quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Decifrando a Deusa Trans/gênero/cedente/gressora

Pagãos, bruxos e sacerdotes têm citado trechos de textos e mitos antigos para agradar a população LGBT, que tem se expandido no Paganismo Moderno.
Nós não somos uma religião de livro, mas eu tenho notado na Comunidade Pagã uma crescente interpretação dos mitos e textos antigos como se fossem verdades literais.
No Patheos Sarah Amis cita trechos dos antigos hinos à Inanna da sacerdotisa Enheduanna para justificar a androginia sagrada. No Patheos, Dana Corby cita o mito de criação Feri e afirma que este é o mito de criação, tanto da Wicca Tradicional quanto do Ofício.
Quando o pagão moderno estuda sobre os povos antigos, seus mitos, seus ritos e sua visão do divino, ele deve perceber qual era a função, a razão e o propósito, bem como os ritos e cultos. A base de uma crença, uma espiritualidade, uma religião está na busca por realidades eternas, não na satisfação de nosso ego.
Sarah Amis cita o trecho onde Enheduanna atribui a Inanna o segunte discurso:
“Quando eu me sento na cervejaria, eu sou uma mulher e eu sou um jovem exuberante. Quando eu estou presente em um lugar de brigas, eu sou uma mulher, uma figura perfeita. Quando eu me sento junto à porta da taberna, eu sou uma prostituta familiarizada com o pênis; a amiga de um homem, a namorada de uma mulher.”
Mas para compreender a função , a razão e o propósito, temos que compreender a cultura Sumeriana e os mitos de Inanna.
A androginia cerimonial tem uma longa história. Na Mesopotâmia, as pessoas do tempo envolvidas na adoração da deusa são frequentemente descritas em textos literários relacionados aos rituais do templo como andróginos ou sexualmente ambivalentes, eunucos, hermafroditas ou travestis.
As sacerdotisas e os sacerdotes transgêneros têm a habilidade de trespassar, de revelar duas palavras essencialmente diferentes uma da outra. Nessa transgressão, a unidade original da criação do mundo é revelada.
As pessoas de gênero ambíguo atuavam dentro dos limites do ritual do templo. Assim contidos, o rompimento da realidade fabricada permitia aos cultuadores contemplarem a fragilidade de suas realidades construídas e dar espaço à instabilidade dentro de seu mundo predominantemente previsível.
Os aspectos rituais da androginia conectam-se ao propósito sagrado de transgredir para revelar o outro lado, de pertencer a mais de um mundo. Esta transposição espiritual era mais facilmente atravessada pelos andróginos do templo porque eles já haviam atravessado as fronteiras tradicionais da definição de gênero. ["Inanna, Lady of Largest Heart", de Betty De Shong Meador, University of Texas Press]
A inversão de papéis tem sua função, razão e objetivo na propagação da ordem social:
Todas as maiores funções da vida estavam associadas a uma ou mais divindades patronas e um corpo de mitos e rituais. Nossa distinção entre “sagrado” e “profano”, o reino da igreja e da rua seria ininteligível aos gregos antigos. E nós não podemos compreender o mundo deles a menos que nós percebamos que todos os processos da vida estavam interligados com noções místico-religiosas. Estudantes do passado tem procurado por uma teoria, uma chave única, que poderia abrir a porta para a compreensão da natureza e do propósito dos rituais religiosos nas sociedades pagãs. Uma teoria mais velha via no ritual primariamente um proposito imediatamente pragmático: o alvo do ritual era promover a fertilidade da terra e da espécie humana, produzir chuva, pacificar os Deuses ou evitar desastres. A antropologia mais recente tem apontado o papel do ritual como um perpetrador dos valores sociais e normas comportamentais, ou em seus méritos psicológicos como ajudar as pessoas a conviver com as contradições e problemas da vida.
Se o propósito da iniciação é didático, para doutrinar as futuras gerações com os valores das velhas para que a sociedade continue, os rituais de escape tendem a proteger os padrões sociais por providenciar uma liberação temporária e controlada. O significado mais comum que serve a esse propósito é a inversão de papéis, que é tão atestado quanto a iniciação. Nas condições controladas do ritual, o excluído, o submisso e o maldito podem sair das restrições sociais e das limitações da existência. [“Reign of Phallus”, de  Eva C Keuls]
No entanto, os mitos principais e maiores dos Deuses tinham outra função, razão e objetivo:
