quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O enredo de uma história

Jenya T. Beachy, no Patheos.

A história é sobre como a chuva ama tanto a terra que ele cai do céu para tocar a face dela. Ou sobre a calorosa paixão do vulcão aumenta e cospe nova terra sobre o mar. A história é sobre o trigo no campo caindo pela foice. A história é sobre a proximidade e a diferenciação, uma eternidade de vida e morte. Esta história é uma tragédia e uma compendia. Todo mundo ama e todo mundo morre.

Então acontece um enorme sacrifício. O sacrifício voluntário de todo um ser para o ciclo do aqui e além, união e saudade em escala épica. A árvore começa na semente escura, crescendo pelos anos, finalmente criando amor/flores, dando vida/frutos, depois morrendo/caindo, tornando-se comida para as próximas gerações, retornando para as trevas, como tudo faz.

A história é sobre um esquema selvagem e brilhante que coloca duas coisas juntas para criar uma terceira. O mundo tal como conhecemos funciona porque as coisas se combinam, cada qual contribuindo com sua parte e coisas novas são criadas. Este é o milagre da criação de uma nova vida.

Existem milagres de dois ou mais lados de um argumento, sentando e resolvendo problemas. Existem milagres em pegar algo muito danificado e consertá-lo existem milagres simplesmente em dançar junto, rir, chorar, sendo forte e sensível ao mesmo tempo.

O amor do Deus e da Deusa, Senhor e Senhora, Dele e Dela, Dela e Dela, Dele e Dele; terra, semente, chuva e céu; cheiro de sal e flores; furacões e terremotos; florestas e pássaros, esta história é importante. Como também são importantes as histórias de amor entre dois pontos de vista opostos, necessidades diferentes, posturas contrastantes.

Eu ainda me emociono com a história de amor daquele que se oferece pelo bem de todos. Como a maçã não chora enquanto é comida pelo cervo, mas aceita graciosamente comungar com o todo. Eu amo como as árvores formam uma pele áspera para proteger sua vida de intrusos. Eu amo quando o predador perde a presa, ele se move para a próxima oportunidade.

Se nós podemos descrever nossa experiência como uma história de amor tão verdadeira que nos faz chorar, então nós estamos crescendo em uma de nossas maiores bênçãos como seres humanos: a compaixão.

PS: Feliz Yule e Feliz Ano Novo.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Perdendo a identidade

John Halstead escreveu um artigo de título “What I don’t miss about Christianity” no Patheos na coluna Allergic Pagan e citou uma antiga colega, Star Foster, anunciando a reconversão dela ao Cristianismo. Anteriormente, outro autor do Patheos, do Pagan Channel, Teo Bishop também havia se reconvertido. Não que queiramos apontar o elefante no meio da sala, mas certamente cristãos fundamentalistas vão adorar esse pedaço de torta dada de graça e vão usar a reconversão de Star Foster para fazer proselitismo e denegrir o Paganismo Moderno.

Como minha proposta e oferta de escrever ao Patheos foi recusada, eu continuo a escrever meus comentários, apontamentos e críticas aqui mesmo. De tempos em tempos o Patheos lança um tema para seus autores escreverem e parece ser o caso aqui. Patheos deveria ter lançado a pergunta no Pagan Channel “What you miss in Christianity”. Para ser polemico e controverso, Patheos deveria ter perguntado “O que uma pessoa procura ao entrar no Paganismo”.

Desde que este blog foi fundado, em 13 de julho 2007, a identidade deste blog é definida como um blog sobre Paganismo, Bruxaria e Wicca, mas sobretudo sobre a minha jornada no Caminho no Bosque Sagrado. John Halstead e Star Foster foram traduzidos e citados aqui. Autores de caráter duvidoso, como Claudiney Prieto, foram citados aqui. Eu citei inclusive páginas e textos do Cristianismo, a título de comparação e crítica. Eu até dei testemunhos sobre as minhas boas e más experiências nesta jornada. Então, de certa forma, eu posso imaginar as razões que fizeram Teo Bishop e Star Foster em voltar para o Cristianismo.

Eu creio que não esteja exagerando nem simplificando ao afirmar que a maioria dos pagãos que existem, desde o surgimento do Paganismo Moderno, foram cristãos ou pertenceram ao Cristianismo, em alguma de suas vertentes. Nosso histórico, nossa vida, por coisas que passamos ou aprendemos, nos faz romper com o Cristianismo e nos leva a outros portos, ateísmo incluído.

Procuramos por liberdade, pois estamos cansados de dogmas e doutrinas impostas por uma organização religiosa. Procuramos por amor, pois estamos cansados de ter medo e de tanto ódio, causados pelas religiões oficiais. Procuramos por aceitação, pois estamos cansados de intolerância e preconceito. Procuramos por práticas, espiritualidades, misticismos, esoterismos, fórmulas, caminhos, crenças e religiões que possam suprir essa nossa busca, essa nossa carência. E é aqui que o bicho pega.

O ser humano tem na sua natureza o impulso de se agregar, de buscar sua tribo, seu grupo, pessoas afins, que compartilhem do mesmo ideal, crença, objetivo ou sonho. Saímos de um cenário traumático, frustrante, insatisfatório, limitado, dogmático, cheios de esperanças e expectativas. E nos esquecemos de quanto é humana toda e qualquer espiritualidade, crença e religião. Entramos ou procuramos entrar em um grupo, uma comunidade, de uma forma de espiritualidade, crença ou religião e nos sentimos rejeitados, excluídos, criticados. Esta é uma triste verdade da Comunidade Pagã, a despeito de sua apresentação ao público, onde dizemos que somos tolerantes, inclusivos, liberais, por dentro a coisa não é bem assim. Eu creio que se encaixam nesses casos o motivo da reconversão de Teo Bishop e Star Foster.

