sábado, 26 de dezembro de 2015

O universo de Nikolai Gogol

Aproveitando o merecido descanso com o recesso do forum, eu e Kátia passamos vários dias e horas vendo filmes. Um deles, "coincidentemente" visto na véspera do solstício de verão chamou muito minha atenção porque foi tão bom quanto o Labirinto do Fauno. O filme se chama simplesmente de Viy e foi baseado nas obras de Nikolai Gogol.
O filme sintetiza vários textos de Nikolai Gogol e vale a pena ver porque fala muito do folclore eslavo. Eu irei expor tanto o filme quanto Nikolai.
O filme fala sore o folclore eslavo, presente em toda a Europa Oriental. De acordo com o próprio Nikolai, Viy é o Rei dos Gnomos, cujas pestanas alcançam o chão, mas o filme gira todo em torno da antagonista, Pannochka, a "bruxa".
Nikolai foi um dos escritores que se pode definir como parte do "Movimento Romântico", onde intelectuais e escritores tentavam resgatar as origens e raízes dos povos europeus. Nikolai fez parte da Eslavofilia e da Escola Naturalista. Tido como "escritor cristão", vivendo em pleno alvorecer da Era Moderna e dos eventos que desencadeariam a Revolução Russa, Nikolai é estranhamente... pagão. Isso é algo que os pagãos modernos tem que lidar. Muitas das fontes e referências que temos, literárias e acadêmicas, vem de pessoas... "cristãs".
Nikolai demonstra bem como é pertencer a dois mundos distintos. Sua obra contém referências à Igreja Ortodoxa Russa, mas seus personagens parecem mais uma crítica à hipocrisia reinante na Igreja Cristã. A obra de Nikolai e o filme refletem muito essa névoa indistinta, onde a religião oficial se mistura com o folclore popular.
O filme evidentemente reflete esse dilema. Os protagonistas, três padres, mostram como tão pouco separa o secular do clerical, tanto são seus vícios e falhas. O cartógrafo serve mais como narrador, que cumpre o papel de protagonista em duas cenas, que se podem considerar como uma crítica à ciência e à descrença.
A primeira cena do cartógrafo como protagonista é quando ele, junto com os cossacos, estão em uma taverna, quando seus companheiros de viagem começam a se transformar em seres sobrehumanos, quando aparecem outras visagens.
A segunda cena do cartógrafo como protagonista é quando aparece Viy. Nada pode explicar ou decifrar o que o personagem está vivenciando. Todo seu conhecimento acadêmico, científico e "objetivo" falham miserávelmente. O mundo Sobrenatural é quem comanda a cena. O mando da cena é de Pannochka, a "bruxa".
Pannockhka é quem ordena aos espíritos da natureza para evocarem Viy. Pannochka é quem conduz o cartógrafo a descobrir o responsável por sua sina, que é o padre, que a havia estuprado e matado. Pannochka é quem mostra aos padres quão pouca e fraca é a crença e o Deus que eles professam. Pannochka é tanto a bruxa como uma ninfa, é tanto a donzela que ressurge dos mortos por vingança quanto a sacerdotisa de ritos esquecidos.
O filme Viy, certamente com menos recursos e exposição do que o Labirinto do Fauno, dá a correta dimensão do folclore, que vai muito além da literatura infanto-juvenil que tem influenciado filmes sobre o Paganismo, a Bruxaria e a Religião Antiga.
O universo de Nikolai Gogol mostra para consternados pagãos modernos que o que nós temos feito e chamado de Paganismo, Bruxaria e Religião Antiga é um pálido remedo infanto-juvenil do que realmente o Ofício é. Em uma comunidade dominada pela espiritualidade de conveniência, o filme seria anátema. Tanto melhor. O Caminho dos Bosques Sagrados continuará aberto para poucos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Sonhos do meio do verão

Eis que a máquina dos sonhos [o cinema] lança em dezembro o sétimo filme da saga Guerra nas Estrelas. Pouco antes do solstício de verão, aqui no hemisfério sul, solstício de inverno no hemisfério norte. Não existem coincidências. Há algo na saga que foi cansavelmente indicado por Joseph Campbell e seu trabalho sobre religião comparada. Os filmes que marcam nossas vidas tem muito a ver com os antigos mitos. Jung preconizou isso com a teoria do Inconsciente Coletivo, mas mitos e lendas são formas de falar verdades universais antigas.