No rito, o homem se identifica com o primeiro princípio e a mulher com o outro. Essa união reproduz o Hiero Gamos, o Casal Divino, o Andrógino, bem como o mistério da natureza desse mundo, um mundo que é manifestado e condicionado, em que a humanidade aparece como separados em uma dualidade, vão se unir por um instante. No orgasmo sexual, a lei da dualidade é suspensa, o êxtase ocorre e, no arrebatamento, conduz os celebrantes à iluminação absoluta. [“Shiva e Dioniso”, de Alain Danielou]
Os hinos de Enheduanna eternizaram o tremendo poder de Inanna, a única Deusa que desceu ao submundo e voltou por conta própria. O poder de Inanna é tão grande que até os Deuses mais antigos temem sua fúria. Inanna é a Deusa do Amor, mas é também a Deusa da Batalha. Fica evidente que é nesse contexto que Enheduanna atribui a Inanna o poder de mudar o gênero.
Entretanto estes não são os únicos aspectos e atributos de Inanna. Diversos hinos de Enheduanna são canções de Inanna para Dumuzzi. Nestes hinos, Inanna demonstra toda sua exuberância, sensualidade e sexualidade feminina. Estes hinos estão tão carregados de erotismo que seria escandaloso para muitos pagãos modernos verem uma Deusa que exalta ao máximo os atributos mais carnais de toda mulher, tornando sagrado, o desejo, o prazer e o sexo.
Dana Corbi cita o que ela afirma ser o “mito de criação” da Wicca Tradicional e do Ofício:
“A Deusa, sozinha no universo que Ela havia criado, sentiu a necessidade de ter um companheiro, um reflexo, um parceiro. Então ela própria se dividiu para criar esse parceiro e o Deus nasceu. Vê-lo era deseja-lo e a Deusa sentiu desejo. Dançando, mexendo, cantando o primeiro encantamento conhecido, ela o seduziu. Eles se amaram e se tornaram Um novamente e do seu amor o mundo da matéria nasceu.”
Este texto é muito próximo do texto do livro “A Dança Cósmica das Feitiçeiras”, de Starhawk [Tradição Reclaiming/Feri] e muito utilizado pelas tradições diânicas e pelas religiões da Deusa. De acordo com Dana Corbi, este é o “mito de criação” da Wicca Tradicional, inspirado pelo livro “Arádia, o Evangelho das Bruxas”, de Charles Godfrey Leland. Dana Corbi ainda acrescenta que este é o mito de criação “universal” nas velhas formas do Ofício.
Por mais que eu respeite Dana Corbi, como estudante dedicado da Wicca e Bruxaria Tradicional estas afirmações esbarram em diversos problemas. A Bruxaria Tradicional é tão diversificada em suas práticas e crenças que é completamente sem sentido afirmar que haja um “mito de criação universal” nas velhas formas do Ofício. A Wicca Tradicional é Britânica, enquanto o livro de Charles Godfrey Leland fala da Strega, um tipo de Bruxaria Tradicional Italiana. Nos textos atribuídos a Gerald Gardner e nos Livros das Sombras não há qualquer indício de um “mito de criação”.
A Comunidade Pagã está fortemente influenciada pelo “neopaganismo americano”, como bem explicou John Halstead. O mais provável é que covens tradicionais acrescentaram o “mito de criação” da tradição Feri. O crescimento, popularização e comercialização da Wicca resultaram na infiltração de agendas politicas e pessoais. Para o público curioso, interessado e simpatizante, os covens wiccanos tem tentado atender, através de ideias, práticas e teologias mais inclusivas. O que certamente explicaria por que têm aparecido tantos livros de bruxos e sacerdotes voltados para a comunidade LGBT.
Essa confusão aumenta mais quando grupos, covens e organizações, para aumentar o interesse do publico geral, acabam se identificando como sendo wiccanos. Infelizmente o canal de Paganismo do Patheos tem seguido essa tendência. O engraçado é que a própria Comunidade Pagã reclama do “privilégio wiccano”.
O conceito de uma Deusa criadora e transgênero é um mito moderno, construído pelo ser humano, em busca de uma espiritualidade, uma religiosidade e uma crença que satisfaça suas necessidades egoístas. As Religiões Antigas mantiveram por milênios os mitos, os ritos e os mistérios de cada um dos Deuses, mesmo aqueles que acabaram assimilando ou sendo identificados com os Deuses de outros povos.
Nós que somos pagãos modernos e sabemos o quando devemos aos nossos ancestrais, devemos recuperar os valores e princípios das religiões antigas. Nós devemos evitar essa religiosidade de conveniência, essa espiritualidade sintética, essa crença artificial, inventada e vendida para satisfazer a vaidade humana. Nosso serviço é para nossos ancestrais e Deuses.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os mistérios da Samotrácia

