quinta-feira, 31 de julho de 2014

Dez mil anos de orgasmo

Hoje celebra-se o Dia Internacional do Orgasmo. Uma boa desculpa para o praticar, é verdade. Mas também para recordar como é que o momento de maior prazer sexual foi retratado, analisado, enaltecido, escondido, temido ou venerado ao longo da história da humanidade. Das pinturas rupestres à internet.
Bendito orgasmo. A nossa vida é determinada por ele: o orgasmo que nos colocou aqui, pobres bípedes; o orgasmo adolescente que marcou a nossa vida madura; o orgasmo adulto que consumou a nossa paixão; o orgasmo que manteve o nosso namoro; o orgasmo que moldou o essencial da graça, e uma fatia da personalidade, dos nossos filhos; o orgasmo que nos terminou com o casamento (este texto é como o prazer: existe um pano de fundo moral, mas não há moralismos). Aquele orgasmo mais pujante que nos interrompeu de vez o coração (se os franceses chamam la petit mort à melancolia após o orgasmo, nós poderíamos chamar bela morte a um clímax fatal).
Pois é: o orgasmo. Andamos todos aqui por causa dele. Com a exceção de um pequeno acontecimento – morrer – e de um grande acontecimento – nascer –, o orgasmo é o momento mais importante da existência humana. Resultado: todas as atividades criativas, ancestrais ou modernas, deveriam refletir essa importância. Mas isso não acontece. Porquê? Antes de mais, porque o poder instituído – todo o poder, do militar ao eclesiástico – tem um medo louco dos orgasmos.
À partida, esse medo não faz grande sentido. Enquanto estamos distraídos com os nossos orgasmos, está cientificamente provado que não pensamos em mais nada (durante o sexo e, sobretudo, em pleno clímax, a zona do cérebro responsável pelo planeamento e pela memória entra de férias). Ora, essa desmiolada fruição deveria fazer as delícias do poder – como a história nos mostra, a ausência de pensamento individual é a primeira condição para o exercício do poder absoluto. Em 1984, de George Orwell, a mais célebre das distopias totalitárias, escrita na desilusão do início da Guerra Fria, todos os cidadãos estão submetidos ao controlo de um superestado, Oceania, cujo Ministério do Amor se dedica à tortura e à lavagem cerebral. A certa altura, o protagonista, Winston Smith, apaixona-se por Julia, fervorosa adepta da Liga Anti-Sexo que, na realidade, odeia tanto Oceania e a temível Polícia do Pensamento como Winston. A desgraça de Winston e Julia surge quando não resistem a fazer amor – não resistem ao orgasmo, e quem os pode censurar? – num quarto alugado por cima de uma loja de antiguidades, ignorando que o quarto pertence a um membro da Polícia do Pensamento. Porém, mesmo após quebrarem nos interrogatórios do Ministério do Amor, Julia e Winston sabem – e essa é uma das mensagens de Orwell – que nunca foram tão livres, e tão autónomos da multidão, como quando se entregaram um ao outro. O amor – e o orgasmo que consagra esse amor – é uma expressão maior da individualidade, a máxima fuga ao poder coletivo. Não admira que os estados – religiosos e laicos – tenham passado boa parte do seu tempo a tentar controlar ou a ocultar os nossos orgasmos.
Nem sempre foi assim. Paradoxalmente, ao contrário do que o livre arbítrio amoroso, a multitude de expressões sexuais, o fácil acesso à pornografia, a liberalização de costumes e o alegre deboche da vida contemporânea podem deixar entender, estamos hoje muito mais distantes do culto do orgasmo do que no período fundacional da humanidade. Mas existe um elo comum aos dez mil anos de história humana, a ocidente e a oriente: todas as grandes iniciativas éticas, religiosas, culturais e artísticas da civilização pressupõem uma tentativa de reprimir ou de exaltar o orgasmo. Se o sexo sempre esteve em todo o lado, a vontade de o ocultar não esteve menos presente.
No início era um regabofe. De Lascaux, no Sudoeste francês, às grutas indianas de Madhya Pradesh, não havendo tantas pinturas rupestres de entusiasmadas cópulas como as há de caça à gazela ou ao bisonte – a fome de sobrevivência era um bocadinho superior à fome de sexo –, existem em número de sobra para atestar a extasiada sapiência do Homo sapiens. As numerosas esculturas de Vénus, essa espécie de indústria pornográfica avant la lettre, descobertas nas montanhas e cavernas do Mesozoico e do Paleolítico, reproduzem mulheres de ancas enormes e seios anormalmente grandes, símbolos de fertilidade tão importantes como os falos gigantescos, comuns a culturas como a etrusca, a egípcia ou a romana, ubíquos do Japão ancestral à primitiva Escandinávia.
Logo que a pintura se refinou, surgiram os relatos suculentos, glorificando o êxtase. O Papiro Erótico de Turim, originário da dinastia egípcia de Ramsés, entre os séculos xiii e xii a.C., é um bom exemplo de transgressão, expondo um respeitabilíssimo bacanal. Os gregos, entre a criação do teatro, da prosa, da filosofia e da República, pelavam-se por um orgasmo de qualidade, sobretudo entre pessoas do mesmo sexo – se a pederastia prevalecesse, tanto melhor, e até a própria palavra vem do grego, orgasmos (literalmente, «o inchaço do órgão»). O homoerotismo saltitava a par da menoridade da mulher e dos escravos, mas sempre sobrava espaço para o lesbianismo, como atesta o sugestivo Hino a Afrodite, da poetisa Safo. No entanto, os limites eram claros: o incesto, talvez a mais importante senha de organização social da história (o facto de as dinastias centenárias e milenares, pelo terror de perderem o controlo do seu destino, serem ougadas por consanguinidade, é uma exceção que apenas confirma a regra), é o tema da peça matriz do Ocidente, Édipo Rei de Sófocles. Nela, o protagonista, sem o saber, desposa a mãe, Jocasta, e mata o pai, Laio. Ao descobrir a caldeirada em que, inadvertidamente, se meteu, Édipo fura os olhos, enquanto Jocasta se mata. Uma verdadeira tragédia grega.
Édipo Rei é importante porque traça as fronteiras do orgasmo: alegre cópula com vizinhos, vizinhas, menores, maiores, generais e prosadores, meretrizes do templo ou prostitutos de rua? À vontade do freguês. Mas nunca desejem um filho, ou a mamã. O orgasmo perde, formalmente, o seu direito à absoluta liberdade.
Porém, não perderá o lugar ao centro da cultura ocidental. A Odisseia, de Homero, não é mais do que a história do adiamento de um orgasmo: Penélope espera, espera, espera por Ulisses, mas sairá recompensada com a noite de uma vida. E a mais importante guerra da Antiguidade, a batalha de Troia, é um hino ao entusiasmo da gulodice: Páris, filho do rei grego Príamo, conhece Helena, a mulher de Menelau, rei de Esparta, num banquete. Vê-se grego para a conquistar, mas, sedento de desejo, acabará por raptá-la, levando a um conflito de proporções lendárias.
O apetite do orgasmo pode arrasar com civilizações. Não foi suficiente para liquidar o Império Romano – o laxismo dos governantes, o cansaço das instituições e a corrupção generalizada ajudaram à festa –, mas a vilanagem sexual, enquanto durou, foi inesquecível. As cidades de Pompeia e Herculano estão saturadas de vasos e de murais com rapaziada crescida a brincar com os apetites dos miúdos, e há ménages a trois nas paredes de veneráveis saunas e prostíbulos. Machões empedernidos apenas na aparência (o «amor grego» entre homens adquiriu estatuto de prestígio nos romanos, desde que praticado com profissionais da matéria), os cidadãos de Roma permitiram que as mulheres respirassem um pouco mais na sua emancipação. Ovídio, esse sensualista, escreveu a sua Ars Amatoria, êxito na tabela de vendas do século i, incentivando as senhoras à masturbação («sozinhas, sem a sua ajuda, as palavras virão em tropel e, no leito, a mão esquerda não ficará parada; os dedos encontrarão o que fazer do lado onde misteriosamente o amor mergulha os seus traços»). Aconselhou-as também a fingirem o orgasmo para conquistar os amantes, um conselho perfeitamente atual, e, aos homens, sugeriu-lhes que exagerassem nos piropos às mulheres (idem aspas).
Mas eis que surge, quando todos andavam bastante entretidos, o inimigo figadal do orgasmo: o cristianismo. O Antigo Testamento já simulara fugir do sexo, em invulgar hipocrisia, como o Diabo da cruz: estamos a falar de um livro que venera Abraão, filho de Noé, que foi pai do oitavo filho, Isaac, aos 100 anos, quatro milénios antes dos ginásios e do Viagra; que coloca o rei David a encontrar a plenitude sexual ao lado do companheiro Jonathan; e onde, num excerto do Cântico de Salomão, se exclama «O meu amor introduziu a sua mão no buraco, e o meu interior gemeu por ele» (capítulo V, versículo IV).
Quanto ao judaísmo, encarregou-se de catapultar os sentimentos de culpa associados ao amor carnal para níveis estratosféricos. Com o estrondoso sucesso do cristianismo, surgirá uma fundamental mudança de mentalidades, rumo à compaixão, à solidariedade, ao amor pelo próximo. Mas deflagra também o maior ataque ao prazer do corpo que a história jamais conhecera. Irrompe a Idade Média, e o orgasmo torna-se a besta escondida na longa noite dos tempos.