Pouco depois de ter alcançado sucesso, Guerra nas Estrelas fez surgir a Religião de Jedi. Se é mais uma paródia descrente ou não, pouco importa. Fazer paródia é a melhor maneira de elogiar algo. Descrentes podem mostrar sua espiritualidade, sem correr o risco de serem zoados pelos seus pares mais radicais. Mas o que seria a Religião do Jedi? No universo de George Lucas existe o que é chamado de Força, um tipo de energia onipresente que modula sua manifestação ora mais voltada para a Luz, ora mais voltada para a Sombra.
Aqui percebemos a mesma dicotomia maniqueísta do "bem" versus o "mal". Há algo de muito errado quando se atribui o valor moral de bem para a luz, tanto quanto atribuir o valor moral de mal para a sombra. Se for assim, eu prefiro mais ser um Sith.
Pagãos, bruxos e hereges sabem que não existem absolutos. Vivemos em um Universo tão multifacetado que é ridículo polarizar as coisas existentes em apenas duas categorias. Dois mil anos desse fascismo doutrinário provam que nem sempre a luz é boa, nem sempre o "bem" é bondoso.
Isso tem muito a ver com o solstício, sobretudo com essa fenômeno engraçado que acontece com os hemisférios. Aqui no hemisfério sul nós celebramos o que pode ser chamado de Meio do Verão, enquanto que no hemisfério norte eles celebram o que pode ser chamado de Meio do Inverno. O incomparável William Shakespeare escreveu "Sonhos de Uma Noite de Inverno", que eu prefiro a qualquer outra lenda ou estória natalina. Pois é extamante disso que mais se fala em dezembro: o Natal. Essa festa de origem pagã, que recebeu roupas cristãs, que nas mãos dos americanos se tornou uma festa cosmopolita e universal.
Em outubro, eu fico preparado para ouvir as mesmas ladainhas reclamando que Halloween é festa americana, é imperialismo, que "nós" devemos celebrar o Dia do Saci. Eu fico curioso em ver que o mesmo brasileiro que ufana de seu país, o mesmo brasileiro que desanda na pior manifestação de nacionalismo e patriotismo, que tanto reclama do Halloween, não vê problema algum nesse Natal europeu. Todos os enfeites, todas as comidas, remetem ao frio do inverno. E nós somos um país tropical. Ninguém sugere que se troque o pinheiro pelo coqueiro. Ninguém sugere que se troque as guirlandas de visco e azevinho por uma guirlanda de erva mate e café, por exemplo. Ninguém sugere que se troque o Papai Noel por Zumbi dos Palmares. Ninguém sugere que se troque as [caras] comidas gordurosas e frutas oleaginosas mais típicas do natal europeu por comidas e frutas nacionais. Ninguém [exceto eu] sugere que se troque o Natal pela Saturnália ou o nome original da celebração nos tempos pagãos.
O solstício de verão é um evento cíclico, marca o auge do verão [hemisfério sul] ou o auge do invero [hemisfério norte]. Hoje o dia é mais longo, mas em breve as noites serão longas. Aqui não dá para percerebr muita diferença, mas em meridianos mais extremos, esta diferença é mais significante, daí o porque que nossos ancestrais marcarem esse evento com uma celebração religiosa. Recentemente a televisão deu espaço para gente fantasiada falar do Sanhaim, cosplayers de bruxas apareceram para falar do "ano novo celta". Sanhaim não é o "ano novo celta", nem é o "ano novo" dos pagãos.
Nós celebramos o ciclo da natureza, então não cabe falar em "ano novo", mas se eu for escolher um evento que marque o fim e início de um ano, seria o solstício de verão/ solstício de inverno. Afinal, o sol chegou ao seu auge, em breve ele irá começar seu trajeto para a Terra dos Ancestrais. Por três dias, o sol estará "morto" para então "ressuscitar", tal como Mithra e Cristo.
Sim, meus caros brasileiros cristãos, o Natal é nada mais do que a celebração do Sol Invictus, genuinamente pagão e romano. Vocês comemoram o que nós comemoramos: o retorno do sol, da luz, da esperança. Tal como em Guerras nas Estrelas, a cultura ocidental, devidamente colonizada pelo pensamento judaico-cristão, acredita que o sol, a luz e a esperança são naturalmente boas.
