segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Magia, Cotidiano e Discursos Clericais na Idade Média

Notandum – Ano XIII – Nº. 24 – set-dez/2010
Autora: PEREIRA, Rita de Cássia Mendes
Resumo: Este trabalho tem por objetivo discutir o papel da magia na vida cotidiana dos homens da Idade Média e os diferentes discursos enunciados pela cultura clerical com o objetivo de combatê-la. Oriundas de antigas tradições, disfarçadas, obliteradas, condenadas pelas ações de uma Igreja que se pretendia única, as crenças e práticas associadas à magia sobreviveram em estreita relação com a história mesma dos movimentos de conversão e de reforma da Igreja cristã. Elas subsistem mais ou menos à margem, mais ou menos integradas, ao projeto de evangelização, não como um sistema estruturado de crenças e ritos oposto ao cristianismo oficial, mas em simbiose com ele, modificadas por ele, a ele também impondo transformações. Ao longo da Idade Média a magia foi resolutamente condenada pela Igreja, mas os documentos de origem eclesiástica destinados à divulgação restrita nos meios clericais, bem como aqueles destinados à difusão da doutrina em mais larga escala, revelam vários modelos de interpretação e ação frente às crenças, às práticas e às diversas categorias de mediadores do sagrado a ela associados.
A História religiosa do Ocidente durante a Idade Média expressou-se como um conflito permanente entre o cristianismo oficial e uma infinidade de crenças religiosas e práticas de religiosidade que, a despeito dos reiterados esforços da Igreja, teimavam em permanecer mais ou menos à margem, mais ou menos integradas às orientações advindas dos centros de decisão e de elaboração da cultura clerical. Essas experiências religiosas divergentes, e em especial as práticas de intervenção mágica, se afirmaram, desde os primeiros séculos de expansão cristã, como objeto de especial preocupação por parte das autoridades eclesiásticas. Mas as constantes alusões à sua existência nos penitenciais, nos tratados de demonologia, nas descrições de processos judiciários e nas considerações gerais sobre o paganismo são indicativos de sua permanência e de sua importância na vida dos povos do Ocidente.
A magia, como forma de mediação sobrenatural destinada à explicação e enfrentamento dos problemas cotidianos, é intrínseca à lógica social e mental do medievo. Em certo sentido, como argumenta Thomas (1991, p. 48 et seq.), as fórmulas rituais de magia são inerentes e parte integrante do próprio sistema ritual e litúrgico do cristianismo. Reivindicando-se única intermediária das relações com o divino, a Igreja afirma-se como depositária de poderes sobrenaturais, que se manifestam, por exemplo, na sagração e no uso de relíquias cristãs. A tarefa de difusão da doutrina cristã implicou, não raras vezes, no recurso, por parte dos mediadores oficiais do sagrado, a práticas heterodoxas de mediação sobrenatural, para as quais concorriam mesmo a conjuração e a intervenção dos demônios. Aos teóricos da Igreja coube a tarefa de justificar essa ‗magia eclesiástica‘, de situá-la dentro do horizonte dogmático do cristianismo oficial, de delimitar as suas origens, os seus campos de ação, seus objetivos e seus efeitos.
Mas a presença da magia na vida cotidiana dos homens da Idade Média ultrapassa os limites do que era permitido, ou pelo menos aceito, pela Igreja como um recurso de intervenção sobre a realidade sob o controle dos clérigos. As fontes cristãs reconheceram e denunciaram continuadamente a manutenção e divulgação de práticas religiosas e de valores estranhos aos cânones apregoados pela direção da Igreja e que comprometiam as pretensões eclesiásticas de monopólio da relação com o plano do sagrado. Aos membros da hierarquia eclesiástica era imposto que fossem denunciadas as práticas de mediação sobrenatural cujas experiências deveriam ser excluídas do universo conceitual da religião e que, portanto, precisariam ser reprimidas ou enquadradas. Importava, sobretudo, aos representantes do cristianismo oficial, as práticas de magia exercidas por indivíduos alheios aos fóruns de formação e expressão da cultura clerical: os magos, feiticeiros e encantadores, agentes privilegiados de solução dos problemas cotidianos que atingiam os homens da Idade Média. Usando como recurso diversas formas de exercício das artes divinatórias e técnicas de manipulação de elementos da natureza, eles foram os principais encarregados da manutenção da crença nos fenômenos mágicos. Ao poder técnico-mágico desses indivíduos, especialistas pretensamente dotados de saberes especiais, e às suas ações, o discurso eclesiástico buscou opor as realizações dos verdadeiros agentes do sagrado: os santos e clérigos.
Entre os especialistas nas artes mágicas situavam-se os indivíduos encarregados da solução dos problemas físicos que assediavam uma população praticamente desassistida de médicos profissionais e mesmo de uma ciência médica. Na ausência do que nós chamaríamos de serviços médicos ortodoxos, numerosas espécies de agentes mágicos cumpriam uma função terapêutica, essencial nas casas miseráveis dos setores rurais como urbanos, mas também nos castelos e casas aristocráticas.
Para a maioria dos indivíduos acometidos por doenças, como afirma Braunstein (1990, p. 576), a ―saúde do corpo é um elemento determinante da sua vida privada‖. O atendimento aos doentes era realizado dentro de suas próprias casas e estava normalmente circunscrito aos seus aposentos privados. Nas casas nobiliárquicas, como nas casas populares do campo e da cidade, prestam atendimento aos doentes religiosos, astrólogos e curandeiros de toda espécie e, em um universo em que as possibilidades de atuação ‗profissional‘ ofertadas às mulheres estão normalmente circunscritas aos assuntos da vida privada, pelas curandeiras e parteiras.
Os especialistas nessa ars medica paralela à dos médicos produziram, a partir da observação e manipulação de elementos da natureza, inúmeras receitas de unguentos, chás e remédios voltadas para a cura de doenças dos mais diversos tipos. Ao mesmo tempo herdados e aprendidos, esses saberes e técnicas necessários à intervenção sobre o corpo humano no sentido de desviar o curso da natureza e evitar a vitória da morte foram normalmente preservados, ampliados e difundidos entre indivíduos pertencentes a um mesmo círculo familiar ou comunitário. Transmitidas oralmente ou por escrito, por meio de livros de família, as receitas de comidas, bebidas, filtros e unguentos traziam orientações para a manipulação e aplicação de substâncias materiais; mas, frequentemente, indicavam, também, pela necessidade de associação das técnicas de aplicação dessas substâncias com certas fórmulas devocionais, com sortilégios verbais e técnicas divinatórias, incluindo-se as fórmulas de decifração de sonhos e de visões extáticas.
A intimidade com esse tipo de ‗prática médica‘ implicava, pois, aos olhos dos homens da Idade Média, uma evidente capacidade de mediação com forças e poderes extraterrenos e se constituía em uma prerrogativa dos indivíduos associados ao domínio do sobrenatural que o pensamento eclesiástico definiu como magicus. Entretanto, exercido em favor do restabelecimento da saúde das pessoas, este tipo de magia entra com plena oficialidade no cotidiano e nas representações mentais dos homens do período:
A consciência medieval resgata da antiguidade a idéia da ação mágica benéfica, que justifica a existência da boa feiticeira que, na visão popular, e até mesmo na erudita, emprega seus conhecimentos resultantes de séculos de práticas acumuladas de feitiçaria – para curar ou amenizar doenças (NOGUEIRA, 1995, p. 36).
Talvez pelo caráter hermético dos conhecimentos inerentes às suas práticas e pelo poder de intervenção sobre a natureza humana decorrente desses conhecimentos, os agentes dessa ‗medicina tradicional popular‘ foram, frequentemente, acusados da execução de ações destinadas a provocar a morte, a doença ou a impotência sexual de indivíduos. Nas parteiras e nos curandeiros, os indivíduos e comunidades encontraram, muitas vezes, explicação para muitos dos fenômenos da vida cotidiana que, pela estranheza ou repetição, escapavam à sua compreensão. Acreditava-se, como ressalta Delumeau, que algumas pessoas possuíam um poder extraordinário e que conheciam funestas receitas capazes de provocar doenças ou mesmo a morte de pessoas:
Graças a ele (ou a ela) as desgraças insólitas que atingem os indivíduos (pois para as calamidades coletivas pensava-se antes na cólera de Deus) encontravam uma explicação [...]. Elas tinham por origem tal pessoa da aldeia considerada malévola por causa do seu comportamento estranho, de suas anomalias físicas ou de uma má reputação, muitas vezes herdada da mãe ou de uma parenta (DELUMEAU, 1989, p. 376).
A crença na possibilidade de execução de ações de natureza maléfica, o ódio e o desprezo por aqueles a quem se acusava do exercício de uma magia destinada à efetivação dessas ações, foram alimentados pela opinião popular e tornaram-se objeto de inúmeras referências nos penitenciais, em disposições legais e em processos penais. As acusações mais frequentes apontam para as ações destinadas a comprometer a saúde física e mesmo a arrebatar a vida de pessoas, como os sortilégios, a confecção de imagens e o envenenamento.
Com mais frequência do que a historiografia contemporânea tentou demonstrar, vários homens figuraram nos processos de acusação de atos maléficos; mas as mulheres constituem, sem dúvida, a maioria dos acusados. Sobre as mulheres, a quem cabia, como vimos, o mérito da assistência aos doentes, às parturientes e aos recém-nascidos, pairava a suspeita de que os seus conhecimentos e habilidades poderiam ser utilizados para a efetivação de crimes contra a natureza, contra a natureza humana em particular. Atuando na fronteira entre a vida e a morte, a elas sobrevinha, muitas vezes, o ônus das acusações da prática de aborto e infanticídio, como da morte e inutilização de homens e mulheres.