A Grécia Antiga é considerada o berço da civilização ocidental. Estudando suas origens, Grécia Antiga foi formada a partir da miscigenação dos povos Jônios, Dórios, Aqueus e Eólios com os Pelasgos, povo nativo. Os Dórios vieram pelo norte, vindo da região do Épiro, Macedônia e Trácia. Os Jônios, Aqueus e Eólios vieram pelo leste, vindos da península de Anatólia. Atribui-se a estes povos como sendo de origem Indo-Européia, tendo o patriarca mítico Heleno em comum.
Em diversos pontos, tanto históricos, etnográficos, quanto míticos, a origem da Grécia Antiga, da Europa, bem como da dita “civilização ocidental” passa por povos e culturas da Ásia Menor e Oriente Médio. Europa era da Fenícia, Atena era da Líbia, Hecate era de Cária, Ártemis era da Frígia.
Pouco se sabe dos povos Pelasgos, povos nativos que habitavam o que seria a Grécia, mas são atribuídos a eles a formação da civilização Minoica. No entanto, traços de sua cultura e religião foram encontrados na Samotrácia, cujos mistérios tem elementos em comum com as demais escolas de mistérios.
No Wikipédia, eu encontrei um artigo que conta um pouco sobre esses mistérios:
Santuário dos grandes deuses de Samotrácia é um dos principais santuários pan-helênicos, situado na ilha de Samotrácia, na costa da Trácia. Construído imediatamente a oeste das fortificações da cidade de Samotrácia, não dependia dela, como demostram o envio de embaixadores da cidade ao santuário por ocasião de festas. O santuário era celebre em todo o mundo grego pelo culto de mistérios que ali se praticava. Mistérios cabíricos, que não era menos renomado que o de Elêusis e do que o nome dos homens que foram ali iniciados: o historiador Heródoto, um dos raros autores a ter dado informações sobre a natureza dos mistérios; o rei de Esparta, Lisandro, e numerosos atenienses, o culto é mencionado por Platão e Aristófanes.
Um período de espetacular desenvolvimento ocorreu durante o período helenista, quando se tornou, no reinado de Felipe II, um tipo de santuário nacional da Macedônia, onde sucessores de Alexandre o grande rivalizavam em munificiência.
Era um importante lugar de culto ainda na época do Império Romano, o próprio imperador Adriano o visitou e o escritor Marco Terêncio Varrão descreveu uma parte dos mistérios, antes deles se desfazerem ao fim da antiguidade tardia.
Culto dos grandes deuses
A identidade e natureza das deidades veneradas no santuário permanecem enigmáticas, principalmente porque era tabu pronunciar seus nomes. Fontes literárias da antiguidade referem-se a eles com o nome coletivo de Cabiros, enquanto nas inscrições locais eram referidos simplesmente como deuses ou grandes deuses.
O panteão de Samotrácia
O panteão dos grandes deuses consiste de numerosas deidades ctônicas, na maioria anteriores à chegada dos colonos gregos, no século VII A.C., reagrupados ao redor da figura central da Grande Mãe.
A Grande Mãe, deusa frequentemente registrada em moedas de Samotrácia como uma mulher sentada, com um leão ao seu lado. Seu nome secreto original era Axiéros. Associada com a Grande Mãe da Anatólia, com Cibele, a deusa da Frígia, e com a deusa mãe de Troia do monte Ida. Os gregos associaram suas qualidades à deusa da fertilidade Deméter. A Grande Mãe é a toda-poderosa senhora do mundo selvagem das montanhas, venerada sobre as rochas sagradas onde eram oferecidos sacrifícios. Dentro do santuário de Samotrácia, seus altares correspondem a porfírias, afloramentos rochosos de várias cores (vermelho, verde, azul ou cinza). Para seus fiéis, seu poder também se manifestava em veios de ferritas magnéticas, de que faziam anéis que usavam como forma de identificação. Alguns exemplares foram encontrados no cemitério vizinho ao santuário.
Em Samotrácia se veneravam também Hecate, com o nome de Zeríntia, e Afrodite-Zeríntia, duas importantes divindades, com igual devoção. Ali esse culto se distanciou do da Grande Mãe e se identificou mais com divindades mais familiares aos gregos.
Cadmilo, o esposo de Axieros, é um deus da fertilidade identificado pelos gregos com Hermes, uma divindade cujos símbolos eram uma cabeça de carneiro e um bastão (kerykeion), um evidente símbolo fálico, e que pode ser encontrado com alguma frequência.
Duas outras deidades masculinas acompanham Cadmilo. Eles correspondem aos dois legendários heróis que fundaram os mistérios de Samotrácia, os irmãos Dardanos e Éetion. Eles eram associados aos Dióscuros, dois populares gêmeos protetores dos marinheiros em perigo.
Um par de divindades do submundo, Axiokersos e Axiokersa, eram identificados com Hades e Perséfone, mas não parecia fazer parte do grupo original de deidades pré-helênicas. A lenda, familiar aos gregos, do rapto da deusa da fertilidade pelo deus do subsolo também era parte dos dramas sacros celebrados em Samotrácia, embora menos que em Elêusis.
Durante um período tardio, este mesmo mito foi associado com o casamento de Cadmo e Harmonia, possivelmente pela semelhança com os nomes de Cadmilo e Electra.
Os ritos
O espaço do santuário era aberto a todos que desejassem cultuar os deuses, embora as edificações consagradas aos mistérios era reservada somente aos iniciados. Os ritos mais comuns não se distinguiam daqueles praticados nos outros santuários gregos: preces e súplicas acompanhadas de sangrentos sacrifícios de animais domésticos (carneiros e porcos), queimados em holocausto no fogo sagrado, assim como libações feitas às divindades ctônicas nos tanques rituais de forma circular ou retangular, os botros (bothroi), eram utilizados numerosos altares de pedra, o maior coberto, no fim do século IV A.C. por uma cobertura monumental .
O grande festival anual, para o qual vinha gente de toda Grécia, provavelmente ocorria no meio de julho. Consistia na representação de uma peça sagrada, mostrando o casamento ritual (hiero gamos). Ele ocorria no edifício com o friso das bailarinas, construída no século IV A.C.. Nesta era se acreditava que a procura da virgem desaparecida e seu casamento com o deus do submundo representava o casamento de Cadmo e Harmonia. O friso que dá nome ao recinto pode ser uma alusão a esse casamento.
Por volta de 200 A.C., uma competição dionisíaca foi adicionada ao festival, facilitada pela construção de um teatro oposto ao grande altar. De acordo com mitos locais, foi nessa época que a cidade de Samotrácia honrou o poeta Iasos em Cária por ter composto a tragédia Dardanos e ter feito outros sobre a ilha, a cidade e o santuário.
Numerosas ofertas votivas eram feitas ao santuário, e eram guardadas num edifício próprio, próximo ao grande altar. As oferendas podiam ser estátuas de bronze, mármore ou argila, armas, vasos, etc. Outrossim, como Samotrácia era local de frequentadas rotas marítimas, o culto das Cabíriasera muito popular, e numerosas ofertas votivas , embora muito modestas não menos intensas, lhes eram destinadas: conchas e anzóis foram encontrados em escavações, ofertas de marinheiros e pescadores pela proteção contra os perigos do mar.
A iniciação
A característica única do culto de mistérios em Samotrácia era sua abertura, em comparação com Elêusis, a iniciação não tinha pré-requisitos de idade, género, posição ou nacionalidade. Todos, homens, mulheres, adultos e crianças, gregos ou não, o livre, o liberto ou o escravo podiam participar. A iniciação não era limitada a uma data precisa, e podia-se ser iniciado nos dois graus sucessivos dos mistérios no mesmo dia, a única condição era de fato estar presente no santuário.