Mas para o pagão, o bruxo, o herege, as coisas nem sempre são o que parecem. A Esperança foi a última a sair da caixa de Pandora, junto com todos os males do mundo, então a Esperança não é tão boa assim. Quando o sol está forte, tudo que nós procuramos é uma sombra e torcemos para que chova. Quando chega a noite e queremos durmir, a luz incomoda e preferimos o aconchego da sombra.
Pense: como poderíamos nos encantar com o espetáculo dos fogos de artifício, senão de noite? Como os reis magos poderiam achar Cristo sem que Venus brilhasse no manto de Nix? O julgamento moral humano é falível e tendencioso, tanto a luz quanto a sombra são boas. Tanto o verão quanto o inverno são bons. Nós também podemos ser bons. Basta deixar de lado esse maniqueísmo perverso que tem apenas causado guerra, ódio, violência e destruição.
Nós não precisamos do Natal para sermos bons. Depende de cada um para que tenhamos, efetivamente, Paz na Terra. Tanto faz sua origem, sua cultura, sua identidade/opção/preferência sexual, sua ideologia política/social. Sejamos, enfim, Humanos.
Feliz Saturnália, Feliz Die de Soli Invictus, Feliz Yule/Litha, Feliz Natal.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O Neolítico e o nascimento de uma nova religião

O arqueólogo francês Jacques Cauvin argumentou convincentemente que a revolução neolítica foi precedida por uma "revolução de símbolos." Isso quer dizer que, mesmo antes da mudança de estratégias de subsistência que definiu o Oriente Médio, ocorreu uma mudança igualmente dramática e consequente na 'psico-cultura’ coletiva dos caçadores-coletores do Epipaleolitico, uma mudança claramente evidenciada em um novo simbolismo refletido nas formas da arte. A arte simbólica do Epipaleolitico era principalmente zoomórficas, com animais representados "democraticamente", não há uma organização hierárquica e nenhuma personalidade animal está em destaque. Assim, enquanto a seleção de animais representados podem refletir um sentido de "reverência religiosa" por parte dos nossos artistas primitivos, nenhuma espécie animal se destaca como um "deus dos animais” ou como uma representação teriomórfica de 'Deus'. Isso tudo mudou na véspera do Neolítico. Por alguma razão um novo e bastante coerente sistema simbólico surgiu em que o divino é representado por dois símbolos principais: um touro e uma mulher.
Nas tradições da antiguidade fogo e água são os símbolos primários das forças produtivas ativas e passivas do universo. Fogo, a potência ativa, era masculino e representada por um círculo, enquanto a água foi o poder passivo feminino representado pelo quadrado ou retângulo. Os antigos entendiam que a produtividade resultou da interação dos dois, a energia solar e o ambiente aquático e esta interação foi representada hieroglificamente  como um círculo (ou asterisco) dentro de um quadrado. Esta é a origem da denominação para a deusa como "o lugar dos deuses" ou a Casa de Deus: o solar habitando no aquático. Esta "revolução geométrica” do Neolítico, na medida em que ela está relacionada com a revolução simbólico-teológica, parece ter sinalizado uma reorientação teológica: do aspecto transcendente ao aspecto imanente da divindade. O antropomórfico (mulher) e o teriomórfico (touro) sinalizou o mesmo simbolismo.
A Deusa: Na História das Religiões, a água, este material amorfo cósmico, a partir do qual emerge a vida, muitas vezes assume um caráter feminino. O simbolismo primário da deusa é aquático - associando-a com as águas cósmicas que são seu elemento e seu domínio.  Como o útero cósmico da vida, ela é descrita como uma vaca e negra. Esta deusa negra representa a imanência divina.
A ideia de um Ser Divino, uno e universal, que se mistura com o mundo material, que emanou sua substância e não foi criado por ele, é encontrado em todas as bases das crenças. Causa e protótipo do mundo visível, um deus-natureza tem necessariamente uma essência dupla; ele possui os dois princípios de toda a geração terrestre, o ativo e o passivo, masculino e feminino; é uma dualidade na unidade, um conceito que, em conformidade com a duplicação dos símbolos, deu à luz a ideia de divindades femininas. A Deusa, nas religiões semíticas, é considerada uma manifestação [ao invés de reflexo] do Deus ao qual Ela corresponde.