Para esta visão contribuem os inúmeros relatos do exercício de uma magia erótica ou amatória voltada para a reprodução de fórmulas mágicas destinadas à solução de problemas e à realização de desejos ligados ao amor e à sexualidade. Para Caro Baroja, está na origem dessa concepção o modo de atuação da personagem de Circe dos poemas homéricos, uma mulher fria e calculista que almejou subordinar, por filtros, encantos e feitiços, os seus maridos:
Poderíamos dizer que existe um ―complexo‖ de Circe, como se fala vulgarmente de outros (a partir do Édipo) e que é de grande universalidade. Em parte, a vida amorosa do homem se acha condicionada por ele, e também é por conta dele que se fala frequentemente, ao referir-se à ação da mulher sobre o homem enamorado, de encanto e de feitiço (CARO BAROJA, [1975], p. 189).
Como Circe, outras personagens recorrentes nos textos da antiguidade grega e latina pela capacidade de realização de encantos amorosos e de fórmulas destinadas à sedução e consecução de desejos eróticos, se preservam, por similaridade, no modelo de feiticeira medieval européia, difundido nos diferentes círculos sociais e culturais, e, em especial, nas representações literárias das agentes femininas da magia:
A feitiçaria européia está ligada à magia amatória ou erótica, desenvolvida a partir da Grécia, ou, melhor dizendo, às operações mágicas vinculadas aos desejos e paixões amorosas, o que faz com que a feiticeira, além de efetuar elucubrações mágicas, intervenha como intermediária de casos amorosos, com o auxílio da observação e das técnicas comuns e correntes às práticas amorosas (NOGUEIRA, 1995, p. 34).
A essas funções acresce, à imagem trivial da feiticeira européia do período medieval, uma outra, segundo Nogueira, ―subproduto da sua intervenção como praticante da magia e mediadora amorosa e exigida pela própria dinâmica do mundo passional‖ (NOGUEIRA, 1995, p. 34). Trata-se da sua intervenção como envenenadora e perfumista. Definidas e qualificadas pelas fontes clericais do medievo como ‗artimanha de mulheres‘, as várias práticas de confecção de filtros, perfumes e principalmente venenos, destinados a subordinar e afrontar a natureza masculina, reproduzem-se nas fontes da Idade Média.
No século XI, Burchardi de Worms, corrector et medicus, dirige o seu interrogatório para práticas e receitas por meio das quais as mulheres, principalmente, acreditavam poder intervir, diabolo impellente, na saúde como na vida afetiva, sexual e reprodutiva das pessoas. As desconfianças estavam pautadas sobre os rumores, as denúncias e os processos acusatoriais que já começavam a despontar, mas se fazem espelhar, também, em estereótipos que remontam aos vários períodos da história de Roma. A cultura dos clérigos, durante a Idade Média, condenou resolutamente as várias práticas de magia sustentadas e difundidas pela porção mais frágil da humanidade: as mulheres, mais sujeitas às influências e aos desígnios do demônio. A independência masculina frente aos seus saberes e técnicas – apregoa a cultura clerical – requer o uso da razão, a estrita subordinação das mulheres à autoridade dos homens e a adesão a uma vida casta, imune à extrema, insaciável, e porventura maléfica, paixão feminina.
Pressente-se, aí, nas construções teológicas, a presença de duas outras figuras arquetípicas: Hécate, a deidade parricida dos gregos, especialista na arte dos venenos e protetora das feiticeiras, e a lendária Medeia, dignificada pela tragédia homônima de Eurípedes, que, movida por um incontrolável sentimento de paixão e vingança, executa suas artes na confecção de feitiços venenosos:
A cultura dos clérigos, em suas variadas formas de enunciação, logrou estabelecer uma inevitável associação entre mulher, erotismo, magia e artes maléficas e reiterou a máxima presente no provérbio hebreu de que quanto mais mulheres, mais feitiços: ―Podemos supor [...] que as leis primárias de similaridade se tem aplicado a outros casos que tocam à magia e à convicção de que as mulheres são mais dados a ela – e por acaso também a toda ação maligna – que os homens‖ (CARO BAROJA, [1975], p. 196-197).
Sobre o medo da feitiçaria e, em particular, dessas classes de feitiços inerentes à magia feminina, esteve assentado e se fez renovar, ao longo de toda a Idade Média, em fontes de diferentes naturezas, o tradicional medo da mulher. Esse medo plurissecular tornou-se um lugar comum na imaginação popular e acabou por contaminar a imagem da ‗medicina popular tradicional‘ e de suas representantes. Por um princípio associativo, as práticas de mediação sobrenatural voltadas para a cura foram assimiladas às práticas maléficas e sofreram um esvaziamento gradativo de suas funções comunitárias. Aos seus agentes, os teóricos da Igreja procuraram negar qualquer relação com o plano do sagrado e particularmente desde o século XIII esteve implícita, nas representações clericais sobre a magia, a idéia de uma mediação sobrenatural para a qual concorria a ação ruinosa dos demônios.
Subordinadas ao julgamento da teologia e da justiça eclesiástica, as diferentes formas de exercício da magia, e não apenas a magia feminina, receberam, então, o estigma de uma atividade normalmente associada à influência demoníaca:
Para o clero [...] tudo o que o homem faz em desconformidade com a disciplina eclesiástica é diabólico, especialmente quando, para superar suas dificuldades ou para vencer os males físicos ou morais, em vez de pedir ajuda à Igreja e a seus ministros, confia mais na consulta de magos e adivinhos, ministros de Satanás, colaboradores e intermediários dos diabos (GIORDANO, 1983, p. 154-155).
Para a cultura clerical, as práticas de magia estavam em contraposição às orientações e desígnios da instituição responsável pela difusão da ‗verdadeira religião‘. A sua sobrevivência foi frequentemente associada à ignorância de grupos sociais e culturais inferiores (e, por isso mesmo, potencialmente perigosos). Nas expressões utilizadas para caracterizar o meio social dos agentes mágicos e de sua clientela, visualiza-se a idéia corrente de que as práticas de magia eram exercidas e acreditadas, principalmente, por camponeses ‗rústicos e ignorantes‘. Sobre essa tese – da origem e natureza aldeã dos fenômenos mágicos – sedimentou-se o uso de expressões como superstitiones, paganiae, idolatria, rustici e idiotae, recorrentes nos textos medievais, para definir (e, ao mesmo tempo, qualificar) as práticas religiosas divergentes e os indivíduos a elas associadas. Esses termos predominam nos relatos constantes dos processos contra os agentes da magia, nos manuais de inquisidores e nos tratados eclesiásticos, nos quais os atos mágicos e os seus agentes estão confrontados com os medos, as angústias e ambições dos dirigentes da Igreja oficial. O seu uso denuncia a parcialidade dos testemunhos que fundamentam as diversas construções teóricas sobre a magia e os seus praticantes.
Os estudos desenvolvidos por Caro Baroja demonstram como, a despeito dos esforços de uniformização do pensamento empreendidos pela Igreja, os indivíduos associados às práticas de magia eram, ainda nos últimos séculos da Idade Média, uma constante no cenário cotidiano das cortes nobiliárquicas da Europa:
A bruxa continua a frequentar o castelo senhorial, o paço episcopal, o Alcazar real. E durante este período, raros são aqueles que escapam à tentação de a consultar na França, na Alemanha, na Inglaterra e na Espanha, quaisquer que sejam as sanções previstas (CARO BAROJA, [1978], p. 119).
Nos processos que se avolumam no final do período, visualiza-se a participação, na condição de agentes, intermediários ou clientes, de pessoas pertencentes às categorias superiores da sociedade feudal em práticas de necromancia, na confecção ou encomenda de feitiços e na efetivação de prestígios diabólicos, mesmo quando, a partir do século XIII, uma associação mais evidente começa a se estabelecer entre estas práticas mágicas e a ação demoníaca.
Chama particular atenção a participação de clérigos, mesmo aqueles de elevado nível de formação intelectual, em fatos relacionados ao exercício da magia, seja como clientes, seja como agentes diretos da execução de práticas mágicas. Os cânones eclesiásticos buscaram estabelecer diferenças, no julgamento e definição das punições, entre os membros da aristocracia clerical que acreditavam na eficiência das fórmulas mágicas, que as estudavam e que traduziam para o latim os seus poucos registros escritos, enfim, ‗que se deixam tentar pelo mundo secreto‘, e os representantes da magia popular. Porque, como argumenta Caro Baroja (1992, p. 48-49), ―não se podia por na mesma esfera a [magia] praticada por homens de estudo, tocados de impiedade, e a praticada por gentes populares‖.
Os poderes eclesiásticos reconheceram, muitas vezes, as diferenças de propósitos e as fronteiras entre aqueles que, adeptos de uma ‗magia natural‘, estavam interessados tão somente na aquisição de sciencia e os que, afastados dos dogmas e preceitos cristãos, tornavam-se adeptos da ‗magia diabólica‘. Mas, nem por isso amenizaram suas críticas e proibições às práticas de qualquer natureza: ―os teólogos católicos recomendavam que não se estudasse a primeira para não cair tentado na prática da segunda‖ (CARO BAROJA, 1992, p. 48). Inúmeros debates e concílios foram realizados e ações foram implementadas visando a proibição das práticas de magia nos meios clericais. Mas os vários processos e punições envolvendo clérigos e escolares por prática de astrologia ou necromancia provam a ineficácia do discurso e das ações eclesiásticas.
Os agentes mágicos, bem como aquela infinita parcela da população que com eles se relacionava, nos privaram de uma contribuição mais eficaz para a caracterização das suas atividades e do universo religioso dentro do qual puderam exercer, mais ou menos abertamente, as suas funções. As suas impressões e experiências estiveram normalmente subordinadas ao controle e julgamento dos agentes de produção e difusão da cultura clerical ou relegadas ao plano da oralidade. Como salienta Caro Baroja (1992), no conjunto das informações que possuímos sobre a magia e a bruxaria, o maior número refere-se àqueles que acreditam nas bruxas e não àqueles que se julgam a si mesmo bruxos ou bruxas (CARO BAROJA, 1992, p. 16. Grifos do autor).