Eu não conheci Teo Bishop, mas eu conheci Star Foster. Eu traduzi e divulguei textos dela. Eu cheguei a adicioná-la no Google Plus. Eu comprei uma briga com ela depois que ela publicou um meme com Vivianne Crowley e eu respondi com um meme com Ray Bone. Diferenças, discussões, controvérsias e polêmicas acontecem na Comunidade Pagã e eu exagerei na minha cota. Então o leitor deve se perguntar qual a validade ou confiabilidade do Paganismo Moderno se vivemos às turras. Somos humanos, leitor, somos apaixonados pelas nossas visões e experiências, nós somos pessoas com personalidade e identidade forte. Se eu fosse levar em conta as dificuldades que Teo Bishop e Star Foster tiveram e eu mesmo tive [como testemunhei com a saga de Joãozinho] eu teria desistido do Paganismo Moderno muito antes deles. O que eu procurei no Paganismo Moderno foi o resgate das minhas raízes, da minha identidade, da minha origem e da minha essência, algo que eu jamais encontrei e encontrarei no Cristianismo. Eu digo com um certo orgulho que nossa obrigação é o de servir aos Deuses, não às nossas necessidades, carências, frustrações, traumas. Apenas isso é mais que suficiente para me deixar de fora de grupos, comunidades e redes sociais pagãs, dominadas por egos enormes e cultos de personalidade. Mas eu estou tranquilo, os Deuses estão me dando exatamente o que preciso. Eu não preciso procurar por aceitação, reconhecimento, público ou aplauso. Eu não preciso entrar em um grupo, uma comunidade, um coven para encontrar o Caminho Sagrado Entre os Bosques Sagrados, para adorar os Deuses e honrar meus ancestrais. Eu me encontro no Caminho Sagrado, eu estou no Bosque Sagrado, eu estou honrando meus ancestrais e eu estou servindo a meus Deuses.

Abandonar todas estas bênçãos e milagres para voltar a um cenário de medo, ódio, violência, intolerância, preconceito, dogmatismo, escravidão, rejeição, dessacralização, totalitarismo e ditadura, eu jamais farei, porque seria suicídio. Eu desejo sorte e felicidade a Teo Bishop e Star Foster, que sejam bem sucedidos nessa busca, ainda que tenham perdido a identidade.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal pagão

Jason Mankey propõe uma análise mais exata do mito natalino, o mito cristão que é o cerne do Natal, uma celebração que há tempos foi desencavado suas raízes pagãs.

Jason diz: “cristãos lutam com o seu passado pagão, e pagãos modernos e ateus têm suas batalhas também. Em vez de desfrutarmos a riqueza de nossas tradições, pessoas em ambos os lados gostam de atacar seus desafetos. Ideias de que a antiguidade pagã foi cristianizada e qualquer coisa pode ser feita para marginalizar Jesus é jogado em sua manjedoura. Eu não sou um grande fã do cristianismo também, mas eu não vou inventar coisas sobre seu fundador para me fazer sentir melhor sobre isso”.

Que o Natal excedeu suas origens, motivos e sacralidade, não há o que comentar, mas eu discordo da tentativa de amenizar ou esclarecer quais partes das raízes pagãs do Natal são exatas e quais não. Inegavelmente o mito de Natal, o mito de Cristo, ainda continua sendo e tendo um esqueleto com origem em diversos mitos pagãos.

Se for para esclarecer algo, se é para explicar mitos e religião comparada, que seja imparcial, o que Jason não faz ao desmistificar as equiparações de Cristo com outros Deuses pagãos.

“Dionísio não nasceu de uma virgem, porque seu pai Zeus, na verdade, gostava de ter relações sexuais com pessoas (e outras divindades). Ninguém jamais afirmou que Semele (mãe de Dionísio) era virgem.”

Diversos mitógrafos e mesmo escritores antigos citam Semele como sendo virgem quando Zeus a engravidou. Mesmo o atributo de “virgem” que foi dado a Maria/Miriam é controverso, pois no original significa “mulher não casada”, o que é bem diferente do sentido que se costuma dar. Ponto fora para Jason.

“Mithra não nasceu de uma virgem, ele veio a este mundo como um adulto que estoura através de rocha sólida”.

Jason não forneceu suas fontes para tal afirmação. A Wikipédia confirma este mito, mas lembra que existem variações. Em sua versão Védica, Mithra nasceu de Ahura-Mazda, uma Deusa Virgem. Ponto fora para Jason.

Curiosamente em outros textos de Jason fala-se das enormes similaridades dos símbolos usados no Natal que tem origem pagã, como eu mesmo publiquei em meu blogue. Podemos fazer as mesmas comparações com Hórus, Attis e inúmeros outros Deuses Pagãos. As diferenças mais ressaltam o quanto o Cristianismo se apropriou da imensa cultura pagã que existia nos povos que foram englobados pelo Império Romano. Com a terceira bola fora, Jason perde a partida.

Seja o leitor pagão, cristão, judeu, muçulmano, ateu, não faltam razões e motivos para celebrar a data do solstício de verão. Bruxos celebram Lussinata, pagãos celebram Saturnália, wiccanos celebram Yule/Litha. Então celebremos e que esse clima de concórdia perdure o ano todo!

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O trono vazio

Erick Dupree é um pagão monista e monoteísta com sua Deusa Una. Em sua coluna chamada “Alone in Her Presence”, Erick expõe a teologia da “religião da Deusa”, do Dianismo. Eu sou totalmente contra esse monoteísmo dissimulado de Paganismo Moderno.

Erick conta como a “Deusa” é conhecida por muitos nomes e esteve presente em muitos povos, em diversas épocas. Erick fala da Deusa Mãe e da Deusa Terra. Erick conta que a Deusa é todas as Deusas.

Eu havia anteriormente dito que este pensamento proveio de Dion Fortune e não tem embasamento histórico, antropológico, etnológico ou mítico. Essa concepção tem muito da visão de Gustav Carl Jung sobre “arquétipo”, mas para os diversos povos, com suas diversas Deusas, esta noção soaria sacrilégio, blasfêmia, heresia. Muito embora os conquistadores vissem e lessem os Deuses dos povos conquistados com as cores dos seus próprios Deuses, não os confundiam, apenas os comparavam.