O Touro: Como fecundador por excelência, de fato o protótipo da fertilidade masculina, o Touro é o 'atributo animal’ primordial do Deus Criador no mundo antigo. Este Touro Divino, ou seja, o touro usado para representar o deus criador todo-poderoso, foi um touro preto.
Os elementos essenciais e distintivos da importância do touro na Antiguidade são o reconhecimento de sua nobreza como um senhor dos animais e seu poder altamente concentrado, coordenado. O touro é a epítome do chefe, portanto, do rei. O touro é sempre retratado em todo o seu vigor, potência e beleza.
De acordo com o mito do Deus Negro o deus-criador surgiu a partir dessas águas como um "  deus-sol ", inicialmente possuindo um corpo de luz branca brilhante ou ouro, mas depois escolheu para encobrir este ardente, corpo transcendente, com um corpo negro mais acessível, tolerável (por suas criaturas), criado das águas primordiais. É este corpo negro aquático que é representado pelo touro preto. Em termos geométricos, o "deus-sol", com seu corpo luminoso transcendente, é análogo ao círculo, enquanto a imanência do retângulo é análogo ao corpo negro aquático, teriomorficamente representado pelo touro preto e antropomorficamente representada pela Deusa Negra. Em outras palavras, tanto o touro negro e da deusa negra representam a imanência física do Deus-Criador do mundo.
O motivo mítico por trás dessas expressões é a seguinte: na forma de um homem divino luminoso (Deus-Sol), o Deus-Criador emerge das águas primordiais, o último personificado como uma vaca e descreveu como sua "mãe”. Por que o Deus-Sol voltou para sua 'mãe', as águas primordiais, para produzir um novo organismo - o corpo negro – se diz que ele copulou com ela, que agora também é descrita como sua" esposa ". Esta cópula, no entanto,  o reproduziu novamente, renascido através dela, mas agora como o imanente Deus Negro, com um corpo negro da matéria negra primordial.
O total da Divindade é concebido como uma tríade bissexual - Deus Pai, Deus Filho e ‘Deus Mãe' - mas a teologia insiste que Deus é consubstancial e coeterno desde o início, por isso o sistema pelo qual Deus Pai gera o Deus Filho através do corpo do ‘Deus Mãe’ se reproduz indefinidamente, de modo que a Mãe de Deus é também a Esposa de Deus, a Irmã de Deus, e até mesmo a Filha de Deus.
A "nova religião" não é um "monoteísmo feminino" ou uma "religião centrada na Deusa". O papel da Deusa nesse mito não é tão como um singular "poder de criação de vida", nem é o Deus Touro "efêmero e mortal" em relação a ela.
Por milênios o Deus-Touro, o Deus-Pai da força e da fertilidade, foi incontestavelmente o Deus supremo do antigo Oriente Médio. A Deusa neste mito é uma matriz, a materia prima a partir da qual a vida surgiu, mas o papel do Criador do cosmo é reservado para o Deus masculino, o Deus Touro. A Deusa aparece como complemento do Deus e, simbolicamente, como a personificação da substância aquática de corpo terreno do Deus. Este mistério, da união do Deus masculino e a matéria primordial aquática, personificado como a Deusa Mãe, está no centro da "nova religião", como evidenciado pelos sistemas de mistério posteriores.
Fonte: “Black Arabia and the African Origins of Islam”, de Wesley Muhammad, pg. 31 – 33.
Traduzido com a ajuda do Google Tradutor.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Um herege na bruxaria gourmet

Eu fui ao Mystic Fair, levando comigo minha esposa. No ano anterior eu fui sozinho e peguei fila. Desta vez a entrada foi mais tranquila. Entre o ano passado e este, a única mudança fica por conta da posição e quantidade dos expositores.
Na falta de alternativa ou concorrência, palmas para a Prieto Produções e vaias para a Comunidade Pagã Brasileira. Para quem se presta a frequentar ou expor a feira, vale a pergunta: por que não existe alternativa e concorrência?
A página da UWB e o Jornal do Bruxo morreram. Na falta de pessoas mais sérias, nós somos representados por figuras que parecem egressas de algum jogo de RPG ou de um Cosplay.
Essa é a impressão que fica quando se visita a Mystic Fair.