A inexistência de um método eficaz de resgate de informações procedentes dos agentes mágicos, independente do julgamento eclesiástico, apresenta-se, então, como um real empecilho à reconstrução do universo religioso dentro do qual eles estavam inseridos. Mas a leitura dos próprios documentos de origem eclesiástica relativos à magia proporciona a impressão muito clara da presença, no cotidiano dos homens do Ocidente, de inúmeras categorias de mediadores entre o mundo natural e as forças sobrenaturais. Valorizados por uma parcela significativa da população, nas cortes como nas aldeias camponesas, no campo como na cidade, esses indivíduos atuaram sempre, ainda que inconscientemente, no sentido da manutenção de resíduos de crenças e ritos pré-cristãos no seio da população recentemente – e parcialmente – cristianizada.
Os textos procedentes dos primeiros séculos de Idade Média testemunham a existência, entre as ‗massas rústicas‘ do Ocidente Europeu, de cultos e crenças associados a sistemas religiosos anteriores à expansão cristã. Mas esses cultos e crenças – uma infinidade de tradições étnicas, de elementos disformes tomados de antigas tradições folclóricas que o processo de cristianização não logrou eliminar por completo – estão longe de se constituir em um sistema religioso organizado, em um paganismo estruturado em torno de deuses, doutrina, com seus adeptos e sua hierarquia clerical:
O [paganismo] era há muito tempo um espelho partido, um universo rompido. Certamente subsistiu em nomes deformados de divindades e sob a forma de mentalidades e de comportamentos mágicos, mas sem panteão um pouco organizado que fosse, nem sacerdotes (ou sacerdotisas), nem corpo de doutrina. Era talvez vivido, mas não era pensado nem desejado [...]. Sobrevivência de um politeísmo de fato e restos das religiões antigas nem por isso significam cultos coerentes de fertilidade, manutenção de um paganismo consciente de si mesmo, organizações clandestinas de liturgias a- e sobretudo anti-cristãs (DELUMEAU, 1989, p. 373).
Amplamente combatidas pela instituição eclesiástica, as crenças e as formas variadas de culto que ―o cristianismo dissimulou mais do que suprimiu‖ (DELUMEAU, 1973, p. 202) foram submetidas, ao longo da Idade Média, a um inexorável processo de assimilação ao cristianismo oficial, ou pelo menos de reinterpretação à luz dos seus dogmas. Como salienta Eliade:
Após a sua conversão, mesmo superficial, as inúmeras tradições étnicas e religiosas, bem como as mitologias locais, foram homologadas, isto é, incorporadas na mesma ―história santa‖ e expressas na mesma linguagem, a da fé e da mitologia cristãs [...]. As mesmas formas e variantes do legado pagão foram sistematizadas num mesmo corpus mítico ritual externamente cristianizado (ELIADE, 1984, p. 253).
Essa incorporação das formas e variantes do legado pagão ao sistema mítico-ritual do cristianismo efetivou-se com a colaboração dos setores laicos da população e, em especial, das massas agrárias, cada vez mais propensas a se reconhecerem como cristãs.
A única certeza fornecida pela documentação atualmente examinada é a de um sincretismo religioso que, em particular nos campos, por muito tempo sobrepôs crenças trazidas pela Igreja a um fundo mais antigo. Mas as populações se consideravam cristãs e não tinham o sentimento de aderir a uma religião condenada pela Igreja (DELUMEAU, 1989, p. 373).
Simbioses e sincretismos seriam, assim, as palavras-chaves para definir as relações entre a religião oficial e o fundo mais antigo de religiosidade sobre o qual a Igreja logrou sobrepor suas verdades e seus ritos. Movimentos de mão dupla, esses conceitos ilustram a força do movimento, promovido pela Igreja, de conversão ao cristianismo, mas, também, o contributo das culturas laicas no sentido da criação e manutenção de formas próprias de exercício da religiosidade, subordinadas, pelo menos externamente, às crenças e ritos cristãos.
Apesar das constantes admoestações e sanções eclesiásticas, os pensadores da Igreja tiveram de se confrontar com um comportamento coletivo reincidente no uso de práticas cerimoniais pertencentes a um fundo tradicional de cultura e com a concorrência de agentes de mediação sobrenatural estranhos aos meios clericais. Os teólogos viram-se obrigados a pensar essas práticas e esses agentes à luz dos dogmas essenciais do cristianismo, a refletir sobre a realidade dos efeitos atribuídos aos seus atos e sobre o papel ocupado pelos demônios na sua execução. Os seus escritos manifestam, entretanto, múltiplas formas de interpretação e tratamento dos fenômenos definidos como mágicos.
Uma primeira divergência diz respeito à realidade dos fenômenos relacionados à magia. Entre os escritores dos primeiros séculos de cristianismo é evidente uma generalizada crença na magia. Entretanto, já na Alta Idade Média, começa a transparecer, nos textos eclesiásticos, uma atitude de dúvida – tendendo para a negação – em relação à eficácia dos atos mágicos. Esta tendência ao ceticismo encontra-se já em Santo Agostinho. Para o bispo de Hipona, não há que se crer nestas ‗coisas falsas e extraordinárias‘, representações de imagens, transformações aparentes, ocorridas durante os sonhos sob influência direta do demônio.
A partir de Agostinho, os teólogos vão desenvolver dois princípios essenciais, claramente refletidos nos cânones, penitenciais, concílios e decretais: um primeiro, o princípio da irrealidade dos atos mágicos, relega os poderes dos magos e o resultado de suas ações à categoria de miragens ou ilusões; o segundo, afirma a presença demoníaca nas atividades mágicas. Os fenômenos mágicos não passariam de ilusões e prestígios diabólicos e Satã, onipotente e irresistível, na sua luta incessante contra o poder divino, figura como protagonista de toda magia.
Fiel ao primeiro dos princípios enunciados pelo pensamento Agostiniano, o bispo Agobard de Lion, no século IX, expõe, no seu Liber de grandine et tronitus, sua absoluta descrença em relação à eficácia da magia. Para Agobard, só a Deus caberia o controle sobre os fenômenos da natureza. Os atos e crenças relativos à magia situavam-se, portanto, no terreno das superstições, das palavras vãs, insustentáveis quando submetidas à obrigatoriedade de juramento. As pessoas que neles acreditassem deveriam ser consideradas loucas, estúpidas, idiotizadas, ignorantes.
No século XI essa tendência ao ceticismo, que orientara a ação da Igreja nos primeiros séculos de expansão, continuou a manifestar-se como desprezo, ironia e rejeição em relação às massas sumariamente cristianizadas que ainda insistiam em acreditar na eficácia dos atos mágicos. Objetivando desqualificá-las, Buchardi abusa das expressões superstição, perfídia, ilusões, fantasias cegas e falsas crenças para referir-se às ‗mágicas artes‘. Ao mesmo tempo, busca defini-las como ações maléficas ou ilusões diabólicas, e alertar, como já o fizera Agostinho, para os perigos espirituais do envolvimento com elas.
A tese agostiniana do sonho ou ilusão diabólica orientou, também, as primeiras ações destinadas à correção daqueles que se obstinavam em recorrer à magia. Nos séculos iniciais da Idade Média, quando o arcabouço ideológico, teológico e imaginário do cristianismo ainda estava em processo de construção, a assimilação dos antigos paganismos – mas, também, a desnaturação ou eliminação de crenças e práticas religiosas a eles associados – se constituíram em mecanismos eficazes de conquista dos povos aos quais se destinava o esforço de evangelização. Já nas definições do Concílio de Tours, de 813, ou no Canon episcopi, um guia de visitações episcopais redigido por volta de 906, as atividades mágicas foram objeto de condenações formais. Os teóricos da Igreja denunciaram as práticas de magia pela sua estranheza em relação aos princípios de disciplina e hierarquia, apregoados quotidianamente pelas diferentes categorias de clérigos. Os que nelas acreditassem estavam subordinados ao poder de Satã. Tornavam-se, assim, passíveis das mesmas penas que os condenados pelo exercício de cultos não oficiais.
Nessa mesma perspectiva, os penitenciais, principais instrumentos de controle da vida cotidiana da população, demonstravam uma especial preocupação com as crenças subjacentes às práticas religiosas divergentes. Mas, ao condenar formalmente as práticas da magia, eles visavam, sobretudo, as crenças a ela relacionadas que, neste momento, cumpria esvaziar de todo sentido. Visualiza-se aí uma atitude de pragmatismo com relação às massas que lhes dava sustentação. Em período de evangelização, de conversão, lutava-se, antes de qualquer coisa, contra a preservação, danosa à ação doutrinária da Igreja, de crenças consideradas por ela como supersticiosas. Como argumenta Nogueira (1995): ―A igreja do século XI ainda argumenta com as crenças populares, procurando demonstrar a ilusão que elas contém, punindo exemplarmente a crença, e não a ação mágica‖ (NOGUEIRA, 1995, p. 35).
Toda ação repressiva apoiava-se, então, antes de tudo, nos perigos espirituais a que estavam sujeitos os homens, aproximados, através de certas crenças e práticas, ao universo satânico. Excomunhões, penitências, penas pecuniárias, aplicadas às diferentes categorias de magos e aos seus clientes, e graduadas de acordo com o tipo de magia ou de categoria social do acusado, resumem o procedimento acusatorial utilizado pela Igreja durante toda a primeira parte da Idade Média. A Igreja esforçava-se por fazer valer as suas críticas e reprimendas, mas a reincidência da elaboração de cânones e penitenciais relativos ao assunto são uma prova clara da sobrevivência de certas crenças e práticas tradicionais e, portanto, da inoperância da Igreja no sentido de sua proibição:
Aqui, chocam-se duas tendências: uma religiosidade que é vivida pela coletividade e entremeada de crenças tradicionais e a tarefa da ortodoxia de ganhar o poder sobre as consciências e levar a coletividade a aproximar-se e sujeitar-se ao discurso eclesiástico (NOGUEIRA, 1995, p. 13).
Irrealidade dos atos mágicos e ilusão demoníaca foram, portanto, as idéias que nortearam a postura oficial da Igreja frente às práticas e crenças relacionadas à magia, pelo menos até o início do século XII, quando vários movimentos religiosos dissidentes começaram a tomar corpo no Ocidente. Sobre essas idéias se apoiaram as leis, os documentos e os textos que serviram de justificativa para os primeiros atos de repressão e os primeiros processos contra os magos, mas também contra os simples crentes na magia.