Se a Deusa é antiga e amplamente presente em diversas culturas, o Deus também o é. Na antiguidade, havia sociedades matriarcais, patriarcais, sedentárias, nômades, caçadoras-coletoras, agrário-pecuaristas. Culturas diferentes, crenças diferentes, Deuses diferentes. Assim como a Deusa-Mãe, a Deusa-Serpente, a Deusa Terra, é uma constante, o Deus Pai, o Deus Touro, o Deus Céu é igualmente constante, portanto são contemporâneos.

A união do Deus com a Deusa era tão importante que sobreviveu ao aculturamento cristão até os dias de hoje, custa entender porque exatamente no Paganismo Moderno, queiram fazer o mesmo que as religiões abraâmicas fizeram, divorciando o Deus da Deusa. Nós sofremos com as consequências desse divórcio.

Sem a Deusa, o Deus se torna violento, ciumento, vingativo.

Sem o Deus, a Deusa se torna frígida, histérica, rancorosa.

Sem o Deus, quem irá arar a terra? Sem o Deus, quem irá semear a semente? Sem o Deus, quem irá ceifar o trigo? Sem o Deus, quem irá nos conduzir para dentro do ventre da terra? Sem o Deus, quem irá colocar o cetro no trono? Sem o Deus, a Deusa não pode ser coroada e o trono fica vazio.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Escolhendo o Amor

Erick Dupree escreveu um artigo no Patheos intitulado “Choosing Love over Fear”. Pode parecer estranho, afinal, muitas religiões afirmam que existem para que a humanidade conheça o Amor e saibam amar. No entanto, qualquer pessoa que saiba um pouco de história sabe muito bem que a História do Cristianismo [e de outras religiões abraãmicas] mostra que algumas religiões tem uma forma muito estranha de demonstrar amor. Mas vamos devagar, não vamos cair na generalização, análise superficial, desonestidade, calunia, injuria e difamação que os neoateístas fazem. A humanidade não precisa de mais intolerância e fundamentalismo.

Voltando ao assunto, em especifico o Paganismo Moderno, o que nós podemos oferecer como caminho para conhecermos, celebrarmos e vivenciarmos o Amor?

Antes vamos citar Erick explicando a expectativa das pessoas:

Pelo menos uma pessoa reaprende o que significa ter uma espiritualidade própria e escolher o amor ao invés do medo”.

Muitas pessoas procuram por uma forma de espiritualidade alternativa por causa de traumas ou de decepções. O Paganismo Moderno tem, como Sable Aradia definiu com precisão, a “Maldição da Gentileza Pagã”. Onde nas outras religiões, especialmente as monoteístas ou majoritárias dizem “não” nós dizemos “sim”. A despeito de toda nossa característica e inclusão, as pessoas ainda tem medo e eu não as culpo, principalmente se levarmos em conta a polêmica que Zsuzsanna Budapest causou e causa no meio do Paganismo Moderno.

Para os curiosos, simpatizantes e interessados no Paganismo Moderno saibam que nós não somos assim tão tolerantes nem inclusivos quanto gostaríamos de fazer crer. Meu caro dileto e eventual leitor deve ter acompanhado por este blog, eu fui sistematicamente banido e expulso de diversos grupos e redes sociais pagãs simplesmente por sustentar a tradição, os princípios e os valores da Wica. Quando o assunto é sexo, gênero, identidade/preferência pessoal, educação sexual e relacionamento então, eu custo crer que ainda não me queimaram em uma fogueira. Falar de Amor em um mundo onde o que manda é Ódio, Violência, Agressividade sempre será visto com suspeita.

Em outro texto eu fiz uma reflexão em como a humanidade é curiosa e esquisita. Nós temos tantas poesias, músicas, pinturas, filmes e teatros que falam sobre o amor, mas nós praticamos muito pouco aquilo que consideramos ser amor. Erick diz que o amor “pode te levar a abandonar” tudo o que você conhece: família, amigos, trabalho, religião. Eu não poderia discordar mais de Erick. Amor não é escolher algo ou alguém e deixar outros fora. Amor é sempre acrescentar, aumentar, ampliar, incluir. O ideal de Erick se parece muito com o ideal cristão. Para Erick, amor é “vazio”. O amor não é “vazio”, mas a sensação de plenitude. O ideal de Erick se parece muito com o ideal budista. Erick disse que no “vazio” do seu coração ele encontrou a Deusa, a Deusa imanente que está mais para o Monismo do que para um ente divino, mas ele não fala do Deus. Como pode haver amor?

Esta é uma falha das chamadas “religiões da Deusa”, sobretudo de suas vertentes mais feministas ao ponto de serem misândricas. A Deusa é incapaz de dar, receber, inspirar amor se negamos a Ela sua sexualidade, sua sensualidade, sua feminilidade. Ao omitir, negar e diminuir a importância do Deus, ao tornar a Deusa uma Santa Ameba, nós estamos negando a sacralidade do desejo, do prazer, do corpo, do sexo e do amor. Ao negar que a Deusa precisa de um Consorte nós tornamos o sagrado feminino mais uma triste imitação do ascetismo cristão. Como pode haver amor?

Vivemos por tempo demais debaixo do Ódio, da Violência, da Ignorância, do Medo. Vivemos por tempo demais debaixo dessa ditadura clerical e toleramos toda essa opressão e repressão por tempo demais. Basta de recalques, traumas, frustrações, neuroses e paranoias. Chega de discriminação, preconceito, intolerância, discriminação, segregação. Basta de modelos impostos, seja da Sociedade, seja do Estado, seja da Igreja. Todo ser humano tem a liberdade e o direto de amar quem quiser, quantos quiser. Celebremos o Amor enquanto Lei, como o Amor é, Criança e fruto da União [Hiero Gamos] do Deus com a Deusa.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Bendito Fruto

Ao passear pela internet, pesquisando imagens e textos, eu encontrei o site Morte Súbita. Ali eu acessei a coluna Paganismo e encontrei uma série de artigos que eu irei chamar candidamente de metafísica mamífera.

