (1713-1784), nas palavras de Dabhoiwala, um “obcecado” pelas questões da moral sexual. “Os iluministas acreditavam que o sexo estava no coração daquilo que definia a humanidade. Ele era absolutamente essencial ao projeto iluminista”, diz Dabhoiwala. “Eles consideravam o sexo como o prazer mais importante da vida, fundamental ao propósito da felicidade.”
Passados 300 anos, é possível identificar esses valores nas ideias que ouvimos e repetimos todos os dias. O sexo evoluiu da condição de pecado para a de manifestação inevitável e saudável de vida. A tolerância em torno dele, seja profissional, seja amador, tornou-se universal. A última barreira é o preconceito contra homossexuais, mas ele perde espaço em toda parte. Apenas nas sociedades pré-modernas, em que o fundamentalismo religioso e os comportamentos tradicionais ainda vigoram, persistem a proibição sexual e as patrulhas do comportamento.
A única forma de progresso inventada pela humanidade exige um grau cada vez maior de liberdade para homens e mulheres. E mais liberdade, como ficou claro em 1700, leva, inevitavelmente, a mais sexo.
Autor: Ivan Martins. Publicado em Época.