No século v, Santo Agostinho irá encarregar-se, quase sozinho, de elaborar a infame teoria do pecado original, substituindo o hedonismo das trincadinhas de amor pelo inferno a que estamos condenados desde a trincadela na maçã de Adão e Eva. Por portas travessas, Umberto Eco, graças ao popularíssimo romance O Nome da Rosa, explicou bem o que se passaria em seguida. No livro, William de Baskerville, monge franciscano, descobre que, por trás de uma série de homicídios numa abadia italiana do século xiv, se esconde a vontade férrea de ocultar um conjunto de obras apócrifas, atribuídas a Aristóteles, onde o riso é exaltado. Não há melhor metáfora para o orgasmo: se os conventos e as abadias da Europa medieval se converteram em responsáveis maiores pela preservação das grandes obras literárias da Antiguidade, essas mesmas obras foram cuidadosamente resguardadas do povo, entidade selvagem e primitiva, dada à insensatez da carne. Porquê, então, o riso em O Nome da Rosa? Porque o riso é alegria, insurreição, individualismo. Liberdade. O mesmo acontece com o orgasmo. O orgasmo é poder. Poder de criar, de decidir, de escolher, de negar. De viver fora da estrita ordem estabelecida. E nada aterroriza mais do que o livre-arbítrio.
A literatura e a pintura medievais ocultam o orgasmo como quem coloca um pano sombrio para encobrir o indescritível, o que não se pode nomear. A simples nudez demorará séculos a reaparecer. Fá-lo timidamente com os primeiros «Adão e Eva», ou através do corpo despojado de Cristo.
Mesmo na explosão do Renascimento, o orgasmo espreita ao fundo. A mais bela nudez feminina surge ainda sacralizada, agora através dos deuses gregos e romanos, como em O Nascimento de Vénus, de Botticelli. Mas, ao menos, há curvas, ventre. Sorrisos. E a concha gigante da tela, seguindo as sugestões clássicas, é a inegável representação de uma vagina. Era preciso começar por algum lado.
Apenas 54 anos depois, em 1538, Ticiano pinta a sua Vénus de Urbino: o paganismo converte-se em realidade, o divino em carne; as coxas são coxas; os seios destapam-se. Botticelli ainda pusera o braço a tapar as maminhas da sua deusa e os dedos da mão esquerda (a mão errada, diabólica) da Vénus tocam a púbis, insinuando-se junto ao clítoris. La Fomarina, de Rafael, oferece-se ao coito, Caravaggio inaugura a estética sado-maso – há mais cordas a apertar corpos nus na pintura do génio milanês do que na fotografia pornográfica de Nobuyoshi Araki, 500 anos depois – e reinaugura um ardente e desesperado homoerotismo. Michelangelo sublima os prazeres do orgasmo homossexual em Centauromaquia, aprimora os músculos e o pénis – pequeno, como manda a tradição helénica – do seu David, cinzelando um oferecido e efeminado Escravo Moribundo. O orgasmo, em todas as suas variações sexuais, está de volta.
Hoje, é surpreendente o pouco que se conhece sobre o orgasmo, sobretudo na versão feminina. A ejaculação das mulheres continua a ser um pequeno tabu. Há várias teorias quanto à localização do ponto G, presumível nirvana do êxtase nas mulheres. Não há avaliação científica definitiva quanto ao orgasmo vaginal, e a maioria dos investigadores tende a considerar que este é uma variação indireta do orgasmo clitoriano, resultado da pressão das paredes musculares superiores e anteriores da vagina que possuem ligações nervosas ao clítoris. Ignora-se, aliás, se existem, ou existiram, vantagens evolutivas no clítoris (desconfia-se que não, que será como os mamilos masculinos, sem função darwinista que se veja). E, convenhamos, quantos homens têm um conhecimento extenso e profundo da prodigiosa «pequena colina»? Sabe-se apenas que o orgasmo é a mais singular, extraordinária e definitiva sensação de euforia.
Continuamos, claro, aterrorizados com o seu poder diferenciador, a sua liberdade, a sua força no triunfo dos sentidos face à ordem pública. Os séculos xvi a xix bem nos tentam ajudar. Júpiter e Io, de Correggio, mostra uma ninfa bem nutrida a deleitar-se com um espesso nevoeiro cinzento, de mãos gigantescas agarrando-lhe o dorso e a cintura, como quem diz «possui-me». Pieter Paul Rubens, da escola flamenga, pintou os esplendores da carne, abundante, despojada, menos erótica do que sexual, pronta para a paródia hedonista, contrariando os horrores da guerra e os preconceitos do Estado.
Goya, outro génio, agora espanhol, pintou entre 1790 e 1800 La Maja Desnuda. É uma mulher bonita, disponível, confiante, a olhar para nós, provavelmente inspirada na duquesa de Alba ou em Pepita Tudó, princesa de Bassano e duquesa de Alcudia, amante de quem encomendou o quadro, Manuel Godoy, antigo primeiro-ministro de Carlos IV. Como se atrevera Goya a pintar uma mulher assim, altiva, pronta a receber prazer, pronta a concedê-lo, fora das referências clássicas, da caução helénica, do enquadramento religioso? Claro que a Inquisição proibiu a exposição da tela.
Cerca de seis décadas depois, Édouard Manet, um dos papás do impressionismo, foi ainda mais longe: Olympia, descendente direta da Vénus de Urbino e da Maya Desnuda, retrata agora uma prostituta parisiense, a olhar de novo para nós, ávidos pecadores, orquídea no cabelo – as conotações sexuais da orquídea são tão remotas como a história do orgasmo –, um gato preto a agitar-se na cama (é a felina animalidade do sexo) e um ramo de flores tombado sobre os lençóis, oferta comum após os serviços prestados ao cliente. Claro que a tela demorou dois anos até obter autorização para ser vista, e apenas o conseguiu sob grande escândalo. Nem mais um ano passou para que fosse dada a machadada final nas tentativas de encobrir as delícias do orgasmo: com L’Origine du Monde, Gustave Courbet, um impenitente realista, oferecia ao espetador, agente policial ou juiz escandalizado, uma vagina em plano frontal, sem rosto que lhe identificasse a posse, de exuberantes pelos púbicos. Claro que foi religiosamente ocultada, e apenas em 1995 se tornou parte da exposição permanente do Musée d’Orsay, em Paris. A ousadia de Courbet é tão atual que, em fevereiro de 2009, um grupo de agentes da PSP de Braga apreendeu as cópias de Pornocracia, da cineasta e escritora francesa Catherine Breillat, à venda numa feira local, porque o livro exibia na capa uma reprodução de L’Origine du Monde. A PSP bracarense alegou «iminência de confrontos físicos» para justificar o confisco das cópias do livro.
Sendo a história de uma cíclica teimosia, o medo do sexo – e o pânico do orgasmo – regressou em força por meados do século xix. O romantismo gótico, e os seus suores frios e paninhos quentes, atiçaram o temor. Em O Monte dos Vendavais, de Emily Bronte, Catherine e Heathcliff levam o tormento do amor além-tumba, com os fantasmas da necrofilia a tomarem parte na relação, como se o orgasmo fosse punido por mil castigos caso consumado na vida terrena. Já à entrada do século xx, o irlandês Bram Stoker escreve uma exemplar e aterradora parábola sobre os riscos do orgasmo: o conde Drácula, visitado por um agente imobiliário vitoriano, Jonathan Harker, toma conhecimento da noiva deste, a jovem percetora Wilhemina «Mina» Murray; apaixonando-se por Mina, o conde, imortal desde que começou a sugar o sangue de jovens virgens, acabará por morder – leia-se penetrar – a virgem Mina, não sem antes fazer gato-sapato da melhor amiga desta, Lucy Westenra. Drácula é um conto de advertência sobre os horrores do amor carnal – as doenças venéreas, como a sífilis, proliferavam à época, e podiam matar. Trata-se o sexo como uma doença infetocontagiosa. A cama como arena profana. E o orgasmo como antecâmara da morte.
Cem anos depois, o que mudou? É verdade que o orgasmo se tornou moeda corrente. Está à distância de um clique no rato, de um toque de telemóvel, de uma instrução no comando. E de um instante de consensual felicidade. Mas os governos de todo o mundo continuam a legislar sobre o que se passa debaixo dos nossos lençóis – ou em cima da nossa mesa de cozinha – mutilando o corpo e o prazer de crianças e adolescentes (a excisão genital feminina), condenando mulheres à morte por apedrejamento em caso de infidelidade, impedindo uniões de facto e casamentos entre casais do mesmo sexo, continuando a regular parte da sexualidade dos maiores de 16 anos, levando presidentes até ao limite do impeachment por ejacularem em vestidos baratos. Se o vestido de Monica Lewinsky fosse Gucci ou Dior, sempre daria mais classe à ocorrência (e também não terá ajudado que o dito governante mentisse sobre o assunto). E transformando Miley Cirus, uma miúda com excesso de dentição e défice de autoestima, numa sex symbol de quarenta quilos agarrada a uma bola de demolir prédios.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O mundo é dos humanos