Eu selecionei quatro textos para escrever um texto inspirado sobre a Deusa que, como o Deus Cristão, está muito mal representada, pelas religiões da Deusa e pelos Diânicos. Nada pode ser mais sacrílego, blasfemo e herético do que negar a sexualidade e a sensualidade da Deusa, mas é isto o que muitos pagãos modernos fazem ao negar ou omitir o Deus, descrevendo a Deusa como se fosse uma Santa Ameba. Nada pode ser mais contraditório do que um sacerdote querer incorporar a Deusa por ainda não ter resolvido suas questões de identidade, opção e preferência sexual. Nada pode ser mais repugnante do que um sacerdote que nega não apenas sua natureza, mas distorce e deturpa a identidade do Deus.

Quando falamos do aspecto divino feminino, conhecido como Deusa, para a mente ocidental, dominada por uma cultura niilista e uma moral judaico-cristã, soa como uma concepção absurda.

Nos primórdios da humanidade, a coisa era bem diferente. A presença maciça de uma Deusa Mãe se estende por todo esse mundo, que é chamado de Gaia não por mera coincidência. O caro dileto e eventual leitor deve se perguntar onde Deus ficava nesse mundo matrilinear e matriarcal. Bom, se você chegou agora e ainda não leu meus outros textos, o Deus está bem presente, como o Guardião do Mistério e Condutor dos Peregrinos, desde pinturas rupestres em cavernas até estátuas em templos.

Mas há uma grande diferença em como nossos ancestrais imaginavam e cantavam a Deusa e em como muitos pagãos modernos, especialmente os que seguem alguma “religião da Deusa” ou alguma forma de Dianismo, imaginam e cantam a Deusa.

Lendo os textos de farsantes e vigaristas travestidos de sacerdotes da Deusa, os atributos que mais percebemos sobre Ela são a compaixão, a misericórdia, a piedade, a caridade... igualzinho aos textos evangélicos sobre o Deus Cristão. Sem dúvida estes são atributos da Deusa, mas são tão... idealizados, mentais, transcendentes, que fica difícil de imaginar que Ela é imanente, carnal, mundana e se manifeste na natureza. Como fica a Deusa em seu aspecto sexual, sensual, feminino, erótico, nesse idealismo... apolíneo?

A Deusa em seu ato mais sagrado e divino chega a ser um desafio e uma afronta ao feminismo histérico e misândrico. A Deusa é a plenitude do feminino, da sensualidade, da sexualidade, do erotismo, do sexo. Ela quer um Deus, Ela quer um Consorte. Ela quer ser beijada, acariciada, beijada. Ela quer ser penetrada. Ela quer oferecer este mesmo desejo, prazer, gozo e êxtase a todos os seus filhos e filhas. Por isso dizemos em nossas celebrações: “Todos os atos de amor e prazer são meus rituais”.

Então os símbolos da Deusa são: a) o triângulo com um vértice para baixo, simbolizando a pélvis e a vagina; b) seios desnudos, fartos, redondos.

Se um recém nascido pudesse falar, a deusa seria a maneira como ele descreveria o seio que o amamenta - se esse seio pudesse falar. De acordo com essa lógica, a imagem da Grande Deusa Mãe seria a extensão no espaço-tempo dos próprios seios”. [Morte Súbita]

Seus seios, por exemplo, eram o motivo pelo qual os Bailônios a chamavam de 'A Mãe dos Seios Frutíferos', aquela cujos seios nunca falhavam, nunca secavam - ocasionalmente eles eram simplificados a aros ou espirais estilizadas, mas geralmente eram expressos com todo seu potencial erótico e, de forma mais impressionante, eram expressos multiplicados para lhes dar mais ênfase”. [Wolfgang Lederer, citado pelo Morte Súbita]

A Deusa que descrevemos não é uma mera mãe humana, dando leite humano para a criança que nasceu de sua própria carne e sangue, nem simplesmente uma mera mãe divina, carregando uma criança humana ou divina: pois de seus mamilos pode sair não leite, mas mel - como na Palestina que, em seu nome, era conhecida como a terra do leite e do mel, ou Delfos, onde suas sacerdotizas eram chamadas Melissai, que significa "abelhas", e seu templo era construído de forma a se assemelhar a uma colmeia. Ela não só é mãe de todo tipo de animais, mas também alimenta a todos, dando a cada um o que é necessário e, sendo a "Alma Mater" que é, ela pode - maravilha das maravilhas - alimentar também homens barbados, estudiosos, lhes dando sabedoria. Resumidamente ela é a fonte de todo tipo de alimento, material ou espiritual”. [Morte Súbita]

Não é de se admirar que ela tenha tanto orgulho de seus seios. E, por causa disso, ela os segura, de forma bem natural, seja para exibi-los, seja para oferecer de forma mais conveniente sua plenitude". [Wolfgang Lederer, citado pelo Morte Súbita]

Estátuas da Deusa, segurando os peitos como se os oferecesse, foram encontradas por toda a Europa e Ásia pré-históricas”. [Morte Súbita]

Quando o antropólogo Weston La Barre diz que "mães criam magos; pais deuses", ele está afirmando que o transe mágico ou xamânico é uma volta ao êxtase no peito da mãe que nutre a todos, enquanto a religião é uma propensão anal de um deus temível que é uma versão aumentada do pai punitivo”. [Morte Súbita]

Várias tradições explicitamente sexuais que surgiram no fim do século XIX e início do século XX se tornaram púdicas e simbólicas. Mas a Grande Mãe persiste, com seus seios à mostra, para aqueles que sabem enxergá-los”. [Morte Súbita]