Na passagem do século XII para o XIII, novas idéias passaram a orientar a abordagem eclesiástica sobre as atividades mágicas e seus agentes. Particularmente no XIII, século dos grandes debates teológicos envolvendo princípios filosóficos, ordens e tendências religiosas, a Igreja reafirmou a participação no plano do demoníaco de toda crença e de toda ação que, alheia ao seu controle, aspirasse a qualquer contato com o sobrenatural. Acirra-se a luta pelo monopólio das relações com o sagrado:
A Igreja do século XIII, a Igreja das Universidades e das Summae canônicas e teológicas, mestra de toda ciência e senhora de todo poder, a um passo de realizar o sonho hierocrático rigorosamente difundido por Inocêncio III, já não podia considerar com a tolerância habitual a subsistência, nem sequer nas margens da cristandade, de antigas e não integradas superstições (CARDINI, 1982, p. 73).
O demônio passa, pouco a pouco, a ocupar um papel, na vida dos homens, tão importante quanto o do próprio Cristo. A ele foram relacionadas, até o final da Idade Média, todas as formas de exercício das artes mágicas, para as quais se procura afirmar, desde então, a efetividade. Tomás de Aquino, por exemplo, preocupado com a participação dos demônios na vida dos homens, denunciou, em inúmeras passagens da sua Summa Teológica, os praticantes da superstição, vício que, por excesso, é contrário à religião (vitium religioni contrarium). Embora não tivesse utilizado a palavra magia na sua classificação dos fatos entendidos como supersticiosos, Aquino revelou uma particular preocupação com as adivinhações (superstitionem divinationum). Para ele, as práticas divinatórias demandavam, necessariamente, consultas aos demônios que eram atendidas mediante pactos tácitos ou expressos – quae daemones consulit per aliqua pacta cum eis inita, tacita vel expressa. Através da invocação dos demônios, argumenta Aquino, os indivíduos manifestam sua predisposição ao rompimento com Deus.
Sobre as idéias de Aquino assentaram-se as diversas transformações do pensamento religioso que contribuíram para a afirmação de novas concepções e novos procedimentos relativos à magia. Atuaram no sentido da renovação e sedimentação do novo pensamento eclesiástico, os movimentos heréticos e as várias respostas voltadas para o seu desbaratamento, as diversas formas de expressão do movimento mendicante e o processo de atualização do aparato inquisitorial. Também contribuíram para essa renovação a presença permanente das guerras, das epidemias e os cismas religiosos, efeitos dos grandes fenômenos sócio-econômicos e político-religiosos, sintomas de uma crise geral que, nos dois últimos séculos da Idade Média, impressionaram os líderes da cristandade Ocidental.
Como resposta aos desafios materiais e espirituais decorrentes da crise, os representantes da cultura dirigente procuraram corrigir e resgatar para o domínio da cristandade todos aqueles que, agrilhoados a antigas tradições, agiam no sentido contrário à expansão da fé cristã. E o fizeram inserindo-os no contexto da luta universal entre Deus e o(s) demônio(s). Um clima de obsessão demoníaca foi, então, engendrado nos centros de elaboração eclesiástica e acabou por contaminar a população do Ocidente.
Nas elaborações doutrinárias e na legislação civil, procedeu-se à paulatina assimilação entre as atividades mágicas e as heresias e resgatou-se dos modelos culturais clássicos a idéia de pacto entre os agentes mágicos e as forças demoníacas. Pautados em textos da antiguidade latina, as fontes jurídicas e os escritos teológicos dos últimos séculos da Idade Média se esforçaram por atribuir aos magos, e em especial às representantes femininas da magia, a capacidade de dominação dos deuses às paixões humanas:
Na antiguidade clássica é evidente que houve consciência de que a técnica das magas se achava, em grande parte, baseada na existência de um contrato; de um pacto, em suma. Há que se aprofundar no estudo da natureza do pacto e em sua relação com outras situações que podemos definir como legais ou ilegais: chega a analogia jurídico-religiosa a tal grau que, em determinados casos, a ação mágica se pode considerar como um operação de chantagem. O ameaçar os deuses entra no jogo, como meio (CARO BAROJA, [1975], p. 184-185).
Na transição da Idade Média para a Idade Moderna, as idéias de pacto e servidão demoníaca passaram a orientar as construções teológicas sobre a magia. Os agentes mágicos adquiriram, aos poucos, reais poderes de intervenção sobre a natureza, agora por força de um contrato estabelecido com os demônios. Satã, assim como Deus o era para os agentes do bem, tornou-se senhor de todos aqueles indivíduos associados às crenças e práticas, que, no momento anterior, a Igreja tratara como frutos da ilusão demoníaca. Elaborada sob o papa Gregório IX, a bula Vox in Rama, reflete a obsessão do diabo que, desde então, começou a se impor à sociedade a partir das estruturas de poder eclesiástico.
Os novos processos transformaram, paulatinamente, o perfil dos acusados: de indivíduos isolados, dedicados a práticas de intervenção sobre a vida pessoal, eles tornaram-se membros de uma seita satânica, cuidadosamente estruturada, com seus ritos e sua hierarquia. Por outro lado, procedeu-se a uma progressiva assimilação entre as práticas de magia e os vários movimentos divergentes que afrontavam a hegemonia da Igreja. Essa assimilação entre magia e heresia, cujos primeiros rumores aparecem desde o século XII em resposta aos primeiros grandes movimentos divergentes, foi objeto de renovadas discussões que culminaram com a elaboração, sob João XXIII, da bula Super Illius Specula, em 1326.
Na luta contra o poder crescente de Satã – para onde os movimentos divergentes pareciam apontar – teólogos e juízes potencializaram as acusações e redesenharam as imagens dos réus segundo estereótipos de uma considerável profundidade. As técnicas de repressão foram precisadas e aperfeiçoadas. Com a anuência das altas hierarquias civis e eclesiásticas, o número de processos aumentou e as acusações ganharam uma similitude espantosa. Adaptadas desde o século XII ao objetivo de erradicação da heresia, as técnicas de procedimento inquisitorial foram utilizadas, desde então, também contra as práticas de magia, paulatinamente unificadas, nos textos cristãos, sob a designação genérica de maleficium.
No século XIII, os textos revelam ainda algumas atitudes de cautela por parte da Igreja. Algumas reservas foram feitas, principalmente quando se requisitava um aumento do poder repressivo de certos setores da própria Igreja. Delumeau resgata informações de que, em 1275, o papado haveria rejeitado os pedidos dos dominicanos que lhe solicitavam um poder de inquisição contra a feitiçaria, condicionando este poder às provas de que esta estivesse manifestamente ligada à feitiçaria, mas salienta: ―Combate de retaguarda! Pois a apreensão diante do poder do demônio aumentava‖ (DELUMEAU, 1989, p. 351).
A tese do pacto satânico, cada vez mais presente nos tratados teológicos, nos manuais de inquisidores e nos processos judiciários do final da Idade Média, insere, de forma peremptória, os acusados nos meandros de uma história que ultrapassa os limites de sua própria vida. Elaborados no último quarto do século XIV, os manuais para inquisidores contribuíram sobremaneira para o alastramento da repressão contra as práticas de magia: neles procederam-se à catalogação dos crimes e à regulamentação dos processos inquisitoriais destinados à eliminação dos assim chamados cultos satânicos. No Directorium Inquisitorium de Nicolau Eymerich, de 1376, o culto ao diabo, em suas diversas formas, aparece como elemento determinante das atividades mágicas e os agentes da magia são claramente assimilados à condição de heréticos. O Manual do Inquisidor, de Bernard Gui foi responsável pela enunciação de duas idéias fundamentais para o período posterior: a da existência de uma doutrina demoníaca e a de uma epidemia de bruxaria que se alastrava sobre a cristandade. Ao lado dos manuais de inquisidores emerge, no circuito fechado das elaborações doutrinárias, uma série de tratados teológicos destinados a estabelecer uma maior precisão teórica para os assuntos relacionados à magia.
Submetidos ao julgamento eclesiástico, os atos mágicos, mesmo aqueles voltados para o enfrentamento de problemas e desejos pessoais, foram, assim, nos séculos finais da Idade Média, esvaziados de suas funções comunitárias; e os fenômenos mágicos, a princípio definidos como ilusões demoníacas, evoluíram, gradativamente, para a condição de práticas reais, determinadas a partir de um pacto demoníaco. As concepções eclesiásticas sobre a magia tenderam à afirmação de sua participação em um plano demoníaco inscrito no contexto da grande luta universal entre o Bem e o Mal. Assistimos, assim, ao alvorecer da grande batalha cultural contra toda forma de religiosidade divergente que conheceria o seu apogeu na Idade Moderna.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O Sonho de Cipião

Livro VI da República, Marco Túlio Cícero.

Após chegar à África, no tempo do cônsul Manílio, destinado à quarta legião como tribuno militar, como sabeis9, eu desejava apenas fazer uma visita ao rei Massinissa, grande amigo de minha família, por fortes razões. Quando cheguei à sua presença, o velho me abraçou com lágrimas nos olhos e, pouco depois, dirigiu-os ao céu e disse:
―Dou graças a ti, Sol supremo, e a vós, demais deuses, pois antes de migrar dessa vida posso ver, em meu reino e nessa morada, a Públio Cornélio Cipião, nome com o qual me reconforto, e assim nunca me aparta do pensamento a memória daquele herói excelso e invicto.
A seguir, perguntei-lhe pelos assuntos de seu reino, e ele, pelas coisas de nossa República. Então, passamos um bom tempo trocando muitas palavras, de um lado e de outro.