Enquanto pagãos no mundo discutem sobre “apropriação cultural”, o Brasil é um território favorável e propício para o vigarista, o estelionatário e o farsante. A Mystic Fair é o Polishop da espiritualidade alternativa. Um espaço onde se encontram diversos produtos e serviços. Todo está acessível, consumível, descartável. Um espaço marcado pelo esoterismo de conveniência. Esqueça qualquer sentido de espiritualidade, o que vale é o Deus Mercado. E Viva o esoterismo prêt-à-porter.
Bons tempos quando a Bruxaria era uma prática familiar e secreta, era temida, era respeitada. Entre bruxos tradicionais a Wicca é considerada uma bruxaria com alvejante. Com a chegada das religiões da Deusa e o dianismo, aconteceu a popularização da Wicca, que jogou mais cândida no caldeirão. O que temos hoje é a Bruxaria Gourmet.
Aqui o conceito de Bruxaria se refere a crenças e práticas que visa a obtenção de um efeito mediante a utilização de diversas ferramentas.
Nós estamos vendo uma verdadeira onda de gourmetização, mas que diabos é isso?
Gourmet é um ideal cultural associado com a arte culinária da boa comida e bebida, de haute cuisine (alta cozinha). Assim um vinho ou um restaurante diz-se gourmet quando este é de alta qualidade e está reservado a paladares mais avançados e a experiências gastronômicas mais elaboradas. Por consequência os produtos e ou refeições gourmet são normalmente mais caras que os seus equivalentes não gourmet.
Este termo poderá ser encarado por alguns como uma conotação negativa, pois poderá estar associado a elitismo ou snobismo, porém a sua utilização geral e mais comum não possui esta conotação. [Wikipédia]
O termo gourmet era usado com cuidado, para definir a arte da boa comida e bebida. Designava os verdadeiros conhecedores e apreciadores de vinho e da gastronomia, que prezavam pela qualidade e autenticidade do que degustavam.
Hoje tudo é gourmet. Até o brigadeiro (leite condensado + chocolate em pó + granulado), hoje é gourmet. Castanhas, frutas secas, paçocas… tudo isso é adicionado para que o simples brigadeiro se torne uma iguaria gastronômica. [Luiz Felipe Ennes]
Na era da “gourmetização”, um produto não carece de ingredientes sofisticados ou exóticos ou mesmo de origem e preparo ímpares. Com um toque mágico, o rótulo converte-se em poderoso adicional simbólico: escreve-se gourmet (ou premium, vip, top, chic, premier, prime e por aí vai, os termos, estrangeiros, abundam) e cobra-se o dobro. Assim engabela-se o crescente exército de incautos consumidores entregues ao modismo da vez. Da “onda da pizza gourmet”, como anunciou um jornal, à “febre das cervejas premium”, como decretou outro, o Brasil se vê em meio a uma confusa revolução conceitual, estampada em embalagens insidiosas e propalada pelo boca a boca nouveau riche. [William Vieira]
Tal como a indústria de imóveis tornou popular o “espaço gourmet”, onde o proprietário, por uma módica quantia, pode usufruir de uma churrasqueira em sua varanda, a Mystic Fair é o espaço da Bruxaria Gourmet. Nada mais normal e natural, para o consumidor ávido, cosmopolita e espiritualizado, do que ter um espaço onde ele tem acesso a tudo que ele quer para sua ascensão espiritual. Nada mais normal e natural, para tantos vendilhões do templo, do que expor seu esoterismo de conveniência para um público cada vez mais crescente.
Por favor, caro dileto e eventual leitor, não pense que este escritor condena o dinheiro, a riqueza ou a propriedade, afinal, para o Paganismo, tudo que é mundano é sagrado, é divino. Minha queixa é que o esoterismo de conveniência esvazia todo o conteúdo e conceito sagrado que um objeto possa ter.
Eu vou dar um exemplo bem frugal: cerveja. Eu tomei várias cervejas importadas e algumas até valem o preço que eu paguei. Mas o preço da cerveja do Mestre das Poções não está nos seus ingredientes, mas na fase da lua em que a cevada foi colhida. Quem acredita em astrologia e nas fases da lua vão querer me bater, mas a lua é a mesma, suas “energias” são as mesmas, independentemente de sua “fase” ou localização no manto de Nix.