O que há de mais perturbador, proibido, vergonhoso, escandaloso, para uma sociedade doentia, dominada pela pulsão de morte e pelos recalques oriundos da religiosidade judaico-cristã do que a nudez feminina? O ocidente se julga tão superior ao oriente, tão mais liberal do que os países muçulmanos, mas o sexismo, a misoginia, o patriarcado, a coisificação da mulher, a vulgarização do sexo, a demonização do corpo/desejo/prazer, os tabus/regras/proibições quanto a sexo e relacionamento mostram que não estamos melhores, apenas mais hipócritas. A nudez feminina é permitida apenas como entretenimento do macho, como cabide de produto, como justificativa da supremacia masculina. Quando uma mulher mostra o seio, não se verá a pessoa, suas qualidades, sua humanidade, verá apenas a carne feita para usufruto do macho, desprovida de seu sentido sagrado, religioso ou divino. O que não significa que devemos nos tornar feministas celibatários misândricos, mas que a mulher pode e deve definir como ela quer se relacionar e ter sexo. Para isso, a mulher deve perceber que é uma manifestação da Deusa, aceitar sua sensualidade, sua sexualidade, sua sedução, seu erotismo, seu corpo, seu desejo, seu prazer e procurar vivenciá-lo plenamente, com o Deus, com o homem, além de quaisquer regras, tabus e proibições sociais.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Paganismo e Nova Era

Jason Mankey escreveu no Patheos o artigo “Paganism and New Age” e eu acho interessante para os pagãos brasileiros não traduzir o que Jason escreveu, mas analisar e comparar esses caminhos ou tendências do Mundo Contemporâneo e talvez colocar um contexto mais preciso para diferenciar um de outro.

Eu vou recorrer ao Oráculo Virtual [Google].

O movimento da Nova Era (do inglês New Age) tem como característica uma fusão de ensinos metafísicos de influência oriental, de linhas teológicas, de crenças espiritualistas, animistas e paracientíficas, com uma proposta de um novo modelo de consciência moral, psicológica e social além de integração e simbiose com o meio envolvente, a Natureza e até o Cosmos. Tendo muitas vezes como base um caráter liberal e de oposição à ortodoxia e o conservadorismo das religiões organizadas.

O movimento em si ocorreu nas décadas de 1960 e 1970, tendo como inspiração princípios teosóficos e escritos sincréticos do século XIX e início do século XX. Fazendo parte dos movimentos de contracultura da época e servindo como ferramenta de contestação às religiões e valores tradicionais.

Embora tenha deixado marcas que ainda se refletem na atualidade, o movimento nunca existiu de forma centralizada ou como uma só organização. Nota-se também que nem todas as religiões e filosofias sincréticas ou místicas apoiam ou se identificam com movimentos da nova era, embora muitas vezes sejam rotuladas dessa forma. [Wikipédia]

Paganismo (do latim paganus, que significa "camponês", "rústico" ) é um termo geral, normalmente usado para se referir a tradições religiosas politeístas.

É usado principalmente em um contexto histórico, referindo-se a mitologia greco-romana, bem como as tradições politeístas da Europa e do Norte da África antes da cristianização. Num sentido mais amplo, seu significado estende-se às religiões contemporâneas, que incluem a maioria das religiões orientais e as tradições indígenas das Américas, da Ásia Central, Austrália e África, bem como às religiões étnicas não-abraâmicas em geral. Definições mais estreitas não incluem nenhuma das religiões mundiais e restringem o termo às correntes locais ou rurais que não são organizadas como religiões civis. Uma característica das tradições pagãs é a ausência de proselitismo e a presença de uma mitologia viva, que explica a prática religiosa. [Wikipédia]

Neopaganismo, [ou Paganismo Moderno] por vezes referido simplesmente como paganismo, é um termo utilizado para identificar uma grande variedade de movimentos religiosos modernos, particularmente aqueles influenciados pelas crenças pagãs pré-cristãs da Europa. Os movimentos religiosos neo-pagãos são extremamente diversificados, com uma vasta gama de crenças, incluindo o politeísmo, o animismo, o panteísmo e outros paradigmas. Muitos neopagãos praticam uma espiritualidade que é completamente moderna em sua origem, enquanto outros tentam reconstruir precisamente ou reviver, religiões étnicas como os encontrados em fontes históricas e folclóricas.

A maior parte das religiões neopagãs são tentativas de reconstrução, ressurgimento ou - mais comumente - adaptação de antigas religiões pagãs, principalmente as da antigüidade pré-cristã européia, mas não restritas a estas, sem perder de vista as experiências e as necessidades apresentadas pelo mundo contemporâneo. Alguns neopagãos enfatizam sua conexão com formas antigas do paganismo, em uma forma de continuidade histórica marginal. [Wikipédia]

Agora vamos colocar o andor em marcha. Esse “orientalismo” apareceu na mesma época da Contracultura e do Paganismo Moderno. Mais fruto da colonização inglesa e fruto da cultura pop [os Beatles e outras bandas contribuíram e muito para ascender as inúmeras práticas do “oriente” para consumo da classe média e até intelectuais], a Nova Era pode montar seus primórdios ao Ocultismo do século XVIII e as muitas ordens místicas esotéricas que apareceram em decorrência desse Movimento Romântico. Maçonaria, Rosacruz, Teosofia e congêneres misturaram sem dó nem piedade as mais diversas práticas espirituais vindas do “oriente”, muitas vezes desprovidas de sua base, origem ou doutrina religiosa.

Muito do que sabemos e resgatamos do Paganismo Clássico e da Bruxaria Tradicional pode até ter sido trazido pela Nova Era, mas o estudo da história, da arqueologia, da antropologia e da etnologia pode filtrar muito do bagaço que é vendido com a embalagem de Wicca, Bruxaria e Paganismo. O mais provável é que o Ocultismo e a Teosofia copiaram partes do Paganismo Clássico, especialmente os ensinamentos esotéricos e partes das Religiões de Mistério, especialmente as práticas mágicas, com uma embalagem mais comercial e atrativa para o público que procurava formas de espiritualidade alternativas.

O Paganismo Moderno, em seus primórdios, sofreu bastante com essa falta de fontes, de bases e de estudos mais aprofundados e, infelizmente, ainda existe muita confusão e ecletismo que coloca o Paganismo Moderno com uma inconveniente proximidade com a Nova Era. Por isso que é necessário divulgar e esclarecer ao público que práticas espirituais têm sua origem e sentido por si mesmas. Ainda que façamos uso dessas práticas, isto não pode alterar nem distorcer nosso sentido de identidade, de origem, de prática e de propósito.