Estamos em pleno século XXI, mas ainda temos que conviver com a ótica maniqueísta, onde existe apenas uma opção, dentro de uma dicotomia excludente. Ou se é “de direita”, ou se é “de esquerda”. Ou se é “proletariado” ou se é “burguês”. Ou se é “capitalista” ou se é “socialista”. Ou se é “conservador” ou se é “progressista”.

As diferenças existem e nós percebemos, discernimos e categorizamos uma mesma coisa ou pessoa em suas características. Para compreendermos o mundo, a vida e a realidade, é necessário estabelecer esses critérios de percepção. No entanto, não se pode incutir um tipo de valor moral para as diferenças, isto não é estabelecer diferenças, mas querer justificar a segregação, a discriminação, o preconceito e a intolerância.

A polarização extremada do mundo em uma ótica maniqueísta tornou possível diversas atrocidades e crimes, mas a vida, o mundo e a realidade são compostos por um enorme espectro que existe entre dois polos. A humanidade deve perceber e celebrar a diversidade, respeitando as diferenças e reconhecendo os direitos humanos a toda pessoa.

Quando eu escrevo textos criticando a postura do Cristianismo ou da Comunidade Pagã, eu o faço exatamente para informar dos critérios de percepção, para evitar a impostura de certos discursos e para evitar confusões. A liberdade de expressão e religiosa não são desculpa para divulgar mentiras. Nem a diferença pode ser justificativa ou explicação para a discriminação, o preconceito, a segregação e a exclusão social.

Este texto tem como base o artigo de João Pereira Coutinho, “O mundo é dos bárbaros”, publicado na Folha de SP. Como pagão, eu acredito ser necessário explicar melhor de onde vem e o que significa “bárbaro” e “civilizado”, bem como fazer uma análise crítica do discurso oficial, do discurso dominante, onde se atribuem valores morais ao “bárbaro” e ao “civilizado”.

Na antiguidade, “bárbaro” foi usado a princípio pelos gregos, para dar um nome pejorativo para tudo que fosse diferente. Os romanos, quando conquistaram o mundo antigo, adotaram o apelido para usá-lo contra os povos conquistados e os que invadiam o Império.

O discurso oficial sempre utilizou da linguagem para justificar a supremacia de um grupo, sobre o dominado, o submisso, “a minoria”. Nisto consiste o pior tipo de “humor”, onde não tem graça alguma vilipendiar uma pessoa simplesmente por ser “diferente”, humilhar outra pessoa por suas características é uma péssima piada.

Nem Freud conseguiria explicar porque aqueles que detêm o poder político e social precisariam explicar ou justificar essa relação de poder. Nem conseguiria explicar porque há tanta neurose e paranoia quando surge algum movimento de resistência, um movimento humanista, apontando para o óbvio que todos nós somos humanos e que a segregação, a discriminação e o preconceito são produtos da ignorância.

O inverso, o oposto, o “adversário” do mundo “bárbaro” é o mundo “civilizado”, que de civilizado nada têm, basta considerarmos os males e crimes cometidos na Colonização e nas Duas Guerras Mundiais. O mundo civilizado ocidental foi construído em cima do genocídio e aculturação de diversos povos, sustentado pelo racismo, pelo patriarcado, pela misoginia, pelo sexismo, pelo fascismo.

A luta pelos direitos humanos para todos surgiu no início da Era Moderna, embora a ideia seja bem mais antiga. O mundo contemporâneo não teria surgido nem viveríamos na realidade do Estado de Direito se essas lutas não tivessem acontecido. Isso ainda balança certos grupos, aferrados aos seus privilégios dentro de uma estrutura social, sentem-se ameaçados em seu poder e influência sociais quando “minorias” lutam pelos seus direitos, sentem-se acuados quando a discriminação, o preconceito e a segregação são contestados. Como não tem argumento racional para explicar ou justificar suas posturas reacionárias, acusam os discursos humanitários como sendo “patrulhas do politicamente correto”. O recurso mais barato do culpado é tentar acusar a vítima de algum crime. Nada mais errado, o que está em questão é que as leis, em um Estado de Direito, deve ser garantidos a todos, não a poucos. Os privilégios que uma pessoa tem é uma concessão, não um direito. Ninguém pode usar de sua posição privilegiada para discriminar, segregar ou humilhar outro ser humano. Não há mais espaço, no mundo contemporâneo para a discriminação, o preconceito e a intolerância.

Todos nós somos bárbaros e civilizados, todos nós somos proletariados e burgueses, todos nós somos socialistas e capitalistas, todos nós somos humanos.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Declaração do Congresso Europeu de Religiões Étnicas

Nós, os delegados de doze diferentes países em convénio no Congresso Europeu de Religiões Étnicas. em Vilnius, Lituânia, neste dia 9 de Julho de 2014, juntamos as nossas forças para fazer a seguinte declaração:

Nós somos membros de diversas culturas étnicas indígenas europeias que procuram revitalizar e reclamar as nossas tradições espirituais e religiosas ancestrais. Honramos os que existiram antes de nós, que nos deram a nossa vida e a nossa herança. Estamos ligados às terras dos nossos ancestrais, ao solo que tem os seus ossos, às águas das quais eles beberam, às estradas em que eles andaram. E procuramos passar essa herança aos que vierem depois de nós, cujos ancestrais estamos nós a tornar-nos - os nossos filhos, os nossos netos, e as muitas gerações ainda por nascer. Enviamos solidariedade e apoio a todas as outras nações, raças e religiões indígenas que estão também empenhadas em lutar para preservar as suas próprias heranças ancestrais.
As nossas religiões étnicas são o produto da História deste continente; são as expressões vivas, no presente, das nossas tradições e identidades mais antigas. Num tempo em que o mundo está precariamente equilibrado no limite da revolta ambiental e económica, em grande parte como resultado de um individualismo desequilibrado e ganância rampante, as nossas religiões promovem modelos muito diferentes de valores espirituais e sociais: viver em harmonia, equilíbrio e moderação com a Terra; a importância da família e da comunidade cooperante; o respeito e honra para com todas as formas de vida.

Todavia, em muitos países da Europa a prática das nossas religiões está impedida, restringida e por vezes proibida. Apelamos a todos os governos europeus a satisfazer totalmente, e reforçar activamente, as provisões a garantir a liberdade de religião a todos os cidadãos como estipulado nos Tratados da União Europeia, a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e outras convenções similares e acordos, e a abster-se de garantir um tratamento preferencial a algumas religiões sobre outras. Pedimos também que esta igualdade seja reflectida nos sistemas educacionais europeus.

Apelamos a todos os nossos governos que activamente se envolvam na preservação e protecção dos nossos locais sagrados europeus - sejam eles edificações humanas ou espaços naturais. Pedimos além disso que haja acesso livre e aberto a estes sítios por parte dos praticantes das religiões étnicas europeias que procurem usá-los para os propósitos de culto e celebração espiritual. Não procuramos a propriedade ou direitos exclusivos a esses locais - a terra não nos pertence, nós pertencemos à terra.

Opomo-nos ao uso do termo «pagão» por quaisquer grupos políticos extremistas, dado que isso se reflecte negativamente na nossa reputação.

Finalmente, apelamos a todos os Povos e a todas as Nações para que coloquem o bem-estar da Terra - que é, literalmente, a nossa Mãe Viva - acima de todas as outras prioridades.
Enviamos esta mensagem em amizade, amor e respeito.
Andras Corban Arthen (Presidente), Anamanta, Spain/U.S.A.
Ramanė Roma Barauskienė, Lituânia
Martin Brustad, Noruega
Nina Bukala, Werkgroep Hagal, Holanda
Alexander Demoor, Werkgroep Hagal, Bélgica
Valentinas Dilginas, Kuzšei Žemaicĭai, Lituânia
Sören Fisker, Forn Siđr, Dinamarca
Federico Fregni (Board Member), Societas Hesperiana, Itália
Marianna Gorronova, República Checa
Lars Irenessøn (Board Member), Forn Siđr, Dinamarca
Irena Jankutė-Balkūnė (Board Member), Romuva, Lituânia
Runar Kartsen, Forn Sed, Noruega
Daniele Liotta (Board Member), Movimento Tradizionale Romano, Itália
Silvano Lorenzoni, Federazione Pagana Italiana, Itália
Anna Lucarelli, Movimento Tradizionale Romano, Itália
Sachin Nandha, Reino Unido
Zdenek Ordelt, República Checa
Elisabeth Overgaauw, Werkgroep Hagal, Holanda
Eugenijus Paliokas, Šventaragis Romuva, Lituânia
Staško Potrzebowski, Rodzima Wiara, Polónia
Prudence Priest, Romuva, EUA
Marina Psaraki, Y.S.E.E., Grécia
Vlassis G. Rassias, Y.S.E.E., Grécia
Valdas Rutkūnas, Romuva, Lituânia
Ignas Šatkauskas (Board Member), Romuva, Lituânia
Øyvind Siljeholm, Forn Sed, Noruega
Dovile Sirusaitė, Lituânia
Eleonora Stella, Societas Hesperiana, Itália
Inija Trinkūnienė, Romuva, Lituânia
Ram Vaidya, Reino Unido

Fonte: Gladius

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Se Cristo fosse mulher

Neste blog eu escrevi textos analisando as raízes do Cristianismo, sua história, doutrina e estrutura. Também tem um texto humorado onde se imagina o que aconteceria se o Papa fosse mulher. Acredito ser desnecessário ressaltar a incompatibilidade do Monoteísmo com o Politeísmo, do Cristianismo com o Paganismo.