No dia seguinte, fui recebido com a suntuosidade própria de um rei, quando alargamos a nossa conversa até o início da noite. O ancião-rei não falava de outra coisa a não ser do Africano, quando recordou todas as suas gestas e até suas palavras. Após interromper a reunião para ir dormir, um sono mais pesado que o de costume me amparou, cansado que estava da viagem, e por ter ficado desperto durante uma boa parte da noite. Foi quando me apresentou, creio, talvez, pelo que conversamos – pois geralmente costuma ocorrer que nossos pensamentos e nossas conversas gerem, nos sonhos, algo semelhante ao que Ênio escreveu a propósito de Homero que, sem dúvida, durante o dia, costumava pensar e falar muito freqüentemente – o Africano, com aquela mesma fisionomia que me era bem conhecida mais por sua máscara [de cera] que por tê-lo visto pessoalmente. Logo que o reconheci, estremeci, mas ele me disse:
―Recobra o ânimo e não temas, Cipião, e entregue minhas palavras à vossa memória!
Vós vedes aquela cidade que, coagida por mim a submeter-se ao povo de Roma, renovou as prístinas guerras e não pôde permanecer tranqüila?
Ele assinalava Cartago, a partir de um lugar excelso, cheio de estrelas e totalmente iluminado e sonoro. 
―Agora, vós viestes atacá-la quase como um soldado; passados dois anos, a destruirás como cônsul, e obterás este cognome forjado por ti mesmo e que até agora tens por herança minha. Mas quando tiverdes destruído Cartago, terás celebrado o triunfo, e terás sido censor, e, depois de ir como legado ao Egito, à Síria, à Ásia e Grécia, vós sereis eleito cônsul pela segunda vez, em vossa ausência, e levarás a cabo a maior guerra de todas: devastarás a Numância. Agora, depois que tiverdes sido conduzido até o Capitólio com o carro triunfal, encontrarás uma República perturbada pelas maquinações de meu neto.
―Então, Africano, faltará oferecer à pátria o lume de vossa mente, do teu talento e do teu engenho. Contudo, a partir desse momento eu vejo um duplo caminho marcado pelos fatos. Quando vossa vida tiver completado oito vezes sete translações do Sol e seus retornos, e quando esses dois números – cada um considerado perfeito, por diferentes razões – seguindo o seu curso natural, tiverem completado a totalidade dos anos que os fatos te marcaram, a cidade inteira se dirigirá somente a vós ao vosso renome: o Senado, a gente de bem, os aliados e os povos latinos terão os olhos fitados em vós; sereis o único no qual repousará a salvação da nação e, para abreviar, tereis que colocar a República em ordem com os poderes de ditador, se é que podereis escapar das mãos ímpias dos teus parentes.
Aqui, como Lélio se lamentasse e os outros sensivelmente se condoessem, Cipião, com um sorriso indulgente, lhes disse:
―Silêncio, por favor, não me despertem do meu sonho, e escutem, um pouco mais, o que se segue! Muito bem, Africano, como estivestes mais impulsionado em defender a República, tenha sempre em mente que todos aqueles que conservam, ajudam e engrandecem a pátria, têm um lugar determinado marcado no céu, onde fruem, felizes, uma vida sempiterna. De fato, não há nada mais satisfatório que aconteça na Terra àquele príncipe-deus, que rege todo o universo, que os concílios e as associações humanas que se constituem em virtude de um acordo legal, e que são chamadas de cidades: seus reitores e salvadores retornam ao lugar de onde vieram.
Então eu, por mais que estivesse atemorizado – não tanto pelo pavor de morrer, mas pelas insídias dos meus – perguntei-lhe, malgrado tudo, se ele ainda tinha vida, e também Paulo, meu pai, e outros, que nós pensávamos terem se extinguido. Ele respondeu:
―Pelo contrário, estes são os que vivem realmente, os que saíram dos cárceres dos corpos como de uma prisão. Por outro lado, vossa vida, como denominam, é a morte! Vós não vedes Paulo, teu pai, que vem a vós?
Quando ele veio, irrompi em uma torrente de lágrimas, mas ele me abraçou e não me deixou chorar mais, dando-me beijos. E eu, tão rápido quando pude, refreei o pranto e comecei a falar:
―Te pergunto, pai santíssimo e o melhor de todos, como a vida é essa a daqui, como ouvi dizer o Africano, porque eu continuo na Terra? Por que não venho para cá, ao seu lado? Ele respondeu:
―Isso não é assim, porque até que aquele deus, de quem é esse templo inteiro que vês, não tenha te libertado da custódia corporal, o acesso até aqui não está aberto. Os homens foram gerados sob essa lei para guardarem esse globo chamado Terra, que vós vedes, colocado no centro desse templo, e lhes foi dada uma alma, que provêm dessas fogueiras sempiternas que vós denominais constelações e planetas, que, redondos, esféricos e animados de espíritos divinos, descrevem suas órbitas circulares a uma velocidade maravilhosa. Por isso, não somente vós, Públio, mas também todos os homens piedosos, devem reter a alma dentro da custódia do corpo, e sem a permissão daquele que vos deu, não podem migrar da vida humana e se esquivarem da tarefa própria dos humanos determinada pelo deus. Vós, Cipião, não obstante, sirva à justiça e à piedade, assim como o teu avô aqui presente e eu que te engendrei, pois se essa piedade é importante quando acontece entre os pais e os familiares, ela o é muito mais em relação à pátria. Uma vida assim é o caminho que conduz ao céu e para dentro dessa assembléia dos homens que já viveram a vida e que, livres dos laços do corpo, habitam esse lugar que vós vedes – esse lugar era um círculo brilhante com um luminosíssimo resplendor, inimigo dos fogos estelares – que vós, tal como recebido dos gregos, denominamos Orbe Láctea.
Ao contemplar o universo a partir desse lugar, todos os outros corpos celestes pareciam extraordinários e de uma beleza maravilhosa. Ali, por outro lado, havia algumas estrelas de tal natureza que nós nunca a víamos; as magnitudes de todas elas eram tão grandes que nós nunca poderíamos imaginar, e a menor delas era aquela que, sendo a mais distante do céu, brilhava mais próxima à Terra, com uma luz emprestada. As esferas das estrelas superavam facilmente a magnitude da Terra. Ademais, a Terra parecia tão pequena que me envergonharia de nosso Império, que é apenas um ponto dela. Como eu olhava a Terra muito atentamente, disse o Africano:
―Por favor, até quando vossa mente estará cravada na terra? Vós não vedes para qual templo viestes? O universo inteiro está estruturado em nove círculos, ou melhor, esferas, a primeira das quais é a celestial, externa, que abraça todas as demais esferas. Ela é o próprio deus supremo, que contém e mantêm todas as outras unidas. Nela estão fixados os cursos das constelações que giram eternamente.Sob essa esfera há mais sete que giram mais lentamente, com um movimento contrário ao da celestial. Uma dessas esferas é ocupada por aquela estrela que na Terra é denominada Saturno. Depois, vem aquele fulgor propício e saudável ao gênero humano que se chama Júpiter. A seguir, aquela luz avermelhada e horrível para a Terra chamada Marte. Abaixo, o Sol ocupa a região quase ao centro, guia, príncipe e moderador das outras luzes, mente e princípio estruturador do mundo, tão imensamente grande que, com sua luminosidade, ilumina e penetra todo o universo. Seguem-no, como satélites, a órbita de Vênus e a órbita de Mercúrio e, pela órbita inferior, a Lua é trasladada e inflamada pelos raios do Sol. Sob ela só há o que é mortal e caduco, exceto as almas dadas ao gênero humano como presente dos deuses. Acima da Lua, tudo é eterno. Por outro lado, aquela esfera que está no belo meio e em nona posição, a Terra, não se move, e está situada na parte mais baixa, e todas as massas são arrastadas para ela por sua própria força de atração.
Eu contemplava estupefato aquelas maravilhas e, um pouco recuperado, disse:
―Que som é esse, tão potente e ao mesmo tempo tão doce, que preenche meu ouvido?‖ Ele respondeu:
―Este som é aquele que, composto por intervalos separados e diferenciados, conforme uma proporção determinada por uma razão, nasce de um impulso e do movimento das próprias esferas, e ele, equilibrando sobriamente agudos com graves, produz um concerto harmônico, produz acordes uniformemente harmônicos. De fato, movimentos tão grandes não podem ser impulsionados com o silêncio, e a natureza faz com que um extremo de um lado soe grave, e do outro lado, agudo. É por isso que a órbita mais elevada do céu, a estelífera, rotação que é mais veloz, se move com um som mais agudo e penetrante, mas essa órbita que é a da Lua e que é a mais baixa, com um som mais grave. A Terra, por sua vez, que é a nona órbita, permanece imóvel e se mantém para sempre em seu único lugar, ocupando o espaço central do universo. Esses oito círculos, dois dos quais têm o mesmo impulso, produzem sete tons por seus intervalos desiguais, número que é o laço do universo. Os homens doutos, que imitam esses sons com as cordas da lira e com seus cantos, são colocados ao redor desse lugar, assim como aqueles outros de inteligência superior que, em suas vidas humanas, cultivaram a ciência das coisas divinas. O ouvido dos homens, inundado por esse som, tornou-se insensível, e não há em vós outro sentido mais embotado. Como ali onde o Nilo se precipita de montanhas altíssimas naquelas célebres Catadupas, como são chamadas, as gentes que habitam perto daquele lugar não têm consciência de sentir o som, por causa da intensidade do ruído. Bem, o ruído daqui do alto é tão grande, por causa da velocíssima rotação do universo inteiro, que o ouvido humano não pode acolhê-lo, da mesma maneira que não pode olhar o Sol de frente, e a vossa agudeza visual e o sentido são vencidos por seus raios.