Por isso que eu tenho uma postura tradicionalista e politeísta. A ideia de Monismo ou Henoteísmo é uma influência desse “orientalismo”, dessa Nova Era comercializada. A prática espiritual é um acessório que ajuda, complementa, aprimora nossa experiência com o divino, mas não pode tomar o lugar dos princípios e valores que caracterizam nossa religião. A Nova Era é simplesmente uma espiritualidade de conveniência que beira a histeria kitsch. O Paganismo Moderno é uma religião, com Deuses, rituais e práticas com um objetivo mais coerente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Deus Sol e o escaravelho

Por Geraldo Magela Machado.

Segundo o mito, o deus Sol, que era um deus pacífico, teria nascido de um ovo ou de um lótus. Esse deus foi o pai e mestre de todo o universo. Despertando no oriente e, conduzido pela sua barca de ouro de 770 côvados, medida egípcia equivalente a 400 metros de cumprimento, distribuía luz e calor pelo mundo.

Na forma humana durante o dia e com cabeça de carneiro com chifres recurvados à noite, o deus Sol, na cidade de Heliópolis, protege os egípcios, concedendo-lhes inúmeros benefícios, enquanto estes vão constituindo povos por toda a região do Egito: os núbios ao sul, os asiáticos ao norte, os líbios ao oeste e a leste, os beduínos (árabes do deserto).

Os demais elementos da natureza também tinham seus nomes ligados ao deus Sol: o ar era Chu, a Terra era Tefnut, Geb, e o céu era Nut, todos seus filhos. Foi o deus Sol (Rá), quem determinou que, caso um humano ofenda os deuses, este deverá oferecer um sacrifício animal, pois não eram aceitos sacrifícios de seres humanos.

Mesmo um deus está sujeito às consequências do tempo, e assim, o deus Rá começa a se degenerar, seus cabelos adquirem a cor do lápis-lazúli (pedra preciosa de cor azulada), seus membros enrijecem, seus ossos viram prata, seu corpo transforma-se em ouro e ele precisa de um bastão para caminhar.

Khepri era um dos vários deuses egípcios associados a animais. Seu nome significa escaravelho, e seu culto é citado nos textos encontrados nas pirâmides. O escaravelho tem por hábito botar seus ovos em esterco animal, assim como em corpos de outros escaravelhos mortos. Essa prática foi observada pelos egípcios e, daí, surgiu a noção de ressurreição e renascimento, associadas ao escaravelho.

Outra prática comum dos escaravelhos e que também foi observada pelos egípcios, é a de rolar bolas de esterco pela terra. Isso fez com que fosse associado ao deus Rá, que rola o Sol através do céu. Essa crença fazia com que os egípcios acreditassem que Khepri renovava o sol todas as noites para, no dia seguinte, apresentá-lo ao mundo, renovado.

Essa ideia de renovação associado ao escaravelho, foi levada tão a sério pelos egípcios que, aquele que trouxesse consigo uma imagem de um escaravelho, tinha garantido a persistência no ser e, se levasse essa imagem para a sepultura, teria certificado o direito ao renascimento para a vida.

Tido como amuleto preferido, os escaravelhos destinados aos mortos eram confeccionados com muito realismo, em pedra dura e colocados no lugar do coração, no peito das múmias, às vezes, incrustados numa moldura retangular. Estes amuletos já foram encontrados até no peito de certos animais tidos como sagrados pelo povo egípcio.

Fonte: http://www.girafamania.com.br/africano/materia_egitoescaravelho.html

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A Deusa de Parmênides

Karl Popper foi um teórico do conhecimento e um teórico da física quântica. Em seu livro “O Mundo de Parmênides”, Karl Popper nos brinda com uma profunda reflexão sobre a verdade objetiva e o conhecimento. A base de sua reflexão provém do poema de Parmênides “Da Natureza”, onde um filósofo pré-socrático apresenta sua cosmogonia como uma revelação de uma Deusa.

Aqui eu faço um parêntese com o livro “Contra história da Filosofia”, de Michel Onfray, onde o autor fala de outros filósofos pré-socráticos que foram “excluídos” da história da filosofia, evidentemente como um preâmbulo para as preferências de Michel Onfray. Ele não deve ter lido os originais ou não deve ter considerado o contexto destes pensadores antigos. Antes de qualquer evidencia, prova ou teoria, pensadores gregos apregoavam um materialismo e um atomismo, quase um prenúncio do niilismo de Nietsche. Quanto ao cacoete descrente de Michel Onfray, eu fiz minhas considerações anteriormente. Neste texto eu irei explorar o conceito de Karl Popper sobre o ser, o não-ser, verdade objetiva e a verdade conjectural.

Quando falamos de conhecimento, devemos nos referir ao conhecer, ou melhor, no latim, co-gnos-cere. No cerne do conhecimento encontramos a palavra grega gnose, algo que descrentes devem descartar como misticismo e superstição. Gnosis, episteme, aletheia, sophia, são todas palavras que tem em comum o saber e a verdade. Apenas podemos saber de algo quando aquilo que sabemos se aproxima da verdade. Esta é a verdade objetiva, que eu contrastaria da verdade conjectural.

Esta é a Via Dupla de Parmênides. A verdade objetiva é referente ao objeto, a verdade conjectural é referente ao aporte sensorial do observador. Popper chama a filosofia de Parmênides como sendo crítica ao sensualismo. A filosofia de Parmênides consiste na crítica ao ponto de vista que o conhecimento provém daquilo que se percebeu pelos sentidos, então cabe dizermos sentimentalismo, sensorialismo.