A primeira etapa da iniciação era a myésis, o mystes, quer dizer o iniciado, recebia a revelação de um relato sagrado e símbolos sagrados lhe são mostrados. No caso de Heródoto, a revelação mostrou a interpretação dos símbolos itifálicos de Hermes - Cadmilo. segundo Varrone, o símbolo revelados nesta ocasião representavam o céu e a terra. Como resultado dessa revelação, que devia permanecer secreta, o iniciado tinha assegurado alguns privilégios, como a esperança de uma vida melhor, proteção no mar, e a promessa, como em Elêusis de um pós-morte mais feliz. Durante a cerimonia, o iniciado recebia uma faixa de pano vermelha, amarrada na cintura que se supõe ser um talismã protetor. Um anel de ferro exposto ao divino poder de pedras magnéticas era provavelmente outro símbolo de proteção entregue durante a iniciação.
A preparação para a iniciação ocorria numa pequena construção ao sul do Anaktoron , um tipo de sacristia onde o iniciado era vestido de branco e recebia uma lâmpada. A myésis então ocorria no Anaktoron, literalmente Casa dos senhores, grande salão capaz de acomodar numerosos fiéis já iniciados, que podiam assistir a cerimonia sentados em bancos ao longo das paredes. O candidato à iniciação praticava uma lavagem ritual em tanque situado no canto sudeste e então fazia uma libação aos deuses em um fosso circular. Ao fim da cerimonia, ele tomava seu lugar sentado numa plataforma de madeira circular em frente à porta principal enquanto danças rituais ocorriam ao seu redor. Eram então levados ao salão norte, o santuário onde recebia a revelação propriamente dita. O acesso a esse santuário era interdito a todas as pessoas não iniciadas. Recebia um documento atestando sua iniciação nos mistérios e podia, ao menos no período final, pagar para ter seu nome gravado em uma placa comemorativa.
O segundo grau da iniciação era chamado épopteia, literalmente a contemplação. Em vez de um ano de intervalo entre os graus, como exigido em Eleusis, o segundo grau, não obrigatório, em Samotrácia podia ser obtido imediatamente após a myésis. A despeito disso, era realizado por um pequeno número de iniciados, que nos leva a crer que envolvia outras condições, embora não fossem nem financeiras nem sociais. Lehman assegura que envolvia condições morais, quando o candidato era interrogado e devia confessar seus pecados. Esta audiência ocorria à noite em frente ao Hierão. Escavações revelaram a base do que devia ser uma tocha gigante. De um modo geral, a descoberta de numerosas lâmpadas e tochas naquele lugar demonstra a natureza noturna dos ritos principais. Depois do interrogatório e eventual absolvição certificada pelo sacerdote ou oficiante, o candidato era trazido ao Hierão, que também funcionava como épopteion, ou lugar de contemplação, onde ocorria um ritual de purificação e sacrifícios eram feitos num espaço sagrado , localizado no centro do recinto. Era conduzido aos fundos do prédio, que tinha a forma de uma gruta. O hierofante, também conhecido como iniciador, tomava seu lugar numa plataforma na abside onde recitava a liturgia e expunha os símbolos dos mistérios.
Durante a era romana, cerca do ano 200, a entrada do Hierão foi modificada para permitir a entrada de vitimas para serem sacrificadas. Um parapeito foi construído para proteger os espectadores e uma cripta foi posta dentro da abside. Essa modificação permitiu a celebração do Kriobolia e do Taurobolia do culto anatoliano da Grande Mãe, agora introduzidos na epoptéia. Os novos ritos faziam o iniciado, ou somente o sacerdote em seu nome, descer por uma fossa onde o sangue dos animais sacrificados era vertido sobre ele, selando um rito de natureza batismal.
A organização do santuário
A planta do santuário de Samotrácia pode parecer confusa a primeira vista, isso é resultado da topografia muito particular do local, assim como da sucessão de diferentes etapas de construção repartidas por dois séculos. O santuário ocupa, na face ocidental do monte Hagios Georgios, três terraços estreitos, separados por dois canais de água. A entrada é pelo lado leste através do propileu (propylaeum) de Ptolomeu II, conhecido como Ptolémaion que protege o lado ocidental e funciona como ponte. Imediatamente a oeste, no primeiro terraço, uma depressão cercada de degraus circulares, com um altar no centro, devia servir de área de sacrifícios, embora não se possa saber com precisão sua função. Um caminho tortuoso descia pelo terraço principal onde se encontravam os principais monumentos do culto. Um grande tolo, o Arsinoéion, ou como é chamada, a rotunda de Arsinoé , a maior sala circular coberta do mundo grego (20 metros de diâmetro ), servia para acolher os theóres, os embaixadores sacros delegados pelas cidades ou associações às grandes festas do santuário. A decoração com rosetas e bucrânios (cabeças de boi ornadas com guirlandas) faz pensar que sacrifícios podiam também acontecer. A rotunda foi construída sobre uma base mais antiga ainda, mesmo que dela só sobreviveram as fundações. A direita do pátio aberto a direita do santuário, acha-se o maior edifício, O Prédio do friso das bailarinas, as vezes chamado Têmenos, local que corresponde a uma área fechada monumental muito mais antiga. A reconstituição de sua planta varia consideravelmente, segundo o autor. É em essência um salão precedido por um propileu jônico, decorado com o bem conhecido friso das bailarinas é atribuído ao celebrado arquiteto Escopas.
O edifício mais importante para o culto, o epoptéion, está localizado ao sul do Têmenos. Ele ostenta o nome de Hierão. Não se sabe quem dedicou este edifício, mas dada a magnificência foi certamente real. é uma espécie de templo, mas não tem periptério (filas de colunas) e só um simples próstilo (em parte restauradas). Os ornamentos arquitetônicos da fachada revelam grande elaboração. O espaço interior corresponde ao maior vão livre (11 metros) do mundo grego. A construção termina ao sul por uma abside inscrita, que constitui, como o altar de uma igreja, a parte mais sacra. Esta abside pode representar uma gruta destinada a rituais ctônicos. O altar principal, e a construção que abriga as ofertas votivas estão localizados a oeste do Hierão.
O Anaktoron, edifício onde ocorria a myésis, localiza-se ao norte da rotunda de Arsinoé, e segundo as versões correntes é da era imperial. O terceiro e final terraço, a oeste do centro espiritual do santuário, foi primariamente ocupado por edifícios votivos, como o Miletean, assim chamado por ter sido dedicado por um cidadão de Mileto , e o Neório, ou monumento naval . O edifício dos banquetes também era aqui. Três outros pequenos tesouros helênicos não são bem conhecidos. Observando o terraço central, o espaço é todo dominado por um comprido pórtico (104 metros) que atuava como um monumental plano de fundo do santuário, atrás do teatro. É nesta parte do sitio que estão os mais recentes traços de ocupação, um quadrado forte bizantino construído com um tesouro, já que reutilizou o material das construções originais.
Original no Wikipédia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Yatukih Dinoih