Apesar de estar maravilhado diante de tudo isso, algumas vezes eu dirigia meus olhos para a Terra. Então disse o Africano:
―Dou-me conta que vós ainda contemplais a mansão e morada dos humanos. Contudo, se a Terra te parece pequena, como é, dirija sempre os olhos para essas regiões celestes, e desdenha as coisas humanas. Pois qual celebridade vós podeis conseguir do que digam os humanos, ou qual glória mereça ser desejada? Vós vedes que os humanos habitam a Terra em lugares escassos e em franjas estreitas; nos próprios lugares onde habitam, existem vastas solidões esparsas no meio, e os que habitam a Terra estão tão distanciados entre si que não é possível propagar nada de um lado ao outro, pois uma parte está no hemisfério ocidental, outra no oriental, e a outra em vossas antípodas. Desses, certamente não podemos esperar qualquer glória. Esta Terra está como que cingida e envolta por zonas: duas delas, totalmente opostas entre si, e descansando por um e por outro lado nos próprios pólos do céu, estão endurecidas pela neve, e aquela zona do meio, mais ampla, está queimada pelo ardor do Sol. Duas delas são habitadas: a austral, na qual seus habitantes imprimem suas pegadas opostas a vós, e não têm nada a ver com o vosso povo; a outra, exposta no Aquiloni que vós habitais, observa a tão pequena extensão que vos pertence, pois toda a terra que vós ocupais estreita em direção aos pólos, mas ampla nas laterais, é como uma pequena ilha voltada para aquele mar que vós, na Terra, denominais Atlântico, Grande Oceano, mas que vós vedes como é pequeno, a despeito de um nome tão grande. Dessas terras habitadas e conhecidas, o vosso nome ou o de algum de vós conseguiu transpor este Caucas que estais vendo ou atravessar as águas daquele Ganges? No extremo oriente, ou nos confins do Sol nascente, ou nos limites do Sol poente, ou ainda do Aquiloni austral, quem ouvirá o vosso nome? Amputadas essas partes, vós vedes em quais angustiantes espaços vossa glória deseja dilatar-se. Contudo, até os que falam de vós, por quanto tempo falarão? Ademais, por mais que a distante descendência dos homens que hão de vir deseje transmitir, sucessivamente, à sua posteridade, os louvores de cada um de nós, escutados de seus pais, isso, não obstante, por causa das inundações e incêndios de territórios, que inevitavelmente se produzem em determinados períodos, não podem alcançar uma glória eterna, somente uma duradoura. Assim, qual importância tem que aqueles que nasceram depois falem de vós, quando não existirá ninguém que tenha sido por aqueles que nasceram antes de vós? Aqueles não foram menos numerosos, e certamente foram homens mais virtuosos, sobretudo quando nenhum de nós pode conseguir uma memória que tenha uma duração de um só ano entre os mesmos que podem ouvir falar da nossa glória. Os homens calculam corretamente a duração do ano somente por uma volta do Sol, isto é, de um só planeta, mas, na realidade, deveriam denominar um ano somente quando todos os planetas tivessem retornado ao mesmo ponto de onde uma vez saíram e tivessem feito retornar a configuração primeira do universo inteiro, depois de passar um largo período. Atrevo-me a dizer que, para isso, serão necessárias a contagem de muitíssimas gerações humanas. Como então pareceu aos olhos das gentes que o Sol se eclipsava e se extinguia quando a alma de Rômulo entrou nesses mesmos templos, sempre que o Sol novamente se eclipsar no mesmo ponto do céu e no mesmo momento, considereis que todas as constelações e planetas terão retornado à mesma posição de partida, e assim terá completado um ano. Saibas que, deste ano astronômico, ainda não transcorreu a vigésima parte. Por isso, no caso de que vós tenhais perdido a esperança de retornar a este lugar no qual esses grandes e extraordinários homens colocaram toda a sua aspiração, pense: de que vale realmente a citada glória humana que apenas pode se propagar a uma parte minúscula de um só ano? Portanto, se desejais dirigir vosso olhar para cima e contemplar este lugar de permanência eterna, desdenha o que diz o povo, e não coloque a esperança de vossas ações nas recompensas humanas: o que importa é que só a virtude, por seus próprios atrativos, vos conduza à verdadeira honra. Do que os outros possam falar de vós, que eles próprios se ocupem, e eles falarão! Mas veja, toda aquela tagarelice não chegará além desses poços das regiões que estais vendo, e não será perenizada por mais ninguém, pois ficará soterrada com a morte dos indivíduos que a fizeram, e se extinguirá no esquecimento da posteridade.
Depois de falar assim, ele ainda disse:
―Realmente, Africano, se aos beneméritos da pátria está aberta o que denominaríamos de senda que conduz à entrada do céu, eu, por mais que tenha seguido as pegadas do meu pai e as tuas desde a infância, e não faltei à vossa glória, agora, não obstante, à vista do acesso a uma recompensa tão superior, esforçar-me-ei com muito mais diligência. E ele respondeu-me:
―Sim, esforçai-vos e relembrai isso: que o que é mortal não sois vós, mas vosso corpo e, certamente, vós não sois aquele que essa atual aparência manifesta, mas a alma de cada um é aquele cada um, não essa figura que se pode mostrar com o dedo. Saibas, portanto, que sois um deus, se realmente é deus aquele que é cheio de vigor, que sente, que relembra, que prevê, que rege, modera e move o corpo que preside como aquele príncipe-deus em relação ao universo, e assim como o citado deus eterno move o universo, que em parte é mortal, a alma sempiterna move um corpo efêmero. Portanto, aquilo que sempre se move é eterno, mas aquilo que transmite a outro o movimento e ele próprio é movido do exterior, quando seu movimento chegar ao fim, terá de ser, pela lei da necessidade, o fim da sua existência. Somente existe aquilo que move a si mesmo, pois nunca é abandonado, nem deixa de mover-se. E mais: isso é a fonte, isso é a causa primeira do movimento dos outros seres que se movem. A causa primeira não tem origem, já que da causa primeira nasce a totalidade da natureza, e ela, não obstante, não pode nascer de outra coisa, pois não seria a causa primeira, já que se originaria de uma coisa exterior. E se não nasce nunca, tampouco morre. Por outro lado, uma causa primeira extinta não poderá fazer renascer outra coisa, nem criará qualquer outra coisa de si mesma, pois, pela lei da necessidade, todas as coisas se originam a partir de uma causa primeira. Assim, a causa primeira do movimento provém daquilo que se move por si. E este não pode nascer, nem morrer sem que a lei da necessidade fizesse a volta celeste ruir inteiramente, além de toda a natureza, que se paralisaria e não obteria nenhuma outra força pela qual se movesse e fosse impulsionada a partir de seu impulso inicial. Portanto, como é evidente que o que se move por si é eterno, quem não pode assegurar que esta faculdade não tenha sido atribuída às almas? Pois tudo aquilo que se move por um impulso exterior é inanimado, mas aquilo que é dotado de alma, se move por um movimento interior e que lhe é próprio. Esta é a natureza própria da alma, e também sua essência: se a alma é única coisa que se move por si, é verdade que não nasceu e que é eterna. Assim, exercita esta alma nas atividades mais elevadas! As melhores são os trabalhos para a saúde da pátria; a alma, estimulada e exercitada por eles, mais rapidamente alçará vôo a esta casa, que também é a sua casa, e o será mais rapidamente se, quando ainda estiver trancada no corpo, se projetar na luz pública e, contemplando as coisas externas, se desembaraçar o máximo possível do corpo. Portanto, as almas daqueles que se entregarem às voluptuosidades corporais e se tornarem escravas delas e, também impedidas pelas paixões escravas das voluptuosidades, violarem as leis divinas e humanas, vagarão ao redor da mesma Terra, uma vez saídas dos corpos, e não retornarão para este lugar, a não ser depois de vagarem muitos séculos.
O Africano partiu, e eu despertei do sono.
Original: "O Sonho de Cipião de Marco Túlio Cícero", de Prof. Dr. Ricardo Costa, Universidade do Porto, Revista Notandum n° 22.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O cisma wiccano

Em um texto meu, eu escrevi: “A Tradição Proteana teve seu reconhecimento e linhagem revogados por terem alterado a ortopraxia”.
Antes que digam que eu estou inventando, eu vou contar a história do cisma que ocorreu entre covens wiccanos. Para isso, eu devo antes lembrar que a Wicca chegou aos EUA pelas mãos de Monique Wilson e por Raymond Buckland se espalhou rapidamente entre os americanos. O problema é que a expansão foi tão bem sucedida e encontrou tantos interessados que acabou provocando um boom de grupos e covens que se apresentavam como sendo wiccanos sem o sê-los, o que é conhecido como “wicca popular”, ou “neo-wicca”.
O Coven Proteus tinha sido fundado e era liderado por Judy Harrow, sacerdotisa Gardneriana. Em algum momento ela e seus coveners decidiram alterar algumas das práticas ritualísticas. Embora isto tenha sido discutido e aprovado pelos seus antecessores, a alteração era significativamente diferente do que era feito em outros covens gardnerianos. Conforme outros neófitos foram iniciados e ascenderam ao 3°, a diferença entre o que se ensinava e o que tinha sido aprendido ficaram mais evidentes, resultou então que o coven declarou fundada a Tradição Proteana, enquanto que covens gardnerianos mais tradicionais declararam que não reconheciam tal tradição, bem como não reconheciam seus iniciados e sua linhagem.
Esta não é a única “divisão” na wicca tradicional, atualmente os covens tradicionais que fazem parte da wicca tradicional britânica são compostos pela Tradição Alexandrina, Tradição Central Valley [Kingstone, Majestic, Silver Crescent, Mohsian] e Tradição Blue Star.
Isso deixa de fora diversos grupos e “tradições” que apareceram nos EUA por volta da década de 70 e 80. Em meu tempo dentro da Amber and Jet eu recordo com precisão como covens tradicionais viam a “linhagem de Long Island” e o escândalo dos “diplomas” que circulavam pela comunidade pagã como se fossem documentos legítimos de graduação no sacerdócio. John Halstead acertou em cheio quando escreveu sobre as origens americanas da neo-wicca e infelizmente a coisa desandou tanto que qualquer discurso ou esclarecimento irá acabar melindrando a grande massa de pessoas que consomem a Wilka.
Há algo de interessante como qualquer um pode afirmar ou declara suas opiniões e práticas na Wicca, exigindo ser reconhecido e validado, ao mesmo tempo em que questiona e critica opiniões divergentes. Aparentemente todos tem autoridade ou são porta-vozes da Wicca, exceto os sacerdotes e estudiosos da Wicca Tradicional.