Entretanto houve uma época onde esse abismo não estava tão nítido e definido, haviam religiões antigas “pagãs” que tinham um enfoque na questão do “pecado”, na expiação individual e na “redenção” do “pecador” por intermédio da ação de um Deus, um “Salvador”. Diversas ordens esotéricas, religiões de mistério e ordens iniciáticas existiram antes do Cristianismo, o influenciaram, conviveram e foram assimiladas pelos cristãos primitivos. As primeiras comunidades cristãs eram um caldo sincrético, onde o misticismo judaico confluiu com o misticismo pagão, judeus helenizados congregavam com gentios.

Isto que comumente chamamos de Cristianismo, seja Católico ou Protestante, foi o resultado de um longo processo histórico, mas que está longe de representar o Cristianismo como um todo. O Cristianismo em sua origem consistia de grupos que tinham diferentes Evangelhos, doutrinas, estruturas e práticas. Muitos destes não aceitam os Concílios que resultaram na Igreja Católica, não fazem parte da Igreja Ortodoxa e não fazem parte da Igreja Protestante.

Isto que chamamos de Cristianismo está baseado em um texto sagrado chamado Evangelho, cuja autenticidade, originalidade e veracidade são discutíveis. Dependendo da vertente, o Evangelho é composto por textos diferentes, tem autores diferentes e frequentemente os conteúdos são contraditórios. Torna-se muito difícil chegar a uma conclusão de quem era e o que ensinou Cristo. No entanto, suscitou muita polêmica e revolta entre os cristãos quando foi lançado o livro intitulado “Judith Christ of Nazareth, the Gospels of the Bible, Corrected to Reflect That Christ Was a Woman”, do Institute LBI, unicamente por afirmar, segundo a interpretação de um Evangelho, que Cristo era mulher.

Na história do Cristianismo, quando estudamos vertentes conhecidas como heresias, não podemos nos esquecer de que os hereges ainda eram cristãos. Quando lemos textos do Cristianismo, ao lidarmos com os textos não canônicos conhecidos como Apócrifos, ainda assim são textos cristãos. Livros como Nag Hamadi e outros textos Gnósticos dão um bom exemplo de como as noções mais aceitas como sendo pertencentes ao Cristianismo tornam-se difusas e nebulosas.

Considerando que “Cristo” é um título e que títulos são concedidos tanto a homens quanto mulheres, este título é comum entre dois gêneros. A coisa complica bastante quando levamos em consideração que Cristo é uma palavra grega, uma péssima tradução do hebraico Ha-Massiah, significando “Ungido”. Mesmo o nome Jesus tem origem grega, resultado de uma transliteração de Iesus, outra péssima tradução do nome hebraico Yheshua. Este personagem, histórico ou não, era o líder rabino dos judeus helenizados que congregavam junto com os gentios, da congregação messiânica dos Nazarenos, da raiz Notzri, não porque eram originários da cidade de Nazaré. Como em outras congregações judaicas messiânicas, acreditavam que a vinda do Ha-Massiah era iminente e que depois viria o Juízo Final. Como em todas as congregações judaicas, era extremamente sexista, patriarcal e misógina. Mas para os gentios e suas crenças era normal e natural que uma mulher fosse a Iniciadora, a Profetisa e a Sacerdotisa. Em grupos com mais gentios que judeus, não apenas as mulheres estavam presentes na organização e na estrutura da ecclesia, como também Cristo era mulher. Mas estes eram os hereges que foram combatidos, censurados, perseguidos, presos, torturados e executados pela Igreja.

Pouco ou nada foi escrito no Evangelho da Igreja sobre a importância e o papel da mulher no Cristianismo. A despeito disso, o Evangelho canônico contém trechos que conflitam com a visão sexista, patriarcal e misógina contida no Cristianismo oficial. Considerando que a Bíblia foi uma invenção recente na história do Cristianismo e da Igreja, há uma enorme probabilidade que os santos padres escolheram e pinçaram os textos e trechos que os agradavam e interessava para a sustentação do poder e autoridade da Igreja. Aquilo que o padre ou pastor lê para os cristãos é uma fabulosa fraude que não contém os verdadeiros ensinamentos de Cristo. Pode ser que algum dia os ensinamentos de Cristo Mulher sejam achados e divulgados. Isso certamente vai acabar com a Igreja, seja a Católica, a Ortodoxa ou a Protestante. Se isso vai modificar ou acabar com o Cristianismo tal como é concebido hoje em dia, apenas Deus sabe.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Nag Panchami

Nag Panchami é um festival que ocorre no 15º dia (Panchami) da lua brilhante do mês de Shravan (Julho/Agosto), e onde as pessoas adoram a serpente ou “Nag”. Este dia é conhecido como o festival das serpentes, e é exatamente nesse período em que os buracos onde as cobras habitam se enchem de água da chuva fazendo assim que elas saem para buscar abrigo.

Os hindus visitam os templos que são especialmente dedicados as serpentes, sendo os preferidos os Templos de Shiva (personagem mitológico), pois segundo a filosofia hindu as serpentes são consideradas queridas por ele.
Algumas celebrações realizadas nesse dia:

* Esculpem serpentes utilizando esterco de vaca, colocando do lado de fora, ao lado da porta, como um sinal de boas vindas para o semideus das serpentes.

* Vão até os formigueiros ou cumpinzeiros adorar as serpentes, crendo que elas os habitam. Ou então fazem um espécie de capuz, colocando sobre o formigueiro ou cupinzeiro, feito de Gandha (pigmento aromático), Halad-Kumkum (Tumerique em pó), Chandan (pasta de sândalo), e Keshar (açafrão), colocando num prato de metal e fazendo a adoração.

* As mulheres fazem uma adoração especial para Ananta (a serpente de mil cabeças, onde Vishnu - personagem mitológico - repousa no oceano de leite); a serpente cósmica nos templos.

* Os adoradores de serpente procuram por ocos nas árvores, nas florestas, onde as serpentes possam estar. Quando eles encontram um oco de uma árvore, eles fazem visitas periódicas, colocando leite, bananas, e outros alimentos diante deles, especialmente para agradar as serpentes.

* Escavação da terra está proibida neste dia, porque as serpentes vivem por baixo da terra, assim sendo, ninguém do mundo deve feri-las ou perturbá-las.

* As mulheres fazem desenhos de serpentes nas paredes de suas casas, usando uma mistura de pó preto, esterco de vaca e leite. Então, são oferecidos leite, Ghee (manteiga clarificada), água e arroz doce. Elas crêem que por estas oferendas as serpentes jamais irão picar qualquer membro da família.

* Encantadores de serpentes vão de casa em casa carregando serpentes adormecidas dentro de cestas, pedindo por esmolas e roupas.

* Os altares de muitas casas possuem serpentes de cobre ou prata, que são adoradas com leite e doces, junto com preces da família, pedindo o bem de todos e prosperidade.

O Nag Panchami tem ligação, também, com o passatempo ou Lila de Krishna. Certa feita, quando Krishna ainda era um jovenzinho, ele estava jogando bola na beiro do rio, quando a bola caiu no alto de uma árvore. Então, Krishna subiu na árvore e sacudiu os galhos, e a bola caiu dentro do rio Yamuna. Naquela região, vivia uma serpente macho, chamado Kaliya, e que amedrontava e todos, controlando toda a parte do rio.

De repente, Krishna caiu da árvore dentro da água. Então, a terrível serpente veio para pega-lo. Mas Krishna, prontamente, subiu em cima da cabeça da serpente e pegou-a pelo pescoço. Percebendo a imensa força de Krishna, Kaliya logo viu que ele não se tratava de uma pessoa comum, percebendo que não seria fácil vencê-lo. Sentindo-se perto da morte, a serpente disse para Krishna: “Por favor, não me mate”. Krishna encheu-se de compaixão, fazendo com que a serpente prometesse, que de agora em diante, que não iria mais molestar ninguém. Então, Krishna deixou Kaliya livre no rio novamente.

Fonte: Satyam

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Marãiwatsédé. Aqui viviam nossos ancestrais

Depois de quase 50 anos, Terra Indígena Marãiwatsédé é retomada por seus verdadeiros donos. 'A terra é a mãe do índio', diz o cacique Xavante Damião.

Nem os dias quentes de sol a pino desanimam a criançada de jogar a pelada. No intervalo das aulas, meninos e meninas correm para o centro da aldeia e atrás da bola. Aproveitam cada minuto com garra e determinação, como tem sido a luta dos Xavante de Marãiwatsédé nos últimos 50 anos. No final da tarde, dois times de meninas adolescentes, uniformizadas, treinam, correm, chutam forte – com os pés descalços –, gritam, comemoram e se divertem. O campinho com trave de pau fica na outra extremidade, próximo às casas construídas mais recentemente, de alvenaria, mas no estilo tradicional Xavante. As crianças menores assistem enquanto se distraem com outras brincadeiras.
O rio, a 500 metros da aldeia, é outra diversão. As crianças brincam e se banham, enquanto as mulheres lavam roupas e utensílios. A água usada na higiene pessoal de todos os moradores não é potável. O rio, assim como o Ró (denominação usada pelos Xavante para definir seu ecossistema) está “enfraquecido” devido ao desmatamento e às fazendas dos arredores. Para beber e cozinhar recorrem a um poço artesiano. Próximo ao poço, na entrada da aldeia, um gerador fornece energia para bombear a água e carregar os celulares, usados basicamente para armazenar e ouvir músicas, em especial de compositores da etnia. Sinal, só bem distante dali, já perto do posto da Fundação Nacional do Índio (Funai).
Ao cair da noite, no warã, numa roda iluminada pela ­fogueira, se reúnem homens adultos e anciãos para compartilhar aconteci­mentos importantes do dia que se vai. Os anciãos falam ­durante a maior parte do tempo, o silêncio e a atenção dos homens se fundem aos estalidos da madeira que queima. Um pouco antes do encontro, percorre a aldeia o canto dos wapté, meninos Xavante reclusos no Hö, casa dos adolescentes, onde permanecem por cinco anos, em processo de iniciação à fase adulta.