“…Então veio Angra Mainyu, que é todo Morte e criou com sua bruxaria o pecado maligno dos Yatûs;
E é assim que a Natureza dos Yatûs se mostra: Ela se mostra pelo Olhar; e cada vez que um
Yatu Uiva seus feitiços a noite, os trabalhos mais mortais de Bruxaria são feitos…”
-Zend Avesta, Livro: ‘Venidad’, p; 120.
Os Persas foram um povo que habitou a região onde atualmente se situa o Irã. O Império Persa foi simplesmente um dos maiores, mais bélicos e mais poderosos, dominando boa parte do Oriente Médio durante seu apogeu. Ficaram famosos recentemente com o filme “300” onde o Imperador Xerxes é interpretado por um famoso ator brasileiro.
Durante o princípio do Império, com o enriquecimento da Pérsia, a religião Védica (baseada nos Vedas, os livros hinduístas – e, portanto, uma forma de Hinduísmo) passou a se tornar totalmente elitista. As altas classes participavam dos cultos, enquanto os camponeses eram deixados do lado de fora dos templos. Neste contraste social, surge um homem chamado Zoroastro, que diz ter sido visitado por um “Anjo” (um “Amesha” na língua persa “Palavi”).
Zoroastro passa a disseminar o Zoroastrismo pela Pérsia, que é logo bem aceito pela imensa maioria da população – e aderido pelo Imperador, que institui como religião oficial persa para obter apoio do povo, encerrando o elitismo dentro da religião.
Dentro deste contexto histórico e social de implantação do Zoroastrismo (também chamado Zurvanismo), é elaborada a primeira produção teológica da pérsia, denominada “Zend-Avesta”, o livro da revelação de Zoroastro. Esse livro narrava a criação do mundo e das terras por Ahura Mazda (“Espírito de Luz”, o Deus Único do Zoroastrismo), dos “Anjos” (os Ameshas, auxiliares de Ahura) e como o Deus das Trevas, Angra Mainyush, conhecido por aqui como “Ahriman” passou a contra-criar o mundo. Segundo os mitos Persas presentes no Avesta, Ahura Mazda teria trapaceado Angra Mainyush para obter controle do mundo e habitar na luz. Angra Mainyush estaria então apenas “fazendo justiça” a seu irmão gêmeo.
Sendo marcada por um forte Maniqueísmo, existe um contraste entre Ahriman e Ormazd (outro nome de Ahura Mazda). Enquanto o Deus da Luz era “monoteísta”, possuía liturgias próprias e bem demarcadas e abominava determinadas ações, atos sociais e possuía dogmas rígidos, Ahriman era liberalista. Ele cria, como Deus das “trevas”, a “Bruxaria e a Feitiçaria” – ou Yatukih Dinoih, na língua Palavi.
A Bruxaria Yatukih é, portanto associada à Ahriman. Os Yatus e Pairikas (Feiticeiros e Bruxas respectivamente) eram aqueles que se opuseram as novas regras religiosas e sociais. Renegados que, ao invés de pedir as bênçãos da luz e oferecer o “Soma” (bebida alucinógena consumida nos templos) a Ormazd e reverenciar o fogo sagrado, ofereciam seu sangue, ossos de animais e outras oferendas aos chamados “Daevas”, os auxiliares de Ahriman.
Dentre as diversas “heresias” praticadas pelas “bruxas e feiticeiros” de Ahriman, estavam o ato de enterrar os corpos dos mortos (era proibido “poluir a terra”), tocar o fogo sagrado dos templos, a aceitação da homossexualidade como algo natural, a não subjugação da mulher, entre outros.
Dentro do sistema da Bruxaria propriamente dita, os Yatus se relacionam com a Natureza, os elementos presentes nela. Os planetas, por terem movimentos inconstantes são associados a Ahriman e a sua corte composta por 7 Daevas. O símbolo de Ahriman é o Pavão, a mais bela das aves. Narra a lenda que ele teria criado os Pavões para provar ser capaz de bons atos e boas criações, seus atos de contra-criação sendo apenas uma retaliação contra a injustiça sofrida, que o fez perder a coroa de Deus supremo para seu irmão gêmeo, Ormazd.
Ou seja, a magia Elemental, Planetária, a Necromancia, os Oráculos, o culto a Ahriman e sua corte, bem como a evolução por si, independente das “regras” impostas por Zoroastro e o culto a Ormazd resumem em poucas palavras (e de forma realmente sintética, pois é algo muito extenso a ser descrito em apenas uma postagem), o que é a base da Bruxaria Persa – que libertada os seres humanos da “vontade divina” e permitia que, através da magika, eles criassem seu próprio destino.
Ba Nam I Ahereman.
Azi Dahaka.
Publicado em: Arauto do Caos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O mistério do tirso