Imagine então quando pensarmos em produtos menos frugais e mais específicos. Para quem conhece e sabe, a Mystic Fair oferece a oportunidade de adquirir um produto que normalmente só se conseguiria importado. Mas como a feira é aberta a todo o público, a noção que fica é que não há problema algum em misturar objetos do candomblé com objetos do budismo. Como se pode ter alguma ascensão espiritual se toda espiritualidade é vivenciada de forma tão supérflua, mercantilizada, comercializada, objetificada? Parece impossível, mas não se preocupem, não irão faltar “boas pessoas” que irão te orientar como “se usa” e não faltam palestras e workshops que irão “te ensinar” essa espiritualidade de conveniência.
Nessas horas que eu dou graças aos Deuses por ser herege, por ser bruxo, por ser apenas mais um pagão ordinário.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Abóbada Espiritual

Após a leitura do livro “Rootwork”, de Kefron Primeiro, eu tive uma pequena janela da imensa contribuição espiritual da cultura africana para as Américas. Em todos os países onde os africanos vieram, como escravos, para as colônias espanholas, portuguesas, inglesas e francesas, ali surgiram as diversas religiões da Diáspora Africana.
No Brasil, as mais conhecidas são a Umbanda e o Candomblé, mas pouco se fala do Tambor de Mina, a versão brasileira do Voudun, no Maranhão. Até o momento eu não encontrei um estudo sério sobre a Quimbanda. Eu tive uma única referência com o Culto de Ifá.
Entre nossos irmãos da América Latina, as religiões aborígenes se misturaram com as religiões da Diáspora Africana, resultando em um caldeirão de expressões religiosas colorida e sincrética. Esse padrão pode ser visto na América Central, no Caribe e também na Terra do Tio Sam.
O livro de Kefron Primeiro fala especificamente do Hoodoo, que no Brasil é chamado de Pajelança, presente na Juremeira e nas práticas de mestres raizeiros. Poucos são os livros que ousam ser tão explicitos nas crenças e práticas populares. Mas Kefron não trata de outros temas, ferramentas e práticas inerentes ao Hoodoo, porque certamente causaria um grande reboliço na Comunidade Pagã, infectada com o provincianismo, com a dúbia moralidade cristã.
Olhando o oráculo virtual [Google] eu encontrei uma informação interessante e curiosa na Santeria, que é a Abóbada Espiritual. Essa informação é importante porque mostra a importância do culto aos mortos, algo que curiosamente é ignorado, omitido, negligenciado pelas celebridades pagãs. Como eu não tenho rabo preso nem medo da patrulha bruxesca, eu vou traduzir e transcrever uma página sobre essa prática.
A atenção aos Eguns ou defuntos ocupa um papel importante na Santeria. Fazer oferendas e homenagens aos finados constitui uma parte essencial desta religião.
Existem diferentes maneiras de cumprir com o culto aos antepassados, mas o recurso mais conhecido é a abóbda espiritual, feita de uma mesa com uma toalha branca e vasos cheios de água. Cada vaso representa um determinado defunto ou espírito de devoção da pessoa. Também podem Ter fotos relacionadas com os ancestrais.
O objetivo fundamental da abóbada espiritual é pôr em prática uma máxima importante para quem participa da Santeria: “Iku lobi ocha” que se traduz como: “o morto pariu o santo”, frase que expressa a necessidade de cumprir sempre com a reverência aos Eguns.
A abóbada espiritual constitui em um receptaculo para que os espiritos presentes na vida da pessoa não criem nenhum tipo de pertubação ou molestia causados pela falta de atenção. Igualmente serve para que as pessoas possam desenvolver ou aperfeiçoar suas inclinações espirituais.
Quando se monta a abóbada espiritual se busca concentrar a energia dos Eguns que são parte de nosso quadro espiritual e a dos nossos antepassados. A abóbada serve como receptáculo desta energia e, portanto, constitui o lugar aonde se vai conversar com diversos espíritos, cujos poderes podem ser invocados por quem montou a abobada, por interesse p´roprio ou de outras pessoas. Deve se entender que possuir [uma abóbada espiritual] é começar um processo de interação com nossos antepassados e nosso quadro espirituall. É Ter um aponte de comunicação que nos permitirá fortalecer nossos vinculos com eles.
Original: [http://www.es.santeria.fr/2012/06/01/que-es-la-boveda-espiritual/]
As páginas e praticantes de Santeria, entretanto, deixam bem claro que é necessário ter a devida preparação e consagração, dentro da Santeria, ou da tradição na qual este Culto aos Ancestrais está codificado. Isso não é elitismo, não é preconceito nem tem a pretensão de proibir suas práticas. Apenas é o respeito e humildade que toda pessoa deve ter ao querer entrar e fazer parte de uma religião, crença ou caminho espiritual.