Então qual seria a fonte do conhecimento para se chegar próximo da verdade? Para desespero dos descrentes, Parmênides recorre à revelação da Deusa. Afinal, Parmênides diferencia o ser do não-ser, apenas podemos saber [conhecer] algo que é, o ser; o não-ser não pode ser conhecido porque não é real, mas uma ilusão. O conhecimento conjectural é o conhecimento oriundo dos sentidos, portanto, subjetivo, uma percepção aparente do real, pode até se aproximar da verdade, ser provável, plausível, semelhante, mas não é a verdade. A verdade, o objeto, a coisa em si, apenas pode ser conhecida pela razão. Mas onde fica a razão, se devemos descartar os organismos e os sentidos advindos destes? Onde fica a mente, o pensamento, o raciocínio, se nós temos que descartar o cérebro, visto que como órgão sensorial é sujeito ao engano da ilusão? Eis que aqui eu identifico a Deusa da revelação, não Diké, mas Maya. O ser, imutável, imóvel, que abarca o todo, do qual nós não podemos escapar, onde tudo é uma ilusão, inclusive a noção de tempo, espaço e movimento.

Para deixarmos a matrix, devemos superar a ilusão dos sentidos e as conjecturas que formulamos a partir deles. Ao estabelecermos a evidencia como sendo a verdade objetiva, estabelecemos um padrão, que é uma conjectura e, portanto, uma ilusão. Ao estabelecermos o resultado como sendo uma forma de estabelecer se um método é confiável, estabelecemos um padrão, que é uma conjectura e, portanto, uma ilusão. O real não pode ser definido a partir daquilo que tem evidência de existência, o real não pode ser compreendido a partir de mecanismos eficientes e eficazes. Nossas construções, a despeito de serem confiantes, eficazes, eficientes e práticas, são parte desse mesmo mundo de conjecturas, de ilusão, que apenas funcionam porque simulam ou reproduzem as forças e as leis da verdade objetiva, a natureza, a Deusa, Maya, imanente e transcendente.

sábado, 6 de dezembro de 2014

A Dança de Shiva

Eu escrevi no artigo “Pentagrama Invertido” este trecho:

“Essa relação espacial de que o que está em cima é superior ou dominante pode ser vista em muitas imagens católicas, onde o Santo pisa o Diabo, como também pode ser visto na estátua de Shiva sobre um demônio. Isso não faz o menor sentido, em termos espirituais, uma vez que “em cima” ou “em baixo” são referenciais humanos e terrenos. Para dar uma visão melhor deste simbolismo, eu gostaria de lembrar os muitos mitos em que o herói tem que superar ou vencer um animal (seu próprio ego material) para poder realizar uma missão. Entretanto o herói não pode matar o animal, senão mataria parte de si mesmo, tornando impossível de cumprir seu destino, levando o herói a assimilar, aceitar seu lado animal, dando ao herói os poderes mágicos necessários para terminar sua saga. Ou seja, Shiva não está “pisando” o demônio, mas sendo escorado por ele, dando a Shiva a base necessária para que Shiva seja Deus. A Matéria não está em confronto com o Espírito, nem está em sujeição, como querem muitos teóricos”.

Shiva e Kali são um Deus e uma Deusa do Hinduísmo difíceis de serem compreendidos pela mente ocidental. A dança de Shiva provoca o inverso da ação de Brahma, seus homens santos vivem em cemitérios e crematórios, sua fúria é temida por Vishnu e Brahma. Sua contraparte, Kali, é mais enigmática. Carinhosamente chamada de Kali Ma, ela enfrentou Raktabija, um Asura [demônio hindu] que estava desafiando os Deuses para lutar e Ela o derrotou comendo-o. Shiva é o Destruidor, Kali é a Devoradora.

Mircea Eliade e Joseph Campbell resumiram este mito perturbador e aterrador como o “mito do eterno retorno”. Em algum ponto, ciência e religião se tocam, quando falamos no princípio e fim do Cosmo, tal como nós o conhecemos. Tanto a religião quanto a ciência acreditam que o Cosmo irá se extinguir em algum momento, mas que outro aparecerá em seguida, das cinzas do Cosmo que se consumiu. Quem diria que a ciência acreditaria no mesmo princípio de que a existência física deste Cosmo é cíclica?

Voltemos a Shiva e a forma como Ele é representado, como se estivesse dançando, em cima de um Asura, dentro de um círculo, cuja a base que pode ser considerado o começo e o fim do círculo, senão a base da manifestação de Shiva.

Criação, Manutenção e Destruição, podem ser consideradas as formas em como a mente ocidental percebe a Trindade Brahma, Vishnu e Shiva. Shiva porta o tridente [trishula] que é o próprio simbolismo da Trindade e das três dimensões de existência. O círculo representa a ilusão da passagem de tempo das criaturas carnais enquanto o centro, imutável, como um espaço pleno, está Shiva regulando a manifestação material. Enquanto vivemos como forma material, somos perecíveis, como tudo que existe dentro da manifestação divina, incluindo o Cosmo. A dança de Shiva não tem a intenção de colocar o mundo físico, a matéria, a carne, como naturalmente malignas, como algo a ser expurgado, mas sim que devemos dominar nossas pulsões, usar o corpo para transcender a ilusão de Maya.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Apologia ao Frei Onfray

Humanos, por razões evolutivas, temos verdadeira alergia ao fortuito. Não foi por outro motivo que inventamos tantos panteões de deuses” – Hélio Schwartsman.

“Humanos, por razões evolutivas, por ter aversão ao fortuito, também inventaram as diversas ciências” – Profeta do Profano.

No mundo de Leucipo, há apenas átomos, vazios e movimentos efetuados pelos primeiros no segundo.

Esses átomos organizam-se e produzem simulacros. Eles existem em número ilimitado e, em associações relativas a sua forma, sua ordem e disposição, constituem a matéria e a substância de toda realidade, sem exceção”.

A questão permanece. Se a “matéria”, a “realidade”, é um “simulacro”, como decidimos o que é real, concreto, material e não imagem, ilusão?

Esses simulacros “são compostos de películas imperceptíveis que emanam dos objetos e penetram no corpo por seus orifícios. os átomos em suspensão no ar entram no interior do corpo pelo nariz, pelos olhos, pelos poros ou pelas orelhas. Os cheiros, os sabores as imagens, as impressões táteis, os sons são percepções que atraem essas estruturas em movimento no ar e seu trajeto do objeto e direção ao sujeito”. - Michel Onfray, Contra História da Filosofia, Volume I - As Sabedorias Antigas, pg. 42 – 43.