A civilização ocidental deve suas realizações intelectuais pelas conquistas de duas culturas antigas. A origem da linguagem e da escrita são heranças que vieram do Egito Antigo. Nossa compreensão da natureza, ciência e razão são heranças que vieram da Grécia Antiga. Entretanto a humanidade ainda tem um benfeitor desconhecido e misterioso na forma de uma árvore. Mas não qualquer árvore. Um cipreste, do gênero Callistris, desempenhou um papel tão importante na civilização humana quanto um faraó ou um filósofo.

A Árvore da Vida

Mesmo nos textos sagrados das religiões patriarcais, persistiram os indícios de uma antiga religião onde certas árvores eram sagradas. As madeiras destas árvores eram tão sagradas que fizeram parte da confecção da mítica Arca de Noé e da mítica Arca da Aliança. Uma destas árvores é o cipreste que na Etiópia é chamada de thyia, que é o nome da região onde estas árvores são cultivadas e os reis etíopes tinham um vínculo com essa árvore. Quando a Assíria começou sua expansão imperial, reis etíopes e faraós fizeram uma coalizão para resistir, movendo os centros culturais da Ásia e da África para lugares mais seguros no sul da Europa. Para liderar estes cetros de cultura uma rainha, também sacerdotisa, foi escolhida, recebeu o titulo de Thyia, a “Mãe Sagrada das Árvores” e foi conhecida como Atena Nikephoros.

O cipreste era igualmente sagrado para o Deus Ormuz, do Zoroastrismo, seus adoradores deixaram diversos petróglifos com o cipreste na forma de Árvore da Vida saindo do corpo da Serpente Cósmica.

Outros santuários foram fundados em Delfos, Dodona, Tebas, etc. Estes santuários eram liderados por uma alta sacerdotisa e mantinham virgens no ofício sacerdotal. Seus rituais eram pontuados com a queima da resina do cipreste, que é a Fumaça Sagrada e o incenso da profecia.

O tirso era o instrumento de fertilidade utilizado para propagar as florestas de ciprestes, aonde os oráculos eram estabelecidos. Cabia às sacerdotisas realizar o ritual de reposição a cada ano. Em grupos, as sacerdotisas levavam ramos de cipreste carregados de sementes, enquanto elas dançavam em êxtase. Ao garantir a fertilidade do cipreste, garantiam a expansão de outros centros culturais, assim o tirso tornou-se o símbolo da transmissão do conhecimento.

Traduzido e editado livremente a partir do original na Viewzone.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O mistério do logotipo da Starbucks

Em várias cidades urbanizadas e cosmopolitas existe a bem-sucedida franquia do Starbucks Coffe.

Seu logotipo nem sempre foi como nós o conhecemos e de fato ele tem sofrido grandes mudanças desde a sua criação em 1971. O primeiro logotipo conhecido do Starbucks (1971-1987) é a imagem de uma sereia com duas caudas, inspirado por uma ilustração de um livro norueguês do século XV. Inicialmente o Starbucks vendia chá, grãos de café e especiarias.[ blckdmnds]

Mas esta não é todo o mistério que está oculto no logotipo comercial. A ilustração que serviu de inspiração parar essa cafeteria que é uma franquia multinacional vem do mito de Melusine [Melusina].

Melusina é uma personagem da lenda e folclore europeus, um espírito feminino das águas doces em rios e fontes sagradas.

Ela é geralmente representada como uma mulher que é uma serpente ou peixe (ao estilo das sereias), da cintura para baixo. Algumas vezes, é também representada com asas, duas caudas ou ambos, e, por vezes, mencionada como sendo uma nixie.

Melusina é às vezes utilizada como figura heráldica, tipicamente em brasões de armas no Sacro Império Romano-Germânico e na Escandinávia, onde apóia cada cauda escamosa em um dos braços. Ela pode aparecer coroada. O brasão de armas de Varsóvia apresenta uma sereia (denominada syrenka em polonês) muito semelhante a uma representação de Melusina, brandindo uma espada e escudo. Ela é o espírito das águas do Vístula, que identificou para Boreslaus de Masovia, o sítio apropriado para uma cidade em fins do século XIII.

A mais famosa versão literária dos contos de Melusina, aquela de Jean d'Arras, compilada em cerca de 1382–1394 foi elaborada numa coletânea de "histórias inventadas" pelas damas enquanto teciam.

O conto foi traduzido para o alemão em 1456 por Thüring von Ringoltingen, a versão que tornou-se popular como conto de fada. Foi posteriormente traduzido em inglês (cerca de 1500), e freqüentemente reimpresso tanto no século XV quanto no século XVI. Há também uma versão em prosa chamada a Chronique de la princesse ('Crônica da princesa').

Ela conta como Elynas, o Rei de Albany (um eufemismo poético para a Escócia) saiu para caçar certo dia e deparou-se com uma bela dama na floresta. Ela era Presina, mãe de Melusina. Ele persuadiu-a a casar-se com ele, e ela só concordou sob a condição — pois freqüentemente há uma condição dura e fatal vinculada a qualquer união entre fada e mortal — de que ele não deveria entrar na alcova quando ela desse à luz ou banhasse suas crianças. Ela deu à luz trigêmeas. Quando ele violou este tabu, Presina deixou o reino com suas três filhas, e viajou para a ilha perdida de Avalon.