Um dos assuntos no warã é a reunião do dia seguinte sobre um perigo que paira sobre a aldeia e toda a área da terra indígena: as queimadas. “Conter o fogo hoje é mais difícil que antigamente, nas pastagens ele se espalha muito rápido”, diz o cacique Damião Paridzané. Estarão reunidos integrantes da Funai, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), bombeiros, brigadistas, anciãos, homens, mulheres, jovens. O objetivo é delinear ações de prevenção e combate. A preocupação é constante no período da seca, de maio a outubro. São temidos incêndios criminosos por parte de fazendeiros e posseiros insatisfeitos com a retomada da terra pela comunidade indígena. “Se inimigo nosso, de passagem, coloca fogo, queima tudo”, alerta Damião.
A preocupação tem fundamento. Em agosto passado, cerca de 30 mil hectares (área do tamanho da cidade de Belo Horizonte) foram consumidos por chamas de origem criminosa. A equipe de brigadistas do Prevfogo, do Ibama, localizou 120 focos de incêndio no interior da área indígena, a maioria perto de rodovias que a cortam ou circundam. O fogo ateado em várias partes e a precariedade das estradas, ou a falta delas, tornam o acesso à área, a fiscalização e o combate aos incêndios tarefas quase impossíveis.
Durante a reunião, o cacique pede por um carro e por estradas. “Temos de evitar o fogo, Ibama precisa ter apoio, parceria e aliança dos índios. Estamos pedindo para arrumar estrada dentro da área pois o tempo de seca está chegando”, insiste. A professora Carolina Rewaptu intervém: ­­ “O povo indígena tem muito conhecimento que hoje o branco tá estudando sobre meio ambiente e preservação. O branco fala que é educação ambiental, como preservar o meio ambiente; esse é o nosso conhecimento”.

A mata de volta

Na única aldeia da Terra Indígena Marãiwatsédé, em Mato Grosso, vivem 1.130 indígenas, população considerada numerosa para os padrões da etnia. São 83 casas dispostas em forma de semicírculo. Tem também o Hö, a igreja, o posto de saúde, uma casa assistencial, a escola e a casa da ONG Operação Amazônia Nativa (Opan), todas fora do semicírculo. “Tá aumentando a população, crianças estão nascendo... Queremos encher a terra de Marãiwatsédé”, conta Damião.
Em breve devem ser fundadas duas novas aldeias, com 200 pessoas em cada. “Senão o pessoal vai continuar entrando. Temos de ocupar as pontas da terra indígena para proteger, e a cada ano fundar aldeia nova”, afirma o cacique. “Precisamos conseguir recursos para fazer estradas novas e pontes.” As estradas facilitarão o acesso e a fiscalização dos 165 mil hectares da TI Marãiwatsédé – área um pouco maior que a da cidade de São Paulo.
Fazendas e pastos era o que mais existia na terra Xavante antes da reocupação, iniciada em 2004 e finalizada em janeiro de 2013, quando terminou o primeiro processo de desintrusão (retirada) dos não índios. A terra que os índios receberam está muito diferente daquela que deixaram em 1966, quando foram colocados num avião da FAB e levados para a Missão Salesiana de São Marcos, em Barra do Garças.
Damião era menino, mas lembra. “Nossos pais andavam dentro da mata virgem, grande, perigosa, cheia de bicho bravo, ­porcão, anta, macaco, quati, cotia, tamanduá, caititu. Cheia de inhame, cheia de fruta de buriti e jatobá. E era tudo alimentação natural. Não existia arroz na alimentação ­Xavante antes do contato com o branco.”
Segundo dados de 2012, quase dois terços dos 165 mil hectares constituintes da reserva foram desmatados pela ação de madeireiras, ocupação de fazendeiros, posseiros, pelo fogo e até mesmo pelo surgimento de dois núcleos de povoamento no interior da área: o município Alto da Boa Vista e o distrito Estrela do Araguaia (ou Posto da Mata). A agressão fez da TI Marãiwatsédé a primeira no ranking das mais desmatadas do país. O cenário é de terra arrasada. E pasto, muito pasto, a perder de vista.

“Nos primeiros anos que entramos na aldeia foi bem difícil, só tinha pastagens. Sofremos muito debaixo do sol... mas plantamos manga, caju, laranja e hoje estamos trabalhando debaixo da sombra”, diz Damião, referindo–se às árvores que voltaram a crescer próximas às casas da aldeia, onde as mulheres fazem cestos de palha de buriti, adornos, esteiras, debulham o milho, pilam o arroz, fiam o algodão, selecionam sementes e preparam a pasta de urucum usada nas pinturas corporais.
Em Marãiwatsédé, plantam arroz, mandioca, milho tradicional, feijão xavante e frutas. Ainda em fase incipiente, estão pastoreando gado para, no futuro, terem mais uma fonte de alimento. “Hoje tem bastante milho que plantamos no ano passado”, diz o cacique, apontando para a pilha de espigas que se vê diante das casas. Mas ainda é pouco para suprir as necessidades nutricionais da população, que conta com o reforço da merenda escolar e também com a distribuição de sopa de uma entidade assistencial.

Rede de Sementes

Na cultura tradicional Xavante, o contato com não índios é feito especialmente pelos homens. Eles é que vão a Brasília­ e reúnem-se com represen­tantes de governos e instituições locais. As ­mulheres e as crianças quase não ­falam o português. Mas são as mulheres de Marãiwatsédé que participam de um projeto para recuperação da vegetação nativa de seu território. O projeto, uma parceria com as ONGs Operação Amazônia Nativa e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção (Ansa), consiste em coletar sementes em incursões na mata, selecionar, armazenar e promover o plantio das espécies.

Carolina Rewaptu é uma das profes­soras da escola estadual da aldeia (EEI Marãiwatsédé). Formada em Ciên­cias Sociais na Faculdade Indígena Intercultural da Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat), ela diz que na cultura Xavante as mulheres não têm espaço para entender o mundo do branco. E vê com muita satisfação a participação feminina no projeto Rede de Sementes do Xingu. “Vamos reflorestar, melhorar a qualidade de vida, melhorar a renda... A gente pensou no futuro”, diz.
“A Opan faz oficinas, cursos e as mulheres começaram a participar da vida da comunidade. Na época das expedições a gente colhe e na época da chuva a gente planta. Queremos fortalecer a cultura de manejo tradicional que o povo Xavante está perdendo em outras re­giões e a gente tá resgatando.”
Segundo a professora, em muitas localidades a maioria das pessoas não quer mais cultivar a terra, “como em São Marcos, Água Boa, Campinápolis, onde temos parentes”.
Alimentação saudável

Carolina Rewaptu atenta ainda para a ­importância da recuperação da alimentação tradicional, com milho xavante, feijão xavante, bolo de milho, “que antigamente deixava a comunidade mais forte e saudável”. O manejo é direcionado a reflorestar a área de pasto, ter os animais mais próximos e retomar a prática de uma economia sustentável.

“O alimento industrial que vem da cidade tá dando muito diabetes, a gente quer controlar... Queremos que as crianças conheçam os alimentos que existiam na nossa infância: chichá-do-cerrado, pequi, coquinho-do-cerrado, inajá, buriti... O ano que vem já vai dar porque a gente plantou. Tem também as plantas medicinais: pé-de-anta, algodoeiro, raízes... O segredo delas é transmitido pelas anciãs para apenas um filho e uma filha. Elas têm muito conhecimento.”
O calendário tradicional (Marcadores de Tempo) é um dos conteúdos das aulas de Agroecologia e Sociologia que Carolina ministra na escola e faz parte de um currículo específico da educação local. Mas o responsável, na prática, pelos Marcadores de Tempo é o ancião Francisco, o mais velho da aldeia.
“Ele comanda o tempo de todos os ­rituais e as atividades ligadas ao calendário, e os jovens têm que participar”, conta Carolina. “Somos descendentes de um povo que lutou muito nesses anos, temos que amarrar essa história e deixar uma visão para os nossos netos ocu­parem a região Marãiwatsédé. ­Cul­ti­var a terra, produzir, melhorar a qualidade de vida. Esse é o futuro.”
Os ritos, de suma importância na dinâmica da sociedade Xavante, não cessaram nem quando eles ficaram dez meses, entre 2003 e 2004, acampados na beira da estrada, esperando a hora de reentrar na área onde estão atualmente. Do outro lado, estavam os posseiros, armados e sustentados por fazendeiros. “Quando os posseiros fizeram a barreira, os jovens tiveram coragem. Tem de aprender coragem desde pequeno... Acompanhar os guerreiros sem medo. A gente tem que conservar os jovens participando para que não percam a cultura”, explica o cacique Damião, relembrando a experiência da guerra vivida.