 Eu espero que meus leitores entendam quando eu exponho os princípio e características da Wicca Tradicional isto não significa que eu estou desautorizando ou desvalorizando suas crenças e práticas. Mas o Paganismo Moderno tem tantos caminhos, crenças e práticas, porque o público cismou tanto com a Wicca? Dizem que ela é elitista, fechada, que está dominando o cenário pagão... alguns dizem até que é sexista, machista e homofóbica. Então porque ainda fazem questão de usá-la como rótulo? O buscador será muito mais honesto e sincero se estudar, praticar e vivenciar seu caminho, sua crença, estabelecendo vínculos com a natureza, seus ancestrais e os Deuses Antigos, sem necessitar de um rótulo, sem necessitar de um estandarte ou placa.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A serpente e o arco íris

No Patheos, na seção de Paganismo, Lilith Dorsey escreve a coluna “Voodoo Universe” [Universo Vodu]. Ela escreveu um artigo sobre Dambala e Aida Wedo, a saber, o Deus Serpente e a Deusa Arco Iris. Imediatamente eu lembrei do filme “The Serpent and the Rainbown”, que recebeu aqui no Brasil o título de “A Maldição dos Mortos Vivos”.
Aidàhwedó, Aido Wedo ou Dan Wedo é a “Serpente Arco-Íris”, um Vodun raro e pouco conhecido, suas escamas tem o poder de refração de luz, formando assim o arco-íris. É dito como um vódun podendo ser fêmea, mas em outras casas sendo um vódun masculino.
Aido Wedo não é só o vódun do arco-íris mas é considerado também um vódun da riqueza, da prosperidade e da vida. É considerado por muitos o vódun de Obará-Mejí dos povos jejes devidos suas atribuições ligando-o ás chuvas, fertilidade e prosperidade. Dan Wedo é simbolizado pela serpente colorida e metamórfica, aquela que muda de cor e de tamanho, podendo também mudar de sexo, o que explicaria seus cultos serem ligados ora fêmea, ora macho. É assim que Dan Wedo faz seu trabalho no mundo, trazendo  as cores para que possam ser trabalhadas por vódun Yewá, as cores sofrem as mutações através da retina que absorvera a única cor que o objeto não absorve, então, fica assim: Frekwén é luz branca que contém todas as cores enquanto cabe à Dan Wedo separar essas cores e distrui-las, mas como Yewá é a vódun da visão, cabe à ela absorve e enxergar a cor que Dan Wedo separou, oque fará com que nossos olhos processe essa cor e seja reconhecida por nosso cerébro, assim conseguimos enxergar as cores. É dito que pessoas com problemas de distinguir cores como os daltônicos sofrem algum desliso com esse vódun e se é preciso cultua-lo para que se possa estar em axé com o vódun. Por isso pessoas desse vódun tem problemas de visão assim como as filhas de Yewá, pois são eles próprios a visão, aqueles que distorcem a realidade fazendo com que vejamos e entendamos o que se existe. É bem complicado até porque não se sabe bem o que realmente existe ou não. [Alaketu Ode]
Dambala ou Dangbalá é o reflexo do arco íris no mar calmo ou na lagoa, no vodu, Dambala é um dos mais importantes de todos os loa. Ela é tanto membro da família Rada como uma raiz, ou racine Loa. É representado como um serpente e associa-se estreitamente com cobras. Ela é considerado a mãe de todos os loa e, juntamente com seu esposo/companheiro Ayidà Weddo, considerado no Vodou haitiano o Loa de criação.
No vodu também, é considerado um vódun macho e que seria casado com Aido-Wedo, este seria fêmea para eles. Já no Brasil, este vódun é considerado fêmea e casada com o esposo Aido-Wedo. O que muda as visões de cultos já que Aido-Wedo e Dangbalá são vóduns que conseguem se radicalizar a qualquer momento e tornarem-se fêmea e macho, então Dagbalá quando se foi levada ao caribe teve para eles uma visão de que seria homem, mas para o Brasil de que seria fêmea. Essa definição varía também de casa para casa de axé. [Alaketu Ode]
Recentemente causou uma grande comoção nos EUA que a premiação do Oscar, onde atores afro-descendentes estão anunciando um boicote à premiação por ter poucos ou nenhum ator negro entre os indicados. Um protesto inócuo, diante do racismo e genocídio que acontece todos os dias nos EUA, na violência cometida pela Polícia contra afro-descendentes.
A Sétima Arte não tem apenas um preconceito contra atores negros, o cinema também possui preconceito contra as religiões da Diáspora Africana. O filme “A Maldição dos Mortos Vivos” é apenas um deles. Eu achei uma lista de filmes que difamam essas religiões: “A Chave Mestra”, “O Advogado do Diabo”, “Projeto Bruxa de Blair”, “Brinquedo Assassino”, “007 – Viva e Deixe Morrer” e eu incluiria “Coração Satânico”.
Os negros não são desprezados apenas profissionalmente ou religiosamente. Os meios de comunicação em massa em geral dão uma imagem nada favorável aos negros. Para a cultura ocidental, branca e cristã, a pigmentação da pele é um estigma social que resulta em racismo, xenofobia e exclusão social. Existem até pagãos modernos que arrotam as glórias da estirpe, sem se dar conta que nós todos somos mestiços e temos ancestrais em comuns com os primeiros seres humanos que saíram da África no Paleolítico.
Não custa lembrar que a divisão dos continentes e a definição da região de onde saíram nossos ancestrais em comum como “África” surgiu somente na Alta Idade Média. Não é porque temos ancestrais em comum com os atuais africanos que temos que ter a mesma espiritualidade, crença e religião. Nossa espécie se distinguiu em diversos troncos e etnias na “Revolução do Neolítico”, quando nossos antepassados começaram a desenvolver os primeiros sistemas religiosos, época quando os Deuses começaram a se revelar para a humanidade, cada qual com sua região e povo específico. Esta conexão é que nos dá o sentido de raiz, origem e ancestralidade. Os Deuses Antigos e nossos ancestrais tinham em comum a terra onde se estabeleceram, por isso que é necessário restabelecer esse vínculo ao que damos o nome de “tradição” e de “religião antiga”.
Ao contrário de outras tradições e caminhos do paganismo moderno, as religiões da Diáspora Africana continuam mantendo seus princípios, características, práticas e rituais, sem dar importância ao apelo comercial ou aos apelos da “religião inclusiva” ou à pressão pela massificação. Cada tradição da Diáspora Africana tem preservado seus mitos e Deuses que, por isso mesmo, são tão belos e devem ser estudados pelo pagão moderno.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Rosa, rosae, rosam

“O que está em um nome? Uma rosa é uma rosa é uma rosa.”
Eu devo ter lido pela milésima vez esse tipo de argumento. Essa frase tornou-se famosa graças a Umberto Eco e seu livro “O Nome da Rosa”, embora sua fonte original venha da tragédia “Romeu e Julieta” de William Shakespeare:
“Aquela a que chamamos rosa, o mesmo doce odor teria se outro nome tivesse.”
Como o pessoal costuma dizer, texto fora de contexto gera pretexto. Uma citação perde todo seu sentido quando tirada do contexto ou conceito que seu autor deseja transmitir.
Incorre no mesmo erro quem repete a citação de Dion Fortune: “Todas as Deusas são a Deusa, todos os Deuses são o Deus”.
Eu pretendo explicar e demonstrar os erros que existem nessa frase.
Rosa é apenas um nome. Nome do que, exatamente? Rosa pode ser uma flor, uma cor, uma pessoa. Se rosa é apenas um nome, por que diferenciar a flor da cor e da pessoa?
A rosa verdadeira, por favor, se levante.
Se falamos da flor chamada rosa, ela é apenas uma das muitas flores. Mas um nome é apenas um nome, então vamos dar o nome de rosa a todas as flores.
Podemos ir mais adiante, as flores são apenas uma de muitas plantas. Mas um nome é apenas um nome, então vamos dar o nome de rosa a todas as plantas.
Podemos ir mais adiante, as plantas são apenas um dos seres vivos. Mas um nome é apenas um nome, então vamos dar o nome de rosa a todos os seres vivos. A lista poderia continuar infinitamente, mas acho que o leitor entendeu.
Se falamos da cor chamada rosa, isto não vive, não tem cheiro nem tem forma. Mas um nome é apenas um nome então vamos chamar de rosa todas as cores. Isto vai complicar a vida da Rosa, a pessoa. Como se não fosse complicado o suficiente ser confundida com uma cor e uma flor.
Vamos falar então da Rosa como o nome de uma pessoa. Ora, nomes são apenas nomes, então vamos chamar todas as mulheres de Rosa. O seu noivado com a Letícia vai acabar rapidinho. Como se isso não bastasse, o que aconteceria se a Rosa fosse afro-descendente? Sua pele é negra ou parda. Mas ora, um nome é apenas um nome, a pele da Rosa só pode ser rosa, evidente. Podemos ir mais adiante, cada ser humano, cada pessoa, suas etnias, origens e nomes... nomes são apenas nomes, então todas as pessoas, etnias, origens e nomes pessoais vão ser chamados de rosa.
Acredito que este exercício tenha deixado claro que, quando falamos em nomes, falamos em linguagem, em ortografia, em gramática. Existe um objeto e um símbolo, um referente e um referido. Quando esta conexão deixa de existir, a própria razão de existir o nome rosa é seu sentido de diferença e singularidade entre tantos nomes, sinônimos, artigos, pronomes, verbos. Se vamos abolir todo o sentido da linguagem, então podemos ir mais adiante e voltar a grunhir como animais para nos comunicar.
Então os analfabetos funcionais e intelectualmente desonestos que me perdoem, mas as palavras possuem conceitos e diferenças. Assim como as religiões tem seus preceitos e características. Assim como os Deuses tem suas identidades e personalidades.