As lendas de Melusina estão especialmente ligadas às áreas setentrionais, mais célticas, da Gália e dos Países Baixos. Sir Walter Scott narrou uma história de Melusina em Minstrelsy of the Scottish Border (1802—1803), confiante que:

"o leitor encontrará as fadas da Normandia ou Bretanha, adornadas com todo o esplendor da descrição oriental. Também a fada Melusina, que casou-se com Guy de Lusignan, Conde de Poitou, sob a condição de que ele nunca tentasse invadir sua privacidade, pertence a essa última categoria. Ela deu ao conde muitos filhos, e construiu para ele um magnífico castelo através de artes mágicas. Sua harmonia não foi interrompida até que o marido xereta quebrasse as condições da união, ocultando-se para espionar a mulher tomando seu banho encantado. Mal Melusina descobriu o intruso indiscreto, transformou-se num dragão e partiu com um grito de lamentação, e nunca foi mais foi vista por olhos mortais; ainda que, mesmo nos dias de Brantôme, ainda se supunha que ela protegia seus descendentes, e teria sido ouvida lamentando-se nas correntes de ar à roda das torres do castelo de Lusignan, na noite antes que este fosse demolido."

Quando o conde Siegfried das Ardenas comprou os direitos feudais sobre Luxemburgo em 1963, seu nome estava ligado a versão local de Melusina. Em 1997, Luxemburgo emitiu um selo postal comemorativo desta Melusina, que possuía basicamente os mesmos dons mágicos que a ancestral dos Lusignan. A Melusina de Luxemburgo fez surgir o castelo de Bock por mágica na manhã após o casamento dela. Pelos termos do matrimônio, ela exigiu um dia de absoluta privacidade a cada semana. Infelizmente, Sigefroid, como os luxemburgueses o chamam, "não conseguiu resistir à tentação e num dos dias proibidos ele a espiou no banho e descobriu que ela era uma sereia. Quando ele soltou um grito de surpresa, Melusina percebeu-o e a banheira imediatamente afundou-se na rocha sólida, carregando-a com ela. Melusina surge brevemente na superfície a cada sete anos como uma bela mulher ou serpente, carregando uma pequena chave de ouro na boca. Quem quer que tire a chave dela a libertará e poderá tomá-la como sua noiva. "

Melusina é um dos espíritos das águas pré-cristãos que às vezes são responsabilizados pela troca de crianças. A "Dama do Lago" que sumiu com o bebê Lancelot e o criou, era desta espécie perigosa de ninfa das águas.

As três garotas — Melusina, Melior e Palatina (ou Palestina)— cresceram em Avalon. Em seu décimo-quinto aniversário, Melusina, a mais velha, perguntou por que elas haviam sido levadas para Avalon. Ao ouvir sobre a promessa quebrada pelo pai, Melusina jurou vingança. Ela e suas irmãs capturam Elynas e o trancafiam, com suas riquezas, numa montanha. Presina se enraivece quando toma conhecimento do que as garotas haviam feito e as pune por ter desrespeitado o pai. Melusina foi condenada a tomar a forma de uma serpente da cintura para baixo, todo sábado.

Raymond de Poitou encontrou Melusina numa floresta da França, e lhe propôs casamento. Da mesma forma que sua mãe havia feito, ela estabeleceu uma condição, a de que ele nunca deveria entrar no quarto dela aos sábados. Ele quebrou a promessa e a viu sob a forma de uma meia-mulher, meia-serpente. Ela o perdoou. Somente quando, durante uma discussão, ele a chamou de "serpente" em plena corte, é que ela assumiu a forma de um dragão, deu-lhe dois anéis mágicos e se foi para nunca mais voltar. [Wikipédia]

Assim como a casa real dos Merovíngios tem um passado mítico pagão, a casa real de Lusignan, entre muitas outras casas reais francesas, clamou o seu direito de nobreza por sua descendência divina com estas antigas entidades pagãs. Assim como muitas famílias nobres, a casa real de Lusignan instituiu a Ordem de Melusine para os cavaleiros que lutassem nas Cruzadas. Não apenas na França, mas em toda a Europa, famílias reais atribuíam suas linhagens a fadas, ninfas, sereias, serpentes e dragões, algo que foi rapidamente suprimido e omitido quando estes reinos e tronos se cristianizaram. Para a Igreja, não convinha que a Europa se lembrasse de suas raízes e origens ou lembrar que anteriormente as linhagens reais eram matrilineares, assim a Rainha Melisende e a Fada Melusina foram banidas da história oficial.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Os mitos de criação