Ele reconhece que o apoio do governo federal foi condição decisiva para que os índios voltassem à terra onde estão seus ancestrais. Damião comemora, ­sonha. “Agora a terra é nossa, vamos viver tranquilos, sem ameaças. E enquanto eu for vivo, nunca vou esquecer... Considero como irmãos a Dilma, o Gilberto Carvalho ­(ministro da Secretaria-Geral da ­Presidência da República), o Paulo Maldos, o Nilton Tubino (ambos da Secretaria de Arti­culação Social da Secretaria-Geral), o pessoal do Ministério Público, e de outros países que me apoiaram no dia da Rio+20. Com paciência se ganha tudo.”

Posto da Mata agora é Monipá

O posto de gasolina no cruzamento das rodovias BR-242 e BR-158 não existe mais. Tampouco comércios, residências, igrejas, escolas, farmácias. Foi tudo demolido. Sedes de fazendas, sítios, currais e outras edificações da zona rural. O palco da “operação de guerra”, na classificação dos ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, é o distrito de Posto da Mata, município de Alto da Boa Vista.
As demolições, intensas em abril e maio, estão em fase final, diz Aluísio Azanha, diretor de Proteção Territorial da Funai. A Justiça determinou a demolição das benfeitorias de origem não índia, depois que em janeiro cerca de 40 posseiros, insuflados por políticos e fazendeiros da região, voltaram a ocupar Posto da Mata, um ano depois da retirada dos não índios, quando a terra foi devolvida oficialmente aos Xavante.
Em meados de 2012, a Justiça determinou a desocupação do território pelos “intrusos”. Iniciou-se então o que foi chamado de desintrusão. A ação foi planejada por uma equipe do governo, envolvendo ministérios, Secretaria-Geral da Presidência, Funai, Ibama, Polícia Federal, Exército, Força Nacional, entre outros, visando a um processo pacífico. Por má-fé, a Justiça determinou a não indenização aos invasores, que haviam ocupado uma terra que sabiam pertencer aos índios.
Entre os habilitados a ser atendidos por programas sociais, o Incra cadastrou 235 famílias. As 97 que moravam em Posto da Mata foram assentadas no Projeto Casulo (Minha Casa, Minha Vida). Algumas aceitaram ir para o assentamento Santa Rita, em Ribeirão Cascalheira. Outras preferiram ir para a casa de parentes ­e conhecidos.
A movimentação, segundo o prefeito Leuzipe Domingos, causou sérios problemas sociais. A cidade não tem escola e atendimento de saúde para suprir as demandas. Ele também critica as condições em que vivem as famílias assentadas no Projeto Casulo. “Estão debaixo de lona, ou em casas de pau, sem energia e água, a prefeitura tem que mandar caminhão-pipa... O governo federal só ajudou a cascalhar as ruas”, reclama.

O Incra estuda uma nova área no município de Santa Teresinha, para assentar as cerca de 150 famílias cadastradas, que “moram de favor”.

Durante os quase 50 anos de ocupação ilegal, a terra indígena (conhecida também como Gleba Suiá Missú) foi violentamente desmatada (70% do território) para dar lugar a fazendas de plantação de soja transgênica, milho, arroz e criação de gado. A fase mais intensa se deu a partir de 1992, durante os governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.
Em maio, o Ministério Público Federal denunciou 27 fazendeiros, condenando-os a pagar multa de R$ 42 milhões por crime ambiental. O valor a ser arrecadado será usado para reflorestar uma área de 10 mil hectares (1 hectare equivale a aproximadamente 1 campo de futebol) da terra Xavante. O desembargador aposentado Manoel Ornellas de Almeida, o empresário do agronegócio Edi de Oliveira Vieira, o atual prefeito de Alto da Boa Vista e muitos outros que integram a Associação dos Produtores Rurais da Área Suiá Missú (Aprosum) estão entre os denunciados.
A longa luta dos Xavante, a firme ação da Justiça e a atuação conjunta de vários órgãos federais não garantem ainda um futuro tranquilo aos índios. Azanha vê risco de novas invasões. “Não podemos esquecer que invasões e conflitos foram capitaneados por aqueles que insistem em se opor às demarcações”, diz, aludindo à bancada ruralista. A Aprosum tem como advogado Luiz Alfredo Feresin de Abreu, irmão da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), referência dessa bancada.
Ele tem razão. Em março, o presidente da associação, Sebastião Prado, prometeu iniciar um movimento nacional, partindo da Suiá Missu, para defender a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, que transfere do Executivo para o Congresso o poder de decisões sobre reservas indígenas.
Outro projeto defendido pelos ruralistas é o ­PLP 227,­ que abre Terras Indígenas à exploração do agronegócio, empresas de energia e mineração.

O clima de disputa faz com que servidores da Funai permaneçam na área no mínimo até as eleições de outubro. O fato é que Posto da Mata não existe mais. Voltou a se chamar Monipá, território sagrado para a comunidade Xavante.

Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/97/aqui-viviam-nossos-ancestrais-3809.html

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Interpretando os mitos andróginos

Enquanto eu pesquisava para escrever sobre a tendência queer no Paganismo Moderno, talvez um reflexo da Espiritualidade Queer, eu encontrei no Wikipédia uma lista de mitos que são freqüentemente citados pelos pagãos modernos homossexuais, freqüentemente fora de seu contexto histórico, antropológico, mítico, social ou religioso.

Estes são os mitos andróginos, são mitos menores dentre os mitos relativos a um Deus, que não resumem nem explicam o mistério que está contido nos mitos de um determinado Deus. Nós não podemos interpretar com nossa mente provinciana os mitos antigos dentro de um olhar pós-moderno, nós temos que compreender e entender qual a função, a razão e o objetivo destes mitos no pensamento religioso da época, qual realidade divina nossos ancestrais quiseram revelar através destes mitos.

Os mitos andróginos envolvem ou um Deus, ou um semideus e um jovem, em um relacionamento onde afeto e fraternidade se misturam. Podemos entender a função do mito ou como uma a) inversão de papéis ou b) uma tutelagem, onde o mais experiente, mais velho, ensina o mais novo.

A inversão de papéis tem sua função, razão e objetivo na propagação da ordem social:
Todas as maiores funções da vida estavam associadas a uma ou mais divindades patronas e um corpo de mitos e rituais. Nossa distinção entre “sagrado” e “profano”, o reino da igreja e da rua seria ininteligível aos gregos antigos. E nós não podemos compreender o mundo deles a menos que nós percebamos que todos os processos da vida estavam interligados com noções místico-religiosas. Estudantes do passado tem procurado por uma teoria, uma chave única, que poderia abrir a porta para a compreensão da natureza e do propósito dos rituais religiosos nas sociedades pagãs. Uma teoria mais velha via no ritual primariamente um proposito imediatamente pragmático: o alvo do ritual era promover a fertilidade da terra e da espécie humana, produzir chuva, pacificar os Deuses ou evitar desastres. A antropologia mais recente tem apontado o papel do ritual como um perpetrador dos valores sociais e normas comportamentais, ou em seus méritos psicológicos como ajudar as pessoas a conviver com as contradições e problemas da vida.
Se o propósito da iniciação é didático, para doutrinar as futuras gerações com os valores das velhas para que a sociedade continue, os rituais de escape tendem a proteger os padrões sociais por providenciar uma liberação temporária e controlada. O significado mais comum que serve a esse propósito é a inversão de papéis, que é tão atestado quanto a iniciação. Nas condições controladas do ritual, o excluído, o submisso e o maldito podem sair das restrições sociais e das limitações da existência. [Eva C Keuls, Reign of Phallus]

A tutelagem tem sua função de reforçar e endossar a norma social onde o mais velho, o mais experiente, tem a obrigação de ensinar ao mais jovem os valores da virilidade, da masculinidade e da fraternidade:
Sócrates estudou este processo e desenvolveu o chamado Chastitas Pederastia, que é uma relação de amor casto entre um jovem e um adulto do mesmo sexo (normalmente um guerreiro mais velho e o aprendiz de soldado, especialmente nos exércitos gregos). Mas este “amor” a que ele estava se referindo não era o amor homoerótico (que incluía sexo), mas sim o amor fraternal de um Mestre de Guilda para com o Aprendiz. [Marcelo Del Debbio]

A própria natureza do relacionamento variava entre o estritamente erótico, sem qualquer tipo de intercurso sexual, até o ato sexual como única razão de ser da relação.
Em algumas situações, a pederastia era vista como uma questão de fascínio estético; em outras era inserida na educação dos adolescentes do sexo masculino, rapazes de famílias de boa posição social, por parte dos pedagogos - varões maduros, a relação entre erastes e eromenos - o erastes era um homem aristocrata envolvido em um relacionamento com um adolescente do sexo masculino denominado eromenos. Geralmente estes pedagogos tinham o papel de mestres para estes rapazes, ensinando-lhes algum ofício.
Em outros casos, era conveniente para uma família que seu filho homem pudesse conseguir um mestre de prestígio, e desta forma ascender socialmente. [Wikipédia]

Em várias de suas lendas Apolo tomou amantes masculinos, o que refletia a cultura grega antiga, onde o homossexualismo masculino era socialmente aceito e tinha, entre outras funções, um caráter pedagógico e ritualístico de grande importância. Um homem maduro, o erastes, escolhia um jovem, o eromenos, e fazia dele ao mesmo tempo amante e discípulo, tornando-se seu iniciador nos mistérios da vida adulta e nas suas responsabilidades sociais. Assim que surgissem os sinais da puberdade o jovem era declarado adulto e a relação se rompia. Ele então casava com uma mulher, constituía família e assumia por sua vez o papel de erastes, tomando para si um jovem eromenos e continuando a tradição. [Wikipédia]