Uma rosa pode se referir a coisas e pessoas distintas. Não se pode chamar de rosa um cardo. Não vai chamar sua noiva Letícia de Rosa. Não pode dizer que pintou sua casa de rosa se você usou tinta verde. Você pode chamar uma maçã de laranja e ela continuará sendo vermelha.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Os astros, as eras, o Homem

Quando eu nasci, em 1965, o que as pessoas da espiritualidade alternativa mais falavam era a tal “nova era” ou a Era de Aquário, que substituiria a então “atual” e “velha” Era de Peixes. De acordo com místicos, ocultistas e esotéricos, nosso planeta tem o que se chama Precessão das Eras, onde cada era voltava uma casa astrológica. E cada era teve uma característica que ficou marcada na cultura humana.
Para ilustrar o caso, eu vou divulgar o estudo do Luiz Junior:
Levando-se em conta que, em média, essa transição ocorre a cada 2150 anos, teremos, portanto:
2000 DC até 4150 DC – Era de Aquário 
150 AC a 2000 DC – Era de Peixes 
2300 AC a 150 AC– Era de Áries 
4450 AC a 2300 AC – Era de Touro 
6600 AC a 4450 AC– Era de Gêmeos 
8750 AC a 6600 AC – Era de Câncer

Vamos analisar cada uma dessas Eras buscando sua correspondência astrológica.
a)      Era de Câncer – 8750 a 6600 AC
Câncer é o signo lunar correspondente à mulher, maternidade, à família e à fixação a uma casa. Este período histórico está associado ao período conhecido como Mesolítico e ao Neolítico, quando surgem os caçadores-coletores.  A agricultura surge neste período, espalhando-se em 6000 AC e entre 8000 a 3500 fixam-se nas primeiras cidades conhecidas, como Ur e a Mesopotâmia. As primeiras cidades foram fundadas em conjunto ao nascimento do culto aos deuses Lares, o culto aos deuses familiares - sociedades matriarcais cujo culto ao ventre dava prestígio ás mulheres.  Também é dessa época o culto às divindades pagãs, regidas essencialmente pelas deusas lunares.  Assim, o surgimento (maternidade) o início das cidades (família) e a fixação a uma residência (cidades) que são as características deste período estão associadas ao signo de Câncer e suas representações. A maternidade e a mãe, outras características deste signo também estavam presentes.
b)      Era de Gêmeos – 6600 a 4450 AC
Data dessa época, entre 4000 e 5000 AC o surgimento da escrita cuneiforme (em forma de cunha – figura 3). Também por este período surgiram os primeiro hieróglifos egípcios.  Também nesta Era de Gêmeos ocorrem as primeiras trocas comerciais, envolvendo produtos agrícolas e minérios como o ferro e o ouro. Grupos nômades encarregavam-se do deslocamento destes produtos pelo Crescente Fértil, garantindo o surgimento das bases do comércio.
Gêmeos é o signo ligado à comunicação e o seu regente é o planeta Mercúrio, associado ao Deus Hermes (comunicação, deslocamento e comércio). É o signo dos comerciantes e dos viajantes, ligado a deslocamentos comerciais. Novamente a associação fica evidenciada. Outro fator importante é que após a fixação e o surgimento das primeiras cidades proporcionada por Câncer, Gêmeos, associado sobretudo à civilidade, proporciona os primeiro entendimentos e relacionamentos da humanidade. Isso é o embrião do que será desenvolvido na próxima era, a Era de Touro.
c)       Era de Touro – 4450 a 2300 AC
Touro é um signo de terra e fixo. Isso significa que as qualidades como crescimento contínuo, constância, disciplina e paciência estão associados a este signo, assim como o poder, a riqueza e a beleza – aqui devido ao planeta regente, Vênus.
E será exatamente isso que veremos neste período.  Veremos o apogeu da civilização Egípcia, civilização que cresceu às margens do Rio Nilo com tendências territorialistas e com características que a coloca como o primeiro império da humanidade. Faraós suntuosos, como Ramsés, são figuras-símbolos deste reino, rico em bens, em cultura e em arte e que se preserva até os dias de hoje. A arte egípcia, como as esculturas e a arquitetura até hoje são admiradas e respeitadas, e a estrutura social já era bastante complexa, bem como o sistema de trabalho e o comércio.
d)      Era de Áries – 2300 a 150 AC
Áries é o signo que abre o zodíaco, é regido por Marte, o Deus da Guerra e é associado ao fogo – elemento expansivo, explosivo, líder e dominador. É o signo masculino por excelência.  E é exatamente neste período que veremos o surgimento do patriarcalismo suplantando o matriarcado e a ascensão de códigos de leis e conduta, como o Código de Hamurabi. Os primeiros exércitos (romano, grego, egípcio, fenício, cartaginês) surgem neste período.
Será, porém, por volta do ano 1300 AC que veremos surgir aquele que traria o maior símbolo do período. Um faraó egípcio decide combater os conselheiros ligados ao deus Amon e o seu poder e inaugura o culto ao deus solar (Aton) como único Deus possível. Este faraó é o responsável pela primeira ideia de unicidade Divina, e irá influenciar um jovem hebreu que sairá com seu povo do Egito conduzindo-os para a terra prometida sob a égide de Yheovah. Este Deus é retratado no Velho Testamento bíblico, e é um Deus vingativo, seletivo, raivoso e rancoroso, que não hesita em exterminar pessoas para que seu Povo Escolhido possa instaurar seu Estado e sua religião. Estas características estão associadas ao signo de Áries e seu planeta regente, Marte.
e)      A era de Peixes – 150 AC a 2000 DC
Peixes é o signo de ligação com a espiritualidade. É a consciência de que tudo está interligado. É regido pelo planeta supremo - Júpiter, e pelo senhor do sonho e da psicologia – Netuno. A comunidade é fundamental para este signo, mas este amplia suas noções também para a espiritualidade.
O grande avatar deste período foi Jesus Cristo, que se cercou de doze discípulos em sua maioria pescadores (peixes). Um de seus grandes momentos foi quando multiplicou peixes para matar a fome das pessoas. Foi o pilar da fundação do Cristianismo – cujo símbolo é um peixe – e consequentemente da civilização ocidental moderna.
O próprio acrônimo da frase cristã Iēsous Christos Theou Yios Sōtēr (Jesus Cristo Filho de Deus) é ICThYS, palavra que - em grego - significa “peixe”.
Uma das características de Júpiter é a expansão (surgimento de vários países e descobrimento de vários continentes). E a riqueza (expansão do comércio e surgimento do mercantilismo e do capitalismo). Já Netuno rege a psicologia e a psiquiatria (sec. XIX) e principalmente ideologias. Este período é marcado de novas propostas, como o renascimento, o iluminismo, a Revolução Francesa, a Independência dos EUA e a Independência do Brasil e também marca a busca de homens livres (maçonaria, religiões e filosofias, rosacrucianismo). Até mesmo o período das Grandes Guerras teve por tema a liberdade.
f)       A Era de Aquário – era atual
A era atual está em transição entre Peixes e Aquário. Há uma noção errada de que a Era de Aquário será marcada por visionários e espiritualistas, e o esoterismo finalmente ganhará espaço com a astrologia e o tarô. Porém estas não são características de Aquário.
Aquário é signo de Ar – simboliza o pensamento, a comunicação e a razão. Sua simbologia também abrange o sentido de comunidade e sociedade, e também é o signo mais inovador e tecnológico do zodíaco, marcado por um de seus regentes, Urano. O outro planeta regente, ou corregente, é Saturno, relacionado à seriedade, às estruturas e ao conservadorismo. Isso dá características únicas ao signo, mas também à era que se inicia. Por um lado teremos a dissolução das fronteiras, das línguas e das moedas (União Europeia, Mercosul e outros blocos comerciais). Sentimentos de liberdade estarão exacerbados (dissolução das ditaduras e fim do bloco comunista) porém não sem luta, pois setores conservadores da sociedade sempre estarão fortes (saturno). Nos tempos atuais, somente no Brasil, podemos ver manifestações pela democracia paralelas a manifestações pedindo a volta do Regime Militar. Esta será a tônica dos próximos anos, principalmente enquanto a Era de Peixes não se findar por completo.
Mas o principal marco de Aquário é o planeta Urano. Este planeta rege a eletricidade, a eletrônica, a ciência, a tecnologia e a informática.
Não é preciso se alongar muito, pois vemos a Internet rompendo barreiras, fronteiras e legislações, sendo o grande símbolo desta era juntamente com a tecnologia, que está tão rápida, tão “elétrica”, que mal temos tempo de acompanhar seu crescimento vertiginoso.
Mas e as eras anteriores? Eu vou fazer um exercício histórico e ficcional para as eras anteriores, a saber, seguindo o cálculo de Luiz Júnior:
10900 AC – 8750 AC – Era de Leão.
13050 AC – 10900 AC – Era de Virgem.
15200 AC – 13050 AC – Era de Libra.
17350 AC – 15200 AC – Era de Escorpião.
19500 AC – 17350 AC – Era de Sagitário.
21650 AC – 19500 AC – Era de Capricórnio.
De acordo com os registros, a nossa espécie surgiu em torno de 100 mil AC. Os primeiros sinais de cultura aparecem por volta de 20 mil AC. A “revolução do Neolítico” teve início por volta de 10 mil AC. A ultima Idade do Gelo terminou por volta de 8 mil AC.
Então a Era de Capricórnio está vinculada aos primeiros cultos e cerimônias aos mortos. A Era de Leão está vinculada às primeiras cidades e civilizações. A Era de Sagitário está vinculada às migrações de nossos ancestrais. A Era de Escorpião está vinculada com o uso de pedra como ferramenta. A Era de Libra está vinculada com o uso de osso como ferramenta e a organização da produção humana como caçadora-coletora. A Era de Virgem está vinculada com as primeiras construções de habitações bem como o aparecimento de utensílios domésticos.
Em um prolongamento do exercício, seguindo a Era de Aquário adviria outra Era de Capricórnio. Se sobrevivermos até lá, nós estaremos colonizando outros planetas.