Tudo é átomo, inclusive o ar, então como os simulacros podem se movimentar sem resistência? Tudo é átomo, inclusive o corpo, o nariz, os olhos, os poros, as orelhas, que também são estruturas de simulacros construídas por átomos. O “corpo” não é um corpo. Tudo é átomo, inclusive a percepção? Tudo é átomo, inclusive o sujeito? Onde ficam os átomos ou o simulacro da percepção, do sujeito? A “percepção” não é uma percepção, o “sujeito” não é um sujeito.

E se nosso modelo de interpretação de nossas percepções não for suficiente para englobar todos os simulacros construídos pelos átomos? Não estaríamos limitando todo um Universo para nossa conveniência? E se os átomos também forem simulacros de partículas, energias e ondas que não tem existência física? Não estaríamos limitando toda uma Existência para nossa conveniência?

Eu sempre achei curioso como alguém define a realidade, geralmente dentro de um conceito arbitrário escolhido, um padrão, fora do qual todo aquilo que não se adequa é descartado.

O descrente fica ofendido quando vê que “ateísmo” é listado como uma religião. O caro dileto e eventual leitor irá ser condescendente comigo enquanto eu explico e analiso a verdade dessa acepção.

Antes de qualquer coisa, eu devo lembrar que religião não é simplesmente acreditar em Deus[es], eis o Budismo que exemplifica bem a questão. Religião é a crença de que um modelo, um padrão, um conhecimento, contém a verdade. A contestação ou crítica ao modelo, ao padrão, ao conhecimento é uma ofensa à verdade “anunciada”.

Diz o descrente: Para existir, para que se conclua pela existência, é preciso evidências. Quase sinto pena do descrente, pois ele concede à evidência uma qualidade transcendental. Algo só existe quando a evidência assim demonstra. A evidência está além do objeto, fato ou circunstância que ela supostamente representa.

Entretanto, o que são as evidencias, provas ou experiências nas quais a Ciência se escora para fazer suas afirmações? Primeiramente é necessário estabelecer um objeto de estudo, uma metodologia, uma coleta de material e trabalho de campo. Todos os itens são catalogados, separados e discriminados em suas características. A isto se chama amostragem, geralmente muito pequena se considerarmos o conjunto total. Esta amostragem é medida, pesada, dissecada para então ser colocada dentro de uma característica de conveniência. Então, cada evidencia até então apenas demonstra a existência da mesma dentro de um conjunto de realidade. O próximo passo é o de tentar comparar entre as amostragens e ver alguma similaridade, algum padrão entre as amostras ou resultados nos exames para, através de fórmulas e estatísticas, se definir o que se chama de leis da Ciência.

Qual é a "realidade" dos ateus? - A inexistência de Deus.

O Paraíso, para o ateu, é esta ilusão de ser mais racional, inteligente, lógico do que outras pessoas, simplesmente pelo fato de se dizer ateu.

O descrente, quando acuado em seus próprios argumentos, ou tropeçado nos exemplos que este mesmo usa para suas analogias, entra no mesmo raciocínio circular muito comum de se encontrar entre evangélicos.

O que se pode aprender ao percebermos a ciência como parte do contexto histórico é que mesmo ela é produto de uma concepção, de um padrão, de uma norma, de uma visão de mundo.

A maior dificuldade ao conceituar e ver quem são os Deuses e Deusas está em nossa percepção, que é finita e imprecisa, nós tendemos a ver a aparência/embalagem e não procuramos ver o conteúdo/essência.

Deus [ou pelo menos aqueles que sejam dignos deste título] não promete um mundo confortável e agradável, aprazível unicamente às necessidades humanas. Isto é aquilo que apenas "amigos imaginários" fazem. Discutir ou definir a existência de Deus nestes termos é incoerente, ilógico, irracional e um completo absurdo.

Há que se explicar muitas coisas quando se fala em Paganismo. Espera-se muitas coisas de nossos Deuses que Eles nunca, ao contrário do Deus Cristão, prometeram. Há que se ler na história, de forma séria e honesta, o que os Deuses Antigos nos davam, o que Eles esperavam de nós e o que nossos antepassados fizeram por Eles.

Uma coisa é certa: os Deuses Antigos nunca prometeram aos seus adoradores uma falsa paz, um falso amor, uma falsa salvação, uma falsa redenção. Eles nunca prometeram que a vida seria mais fácil ou mais branda se nós os adorássemos. Eles nunca nos condenaram nem nos julgaram por nossas falhas, jamais agiram como padrastos que apenas acusa a paternidade quando convém ou quando há uma obediência cega.

O que o ser humano (crente ou descrente) deveria perceber é que os mitos e das religiões não são (ou não deveriam ser) as donas da Verdade, mesmo porque a Verdade é dona de si mesma. Os mitos e as religiões são sistemas, como a Ciência, que aponta os indícios através dos quais se pode ter um vislumbre da Verdade.

A mitologia e a mitografia migrou do imaginário popular para a nobreza e para o clero, de onde vem a concepção moderna estereotipada da imagem do unicórnio. Sua origem e existência há muito foi integrada no imaginário, perdendo sua referência com a biologia das espécies e no mundo asséptico, estéril e mecanicista do ateu, qualquer coisa que não se encaixe ou não passe pelo escrutínio da ciência, o unicórnio é relegado a uma figura fantástica, impossível e improvável de existir, mera superstição e crendice, que deve ser expurgada. Impossível calcular a perda cultural que a humanidade teria se por acaso essa convicção se tornasse uma verdade absoluta e inquestionável.

No fundo, o transeunte apenas busca as mesmas coisas que nós. Quer respostas, quer conforto, quer segurança, quer ter uma ideia do que pode vir a seguir, quer ter a ilusão de que "sabe" de tudo e que tudo está sob seu controle.