No entanto, os mitos principais e maiores dos Deuses tinham outra função, razão e objetivo:
No rito, o homem se identifica com o primeiro princípio e a mulher com o outro. Essa união reproduz o Hiero Gamos, o Casal Divino, o Andrógino, bem como o mistério da natureza desse mundo, um mundo que é manifestado e condicionado, em que a humanidade aparece como separados em uma dualidade, vão se unir por um instante. No orgasmo sexual, a lei da dualidade é suspensa, o êxtase ocorre e, no arrebatamento, conduz os celebrantes à iluminação absoluta. [Alain Danielou]

Os cultos e rituais que envolvem os mitos andróginos tem a função, a razão e o objetivo de mimetizar, de reencenar, um momento específico da existência do mundo e da humanidade. Os mitos andróginos revelam um período indistinto, a manifestação do Caos, onde não há ordem, regra, norma. Durante uma fase crucial do ser humano, tanto a menina quanto o menino são sexualmente indistintos, até passarem por um rito de iniciação, um rito de passagem, quando então ele ou ela são recebidos na comunidade adulta. Depois do ritual, tornam-se homens e mulheres, em pleno direito, contraem matrimônio, estabelecem um lar, propiciam herdeiros que irão manter a família e a sociedade. Mas sua obrigação de reprodução não exclui relações erótico-afetivas com outras pessoas [servos, prostitutas,cortesãs]. O amor homoafetivo, tal como entendemos e expressamos no mundo contemporâneo, era proibido no mundo antigo não por não ser natural, mas por quebrar o interdito social de que o cidadão não podia ser "submisso". Mesmo na Grécia e Roma antigos as relações homoeróticas eram estruturadas em uma relação onde há um superior [o mestre/o erastes] e um inferior [o amante/o eromenos], uma relação que depois da idade adulta ou era abandonada ou se transformava em fraternidade.

A entidade andrógina, nos mitos antigos, serve exatamente para nos lembrar que nós todos somos filhos e filhas da união entre um macho e uma fêmea, todos nós carregamos os gens masculinos e femininos.
Na ótica dos Deuses, nossa opção sexual é um assunto que interessa apenas a nós, mas a intenção que será realizada pela cerimônia tem consequências diferentes. O Grande Rito real, executado na cerimônia wiccana tradicional, com um ato sexual entre o Alto Sacerdote e a Alta Sacerdotisa tem por intenção religar o corpo ao seu sentido sagrado e recriar o mundo. Em outros grupos, o Grande Rito é executado de forma simbólica por causas evidentes (traumas, tabus, recalques), mas a intenção é a mesma. Em outras formas de Paganismo e Bruxaria modernos, existem cerimônias homossexuais cuja intenção é o de alcançar o caráter extático e produzir vínculos, mas mesmo nesses casos há um contexto sagrado.

A conclusão é que indivíduos [que tem insegurança e rejeição à sua identidade e preferência sexual] buscam, de forma neurótica e obsessiva, uma autorização, permissão, sanção e consagração de sua sexualidade.
A homossexualidade é igualmente uma manifestação do Amor, não há necessidade alguma de inventar um Deus para que uma opção sexual seja divinizada ou sacramentada.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A Dança da Vida e Morte

Neste texto, vamos explorar a figura do Deus de Chifres primeiramente a partir do aspecto mitológico relacionado ao mito do homem caçador paleolítico, e depois vamos refletir sobre como expressamos este Arquétipo hoje em dia. Antes de começar, preciso dizer que ao usar o termo “Arquétipo”, não estou me referindo a um aspecto da Divindade, como alguns pagãos passaram a encarar o termo. O Deus existe além do Arquétipo, mas o Arquétipo é a forma como a energia dessa mesma divindade se expressa em nós, sua manifestação em nossas vidas (em termos extremamente genéricos e superficiais, é claro. Interessados em entender o que de fato é um Arquétipo devem procurar a obra de Carl G. Jung).
A primeira manifestação do masculino como sagrado surge a partir da valorização do papel do antigo caçador como arquétipo masculino. O Deus com chifres de cervo, metade homem, metade animal, mostra a fusão da dualidade expressa na relação caça-caçador, que perde seu caráter dicotômico à medida que a experiência da caça traz dois resultados: quando bem sucedida, o homem vitorioso traz sua presa e se alimenta dela, ingerindo a força da vida presente no animal e perpetuando sua própria existência; quando mal sucedida, o homem torna-se a própria caça, é morto e devorado (seja por animais ou pela terra, no processo de decomposição), servindo à força da vida e perpetuando a existência de outros seres vivos. Perceba, não há como prever os resultados do confronto entre homem e animal – apenas no resultado final, onde um encontra a morte e o outro pode continuar vivendo é que define-se quem foi caçado de fato.
Essa dança perpétua entre a vida e a morte nos traz valiosos ensinamentos: ambas compõe algo que parece maior, muito mais amplo que apenas o homem e o animal; neste confronto, as próprias forças da terra, da vida, da floresta se movem para saber quem preservar e quem destruir. Também nos mostra que a vida depende da morte e se alimenta da vida; para que a existência da vida na Natureza possa ser perpetuada, é preciso que parte dessa mesma Natureza perca uma parte de si mesma para servir à vida. Ou melhor, doe uma parte de si mesma.
É dito que aos melhores caçadores ficavam reservadas as melhores partes do animal, muitas vezes o falo. A prática de comer o animal sacrificado vai muito além da simples ideia de nutrição e sobrevivência, mas relaciona-se ao processo de introjetar e interiorizar este animal, tomar para si seu poder, partilhar de sua essência, seu espírito. É sabido que muitos animais eram tidos para as tribos como Totens – muito mais que espíritos protetores da tribo, falavam sobre sua própria natureza e consciência enquanto grupo. E ainda além, o animal como Totem era a ligação da tribo com o Sagrado. Em “Totem e Tabu”, Freud nos mostra como a figura do animal Totem estava relacionada a própria estrutura social rudimentar da tribo, determinando, inclusive, suas normas e organização.
Nesses tempos, o animal selvagem e ameaçador era ao mesmo tempo temido e desejado; era cercado de um ar de mistério e magia próprio dos Deuses. Se olharmos para esse ponto com os olhos destes velhos povos, perceberemos que os animais selvagens foram os primeiros Deuses. Portanto, comer da carne de caça era comer dessa essência de mistério, tornar-se o próprio animal, absorver suas características, e ao mesmo tempo partilhar a essência do Numinoso. Esse rito permanece até hoje em ritos neopagãos, e até mesmo na Igreja Católica, que se apropriou de tal Mistério em seu rito de comunhão (a diferença é que o Cristo é chamado “Cordeiro de Deus”; não é um animal selvagem caçado, abatido e partilhado, mas um sacrifício voluntário, ligado aos animais domesticados e simbolizado na missa como o Pão, ligando a um tempo de pastoreio e agricultura, posterior ao que falamos aqui; isto o liga a outras raízes mistéricas pagãs que abordaremos em outro texto).
O Deus de Chifres surge então como a força mediadora que garante o equilíbrio da Natureza. Por vezes favorecendo os homens, por vezes favorecendo os animais, este Deus garantia que o equilíbrio acontecesse e que ambos os lados servissem um ao outro, unificando em si homem e animal, vida e morte, como produtos de uma força maior, que move-se em si mesma, a própria Dança Espiral do Êxtase. Essa é a essência do Deus de Chifres: ele era ambos, a caça e o caçador. Ele ensinava aos homens as habilidades e os mistérios da caça bem sucedida e os colocava nesta aventura misteriosa, mas como pagamento, exigia que estes homens também servissem a força da vida em certo momento.
Isso significa que o papel de Caçador (seja no Paleolítico, seja como vivenciamos este Arquétipo em nossas vidas atuais), já trazia em si a promessa da morte. Os ritos de passagem dos meninos da tribo não falavam apenas sobre tornar-se homem, mas sim sobre tornar-se o Caçador, ativando o Arquétipo. E ser caçador implicava justamente em estar em constante contato com a possibilidade da morte; porém, para o Caçador, o medo da morte não é nada frente ao desejo pelo embate, ao prazer trazido pelo mistério, a vontade de provar de suas próprias habilidades, de seu corpo, de seus potenciais – a sensação de estar vivo, estar no corpo físico, material, existir. Mesmo que isso nos leve a morte, vamos ao encontro da presa. Desejamos a morte, personificamos a morte e até a vivenciamos. Mas tudo isso para que nossa vida possa ser perpetuada.
Para concluir, vemos que o Deus Caçador é, na verdade, um mantenedor da vida e um Deus Integrador. Ele é aquele que nos ensina e nos permite a vivência de nossa agressividade e competitividade de forma saudável, equilibrada e coerente com o meio social. Não, não estou sugerindo que devemos ir para o meio do mato após o trabalho para trazer o jantar; cabe a nós a busca pela essência deste Deus primitivo para que ele nos ensine a vivermos o Caçador em nossos tempos modernos e atualizarmos o mito. E este contato é pessoal, entre cada homem e o Deus. Mas lembre-se, o Deus de Chifres prezará para que o equilíbrio seja mantido; não só a expressão de nossos potenciais físicos no meio, mas também a expressão desses potenciais no meio em nós serão trazidos por ele. Mas note, isto também é uma bênção, pois não há como ser o Caçador sem ser também a Caça do outro, e esta é a lição que este Deus tem a nos trazer.