sábado, 5 de dezembro de 2015

O animal interno

Um dos épico mitológicos mais conhecidos do norte da Europa é Beowulf, um herói que era meio homem e meio lobo. A ligação do homem com o lobo está presente em nosso mundo contemporâneo através de seu primo mais doméstico, o cachorro.
No entanto, outras lendas mostram que nem sempre a relação do lobo com o homem foi amigável. Um conto de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm,“O Chapeuzinho Vermelho”, nos mostra uma analogia perturbadora. Um lobo que se veste, se comporta e fala como homem, um lobisomem, como Beowulf, tem um enredo diferente e nos remete a esse aspecto lendário de nossa própria natureza. O que torna o lobo perigoso não é seu lado animal, mas eu lado humano.
Outras lendas podem ter dado origem ao conto do Lobo Mau. Usando a enciclopédia virtual, Wikipedia, eu encontrei diversas lendas com lobisomens.
A Irlanda fala do Reino de Osraige, cujos reis eram tidos como descendentes de Laignech Fàelad, um guerreiro-lobo mítico, tal como os Berserkers, temidos guerreiros nórdicos.
A França conta da cidade de Gevaudan, que era constantemente atacada por um lobo. Segundo as descrições, sua pele tinha um tom avermelhado, e foi dito emitir um odor insuportável. Ele matava suas vítimas rasgando suas gargantas com os dentes. A Alemanha conta da cidade de Ansbach, mas desta vez o lobo era identificado como sendo a reencarnação do cruel burgomestre desta cidade. Em ambos os casos, as vitimas eram crianças e jovens. Mas nenhum destes homens-lobo tinham um nome. Existe, entretanto, lendas com os nomes de notórios e famigerados homens-lobo.
Na França, temos Gilles Garnier, o lobisomem de Dole, acusado também de praticar bruxaria. Na Estonia, temos simplesmente Hans, o lobisomem de Idavare, igualmente acusado de praticar bruxaria. Entre a Holanda e Alemanha, na cidade de Limburgo, temos Henry Gardin, acusado de ser lobisomem e praticar bruxaria. Na Suécia, em Livônia, temos Thiess de Kaltenbrun, que confessou ser lobisomem, mas curiosamente alegou que o fazia para combater as bruxas e garantir a colheita, como fazem curandeiros e benzedoras. Por fim, na cidade de Bedburg, Alemanha, o mais famigerado a ponto de ser transformado em canções, livros e teatro, é o lobisomem alemão chamado Peter Stump, condenado por ser lobisomem e praticar bruxaria.
Durante a Idade Média e o início da Idade Moderna, tanto a bruxaria quanto a licantropia foram consideradas meras susperstições pelos senhores do conhecimento. No entanto as lendas e mitos de ambos se misturam, como um aviso de que é necessário conhecermos nossa verdadeira natureza espiritual. Para o mundo contemporâneo, niilista e individualista, apontar para a existência de um mundo espiritual na natureza e no próprio homem tornou-se um absurdo.A Psicologia e a psiquiatria tratou de categorizar tais mitos como sendo meras manifestações de doenças mentais. Isto acabou se tornando uma desculpa e justificativa perfeita para muitos criminosos.
Quando algo ia mal em uma sociedade, antes a culpa recaía sobre o “outro”, a sociedade alegremente acusava e condenava um inocente por suas próprias culpas. Nossa cultura de entretenimento trata de reforçar esse comportamento na figura do vilão, um estereótipo daquilo que condenamos mas está vivo dentro de nossas almas. Sem a existência do adversário, do inimigo, nós acabaríamos vendo o quanto de nós mesmos nós projetamos no antagonista.
O ódio, a violência, a necessidade de matar estão bem visíveis em textos, páginas e comentários na internet. No entanto deslocamos o problema ao projetar nossas taras e tabus naqueles que servem de bode expiatório. Isso não resolve o problema, apenas piora e tornamos doente nossa sociedade, nossa humanidade, nossa espiritualidade. Enquanto o mundo ocidental não resgatar suas origens carnais e espirituais como sendo um único fenômeno e aos compreender, continuaremos sendo feras humanas.