segunda-feira, 20 de junho de 2016

O antigo culto ao Bisão.

Nós somos mal vistos por falarmos de Paganismo e Bruxaria. Nós somos mal vistos por defender abertamente a sacralidade da natureza, do corpo, do desejo, do prazer e do sexo. Nós somos mal vistos por nossas práticas e ferramentas e pelo nosso comércio com espíritos da natureza, gênios, entidades e Deuses. Isto também acontece dentro da Comunidade Pagã, quando celebridades pagãs afirmam, por exemplo, que não há sacrifício de animais na Bruxaria. Infelizmente pagãos modernos estão adquirindo o péssimo hábito provinciano, arrogante e prepotente em julgar certos ritos como atrasados, selvagens, incultos e impróprios de serem mantidos por pessoas supostamente mais cultas e civilizadas. Isso é um resquício de puritanismo e moralismo hipócrita da cultura judaico-cristã.
Este é um texto crítico, especialmente diante da popularização da “Religião da Deusa” e do Dianismo no Paganismo Moderno, na Wicca e Bruxaria tradicionais.
Eu não vou falar nem Dione Fortune com sua Teosofia, nem de Apuleio com sua obra escrita dentro de um contexto pós-helenização do oriente Médio e Egito. Eu vou desvendar a maior paganice e wiccanice em voga: a de creditar às esculturas das “Vênus” do Paleolítico e do Neolítico como “evidência” da existência de um “antigo culto à Deusa Mãe”.
Considere isto como uma resenha e crítica ao livro "Da Sedução e Outros Perigos", de Flávia Regina Marquetti - Editora Unesp.
Quando olhamos para um período da história humana, especialmente arte, pegar os itens que interessam para uma hipótese e desconsiderar outros itens ou contexto onde a arte foi produzida é preguiça e desonestidade intelectual.
Essas esculturas, como toda arte, não podem ser lidas ou interpretadas conforme nossas tendências, preferências ou necessidades. Esses artistas simplesmente representaram algo evidente: a mulher é a portadora da vida, mas ela não é a única responsável pela gestação. Por comparação e analogia, as esculturas simbolizam a semelhança entre a mulher e a natureza, enquanto portadoras da fecundidade e da fertilidade. Há uma nítida equiparação quando comparamos a modificação no corpo da mulher [das fêmeas em geral] e a modificação da flor para o fruto e é este princípio misterioso que está sendo figurado na escultura.
O dito popular conta-nos, com propriedade, que a mulher entra "em trabalho de parto" e que a mulher "dá a luz" e nisto esconde-se o mistério da gravidez, da fecundidade e da fertilidade. A flor e a fêmea recebem um material [polem/semen] e de sua parte, forma, trama, tece o fruto/feto. Por extensão, o feminino e a natureza [floresta e campo] ficaram associado à arvore, às abelhas, às aves e à serpente. Estas são as representações que configuram as diversas imagens de "Vênus" ao longo das eras.
A arte do Paleolítico e do Neolítico não está centrada apenas em figurar o princípio feminino com a natureza, nem tem a intenção de declarar a existência de um culto universal a uma única Deusa Mãe.
Existem esculturas também de cavalos e bisões. Se as esculturas das “Vênus” fossem uma evidência de um antigo culto a uma Deusa Mãe, então podemos considerar as esculturas e pinturas de algumas “Vênus” junto com bisões como evidências de um antigo culto ao Bisão.
Nas cavernas da França, em Pont d’Arc e Angles sur l’Anglin, baixos relevos mostram a “Deusa Vênus” acompanhada, cortejada ou até mesmo sugerindo uma relação sexual com um bisão. O bisão é um animal que mais está representado em pinturas rupestres em diversas cavernas.
Tal como as representações da mulher alteraram-se com o desenvolvimento da humanidade, a figura do bisão também teve alterações, resultando na representação do touro como a enigmática manifestação de um Deus regente e consorte de diversas Deusas.
O desdobramento mítico dessa Deusa e Deus primordiais podem ser vistos no mistério do Hiero Gamos, na Morte Sacrificial [do Deus da Vegetação ou do Touro] e no Renascimento Cíclico da vida e da natureza. Somente existe a vida e o renascimento com a morte e o sacrifício.
“Ninguém pode viver senão destruindo a vida, senão matando outros seres vivos. Nenhum ser pode subsistir sem devorar outras formas de vida, vegetal ou animal. Isso é um aspecto fundamental da natureza. Toda a vida do mundo, animal ou humana, é uma interminável matança. Existir significa comer e ser comido. Todo ser vivo alimenta-se de outros seres e irá se tornar o alimento de outros seres num ciclo interminável.”[Alain Danielou – Shiva e Dioniso].
Nossas origens, nossas raízes e nossa espiritualidade estiveram enterradas por séculos pela hipocrisia moral cristã. Muitos são os que se dizem pagãos e bruxos que trazem consigo esse puritanismo e não são capazes de seguir as Verdades Eternas que existem nos mitos, nas práticas e nas tradições. Esse é o Caminho pelos Bosques Sagrados. Este é um caminho que somente pode ser trilhado com terra, sementes, folhas, flores, raízes, penas, entranhas, sangue, ossos, sêmen. Esse é o caminho do bruxo e da bruxa.

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