Fonte: Androtheosis, A Dança da Vida e Morte : 'via Blog this'

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Paganismo Queer

O Paganismo Moderno possui toda uma vertente direcionada ao público GLBT, uma tendência que pode ser encontrada em outras religiões [Budismo, Hinduísmo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo], como parte da Espiritualidade Queer.

A questão da inclusão de grupos sociais, na sociedade em geral, na política e na religião, surgiu juntamente com a luta pelos Direitos Civis, a Contracultura e a Revolução Sexual. O Paganismo Moderno adquiriu maior evidência e expansão nessa época ao adotar essa visão mais inclusiva. Muitos indivíduos procuraram e acharam nas religiões alternativas uma proposta diferente das religiões main-stream, cuja doutrina oficial possui muito preconceito, discriminação e intolerância, especialmente no tocante às identidades de gênero e opções sexuais.

A opção sexual se tornou uma bandeira para a contestação social e política. Essa tendência acabou sendo misturada e enfatizada nos muitos grupos de Paganismo e Bruxaria modernos que surgiram, muitos desassociados dos princípios da Wica ou de qualquer sentido de tradição.

O Paganismo é um conjunto de religiões, cada qual com seus princípios e doutrinas, autônomas entre si. Pode-se dizer que é o único conjunto de religiões que aceita a diversidade sexual, de forma que soa estranho e esquisito colocar a agenda de um grupo social ou de uma bandeira acima do objetivo espiritual dessas religiões. Em outras formas de Paganismo e Bruxaria modernos, existem cerimônias homossexuais cuja intenção é o de alcançar o caráter extático e produzir vínculos, mas mesmo nesses casos há um contexto sagrado.

Entre os pagãos, fala-se muito [demais, para meu gosto] da Deusa e nada do Deus. Fala-se do "sagrado feminino" e nada do sagrado masculino. Omite-se que a Wica é um culto à fertilidade. Nega-se, oculta-se e rejeita-se o Deus Cornífero. Como então podemos entender os antigos mitos da Suméria, da Babilônia, do Egito e da Grécia? Como podemos [ab]usar dos mitos quando nos agradam, mas ficamos cheios de pruridos quando os mitos falam em castração ou em prostituição sagrada? Isso é hipocrisia, é falsidade, é [ab]usar dos mitos e mistérios antigos para agendas pessoais e isso, definitivamente, não é Paganismo nem Wica.

O estatuto da mitologia varia de acordo com a cultura. Geralmente os mitos atuais são e os antigos eram literalmente acreditados como verdadeiros no seio da sociedade que os criou e considerados errados ou fictícios em outros lugares. Algumas culturas podem considerar os mitos como transmissores de verdades psicológicas ou arquetípicas. Os mitos têm sido usados para explicar e validar as instituições sociais de uma determinada cultura, bem como educar os membros dessa cultura. Esse papel social tem sido postulado em estórias que incluem amor entre pessoas do mesmo sexo, cujos objetivos eram educar os indivíduos quanto à atitude correta a adotar para o atividade sexual de pessoas do mesmo sexo e construções de gênero.

Desde o início da história escrita, centenas de culturas, mitos, folclores e textos sagrados têm incorporado temas homoeróticos e de identidade de gênero. Assim, desde esses tempos mais remotos, muitos mitos narravam estórias envolvendo homossexualidade, bissexualidade ou transgênero como símbolo de experiências míticas e/ou sagradas. Hoje em dia, o homoerotismo e a variância de gênero nesses mitos antigos têm sido analisados e estudados através das concepções LGBT modernas acerca de identidades e comportamentos, e muitas vezes criam-se termos novos para classificá-los; por exemplo, em divindades que se disfarçam do sexo oposto, ou adotam comportamentos tradicionais, ou certas figuras do sexo oposto podem ser chamadas de transexuais em outras culturas, e os seres mitológicas sem órgãos reprodutivos ou com ambos os órgãos masculinos e femininos em suas estruturas são hoje em dia chamados de andróginos ou intersexuais. Alguns mitos individuais têm sido denominados queer numa tentativa dos críticos rejeitarem a "heteronormativa" ou o gênero binário em seus estudos. As interpretações queer podem ser baseadas apenas em evidências indiretas, tais como amizades do mesmo sexo invulgarmente estreitas ou a dedicação à castidade. Estas têm sido criticadas por ignorar o contexto cultural ou pela aplicação equivocada de preconceitos modernos ou ocidentais, assumindo, por exemplo, que o celibato significa apenas evitar a penetração ou o sexo reprodutivo (permitindo assim o sexo homoerótico), enquanto ignora a opinião generalizada acerca da potência espiritual contida no sêmen que abrange uma vacância de todos os sexos.

Os acadêmicos reconhecem a presença de temas LGBT nas mitologias ocidentais e elas são objetos de intensos estudos. Geralmente as narrativas mitológicas consideram a homossexualidade, a bissexualidade e o transgênero como um símbolo de experiências sagradas ou míticas. Também é comum, principalmente nas mitologias pagãs e politeístas, encontrarmos seres que mudam de gênero, ou que possuem aspectos de ambos os sexos ao mesmo tempo. Não deixa de ser comum também, em tais panteões, a atividade sexual com ambos os sexos, e hoje em dia eles são comparados à bissexualidade ou pansexualidade. Os mitos da criação, ou gênese, de muitas tradições, envolvem motivo sexual, bissexual ou andrógino, com o mundo a ser criado por seres assexuados ou hermafroditas, ou através da relação sexual entre seres do sexo oposto ou do mesmo sexo. [Wikipédia]

Na opinião de Eva C Keuls, “... nós não podemos compreender o mundo deles a menos que nós percebamos que todos os processos da vida estavam interligados com noções místico-religiosas. Estudantes do passado tem procurado por uma teoria, uma chave única, que poderia abrir a porta para a compreensão da natureza e do propósito dos rituais religiosos nas sociedades pagãs. Uma teoria mais velha via no ritual primariamente um proposito imediatamente pragmático: o alvo do ritual era promover a fertilidade da terra e da espécie humana, produzir chuva, pacificar os Deuses ou evitar desastres. A antropologia mais recente tem apontado o papel do ritual como um perpetrador dos valores sociais e normas comportamentais, ou em seus méritos psicológicos como ajudar as pessoas a conviver com as contradições e problemas da vida.” [The Reign of the Phallus, Eva C Keuls, capítulo 12, University of California Press].

Nas civilizações antigas, a necessidade de fertilidade era primordial para evitar a mortalidade não só de suas tribos como de seus rebanhos. Mulheres férteis com seios fartos e quadris largos eram consideradas o retrato humano da grande Deusa Mãe. Era considerada a representante da Deusa na terra, a sacerdotisa da Deusa e enquanto essa mulher fosse capaz de gerar filhos, tinha alto poder dentro da tribo. Quando passava sua fertilidade, seu posto era transferido para uma mulher mais jovem que pudesse gerar filhos e a mulher mais velha assumia a condição de sábia da tribo.

Era costume que os melhores caçadores da tribo usassem os chifres e pele dos animais que foram por eles abatidos, para adquirirem sua força e fertilidade. O macho que possuíam os maiores chifres eram os machos mais férteis, por isso, eram os mais visados pelos caçadores.

Assim, praticar sexo após uma caçada, era uma forma ritualística de transferir a força e a fertilidade do animal abatido para a criança que iria nascer, por meio do rito sexual, onde herdava esses poderes e enriqueceria a tribo. Outra crença era a de que o animal sacrificado em prol da tribo seria recompensado com o renascimento na forma humana.

Todas essas colocações que não chegam nem a metade de sua totalidade, foram usadas para frisar o importância que o sexo tem não só no ciclo de fertilidade como nas relações em geral e que sexo e religião sempre caminharam juntos, pois a partir do sexo que muitos rituais foram formados. [Angel Bruxa Aisha Sad]

O pagão moderno, hetero ou homo, deve compreender os mitos como revelações de realidades eternas; deve celebrar os cultos e rituais dentro de seu contexto sagrado e místico; deve servir aos Deuses, honrar seus ancestrais e celebrar a vida. Quando o pagão moderno estuda sobre os povos antigos, seus mitos, seus ritos e sua visão do divino, ele deve perceber qual era a função, a razão e o propósito dos Deuses andróginos, bem como de Seus ritos e cultos. A base de uma crença, uma espiritualidade, uma religião está na busca por realidades eternas, não para a satisfação de nosso ego. Deturpar, distorcer ou [ab]usar os mitos para atender a carências ou agendas pessoais é resultado de uma busca obsessiva e neurótica por respeito, aceitação e reconhecimento. Eu aprendi da forma mais difícil que nós não precisamos da permissão, autorização, respeito, aceitação ou do reconhecimento de outras pessoas, nosso serviço é para os Deuses. Eu aprendi apanhando que nós não conquistamos um espaço invadindo outro, não patrocinamos nossa crença atacando outra. Em nossos rituais nós dizemos que se não encontramos os Deuses dentro de nós, não iremos encontrá-los fora de nós. O mesmo ocorre em relação ao respeito, a aceitação e o reconhecimento.