A Antiguidade tinha diversos povos, cada qual com seus Deuses e mitos. Cada cultura tinha seus ritos, templos e sacerdócios. Na Era Moderna, estudiosos e historiadores da religião como Joseph Campbell e Mircea Eliade notaram que havia sinais, símbolos e ideias em comum entre povos tão distintos e tão distantes, geográfica ou cronologicamente. A questão parece ser simples, mas ainda não há uma explicação cientifica de como tantos povos tinham mitos tão semelhantes entre si. A teoria é de que estes mitos tinham a mesma origem, ou ocultavam o mesmo mistério, eram metáforas e analogias de uma antiga sabedoria.
Um dos temas em comum refere-se aos mitos de criação. Os antigos Egípcios, os antigos Sumérios, os antigos Babilônios, os antigos Gregos e os antigos Romanos tinham mitos de criação muito semelhantes entre si.
Em comum, os mitos dizem que o universo começou a partir de um estado de total entropia ou de total nulidade, definido como Vácuo, Escuridão ou simplesmente Caos. Este estado, evento, circunstância, continha em si todas as condições para o surgimento de tudo que existe, algo bem próximo do que a Ciência chama de Big Bang.
Este estado inicial é indistinto, indiferente, desprovido de consciência ou identidade própria, o que se aproxima do conceito de Mônada, se não fosse seu estado de total entropia, enquanto a harmonia é o estado da Mônada.
Dentro do Caos, surgiram os Deuses Primordiais, brotaram por vontade própria assim que tiveram consciência de suas presenças, existências e consciências. Os Deuses Primordiais são as forças e potências que geraram todo o universo e as demais gerações de Deuses. Geralmente os Deuses da Segunda Geração lutam contra um ou mais dos Deuses Primordiais e os Deuses da Segunda Geração são destronados pelos Deuses da Terceira Geração. Os Deuses da Terceira Geração dão origem ao mundo e ao ser humano, organizam a civilização e a cultura, concedem ao ser humano o Conhecimento e ensinaram ao ser humano todas as habilidades.
O primordial aqui é ressaltar que, embora todos os povos concedam o titulo de Deusa Mãe a uma de suas Deusas, isto não significa que estas Deusas sejam uma única Deusa ou que tenha existido uma antiga religião da Deusa, nos moldes das religiões monoteístas abraãmicas. O titulo de Deusa Mãe era dada a uma Deusa como um honorífico. Estas inúmeras Deusas Mães tinham características, personalidades, identidades, ritos, templos e sacerdócios totalmente diferentes e eram filhas ou netas de Deuses.
Os mitos de criação demonstram que a união de um Deus e uma Deusa é algo primordial para a existência de tudo mais. Nenhum Deus ou Deusa pode ser considerado anterior ou percussor dos demais. Todos os Deuses e Deusas foram gerados pela união sexual entre Deuses e Deusas. Mesmo o nascimento de Dioniso e Atena tem mitos que precedem.
Ainda que existam mitos como o do Divino Andrógino e dos Gêmeos Divinos, estes são mitos e mistérios que estão inseridos dentro de um contexto mítico maior. Nenhum Deus ou Deusa, da geração Primordial ou da Segunda Geração possuem atributos hermafroditas, este é um mito que aparece na Terceira Geração e mesmo assim na forma da verdadeira natureza humana original enquanto ser divino, gerado/a pelos  Deuses e Deusas.
O conceito de uma Deusa criadora e transgênero é um mito moderno, construído pelo ser humano, em busca de uma espiritualidade, uma religiosidade e uma crença que satisfaça suas necessidades egoístas. As Religiões Antigas mantiveram por milênios os mitos, os ritos e os mistérios de cada um dos Deuses, mesmo aqueles que acabaram assimilando ou sendo identificados com os Deuses de outros povos.
A degradação começou quando o homem se assoberbou, se colocou no centro do mundo, se arrogou autossuficiência e usurpou o trono dos Deuses. Reis instituíram cultos a seus nomes, impérios se apropriaram de ritos e cultos de povos dominados, permitiram a entrada de religiões e cultos estranhos às suas origens, governantes corruptos estimularam o sincretismo popular.
Nós que somos pagãos modernos e sabemos o quando devemos aos nossos ancestrais, devemos recuperar os valores e princípios das religiões antigas. Nós devemos evitar essa religiosidade de conveniência, essa espiritualidade sintética, essa crença artificial, inventada e vendida para satisfazer a vaidade humana. Nosso serviço é para nossos ancestrais e Deuses.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Razão para viver

À medida em que envelhecemos, começamos a santificar os mortos – o que é prudente, pois estamos diariamente mais próximos de entrar no grupo – e a dizer que os vivos não valem lá grande coisa, como a desdenhar as uvas verdes, que vão ficando mais distantes.
Não é fácil fugir disso, carece de fé na humanidade – a em Deus é fácil, já que nos dá um lugar para ir – e carece de fatos, que andam escassos nesta época de mediocridade crescente e delicadeza minguante.
Carece, sobretudo, de um exercício de humildade, em tempos de arrogante vaidade, onde as celebridades de 15 minutos, os “selfies”, a auto-exposição dominam corações, mentes e faces.
Tempo em que trocamos o “vai, Carlos, vai ser gauche na vida” do Drummond pelo “só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder” dos Titãs.
Como escapar à ditadura de nossas próprias sedes de viver outonais, que já não são as de pular, dançar, correr? Ou a de amar alguém, ou a de fazer uma vida?
Sobretudo, como fugir à compulsão de ser amado, reconhecido, elogiado, estes mesquinhos desejos humanos  que a a gente nega, mas existem?
E resistir ao nervosismo, à impaciência, e tolerar  ideias que o tempo e a vida já nos fizeram desmontar e ver que são ocas, vazias, tolas, mas verdadeiras para quem as assimilou?
Só encontrei uma forma, falha e mambembe, que foi ter causa.
É preciso ter uma razão para viver e esta razão será muito pequena se ela for você mesmo, ou seus filhos, amigos, por mais queridos que sejam.
Ou uma igreja, um partido, um país, ainda assim serão pequenos.
E você, portanto, ainda será grande demais para que possa entender que não é nada, embora seja tudo o que pode dirigir por sua própria vontade.
Só existe uma maneira de sentir o minúsculo e o imenso em si mesmo: é sentir-se igual a toda a humanidade e desejar a ela tudo o que você tem.
Homenagear nossos mortos também é assim: é desejar dar o que eles nos deram aos que vivem e aos que viverão.
E numa manhã chuvosa de Finados – quem disse que o tempo não tem suas lágrimas? – sair por uns minutos deste clima de ódio em que nos mergulharam e olhar a vida como aquele bolo que vai ficando mais saboroso quanto mais mingua no prato.
Que a gente repetiria, se pudesse.
Por Fernando Brito.
Publicado no Tijolaço.